A importância da música nas celebrações

A IMPORTÂNCIA DA MÚSICA NAS CELEBRAÇÕES

«A música não deve dominar a liturgia, mas servi-la»

Entrevista com o liturgista Pedro Farnés

Por ocasião do centenário do Motu Proprio «Tra le sollecitudini», de São Pio X, a agência Veritas entrevistou o liturgista Pedro Franés Scherer para revisar a atualidade dos princípios criados em 1903 e abordar algumas questões relacionadas com o estado atual da liturgia.

Pedro Farnés é diretor do Instituto de Teologia de Barcelona e professor de Liturgia na Faculdade de São Damaso de Madri. Além disso, é relator do «Ritual de Exéquias» do episcopado espanhol. Foi membro da comissão Espanha-CELAM para a edição do «Ritual de Bênçãos» e da equipe de preparação da versão unificada do Ordinário da Missa em espanhol (Congregação para o Culto – Episcopados da América Latina e Espanha)

Editou mais de cem publicações, a maioria sobre questões litúrgicas. Atualmente trabalha na preparação de novas obras.

Celebramos cem anos do Motu Proprio «Tra le sollecitudini», sobre a música sagrada, como este documento de São Pio X influi nas celebrações atuais?

Os princípios estabelecidos pelo Papa em 1903 continuam vigentes e têm aplicações diversas, sobretudo porque o Concílio Vaticano II os assumiu novamente. O princípio fundamental é que a música não deve dominar a liturgia, mas servi-la. Neste sentido, antes de Pio X celebravam-se muitas missas com orquestra, algumas muito célebres, que se convertiam sempre em um grande show durante o qual acontecia a Eucaristia.

São Pio ofereceu como modelo de música litúrgica o canto gregoriano porque servia à liturgia sem dominá-la. Após o Concílio Vaticano II, com a introdução da língua do povo na celebração, a música mudou e buscaram-se outras melodias diferentes ao gregoriano. Contudo, o princípio de que o canto deve servir à liturgia continua vigente.

Atualmente esse princípio é respeitado?

Também hoje, como há cem anos, existem abusos de músicas que dominam a celebração e convidam pouco a rezar. Em algumas Missas cantadas, com palmas e danças, é difícil que a música ajude a rezar. Isso não significa que dançar seja mau: as pessoas devem se expressar, mas também rezar.

Também se deve ter em conta o momento da celebração para escolher a música. Por exemplo, um canto muito ritmado pode ser adequado no início de uma Missa, mas não no momento da Comunhão.

Estes excessos foram estudados pelo Vaticano, nos últimos meses?

Foi divulgado que a Igreja está preparando um documento que trataria diversas questões litúrgicas e alertaria sobre certos abusos. Correm rumores de que não se publicará como se redigiu, mas com numerosas correções.

Sobre o que se falou de proibir as meninas de serem coroinhas ou de excluir as guitarras das Missas, não creio que seja certo. Algumas destas posturas podem ser mencionadas. Em si mesmas, não são más.

Surgiram algumas vozes que, diante dos abusos, defendem a volta da Missa Tridentina. O que senhor acha disso?

A Missa de São Pio V foi um grande avanço em seu tempo. De fato, o Missal atual é baseado nos próprios princípios do Missal Tridentino. Hoje foi reformada para dar uma visão, não contrária mas mais plena, e recolhe os progressos que foram descobertos, e se conhece melhor que no século XVI a Missa que a Igreja recebeu de Jesus.

Alguns movimentos e comunidades, como o Caminho Neocatecumenal, possuem certas particularidades litúrgicas, o senhor acha que nos encontramos diante de novos ritos ou diante de uma forma peculiar de celebrar o rito romano?

Em princípio são maneiras peculiares de celebrar o mesmo rito romano. Estas particularidades existiram sempre: nas comunidades carmelitas, cistercienses… É como ter um tesouro (a Eucaristia) em caixas diferentes (os diversos ritos).

Poderíamos citar o caso do rito Hispânico, que foi celebrado em toda Península Ibérica e que, por circunstâncias históricas, refugiou-se em Toledo; um rito que hoje pode ser celebrado com permissão do bispo em todas as dioceses da Espanha.

Mas as diferenças das comunidades do Caminho ou os ritos das carmelitas e cistercienses, ou da Igreja de Milão, são só pequenas variantes do mesmo rito romano.

Os abusos que pretendem ser corrigidos foram produzidos porque algumas questões ficaram demasiadamente abertas a interpretações, no Concílio Vaticano II? Foi uma reforma precipitada?

Não, não foi uma reforma precipitada, mas alguns não a assumiram corretamente. Pode-se aprofundar mais, mas a reforma litúrgica está terminada, ainda que sempre seja possível avançar.

Que fatores fizeram necessária a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II?

Tal e qual assinala a Constituição do Concílio, a renovação litúrgica do Vaticano II era necessária porque foram introduzidos elementos na liturgia que não respondiam bem a sua essência. Por exemplo, proclamava-se a palavra de Deus em uma língua que havia se tornado incompreensível para o povo, o que requeria um remédio.

De todos as mudanças que se produziram na liturgia desde o Concílio, qual considera mais importante?

Em primeiro lugar, que com a nova distribuição das leituras ao largo do ano litúrgico se voltou a proclamar quase toda a Bíblia. Logo, que se leiam as leituras na língua do povo; e em terceiro lugar, que o altar se situe de frente ao povo para que os fiéis possam ver o corpo e o sangue de Cristo.

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