Jesus, revolucionário político

JESUS: REVOLUCIONÁRIO POLÍTICO

Em síntese: O presente artigo considera sumariamente o fundo de cena político da vida pública de Jesus, especialmente os partidos dos zelotas e dos sicários. Visto que alguns estudiosos, como Eisler e Brandon, tentam atribuir a Jesus traços de revolucionário político relacionado com alguma dessas facções, são examinados os principais textos do Evangelho sobre os quais se baseia tal tese. Após análise objetiva dos mesmos, conclui-se que tais passagens não fundamentam a concepção em foco. Jesus é, numa perspectiva autenticamente cristã, o Filho de Deus que assumiu a fragilidade humana a fim de divinizá-la, dando a todos os homens a certeza da vitória sobre o pecado e a morte.

Comentário: Jesus foi um revolucionário político, agitador de massas contra a ordem sócio-política instituída na Palestina do seu tempo? – É esta a pergunta que recentemente vem sendo colocada com muito amor; os que lhe respondem positivamente, procurando no Evangelho o fundamento de sua posição, tiram daí conclusões concretas: o autêntico seguidor de Cristo deverá ser hoje também um subversivo, disposto a derrubar as estruturas da sociedade atual, a fim de libertar o povo oprimido; os arautos da Teologia da Libertação valem-se, não raro, deste raciocínio para incitar os cristãos a uma praxis política revolucionária na América Latina.

Em vista da atualidade da questão, abordá-la-emos detidamente neste artigo.

1. Um pouco do histórico do problema

A questão não é de todo nova. Já H. S. Reimarus (1694-1768) escreveu a obra: “Von dem Zwecke Jesu und seiner Jünger. – A respeito do propósito de Jesus e de seus discípulos”. Neste livro o autor afirmava que Jesus fora um agitador político desejoso de libertar do jugo romano o povo judeu. Fracassou, porém, morrendo crucificado. Diante desta derrota, os discípulos de Jesus roubaram o seu cadáver para poder dizer que Ele havia ressuscitado e deram um cunho estritamente religioso à mensagem de Jesus; este teria apregoado uma salvação espiritual destinada a todos os homens.

A tese de Reimarus na sua época não teve ressonância, pois parecia demasiado artificial. Todavia no início do século XX foi reafirmada por diversos autores como K, Kautsky, socialista, em 1908, R. Eisler em 1929-30, S.C.F. Brandon em 1967-68… Este último insiste sobre o caráter político do messianismo de Jesus, apoiando-se, por exemplo, nas palavras de Cristo referentes às duas espadas (cf. Lc 22,36s), no episódio da multiplicação dos pães (cf. Mc 6,30-44), no da entrada de Jesus em Jerusalém e no da expulsão dos vendilhões do Templo (cf. Mc 11,15-19); afirma que a mensagem de Jesus foi despolitizada pelos evangelistas movidos por razões apologéticas. S. Marcos, antes dos outros, teria apresentado um Jesus pacífico para tranqüilizar as autoridades de Roma após a queda de Jerusalém (70), insinuando assim que os cristãos seriam leais súditos do Império.

Tal interpretação dos Evangelhos suscitou fortes réplicas devidas a Oscar Cullmann, Martin Hengel, Joachim Jeremias e, mais recentemente, a G. Jossa na obra “Gesù i movimenti di liberazione della Palestina” (Brescia 1980); este é um dos melhores estudos publicados sobre o assunto.

Passaremos a examinar a questão como é atualmente discutida pelos porta-vozes de uma e de outra tese; todavia a fim de se entender melhor a discussão, torna-se necessário examinar o fundo de cena político da Palestina contemporânea a Cristo.

2. Os partidos judeus no tempo de Jesus

Na época de Cristo, o judaísmo era representado por seis facções importantes: os fariseus, os saduceus, os essênios, os herodianos, os zelotes e os sicários.

