Vida de Jesus

Nos anos dourados, os anos de 1950, teve grande divulgação no pequeno público leitor católico da época, a edição da “Vida de Cristo” por Fulton J. Sheen, pela Editora Educação Nacional, de Porto, Portugal. Bispo auxiliar de Nova York, num momento de grande prestígio para o catolicismo norte-americano, que subia com a ascensão social dos imigrantes italianos e irlandeses, famoso por suas palestras radiofônicas (estávamos em plena “era do rádio”, pré-televisão!), sua obra alcançou merecida divulgação, extraordinária hoje para um livro de mais de 600 páginas! Damos uma pequena antologia para saborear a inteligência, a piedade e a contemplação da Vida de Cristo por este bom amigo de Jesus.


VIDA DE CRISTO

Fulton J. Sheen

 

OS TRÊS DESVIOS NO CAMINHO DA CRUZ -1

Logo depois do batismo, Jesus se retirou para a solidão. O deserto seria sua escola, como já tinha sido de Moisés e Elias. O retiro é a preparação para a ação. Paulo recorreria a ele, com o mesmo propósito. Jesus colocou de lado toda a consolação humana, logo que ele “habitou entre os animais”. Durante quarenta dias jejuou.

E porque a finalidade de sua vinda era dar batalha às forças do mal, o primeiro encontro não consistiu num debate com algum mestre humano, mas numa contenda com o próprio príncipe do mal: Então, Jesus foi levado para o deserto pelo Espírito para ser tentado pelo demônio (Mt 4,1).

(…)

A única maneira de mostrarmos amor é quando temos de fazer uma opção. Simples palavras não bastam. Por isso a provação original imposta ao primeiro ser humano foi posta de novo a todos nós. O gelo não merece crédito por ser gelo, nem o fogo por ser fogo. Somente os que têm possibilidade de escolha é que podem ser louvados pelos seus atos. É através da tentação e da resistência a ela que se revela o fundo do caráter. Diz a Escritura:

Bem-aventurado o homem que sofre a tentação com paciência, porque, depois que ele tiver sido provado, receberá a coroa da vida, que Deus tem prometido para os que o amam (Tg 1, 12).

As defesas da alma mostram o máximo poder de resistência quando o inimigo ao qual resistem é poderoso. A presença da tentação não supõe, necessariamente, imperfeição moral da parte de quem é tentado. Se assim fosse, Nosso Senhor não poderia de nenhum modo sofrer tentação. A tendência interna para o mal que o homem sente não é condição necessária para ao ataque do inimigo. A tentação de Nosso Senhor foi apenas exterior, não interior, como são, tantas vezes, as nossas.

Na provação a que Jesus Cristo se sujeitou, não estavam em jogo a perversão dos apetites naturais, que solicitam a nós, seres humanos. Tratava-se antes de um apelo para de sua divina missão e do seu trabalho messiânico. A tentação exterior não enfraquece, necessariamente, o caráter. Pelo contrário, quando vencida, oferece uma oportunidade de crescimento em santidade pela vitória sobre a tentação:

Porque naquilo em que ele padeceu e foi tentado, é poderoso para ajudar também os que são tentados (Hb 2,18).

(…)

A primeira tentação

Sabendo que Nosso Senhor tinha fome, Satanás mostrou-lhe pequenas pedras escuras que tinham a forma arredondada de pãezinhos, e disse-lhe:

Se tu és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães (Mt 4, 5).

Esta primeira tentação contra Nosso Senhor tendia a fazer dele uma espécie de reformador social, que desse pão ás multidões no deserto, onde nada poderiam encontrar, a não ser pedras. A visão de um melhoramento social sem regeneração espiritual tem constituído uma tentação na qual caíram, lastimosamente, muitos líderes notáveis na história. Mas assim não prestaria Jesus um serviço adequado ao Pai. Há necessidades mais profundas no ser humano do que o trigo moído e há satisfações maiores do que estômagos cheios.

O espírito mau murmurava: Começa com a primazia do econômico! Deixa isso de pecado! Ainda hoje diz o mesmo com outras palavras: O meu comissário vai às escolas e diz às crianças que peçam pão a Deus, Quando suas orações não são atendidas, o meu comissário lhes distribui alimento. O Governo lhes dá pão e Deus não dá, porque não há Deus nem alma. Existe apenas o corpo, o prazer, o sexo, animal. Quando se morre, tudo se acaba!

Esforçava-se assim o demônio por fazer sentir a Nosso Senhor o terrível contraste entre a divina grandeza que ele reclamava e a sua concreta penúria. Tentava-o, portanto, a rejeitar as misérias da condição humana, as tribulações e a fome, e a servir-se do poder divino – se é que o possuía realmente! – para salvar sua natureza humana.

Fazia-lhe assim um apelo para como homem e, em nome dos homens, usando antes seus poderes sobrenaturais para dar à sua natureza humana repouso, conforto, imunidade nas tribulações. Que coisa mais disparatada para Deus do que ter fome! No deserto, um dia, não estendera ele uma mesa miraculosa para dar de comer a Moisés e ao povo?

João Batista tinha afirmado que Jesus podia fazer das pedras filhos de Abraão: por que, então, não poderia fazer das pedras pão para si mesmo? A necessidade era real. Sendo ele Deus, também o poder era real. Por que, neste caso, sujeitar sua natureza humana a todos os males e sofrimentos que são herança da humanidade? Para que aceitar uma tal humilhação, só com o fim de remir suas próprias criaturas?

Se tu és, como pretendes, o Filho de Deus, e te encontras aqui para reparar a destruição causada pelo pecado, salva-te, então, a ti mesmo!

Foi este o mesmo tipo de tentação que os homens haveriam de proferir contra ele no momento da Crucifixão:

Se és Filho de Deus, desce da cruz! (Mt 27, 40)

A resposta de Jesus foi que, apesar de assumir a natureza humana com todas as suas fraquezas, provações e abnegações, não lhe faltava, contudo, o auxílio divino:

Está escrito: não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus (Mt 4, 4).

Estas palavras, tiradas do Antigo Testamento, referem-se ao alimento miraculoso dos hebreus no deserto, o maná descido dos céus. Cristo recusou-se a satisfazer a curiosidade ardente do demônio de saber se ele era ou não era o Filho de Deus, mas afirmou que Deus poderia alimentar os homens com algo mais importante que o pão.

O Senhor não utilizaria os poderes sobrenaturais para prover a si mesmo de alimento, como não os utilizaria para descer da Cruz. Em todos os tempos há pessoas que passam fome, e ele não se dissociaria dos seus irmãos famintos. Fizera-se homem e era sua vontade sujeitar-se a todos os desconfortos humanos, até soar o momento de sua glória.

Não estava negando que os famintos devam ser alimentados, nem que se deve deixar de pregar a justiça social. Afirmava, sim, que estas coisas não são as primeiras. Assim Cristo respondia a Satanás:

Tu me tentas com uma religião que aliviaria a miséria. Pretendes fazer de mim um padeiro, em vez do Salvador. Um reformador social, em vez do Redentor. Procuras que eu me afaste de minha Cruz, acenando-me com um lugar de chefe populista, para encher-lhe os ventres, em vez de saciar as almas. Tu preferirias que eu procurasse assegurar-me no princípio, em de me assegura no fim. Preferirias que eu trouxesse abundância exterior do que santidade interior.

Tu dizes, como todos os teus cúmplices materialistas: “o homem vive só de pão”. Mas eu digo: “Nem só de pão”. É preciso o pão, mas lembra-te que o pão recebe de mim o poder de alimentar a humanidade. O pão, sem mim, pode causar dano ao homem. Não pode existir real segurança fora da Palavra de Deus.

Se eu der apenas pão, então quer dizer que o ser humano não passa de um animal, e os cachorros podem ser os primeiros a sentar-se no meu banquete. Os que crêem em mim devem manter-se firmes na fé, mesmo quando presos e torturados.

Eu sei o que é fome humana! Eu mesmo estive sem comer durante quarenta dias! Mas me recuso a me fazer um reformador social que só cuida do ventre. Não podes dizer que não me preocupo com a justiça social, porque, neste mesmo momento, sofro a fome do mundo. Estou em cada pobre e faminto da raça humana. Por isso jejuei, para que ninguém possa dizer que Deus não sabe o que é fome.

Vai-te, Satanás! Não sou destes propagandistas do social que nunca sofreram fome, mas sou aquele que afirma: rejeito todo plano que promete aos homens torná-los mais ricos sem os tornar mais santos. Não te esqueças! Sou eu quem digo: “Nem só de pão”; e não provei pão por quarenta dias”.

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda