A Sagrada Eucaristia: Um direito ou uma graça? 3

“A SAGRADA EUCARISTIA: UM DIREITO OU UMA GRAÇA?”

O arcebispo Burke discorre sobre a recepção digna da Eucaristia e a controvérsia por parte de políticos católicos sem fé.

San Diego, Califórnia / August 2008

A Ação Católica realizou uma entrevista com o Arcebispo Raymond Burke, o homem corajoso que foi anteriormente Arcebispo de Saint Louis e Bispo deLa Crosse. OPapa Bento XVI o teve em tão alta consideração que, em 27 de junho de 2008, designou-o Prefeito da Assinatura Apostólica. Ele é, com efeito, o principal juiz do Tribunal Internacional da Igreja Católica. Esta entrevista aborda os aspectos pastorais do Cânon 915 e o respeito pela Sagrada Eucaristia.

Excelência, parece haver no mundo de hoje uma atitude negligente no tocante à recepção da Sagrada Eucaristia. Por que V. Excia. acha que isso acontece? Julga V. Excia. que isso afeta os fiéis quanto à maneira de conduzirem suas vidas como católicos?

Penso que uma das razões pelas quais se desenvolveu essa negligência em relação à Santa Eucaristia é que não foi dada ênfase suficiente à devoção eucarística. Especialmente por meio da adoração do Santíssimo Sacramento; das procissões; da bênção do Santíssimo Sacramento; das adorações prolongadas e pela devoção das 40 Horas. Sem devoção ao Santíssimo Sacramento o povo perde rapidamente a fé eucarística.

Sabemos que há uma alta percentagem de católicos que não acreditam que as espécies eucarísticas sejam o Corpo e o Sangue de Cristo. Também sabemos que há um alarmante percentual de católicos que não participa da Missa Dominical. Outro aspecto é a perda do senso de conexão entre o Sacramento da Sagrada Eucaristia e o Sacramento da Penitência.

No passado, talvez tenha havido uma ênfase exagerada a ponto de as pessoas pensarem que,  cada vez que fossem receber a Santa Comunhão, tinham que confessar-se primeiro, ainda que não tivessem cometido nenhum pecado mortal depois da última Confissão. Mas agora as pessoas comungam regularmente e talvez nunca, ou muito raramente se confessam. Perderam o senso de que não são dignos de se aproximar do Sacramento e de que precisam confessar seus pecados e arrepender-se para receber dignamente a Sagrada Comunhão.

Ademais, ligado a isto há um sentimento oriundo da esfera civil, segundo o qual receber a Sagrada Comunhão é um direito; que como católico, tenho o direito de receber a Sagrada Comunhão. É verdade que, sendo batizados e tendo atingido a idade da razão, deveríamos estar preparados para a Sagrada Comunhão, e tantas vezes quanto estivermos bem preparados deveríamos receber a Sagrada Comunhão. Por outro lado, nunca temos um direito à Sagrada Comunhão.

 

Quem poderia afirmar que tem o direito de receber o Corpo de Cristo?

Esse é inteiramente um ato do incomensurável amor de Deus. Nosso Senhor faz-Se disponível a nósem seu Corpoe Sangue para uma comunhão santa. Mas jamais podemos dizer que temos o direito a Ele, que podemos exigir receber Nosso Senhor na Sagrada Comunhão. Cada vez que dela nos aproximamos deveríamos fazê-lo com um senso profundo de nossa própria indignidade.

Estes seriam apenas alguns dos elementos que, penso eu, se introduziram e explicam a atitude relaxada com relação à Santa Eucaristia,em geral. Vemosisto até mesmo na maneira pela qual as pessoas se vestem para participar da Missa. Vemos, por exemplo, durante a Missa, pessoas indo receber a Santa Comunhão sem ficarem de mãos postas [N.T.: piedoso costume existente nos EUA] e, às vezes, até mesmo conversando com outras pessoas no caminho.

Algumas não demonstram a reverência adequada nem mesmo no momento em que estão recebendo a Santa Comunhão. Todas essas coisas indicam a necessidade de uma nova evangelização relativa à fé e à prática eucarísticas.

Há leis eclesiásticas para controlar ações não adequadas por parte dos fiéis, para o bem da comunidade. Poderia V. Excia. comentar, por favor, esse ponto e explicar até onde a Igreja e a hierarquia têm a obrigação de intervir e esclarecer ou corrigir casos?

Com relação à Sagrada Eucaristia, por exemplo, há dois cânones que dizem respeito particularmente à recepção digna do sacramento: os cânones 915 e 916. Eles objetivam dois bens. Um deles é o bem da própria pessoa. Receber indignamente o Corpo e o Sangue de Cristo é um sacrilégio. Deliberadamente receber indignamente a Sagrada Comunhão, quando a pessoa está em estado de pecado mortal, é um sacrilégio. Assim, pelo bem da própria pessoa, a Igreja tem que nos instruir para que, cada vez que formos receber a Santa Comunhão, examinemos primeiro a nossa consciência. Se tivermos um pecado mortal em nossa consciência, devemos primeiro confessar esse pecado e receber a absolvição e, só depois, nos aproximar para receber o Sacramento.

