A missa segundo um convertido

“A MISSA SEGUNDO UM CONVERTIDO”

Acaba de chegar às minhas mãos um exemplar do livro “The Lamb’s Supper – The Mass as heaven on Earth”, escrito por Scott Hahn.

O autor, um ministro protestante convertido ao catolicismo quando se pôs a estudar a vida dos primeiros cristãos, explora o mistério da Eucaristia com olhos novos e fala da Missa como um poderoso drama sobrenatural, no qual o sacrifício real do Cordeiro traz o céu à terra. Ele conta o que descobriu quando, por força de um trabalho acadêmico, foi participar de uma Missa, jurando a si mesmo, durante todo o tempo que não iria partilhar da “idolatria” feita na Missa. Afinal tinha sido educado para acreditar que a Missa era o maior sacrilégio que alguém poderia cometer e tinha como propósito “sacrificar Jesus Cristo outra vez”. Por isso, diz ele, seria apenas um espectador permanecendo sentado o tempo todo com a Bíblia aberta ao seu lado.

Entretanto, com o decorrer da celebração, ele não pode deixar de se comover, pois tudo aquilo que ali acontecia lhe proporcionava uma emoção nunca antes experimentada, pois sentia as Sagradas Escrituras se realizando, como se estivesse na festa de núpcias descrita no livro do Apocalipse.

A partir de sua “assistência ao espetáculo sacrílego da Missa”, a maior das blasfêmias (era assim que ele julgava como estudioso da bíblia e crente), ele pode compreender toda a bíblia e de maneira desconcertante o livro Apocalipse.

Durante anos, diz o autor, “tentei compreender o apocalipse como uma espécie de mensagem codificada a respeito do fim do mundo, do culto no céu distante, de algo que, em sua maioria, os cristãos não poderiam experimentar aqui na terra”. Depois de sua participação na liturgia, ele sentia vontade de se levantar e dizer a todos: “Ei, pessoal! Quero lhes mostrar onde vocês estão no livro do Apocalipse! Consultem o capítulo 4, versículo 8. Agora mesmo vocês estão no céu!”.

Mesmo diante do que experimentava, Scott Hahn conta que se esforçou para ir devagar, com o cuidado de evitar os perigos aos quais os “convertidos” são suscetíveis, pois ele sentia que depressa estava se convencendo da verdade da fé católica. Depois de passar meses a fio estudando, refletindo e orando, ainda que, com muitas perguntas sérias em sua mente e em seu coração, como filho que se aproxima do Pai, pedindo para segurar na palma da mão uma estrela luminosa, solicitou a sua admissão na Igreja Católica e continuou o seu trabalho de investigação a respeito da fé católica e em especial da Santa Missa.

Gostaria de recomendar a todos a leitura deste livro tão denso de significados, de ensinamentos bíblicos e litúrgicos, que nos revela um segredo duradouro da Igreja, a chave dos cristãos para entender os “mistérios” da Missa. Isso é hoje, mais do que nunca necessário, porque os cristãos que ocupam os bancos das igrejas aos domingos podem perder de vista, por excesso de familiaridade, o fato de que, em cada Missa, celebramos na terra a misteriosa participação na liturgia celeste, como bem fala o Papa João Paulo II em sua última encíclica “Ecclesia de Eucharistia”.

E.T.: Este livro foi traduzido para nossa língua pelas Edições Loyola sob o título “O Banquete do Cordeiro: A Missa segundo um convertido”, de Scott Hahn.

NÃO SÓ DE CALVÁRIOS VIVEU A SEMANA SANTA…

Em dia com a Igreja – Pe. Valdery da Rocha / E-mail: [email protected]

A notícia é referência para todas as paróquias e comunidades da Igreja. Não só de Calvários viveu a Semana Santa. Também de Cenáculos e túmulos vazios.

Na grande semana que passou, o cultural sentimento de compaixão, que molda o jeito de ser do brasileiro, acentuou o sofrimento e a paixão de Cristo, através das liturgias nas igrejas, e nos teatros de rua, filmes e noticiários da mídia,  Pouco se falou do que viveu Jesus no Cenáculo da Ceia e na sua vitória pela Ressurreição.

Terminada a Quaresma e o Tríduo Pascal, ainda é tempo para acentuar o gesto de Jesus, criativamente antecipando-se à sexta-feira e ao domingo da Ressurreição, para, naquela quinta-feira, no Cenáculo de Jerusalém, entregar à sua Igreja o memorial da salvação que conquistou para a humanidade: a Eucaristia.

“Isto é meu Corpo! Tomai e Comei. Este é meu Sangue! Tomai e bebei” marcou a solene Liturgia da tarde de quinta-feira da Semana Santa em todas as Paróquias, pela vivência do mistério da Ceia do Senhor, mistério renovadoem cada Missaque celebramos.

