Desvios de rota

DESVIOS DE ROTA

Dom EUGENIO DE ARAUJO SALES, Arcebispo emérito da Arquidiocese RJ

Jornal O GLOBO / Edição: 1 Página: 7 – 15/3/2003

A presença de heresias tomadas no sentido de “ruptura na própria fé” é, infelizmente, uma constante na história da Igreja Católica. Isso decorre de ter ela recebido do Salvador a guarda de sua Doutrina. Como lhe foi assegurada a assistência do Espírito Santo, ela tem preservado a pureza da Verdade. São Paulo é admirável no zelo em preservar a integridade da doutrina. Assim ele se expressa na 1ª Epístola a Timóteo, capítulo 2: “Esta
é a instrução que te confio, Timóteo, meu filho.”

Um recente desvio doutrinário, objeto deste nosso comentário, tem sua origem na Áustria, em 1995, com o título de “Somos Igreja”. Difundiu-se por vários países da Europa e da América. No entanto, a sua penetração é pequena, mas ultimamente tomou outra dimensão, com o anúncio de mais um concílio ecumênico. Chamar-se-ia Concílio Ecumênico Vaticano III. A ela se agregaram grupos dissidentes, como a “Associação para o Matrimônio dos Sacerdotes”, a “Conferência para a Ordenação de Mulheres”, “Católicas pelo Direito de Decidir”. Além da finalidade explicitada nos títulos, há um longo elenco de objetivos contrários à obra de Jesus, como, por exemplo, a aceitação de uma maior democracia na Igreja com a eleição, pelo povo, dos bispos e do Papa, o fim do celibato, uma falsa abertura ao ecumenismo, questões morais, como contracepção, liberdade sexual, aborto, homossexualismo.

Um passo dado nessa direção foi a realização do Encontro Internacional para
a Renovação da Igreja Católica, programada na Universidade Carlos III – Laganés (Madrid), de 19 a 22 de setembro de 2002. A reunião teve por título “Outra Igreja é possível: chamamento em favor de um processo conciliar, com a participação ativa do Povo de Deus”. No Documento de Base há uma mescla de proposições válidas com outras, à margem da autenticidade cristã.

Trata-se de graves desvios, fruto de correntes de pensamento no mundo atual e contrárias ao Evangelho.

Promove o surgimento de entidades e planos que tentam implodir a Igreja, a
partir do seu interior. Bem entendido, isso se fosse possível “prevalecerem as portas do inferno” (Mt 16,18). O Concílio Vaticano II, onde mal interpretado, despertou esperanças equivocadas em seguidores de correntes de pensamento em nossos dias. A vigilância de Paulo VI e João Paulo II, passando pelo rápido Pontificado de João Paulo I, desfez expectativas surgidas à margem da obra do Senhor Jesus. Para isso, propõem novo Concílio na vã esperança de conseguirem, com este meio, enfraquecer o Primado do Papa, permitir o aborto, nivelar a Família com a união de pessoas do mesmo sexo. E assim por diante. O domínio da mídia por falsas ideologias dá uma cobertura da opinião pública forjada por um clima anticlerical.

O “Comunicado Final” do Encontro na Universidade Carlos III – Laganés
(Madrid) incluía a promessa de que, até 30 de outubro seguinte, todas as conferências já estariam disponíveis, em espanhol, inglês e francês. Como apoio à realização da iniciativa foram citadas: “Assembléia do Povo de Deus da América Latina e Caribe”, “Federação Latino-Americana por uma Ministerialidade Renovada” e “Federação Internacional de Sacerdotes Católicos Casados”.

A Conferência Episcopal Espanhola publicou uma nota com data de 10 de julho de 2002, sobre a “Corriente Somos Iglesia”, organismo que promoveu esse encontro internacional. Comunicou que essa entidade, apesar do nome, não é um grupo eclesial e não recebeu qualquer aprovação ou reconhecimento canônico. Trata-se de uma associação civil que, desde o ano de 1995 acolhe grupos de procedência cristã que têm em comum atitudes opostas ao magistério e à doutrina da Igreja. Propõem reivindicações e fazem afirmações que claramente se afastam dos ensinamentos da Igreja Católica e da comunhão eclesial. E termina: “Portanto, faz-se necessário que todos os católicos vivam no seio de suas comunidades a comunhão com toda a Igreja (pastores e fiéis), tomando consciência de que as propostas de ‘Somos Igreja’ não favorecem, mas impedem gravemente os caminhos de uma autêntica renovação eclesial, pedida pelo Concílio Vaticano II.”

O Cardeal Ratzinger, estando na Espanha, no ano passado, para participar de
uma conferência sob o título “Cristo Via, Verdade e Vida” na Universidade
Católica de Santo Antonio, respondeu à pergunta de um jornalista sobre a necessidade de convocar um Concílio Ecumênico Vaticano III: “Não temos ainda aplicado suficientemente a herança do Concílio Vaticano II. Estamos ainda trabalhando para assimilar e interpretar sua riqueza, pois o procedimento vital requer tempo.” A disciplina da Igreja Católica, no tocante a este assunto, é de uma clareza meridiana. Diz o Código de Direito Canônico, cânon 338: “Compete unicamente ao Romano Pontífice convocar o Concílio Ecumênico, presidido por si ou por outros, como também transferir, suspender, ou dissolver o Concílio e aprovar seus Decretos.”

Limito-me, neste artigo, a indicar o tecido, as raízes doutrinais ou ideológicas do congresso que teve como objetivo a convocação de um novo concílio ecumênico. Algumas considerações se impõem. Bastante comum, em nossos dias, é o uso ou abuso do nome de Cristo ou de sua doutrina. Alguém resolve autodenominar-se “católico” e propaga idéias, por vezes inteiramente à margem da autenticidade da Mensagem do Senhor Jesus.

O zelo pela convocação de um novo concílio ecumênico pode ter origem em quem
discorda, erroneamente, da aplicação do Vaticano II. O caminho certo, parece-me ser, na obediência aos legítimos pastores, ajudar a correta utilização dessa grande graça de Deus a nossos tempos: o Concílio Ecumênico Vaticano II.

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