Reencarnação ou ressurreição: uma decisão de fé

Nova teoria:

“REENCARNAÇÃO OU RESSURREIÇÃO: UMA DECISÃO DE FÉ”

por RENOLD BLANK

Em síntese: RENOLD BLANK mostra os prós e contras da tese da reencarnação, que ele rejeita em favor da tese da ressurreição dos corpos. Esta, porém, é proposta de maneira destoante do pensamento da Igreja: não haveria distinção entre corpo e alma; por isto a ressurreição se daria logo após a morte do indivíduo. Embora o cadáver seja visível, R. Blank afirma que o corpo humano tem “dimensões” invisíveis que ressuscitam; mas não explica o que sejam essas “dimensões invisíveis”. Quanto ao purgatório, é assemelhado a uma conversão que ocorre logo após a morte ou, como diz, “na morte”.

 

O Prof. RENOLD BLANK da Pontifícia Faculdade de Teologia de São Paulo, publicou um livro sobre “Reencarnação e Ressurreição: Uma versão de Fé” (1), que tem merecido a atenção do público, pois propõe idéias novas e pessoais. Eis por que tal obra será analisada nas páginas subseqüentes.

(1) Ed. Paulus, São Paulo, 1995, 130 x 210 mm, 132 pp.

1. O conteúdo do livro

1.1. Duas premissas metodológicas

a)  O autor parte da verificação de que a clássica concepção dos acontecimentos é causa de medo e angústias nos fiéis católicos, temerosos de comparecer perante um tribunal que definirá a sorte derradeira de cada ser humano;

b)  A teologia deve adaptar-se à mentalidade científica moderna, que é dinâmica e não estática (como estáticas são certas proposições da clássica escatologia).

1.2. Reencarnação

À clássica doutrina opõe-se a da reencarnação. R. Blank estuda minuciosamente os prós e os contras da teoria da reencarnação e conclui com posição desfavorável a esta, e, portanto, favorável à tese da ressurreição. Ver p. 59 deste fascículo, nota de rodapé.

1.3. O juízo particular

“Ultrapassando a morte clínica, a pessoa humana chega àquele limite a partir do qual já não é possível a reanimação… Agora o homem está na morte” (p. 106). Então, será apresentado ao indivíduo o filme da sua vida com toda a objetividade, para que a criatura possa julgar sua vida como Deus a julga. É a isto que se dá o nome de “juízo particular”.

1.4. O Purgatório

Nesse mesmo momento ou “na morte”, o indivíduo conceberá o arrependimento de suas faltas cometidas durante a sua vida terrestre, perfazendo como que uma nova conversão sustentada por especial graça de Deus (que a pessoa tanto pode aceitar como pode rejeitar, ficando então presa aos seus pecados). Essa conversão é o que se chama “purgatório”.

1.5. Ressurreição corporal

Morre o indivíduo por inteiro, já que (conforme Blank) não existe alma separável do corpo. E, para que não haja hiato na existência da criatura, a ressurreição ocorre não no fim dos tempos, mas logo depois da morte.

Como se dará essa ressurreição, se todos podem ver o corpo reduzido a cadáver e levado à sepultura? – Renold responde que o nosso corpo tem dimensões visíveis e dimensões invisíveis. O que ressuscita, são as dimensões invisíveis do nosso corpo.

Eis como Blank propõe a ressurreição corporal:

A moderna Teoria Evolucionária do Conhecimento ensina que os nossos sentidos não nos ensinam de maneira fiel a respeito do nosso mundo. Este tem dimensões bem mais numerosas do que as que podemos conhecer através dos sentidos. Em conseqüência, lê-se à p. 129:

“A matéria tem muito mais dimensões do que as que podemos perceber com os nossos sentidos:

Como matéria, o corpo faz parte de todas estas dimensões.

Durante a vida, o ser humano só é capaz de captar as poucas dimensões corporais que conhecemos. Na morte, porém, Deus amplia as capacidades sensoriais da pessoa humana, de tal maneira que ela percebe todas essas outras dimensões do próprio corpo. Dimensões que sempre existiram, mas que a pessoa não era capaz de perceber.

Essa ampliação das capacidades sensoriais para além das dimensões materiais que até agora conhecemos, ligadas à possibilidade de usufruir de todas essas dimensões, nós as denominamos, em linguagem teológica: ‘A ressurreição do corpo’.”

Entre outras ficam abertas duas perguntas:

1) que significa a expressão “na morte”? É um instante ou são vários instantes?

2) que significam as dimensões móveis e invisíveis do corpo humano?

1.6. Otimismo e confiança

O autor não se detém no conceito de inferno. Ele tenciona despertar no leitor a confiança em Deus, que é Amor e Vida e criou o ser humano para fazê-lo participar da felicidade do próprio Deus, garantindo-lhe a vitória da vida sobre a morte. O final do livro responde assim à problemática proposta no início do mesmo.

Pergunta-se agora:

2. Que dizer?

Proporemos seis considerações.

