As parábolas de Nosso Senhor Jesus Cristo nos santos evangelhos de São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João

AS PARÁBOLAS DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

NOS SANTOS EVANGELHOS DE

SÃO MATEUS, SÃO MARCOS, SÃO LUCAS E SÃO JOÃO

Anselm Grün

 

Dos Livros:

Jesus, Mestre da Salvação – O Evangelho de Mateus

Jesus, Caminho para a Liberdade – O Evangelho de Marcos

Jesus, Modelo do Ser Humano – O Evangelho de Lucas

Jesus, Porta para a Vida – O Evangelho de João

Edições Loyola

 

Organizado por Mons. Inácio José Schuster

2011

 

 

JESUS, MESTRE DA SALVAÇÃO

O EVANGELHO DE MATEUS

 

A parábola dos operários da vinha (20, 1-16)

Jesus sabe contar histórias de um modo que prende a atenção dos ouvintes e ao mesmo tempo os provoca. A maior parte dos ouvintes irrita-se com a parábola dos operários da vinha. Os empregadores dizem: “Nunca poderia proceder assim com os meus operários. Jesus não faz idéia do que seja o mundo dos negócios hoje em dia”. Os empregados identifi­cam-se com os operários da primeira hora e ficam irritados com aqueles que chegaram só na última hora. Mas não são só os empregadores e os empregados que se mostram descontentes com a parábola. Tam­bém os cristãos que se esforçam para observar os mandamentos de Deus, que se engajam pelo bem da Igreja e cumprem os seus deveres de cristãos ficam indignados com aqueles que não ligam para manda­mento algum e que, mesmo assim, vão para o céu. Mas justamente quando uma parábola nos irrita pode ocorrer uma mudança em nossa maneira de pensar. Com a parábola, Jesus nos apanha no lugar em que nos encontramos num determinado momento. Ele desperta a nossa curiosidade. Ao mesmo tempo, trans­forma a nossa maneira de ver: ele abre os nossos olhos para o mistério da vida e para o mistério de Deus. Deus não e aquele que nós imaginamos. Ele age de uma maneira que não esperávamos. A justiça divina não e previsível como a folha de pagamento de uma empresa industrial.

Jesus descreve uma situação usual no mundo do trabalho da Palestina. Um proprietário procura mão-­de-obra temporária para a sua vinha. Naquela época, muitas fazendas contratavam trabalhadores diaristas para o manejo do campo. Eram mais baratos do que os escravos. O dia de trabalho começa cedo, e o proprie­tário sabe onde encontrar os operários de que preci­sa. Ele chama aqueles que estão na praça do mercado para trabalhar na sua vinha. Combina com eles a diária de uma moeda de prata. Era o salário usual por um dia de trabalho. É normal que, pela terceira hora, ou seja, as nove, o proprietário vá novamente à praça para contratar mais operários. Mas é pouco comum que ele vá mais duas vezes no mesmo dia contratar operários. No entanto, é totalmente fora do comum que o dono da vinha saia outra vez na undécima hora a procura de operários. Falta, então, exatamente uma hora para o encerramento dos trabalhos. O valor econômico de tal contratação é nulo. E, além de tudo, Mateus descreve detalhes do procedimento de contratação dessa undécima hora. Ele mostra assim que é nesse ponto que se situa o verdadeiro enfoque da parábola. Só com esses operários o proprietário entabula uma conversa: “Por que ficastes aí o dia inteiro sem traba­lho?”. E eles respondem: “Porque ninguém nos contratou” (20, 7).

Jesus sabe criar um ar de suspense. Ele aumenta a expectativa dos ouvintes, começando com o paga­mento daqueles que foram contratados por último. O proprietário lhes paga uma moeda de prata. É um bom salário, ainda mais considerando que não tinha combi­nado nenhum valor com eles. Mas esse salário desperta a ganância dos operários da primeira hora. Apesar de terem concordado em trabalhar o dia todo por uma moeda de prata, passam a esperar mais. Ficam res­mungando, porque eles também recebem só uma moe­da. Em vez de ficarem satisfeitos, comparam o seu salário com o dos operários que trabalharam menos.

A sua reação está cheia de simbolismo, e o leitor percebe que Mateus coloca essas palavras na boca dos cristãos esforçados que se queixam porque Jesus chama também os pecadores, aceitando na comuni­dade cristã pessoas que nada tem a apresentar. “Estes que chegaram por último, só trabalharam uma hora, e tu os tratas como a nós, que suportamos o peso do dia e do calor intenso” (20, 12). Essas palavras expri­mem aquilo que sensibiliza os cristãos e a sua maneira de entender a vida. Eles não se mostram gratos por terem conseguido trabalho e a vida estar bem encami­nhada; não, eles se comparam aos outros. Em vez de olhar com gratidão para aquilo que receberam, ficam olhando para os presentes que Deus distribui tam­bém a outros. A comparação torna as pessoas invejosas e cegas para aquilo que lhes é devido e que é bom para elas. E os cristãos entendem a sua vida como um peso e uma luta no calor do dia. Não tem olhos para o prazer do trabalho, o sucesso, a safra que po­dem colher e desfrutar. Só vêem o fardo, a faina, as dificuldades que a vida lhes reserva.

O proprietário dirige-se ao porta-voz dos quei­xosos com o tratamento familiar “meu amigo”. Lembrando o contrato feito, pergunta tanto a ele quanto ao leitor irritado com o desfecho da história: “Não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou então o teu olho é mau porque eu sou bom [para com os outros]?” (20, 15). A pergunta é como uma fisgada no coração do porta-voz, como também no coração do ouvinte e do leitor. Com essa pergunta, Jesus descreve a sua própria essência e a de Deus.

Deus é bom, mas a sua bondade não pode ser contabilizada. Ela não é devida. Na época da Refor­ma, essa parábola era interpretada como a vitória da graça sobre qualquer idéia ou pretensão de mereci­mento. Mas essa é também uma visão unilateral, porque o proprietário dá a cada um o salário justo que ele merece. É que a justiça de Deus que se mani­festa no procedimento do proprietário da vinha ultra­passa todo e qualquer cálculo humano.

Houve Padres da Igreja que interpretassem essa parábola como uma imagem do curso de vida dos in­divíduos. Algumas pessoas são cristãs desde o nasci­mento, outras se convertem logo na juventude, outros só na idade adulta ou provecta. Os Padres da Igreja admoestam, então, aos cristãos da primeira hora a não esmorecer em seu fervor; aos que receberam o batis­mo mais tarde, eles incutem ânimo e confiança. Cada um deve trilhar o seu próprio caminho e servir a Deus nesse seu caminho pessoal, sem comparar-se com os outros. Para todos, o prêmio será uma moeda de prata. Essa moeda única não é só a diária habitual daquele tempo, ela é também o símbolo da unificação com Deus. Nada ultrapassa esse ato de tornar-se uno. É a meta da vida humana. O caminho para alcançar essa meta é mais longo para uns, mais curto para outros. Essa interpretação foi uma tentativa de inserir o sentido da parábola na respectiva época.

E qual seria o seu sentido hoje? Vejo-me colocado diante da pergunta: como entendo a minha vida de cristão? É apenas um esforço, um trabalho fatigante, quando a verdadeira vida consiste em ficar parado sem fazer nada? Ou acredito que, pela união com Cristo, a minha vida ganha sentido e fica boa? O desafio que acompanha o trabalho pode ser uma fon­te de paz interior para o ser humano, já que lhe dá a sensação de que a sua vida tem sentido. Aquele que fica à toa na praça certamente não está feliz com essa situação. Ele se sente supérfluo. Sua vida lhe parece inútil. O ser humano se sente valorizado quando é chamado, convidado, aliciado. Quando me dedico ao trabalho que me é confiado, sem querer comparar-­me com os outros, torno-me um comigo mesmo, com Deus e com os homens. Não preciso de mais nada para viver. Mas se eu desviar o olhar do meu trabalho para observar os outros e me comparar com eles, ficarei internamente dividido e descontente.

Cristãos há que me dizem que entendem a sua vida como uma renúncia. Para estes, os não-cristãos teriam uma grande vantagem: como não precisam respeitar normas, podem viver a seu bel-prazer. É justamente esse ponto de vista que Jesus questiona em sua parábola. Será que as normas são mesmo tão importantes para o cristão? O que dá sentido à vida é percorrer em união com Cristo o caminho da encar­nação, sabendo que o trabalho em mim mesmo já traz a recompensa em si. O salário não é uma coisa externa que é paga ao fim da jornada, ele já faz parte integrante de uma vida sensata. Ao mesmo tempo, por meio dessa parábola, Jesus quer nos prevenir contra a idéia de que poderíamos fazer jus ao pagamento de Deus. Importa apenas que nos deixemos chamar por Deus. Não cabe a nós escolher o quanto trabalhar e suportar. É Deus que decide. O essencial é não fazermos comparações. Quem se compara com os outros fica cego para a riqueza de sua própria vida e se torna descontente consigo mesmo. Os operários da primeira hora ficaram felizes com a contratação. Era a certeza de que poderiam alimentar as suas famílias. O modo provocativo com que Jesus conta a história do proprietário da vinha e dos diaristas inquieta o ouvinte e leitor, pois ele se vê obrigado a analisar melhor de que e para que ele vive de fato e qual é o sentido de sua vida na vinha de Deus.

