A quantidade, a qualidade e Bento XVI

A Quantidade, a Qualidade e Bento XVI

por André Luis Brandão / http://www.sociedadecatolica.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=19

A debandada de infiéis para seitas neo-pentecostais nos últimos anos, suscitou uma “competição” desnecessária e improfícua. De um lado, pseudo-pastores deturpando a Sagrada Escritura e calejando suas pregas vocais com sermões inflamados e embebidos de heresias, anunciando o “verdadeiro” Cristo que libertaria definitivamente o homem de suas amarras – bastando pra isso apresentar o contracheque e pagar dízimo. De outro, católicos – que não falam em nome da Igreja – buscam a todo custo mudar o imutável, aperfeiçoar o perfeito e modernizar o eterno para “recuperar” esses “fiéis” que pularam o muro da Roma Eterna rumo ao erro e a perdição.

Já não é de hoje que sempre se ouve um velho argumento de que “A Igreja tem que se modernizar para atrair fiéis” e que por essa razão o Papa deveria ser um homem de “mente aberta”, “moderno” e coisas do tipo. Infelizmente, houve uma adesão massificada da idéia de que “coisa boa só se for em grandes quantidades”.

É bom lembrar que o Coliseu de Roma vivia cheio de telespectadores que lotavam as arquibancadas para assistirem extasiados, cristãos serem devorados como trigo por leões famintos. Lembremo-nos também que os motéis lotam seus quartos para promover o sexo sem compromisso, o adultério, a sodomia e outras aberrações. Nem sempre números expressivos significam coisas positivas.

Isso é o que penso a respeito e sempre defendi que a Igreja necessita de Católicos que realmente testemunhem o cristianismo em sua forma mais radical e autêntica e que direcionar esforços focando uma conversão em massa é um grande erro. Mas sei que minha opinião é mera opinião. Então trago aos amigos leitores, trecho da entrevista do então Cardeal Joseph Ratzinger (que para quem ainda não sabe é Bento XVI) concedida a Peter Seewald no livro Sal da Terra (Editora Imago):

“Pode-se dizer que, manifestamente, muitos dos seus avisos e apelos não deram muitos frutos. O senhor não conseguiu criar um amplo movimento contra as correntes da época, nem levar a uma mudança de mentalidade em grande escala. Como consolação, disse que Deus conduz a Igreja por caminhos misteriosos. Mas não é deprimente que a discussão gire em torno de si mesma e que o nível dos debates tenha descido ainda mais? Entretanto, parece que os conteúdos da fé se perderam ainda mais e que, em relação a todas as interrogações, a indiferença se tornou ainda maior.

Nunca imaginei que pudesse, por assim dizer, mudar o rumo da História. E se até Nosso Senhor acaba primeiro na Cruz, vê-se que os caminhos de Deus não conduzem tão depressa a sucessos que se possam avaliar. Julgo que isso seja de suma importância. Os discípulos fizeram-Lhe algumas perguntas, tais como: o que se passa, por que é que nada avança? E Ele respondeu com as parábolas do grão de mostarda, do fermento e com outras semelhantes, e disse-lhes que a estatística não era uma das medidas de Deus. Não obstante, acontece com os grãos de mostarda e com fermento alguma coisa essencial e decisiva que não se pode ver agora.

Nesse sentido, penso que se tem de abstrair dos parâmetros quantitativos do sucesso. É que nós não somos uma empresa comercial que pode avaliar em números se fez uma política de sucesso e se vende cada vez mais. Mas prestamos um serviço que acabamos por colocar nas mãos do Senhor. Por outro lado, também não quer dizer que não conduza a nada. Verificam-se sinais de ressurgimento da fé, sobretudo entre os jovens, em todos os continentes.

Talvez tenhamos que nos despedir das idéias existentes de uma Igreja de massas. Estamos possivelmente perante uma época diferente e nova da história da Igreja. Nela, o cristianismo voltará a estar sob o signo do grão de mostarda, em pequenos grupos, aparentemente sem importância, mas que vivem intensamente contra o Mal e trazem o Bem para o mundo; que deixam Deus entrar. Vejo que há muitos movimentos desse tipo. Não quero dar agora exemplos concretos. De fato, não há conversões em massa no cristianismo, não há mudança histórica paradigmática nem uma virada. Mas existem formas fortes de presença da fé que voltam a dar ânimo, dinamismo e alegria às pessoas; presença da fé que significa alguma coisa para o mundo”.

Ao iniciar seu pontificado Bento XVI insiste na necessidade de se preservar a identidade católica, o que para os pessimistas significaria perder ainda mais “fiéis” que se apegariam ao primeiro vento de doutrina em detrimento dos ensinamentos do catolicismo.

Para maior glória de Deus os pessimistas estavam redondamente enganados. Uma matéria da Revista Época de Julho de 2007, intitula “O Efeito Ratzinger” apresenta números que dão razão ao Santo Padre.

“…o número de peregrinos que vão a Roma vê-lo não pára de crescer. São 7 milhões por ano, um crescimento de 20% desde 2005, contrariando as previsões. O balanço apresentado no fim da semana passada mostra que o Vaticano fechou o ano de 2006 com um superávit de 2,4 milhões de euros. Só o Óbulo de São Pedro, coleta feita no dia 29 de junho no mundo todo que reverte diretamente para Roma, pulou de US$ 60 milhões em 2005 para US$ 102 milhões no ano passado”.

Esses números, de modo algum, se contrapõem ao argumento de que é preferível uma Igreja “enxuta”, mas com uma fé autêntica a uma Igreja cheia de fé vazia. Antes de mais, os números mostram que o Cardeal Joseph Ratzinger estava certo quanto a Igreja sob o signo do “grão de mostarda” que agora, com Bento XVI, já pode vislumbrar grandes folhagens onde as aves farão morada.

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