2.1. Metodologia

É estranha a insistência do autor em adaptar os conceitos da fé ao pensamento moderno. A verdade não muda de acordo com as épocas da história. Nem por isto a verdade religiosa entra em conflito com as teses da ciência contemporânea. O Credo bem entendido jamais se oporá à ciência bem entendida.

2.2. Corpo e alma

O corpo é material; a alma humana é espiritual; portanto distinguem-se entre si ([1]); todavia não se opõem entre si como se a matéria fosse má e o espírito bom (o que seria o dualismo). São complementares entre si, como homem e mulher, perfazendo uma dualidade. Portanto, para escapar do dualismo, não é necessário cair no monismo; existe o meio-termo, que é a dualidade.

A não-distinção entre corpo e alma leva R. Blank a admitir a ressurreição logo depois da morte para que não haja hiato ou ruptura na existência do indivíduo. Esta tese contraria a doutrina bíblica, que propõe a ressurreição “no último dia” (cf. Jo 6, 44.54; 1Cor 15, 21-23; 1Ts 4, 17). Em verdade, por ocasião da morte a alma se separa do corpo e sobrevive na sua sorte definitiva, aguardando a ressurreição dos corpos no último dia.

2.3. Tempo e eternidade

Dizíamos “aguardando…”. Com efeito, a alma humana, ao sair do tempo, não entra na eternidade; esta é privativa de Deus só, o único Ser que não tem começo nem fim. A alma humana tem começo, mas não terá fim; a sua duração, portanto, não pode ser a eternidade, mas é o evo, que é o meio-termo entre tempo e eternidade, conforme o esquema seguinte:

               tempo: duração que tem começo e fim (dia, noite, semana, mês, ano…)

               evo: duração que tem começo, mas não tem fim (alma humana, anjo)

               eternidade: duração sem começo e sem fim (Deus só).

2.4. Ressurreição

A reunião de alma e corpo ocorrerá no fim dos tempos, como ensina a Escritura. O Senhor Deus não terá que catar os resquícios do cadáver já totalmente decomposto, mas bastará que una à alma o que se chama em Filosofia “matéria prima”, para que a alma, como princípio vital, imprima a essa matéria os traços característicos do respectivo corpo. Eis o que se pode dizer em linguagem sóbria e segura. A teoria de Blank joga com as expressões “dimensões visíveis e dimensões invisíveis”, que são vagas e pouco significativas.

A não poucos estudiosos a idéia de uma alma separada do corpo parece contrariar o senso comum. – Respondemos:

A tese da ressurreição escapa ao âmbito da filosofia ou da razão; é dom de Deus, que tem de ser aceito como ele é manifestado pelo próprio Deus; ora as Escrituras dão claro e explícito testemunho de que a ressurreição não ocorre logo após a morte, mas sim no fim dos tempos (ver textos citados atrás). Ademais a alma humana, sendo espiritual, pode estar lúcida e consciente mesmo fora do corpo, ver PR 477/1999, pp. 368ss.

2.5. Purgatório

Eis como R. Blank apresenta o purgatório:

“Depois da morte, cada ser humano precisa de um processo de evolução para reunir e completar os fragmentos de sua própria vida… A doutrina cristã propõe… um processo evolutivo qualitativamente novo. Esse processo recebe tradicionalmente o nome de ‘purgatório'” (p. 112).

Ou mais explicitamente:

“O purgatório nada tem que ver com as imagens medievais de uma câmara cósmica de torturas. O nome ‘purgatório’ designa um processo dinâmico e central que acontece no momento exato do primeiro encontro da criatura com Deus. Ao longo desse processo a pessoa humana pode evoluir de tal maneira que possa chegará plenitude da vida” (p. 117).

 

Os dizeres de Blank parecem confusos. Com efeito, como conciliar “um momento exato” com “um processo evolutivo”? O processo, como diz a etimologia do nome, importa sucessivos momentos. Como equivalente, o autor usa freqüentemente a expressão “na morte” (p. 116, por exemplo, duas vezes), furtando-se a definir se se trata de um ou de vários momentos.

–   o primeiro encontro da criatura com Deus não implica a visão face-a-face, mas um encontro com o juízo de Deus;

–   à p. 118 está dito que o processo evolutivo importa “a necessidade de perdoar e pedir perdão a todos os irmãos e irmãs contra os quais a pessoa humana se tomou culpada”. – Pergunta-se: como é que, depois da morte, pode alguém pedir perdão aos irmãos e irmãs sobreviventes na Terra?

–   a conversão póstuma de que fala Blank, não pode ser a passagem do pecado grave ao amor de Deus. pois é certo que a morte nos estabilizará definitivamente em nossa última poção anterior à morte. O que no purgatório ocorre, é a purificação do amor da criatura voltado para Deus, mas ainda contraditado por más tendências que não podem subsistir na bem-aventurança celeste. O repúdio ao resquício de pecado e ao dito “pecadinho” seja total para poder permitir à alma entrar na visão beatífica dentro do menor prazo possível. Nada tem a ver com fogo.

2.6. Amor e temor

Não há dúvida, a imaginação dos cristãos explanou a temática dos últimos fins em tom apavorante ou dantesco, provocando a repulsa de muitos pensadores, que julgam encontrar na teoria da reencarnação uma opção mais digna. Ora também esta é fantasiosa: carece de fundamento. Para escapar das elucubrações imaginosas da literatura popular, não é necessário criar novas teorias, mas basta depurar a clássica doutrina do que lhe acrescentaram de dantesco. Veja-se a respeito o Curso de Escatologia editado pela Escola “Mater Ecclesiae” (O P. 1362, 20001-970, Rio, RJ). Sobre os últimos acontecimentos a fé transmite com sobriedade noções que suscitam confiança inabalável naquele que primeiro nos amou (cf. 1 Jo 4, 19). O cristão vê nos últimos acontecimentos a consumação de uma caminhada que pode ter seus altos e baixos, mas que procura ser sincera com Deus, evitando o pecado consciente e deliberado. Quem aceita o “risco” de se entregar generosamente a Deus, verá dissipar-se o temor em favor do amor confiante e filial; Deus não se deixa vencer em generosidade.

Blank reconhece o amor de Deus, mas acrescenta-lhe noções arbitrárias, que destoam da doutrina oficial da Igreja, como se pode depreender do documento que vai, a seguir, registrado.

3. A Palavra Oficial da Igreja

Aos 17/05/1979 foi promulgada uma Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé, que incute a distinção entre corpo e alma. Eis as suas afirmações principais:

“Esta Sagrada Congregação, que tem a responsabilidade de promover e defender a doutrina da fé, propõe-se hoje recordar aquilo que a Igreja ensina, em nome de Cristo, especialmente quanto ao que sobrevém entre a morte do cristão e a ressurreição universal:

 

1) A Igreja crê é numa ressurreição dos mortos (cf. Símbolo dos Apóstolos).

2) A Igreja entende esta ressurreição referida ao homem todo; esta, para os eleitos, não é outra coisa se não a extensão, aos homens, da própria ressurreição de Cristo.

3) A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, de um elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que o eu humano subsista, ainda que sem corpo. Para designar esse elemento, a Igreja emprega a palavra alma, consagrada pelo uso que dela fazem a S. Escritura e a Tradição. Sem ignorar que este termo é tomado na Bíblia em diversos sentidos, Ela julga, não obstante, que não existe qualquer razão séria para o rejeitar e considera mesmo ser absolutamente indispensável um instrumento verbal para sustentar a fé dos cristãos.

4) A Igreja exclui todas as formas de pensamento e de expressão que, se adotadas, tornariam absurdas ou ininteligíveis a sua oração, os seus ritos fúnebres e o seu culto dos mortos, realidades que, na sua substância, constituem lugares teológicos (2) .

5) A Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera a gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Constituição Dei Verbum 14), que Ela considera como distinta e diferida em relação àquela condição própria do homem imediatamente após a morte.

6) A Igreja, ao expor sua doutrina sobre a sorte do homem após a morte, exclui qualquer explicação que tire o sentido à Assunção de Nossa Senhora naquilo que ela tem de único, ou seja, o fato de ser a glorificação corporal da Virgem Santíssima uma antecipação da glorificação que está destinada a todos os outros eleitos.

7) A Igreja, em adesão fiel ao Novo Testamento e à Tradição, acredita na felicidade dos justos que estarão um dia com Cristo. Ao mesmo tempo Ela crê numa pena que há de castigar para sempre o pecador que for privado da visão de Deus, e ainda na repercussão dessa pena em todo o ser do mesmo pecador. E, por fim, Ela crê existir para os eleitos uma eventual purificação prévia à visão de Deus, a qual no entanto é absolutamente diversa da pena dos condenados. É isto que a Igreja entende quando Ela fala de inferno e de purgatório”.

(2) Lugares teológicos são fontes das quais a teologia tira seus princípios (N.d.R.).

Nesta Declaração chamam-nos a atenção especialmente

–   o item 3: afirma a separação do corpo e alma na morte e a subsistência, sem corpo, da alma humana, elemento espiritual, dotado de inteligência e vontade (núcleo da personalidade);

 

–   os itens 5 e 6: ensinam que não coincidem entre si a hora da morte de cada indivíduo e a parusia ou manifestação final de Jesus Cristo. Se alguém morrer hoje, não creia que assistirá imediatamente ao fim do mundo, alegando que, após a morte não há futuro nem passado. A ausência de futuro e passado ou o regime da eternidade é de Deus só. A criatura que deixa este mundo, emancipa-se do tempo, mas não passa a viver o regime da eternidade; a sua duração será medida pelo EVO ou por uma sucessão de atos psicológicos;

 

–   o item 7 professa a fé na existência do céu (com sua ante-câmara que é o purgatório) e do inferno, sendo este a perda da visão de Deus, punição que o pecador inflige a si mesmo, caso diga um Não consciente e voluntário ao Bem Infinito preterido em favor de ídolos (dinheiro, prazer, glória…).

 

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)


([1]) Ver PR 232/1979, pp. 147ss.


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