As pedras, os sons e as cores da casa de Deus

“AS PEDRAS, OS SONS E AS CORES DA CASA DE DEUS”

Dom Mauro Piacenza

O centro do espaço litúrgico e o coração da sacralidade humana: Presbitério e Crucifixo (IV)

Cidade do Vaticano (Agência Fides) – 9. Hoje, freqüentemente se utiliza um termo, na minha opinião feliz, a “iconicidade espacial”, para indicar a capacidade do espaço litúrgico disposto arquitetonicamente, e das próprias decorações, de ser “ícone”, ou seja, elementos arquitetônicos não somente funcionais para a realização de um rito, mas também significativos de uma realidade espiritual e de mistérios: tal realidade, que se torna atual com a celebração litúrgica, constituiria uma espécie de iconologia da qual os elementos arquitetônicos e as imagens seriam os sinais reveladores, a iconografia. Em outras palavras, o altar – mas também o ambão, o batistério etc. – graças aos materiais usados, à sua forma e disposição, deveriam ser em si portadores de um significado que os transcende (celebração do Sacrifício e do convite eucarístico, anúncio da Palavra, imersão na morte e ressurreição de Cristo) e o mesmo deve ser dito do espaço na sua relação com a luz e a assembléia que o habita. Neste sentido, deve-se evitar que o altar tenha o aspecto de mesa; deve principalmente ter as características de ara do sacrifício.
Em todo caso, segundo um hábito que remonta à antiguidade, se usa também de modo louvável decorar o altar mediante a aplicação de figuras ou esculpindo diretamente a matéria da qual é feita.

Em relação à iconografia – a ser esculpida, cravada, pintada e bordada – se repropõem os mistério da vida do Senhor, da Encarnação à Parusia, celebrados na Missa; ou também os mistério da Paixão e Morte do Senhor ou da Última Ceia ou as “figuras” bíblicas do sacrifício de Cristo; ou ainda se inserem elementos simbólicos como o Cordeiro imolado, derivado do Apocalipse e referido ao mistério pascal de Cristo; podem ser utilizadas também alegorias (pelicano) ou elementos naturalísticos (trigo e uva) ou outros (cálice), mas fazendo atenção à imediata compreensibilidade.
10. Inspirando-se justamente no discurso feito há pouco sobre as imagens, tomemos em consideração o livro já citado do então Cardeal Joseph Ratzinger (O espírito da liturgia, ed. alemão 1999, ed. italiana 2001), o qual precisamente em uma imagem, a do crucifixo, encontra a solução para a questão por ele levantada da direção da oração litúrgica “conversi ad Dominum”. Com uma intuição, muito feliz na minha opinião, ele escreve: “A direção ao oriente se encontra em estreita relação com o ‘sinal do Filho do homem’ (cfr Mt 24, 27), com a cruz, que anuncia o retorno do Senhor” (p. 79).

Com isso, se confia o completamento do significado de uma decoração essencial à liturgia, como o altar, a uma imagem, a qual se qualifica, portanto, como imagem “litúrgica”. Parece-me muito oportuno hoje falar de imagens litúrgicas em um tempo no qual a arte cristã é fundamentalmente arte simplesmente “religiosa”, enquanto unicamente expressiva da experiência espiritual pessoal do artista. A arte litúrgica (o termo, na minha opinião, é preferível àquele mais controverso e ambíguo de arte “sacra”), ao invés, une ao precedente aspecto o serviço à Igreja, ao menos em uma tríplice modalidade: culto, catequese e devoção. Em particular, no âmbito do culto, a arte litúrgica – como o rito, o canto, as vestes e as decorações – concorre a tornar os fiéis partícipes dos santos mistérios pascais da salvação que estão sendo celebrados.

Adiando um discurso mais completo sobre as imagens, na liturgia latina a única imagem explicitamente obrigatória para a liturgia é a cruz: “Que haja sobre o altar, ou ao seu lado, uma cruz, com a imagem de Cristo crucificado, bem visível ao olhar do povo reunido. Convém que esta cruz permanece próxima ao altar, inclusive para além das celebrações litúrgicas, para recordar à mente dos fiéis a salvífica paixão do Senhor” (IGMR n. 308). E mais amplamente: «Entre as imagens sagradas, ocupa o primeiro lugar “a figura da preciosa Cruz, fonte da nossa salvação”, como aquela que é símbolo recapitulativo de todo o mistério pascal. […] Por meio da Santa Cruz, é representada a paixão de Cristo e o seu triunfo sobre a morte e, ao mesmo tempo, […] é ensinada a sua segunda vinda» (Benedizionale, n. 1331). A Cruz, portanto, é um ícone figurativo que reúne os outros três fogos cristológicos, e deve representar o Cristo com olhos fechados ou abertos.

A presença da cruz na celebração da Missa é atestada desde o século V, e é constante desde o alto período medieval a presença de cruzes penduradas nos cibórios ou de uma cruz colocada ao lado do altar. A partir dos séculos X-XI, em concomitância com a mudança do altar para o fundo do abside, se tornou habitual no ocidente a cruz de altar, em forma de crucifixo, fixada ou apoiada na mesa na parte posterior, tendo ao lado dois candelabros: atestada como práxis comum no século XIII, se tornou obrigatória com o Missal tridentino. Também era comum colocar um grande crucifixo atrás do altar, dito precisamente “do crucifixo”, ou pendurá-lo no arco triunfal ou sobre o altar.

A teologia do alto medievo compreendeu o crucifixo como sinal de vitória, mediante a representação do corpo de Cristo, conforme a uma beleza ideal e priva de sinais de sofrimento. São exemplos disso os crucifixos do alto medievo gemados, análogos às cruzes pintadas sobre as absides paleocristãs, que revocavam o sinal do retorno do Filho do homem na parusia (cfr. Mt 24, 4-31; 25, 31) e o Apocalipse, onde as gemas são prerrogativas da Jerusalém celeste, “onde Deus habitará com os homens” (Ap 21, 3). Somente a seguir, com base em protótipos bizantinos, por influência da teologia (Anselmo de Aosta), da espiritualidade (mística franciscana, Devotio moderna) e com o difundir-se da devoção à humanidade sofredora de Cristo, o Crucifixo começou a aparecer com os olhos fechados e com os sinais da paixão, mostrando de maneira crescente os sofrimentos, segundo uma tipologia sempre muito cara aos fiéis.

Parece, porém, que se peça hoje à imagem do crucifixo de altar que seja algo mais do que uma simples imagem devocional, que provoque uma participação efetiva ou que evoque simplesmente o evento histórico do Gólgota: deve ser expressão de todo o mistério pascal. Deve saber, ou seja, resumir e tornar evidente o próprio mistério de Cristo morto, ressuscitado, ascendido ao céu, do qual se aguarda o retorno. Em outras palavras, o próprio mistério pascal que se celebra na Missa deveria aparecer representado por esta imagem litúrgica do crucifixo, cujo posicionamento deveria ser tal a constituir o ponto de orientação da oração do sacerdote e dos fiéis “conversi ad Dominum” (Ratzinger, pp. 79-80).

À Cruz, por fim, convergem outras imagens, entre as quais a pala, em que habitualmente é apresentado o título dedicatório. Esta está na ábside, porque a Igreja é Cristo, para o qual Nossa Senhora, os anjos e os santos intercedem pelo povo junto ao Salvador. Deve-se sempre poder sentir o abraço caloroso da família de Deus! + Mauro Piacenza, Presidente da Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, Presidente da Pontifícia Comissão de Arqueologia Sacra. (Agência Fides 03/10/2006)

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