O Concílio Vaticano II como evento universal e missionário

Memória histórica e considerações teológicas a 40 anos de sua abertura

 de Estevão Raschietti ([email protected])

O aniversário passou quase despercebido. No último dia 11 de outubro, celebraram-se os 40 anos da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II, mas as comemorações foram um tanto sóbrias, no Brasil como no exterior. Aqui, apesar de alguma louvável iniciativa[1], a data foi praticamente ignorada pelas instâncias principais da Igreja no Brasil. Lá fora, um Angelus do Papa no dia 13 de outubro, algumas analises de destaque e pouco mais.

Qual o motivo de tanto descaso com um dos eventos mais importantes da história da igreja e da humanidade do século XX? Esquecimento, falta de memória histórica, a rotina cotidiana que nos impede de lembrar de certos acontecimentos? Ou omissão proposital, apagão induzido na consciência eclesial, véu de piedoso silêncio sobre um possível “erro” histórico que tanto estrago causou na cristandade às vésperas do terceiro milênio?

Tenha a certeza o leitor, que setores influentes na igreja estão trabalhando afinco nesta segunda perspectiva. No entanto, quem mais deveria zelar pelo patrimônio do concílio, as CEBs, as pastorais, os movimentos leigos, etc. – todos filhos e filhas do Vaticano II –, não parecem mostrar o mesmo ânimo no resgate, na reflexão e na celebração de sua caminhada e de sua identidade. Isso gera uma certa preocupação e um pouco de compadecimento.

Lembrar hoje da importância do Concílio Ecumênico Vaticano II não representa um saudosismo facultativo, nem uma pretensão triunfalista. Ao contrário, diz respeito a um compromisso essencial e profético dos cristãos diante do mundo de hoje. Afinal, foi com o Vaticano II que a igreja católica inaugurou uma época de transição de uma cristandade fechada e autocomplacente para uma igreja mundial e missionária.[2]

Ao menos que não queiramos voltar atrás, sair da inércia e da omissão em relação à herança conciliar significa sobretudo redescobrir uma disposição fundamental de espírito e atitudes para encarar os desafios que estão à nossa frente.

Para alcançarmos este objetivo, é necessário olhar para o Vaticano II através de uma perspectiva hermenêutica que convida a compreende-lo como evento e não apenas como uma soma de decisões e de textos produzidos: sua gestação, seus bastidores, o profundo anseio de busca e de diálogo de seus protagonistas, a carga de renovação, as temáticas de sua agenda, etc.[3]

O nosso percurso, portanto, será voltado a evidenciar algumas chaves de leitura a partir do entendimento do concílio como evento no seu conjunto, enfatizando sua abertura missionária e universal, particularmente em sua inspiração inicial, em sua identidade, nas instâncias principais que animaram os debates de suas sessões.

1. o surgimento da Idéia de convocar um concílio.

“Pronuncio perante vós, certamente tremendo um pouco de emoção, mas também com humilde firmeza de intenção, o nome das duas celebrações: um Sínodo diocesano para a cidade de Roma e um Concílio geral para a Igreja Universal”.[4]

Com estas palavras, em 25 de janeiro de 1959, Papa João XXIII anunciava a decisão de convocar um concílio para a Igreja, a menos de noventa dias após sua eleição como sucessor de Pio XII.

O que foi logo definido como “um gesto de tranqüila audácia”[5] aconteceu no decorrer de uma breve alocução dirigida a um pequeno grupo de cardeais, reunidos por ocasião da conclusão da semana de orações pela unidade dos cristãos, na basílica de São Paulo fora dos muros, em Roma.

A surpresa e a desorientação curial diante desse anúncio emocionado, mas ao mesmo tempo determinado, feito por um papa de transição, eram fatores destinados, desde o começo, a compor o quadro de impacto extraordinário e universal para a Igreja e para o mundo.

A hermenêutica jurídica presta atenção à “vontade do legislador” para a interpretação correta das normas. Em relação ao concílio, tal referência é dada pela vontade “soberana” do papa que o concebeu, o convocou e conduziu os trabalhos da primeira fase. A “vontade do legislador” constitui, portanto, um primeiro critério para entender o significado global do Vaticano II.

Ao abrir os trabalhos conciliares, João XXIII afirmaria que a idéia do concílio fora “um lampejo de luz suprema”, e o “florir elementar e imprevisto em nosso coração e de nossos lábios da palavra singela «concílio ecumênico»”.[6] Numa anotação no seu Diário da alma de 20 de janeiro de 1959 afirma “sem termos pensado antes”.[7]

Contudo, essa iluminação pessoal e imprevista, “uma decisão livre e independente como talvez jamais se tenha verificado na história dos concílios ecumênicos”[8], foi, de fato, fruto de uma convicção lentamente sedimentada no espírito do “papa bom”[9] e no espírito da época.[10]

1.1 Os desafios dos novos tempos

Os desafios dos novos tempos, perspicazmente percebidos por papa Roncalli, foram determinantes em sua inspiração. Na mesma alocução de janeiro de 1959, João XXIII já se referia a “épocas de renovação”. Segundo ele, a Igreja estava “no limiar de uma nova época”[11], “numa época que se poderia chamar de missão universal”[12], na qual “é preciso acolher a recomendação de Jesus para saber distinguir os «sinais dos tempos» (…) e descobrir, no meio de tantas trevas, indícios que levam a esperar”, como afirmaria na Constituição Apostólica de convocação do próprio concílio.[13]

O papa não desgrudava seu olhar da situação mundial da humanidade que já traçava os distintos perfis do que hoje chamamos de globalização. A experiência de trinta anos de diplomacia na Bulgária, na Turquia, na Grécia e na França, além de um significativo período como presidente das Pontifícias Obras Missionárias na Itália, antes de ser nomeado bispo em 1925, fez de Roncalli um espírito missionário sensível e atento aos sinais de evolução da situação mundial.

