Ainda a ressurreição logo depois da morte

Em síntese: O presente artigo retorna ao documento da S. Congregação para a Doutrina da Fé publicado em PR 238/1979, pp. 399-404. Como naquele fascículo se encontra a primeira edição de tal documento, à qual se seguiu a edição oficial, um pouco ampliada, vão abaixo publicados o texto e o acréscimo que lhe foi dado pela S. Congregação. Tal acréscimo nada diz de novo propriamente, mas explícita a tese segundo a qual, entre a morte do indivíduo e a ressurreição universal dos corpos na consumação dos tempos, subsiste a alma humana dotada de consciência e vontade, mas sem o complemento do seu corpo. Assim a doutrina da “alma separada do corpo”, clássica na Tradição cristã, é reafirmada no intuito de dissipar doutrinas que professam a ressurreição logo após a morte.

A Declaração da S. Congregação tem o caráter de pronunciamento da autoridade da Igreja, feito em nome de Cristo para reafirmar verdades que pertencem à essência da fé católica. Não pode ser posto de lado, como se fosse apenas sugestão ou proposta de alguma tese. Na verdade, a teologia é “fides quaerens intellectum”, é fé que procura compreender; isto significa que ela se constrói sobre a fé na Palavra de Deus, que nos vem mediante as Escrituras e a Tradição oral, autenticamente interpretadas pelo magistério da Igreja.

Em PR 238/1979, pp. 399-404, foi publicado o texto de uma Carta da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé datada de 17/05/79 a respeito de questões concernentes à escatologia. Tal documento formulava sete pontos que a Igreja reafirma hoje em dia para fazer frente a teorias recentes e errôneas.

Essas doutrinas novas asseveram que o corpo e alma não se distinguem realmente, portanto não se separam entre si. Conseqüentemente, quando o ser humano morre, morre como um todo (corpo-alma); e, para que não se dê um hiato na existência desse sujeito, é postulada a ressurreição do mesmo logo após a morte. Assim se tem propalado em livros, do estrangeiro e do Brasil, a tese da ressurreição imediata após a morte, sem que haja necessidade de se esperar o fim dos tempos para que ocorra a ressurreição dos mortos.

De encontro a esta proposição, a Igreja sempre professou, e professava mais uma vez na citada Carta, a subsistência da alma humana logo após a morte, separada do corpo, até o dia da ressurreição da carne no fim dos tempos. Por conseguinte, não existe coincidência entre o momento da morte e a consumação dos tempos; embora no além não haja contagem de dias nem anos nem séculos, não deixa de haver sucessão de atos e expectativas por parte da criatura humana, como se demonstrará no seguinte artigo deste fascículo.

Interessa-nos salientar nestas páginas um fato não registrado no artigo de PR 238/1979, pp. 399-404, a saber:

1. O texto oficial da Carta

1. O texto publicado em PR 238/1979, pp. 399-404 correspondia à primeira edição da citada carta, enviada aos Bispos¹. Todavia tal não é a edição definitiva e oficial. O texto oficial latino foi publicado em “Acta Apostolicae Sedis” 71 (1979), pp. 939-943 sob o título “Epistula ad Venerabiles Praesules Conferentiarum Episcopalium de quibusdam quaestionibus ad eschatologian pertinentibus” (Carta aos Veneráveis Presidentes das Conferências Episcopais a respeito de algumas questões concernentes à escatologia). Este texto oficial apresenta pequeno acréscimo no artigo nº 3. Com efeito, a primeira edição deste texto rezava:

“Ecclesia affirmat continuationem et subsistentiam, post mortem, elementi spiritualis, conscientia et voluntate praediti, ita ut ipsum “ego humanum” subsistat. Ad huiusmodi elementum designandum Ecclesia utitur voce “anima”, quae Sacrarum Scripturarum et Traditionis usu recepta est. Quamquam non ignorat in Scripturis Sacris huic voci diversas subici significationes, niholominus ipsa censet nullam validam rationem adesse cur vox reiciatur ac iudicat praeterea prorsus necessarium esse verbale instrumentum ad christianorum fidem sutinemdam”.

O que se traduz por:

“A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, de um elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade de tal modo que o “eu humano” subsista. Para designar esse elemento, a Igreja emprega a palavra “alma”, consagrada pelo uso dela fazem a Sagrada Escritura e a Tradição. Sem ignorar que este termo é tomado na Bíblia em diversos significados, Ela julga, não obstante, que não existe qualquer razão para o rejeitar e considera mesmo ser absolutamente indispensável um instrumento verbal para sustentar a fé dos cristãos”.

Pois bem; a edição oficial do texto acrescenta:

“(…) ego humanum, interim tamen complemento sui corporis carens, subsistat”.

O que significa no conjunto:

“A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, de um elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que o “eu humano” subsista, embora entrementes careça do complemento do seu corpo”.

Como se vê, o acréscimo não altera o sentido do texto da primeira edição, mas reforça-o, explicitando a existência, após a morte, da alma separada do corpo: entre o dia da morte e a consumação da história (na qual haverá a ressurreição universal) o eu humano subsiste, dotado de consciência e vontade, mesmo sem corpo. E subsiste, não de qualquer modo, mas, sim, no usufruir da sua sorte definitiva: o céu para os justos (podendo haver purgatório para quem ainda precise de expiar pecados leves) ou inferno (definitiva separação de Deus, correspondente ao Não dito pela criatura ao Criador.

2. O ensinamento expresso no ponto nº 3 está, de algum modo, repetido no ponto nº 4, que afirma:

“A Igreja exclui todas as formas de pensamento e de expressão que, se adotados, tornariam absurdos ou ininteligíveis a sua oração, os seus ritos fúnebres e o seu culto dos mortos, realidades que, na sua substância, constituem lugares teológicos”.

Ora, se se admite a ressurreição do corpo logo após a morte do indivíduo (como fazem as teorias recentes), não se vê como se poderia justificar a prática de sufrágios pelos defuntos prática que pertence ao patrimônio antigo e constante da Igreja.

Eis, porém, que alguns autores, a propósito dos textos da Liturgia dos defuntos promulgados após o Concílio do Vaticano II (1962-1965), observam que tais orações não falam de “alma(s)”, mas de “nossos irmãos defuntos”. Não seria isto uma confirmação de que o conceito de “alma separada do corpo” está ultrapassado de modo que a Igreja não mais o professa?

A propósito, observa o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé: tal fato deve ser interpretado como resultante da atitude conciliatória assumida por especialistas que reformaram a Liturgia dos defuntos, mas não implica em mudança de posição do magistério da Igreja. Cf. J. Ratzinger, Zwischen Tod und Auferstehung, em Internationale Katholische Zeitschrift 9 (1980), p. 214, n. 8.

3. É importante para esclarecer este tema também o ponto nº 5 da mesma Carta. Aí se afirma que a Igreja considera a segunda vinda (parusia em grego) de Cristo como “distinta e diferida” em relação à situação do homem logo após a morte. Isto leva a concluir que a ressurreição dos corpos, conexa com a segunda vinda de Cristo¹, é “distinta e diferida” em relação à situação do indivíduo logo após a morte, de modo que, entre a morte e a parusia, o “eu humano” subsiste sem o complemento do corpo.

4. O conteúdo do artigo nº 6 tem significado semelhante. Afirma que a singularidade da Assunção de Maria consiste no fato de que “a glorificação corpórea da Virgem é a antecipação da glorificação reservada a todos os outros eleitos”. Maria goza de autêntico privilégio ao ser ressuscitada e glorificada corporalmente logo após a morte. Fica assim excluída, portanto, qualquer teoria segundo a qual a ressurreição corpórea dos eleitos ocorra logo depois da respectiva morte.

Para facilitar ao leitor a compreensão de tal temática, publicamos a seguir o texto completo dos artigos da Declaração da S. Congregação para a Doutrina da Fé.

2. O texto dos artigos da Declaração

Eis os sete pontos doutrinais contidos no citado documento:

“Esta Sagrada Congregação, que tem a responsabilidade de promover e de defender a doutrina da fé, propõe-se hoje recordar aquilo que a Igreja ensina, em nome de Cristo, especialmente quanto ao que sobrevém entre a morte do cristão e a ressurreição universal:

1) A Igreja crê numa ressurreição dos mortos (cf. Símbolo dos Apóstolos).

2) A Igreja entende esta ressurreição referida ao homem todo; esta, para os eleitos, não é outra coisa senão a extensão, aos homens, da própria Ressurreição de Cristo.

3) A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência, depois da morte, de um elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que o “eu humano” subsista, embora entrementes careça do complemento do seu corpo. Para designar esse elemento, a Igreja emprega a palavra “alma”, consagrada pelo uso que dela fazem a Sagrada Escritura e a Tradição. Sem ignorar que este termo é tomado na Bíblia em diversos significados, Ela julga, não obstante, que não existe qualquer razão séria para a rejeitar e considera mesmo ser absolutamente indispensável um instrumento verbal para sustentar a fé dos cristãos.

4) A Igreja exclui todas as formas de pensamento e de expressão que, se adotados, tornariam absurdos ou ininteligíveis a sua oração, os seus ritos fúnebres e o seu culto dos mortos, realidades que, na sua substância, constituem lugares teológicos.

5) A Igreja, em conformidade com a Sagrada Escritura, espera “a gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (cf. Constituição “Dei Verbum” l, 4), que Ela considera como distinta e diferida em relação àquela própria do homem imediatamente depois da morte.

6) A Igreja, ao expor a sua doutrina sobre a sorte do homem após a morte, exclui qualquer explicação que tirasse o sentido à Assunção de Nossa Senhora naquilo que ela tem de único; ou seja, o fato de ser a glorificação corporal da Virgem Santíssima uma antecipação da glorificação que está destinada a todos os outros eleitos.