Os saduceus eram propensos a aceitar a cultura greco-romana. Conforme os escritos do Novo Testamento, eram adversários de Jesus juntamente com os fariseus; cf. Mt 22,22-33; Lc 20,20-26; At 4,1-4; 5,17. Tanto os saduceus como os fariseus eram contrários a atividades revolucionárias.

Os herodianos, a respeito dos quais pouca documentação existe, são tidos por alguns historiadores modernos como amigos de Roma – opinião esta discutida. O fato é que se opunham a Jesus, conforme Mc 3,6; 12,13.

Os essênios, aos quais provavelmente estavam filiados os monges de Qumran, eram monges que viviam em lugares retirados praticando o celibato (havia uma espécie de Ordem Terceira para casados), a pobreza e a obediência. Eram avessos ao comércio e às armas.

Quanto aos zelotas e aos sicários, eram militantes contra o domínio romano.

De 6 a 70 d.C. as condições políticas da Palestina foram altamente agitadas. Desde 63 a.C. quando o General romano Pompeu subjugou os judeus a Roma, tirando a estes o pouco de autonomia de que gozavam sob os Macabeus, o povo de Israel se achava especialmente humilhado e revoltado. Tal aversão se agravou quando, no ano 6 d.C., Arquelau, filho de Herodes, foi deposto e a Palestina deixou de ser Estado vassalo de Roma para tornar-se província romana. Esta ficava sob a administração de um Prefeito romano, sujeita ao pagamento de uma taxa pessoal, dita tributum capitis (cf. Mt 22,15-22; Mc 12,13-17).

Tal situação provocou sucessivas revoltas populares no decorrer do século I. Entre os estudiosos modernos, há quem julgue que Jesus tinha algum vínculo com os zelotas e os sicários. Consideremos, portanto, mais minuciosamente estas duas facções.

2.1. Os zelotas

Este partido professava o zelo pela observância da Lei, seguindo o exemplo de Finéias, que tinha morto dois transgressores da Torá (cf. Nm 25,7-13), e de Matatias (cf. 1Mc 2,23-25). Tinham origem na Judéia, entre os sacerdotes do Templo. O seu ideal era a santidade da nação israelita, a pureza do culto e do Templo, a restauração do sacerdócio, legítimo (este era vendido a não levitas)… Cunharam moedas sobre as quais se liam as inscrições: “Jerusalém a santa” e “Liberdade de Sion”. Os seus interesses eram mais religiosos do que políticos e sociais; por isto queriam libertar dos pagãos a cidade de Jerusalém, mas não se empenhavam tanto por sacudir o jugo público dos romanos.

2.2. Os sicários

Os sicários eram assim chamados porque traziam oculto sob o manto um punhal (sica, em aramaico); era autênticos guerrilheiros, que viam na luta armada a premissa necessária para preparar a era messiânica. Originários da Galiléia, tinham por chefes os doutores da Lei e inspiravam-se fortemente na mentalidade religiosa dos fariseus. Recrutavam-se entre os camponeses, que aspiravam ao fim da exploração a eles imposta por ricos proprietários judeus tutelados por Roma. O seu fundador era Judas o Galileu, que recusava o recenseamento da população e a paga do tributo a Roma, pois tais instituições significavam o domínio de Roma sobre Israel. A única soberania reconhecida por Judas e pelos sicários era a do Senhor Deus. Por isto já no ano 6 d.C. Judas e seus seguidores iniciaram a revolta armada contra Roma.

Zelotas e sicários tinham em comum a oposição a Roma e aos seus aliados judeus filo-romanos. Todavia divergiam entre si a respeito de questões religiosas; estas diferenças vieram dolorosamente à baila quando um chefe sicário chamado Menahem entrou em Jerusalém com pretensões messiânicas e foi tragicamente morto pelos zelotas; tal fato provocou ruptura entre zelotas e sicários em plena guerra contra os romanos (66-70 d.C.).

Principalmente sob o governador Pôncio Pilatos (26-36 d. C.) e durante o reinado de Calígula (37-41 d.C.) foram freqüentes os movimentos sediciosos.

