A época dos sinais

A ÉPOCA DOS SINAIS

Uma Abordagem Bíblica sobre o Fenômeno Pentecostal

Scott Hahn / Fonte: Revista “Envoy” jul-ago, 1999 / Tradução: Sandra Skatzman

INTRODUÇÃO

Muitas pessoas acreditam que estamos vivendo um novo derramamento do Espírito Santo. Em 1960, o Papa João XXIII, quando perguntado por que ele tinha reunido o Concílio Vaticano II, respondeu que ele estava rezando para um “novo Pentecostes”.

Ninguém sabe até que ponto, literalmente falando. Mas alguns católicos acreditam que Deus interpretou seu vigário ao pé da letra, e derramou Seu Espírito em novas formas surpreendentes. Primeiro, havia a doutrina do próprio concílio – vital, oportuna e profunda em suas implicações pastorais. Depois, nas décadas que se seguiram, vimos sinais impressionantes da obra do Espírito: homens e mulheres comuns com poderes de ensinar e curar, que também aparentemente manifestavam dons carismáticos que não eram vistos desde o primeiro século (e.g., falar em línguas).

Algumas pessoas responderam a isto dizendo que tais fenômenos eram totalmente válidos – e até mesmo deviam ser normativos para os católicos – enquanto outros rejeitavam tudo como sendo fraudulentos. Se não rejeitarmos tudo como pura fraude, ficamos com a pergunta: “O que isto significa?”.

Mas, antes que possamos entender os sinais de nossa época, precisamos aprofundar nosso entendimento do próprio Pentecostes sob a luz das Escrituras.

PENTECOSTES: NOVO E ANTIGO

Até mesmo crianças em idade escolar deveriam saber que a festa de Pentecostes foi um acontecimento do Novo Testamento. Cinqüenta dias depois da Páscoa – dez dias depois que Jesus subiu ao céu – o Espírito Santo veio em poder sobre os apóstolos, fazendo com que eles falassem em línguas e profetizassem.

Ainda assim, poucos cristãos sabem que até mesmo este dia teve seus precedentes – que Deus tinha enviado Seu Espírito de forma similar, em circunstâncias parecidas, no tempo do Antigo Testamento, e com resultados surpreendentemente parecidos. Ambos Pentecostes, o antigo e o novo, podem nos ajudar a entender nossa própria época do Espírito.

O Pentecostes foi primeiro uma festividade israelita, celebrado cinqüenta dias depois da Páscoa dos Judeus (Ex 12, 21-28), comemorando a lei recebida no Monte Sinai. Mas algo mais do que tábuas de pedra foi dado a Moisés no deserto do Sinai.

Moisés precisava de ajuda para suportar o fardo da liderança, então Deus “tomou do Espírito que repousava sobre ele e o colocou nos setenta anciãos” (Nm 11, 25).

Com o poder de Deus, estes anciãos começaram a profetizar. Moisés proclamou seu desejo de que “todo o povo de Iahweh fosse profeta, dando-lhe Iahweh o seu Espírito” (Nm 11, 29).

Com estas graças especiais, você poderia imaginar que Israel teria começado um período de paz e fidelidade. Mas ao contrário, eles se rebelaram, instigando uma série de revoltas contra as autoridades, em todos os níveis. O povo, os sacerdotes, os anciãos – até mesmo o próprio Aarão – se rebelaram. Embora este novo período tenha começado com grandes bênçãos, ele logo degenerou-se em imoralidade, idolatria, e discórdia. O fiel comum achou difícil se ajustar a esta nova situação. A quem eles seguiriam? Como eles saberiam em quem confiar? Assim, eles vagaram por quarenta anos, até que o último dos incrédulos tivesse perecido no deserto.

Qual foi o benefício feito pelo derramamento do Espírito Santo?

Julgando pelas aparências, você pode dizer que isto não fez mais do que provocar confusão. Todavia, numa análise mais de perto, veremos que as bênçãos não foram a causa da confusão, mas sim suprimento para ajudar os fiéis a passar por tudo aquilo. Deus tinha previsto a confusão que viria com a rebelião. Ele derramou o Seu Espírito sobre Moisés e os setenta anciãos, para que o povo que realmente quisesse ouvir a Palavra de Deus pudesse ouvi-la.