Junto ao trauma universal induzido pelo segundo conflito mundial, ao milagre econômico alemão e italiano, à incipiente revolução tecnológica, à consolidação dos blocos geopolíticos dos Eua e da URSS, com as conseqüentes “guerra fria” e ameaça atômica, o elemento mais importante que marcava a conjuntura do planeta na época do concílio era o fim do colonialismo e a ascensão do Terceiro Mundo.[14]

Diferentemente de seu predecessor, João XXIII deixa-se envolver muito mais pelas questões internacionais que por circunstâncias políticas internas italianas. A luta contra o comunismo não predomina mais no magistério papal, enquanto a preocupação com a paz mundial torna-se um tema dominante de seu pontificado. O horizonte roncalliano é um horizonte profeticamente universal, repleto daquele otimismo – considerado às vezes ingênuo – típico dos anos sessenta. Depois de tantas tempestades na vida da humanidade, como foram as duas guerras mundiais, um sentimento universal de “alegria e esperança” tinha surgido como um clarão diante das distensões entre a América de Kennedy e o comunismo de Khrushchev, do avanço tecnológico e econômico de muitos países e da emancipação das nações africanas.

“Sem dúvida, a convocação do concílio se beneficia do otimismo econômico, político e cultural geral. Procurar-se-iam em vão laços mais estreitos: é preciso se contentar com afirmar, e não é pouco, que a decisão pontifícia parece convergente, em sua vontade de união e abertura, com uma das tendências maiores de sua época, tendência que ela vai contribuir vigorosamente para reforçar”.[15]

1.2 Os pontos nodais

Tendo em vista todas essas considerações e todo o conjunto do pontificado roncalliano, os pontos nodais da inspiração de João XXIII, ao convocar um concílio, podem ser esquematicamente deduzidos de seus pronunciamentos diretamente atinentes à preparação do evento: particularmente, a constituição Humanae Salutis, a mensagem radiofônica de 11 de setembro de 1962 e a alocução Gaudet Mater Ecclesia da solene abertura de 11 de outubro do mesmo ano.

Desses textos aparecem como centrais os seguintes pontos:

–          o concílio como “novo Pentecostes”, ou seja, como transição da Igreja para uma época nova mediante “um salto adiante”[16];

–          a distinção entre a substância do depositum fidei e suas mutações históricas, e a conseqüente necessidade de colocar em contato o Evangelho com o mundo moderno[17];

–          o olhar para a humanidade à luz do grande mandato de Mt 28,16-20[18] e o compromisso da Igreja de perscrutar os sinais dos tempos[19], de trabalhar pela paz[20], pela unidade dos cristãos[21] e da família humana.[22]

O Vaticano II passou pela presidência de dois papas. Paulo VI deu continuidade à iniciativa de João XXIII, através de três períodos celebrados entre 1963 e 1965. É inegável o peso de seus aportes e de suas orientações sobre os trabalhos conciliares. No entanto, a intenção e a inspiração de João XXIII deixaram um marco único na fisionomia do concílio, ao passo que a contribuição de Paulo VI incidiu mais na redação de suas decisões.

2. os eixos principais do vaticano II

“A sua razão de ser [do Concílio Vaticano II] é a continuação, ou melhor a retomada mais enérgica da resposta do mundo inteiro, do mundo moderno ao testamento do Senhor, formulado naquelas palavras pronunciadas com divina solenidade, as mãos estendidas rumo aos confins do mundo: «Euntes ergo docete omnes gentes»”.[23]

Estas palavras da mensagem radiofônica de João XXIII, um mês antes da solene abertura do Vaticano II, deram, depois de um longo e conturbado período de preparação[24], uma clara orientação aos trabalhos conciliares. O grande mandato de Mateus torna-se um dos lemas do evento, o trecho bíblico mais citado em suas variadas formas nos documentos finais.

O cardeal belga Leo Jozef Suenens, umas das figuras-chaves do concílio, dirá que “essas palavras constituem os próprios temas do plano”.[25] Meses antes, Suenens apresentara ao papa uma nota, revelando preocupações em relação aos trabalhos preparatórios, obtendo dele a permissão de aprontar um plano mais coerente para a realização do concílio. Esta proposta foi exposta a um grupo seleto de cardeais que a apoiaram calorosamente.

O esquema de Suenens acabou inspirando a mensagem radiofônica, dando expressão à mais genuína visão do papa sobre o concílio. Esta mensagem, obra originalíssima de Roncalli[26], representa um imediato contraponto à rigidez teológica e dogmática dos textos que surgiram das comissões preparatórias. Praticamente, delineia a identidade, o objetivo, a razão do Vaticano II. Dando continuidade às palavras de Mateus 28,16-20, ele traça dois grandes eixos sobre os quais devem tomar forma os trabalhos conciliares. O primeiro, o eixo ad intra, de caráter dogmático, sobre a realidade e a natureza da Igreja “qual ela é”.[27] O segundo, o eixo ad extra, de caráter pastoral, sobre a missão da Igreja diante “as exigências e as necessidades dos povos”.[28]

2.1 O aggiornamento

Em relação ao primeiro, papa João lança a expressão aggiornamento[29], destinada a tornar-se um dos principais relevos hermenêuticos de todo evento conciliar, apesar da dificuldade de sua rigorosa determinação conceitual.

A palavra aparece tanto nos textos oficiais de João XXIII como nas decisões conciliares sucessivas, sob formas latinas equivalentes como “accomodatio”, “renovatio accomodata”, etc.[30] Em particular, a encíclica Ad Petri Cathedram define a tríplice finalidade do Concílio como “o incremento da fé católica e a saudável renovação dos costumes no povo cristão e para a disciplina eclesiástica se aggiornar melhor às necessidades dos nossos tempos”.[31] Na alocução Gaudet Mater Ecclesia o papa afirma que “com oportunos aggiornamenti e com sábia organização de mútua colaboração, a Igreja fará com que os homens, as famílias, os povos realmente se voltem para as coisas celestes”.[32]

João XXIII percebia o desnível e o mal-estar no qual se encontrava a Igreja diante do mundo contemporâneo, e decretava, de forma sutil mas decidida, o fim de uma “cristandade” segregada do mundo e fechada em si.[33] O concílio entraria aos poucos em sintonia com a visão do papa no final da primeira sessão.[34]