Em 66 todos os grupos revolucionários de Israel se uniram entre si numa famosa rebelião, que só terminou em 70, quando Jerusalém foi arrasada sob o comando do General Tito. Tiveram então partes destacadas na rebelião os zelotas e os sicários. Estes últimos foram responsáveis por nova rebelião em 132-135, que redundou na transformação de Jerusalém em cidade helenística com o nome de Aelia Capitolina.

3. Jesus e os movimentos de emancipação da Palestina

Pergunta-se: como se relacionava Jesus com as facções revolucionárias dos judeus? Compartilhava o ideal religioso e as intenções políticas das mesmas ou, ao menos, era-lhes favorável? Haverá gestos e palavras de Jesus, referidos pelos evangelistas político? O fato de que Jesus teve, entre os seus discípulos, um Simão Zelota (cf. Lc 6,15; At 1,13), um Pedro portador de espada (cf. Jo 18,10), um Judas Iscariotes (de Sica? Cf. Lc 6,16), dois irmãos chamados Tiago e João, filhos do Trovão (cf. Mc 3,17)… não significaria que Jesus vivia em freqüente contato com os zelotas e os sicários, compartilhando idéias dos mesmos?

Sabemos que para tais perguntas duas respostas contraditórias são propostas pelos estudiosos recentes: Eisler e Brandon têm Jesus na conta de um Messias político, ao passo que Bultmann e Hahn julgam que as concepções judaicas referentes ao Messias não tiveram influência sobre Jesus; este terá sido alheio a qualquer contato com os zelotas.

Visto que uns e outros autores tencionam basear a respectiva tese sobre textos do Evangelho, faz-se mister recorrer a estes, a fim de examinar o sentido genuíno dos episódios focalizados.

3.1. A expulsão dos vendilhões do Templo (Mt 21,12-17; Mc 11,15-17)

Ao expulsar os vendilhões do Templo, Jesus, segundo Eisler, terá procedido como um autêntico zelota: tal gesto equivalia à ocupação do Templo por parte de Jesus e dos seus seguidores, com ataque aos cambistas e aos vendedores de animais lá instalados. Segundo Brandon, Jesus realizou uma agressão ao sistema comercial do Templo e, através deste, à aristocracia comercial que o controlava.

Ora deve-se dizer que o episódio da purificação do Templo não implicou ocupação do Templo, pois no fim do dia Jesus e seus discípulos deixaram Jerusalém para passar a noite em Betânia. Nem houve ataque à aristocracia sacerdotal, porque Jesus se limitou a expulsar os comerciantes e cambistas. Também é de notar que o fato não teve ressonância política, tanto que não interveio nem a polícia judaica nem a guarda romana, que da fortaleza Antônia observava o Templo. Conclui-se que o episódio foi inspirado por motivos religiosos ou pela indignação de ver a Casa de Deus profanada, e não por razões políticas.

Essa mesma pureza do Templo que Jesus quis restaurar nada tinha que ver com as concepções dos zelotas. Com efeito, Jesus não se preocupava com o ritual dos sacrifícios nem com a legitimidade do sacerdócio, como se preocupavam os zelotas; Jesus não quis imiscuir-se na organização do Templo nem se fez reformador do culto e do sacerdócio. Quis apenas realizar um protesto profético com vistas à restauração da dignidade do lugar santo vilipendiado por comerciantes (é claro que indiretamente Jesus se revoltava contra a casta sacerdotal, que era a responsável pelo desrespeito ao recinto sagrado). Jesus estava dentro da tradição dos Profetas de Israel, e não na seqüela dos chefes político-religiosos da época.

