Mensagem do Concílio Vaticano II aos governantes: «Não crucifiqueis de novo» Cristo

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Ao cumprir-se exatamente quarenta anos de sua publicação, oferecemos a mensagem que o Concílio Vaticano II dirigiu aos governantes no dia de seu encerramento.

ENCERRAMENTO DO CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II

PAULO VI

MENSAGEM AOS GOVERNANTES

Quarta-feira, 8 de dezembro de 1965

Neste momento solene, nós, os Padres do XXI Concílio Ecumênico da Igreja Católica, ao dispersarmo-nos depois de quatro anos de oração e de trabalhos, na plena consciência da nossa missão para com a humanidade, dirigimo-nos com respeito e confiança àqueles que têm nas suas mãos o destino dos homens na terra, a todos os depositários do poder temporal.

Nós proclamamos altamente: prestamos honra à vossa autoridade e à vossa soberania; respeitamos a vossa função; reconhecemos as vossas leis justas; estimamos aqueles que as fazem e aqueles que as aplicam. Mas temos uma palavra sagrada a dizer-vos, e é esta: só Deus é grande. Só Deus é o princípio e o fim. Só Deus é a fonte da vossa autoridade e o fundamento das vossas leis.

É a vós que pertence ser na terra os promotores da ordem e da paz entre os homens. Mas não esqueçais: é Deus, o Deus vivo e verdadeiro, que é o Pai dos homens. E é Cristo, o seu Filho eterno, quem nos veio dizer e ensinar que somos todos irmãos. É Ele o grande artífice da ordem e da paz na terra, porque é Ele quem dirige a história humana e o único que pode levar os corações a renunciar às más paixões que geram a guerra e a infelicidade. É Ele quem abençoa o pão da humanidade, quem santifica o seu trabalho e o seu sofrimento, quem lhe dá alegrias que vós não podeis dar, quem a reconforta nas dores que vós não podeis consolar.

Na vossa cidade terrestre e temporal, Ele constrói misteriosamente a sua cidade espiritual e eterna, a sua Igreja. E que pede a Igreja de vós, após quase dois mil anos de vicissitudes de toda a espécie nas suas relações convosco, que sois as potências da terra; que vos pede a Igreja neste momento? Ela vo-lo disse num dos documentos mais importantes deste Concílio: ela não vos pede senão a liberdade. A liberdade de crer e de pregar a sua fé, a liberdade de amar e servir o seu Deus, a liberdade de viver e de levar aos homens a sua mensagem de vida. Não tenhais medo: ela é à imagem do seu Senhor, cuja ação misteriosa não lesa as vossas prerrogativas, mas cura todo o ser humano da sua fatal caducidade, transfigura-o, enche-o de esperança, de verdade e de beleza.

Deixai que Cristo exerça a sua ação purificadora na sociedade. Não o crucifiqueis de novo: seria sacrilégio, porque é Filho de Deus, e seria suicídio, porque é filho do Homem. E a nós, seus humildes ministros, deixai-nos propagar por toda a parte, sem entraves, a boa nova do Evangelho da paz, que meditamos neste Concílio. Os vossos povos serão os primeiros beneficiários, porque a Igreja forma para vós cidadãos leais, amigos da paz e do progresso.

Neste dia solene, em que ela encerra o seu XXI Concílio Ecumênico, a Igreja oferece-vos pela nossa voz, a sua amizade, os seus serviços, as suas energias espirituais e morais. Ela dirige a vós todos a sua mensagem de salvação e de bênção. Acolhei-a tal qual ela vo-la oferece com coração alegre e sincero, e levai-a a todos os vossos povos!

[Tradução distribuída pela Santa Sé]

 

Alocução de Paulo VI na última sessão pública do Vaticano II

Terça-feira, 7 de dezembro de 1965

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Publicamos a alocução de Paulo VI na última sessão pública do Concílio Vaticano II, pronunciada no dia 7 de dezembro de 1965.