A Gaudet Mater Ecclesia não poupava também duras críticas aos “profetas de desgraças”, que “nos tempos modernos não vêem senão prevaricações e ruínas (…) como se nos tempos dos Concílios Ecumênicos anteriores tudo procedesse em plenitude do triunfo da idéia e da vida cristã”.[35] Não existe uma idade de ouro da Igreja que deve ser restaurada, mas “a Providência está-nos conduzindo a uma nova ordem de relações humanas, que (…) se dirigem ao cumprimento de desígnios superiores e não esperados”.[36]

Com essa visão otimista, o aggiornamento ad intra não propõe propriamente uma reforma da Igreja, mas uma nova postura de busca e de abertura em continuidade-transformação entre a tradição e a novidade, diante dos desafios mundiais dos novos tempos. Alberigo sublinha:

“Não uma reforma institucional, nem uma modificação doutrinal, mas uma imersão total na tradição finalizada a um rejuvenescimento da vida cristã e da Igreja. Uma fórmula em que a fidelidade à Tradição e a renovação profética estavam destinadas a conjugar-se; a leitura dos «sinais dos tempos» devia entrar em sinergia recíproca com o testemunho evangélico”.[37]

Nesse sentido, o aggiornamento leva a caracterizar o Vaticano II como um concílio eclesiológico, um “concílio da Igreja sobre a Igreja” – segundo uma célebre expressão de Rahner –, um marco profundamente identitário, retomado com maior força por Paulo VI no Discurso de Abertura da II Sessão, que se desenvolve quase paradoxalmente não numa atitude introspectiva e autocomplacente, mas numa linha de abertura ao mundo e de reconhecimento dos outros.

2.2 A pastoralidade

Estritamente ligado ao motivo ad intra, está, portanto, o eixo ad extra que caracteriza o evento-concílio por outra dimensão fundamental: a pastoralidade. Tal característica atravessa todo o percurso biográfico de Roncalli como um marco constante.[38] Durante sua coroação como papa, acentuou seu compromisso de ser um bom pastor, segundo a imagem do décimo capítulo do evangelho de João, acrescentando que:

“as outras qualidades humanas, a ciência, a percepção, o tato diplomático e as qualidades organizativas podem se transformar num fato que complementaria um governo pontifical, mas de alguma forma podem substituir a função de pastor”.[39]

Com o anúncio de um concílio para a Igreja universal, ele convoca “um Sínodo diocesano para a Igreja de Roma”[40] porque sentia-se, não só simbolicamente mas autenticamente, bispo de Roma. Ele fez várias visitas pastorais às paróquias da cidade, rompendo a habitual separação e clausura do papa no Vaticano, recolhendo um amplo, convergente e decisivo consenso na opinião pública. Assim, João XXIII deu expressão à tensão universalidade-contextualidade própria de seu ministério, fazendo dele um espírito mundialmente aberto aos desafios da humanidade, mas ao mesmo tempo atento e atuante, com o pé no chão, na sua realidade contextual.

Pastoral é a palavra-chave da eclesiologia de Roncalli. Junto ao aggiornamento ocupa um lugar na alocução que anuncia o concílio, quando ele o põe na “única perspectiva do bonum animorum e de uma correspondência bem clara e precisa do novo pontificado com as exigências espirituais da hora presente”.[41]

De maneira definitiva e inequívoca, na Gaudet Mater Ecclesia, João XXIII fala da necessidade de apresentar a doutrina “de modo que responda às exigências do nosso tempo. Uma coisa é de fato o depósito da fé (…) outra é a forma com a qual [as verdades] são proclamadas”. A preocupação do concílio não deve ser, portanto, “a discussão deste ou daquele tema da doutrina fundamental da Igreja”, mas a linguagem (“a forma”) de como esta doutrina deve ser apresentada:

“Precisará atribuir muita importância a esta forma e, se for necessário, precisará insistir com paciência em sua elaboração: e se deverá recorrer a uma maneira de apresentar as coisas, que mais corresponda ao magistério, o caráter do qual é preeminentemente pastoral”.[42]

Segundo o papa, “agora a esposa de Cristo prefere usar o remédio da misericórdia àquele da severidade”. E ainda: “ela julga atender às necessidades de hoje, mostrando a validade de sua doutrina mais que renovando condenações”.[43] Um espírito abertamente em contraste com o Syllabus de Pio IX, onde aparece como grave erro o fato de achar que “o Pontífice Romano pode e deve reconciliar-se e transigir com o progresso, com o liberalismo e com a recente civilização”.[44]

Pode-se perguntar em que medida essa postura pastoral de João XXIII tenha sido um aspecto da necessidade de superar a exasperada tensão que veio se criando ao redor do significado e do valor da “doutrina”, e conseqüentemente da disciplina, por ocasião da polêmica modernista. Todavia, com certeza, para o papa, a consideração da história, em sua relação com o Evangelho e com a doutrina cristã, é de relevância prioritária. Segundo Ruggieri,

“a formulação da roupagem não aparece mais como algo caduco, mas como imperativo histórico sempre novo, como algo a levar em conta pelo magistério, que é de natureza predominantemente pastoral. Inseria-se assim a conotação pastoral no próprio âmago da dimensão doutrinal do cristianismo, como exigência inerente à doutrina para que se leve em conta a sua substância no tempo: pastoral como hermenêutica histórica da verdade cristã”.[45]

Nesse sentido o Vaticano II, em sua pastoralidade, foi logo entendido como um concílio totalmente novo, como afirma dom Boaventura Kloppenburg:

“O Vaticano II é sobretudo um concílio que se distingue muito mais pelo espírito, que pelas novas explicitações da doutrina cristã (…) o especificamente novo e importante do XXI Concílio ecumênico está na sua atitude pastoral, ecumênica e missionária perante o mundo de hoje. (…) O Vaticano II é sobretudo um Concílio com novos acentos e novas palavras sublinhadas. Sublinhar uma palavra ou uma frase é sem dúvida um ato subjetivo, condicionado por situações e circunstâncias (…) Mudança de acento não significa nem implica alteração na doutrina. O acento é acidental, mas – convém insistir – é precisamente o acidente que dá o colorido e o estilo”.[46]

Contudo, não faltam nos textos finais do Vaticano II, como não deixa de relevar o mesmo Kloppenburg, importantes explicitações doutrinais. Permanece o fato de que o concílio está mais preocupado com a transmissão da doutrina cristã do que com o seu estrito conteúdo.

3. As instâncias cruciais da agenda conciliar

Ao jornalista que lhe perguntou sobre o que esperava do Vaticano II, João XXIII respondeu que não sabia muito bem. Porém, abrindo a janela, acrescentou: “pelo menos ar fresco”.[47]

Há tempo, muitas instâncias esperavam ser acolhidas como “ar fresco” pela Igreja de Roma. Particularmente, os fermentos surgidos na teologia da Europa central, depois do vendaval antimodernista, com as novas experiências apostólicas em sociedades mais industrializadas (Chenu, Thils, Philips), o confronto com a teologia protestante, a migração russa e as instâncias ecumênicas (Beauduin, Congar), os estímulos recebidos por algumas correntes filosóficas (Rahner, Schillebeeckx), a evolução da exegese bíblica e a redescoberta das fontes cristãs (Cerfaux, De Lubac), foram abrindo caminhos criativos para a reflexão cristã-católica no seio de sociedades sempre mais secularizadas.

José Comblin, numa nota autobiográfica, faz estas considerações:

“Estudei em Lovaina. Quer dizer que o Vaticano II não foi novidade para mim. Era o que tínhamos aprendido quinze anos antes. A novidade foi que a hierarquia começou a dizer o que pensávamos quinze anos antes. Isso nunca tínhamos imaginado. De minha parte, tinha colaborado várias vezes com o cardeal Suenens, que foi o articulador principal do Vaticano II”.[48]

Começam a convergir, depois do anúncio de janeiro de 1959, grandes expectativas a respeito do concílio, que encontrarão uma certa expressão nos textos e nas decisões finais.

Quatro podem ser considerados como pontos cruciais das instâncias que chegaram e que ganharam destaque no foro conciliar: a centralidade da palavra de Deus e do mistério trinitário, uma nova concepção da Igreja, a questão ecumênica e os sinais dos tempos.

3. 1 A dimensão mistérica

A primeira instância retoma com força a dimensão mistérica da mensagem cristã na forte acepção bíblica de uma revelação meta-racional, conhecível somente em partes por meio de aproximações parciais, entre elas complementares e não exclusivas. Essa postura, que perpassa toda a celebração do Vaticano II e os textos de suas decisões, implica conseqüências de certo porte para uma concepção da “verdade” como complexo orgânico de proposições dogmáticas.

De fato, a hegemonia da impostação metafísica, que se afirmou com o influxo da cultura helenista, conferiu uma importância sempre maior à “verdade”, entendida como conjunto abstrato e atemporal de conceitos, medida definitiva para a comunhão eclesial. A perspectiva bíblica, ao contrário, mostra a verdade cristã como mistério trinitário revelado na pessoa de Jesus e narrado pela tradição, um mistério vivo, inexaurível e recapitulador de toda a economia salvífica, que convoca para uma adesão e um seguimento incondicional. “O caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6) é, portanto, a pessoa de Jesus em toda a espessura de seu mistério e não mais certa coerência conceitual de formulações doutrinais.

3.2 A natureza da Igreja

A opção metodológica pelo mystêrion, no resgate paulino de uma realidade concreta de salvação, aplica-se também à natureza da Igreja, concebida agora como “sacramento” e não mais, primariamente, como instituição. A nova perspectiva vai além de um superamento de uma visão “essencialista” da Igreja como sociedade perfeita, para apelar, antes de mais nada, para as dimensões profundas de fé que a constituem. O ponto de partida da Lumen Gentium não podia ser mais explícito nesse sentido, com um primeiro capítulo inteiramente dedicado ao “mistério da Igreja” em sua fundamentação bíblica e trinitária, marcando o passo para uma virada eclesiológica.

“A prevalência de uma temática de tipo bem mais horizontal na eclesiologia remonta quase sempre ao ponto de partida adotado por ela de fora para dentro, quer dizer, de sua realidade institucional ao mistério de vida sobrenatural que manifesta e comunica, entretanto, quando se parte de dentro para fora se insiste mais na realidade mistérica da Igreja”.[49]

De dentro para fora: um enfoque missionário de abertura contra uma tensão introspectiva de fechamento; uma verticalização entre alturas últimas e últimas profundezas contra o achatamento horizontal das instituições históricas. A instância de ultrapassar o eclesiocentrismo ganha uma expressão decisiva em prol da redescoberta de outras dimensões fundamentais da vida cristã. A fé, a comunhão e o serviço tornam-se agora os critérios-guia de pertença eclesial, no lugar da lógica interna das instituições eclesiásticas. A aplicação da realidade bíblica do “povo de Deus” à Igreja supera a cristalização de uma concepção monolítica apresentando uma dinâmica de um povo a caminho e em contínuo aggiornamento diante do mistério de sua vocação. Ganham espaço temas como o sacerdócio comum, o sensus fidelium e a comunhão entre igrejas, todos aspectos que levam a uma profunda contemplação do mistério da Igreja para uma expressão histórica radicalmente renovada.

3.3 O ecumenismo

Uma terceira instância que caracteriza o evento conciliar desde seus alvores e em suas íntimas entranhas, é a ecumenicidade. Na redação oficial do primeiro anúncio de janeiro de 1959, pronunciado não por acaso na conclusão da semana de orações pela unidade dos cristãos, já se fala de “concílio ecumênico” que quer ser “um convite às comunidades separadas para a busca da unidade, pela qual tantas almas hoje anelam de todas as partes da terra”.[50]

No primeiro comentário oficioso, L’Osservatore Romano escreve que o concílio não seria o “concílio do medo” mas o “concílio da unidade”.[51]

Na Ad Petri Cathedram, João XXIII afirma que o concílio

“sem dúvida, constituirá maravilhoso espetáculo de verdade, unidade, e caridade; espetáculo que, ao ser contemplado pelos que vivem separados desta Sé Apostólica, os convidará, como esperamos, a buscar e conseguir a unidade pela qual Cristo dirigiu ao Pai do Céu a sua fervorosa oração”.[52]

E fazendo referência praticamente explícita ao Conselho Mundial de Igrejas, continua:

“Sabemos, além disso, que a maior parte dos cristãos, ainda que separados de nós e entre si, têm realizado congressos e organizado conselhos para se unirem: tudo isto mostra o veemente desejo que os impele a chegarem ao menos a certa unidade”.[53]

Percebendo a forte instância dos tempos, Roncalli cria, por sua vez, em março de 1960, o Secretariado para a União dos cristãos, confiando-o ao cardeal Bea e tirando-o das competências do Santo Ofício.