Sobretudo quando reza a Missa, a Igreja sempre falou sobre o pão e o vinho: é a presença real de Jesus. Esta é uma das verdades centrais ensinadas pela Igreja Católica. Ela é mesmo um dogma, para usar o termo técnico do linguajar teológico. A expressão, diante de um mundo cuja característica básica é a mudança, soa antiquada e nada condizente com o espírito da modernidade sabidamente reticente com relação a qualquer afirmação categórica. Na história dos dogmas, que sempre está em evolução, está que a Igreja, ao longo de todos os tempos, colocou em evidência a Eucaristia. Desde o início, com os Apóstolos e as primeiras comunidades, até os nossos dias; desde a “fração do pão” de que fala Atos dos Apóstolos, da Bíblia, até à Missa, Ceia do Senhor, ou Celebração Eucarística, para usar os termos de hoje.

Após a cisão protestante, no século XVI, nem sempre foi ponto pacífico entre os que seguem a Cristo, a interpretação daqueles relatos sobre a Ceia, guardados nos Evangelhos e nos Atos dos Apóstolos. Falo da Eucaristia, da Missa como momento de partilha e de alimentação com o Corpo e Sangue de Cristo. Assim, a Igreja Católica mostra na história do dogma a sempre repetida interpretação do texto bíblico como falando de presença real de Jesus no pão e no vinho da Missa. As divergências se deram somente na compreensão no nível racional sobre como a transformação se dava. Aí entravam não mais a visão teológica, mas o olhar filosófico. As questões não eram de teologia da Eucaristia, mas, como ainda hoje pode acontecer, de filosofia da Eucaristia.

É UMA QUESTÃO DE INTERPRETAÇÃO

Algo diferente do que pensam e crêem todos os segmentos católicos se dá no campo das igrejas ditas evangélicas que, em sua quase totalidade, têm a presença de Jesus, na Ceia que celebram, apenas como memória, não como realidade. Por que tão acentuada diferença quando os textos lidos são os mesmos? Nada a estranhar. É uma questão de interpretação. O movimento protestante do século XVI, origem de tudo o que veio depois, tem como princípio de leitura bíblica a livre interpretação. Em termos mais abertos: cada um interpreta como quer. Católicos, individualmente, não interpretam a Bíblia. Compete à Igreja, assistida pelo Espírito Santo, fazer para nós tão exigente ação. A nós, nos cabe segui-la. É neste sentido que, quando em ato de fé, dizemos: “Creio na Santa Igreja…”

Falar da Eucaristia é falar de mistério, de algo fora do alcance da compreensão da razão e da investigação pelo conhecimento da ciência humana.

Semelhante ao que nos referimos acima, que a missa seja um mistério é coisa sempre vivida e ensinada na Igreja, não só nos primeiros tempos da vida cristã, também hoje. Quando o padre, na celebração da missa, termina as orações da consagração do pão e do vinho, após elevá-los em apresentação aos fiéis, solenemente diz: “Eis o mistério da fé”.

Sobre estas realidades, é como diz a conhecida sentença: Lex orandi, lex credendi, ou seja, deve-se crer tal como é dito na oração, ou: “se quer ver em que é que a Igreja crê, veja como ela reza”.

EM BUSCA DO MISTÉRIO ESCONDIDO NA “MISSA CATÓLICA”

Lembro-me do que vi num interessante livro que li recentemente e sobre o qual já me referi nesta coluna. O autor, alguém que antes não era da Igreja Católica, falava da Eucaristia. Começou a crer na Eucaristia como a Igreja crê, rezando com ela a Missa. O título do livro: “O BANQUETE DO CORDEIRO, a missa segundo um convertido”. Uma publicação das Edições Loyola que já está na sétima edição brasileira. Tem 157 páginas. A edição original, em inglês, foi publicada em 1999. Escrita por um pastor evangélico calvinista, Scoth Hahn, residente nos Estados Unidos, que se converteu ao Catolicismo ao assistir, com a curiosidade de um estudioso e pela primeira vez, uma Missa. De súbito, ele percebeu a chave para interpretar o mistério da Missa: o livro Apocalipse, da Bíblia. Ao mesmo tempo começou a ver na Missa a chave para interpretação do Apocalipse. Como escreveu o apresentador da edição brasileira do livro: “Nisto ele retoma o pensamento dos padres orientais do século II ao século IV”.