O PRIMEIRO JOEL

Mudemos do Pentecostes da Aliança Antiga para o da Nova. Cinqüenta dias depois da morte e ressurreição de Jesus na Páscoa dos judeus, os apóstolos estavam reunidos em Jerusalém para celebrar o Pentecostes. Naquela ocasião, Deus derramou o Seu Espírito – de uma maneira nova e poderosa – sobre todos os 120 que estavam reunidos na sala do andar de cima. Como resultado, todos eles começaram a profetizar e a falar em línguas, do maior ao menor. Quando pressionados por uma explicação, Pedro citou o profeta Joel: “Sucederá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda carne. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão… Sim, sobre meus servos e minhas servas derramarei do meu Espírito. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão” (Atos 2, 17-18; Joel 3, 1-5).

Não deixe isto passar despercebido. O desejo de Moisés para Israel estava agora tornando-se realidade. Não apenas os anciãos profetizariam, mas os filhos e filhas – e até mesmo os escravos e servos.

Também não se deve deixar de perceber a significância da profecia original de Joel, e que Pedro menciona. Na linha seguinte, Joel faz um aviso ameaçador: “Haverá… em Jerusalém sobreviventes que Iahweh chama” (Joel 3, 5b).

Joel tinha boas notícias e más notícias para Jerusalém. A boa notícia era que o Espírito de Deus estava preparando os fiéis restantes para encontrarem o seu caminho por um período de grandes tribulações e confusões. A má notícia era que a maioria se perderia.

Quando Pedro citou Joel, ele deve ter percebido o contexto maior. Afinal, qual foi a última profecia de Jesus, bem antes de sua prisão? Em Jerusalém, “não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja demolida… esta geração não passará sem que tudo isso aconteça” (Mt 24, 2.34).

Ele proferiu estas palavras entre os anos 30 e 33 d.C. Uma “geração” no tempo de Jesus significava quarenta anos. Dentro de quarenta anos, as legiões romanas devastaram Jerusalém. Ao todo, 1,1 milhão de judeus pereceram naquele cerco.

Pedro viu claramente. O Messias tinha vindo, e Israel tinha se rebelado – da mesma forma como no tempo de Moisés – a começar pelo Sumo Sacerdote que ordenou a execução de Jesus. Então a rebelião se espalhou, dos escribas e sacerdotes aos fariseus e saduceus, até os fiéis comuns foram perdidamente confundidos.

Dado tamanho caos, como iria o Pai prover as necessidades de Seus filhos?

Agora, tudo isto deve começar a se parecer com algo familiar. Nos dias de Moisés, Deus tinha enviado o Seu Espírito no começo dos quarenta anos de caos. Da mesma forma, nos dias de Pedro, quarenta anos antes do julgamento cair sobre Jerusalém, o Espírito veio, e homens e mulheres começaram a profetizar e a falar em línguas.

MISTÉRIO ABSOLUTO

É razoável que perguntemos, “Qual é o propósito de Deus para o dom de falar em línguas?”

Primeiro, tomemos em consideração o que São Paulo fala a respeito do assunto: “aquele que fala em línguas, não fala aos homens, mas a Deus. Ninguém o entende, pois ele, em espírito, enuncia coisas misteriosas” (1Cor 14, 2).

Ao mesmo tempo, São Paulo fala do dom de línguas como o menor dos dons. E ele convoca seus irmãos de Corinto a aspirar os dons mais altos: profecia e, o maior de todos, a caridade (implícito neste tratamento de São Paulo está a distinção entre os dois tipos de graça: carismática e santificante.

Os dons carismáticos são para o bem dos outros (veja 1Cor 12, 7). Os dons de santificação é para a própria salvação e crescimentoem santidade. A Igrejanão cresce sem o primeiro, mas ninguém alcança o céu sem o último. Na verdade, alguém pode possuir a graça carismática e carecer de graça santificante (veja Mt 7, 21-23)).