Enfim, representantes de outras igrejas são convidados a participar do Vaticano II como observadores. Suas intervenções através do Secretariado para a União foram significativas e incisivas.

A dimensão ecumênica foi aquela que, desde o começo, causou as maiores reações e resistência por parte da cúria romana. Mas para João XXIII, esta questão conjugava-se substancialmente com sua postura pastoral e com seu apelo incessante para a unidade da família humana. Paulo VI, por sua vez, dará ao ecumenismo o caráter de universalidade, pelo menos em duas ocasiões em seus discursos oficiais.[54]

3.4 O diálogo com o mundo moderno

O último aspecto representa, sem dúvida, a quarta e mais significativa instância que ganha destaque com a celebração do Vaticano II. A urgência e a profunda disposição a querer dialogar com o mundo moderno, é o grande pano de fundo e a principal motivação interior do concílio.

Desde sua convocação oficial, em dezembro de 1961 com a Humanae salutis, João XXIII chama à atenção para uma humanidade no limiar de uma nova era. As conquistas no campo técnico e científico prometem “um grande progresso material ao qual não corresponde um igual avanço em campo moral”.[55] Mas isso leva as pessoas a “tornarem-se pensativas, mais cientes de seus limites, desejosas de paz, atentas à importância dos valores espirituais”, e acelera “aquele processo de estrita colaboração e recíproca interação entre indivíduos, classes e nações (…) Tudo isso facilita sem dúvidas o apostolado da Igreja”.[56].

Para o papa, esse é um “sinal dos tempos”.[57]

Esse conceito, que faz sua entrada oficial na teologia católica com a Humanae Salutis, ganha expressão decisiva com a Pacem in Terris e torna-se uma das palavras-chaves do magistério de João XXIII. O concílio, por sua vez, retoma-o quatro vezes em seus documentos finais[58], embora como tal reapareça mais vezes.

A expressão “sinais dos tempos” tem um sentido positivo de esperança e quer explicitamente corrigir uma visão pessimista diante do mundo moderno, a dos “profetas de desgraças”[59], dominante na tradição católica, pelo menos desde a encíclica Mirari vos (1832), de Gregório XVI.

Não é uma categoria meramente sociológica mas, principalmente, histórico-teológica. Ela ocorre na Escritura uma só vez, em Mt 16,3, para indicar os sinais da era messiânica, ou seja, as palavras e os atos de Jesus de Nazaré. Na passagem paralela de Lc 12,56 aparece o termo kairós, o tempo qualificado em que é oferecida ao gênero humano a graça de Deus. O seu significado é, portanto, cristológico e escatológico:

“De certo modo, o único sinal dos tempos é o próprio Cristo. A partir daí e da presença da Igreja mediante o seu Espírito, mas também em toda a criação, pode-se documentar como no Novo Testamento este kairós, este momento oportuno da graça, percorre a história de ponta a ponta até a última vinda e a reconciliação final de todas as coisas”.[60]

A história torna-se assim um locus theologicus privilegiado, uma epifania de Deus, não só no passado narrado, mas sobretudo no tempo presente, graças à tomada de consciência coletiva de “sinais dos tempos” que nos indicam para onde “a Providência está nos conduzindo”.[61]

Na Pacem in terris, Roncalli fala de três “sinais dos tempos” que caracterizam a época moderna[62]: a ascensão econômico-social das classes trabalhadoras, a entrada da mulher na vida pública e a igualdade entre todos os povos. Mas é a este último aspecto que dedica praticamente toda a encíclica, assim como, ao convocar o concílio, insiste particularmente sobre a paz, a justiça e a fraternidade na humanidade mundial. A mensagem dos padres ao mundo, na abertura do concílio, retomaria com vigor pontual esses aspectos.[63] E Paulo VI, de volta da viagem à ONU, em Nova Iorque, dirá que o concílio é a contribuição da Igreja para a paz universal.[64]

Para o idealizador do Vaticano II, a questão social[65], refletida no desejo de paz e de justiça para todos, e sua dimensão universal representam, respectivamente, o grande tema da agenda conciliar e o eixo central ao redor do qual confluem as outras instâncias ad intra e ad extra, e tomam forma o aggiornamento e o compromisso apostólico da Igreja. Uma nova ordem mundial[66] constitui, em síntese, o principal dos “sinais dos tempos”: um sinal providencial de esperança “quae Ecclesiae humanoque generi melioris aevi videntur auspicia portendere”.[67]

Conclusão

Num discurso pronunciado em 1979, Karl Rahner abordou a questão de uma “interpretação teológica fundamental do Vaticano II”, entendendo por “fundalmental” “não induzida por fora, mas sugerida pelo próprio concílio”.[68]

Para o teólogo alemão, a realização desse evento representa a primeira auto-afirmação oficial de uma Igreja mundial (world church) que se prepara a migrar de um âmbito culturalmente ocidental-europeu para um âmbito planetário.[69] Rahner fala dessa passagem em termos de “nova cesura, ao par daquela que houve na passagem do cristianismo judaico ao cristianismo dos gentios”.[70]

Neste sentido, outros estudiosos propõem de estender ao Vaticano II a caracterização de transição, aplicada originariamente ao pontificado de João XXIII. Desta vez, porém, num sentido forte: ou seja, no que diz respeito à saída da Igreja da época tridentina para o começo de uma nova estação. O concílio seria neste caso um ponto de não retorno, uma chegada e um novo ponto de partida, um “evento” mais que um foro de elaboração e produção de normas.[71]

Sem dúvida o Concílio Vaticano II foi um evento profeticamente universal e profundamente missionário diante dos desafios mundiais da humanidade, às vésperas do novos milênio.