3.2. A entrada triunfal em Jerusalém (Mc 11,1-11)

A acolhida de Jesus pela multidão em Jerusalém cinco dias antes da sua morte teve traços da recepção de um rei. Sim; a colocação de mantos e de ramos sobre a via, as aclamações “Hosana…” e “Bendito o reino que vem, o reino do nosso pai Davi!” tinham explícitas ressonâncias de expectativa de realeza. Segundo Reimarus, Jesus quis então reunir todo o povo de Jerusalém para fazer-se aclamar rei. Para Eisler, a entrada na Cidade Santa foi autêntica revolta anti-romana, durante a qual a multidão aclamou explicitamente Jesus Rei de Israel, pedindo-lhe que a libertasse do jugo estrangeiro e restaurasse o trono de Davi. Brandon julga que o episódio equivalia ao gesto de um chefe de fanáticos (= sicários) que proclamavam publicamente a sua pretensão à realeza.

Não há dúvida, o episódio foi proclamação de um rei. Todavia é preciso reconhecer que Jesus quis apresentar-se como um rei pobre e humilde, predito pela profecia de Zc 9,9; ora não era tal a concepção de rei messiânico que os nacionalistas judeus alimentavam; nem foi em tal sentido que a multidão entendeu as aclamações que proferiu diante de Jesus; ela esperava um Salvador político, guerreiro poderoso, e Jesus montado em jumentinho contrastava com tal imagem, a ponto que o evangelistas S. João nota que os discípulos não compreenderam o gesto de Jesus (cf. Jo 12,16).

Note-se ainda: o episódio não chegou a ter a projeção de uma grande manifestação política. Na verdade, se se tratasse de acontecimento triunfal e subversivo, nem as autoridades judaicas, e muito menos as romanas, teriam ficado indiferentes. Os episódios de caráter político revolucionário eram severamente reprimidos, como se dera no caso de Teúdas, alguns anos antes de Jesus (cf. At 5,36s), e como se daria no do profeta egípcio vinte anos depois da morte de Cristo (cf. At 21,39). Verifica-se que, quando Jesus entrou solenemente em Jerusalém, as tropas romanas não Lhe foram ao encalço; durante o processo frente a Pilatos não houve menção nem da desordem política nem das pretensões régias que teriam vindo à baila por ocasião de tal evento. Pode-se, pois, dizer que, do ponto de vista político, o que ocorreu foi um incidente que deve ter passado despercebido à massa dos peregrinos que subiam a Jerusalém. Precisamente Jesus quis tirar o possível caráter político da sua entrada em Jerusalém, montando em um pobre jumentinho.

3.3. A pregação inaugural de Jesus em Nazaré (Lc 4,16-21)

Sabe-se que Jesus iniciou a sua pregação certa vez na sinagoga de Nazaré, onde leu o trecho de Is 61,1s, texto em que o Servidor de Javé anuncia a sua missão de libertar os cativos e anunciar um ano de graça da parte do Senhor:

“Jesus foi a Nazaré, onde fora criado e, segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga, e levantou-se para ler. Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías; abrindo-o, encontrou o lugar onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor”. Enrolou o livro, entregou-o ao servente e sentou-se. Todos na sinagoga olhavam-no, atentos. Então começou a dizer: “Hoje realizou-se essa Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,16-21).

Para alguns intérpretes, este texto é fundamental na reconstrução da imagem de um “Jesus revolucionário”. G. Girardet sintetiza a sua mensagem nos seguintes termos: “A revolução está perto e aqui estou para efetuá-la” (II Vangelo della liberazione. Leitura politica di Luca. Torino 1975, p. 26).

Pergunta-se: pode-se dar colorido político a uma tal declaração de Jesus?

– Na verdade, tal interpretação só seria legítima se houvesse vestígios, no terceiro Evangelho, de interesses políticos da parte de Jesus. Ora estes faltam. Importante a propósito é a passagem de Lc 11,14-22: Jesus expulsa o demônio de um possesso e declara que veio destruir o reino de Satanás; em linguagem metafórica, Jesus é “o homem mais forte que assalta e vence o homem forte e armado, tira-lhe a armadura na qual confiava, e distribuiu os seus despojos” (Lc 11,21s). Os milagres de Jesus têm por fim precisamente ilustrar a sua missão consistem em expulsar demônios, curar enfermos e ressuscitar mortos, ou seja, debelar o instigador do mal e as conseqüências do pecado no mundo. Tais milagres são o sinal da salvação que ultrapassa o âmbito das questões políticas de Israel para assegurar ao homem a vitória final sobre a própria morte. Jesus veio trazer a libertação moral em relação ao pecado.