Isto resolve o “o quê” a respeito do dom de línguas, mas ainda resta o “por quê”, e neste caso, São Paulo oferece uma explicação curiosa.

“Está escrito na lei:” – diz ele – “Falarei a esse povo por homens de outra língua e por lábios estrangeiros, e mesmo assim não me escutarão, diz o Senhor. Por conseguinte, as línguas são um sinal não para os que crêem, mas para os que não crêem. A profecia, ao contrário, não é para os incrédulos, mas para os que crêem” (1Cor 14, 21-22).

LÍNGUAS: SINAL DE MALDIÇÃO DA ALIANÇA

O que ele quer dizer quando ele fala que as línguas são para os que não crêem, enquanto que a profecia é para os que crêem? Não parece ser o contrário? Não deviam as línguas ser para os que crêem, que pela fé estão melhor preparados para aceitar um comportamento estranho e eufórico? Não devia a profecia ser um sinal para os que não crêem, que ficariam impressionados pelos discernimentos que só poderiam vir de Deus?

A declaração de São Paulo só faz sentido quando percebemos o uso que ele faz de dois textos chaves do Antigo Testamento, Deuteronômio 28, 49 e Isaías 28, 11.

Primeiro, ele diz, “está escrito na lei…” Esta é uma referência ao Deuteronômio 28, 49, que anuncia o que acontecerá antes que a maldição final caia sobre o povo de Deus que é desobediente. “Iahweh erguerá contra ti uma nação longínqua, dos confins da terra… uma nação cuja língua não compreendes”.

Resumindo, línguas estranhas precedem imediatamente o exílio. Deus diz: “Preserve minha aliança, e terás a verdade; quebre a minha aliança, e terás a morte – mas a caminho terás o que parece com palavrório”. Falar em línguas em Deuteronômio 28 é uma preparação para o julgamento, uma purificação, uma última chance para arrependimento. E é isto o que São Paulo está dizendo quando ele cita esta passagem.

A PONTA DA LÍNGUA

Segundo, a referência de São Paulo à lei é indireta; ele está na verdade citando Isaías 28,11: “É com lábios gaguejantes e em uma língua estranha que ele falará a este povo”. O que São Paulo está fazendo? Aparentemente, ele quer que os leitores de Corinto percebam os paralelos entre o tempo de Isaías e o seu próprio tempo. Isaías anunciou a destruição do Reino do Norte, imediatamente precedido pelo sinal pouco auspicioso das “línguas estranhas”. Tudo isto aconteceria dentro dos quarenta anos de sua profecia – quando Deus enviou o julgamento final sob a forma dos assírios, os terroristas mais temidos do século VIII a.C.

Por que Deus enviaria tal julgamento? Isaías continua, dizendo: “Sacerdote e profeta ficaram confusos pela bebida, ficaram tomados pelo vinho, divagaram sob o efeito da bebida, ficaram confusos nas suas visões, divagaram nas suas sentenças” (Is 28, 7b).

O que deve fazer o povo de Deus? Os sacerdotes e os profetas estão tão embriagados e desmoralizados que eles não proclamam a verdade. Isaías pergunta: “A quem ensinará ele o conhecimento? A quem fará ele entender o que foi dito?” (Is 28, 9).

Isto não começa a soar como as doze tribos no tempo de Moisés? Começa a soar como os judeus de São Paulo na Corinto do primeiro século (veja Atos 18, 1-17)?

Como São Paulo sem dúvida sabia, foi isto o que Isaías previu – não apenas a queda do Reino do Norte no século VIII a.C., mas a queda do Reino do Sul de Judá num futuro distante (veja Is 8, 1-4). E é isto o que São Paulo e todos os fiéis do primeiro século estavam passando.

SELADO COM UMA MALDIÇÃO

Significantemente, uma porção do oráculo de Isaías é impossível de ser traduzido – e é o versículo que imediatamente precede aquele que São Paulo citou. Apesar de muitas tentativas de interpretar o original em hebraico de Isaías 28,10 para o inglês, os especialistas em língua hebraica geralmente concordam que as palavras de Isaías neste caso provavelmente não foram nem mesmo compreensíveis para o profeta antigo. Nem, aparentemente, tinham esta intenção.