Em primeiro lugar, o concílio foi um evento universal. Foi o mais ecumênico da história da Igreja, com um total 3054 padres conciliares. O primeiro concílio ecumênico, o de Nicéia, em 325, foi tradicionalmente chamado de “o grande e santo sínodo dos 318 padres”. O Vaticano I, o último e o mais numeroso até então, contara somente com 642 prelados.

O “espetáculo de universalidade”[72] dos bispos vindos de todas as partes do mundo, na aula conciliar, já falava por si, ainda se repleto de um certo triufalismo. Não tardará, porém, a mostrar seu rosto profético num concílio que não foi só a maior assembléia deliberante talvez jamais vista na história, mas também um foro universal particularmente atento aos problemas da humanidade e pelo qual a humanidade demonstrou tão interesse.

Sem dúvida, uma das críticas mais procedentes revela que o Vaticano II foi um concílio ainda demasiadamente ocidental, marcado por um otimismo ingênuo e paternalista. De fato, exalta e prioriza o confronto entre grandes sujeitos universais como Igreja e mundo, na onda desenvolvimentista dos anos 60, esquecendo um pouco os sujeitos intermédios (povos, culturas, grupos humanos). Contudo, estes agora existem, de alguma forma aparecem, reclamam e começam a fazer ouvir a própria voz. Medellín constituirá a primeira consistente configuração de uma Igreja não-européia. Dali em diante terá uma efervescência extraordinária de afirmações identitárias, flores e frutos  do grande impulso e do genuíno espírito conciliar.

Em sua universalidade, o Concílio Vaticano II foi um evento missionário. Todos os aspectos mostrados até aqui apontam para uma decidida e inequívoca tensão missionária.

Será Paulo VI que dará à caracterização pastoral de João XXIII a conotação de missionária.[73] Em seu programático discurso de abertura do segundo período conciliar, em 29 de setembro de 1963, ele afirma:

“Enquanto a Igreja procura animar a sua vitalidade interior no Espírito do Senhor, distingue-se e separa-se da sociedade profana, na qual está imersa, qualificando-se, ao mesmo tempo, como fermento vivificante e instrumento de salvação do mundo, e descobrindo e fortalecendo a sua vocação missionária, que é a sua essencial destinação: fazer da humanidade, em qualquer condição ela se encontre, o objeto de sua apaixonada missão evangelizadora”.[74]

Se, de um lado, o Vaticano II caracteriza-se fundamentalmente, graças ainda a Paulo VI, como um concílio eclesiológico[75], no qual a Igreja “declara o que ela pensa de si própria”[76], por outro, será este mesmo papa que lembrará que não se trata de uma “introspecção voltada para si mesma”[77], que “a Igreja é para o mundo”[78], que “a religião católica é para a humanidade”[79] e que “o Concílio é um ato solene de amor para a humanidade”.[80]

Na Ecclesiam Suam, sua primeira encíclica, papa Montini faz uma incisiva declaração:

“Se a Igreja, como dizíamos, tem consciência do que o Senhor quer que ela seja, surge nela uma plenitude única e a necessidade de efusão, adverte claramente uma missão que a transcende e um anúncio que deve espalhar. É o dever da evangelização, é o mandato missionário, é o dever de apostolado (…) Dever seu, inerente ao patrimônio recebido de Cristo, é também a difusão, a oferta, o anúncio: «Ide, pois, ensinar todos os povos» (Mt 28,19). Foi a última ordem de Cristo aos seus Apóstolos. Estes, já com o simples nome de Apóstolos, definem a própria missão indeclinável. A este interior impulso da caridade, que tende a fazer-se dom exterior, daremos o nome, hoje comum, de diálogo”.[81]

A Igreja encontra a sua verdadeira identidade na missão. A identidade não é apenas “firme condição para uma abertura”[82] mas é também conseqüência de uma abertura missionária, como afirmam os bispos do Brasil no memorável documento Igreja: comunhão e missão.[83]

Dimensão ad intra e dimensão ad extra estão, portanto, intimamente interconexas. Mas é claramente a tensão ad extra, de dentro para fora, a dar o impulso decisivo ao concílio. De fato, o Vaticano II não foi um concílio missionário no sentido que se debruçou sobre questões missiológicas específicas e teve conseqüências práticas, imediatas e precisas na atividade missionária ad gentes. O concílio foi um evento missionário, totalmente embebido de uma tensão ad extra, no sentido que deslocou a Igreja para um profundo estado de missão universal.

Não será mais uma missão permeada pelo espírito de conquista, mas no esforço de “colocar em contato com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho o mundo moderno” (João XXIII)[84], “a Igreja olha para ele [o mundo] com profunda compreensão, com sincera admiração e com franco propósito de não o conquistar, mas de valorizá-lo; não de condená-lo, mas de confortá-lo e de salvá-lo” (Paulo VI).[85]

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[1] Alguns institutos teológicos realizaram seminários e conferências sobre o assunto. Destacaram-se a semana de estudos organizada pelo Instituto Teológico Pastoral, o Conselho Missionário Diocesano e a UFC de Fortaleza/CE (de 14 a 18 de outubro), e o Encontro de Formação do Conselho Missionário Regional de São Paulo (de 24 a 26 de maio).

[2] Segundo a interpretação de Karl Rahner: cf. Rahner, K. Interpretazione teologica fondamentale del Concilio Vaticano II. In: Rahner, K. Sollecitudine per la Chiesa, p. 343.

[3] Esta perspectiva levou recentemente o Instituto de Ciências Religiosas de Bolonha (Itália) a coordenar um grupo internacional de historiadores para a ambiciosa publicação de cinco volumes sobre a História do Concílio Vaticano II. Uma obra de excepcional qualidade e documentação que está sendo editada em português pela Vozes.

[4] ALBERIGO, G. O anúncio do concílio. In: ALBERIGO, G.; Beozzo, J.O. (Coords.) História do Concílio Vaticano II. v. I, p. 21, apud MELLONI A. “Questa festiva ricorrenza”. Prodromi e preparazione del discorso di annuncio del Vaticano II. RSLR 28 (1992). p. 607.

[5] Era esse o título de um comentário do pe. Glorieux sobre o anúncio do concílio em La Croix de 30.01.1959. Cf. ibid., p. 21.