 

DISCURSO DO PAPA PAULO VI

NA ÚLTIMA SESSÃO PÚBLICA DO CONCÍLIO VATICANO II

Terça-feira, 7 de Dezembro de 1965

Veneráveis Irmãos

Concluímos hoje o Concílio Ecumênico Vaticano II e concluímo-lo na plenitude do seu vigor e da sua eficiência. A vossa presença tão numerosa demonstra-o, a ordenada estruturação desta assembléia atesta-o, o legítimo epílogo dos trabalhos conciliares confirma-o, e a harmonia de sentimentos e propósitos proclama-o. Se não poucas questões, postas no decorrer do Concílio, ainda aguardam uma solução conveniente, isto indica sem dúvida que o Concílio não conclui os seus trabalhos no meio do esgotamento de forças mas antes no meio do entusiasmo que despertou; no período pós-conciliar, se Deus quiser, ele voltar-se-á de novo para estas questões com todo o empenho. Este nosso Concílio deixará à posteridade a imagem da Igreja que esta Aula representa, assim repleta de Pastores que professam a mesma fé, e respiram a mesma caridade; que estão unidos pela comunhão de oração, de disciplina, de entusiasmo; como isto é maravilhoso ¬ todos desejarem uma só coisa: oferecer-se como Cristo, nosso mestre e Senhor, pela vida da Igreja e pela salvação do mundo. O Concílio, porém, não deixa apenas à posteridade a imagem da Igreja, mas também o patrimônio da sua doutrina e dos seus mandamentos, isto é, o depósito que Cristo lhe confiou; depósito que no decurso dos tempos os homens sempre meditaram, transformaram, por assim dizer, no próprio sangue e exprimiram de algum modo no seu viver; depósito que agora, aclarado em muitos pontos, foi estabelecido e ordenado na sua integridade. Este depósito, vivo pela divina virtude da verdade e da força que o constituem, deve ser considerado apto para vivificar todo o homem que o acate piedosamente e dele alimente a sua própria vida.

O que foi este Concílio, e o que fez, seria o tema desta nossa meditação final. Mas isso pediria demasiada atenção e tempo, e não ousamos nesta hora última e solene fazer uma síntese de tão importante matéria. Preferimos perguntar a nós mesmos qual foi a importância religiosa do nosso Concílio. Com esta expressão, entendemos significar as nossas relações com. Deus, que bem declaram a existência da Igreja, a sua fé, a sua esperança, o seu amor, o que ela é, o que ela faz.

Podemos confessar que demos glória a Deus, que buscamos o seu conhecimento e o seu amor, que adiantamos no esforço da sua contemplação, na ânsia da sua celebração, na arte de o dar a conhecer aos homens que nos olham como Pastores e mestres dos caminhos do Senhor?

Acreditamos sinceramente que sim, até porque foi esta a intenção inicial e fundamental donde nasceu o propósito de celebrar o Concílio. Ressoam ainda, nesta Basílica de S. Pedro, as palavras pronunciadas no discurso inaugural do mesmo Concílio, pelo nosso predecessor de feliz memória, João XXIII, em quem, com toda a razão, podemos ver o autor deste Concílio Ecumênico. Dizia então aquele Pontífice: «O que mais importa ao Concílio Ecumênico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz… O Senhor disse: «Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça». Esta palavra «primeiro» exprime, antes de mais, em que direção devem mover-se os nossos pensamentos e as nossas forças» (1).

E o acontecimento correspondeu exatamente àquela idéia. Para o apreciarmos devidamente, é necessário recordar o tempo em que se levou a cabo este acontecimento: foi num tempo em que, como todos reconhecem, os homens estão voltados mais para a conquista da terra do que para o reino de Deus; foi num tempo em que o esquecimento de Deus se torna habitual, como se os progressos da ciência o aconselhassem; foi num tempo em que o ato fundamental da pessoa humana, mais consciente de si e da sua liberdade, tende a exigir uma liberdade total, livre de todas as leis que transcendam a ordem natural das coisas; foi num tempo em que os princípios do laicismo aparecem como a conseqüência legítima do pensamento moderno e são tidos quase como norma sapientíssima segundo a qual a sociedade humana deve ser ordenada; foi num tempo em que a razão humana pretende exprimir o que é absurdo e tira toda a esperança; foi num tempo, finalmente, em que as religiões étnicas estão sujeitas a perturbações e transformações jamais experimentadas. Foi neste tempo que se celebrou o nosso Concílio para glória de Deus, em nome de Cristo, com a inspiração do Espírito Santo que «tudo perscruta» e que continua a ser a alma da Igreja, «para que conheçamos os dons de Deus», (2) quer dizer, fazendo com que a Igreja conheça profundamente sob todos os aspectos a vida humana e o mundo. Mercê deste Concílio, a doutrina teocêntrica e teológica sobre a natureza humana e sobre o mundo atrai a si a atenção dos homens, como se desafiasse aqueles que a julgam anacrônica e estranha; e tais coisas se arroga que o mundo qualificará, de início, como absurdas, mas que depois, assim o esperamos, reconhecerá espontaneamente como humanas, como prudentes e salutares, a saber: Deus existe. Sim, Deus existe; realmente existe; vive; é pessoal; é providente, dotado de infinita bondade, não só bom em si mesmo mas imensamente bom para nós; é o nosso criador, a nossa verdade, a nossa felicidade, de tal modo que o homem, quando procura fixar em Deus a sua mente e o seu coração, entregando-se à contemplação, realiza o ato que deve ser considerado o mais alto e mais perfeito; ato, que mesmo hoje pode e deve hierarquizar a imensa pirâmide da atividade humana.