É assim que esta passagem é apresentada na minha Biblia Ignatius: “Preceito sobre preceito, preceito sobre preceito, linha sobre linha, linha sobre linha, aqui um pouco, ali um pouco” (Is 28, 10) (“precept upon precept, precept upon precept, line upon line, line upon line, here a little, there a little”).

Mesmo assim, estas palavras não aparecem em hebraico.

Em Hebraico, as palavras são: “saw lasaw saw lasaw, qaw laqaw qaw laqaw, ze’er sham ze’er sham”. Muitos comentaristas sustentam isto como sendo poesia lengalenga, murmúrios infantis. Não é hebraico significativo. Mas precisa ser explicado se queremos entender o que São Paulo diz a respeito das línguas.

“É com lábios gaguejantes e em uma língua estranha que ele falará a este povo”. O Senhor está preparando o povo da época de Isaías para um julgamento intenso. Eles estão para ser enviados ao exílio, invadidos, cortados em pedaços – tudo porque eles não ouviram os profetas, eles não observaram a lei e a aliança.

Esta é a cólera de Deus. Sua lei é nossa plenitude. As maldições da aliança são como disciplina paternal quando rejeitamos Seu amor. Ele respeita a nossa escolha, até mesmo permitindo que criemos um inferno para nós mesmos. Se rejeitarmos Sua Palavra, então terminaremos no caos e na confusão – e por fim no exílio.

A ruína chegou no Reino do Norte de Israel no período de uma geração, sob as mãos dos assírios em722 a.C.

ÉPOCA EXTRAORDINÁRIA

A situação da Igreja apostólica era um pouco diferente. Os poderes de Jerusalém e de Roma tinham conspirado para crucificar o Filho de Deus. O povo da Antiga Aliança estava confuso. E a destruição de Jerusalém pelos romanos era iminente. O cerco de Jerusalém, em 70 d.C., deixaria a capital espiritual dos judeus em escombros.

Deus enviou Seu Espírito em poder para preparar um povo para a vida em meio a confusão. Ele enviou um novo Pentecostes para a primeira geração de fiéis, e S. Paulo foi um entre muitos cristãos que recebeu os dons derramados sobre a Igreja.

Não é de admirar que São Paulo considerasse as línguas “um sinal para os que não crêem” (também conhecidos por “incrédulos”), pois o dom não deixa-o com sentimentos mornos e estremecidos mas com uma lembrança assustadora das maldições do Deuteronômio 28 e da destruição humilhante de Israel pelos assírios.

As bênçãos de um Pentecostes, veja, não são inconsistentes com os tempos de rebelião, confusão e julgamento; na verdade, dons sobrenaturais e extraordinários com freqüência antecedem tempos de julgamento extraordinário da aliança.

DE FORA PARA DENTRO

Ainda, os dons são extraordinários – por definição, eles não são normais – e assim eles não parecem corretos para crentes convencionais. Até mesmo no primeiro Pentecostes cristão, o espetáculo dos apóstolos falando em línguas não pareceu estar de acordo com a tradição religiosa. “Estavam todos estupefatos. E, atônitos, perguntavam uns aos outros: ‘Que vem a ser isto?’ Outros, porém, zombavam: ‘Estão cheios de vinho doce!'” (Atos 2, 12-13).

Nosso próprio tempo não é diferente. Hoje, nós ouvimos críticas, pessoas boas e ortodoxas, dizendo que a experiência pentecostal “não parece católica”. Eles se perguntam se isto pode ser um sinal de lapso no protestantismo.

É preciso conhecer um pouco de história…

MANEIRA ESPIRITUALIZADA

O século XIX foi uma época de declínio da fé mundialmente. O modernismo e o criticismo bíblico estavam em alta, obscurecendo a pessoa divina de Jesus e fazendo com que as verdades de fé parecessem ainda mais elusivas para os crentes, especialmente em denominações protestantes principais. A secularização tinha tomado conta de muitas instituições tradicionalmente cristãs no ocidente. Diz-se que o Papa Leão XIII recebeu uma visão da influência de satanás por trás disso tudo, e da grande luta que viria no século XX.