[6] Alocução solene de abertura do Concílio Vaticano II Gaudium Mater Ecclesia, EV 34*. Para as citações dos documentos preparatórios e das mensagens entre as várias sessões do concílio, utilizaremos a seguinte fonte com a sigla EV: ENCHIRIDION VATICANUM. 1. Documenti ufficiali del Concilio Vaticano II 1962-1965. Bologna: EDB, 1981. O asterisco depois da número do parágrafo é indicado por essa mesma fonte, para distinguir os discursos pontifícios dos documentos conciliares.

[7] Cf. ALBERIGO, G. O anúncio do concílio. In: ALBERIGO, G.; Beozzo, J.O. (Coords.) História … v. I, p. 26. Em outra anotação do mesmo Diário de 11 de setembro de 1962 ele retoma: “sem nunca ter pensado, e contra qualquer suposição minha ou imaginação sobre isso. O primeiro a ficar surpreso com essa minha proposta fui eu mesmo”. Cf. ALBERIGO, G. Ângelo … p. 211.

[8] ALBERIGO, G. O anúncio do concílio. In: ALBERIGO, G.; Beozzo, J.O. (Coords.) História … v. I, p. 32.

[9] Assim era chamado pelo povo de Roma João XXIII. O seu caráter de homem pacífico, alheio ao conflito e carinhoso atraiu simpatias e teve um impacto determinante para o clima interno e externo ao concílio.

[10] Projetos de retomada do Concílio Vaticano I, interrompido em 1870, por causa da guerra franco-prussiana e da entrada dos italianos em Roma, tinham sido cogitados nos dois pontificados precedentes. Movimentos de renovação pastoral e de reflexão teológica, particularmente no âmbito litúrgico, exegético e ecumênico, tinham dado vida, a partir dos anos trinta, a uma temporada de extraordinária fecundidade que estimulou setores da Igreja a pensar em profundas mudanças.

[11] Cf. ALBERIGO, G. O anúncio do concílio. In: ALBERIGO, G.; Beozzo, J.O. (Coords.) História … v. I, p. 50. Também na constituição apostólica Humanae Salutis, EV 3*.

[12] Ibid., p. 23 apud DISCORSI MESSAGGI COLLOQUI DEL S.PADRE GIOVANNI XXIII, v. 2, p. 654.

[13] EV 4*.

[14] Desde a Indonésia, que se torna independente em 1945, até o Zaire em 1960, uma série de países da África e da Ásia ia construindo sua identidade nacional na esperança e alegria da liberdade.

[15] FOUILLOUX E. A fase antepreparatória (1959-1960). In: ALBERIGO, G.; Beozzo, J.O. (Coords.) História … v. I, p. 73. Muito claramente, o concílio na intenção de João XXIII, coloca-se como mais um evento para promover a paz entre as nações, como ele mesmo afirma na mensagem radiofônica de 11 de setembro de 1962: “O Concílio Ecumênico está para reunir-se há 17 anos, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Pela primeira vez na história, os Padres do Concílio pertencerão, na realidade, a todos os povos e nações, e cada um levará a contribuição de inteligência e de experiência, para curar e sanar as cicatrizes dos dois conflitos, que mudaram profundamente o rosto de todos os países”. Cf. EV 25*p

[16] Cf. EV 23*; 55*. Veja-se também no Discurso de conclusão da primeira sessão. Cf. EV 124*. Para J. Ratzinger não há rupturas, não há saltos na história: portanto, faz-se necessária uma releitura do concílio e uma busca de um novo equilíbrio. Cf. RATZINGER, J.; MESSORI, V. A fé em crise?, p. 15-28.42-45.

[17] Cf. EV 3*; 55*.

[18] Cf. EV 1*; 25f*.

[19] Cf. EV 4*; 25c*.

[20] Cf. EV 9*; 25*s; 25*q.

[21] Cf. EV 8*; 22*; 60*

[22] Cf. EV 61*.

[23] EV 25*f.

[24] As comissões preparatórias elaboraram textos nos quais transpareciam uma disposição apologética bastante contrastante com a visão inicial do papa. Duras críticas ao trabalho preparatório foram levantadas por figuras importantes como König e Suenens. O mesmo João XXIII tomou decisões que suscitaram certas perplexidades ao confiar, por exemplo, aos chefes curiais a presidência das comissões, ao aprovar conjuntos de quaestiones que pouco refletiam sua visão e ao exaltar o latim como língua oficial do concílio. Certas ações de Roncalli ainda permanecem um mistério. Parece que ele optou por uma abrangência e uma liberdade na fase preparatória que levaria os próprios padres conciliares a decidirem a linha do concílio. Os bispos do Vaticano II, logo na primeira sessão, sentiram necessário repudiar bastante coisa do trabalho feito para prepará-lo. Cf. KOMONCHAK, W. A luta pelo concílio durante a preparação. In: ALBERIGO, G.; Beozzo, J.O. (Coords.) História … v. I, p. 171-349.

[25] Wittstadt, K. Às vésperas do Concílio Vaticano II. In: ALBERIGO, G.; Beozzo, J.O. (Coords.) História … v. I, p. 433, apud SUENENS, L.J. Aux origines du Concile Vatican II, p. 4.

[26] O fato de que foi inspirada por Suenens não quer dizer que foi copiada. Cf. Wittstadt, K. Às vésperas do Concílio Vaticano II. In: ibid., p. 433.

[27] EV 25*g.

[28] EV 25*h.

[29] Em português, “atualização”. É bom precisar que João XXIII não inventa um neologismo, nem aplica por primeiro este termo italiano à renovação eclesiástica. Em novembro de 1950, foi convocado em Roma o primeiro congresso internacional dos religiosos, que tinha como finalidade “a «accommodata renovatio», ou seja, em vulgar, o «aggiornamento»” das ordens e congregações, segundo o cardeal Piazza, La documentation catholique, 31 de dezembro de 1950, coluna 1699. Cf. FOUILLOUX E. A fase antepreparatória (1959-1960). In: ALBERIGO, G.; Beozzo, J.O. (Coords.) História … v. I, p. 84, nota 23.

[30] Torna-se difícil, portanto, um levantamento sistemático do uso desta palavra nos documentos do Vaticano II. Contudo, aparece bastante delineado o conceito de aggiornamento a respeito da liturgia (SC 21; 43), da vida religiosa e de sua missão (PC 2; 7; 16; 20), da pastoral (OT 22), dos seminários (OT 3), etc.