Dirá alguém que o Concílio, mais do que das verdades divinas, se ocupou principalmente da Igreja, da sua natureza, da sua estrutura, da sua vocação ecumênica, da sua atividade apostólica e missionária. Esta secular sociedade religiosa que é a Igreja esforçou-se por pensar sobre si mesma, para melhor se conhecer, melhor se definir e, consequentemente, melhor dispor os seus sentimentos e os seus preceitos. Isto é verdade. Mas esta introspecção não foi o único fim que teve em vista, não foi uma ostentação de pura cultura terrena. A Igreja, com efeito, entrando em si mesma, penetrou no íntimo da sua consciência não para se comprazer em eruditas análises sobre a psicologia religiosa ou a história das suas coisas, ou para intencionalmente reafirmar os seus direitos ou formular as suas leis; fez isto para encontrar em si a palavra de Cristo, viva e operante no Espírito Santo, e para sondar mais profundamente o mistério, ou seja, o desígnio e a presença de Deus fora e dentro de si, e para reavivar em si o fogo da fé, que é o segredo da sua segurança e da sua sabedoria, e reavivar o fogo do amor, que a obriga a cantar sem descanso os louvores de Deus, porque, como diz Santo Agostinho: «Cantar é próprio do amante» (3). Os documentos conciliares, principalmente os que tratam da Revelação divina, da liturgia, da Igreja, dos sacerdotes, dos religiosos, dos leigos, permitem ver diretamente esta primordial intenção religiosa e demonstram quão límpida, fresca e rica é a veia espiritual que o vivo contato com Deus vivo faz brotar no seio da Igreja e correr sobre as áridas glebas da nossa terra.

Mas não é lícito omitir algo que é da maior importância quando examinarmos o significado religioso deste Concílio: isto teve ele a peito perscrutar o mundo deste nosso tempo. Nunca talvez como no tempo deste Concílio a Igreja se sentiu na necessidade de conhecer, avizinhar, julgar retamente, penetrar, servir e transmitir a mensagem evangélica, e, por assim dizer, atingir a sociedade humana que a rodeia, seguindo-a na sua rápida e contínua mudança. Esta atitude, nascida pelo fato de a Igreja, no passado e sobretudo neste século, ter estado ausente e afastada da civilização profana, esta atitude, sempre inspirada pela essencial missão salvadora da Igreja, esteve presente eficaz e continuamente no Concílio. Por isso é que alguns suspeitaram que nos homens e nos atos do Concílio tinha dominado mais do que era justo e com demasiada indulgência a doutrina do relativismo que se encontra no mundo externo, nas coisas que passam fugazmente, nas novas modas, nas necessidades contingentes, nos pensamentos dos outros; e isto à custa da fidelidade devida à doutrina tradicional e com prejuízo da orientação religiosa que necessariamente é própria dum Concílio. Julgamos que não lhe deve ser atribuída esta atitude perniciosa, se bem atendermos às suas verdadeiras e misteriosas intenções e às suas autênticas manifestações.