Esta conclusão é confirmada pelo exame das tentações de Jesus em Lc 4,1-13: Satanás sugere a Jesus que se apresente como Messias político, dominador de todos os povos da terra, promotor de fartura e riqueza, prestidigitador mirabolante… Jesus repeliu as três tentações para entregar-se à vitória através da cruz. Tal concepção messiânica estava bem longe das expectativas dos discípulos e do povo de Israel, a tal ponto que, quando Jesus a anunciou explicitamente, S. Pedro quis demover o Mestre; este então censurou Pedro como sendo Satanás (= Adversário), aquele que não tem o entendimento das coisas de Deus (cf. Mc 8, 31-33); Jesus rejeitou, pois, como totalmente estranha ao plano do Pai (que era também seu plano) a concepção de um Messias Senhor dos povos em termos políticos.

3.4. O tributo pago a César (Mt 22,15-22; Mc 12,13-17)

Outra prova de que o messianismo de Jesus não é o dos sicários, encontra-se no episódio do tributo a ser pago a César. Sabe-se que os sicários tinham por ilícito tal pagamento, pois significaria a aceitação do domínio do Imperador, ao lado da senhoria de Deus, nem seria legítimo dizer Kaísar despótes (César é chefe).

Ora a resposta de Jesus aos fariseus e herodianos muito difere da de um sicário: “Dai a Deus o que é de Deus, e a César o que é de César” (Mc 12, 17). Observe-se que a capciosa pergunta: “É lícito pagar o tributo a César?” limitava-se a considerar o tributo a pagar ao Imperador. Jesus não quis ficar dentro dos limites de tal questão, porque considerava insuficiente a perspectiva da mesma; os adversários se preocupavam com os deveres referentes a César e esqueciam os deveres para com Deus. Mas na verdade os problemas para com César já estavam esclarecidos pelo fato mesmo de que os fariseus traziam a moeda do tributo marcada com a efígie de César; não poderia haver dúvida, portanto, de que seria lícito pagar o imposto a César. Ao contrário, o problema essencial, que era o problema de Deus, estava ainda por ser resolvido. Em conseqüência, Jesus queria convidar os interlocutores a deixar os seus horizontes limitados para enfrentar o problema decisivo que era o de Deus.

Por isto, na resposta de Jesus a tônica incide não sobre a primeira parte (“Daí a César o que é de César”), mas sobre a Segunda: “E (=mas) daí a Deus o que é de Deus”. Jesus não se mostrou muito preocupado com os deveres referentes a César; quis, porém, enfatizar que a área dos poderes de César era limitada e definida pelos deveres para com Deus. Com estas palavras Jesus não negou a liceidade do tributo a César, mas rejeitou a teocracia; não se deve sacralizar nem divinizar o poder de César; porque César não é Deus. A César toca o respeito, não o culto; o dinheiro, não o homem, visto que o homem pertence a Deus só (Solius Dei autem homo, Tertuliano, Scorpiace 14). Ao mesmo tempo que rejeita a sacralização do poder imperial, Jesus recusa a politização da realeza de Deus; para Cristo, a libertação política de Israel não é a condição necessária da vinda do Reino de Deus. Assim Jesus se afastava da mentalidade dos sicários, que identificavam entre si emancipação política e salvação messiânica.

3.5. A morte de Jesus crucificado como rebelde (Mc 15,20-39)

A morte de cruz era infligida aos que se rebelavam no plano político, ao passo que o apedrejamento tocava aos profetas. Ora Jesus morreu crucificado, como um sedicioso, e não apedrejado, como um profeta. Como explicar isto, se Jesus não era um agitador de massas?