Na vida do Papa Leão XIII, em 1897, chegou a carta de uma freira italiana, Beata Elena Guerra, a fundadora das Oblatas do Espírito Santo. Ela queria que o Santo Padre iniciasse o próximo século com o cântico Veni, Creator Spiritus (“Vinde, Espírito Criador”) e pedisse aos bispos do mundo para fazer uma novena para o Espírito Santo pela renovação da Igreja. O Papa acataria os desejos dela, até o ponto de escrever uma encíclica sobre o Espírito Santo naquele mesmo ano.

Então algo surpreende aconteceu. O pentecostalismo surgiu, aparentemente do nada, e começou a espalhar rapidamente. Mas aconteceu em todos os lugares “errados”. Em Kansas, em 31 de dezembro de 1900, um ex-pastor metodista chamado Charles Parham liderou um grupo em oração pelo dom das línguas, que se manifestou depois da meia-noite.

Quase na mesma hora, do outro lado do Atlântico, o Papa estava satisfazendo o desejo da Beata Elena cantando o Veni, Creator Spiritus.

Resumidamente, o movimento pentecostal se espalhou entre os protestantes nos Estados Unidos, Rússia, Coréia e Índia.

NÃO NO NOSSO QUINTAL

Não é de admirar que muitos católicos vejam isto como um fenômeno protestante, porque ele começou e se espalhou fora dos limites da Igreja institucional. O que muitos católicos não percebem, entretanto, é que o protestantismo principal não reconheceu o pentecostalismo como seu, e o movimento experimentou um crescimento sensacional além dos limites do protestantismo institucional também.

Ainda, certamente isto não “parecia católico”, e ninguém, que eu saiba, fez uma conexão entre a oração do Papa Leão e o surgimento do pentecostalismo até muito depois em nosso século XX.

Ainda assim, a oração do Papa Leão continuou a ecoar na Igreja. Nos anos 50, o padre espanhol, São Josemaria Escrivá escreveu: “Peça comigo por um novo Pentecostes, que irá mais uma vez acender o mundo”. E o Papa João XXIII deu à oração sua expressão mais famosa enquanto se preparava para o Concílio Vaticano II.

Foi na vigília deste concílio que, em 1967, um grupo de estudantes e professores da Universidade de Duquesne em Pittsburgo fizeram orações pela experiência pentecostal na Igreja Católica, recebendo os dons das línguas e da profecia. De Pittisburgh o movimento se espalhou para os confins da terra. E isto é uma coisa impressionante: de1900 a1967, o pentecostalismo estava fora do catolicismo, mesmo assim de 1967 até os dias de hoje, pode-se encontrá-lo em quase todos os lugares em que se encontra o catolicismo.

Isto não quer dizer que tudo que pareça pentecostal seja sobrenatural. Grande parte, questionavelmente, não é. Em alguns casos, é mero emocionalismo, em outros, pode ser fraude (ou até coisa pior). Mas eu hesitaria em rejeitá-lo completamente. E se não é genuíno, certamente é significante.

EXPOSIÇÃO DO NORTE

A questão então que permanece é se este fenômeno é legitimamente católico. Por que, afinal, está entrando na Igreja somente agora? Eu creio que a resposta está nos Pentecostes da Escritura.

Lembre-se que São Paulo, ao falar das línguas, se refere ao Deuteronômio 28, o texto que prevê as maldições que viriam quando Israel infringe a aliança. Nós vemos a aplicação destas maldições, não só no primeiro século, depois da execução de Jesus, mas também no século VIII a.C. na profecia de Isaías sobre a invasão iminente dos assírios.

Nós devemos notar que a profecia de Isaías não era dirigida a Jerusalém – isto é, não era dirigida para o centro legítimo da liturgia da aliança – mas para Efraim, no norte. Por que os rebeldes cismáticos do Reino do Norte seriam os primeiros a receber os sinais e julgamentos extraordinários?