Deixemos que o próprio autor no-lo apresente. Suas primeiras palavras são de lamentação: “De todas as coisas católicas, não há nada tão familiar quanto a missa. Com suas orações, seus hinos e seus gestos sempiternos, a missa é como um lar para nós. Contudo, em sua maioria, os católicos passam a vida sem ver além da superfície de preces memorizadas. Poucos vislumbram o forte drama sobrenatural de que participam todo domingo”.

Em seguida, com o título “O que descobri quando participei pela primeira vez da missa”, escreve o capítulo Um, que transcrevo aqui na íntegra:

“Ali estava eu, incógnito, um ministro protestante à paisana, esgueirando-me nos fundos de uma capela em Milwaukee para par­ticipar pela primeira vez da missa. A curiosidade me arrastara até lá e eu ainda não tinha certeza de que fosse uma curiosidade saudável. Ao estudar os escritos dos primeiros cristãos, encontrei inúmeras referências à “liturgia”, à “Eucaristia”, ao “sacrifício”. Para aqueles primeiros cristãos, separada do acontecimento que os católicos de hoje denominam “missa”, a Bíblia – o livro que eu mais amava ­era incompreensível.

Eu queria entender os cristãos primeiros, mas não tinha qualquer experiência de liturgia. Por isso, persuadi a mim mesmo a ir ver, como uma espécie de exercício acadêmico, mas jurando o tempo todo que não ia me ajoelhar nem participar de idolatria.

Sentei-me na obscuridade, em um banco bem no fundo daque­la capela no subsolo. À minha frente havia um número considerável de fiéis, homens e mulheres de todas as idades.

Impressionaram-me suas reflexões e sua evidente concentração na oração. Então um sino soou e todos se levantaram quando o padre surgiu de uma porta ao lado do altar.

COM A BÍBLIA ABERTA AO MEU LADO!

Hesitante, permaneci sentado. Durante anos, como calvinista evangélico, fui instruído para acreditar que a missa era o maior sa­crilégio que alguém poderia cometer. Tinha aprendido que a missa era um ritual com o propósito de “sacrificar Jesus Cristo outra vez”. Por isso, eu seria um espectador, ficaria sentado, com a Bíblia aberta ao meu lado.

Entretanto, à medida que a missa prosseguia, alguma coisa me tocou. A Bíblia não estava só ao meu lado. Estava diante de mim ­nas palavras da missa! Um versículo era de Isaías, outro dos Salmos, outro de Paulo. A experiência era prodigiosa. Eu queria interromper tudo e gritar: “Ei! Posso explicar o que está acontecendo a partir das Escrituras? Isso é maravilhoso!” Não obstante, mantive minha posi­ção de espectador, à parte até que ouvi o sacerdote pronunciar as palavras da consagração: “Isto é o meu corpo… Este é o cálice do meu sangue”.

Então senti todas as minhas dúvidas se esvaírem. Quando vi o sacerdote elevar aquela hóstia branca, percebi que uma prece subia de meu coração em um sussurro: “Meu Senhor e meu Deus. Sois real­mente vós!”

A partir daquele ponto, fiquei, por assim dizer, tolhido. Não imaginava uma emoção maior que a que aquelas palavras provoca­ramem mim. Poréma experiência intensificou-se um momento depois, quando ouvi a congregação repetir: “Cordeiro de Deus… Cordeiro de Deus… Cordeiro de Deus”, e o sacerdote responder: “Eis o Cordeiro de Deus…“, enquanto elevava a hóstia.

Em menos de um minuto a frase “Cordeiro de Deus” ressoou quatro vezes. Graças a longos anos de estudos bíblicos, percebi ime­diatamente onde eu estava. Estava no livro do Apocalipse, no qual Jesus é chamado Cordeiro nada menos que vinte e oito vezes em vinte e dois capítulos. Estava na festa de núpcias que João descreve no final do último livro da Bíblia. Estava diante do trono do céu, onde Jesus é saudado para sempre como o Cordeiro. Entretanto, não estava preparado para isso – eu estava na missa!”.

Com tão elevada manifestação de misticismo, o autor, entretanto, não parece um alienado. Como diz ao longo do livro, procedeu em tudo com prudência e cuidado e não com a natural empolgação dos neoconvertidos. É capaz de perceber coisas negativas em nossas práticas celebrativas, o que fala também do seu espírito crítico. Vejo isto, por exemplo, nesta passagem do capítulo introdutório: “Talvez você responda que sua experiência semanal da missa é qualquer coisa, menos celestial. De fato, é uma hora desconfortável interrompida por choro de bebês, cantos monótonos entoados de forma dissonantes, divagações, homilias sem pés nem cabeça e vizinhos vestidos como se fossem a um jogo de futebol, à praia ou a um piquenique”.

* Professor do Instituto de Teologia e Pastoral (ISTEP) e Pároco de Cruz

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