A resposta se deriva do fato de que os judeus, para se ver livres de Jesus, deviam mover as autoridades romanas a condená-lo à morte, pois não lhes era lícito infligir a pena capital; todavia diante dos romanos somente as acusações de ordem política, não as religiosas, tinham valor. Foi por isto que, diante do Sinédrio (tribunal judaico), foram atribuídos a Jesus delitos religiosos (como o de haver pensado em destruir o Templo e o de blasfemar; cf. Mc 14,58-64), ao passo que diante de Pilatos somente acusações políticas foram apresentadas: “Encontramos este homem a sublevar o povo, a impedir que se pague tributo a César e a dizer-se Ele próprio Messias” (Lc 23,2). Tais acusações eram certamente fracas ou insuficientes, mas acabaram movendo Pilatos, que receava ser acusado em Roma de conivente com os adversários de César.

Vê-se, pois, que nem o fato da morte de Jesus sobre a cruz é argumento em prol da tese de Jesus “agitador político”.

3.6. O círculo dos Apóstolos de Jesus

Chama a atenção o fato de que Simão era cognominado “o zelota” (cananeu, de qan’anayya, em aramaico). Disto, porém, não se pode concluir com absoluta certeza que tal Apóstolo fosse membro do famoso partido político; os exegetas discutem o assunto: faltam ulteriores notícias a respeito desse discípulo do Senhor.

Quanto ao cognome de Judas, também hesitam os estudiosos. À luz da língua hebraica, Iscariotes significa homem de Cariot (cf. Js 15,25). Alguns manuscritos do Novo Testamento trazem a forma grega skariótes, o que, segundo alguns, quer dizer: sicário. Pode-se também levar em consideração a opinião de C. C. Torrey e Gartner, que deriva o nome do aramaico Ishqarya = siqreya = o falso. Donde se vê que tal cognome não pode ser utilizado como sólido argumento em favor do partidarismo nacionalista do Apóstolo Judas Iscariotes.

O sobrenome Boanerges (= Filhos do Trovão, não se refere à opção política destes Apóstolos, mas, sim, à fogosidade do seu temperamento; foram eles que sugeriram a Jesus a precipitação de fogo do céu sobre Samaria em punição da indiferença religiosa dos seus habitantes; cf. Lc 9,49-54. O cognome Boanerges é de origem discutida; talvez seja derivado do aramaico Bene rigaza’ ou rigsha’, filhos da excitação ou da inquietude ou da tempestade; Mc 3,17 interpreta como sendo equivalente a “filhos da tempestade” (hyioi brontes).

A simples notícia de que Pedro era Portador de espada por ocasião da prisão de Jesus (cf. Jo 18,10) não é suficiente para se afirmar que era zelota e que Jesus estava relacionado com os zelotas.

4. Conclusão

Os elementos de exegese bíblica até aqui propostos evidenciam que gratuita é a tese que identifica Jesus com um revolucionário político. Os textos do Evangelho não insinuam tal conclusão, desde que tratados com objetividade criteriosa e científic

De resto, no estudo atrás realizado consideramos o Senhor Jesus do ponto de vista meramente humano, abstraindo das proposições que a fé enuncia a respeito do Divino Mestre. Uma visão autenticamente cristã sobre Jesus jamais permitiria dizer que os seus desígnios fracassaram ou que o Senhor Jesus Cristo se enganou em suas perspectivas de missão e de futuro. Aos olhos do cristão, Jesus é o novo Adão (cf. Rm 5,14) ou o Filho de Deus feito homem, que assumiu a fragilidade do homem para divinizá-la e dar-lhe a certeza da vitória sobre o pecado.

in memoriam D. Estevão Bettencourt, osb.

Na elaboração do presente artigo, muito nos valemos do estudo de G. de Rosa: Gesù fu un rivoluzionario? Una ricerca critica sulla storia “politica” di Gesù, em “La Civiltà Cattolica” 3157, 2/01/82, pp. 42-54.

CULLMANN, O., Jesus e os Revolucionários do seu Tempo. Petrópolis 1972.

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