Leve em consideração a história da rebelião do norte. Em930 a.C., Salomão morreu, e foi sucedido por seu filho Roboão. Roboão apartou-se dos líderes das dez tribos da coligação do Norte, então eles se rebelaram. Ainda assim, Deus enviou a estes “protestantes” do Antigo Testamento onda após onda de profetas, incluindo os grandes como Elias, Eliseu, Oséias, Amós, Jonas e Isaías. Ele também fez grandes milagres, incluindo a restauração dos mortos (Durante este período, nenhum profeta foi enviado para o sul, nem Judá testemunhou nenhuma ressurreição). Ainda assim o norte disse que ele não queria nada com a casa de Davi. E de 930 até a destruição do norte em 722, o Reino do Norte se afastou do governo da linha de Davi, e também do verdadeiro culto do Templo de Jerusalém.

O povo do norte estava, de várias maneiras, como o protestantismo. Eles podiam mostrar as práticas abusivas do sul; eles podiam mostrar a corrupção moral na hierarquia de Jerusalém. Mesmo assim, o profeta que o Senhor enviou para confrontar Jeroboão e as tribos do norte disse que não era a sua indisposição em se submeter ao poder político da monarquia Davídica que provocou Deus. O que provocou Deus foi a rejeição deles do Templo de Jerusalém e da liturgia ali estabelecida pela aliança divina. Nesse ponto, eles tinham ido muito longe (veja 1Reis 13, 1-34).

No entanto, o carisma da profecia veio primeiro para o norte, da mesma forma que o “dom” das línguas estranhas. E os judeus do sul podiam, com razão, ter dito: “Estes caras não podem ser israelitas verdadeiros. Eles não soam como israelitas. E mesmo que sejam, eles estão prestando culto da forma errada e no lugar errado.” O fenômeno pentecostal, naquela época como sempre, não se encaixou perfeitamente na categoria de ninguém.

TRIAGEM DIVINA

Eu proponho que Deus estava praticando uma triagem providencial. Da mesma forma que os médicos identificam os pacientes mais doentes para o tratamento mais imediato, Deus identificou a parte mais doente espiritualmente do Seu povo e ofereceu-lhes, primeiro, as formas da aliança de restauração da saúde. Quando eles esgotaram os esforços Dele, Ele tornou Seu julgamento curador (que cura) para o sul. Era então a vez de Judá de receber as profecias, daqueles como Jeremias, Ezequiel, Joel e finalmente Jesus.

Como aconteceu com Israel e Judá, assim foi com a Igreja. Só porque estes sinais pentecostais estranhos tiveram origem no protestantismo, não significa necessariamente que os sinais sejam estranhos a fé católica. Se você olhar através das lentes da aliança para ver como o Pai julga Seu povo genioso, você perceberá que a profecia e as línguas são sinais que Ele envia ‘primeiro’ àqueles que estão em rebelião. ‘Depois’, quando a rebelião entra no povo da aliança, Ele aplica Seu remédio para a casa também.

O QUE FAZ O PENTECOSTES?

Por que estes sinais estão entrando na Igreja hoje? Talvez a situação interna esteja se tornando parecida com a situação externa. O que nós vemos agora na Igreja – dissidência, desobediência e deserção – resulta na dissolução institucional e doutrinal de todas as denominações protestantes. Por pior que tenha sido para os católicos, os protestantes têm encarado uma crise muito maior. De fato, os católicos podem não perceber que o “reavivamento” atual no que chamamos “protestantismo” (isto é, pentecostalismo e fundamentalismo) não é reconhecido como tal pelos protestantes tradicionais principais.

Qual, então, é o objetivo do novo Pentecostes?

O Espírito Santo, me parece, está trazendo um julgamento dramático sobre um Ocidente orgulhoso, teimoso e frouxo. Ao mesmo tempo, através dos carismas da aliança que marcam as disciplinas de Deus, a Igreja está sendo impulsionada a atingir culturas – na África e Ásia – que o Ocidente dificilmente se preocupou em atingir anteriormente.

Isto, creio eu, é o novo Pentecostes. Deus está fazendo uma coisa nova, e é o que Ele quis fazer o tempo todo. Só que agora Ele está fazendo apesar de nosso pecado e pela Sua misericórdia.

Resta-nos o arrependimento.

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