Muitas vezes os nossos pecados graves estão ocultos, sendo conhecidos apenas por nós mesmos ou, talvez, por uma ou outra pessoa. Nestes casos, devemos ser nós mesmos a monitorar a situação, e nos disciplinar para não nos aproximarmos para receber a Santa Comunhão. Mas há outros casos em que pessoas estão cometendo pecados graves consciente e publicamente.

Exemplo disto é um servidor público que consciente e voluntariamente dá apoio a ações que são contrárias à lei moral divina e eterna; por exemplo, apoiando publicamente o aborto voluntário, que é tirar uma vida inocente e indefesa. Uma pessoa que esteja pecando publicamente desta maneira deve ser admoestada a não receber a Santa Comunhão até que tenha reformado a sua vida. Se uma pessoa que tenha sido admoestada ainda assim persiste publicamente em pecado grave ou mortal e vai receber a Sagrada Comunhão, então o ministrador da Sagrada Comunhão tem a obrigação de recusá-la a essa pessoa.

Por quê? Em primeiro lugar, pela salvação da própria pessoa, para que ela não cometa um sacrilégio. Mas em segundo lugar, por atenção à Igreja inteira, para que não ocorra um duplo escândalo. Primeiro, o escândalo sobre qual deve ser a nossa disposição para receber a Santa Comunhão. Em outras palavras, as pessoas seriam levadas a pensar que é correto estar em pecado mortal e receber a Nosso Senhor na Sagrada Comunhão. Ou poderia ocorrer um escândalo de uma segunda forma: as pessoas pensarem que o ato público que está sendo cometido por essa pessoa, o qual todos consideram que é um pecado grave, não deve ser assim tão grave, porque a Igreja permite que essa pessoa receba a Sagrada Comunhão.

Se existe uma personalidade pública que esteja aberta e deliberadamente apoiando o direito ao aborto e essa mesma pessoa vai e recebe a Sagrada Comunhão, o que irão pensar as pessoas? Elas poderiam ser levadas a imaginar que, de alguma forma, é aceitável apoiar publicamente o tirar do útero a vida inocente e indefesa.

Assim, a Igreja tem essas regras e elas são muito antigas. Na verdade, elas têm origem na época de São Paulo. Mas, ao longo da história da Igreja, Ela sempre teve de disciplinar o recebimento da Sagrada Comunhão, que é o tesouro mais sagrado que temos. É a doação do Corpo e do Sangue de Cristo.

A Igreja sempre precisou disciplinar o recebimento da Sagrada Comunhão, para, em primeiro lugar, as pessoas não se aproximarem para recebê-la indignamente, para o seu próprio e sério dano moral; e, em segundo lugar, para que a fé na Eucaristia seja sempre respeitada e os membros da Igreja não sejam levados à confusão, ou mesmo ao erro, no que diz respeito à sacralidade do sacramento, ou à lei moral.

Há casos em que servidores públicos católicos vão à Missa, recebem os sacramentos e publicamente se dizem católicos, mas na prática apóiam uma legislação contrária à moral católica. Alguns deles afirmam, como justificativa, que de acordo com a sua consciência sentem que não estão fazendo nada de errado e que isto é um assunto privado. V. Excia. poderia por favor comentar qual o erro que há nisso e como formar a própria consciência não é algo subjetivo?

É verdade que devemos agir de acordo com os ditames de nossa consciência. Mas a nossa consciência deve ser formada adequadamente. Nossa consciência deve estar conforme à verdade das situações. Consciência não é uma espécie de realidade subjetiva em que eu estabeleço para mim mesmo o que é certo e bom. Pelo contrário, é uma realidade objetiva em que eu conformo o meu próprio pensamento à verdade.

Às vezes as pessoas falam sobre o primado da sua consciência no sentido de dizerem: “o que eu decidir na minha consciência, isso é o que eu devo fazer” e isso regula o meu dia. Naturalmente, tal é verdade, desde que a consciência esteja corretamente formada. Gosto de algo que disse o Cardeal George Pell, Arcebispo de Sidney: “Em vez de falar sobre o primado da consciência, deveríamos falar sobre o primado da verdade”, a verdade da lei moral de Deus à qual deve estar conformada a nossa consciência. Estando ela adequadamente informada, então, naturalmente, a consciência tem o primado a ela atribuído.

 

Algumas pessoas dizem que receber a Sagrada Comunhão é um direito e que nenhuma pessoa tem o direito de dizer à outra para não receber o Sacramento. Nem mesmo um bispo, um padre ou um ministro. O que V. Excia. lhes responderia?

Na resposta a esta pergunta, a primeira coisa que precisa ser dita é que o Corpo e o Sangue de Cristo são uma dádiva do amor de Deus feita a nós. É a maior das dádivas, uma dádiva que ultrapassa a nossa capacidade de descrever. Ninguém, portanto, tem direito à dádiva. Da mesma forma como nós não temos direito a qualquer presente que nos é dado. Uma dádiva é dada livremente por amor e isto é o que Deus está fazendo por nós cada vez que podemos participar na Missa e nos aproximar para receber a Sagrada Comunhão. Assim, não é correto dizer que tenho um direito de receber a Sagrada Comunhão.

Se com isto a pessoa quer dizer que, se ela estiver bem preparada e a Missa estiver sendo rezada, ela tem direito de receber a Sagrada Comunhão, no sentido de que tem um direito de receber, sim, isto é verdade. Agora, com relação ao recebimento da Sagrada Comunhão, é o próprio Nosso Senhor que está envolvido. De um lado, há a pessoa que está recebendo a Sagrada Comunhão. Mas, de outro lado, há o ministro do sacramento, aquele que tem a responsabilidade de certificar-se de que o sacramento é distribuído apenas àqueles que estão adequadamente preparados. Certamente a Igreja tem o direito de dizer a alguém que persiste em pecado mortal público que ele não pode receber a Sagrada Comunhão, porque ele não está bem preparado. Esse direito do ministro de recusar-se a dar a Santa Comunhão a alguém que persista em pecado mortal e público tem salvaguarda no Código Canônico, sob o cânon 915.

De outra forma o ministro da Comunhão seria posto na situação de violar a sua consciência em relação a uma matéria seríssima, ao ver um pecador notório aproximar-se para receber a Sagrada Comunhão para escândalo de todos, sendo-lhe de alguma forma dito que ele não tem o direito de recusar a Sagrada Comunhão numa tal situação. Isso seria simplesmente errado.

A imposição de obediência à lei da Igreja feita por um bispo, um padre, ou mesmo por um órgão do Vaticano, muitas vezes é vista por algumas pessoas como um ato ignóbil ou mesmo um abuso em relação aos fiéis. Muitas pessoas parecem esquecer-se de que a Igreja considera que, quando alguém não está em condição digna para receber a Sagrada Eucaristia, isto em geral ocorre porque tais pessoas estão em estado de pecado mortal, o que é muito sério e diretamente ligado à salvação eterna delas.

Parece que, quando um bispo ou padre entra em diálogo com um pecador, ou toma medidas disciplinares, isso é um ato de compaixão, é um estender a mão, é uma obrigação que eles têm para com os fiéis sob o seu cuidado: tentar trazê-los de volta ao redil. Por esta razão a Igreja tem essas leis. V. Excia. poderia comentar, por favor, esse aspecto do ministério?

Eu certamente concordo com isto. É o maior ato de caridade impedir alguém de fazer algo sacrílego. Isto é, adverti-lo. E depois, efetivamente, recusar-se a participar de um sacrilégio. É análogo a um pai, cujo filho deseja brincar com fogo e o pai se recusa a permitir. Não diríamos que o pai estivesse sendo, de alguma forma, indelicado com a criança ao discipliná-la. Diríamos que este é um pai verdadeiramente amoroso. Da mesma forma a Igreja, em seu amor, impede as pessoas de fazerem coisas que são gravemente ofensivas a Deus e gravemente condenatórias para as suas próprias almas.

 

Excelência, dizem alguns que, quando um membro da hierarquia admoesta um católico que tenha cargo público, ele estaria usando a sua influência para interferir na política. Como V. Excia. responderia a isto?

O bispo ou a autoridade eclesiástica – poderia ser o pároco – que intervém em tais situações está tratando unicamente do bem da alma do político ou da figura pública envolvida. Isto nada tem a ver com tentar influenciar a política pública e com o estado da alma de um político ou servidor público que aconteça de ser católico e que, portanto, deve, na esfera pública, seguir a lei moral divina. Se ele não a segue, deve ser admoestado pelo seu pastor.

Assim, tentar silenciar um pastor para que não faça o que é para o bem da alma de um membro do seu rebanho, dizendo-lhe que ele está interferindo na política, é simplesmente ridículo e errado. Isto também decorre de algo que Sua Santidade o Papa Bento XVI disse aos bispos dos Estados Unidos e que é: o desejo de certas pessoas em nossa sociedade de relegar a fé religiosa inteiramente à esfera privada e dizer que ela nada tem a ver com a esfera pública. Isto é simplesmente falso.

Devemos dar testemunho de nossa fé não apenas naquela parte de nossa vida em que vivemos na privacidade de nossas casas, mas devemos dar forte testemunho de Cristo também na nossa interação pública com outros. Assim, temos que quebrar aquela idéia de que a nossa fé religiosa seja de alguma forma algo completamente privado, nada tendo a ver com a nossa vida pública.

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