Devolver a bíblia ao dono

DEVOLVER A BÍBLIA AO DONO

Frei Aldo Colombo

O dia era chuvoso e a mãe aproveitou a oportunidade para uma faxina geral na casa e convocou o filho de dez anos para ajudá-la. No primeiro momento tratava-se de separar os objetos que ainda tinham valor e os que deveriam ser jogados fora. No segundo momento seria necessário tirar a poeira e colocar os objetos em seu devido lugar. Enquanto a mãe separava os objetos que deveriam ficar, o filho tirava a poeira, começando de cima para baixo. Havia realmente o que fazer.

Quando começou a colocar abaixo tudo que existia na velha prateleira, o garoto consultou a mãe: olhe mãe, achei um livro grosso e velho, cheio de mofo, é capaz até de abrigar algumas traças. Jogamos no lixo? A mãe, vendo que aquilo que o filho chamava de coisa velha era a Bíblia da família, disse-­lhe em tom contrito: meu filho, cuide com carinho deste livro porque ele é sagrado, é o livro de Deus. Imagine jogar isso no lixo! Então, observou o filho, antes que as traças o destruam, é melhor devolvê-lo ao dono, pois aqui em casa nunca o usamos e – quem sabe – ­Deus encontre alguém interessado por ele.

A Bíblia, mais que um livro, é o conjunto de 73 livros inspirados por Deus, do Antigo e Novo Testamento. É o livro mais lido de toda a história da humanidade. Ele continua sendo o livro mais traduzido e vendido em todo o mundo. Poemas, pinturas, filmes, romances brotam de suas páginas. Foi a primeira obra impressa por Gutenberg, quando inventou a imprensa. É um livro que a humanidade ainda não terminou de ler e seu conteúdo ressoa de maneira diferente para cada situação e para cada leitor. Santo Ambrósio já afirmava:

“A Deus falamos quando oramos, a Deus escutamos quando lemos a sua Palavra”.

Outro santo – Agostinho – lembrava que existe certa igualdade entre a Palavra e a Eucaristia.

A Leitura Divina é uma antiga tradição da Igreja. Ela se desdobra em quatro momentos: leitura, meditação, oração e contemplação.

É aquilo que hoje falamos: leitura orante da Palavra de Deus. Retomando os passos. Na leitura procuramos entender bem o texto. Pode-se ler várias vezes. Na meditação, imaginamos que este texto foi escrito para mim, pessoalmente. A pessoa se inclui no fato, na parábola, na história contada.

No terceiro momento – oração – surge aquilo que o texto me faz dizer a Deus: agradecimento, perdão, súplica. Finalmente, na contemplação, nos colocamos, sem palavras, diante de Deus, numa atitude de encantamento.

Não basta ter a Bíblia, precisamos lê-la. Não basta lê-la, precisamos compreendê-la. Não basta compreendê-la, mas precisamos vivê-la. Não basta vivê-la, mas precisamos anunciá-la aos outros, pelo testemunho e pela palavra.

 

A Bíblia é um livro que a humanidade ainda não terminou de ler.

Pensamentos e intenções do coração” (Hb 4, 12).

Para que a Palavra de Deus seja eficaz em nossa vida, precisamos meditá-la; pela fé, acreditar nela e colocá-la em prática objetivamente. Em outras palavras, precisamos obedecê-la, pois estaremos obedecendo ao próprio Senhor.

“Por isso, também damos graças, sem cessar, a Deus, porque recebestes a Palavra de Deus que de nós ouvistes. Vós a recebestes não como palavra de homens, mas como realmente é: Palavra de Deus, que age eficazmente em vós que crestes” (1Tess 2, 13).

A alma da Igreja é o Espírito Santo dado em Pentecostes; por isso a Igreja não erra na interpretação da Bíblia e isso é dogma de fé. Jesus mesmo lhe garantiu isto: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16, 13a).

O Salmo mais longo da Bíblia é dedicado à Palavra de Deus. O Salmo 118: “Vossos preceitos são minhas delícias. Meus conselheiros são as vossas leis” (v. 24). “O único consolo em minha aflição é que vossa palavra me dá vida” (v. 50). “Quão saborosas são para mim vossas palavras, mais doces que o mel à minha boca” (v. 103). “Vossa palavra é um facho que ilumina meus passos. E uma luz em meu caminho” (v. 105). “Encontro minha alegria na vossa palavra, como a de quem encontra um imenso tesouro” (v.162).

O Espírito Santo nos ensina essa verdade pela boca do profeta Isaías; cuja boca tornou “semelhante a uma espada afiada” (Is 49, 2): “Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá não voltam sem ter regado a terra, sem a ter fecundado, e feito germinar as plantas, sem dar o grão a semear e o pão a comer, assim acontece à palavra que minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado a minha vontade e cumprido a sua missão” (Is 55, 10).

A palavra de Deus é transformadora e santificante. São Paulo explica isso a seu jovem discípulo Timóteo com toda convicção: “Toda a Escritura é inspirada por Deus, e útil para ensinar, para persuadir, para corrigir e formar na justiça” (2Tm 3, 16). Ela é, portanto, um instrumento indispensável para a nossa santificação. Não conseguiremos ter “os mesmos sentimentos de Cristo” (Fil 2, 5) sem ouvir, ler, meditar, estudar e conhecer a Sua Santa Palavra. São Jerônimo, dizia que “quem não conhece o Evangelho, não conhece Jesus Cristo”.

Jesus nos ensina que “a Escritura não pode ser desprezada” (Jo 10, 34). São Paulo recomendava a Timóteo que se aplicasse à sua leitura (1Tm 4, 13).

Jesus é a própria Palavra de Deus, o Verbo Divino que se fez carne (Jo 1, 1s). No livro do Apocalipse, São João viu o Filho do homem… “e de sua boca saia uma espada afiada, de dois gumes” (Ap 1, 16). É o símbolo tradicional da irresistível penetração da Palavra de Deus. Essa Palavra nos questiona, interroga, ilumina, guia, consola; enfim, santifica. São Pedro diz que renascemos pela força dessa palavra. “Pois haveis renascidos, não duma semente corruptível, mas pela palavra de Deus, semente incorruptível, viva e eterna” (1Pd 1, 23) e, como disse o profeta Isaías: “a Palavra do Senhor permanece eternamente” (Is 11, 6-8).

Quando avisaram a Jesus que a Sua Mãe e os seus irmãos queriam vê-Lo, o Senhor disse: “Minha mãe e meus irmãos são estes que ouvem a Palavra de Deus e a observam” (Lc 8, 21). Quando aquela mulher levantou a voz, do meio do povo, e lhe disse: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!”, o Senhor respondeu: “Antes, bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!” (Lc 11, 28).

Quando alguém é renovado pelo Espírito Santo, sente a necessidade da Palavra de Deus, para guiá-lo e santificá-lo.

Pela boca do profeta Amós, o Espírito Santo disse: “Eis que vem os dias… em que enviarei fome sobre a terra, não uma fome de pão, nem uma sede de água, mas fome e sede de ouvir a palavra do Senhor” (Am 8, 11). Graças a Deus esses dias chegaram!

Quando Jesus explicava as Escrituras para os discípulos de Emaús, eles sentiam “que se lhes abrasava os corações” (Lc 24, 32). Assim também continua a ser, hoje, para todo aquele que medita a Palavra de Deus. Ela nos purifica no fogo do Espírito Santo. Todos os santos, sem exceção, mergulharam fundo as suas vidas nas santas Escrituras e deixaram-se guiar pelos ensinamento da Igreja. 

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda