Que haverá depois da morte?

QUE HAVERÁ DEPOIS DA MORTE?

Católicos Perguntam – Dom Estêvão Bettencourt O.S.B.

A morte consiste na separação entre o corpo e a alma. O corpo, desgastado pelo uso e pelo tempo, já não oferece condições para que a alma ou o princípio vital nele permaneça e exerça as suas funções. Consequentemente, o corpo, feito cadáver, é lançado a terra, e a alma, sendo espiritual, sobrevive; ela é imortal por si mesma, pois os seres espirituais não morrem, não se decompõem.

A alma, uma vez separada do corpo pela morte, não perde a consciência lúcida, não fica adormecida. Falamos do “sono da morte” por metáfora, ou seja, porque os mortos “parecem” dormir. Na verdade, porém, os cadáveres não têm mais vida, ao passo que as almas, separadas de seus corpos, continuam a viver com toda a lucidez.

Logo após a morte se dá o juízo particular. Este não consiste numa avaliação dos prós e contras da nossa conduta terrestre, pois somos nós quem nos julgamos nesta Terra, ao nos posicionarmos a favor ou contra Deus. Morremos com a nossa sentença lavrada por nós mesmos, com nossa opção feita.

O juízo particular, portanto, consiste na iluminação de todo o nosso currículo de vida, para que possamos ver, com objetividade e sem preconceitos, os valores e desvalores da nossa conduta terrestre. Assim iluminada, a alma humana deseja imediatamente colher os frutos da semeadura realizada na Terra; ela deseja espontaneamente a justa sorte que lhe compete. O fato de não estar unida ao corpo não a impede de utilizar os conhecimentos adquiridos na Terra e de praticar atos de inteligência e de vontade.

Os conceitos de céu, inferno e purgatório

Após a morte e o juízo particular, mesmo antes da ressurreição da carne (que se dará no fim dos tempos), o ser humano tem três destinos possíveis.

1) o céu que é a visão de Deus face a face ou a satisfação plena de todos os nossos anseios, sem aborrecimento nem tédio. Deus será sempre a grande maravilha para os justos no céu. Na pátria celeste, os justos, vendo a Deus, veem também seus familiares e amigos plenamente identificáveis, embora ainda não ressuscitados corporalmente (a alma humana, como princípio vital, traz em si os traços típicos da personalidade de cada um de nós).

Os justos podem interceder por nós no céu, pois Deus nos fez solidários uns com os outros (vivemos na “Comunhão dos Santos”), e esta solidariedade ou comunhão não é rompida pela morte. Deus a conserva e faz com que os justos e Santos no céu conheçam as nossas preces e possam orar por nós.

Especialmente a Virgem Santíssima, na qualidade de Mãe do gênero humano (cf. Jo 19,26), é a Grande Orante que leva ao seu Divino Filho as suas preces em favor dos homens na Terra. Ela, que foi a intercessora do primeiro milagre de Jesus em Caná da Galileia – ao dizer, muito discretamente, com um olhar de mãe atenta: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3) -, continua até hoje a dizer ao Senhor Jesus: “Eles não têm pão, …não têm casa, …não têm roupa, não têm paz, … não têm amor, …não têm harmonia conjugal…”

2) o purgatório, que é a antecâmara do céu. Com efeito, para ver a Deus face a face, o ser humano precisa de estar isento de qualquer sombra de pecado, pois Ele é três vezes Santo. Assim se alguém morre com seu amor voltado para Deus, mas ainda está contaminado por traços de amor próprio, egoísmo, preguiça, vaidade, omissão, precisará de se libertar dessas escórias do pecado (impropriamente ditas “os pecadinhos de cada dia”). Isto se faz num estado (e não num lugar chamado “purgatório”.

O purgatório não é um lugar onde há fogo e tormentos físicos, mas sim um estágio na qual, voluntariamente, a alma portadora de incoerências, repudia radicalmente o pecado e se desapega totalmente dele, a fim de poder ver a Deus face a face. O purgatório é, portanto, algo de muito lógico: um estado em que nós vivenciamos a experiência de fazer um sincero ato de contrição e de nos livrarmos do pecado.

Nós somos sempre traídos por nós mesmos, porque dias depois de nos arrependermos voltamos às mesmas faltas, tão arraigado está em nós o princípio do pecado. Ora, essa presença profunda do pecado em nosso íntimo precisa de ter um fim: ou acaba na vida presente (mediante uma ascese muito vigilante) ou na vida futura (no estágio do purgatório).

A duração do purgatório não se mede em dias e anos, mas pelo tempo psicológico (ou “evo”), cujas unidades são os nossos atos de conhecimento e amor (teremos sucessivos atos de conhecimento e vontade no além).

3) o inferno, que é o estado (e não lugar) no qual o pecador que tenha morrido apegado ao pecado e avesso a Deus sente a amargura de ter dito “não” a Ele, o Sumo Bem, o Único Bem que não podia ser perdido, mas que foi trocado por um ídolo (o dinheiro, o prazer, a glória…) ou por uma bolha de sabão (colorida por fora, mas vazia por dentro).

O inferno é a frustração definitiva. Não sabemos quantas pessoas morrem impenitentes ou voltadas conscientemente para o pecado; até o fim da vida. Deus acompanha os seus filhos mais rebeldes, oferecendo-lhes a sua graça. O inferno é tormentoso, porque Deus continua a amar o pecador que dele se afastou e que se condenou voluntariamente (pois, na verdade, não é Deus quem condena, mas é o ser humano que, voluntariamente dizendo “não” a Deus, se projeta na desgraça). O pecador reconhece finalmente que Deus é o Supremo Bem, mas não lhe quer aderir, pois a morte fixa cada um de nós na sua última opção; após a morte não é possível a conversão.

O modelo do corpo ressuscitado de Jesus

No fim dos tempos, quando Cristo voltar sobre a Terra como Juiz de todos os homens e Consumador da História, os corpos ressuscitarão. Será recomposto o ser humano, que não é um anjo encarnado por acaso, mas sim uma criatura psicossomática. Para ressuscitar os corpos, Deus não precisará de recolher a poeira do solo; bastará que Ele uma à alma de cada indivíduo o que a filosofia chama “matéria-prima”; esta assumirá as feições típicas do corpo daquela alma.

O corpo ressuscitado, portanto, será matéria, e não energia ou luz impessoal. Matéria transfigurada, glorificada, espelho da graça que estiver na alma. Cada corpo ressuscitado poderá ser identificado e reconhecido; não haverá despersonalização. O modelo do corpo ressuscitado é o de Jesus aos a sua ressurreição: ainda trazia as chagas (glorificadas) da sua Paixão, mas era isento das vicissitudes que atormentam os nossos corpos mortais (fome, sede, cansaço, pranto, lágrimas…).

Os Santos todos ainda aguardam a ressurreição dos seus corpos, mas já gozam da visão beatífica. Somente a Virgem Maria já se encontra glorificada em corpo e alma no céu, como celebramos na Festa da Assunção, no dia 15 de agosto.

Eis, caros leitores, o que em poucas frases podemos dizer sobre a vida após a morte. Não esqueçamos, no entanto, que a respeito de tal assunto, mais podemos balbuciar do que dissertar, pois São Paulo nos diz:

“O que os olhos não viram, o que os ouvidos não ouviram e o coração do homem jamais percebeu, eis o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1Cor 2,9).

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