[31] APC 33.

[32] EV 37*.

[33] Veja-se o significativo título da obra sobre o Vaticano II do jesuíta Rouquette, R. La fin d’une chrétienté. Chronique I et II. Paris: Cerf, 1968.

[34] Segundo Rouquette, com a votação de 20 de novembro de 1962, que rechaçou o esquema De fontibus revelationis, “termina a época da contra-reforma” (ibid., p. 259). A assembléia se afina definitivamente com a inspiração do papa. De fato, o esquema rejeitado espelhava as posições clássicas da controvérsia católica sobre a Escritura e a Tradição e carecia de índole pastoral. A votação para interromper, e portanto refazer, a discussão sobre o esquema proposto pela comissão preparatória, não alcançou, por pouco, os dois terços requeridos. Precisou da “mãozinha” de João XXIII para que a votação se tornasse, de alguma forma, efetiva. Cf. RAGUER, Hilari. O primeiro conflito doutrinal. In: ALBERIGO, G.; Beozzo, J.O. (Coords.) História … v. II, p. 221-250.

[35] EV 40*.

[36] EV 42*.

[37] ALBERIGO, G. Critérios hermenêuticos. In: BEOZZO, J.O. (Org.) A Igreja Latino-americana às vésperas do Concílio, p. 20.

[38] Nos textos de Roncalli o termo pastoral aparece cerca de 2000 vezes. Cf. ALBERIGO, G. O anúncio do concílio. In: ALBERIGO, G.; Beozzo, J.O. (Coords.) História … v. I, p. 52, nota 83.

[39] ALBERIGO, G. Ângelo José Roncalli: João XXIII,. p. 164.

[40] Cf. nota 4.

[41] Cf. ALBERIGO, G. O anúncio do concílio. In: ALBERIGO, G.; Beozzo, J.O. (Coords.) História … v. I, p. 21, apud MELLONI A. “Questa festiva ricorrenza”. Prodromi e preparazione del discorso di annuncio del Vaticano II. RSLR 28 (1992). p. 607.

[42] EV 55*.

[43] EV 57*

[44] Cf. Castro, L. (Org.) Documentos de Gregório XVI e Pio IX, p. 332.

[45] RUGGIERI, G. Proposta de uma hermenêutica para o Vaticano II. Concilium, p. 16-17.

[46] KLOPPENBURG, B. A eclesiologia do Vaticano II, p. 16-17.

[47] Cf. ANTON, A. El misterio de la Iglesia, 1986. p. 836.

[48] COMBLIN, J. Trinta anos de teologia latino-americana. In: SUSIN, L.C. (Org.) O mar se abriu. Trinta anos de teologia na América Latina, p. 190.

[49] ANTON, A. op cit., p. 880.

[50] L’Osservatore Romano, 26/27 de janeiro de 1959.

[51] L’Osservatore Romano, 1 de fevereiro de 1959.

[52] APC 33.

[53] APC 34.

[54] Cf. EV 170*; 468*.

[55] EV 3*.

[56] EV 4*.

[57] Ibid.

[58] Cf. UR 4; AA 14; PO 9; GS 4. A expressão “sinais dos tempos” aparece quando se fala respectivamente de ecumenismo, da solidariedade universal, da competência dos leigos e da necessidade de conhecer e compreender o mundo.

[59] Cf. EV 40*.

[60] RUGGIERI, G. op. cit., p. 23.

[61] EV 42*.

[62] Cf. PT 19.

[63] Cf. EV 80*- 82*.

[64] Cf, EV 407*.

[65] Muito bem delineada na mensagem radiofônica de 11 de setembro: família, pão, paz, educação, obrigações sociais das pessoas (cf. EV 25*i); igualdade dos povos na família humana e defesa do matrimônio, sobretudo na sua responsabilidade de ordem social (cf. EV 25*j); rechaço ao ateísmo que leva ao individualismo (cf. EV 25*k); a Igreja dos pobres (cf. EV 25*l); a distribuição dos bens (cf. EV 25*m); a liberdade religiosa (cf. EV 25*n-o); a paz não só como ausência de guerra (cf. EV 25*p-q-r-s).

[66] Cf. EV 42*.

[67] “Que fazem esperar melhor sobre o destino da Igreja e do gênero humano”. EV 4*.

[68] Rahner, K., op. cit., p. 343.

[69] Cf. ibid., p. 344.

[70] Ibid., p. 355.

[71] Esta é a postura de Giuseppe Alberigo e dos outros estudiosos que deram origem à redação de uma história do Vaticano II. Estes autores defendem o fato de que essa era a vontade de João XXIII: criar um evento. Cf. ALBERIGO, G. O anúncio do concílio. In: ALBERIGO, G.; Beozzo, J.O. (Coords.) História … v. I, p. 57.

[72] Assim o chamará Paulo VI, em seu discurso de abertura do segundo período. EV 134*.

[73] “A todos os homens foi dirigido o convite pastoral e missionário à luz evangélica” dirá Paulo VI na homilia conclusiva da IX Sessão. EV 458*.

[74] EV 183*.

[75] Para uma leitura crítica do caráter eclesiológico do Vaticano II veja-se: LIBANIO, J.B. A trinta anos do encerramento do Concílio Vaticano II. Chaves teológicas de leitura. Perspectiva teológica, Belo Horizonte, v. 27, n. 73, p. 297-332, nov./dez. 1995.

[76] EV 152*. São palavras de Paulo VI no discurso de abertura do segundo período conciliar. Veja-se também: “É coisa fora de dúvida que é um desejo, uma necessidade, um dever, para a Igreja, o dar finalmente de si mesma uma definição mais profunda (…) Por isso é que o tema principal desta Segunda Sessão do Concílio será a Igreja” (EV 149*; 155*).

[77] EV 453*.

[78] EV 295*.

[79] EV 461*.

[80] EV 346*

[81] ES 37.

[82] Cf. RATZINGER, J.; MESSORI, V. op. cit., p. 22.

[83] Cf. ICM 119.

[84] EV 3*.

[85] EV 190*.

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