Desejamos antes notar que a religião do nosso Concílio foi, antes de mais, a caridade; por esta sua declarada intenção, o Concílio não poderá ser acusado por ninguém de irreligiosidade, de infidelidade ao Evangelho, se nos lembrarmos que o próprio Cristo nos ensina que todos conhecerão que somos seus discípulos, se nos amarmos mutuamente (4); se deixarmos igualmente que estas palavras do Apóstolo se façam ouvir dentro das nossas almas: « A religião pura e imaculada junto de Deus Pai é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e conservar-se imaculado neste mundo» (5); e mais estas: «Quem… não ama o seu irmão, a quem vê, como pode amar alguém que não vê? (6)

Na verdade, a Igreja, reunida em Concílio, entendeu sobretudo fazer a consideração sobre si mesma e sobre a relação que a une a Deus; e também sobre o homem, o homem tal qual ele se mostra realmente no nosso tempo: o homem que vive; o homem que se esforça por cuidar só de si; o homem que não só se julga digno de ser como que o centro dos outros, mas também não se envergonha de afirmar que é o princípio e a razão de ser de tudo. Todo o homem fenomênico ¬ para usarmos o termo moderno ¬ revestido dos seus inúmeros hábitos, com os quais se revelou e se apresentou diante dos Padres conciliares, que são também homens, todos Pastores e irmãos, e por isso atentos e cheios de amor; o homem que lamenta corajosamente os seus próprios dramas; o homem que não só no passado mas também agora julga os outros inferiores, e, por isso, é frágil e falso, egoísta e feroz; o homem que vive descontente de si mesmo, que ri e chora; o homem versátil, sempre pronto a representar; o homem rígido, que cultiva apenas a realidade científica; o homem que como tal pensa, ama, trabalha, sempre espera alguma coisa, à semelhança do «filius accrescens» (7); o homem sagrado pela inocência da sua infância, pelo mistério da sua pobreza, pela piedade da sua dor; o homem individualista, dum lado, e o homem social, do outro; o homem « laudator temporis acti», e o homem que sonha com o futuro; o homem por um lado sujeito a faltas, e por outro adornado de santos costumes; e assim por diante. O humanismo laico e profano apareceu, finalmente, em toda a sua terrível estatura, e por assim dizer desafiou o Concílio _para a luta. A religião, que é o culto de Deus que quis ser homem, e a religião ¬ porque o é ¬ que é o culto do homem que quer ser Deus, encontraram-se. Que aconteceu? Combate, luta, anátema? Tudo isto poderia ter-se dado, mas de fato não se deu. Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio. Com efeito, um imenso amor para com os homens penetrou totalmente o Concílio. A descoberta e a consideração renovada das necessidades humanas ¬ que são tanto mais molestas quanto mais se levanta o filho desta terra ¬ absorveram toda a atenção deste Concílio. Vós, humanistas do nosso tempo, que negais as verdades transcendentes, dai ao Concílio ao menos este louvor e reconhecei este nosso humanismo novo: também nós ¬ e nós mais do que ninguém somos cultores do homem.

Que há visto na humanidade este augusto senado? que se propôs ele estudar à luz da divindade? Quis considerar profundamente a sua dupla fisionomia: a miséria e a grandeza do homem, o seu mal profundo, mal sem dúvida incurável, e o seu bem, que permanece, sempre marcado de misteriosa beleza e singular poder. Precisamos de reconhecer que este nosso Concílio deteve-se mais nos aspectos felizes do homem que nos desditosos. Nisto ele tomou uma. atitude claramente otimista. Uma corrente de interesse e de admiração saiu do Concílio sobre o mundo atual. Rejeitaram-se os erros, como a própria caridade e verdade exigiam, mas os homens, salvaguardado sempre o preceito do respeito e do amor, foram apenas advertidos do erro. Assim se fez, para que em vez de diagnósticos desalentadores, se dessem remédios cheios de esperança; para que o Concílio falasse ao mundo atual não com presságios funestos mas com mensagens de esperança e palavras de confiança. Não só respeitou mas também honrou os valores humanos, apoiou todas as suas iniciativas, e depois de os purificar, aprovou todos os seus esforços.

Vede por exemplo: como inumeráveis línguas foram admitidas para exprimir liturgicamente a palavra dos homens a Deus e a palavra de Deus aos homens; como foi reconhecida ao homem enquanto homem a sua vocação fundamental a tantos direitos e a um destino transcendente; como as suas supremas aspirações à vida, à dignidade da pessoa, à honrada liberdade, à cultura, à renovação da ordem social, à justiça, à paz, foram purificadas e estimuladas; como a todos os homens foi dirigido o convite pastoral e missionário para receberem em si a luz do Evangelho. Tocamos muito de corrida tantos e tão complicados problemas relativos ao bem-estar humano, de que o Concílio se ocupou; nem o Concílio pretendeu resolver todas as questões mais urgentes da vida atual; algumas ficaram reservadas para estudos mais profundos, que a Igreja levará depois a cabo; muitas outras foram tratadas em termos demasiado breves e gerais, e por isso admitem explicações mais profundas e aplicações diversas.