7) A Igreja, em adesão fiel ao Novo Testamento e à Tradição acredita na felicidade dos justos que “estarão um dia com Cristo”. Ao mesmo tempo Ela crê numa pena que há de castigar para sempre o pecador que for privado da visão de Deus, e ainda na repercussão desta pena em todo o ser do mesmo pecador. E, por fim, Ela crê existir para os eleitos uma eventual purificação prévia à visão de Deus, a qual no entanto é absolutamente diversa da pena dos condenados. É isto que a Igreja entende quando Ela fala de inferno e de purgatório”.

3. A autoridade de tal documento

O leitor percebe que o assunto em pauta (ressurreição dos corpos) não é de ordem filosófico-racional, nem é de ordem experimental, mas se situa estritamente no plano da fé.

Isto quer dizer que qualquer dúvida a respeito há de ser dirimida não por recurso a princípios filosóficos, mas por consulta ao depósito da fé, que é a Palavra de Deus transmitida pela Tradição oral e pela Tradição escrita.

Ora a Escritura insinua a tese da ressurreição dos corpos por ocasião da segunda vinda do Senhor ou da consumação dos tempos. Tenham-se em vista os dizeres de

1Cor 15,22-24: “Assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida. Cada um, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. A seguir, haverá o fim, quando Ele entregar o reino a Deus Pai, depois de ter destruído todo Principado, toda Autoridade, todo Poder”.

Jo 5,25.28s: “Em verdade, em verdade, eu vos digo: vem a hora – e é agora – em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem, viverão… Não vos admireis com isto: vem a hora em que todos os que repousam nos sepulcros ouvirão a voz do Filho do homem e sairão: os que tiverem feito o bem, para uma ressurreição de vida; os que tiverem cometido o mal, para uma ressurreição de condenação”.

1Ts 4,16s: “Quando o Senhor, ao sinal dado, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina, descer do céu, então os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; em seguida, nós, os vivos que estivermos lá, seremos arrebatados com eles nas nuvens para o encontro com o Senhor nos ares”.

Quanto à Tradição oral ou à Palavra de Deus viva, que berçou e acompanha a Escritura através dos séculos, possuindo seu órgão autêntico no magistério da Igreja, tem professado a ressurreição tão somente por ocasião da parusia. A Declaração que estamos analisando, é precisamente a expressão da consciência que a Igreja tem desta verdade; o magistério quis reafirmar tal consciência precisamente num momento em que vinha sendo contraditada por teorias estranhas. A intenção, da Igreja, de propor a autêntica fé mediante tal documentos se depreende de dizeres do próprio texto:

Veja-se, por exemplo, a introdução aos sete pontos doutrinais atrás transcritos: A S. Congregação, tendo a responsabilidade de promover e tutelar a doutrina da fé, tenciona recordar a doutrina que a Igreja ensina em nome de Cristo”.

Pouco antes, referindo-se a tal doutrina, o texto enfatizava a necessidade de que “os que possuem a missão de ensinar, tenham bem claro o que a Igreja considera como pertencente à essência da sua fé”. Mais: o texto lembra outrossim que “a pesquisa teológica não pode ter outra finalidade senão a de aprofundar e explicar o que a Igreja professa como pertencente à essência da fé”. À teologia, portanto, toca desenvolver o teor da Carta em foco, e não contradizer a essas afirmações. – Tal conclusão é coerente com a índole típica do trabalho teológico; com efeito, a teologia é “fides quaerens intellectum”, é a fé que procura compreender. Isto significa que a teologia parte da fé ou constrói-se sobre a fé…, fé na Palavra de Deus que vem ao homem tanto por via oral (Tradição oral) como por via escrita (S. Escritura).

A propósito ver:
BLATNICKY, RUDOLF, Tra la morte del Cristiano e la risurrezione universale, em “Salesianum” 45 (1983), pp. 63-77.
BLANDINO G., La rivelazione e l’mmortalitá dell’ “lo” umano, em La Civiltà Cattolica 132 (1981), pp. 209-224.
RATZINGER, JOSEPH, Zwischen Tod und Auferstehung, em “Internationale Katholische Zeitschrift” 9 (1980), pp. 209-223.
POZO, CANDIDO, Immortalità e risurrezione em “L’Osservatore Romano” 20/01/1982, pp. 1-2; 25-26/01/1982, pp. 1 e 3.
POZO, CANDIDO, Teologia del más allá, Madrid 1981.
SCHMAUS, MICHAEL, Der Glaube der Kirche, Band VI/2, Sankt Ottilien 1982.
¹ SACRA CONGREGATION PRO DOCTRINA FIDEI, Epistula de quibusdam quaestionibus ad eschatologiam spectantibus. E Civitate Vaticana 1979.
¹ Veja-se o texto de 1Cor 15,22-24a:
“Como todos morreram em Adão, assim reviverão todos em Cristo. Mas cada um na sua ordem: como primícias, Cristo; depois, os que são de Cristo na sua vinda (parusia). Em seguida, será o fim, quando Ele entregar o Reino a Deus seu Pai”.
Como se percebe, São Paulo prevê a ressurreição de todos os mortos por ocasião da parusia e não antes.

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