Mas convém notar uma coisa: o magistério da Igreja, embora não tenha querido pronunciar-se com sentenças dogmáticas extraordinárias sobre nenhum capítulo doutrinal, propôs, todavia, o seu ensinamento autorizado acerca de muitas questões que hoje comprometem a consciência e a atividade do homem. Por assim dizer, a Igreja baixou a dialogar com o homem; e conservando sempre a sua autoridade e a sua virtude, adotou a maneira de falar acessível e amiga que é própria da caridade pastoral. Quis ser ouvida e entendida pelos homens. Por isso, não se preocupou só com falar à inteligência do homem, mas exprimiu-se no modo hoje usado na conversação corrente, em que o recurso à experiência da vida e o emprego dos sentimentos cordiais dão mais força para atrair e para convencer. Isto é, a Igreja falou aos homens de hoje, tais quais eles são.

Uma outra coisa julgamos digna de consideração: toda esta riqueza doutrinal orienta-se apenas a isto: servir o homem, em todas as circunstâncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas necessidades. A Igreja declarou-se quase a escrava da humanidade, precisamente no momento em que tanto o seu magistério eclesiástico como o seu governo pastoral adquiriram maior esplendor e vigor devido à solenidade conciliar; a idéia de serviço ocupou o lugar central.

Tudo isto e tudo o mais que poderíamos ainda dizer acerca do Concílio, terá porventura desviado a Igreja em Concílio para a cultura atual que toda é antropocêntrica? Desviado, não; voltado, sim. Mas quem observa honestamente este interesse prevalente do Concílio pelos valores humanos e temporais, não pode negar que tal interesse se deve ao caráter pastoral que o Concílio escolheu como programa, e deverá reconhecer que esse mesmo interesse jamais está separado do interesse religioso mais autêntico, devido à caridade que é a única a inspirá-lo (e onde está a caridade, aí está Deus), ou à união dos valores humanos e temporais com os especificamente espirituais, religiosos e eternos, afirmada e promovida sempre pelo Concílio; este debruça-se sobre o homem e sobre a terra, mas eleva-se ao reino de Deus.

A mentalidade moderna, habituada a julgar todas as coisas sob o aspecto do valor, isto é, da utilidade, deverá admitir que o valor do Concílio é grande ao menos por isso: todo ele se orientou à utilidade humana. Portanto, ninguém chame inútil a uma religião como a católica, que, ao exprimir a forma mais consciente e mais eficaz da sua ação, isto é, ao celebrar um Concílio Ecumênico, se declara toda em favor e em serviço do homem. A religião católica e a vida humana reafirmam assim a sua aliança, a sua convergência para um só bem humano, a saber: a religião católica é para a humanidade, é, por assim dizer, a vida da humanidade. É a vida da humanidade, pela doutrina sublime e de todo perfeita que oferece a respeito do homem (não é, porventura, o homem, deixado a si mesmo, um mistério para si mesmo?); e oferece-a precisamente em virtude da sua ciência a respeito de Deus: para conhecer o homem, o homem verdadeiro, o homem integral, é necessário conhecer a Deus; para o provar, basta-nos por agora recordar as palavras inflamadas de S. Catarina de Sena: «Na tua natureza, ó Deus eterno, conhecerei a minha natureza». A religião católica é a vida da humanidade, porque descreve a natureza e o destino do homem, e dá-lhe o seu verdadeiro sentido. É a vida da humanidade, finalmente, porque constitui a lei suprema da vida, e à vida infunde a misteriosa energia que faz dela uma vida verdadeiramente divina.

E se recordamos, veneráveis Irmãos e amados Filhos, todos vós que estais aqui presentes, como no rosto de todo o homem, sobretudo se se tornou transparente pelas lágrimas ou pelas dores, devemos descobrir o rosto de Cristo (8), o Filho do Homem; e se no rosto de Cristo devemos descobrir o rosto do Pai celestial, segundo aquela palavra: «quem me vê a mim, vê também o Pai» (9), o nosso humanismo muda-se em cristianismo, e o nosso cristianismo faz-se teocêntrico, de tal modo que podemos afirmar: para conhecer a Deus, é necessário conhecer o homem.

Estaria, então, destinado este Concílio, que dedicou ao homem a sua principal e esforçada atenção, a propor de novo ao mundo moderno a libertação e a consolação a que gradualmente pode subir? Não será, em resumo, um modo simples, novo e solene de ensinar a amar o homem para amar a Deus? Amar o homem, dizemos, não como instrumento, mas como que primeiro fim, que nos leva ao supremo fim transcendente. Por isso, todo este Concílio se resume no seu significado religioso, não sendo outra coisa senão um veemente e amistoso convite em que a humanidade é chamada a encontrar, pelo caminho do amor fraterno, aquele Deus «de quem afastar-se é cair, a quem dirigir-se é levantar-se, em quem permanecer é estar firme, a quem voltar é renascer, em quem habitar é viver» (10).

Assim Nós o esperamos, no final deste Concílio Ecumênico Vaticano II, e no início da renovação humana e religiosa que ele se propôs estudar e promover; assim o esperamos para Nós, Irmãos e Padres do Concílio; assim o esperamos para a humanidade inteira, que aqui aprendemos a amar mais e a servir melhor.

E enquanto para tal invocamos de novo a intercessão dos santos João Batista e José, padroeiros do Concílio Ecumênico, dos santos Apóstolos Pedro e Paulo, fundamentos e colunas da santa Igreja, e com eles a de S. Ambrósio, Bispo, cuja festa hoje celebramos, como que juntando por meio dele a Igreja do Oriente e do Ocidente, imploramos igualmente de todo o coração a proteção da bem-aventurada Virgem Maria, mãe de Cristo, por Nós chamada também mãe da Igreja, e com uma só voz, um só coração, damos graças e glorificamos a Deus vivo e verdadeiro, a Deus único e sumo, ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Amém (11).

Notas
1. AAS 54 (1962), p. 790.

2. Cfr. 1 Cor. 2, 10-12.

3. Serm. 336: PL 38, 1472.

4. Cfr. Jo. 13,35.

5. Tia. 1,27.

6. 1 Jo. 4,20.

7. Gén. 49,22.

8. Cfr. Mt. 25,40.

9 Jo. 14,9.

10. S. Agostinho, Sol. 1, 1,3: PL 32, 870.

11. AAS 58 (1966), p. 51-59.

[Tradução distribuída pela Santa Sé]

Ângelus nos 40 anos do encerramento do Concílio Vaticano II

A Virgem velou nestes anos pela Igreja, afirma Papa

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 8 de dezembro de 2005

Publicamos as palavras que Bento XVI pronunciou esta quinta-feira, solenidade da Imaculada Conceição, ao rezar a oração mariana do Ângelus.

Queridos irmãos e irmãs!

Celebramos hoje a solenidade da Imaculada Conceição. É um dia de intensa alegria espiritual, no qual contemplamos a Virgem Maria, «humilde e mais elevada que qualquer criatura, termo fixo do conselho eterno», como conta o sumo poeta Dante (Paraíso, XXXIII, 3). Nela resplandece a eterna bondade do Criador que, em seu desígnio de salvação, elegeu-a para ser mãe de seu unigênito Filho, e, em previsão de sua morte, preservou-a de toda mancha de pecado (Cf. oração coleta). Deste modo, na Mãe de Cristo e Mãe nossa realizou-se perfeitamente a vocação de todo ser humano. Todos os homens, recorda o apóstolo Paulo, estão chamados a ser santos imaculados na presença de Deus no amor (Cf. Efésios 1, 4). Ao contemplar a Virgem, como é possível não voltar a despertar em nós, seus filhos, a aspiração à beleza, à bondade, à pureza de coração? Seu celestial candor atrai para Deus, ajudando-nos a superar a tentação de uma vida medíocre, feita de compromissos com o mal, para nos orientar decididamente para o autêntico bem, que é manancial de alegria.

Neste dia, meu pensamento se dirige ao 8 de dezembro de 1965, quando o servo de Deus Paulo VI encerrou solenemente o Concílio Ecumênico Vaticano II, o maior acontecimento eclesial do século XX, que o beato João XXIII havia começado três anos antes. No meio da exultação de numerosos fiéis na praça de São Pedro, Paulo VI confiou a aplicação dos documentos conciliares à Virgem Maria, invocando-a com o doce título de Mãe da Igreja. Ao presidir esta manhã uma solene celebração eucarística na Basílica Vaticana, quis dar graças a Deus pelo dom do Concílio Vaticano II. Também quis louvar Maria Santíssima por ter acompanhado estes quarenta anos de vida eclesial, ricos de tantos acontecimentos.

De forma especial, Maria velou com maternal cuidado pelos pontificados de meus venerados predecessores, cada um dos quais guiou a barca de Pedro pela rota da autêntica renovação conciliar, trabalhando incessantemente pela fiel interpretação e execução do Concílio Vaticano II.

Queridos irmãos e irmãs, como coroação desta jornada, dedicada toda ela à Virgem Santa, seguindo uma antiga tradição, durante a tarde irei à Praça de Espanha, aos pés da estátua da Imaculada. Peço-vos que vos unais espiritualmente a mim nesta peregrinação, que pretende ser um ato de filial devoção a Maria, para encomendar-lhe a amada cidade de Roma, a Igreja e toda a humanidade.

«08 de dezembro de 1965: encerramento do Vaticano II»

Por Dom Frei Boaventura Kloppenburg, O.F.M., bispo emérito de Novo Hamburgo (Brasil)

08 de dezembro de 1965: encerramento do Vaticano II

O XXI Concílio Ecumênico, chamado Vaticano II, terminou no dia 08 de dezembro de 1965. Durante três anos, um mês e vinte e nove dias (de 11 de outubro de 1962 até 08 de dezembro de 1965) viveu a Igreja Católica em estado de Concílio. Neste tempo cerca de 2.200 Bispos do mundo inteiro (incluídos os Superiores Maiores das Ordens e Congregações) encontraram-se 4 vezes em Roma, vivendo, rezando e trabalhando juntos durante 281 dias: 59 na I Sessão (de 11 de outubro até 08 de dezembro de 1962); 67 na II Sessão (de 29 de setembro até 4 de dezembro de 1963); 69 na III Sessão (de 14 de setembro até 21 de novembro de 1964); e 86 na IV Sessão (de 14 de setembro até 08 de dezembro de 1965). Trabalharam em 168 Congregações Gerais (36 na I, 43 na II, 48 na III e 41 na IV sessão. E assistiram a 10 sessões solenes.

Nestes dias pronunciaram 2.217 discursos (600 na I, 618 na II, 666 na III e 333 na IV Sessão) e entregaram 4.361 intervenções escritas não pronunciadas. Ouviram 147 relatórios e fizeram 544 votações, nas quais foram utilizadas 1.360.000 fichas para sufrágios individuais. Morreram neste período 253 Bispos (6 do Brasil).

O Concílio, com seus teólogos e peritos, preparou, discutiu, emendou, votou e promulgou 16 documentos: duas Constituições dogmáticas, uma Constituição pastoral, uma Constituição litúrgica, nove Decretos e três Declarações.

E assim no dia 08 de dezembro de 1965 estava tudo preparado para encerrar formal e solenemente o XXI Concílio Ecumênico. A cerimônia foi realizada na Praça de São Pedro, em frente da Basílica Vaticana. Durante a Santa Missa, celebrada pelo Papa, Paulo VI pronunciou sua comovente homilia de despedida. Depois anunciou as Mensagens do Concílio aos Governantes, aos Intelectuais (com o abraço a Jacques Maritain e o aplauso dos Bispos), aos Trabalhadores, aos Artistas, às Mulheres, aos Jovens, aos Sofredores. Mons. Felici, Secretário Geral do Concílio, leu o Breve de Encerramento. Então todos juntos cantaram as aclamações finais e as orações por todos quantos trabalharam no Concílio. Tudo terminou com a Bênção Apostólica, à qual Sua Santidade aditou as seguintes palavras: “Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo: Ide em paz!” Ao que a assembléia respondeu: “Demos graças a Deus!”. O relógio marcava 13h25.

À noite deste mesmo dia já estavam os Bispos do Brasil no avião, para retornar, cada um à sua Diocese. E tentar viver no espírito do Concílio Vaticano II.

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