 

A parábola da festa nupcial do rei (22, 1-4)

Martinho Lutero não gostava de pregar sobre a festa nupcial do rei. Dizia tratar-se de um “evangelho terrível” (Luz III, 249). Como é que o Deus enfu­recido, que manda lançar um dos convivas nas tre­vas pode ser o Pai de Jesus Cristo? E realmente, essa parábola não nos deixa em paz. Ela põe em anda­mento um processo de reflexão, de reconsideração, de transformação interior. Os lingüistas afirmam que uma parábola é um ato de linguagem. Na medida em que nos envolvemos com a parábola, essa desenca­deia um processo dentro de nós que muda a nossa visão da vida e transforma a imagem que temos de Deus e do ser humano.

Podemos interpretar essa parábola de diversas maneiras. A mais comum e a interpretação teleológica. O rei que convida para o banquete de casamento de seu filho é Deus que envia seu filho Jesus para a terra, para celebrar as núpcias com a huma­nidade. Os servos que chamam os convidados são os profetas, mas também os mensageiros da fé cristã. Para os ouvintes judeus, era um acinte não atender a um convite dessa natureza, porque era uma grande honra ser convidado para a festa de casamento do filho do rei. O convite é feito com muita antecedên­cia. Os servos lembram a convocação feita há tempo e avisam que está tudo pronto para a festa: o tempo chegou. Deus tem paciência. Novamente envia os seus servos, procurando convencer os convidados com a descrição do banquete e dos prazeres culinários que os aguardam. Mas estes não se importam. Aqui não se trata dos judeus em geral nem dos fariseus. A recusa vem dos homens que não seguem o chamado dos profetas e dos mensageiros da fé cristã, porque estão mais interessados em outros assuntos: proprie­dades (o próprio campo), negócios, sucesso. Parece um exagero que alguns dos convidados até matem os servos. Mas aqui se trata de uma alusão ao assassínio de profetas, um fato recorrente na história de Israel. Quantos profetas foram mortos porque, exigindo em nome de Deus que as pessoas se convertessem, incomodavam-nas em sua auto-satisfação. O fato de o rei enviar seu exército para matar os assassinos parece destoar do contexto dos preparativos para um casamento, mas, provavelmente, trata-se de uma referencia à destruição de Jerusalém que, para Mateus, é um castigo pela rejeição de Jesus. O rei envia os seus ser­vos mais uma vez. Agora ele os manda às saídas das estradas e até aos confins do reino para convidar a todos, bons e maus. Isso significa que na Igreja po­de haver bons e maus. Não existe nenhuma condição social ou moral para entrar no Reino dos céus. Estão todos convidados, sem exceção.

Mas então vem o contraste que aborrece a tantos. O rei passa a observar os convivas. Um deles não está devidamente trajado com a veste nupcial. Há exegetas que partem do princípio de que a veste nupcial é uma veste recebida como presente. Dizem que em Israel é costume entregar ao convidado também uma roupa condizente com a festa. Nesse caso, a veste nupcial simbolizaria a fé que nos foi dada. Essa interpretação é muito comum na exegese protestante. De acordo com Luz, essa explicação da roupa presenteada não se sus­tenta do ponto de vista exegético. Na Antigüidade não era necessário comparecer ao banquete nupcial com roupa festiva, e sim com roupa limpa. Portanto, o con­vidado precisava preparar-se para o casamento lavando antes a sua veste. Os Padres da Igreja tinham diversas interpretações para essa veste: ela simbolizaria a santi­dade da carne (Tertuliano), as boas ações (Jerônimo), o amor (Agostinho) ou o próprio Cristo do qual os bati­zados se revestem. A parábola quer dizer, provavelmente, que o convite é um mero presente, mas que o convidado deve contribuir com a sua parte, limpando a sua veste, ou seja, esforçando-se para levar uma “vida pura”. O presente exige uma contrapartida. Eu mostro o meu respeito para com o doador, corres­pondendo a ele com toda a minha existência. O banquete do qual participam bons e maus é uma imagem da Igreja que se compõe sempre de pessoas boas e más. Ela nunca é uma Igreja pura, e sim uma Igreja mista: a Igreja dos pecadores. Nela há lugar também para o pecador. Mas este deve esforçar-se para limpar a sua veste. Quem não corresponder à graça será lança­do nas trevas. É uma imagem do juízo final.

A parábola pode ser interpretada também como o caminho da encarnação de cada um individualmen­te. Essa interpretação individual, que poderíamos cha­mar também de interpretação à luz da psicologia pro­funda, que interpreta tudo no nível do sujeito como caminho do indivíduo para Deus, remonta a Orígenes. Ele coloca essa interpretação individual ao lado da eclesial. Ambas têm a sua razão de ser. Orígenes inter­preta a parábola como a “união do Logos, o noivo, com a alma, a noiva, que se realiza pelo casamento espiritual” (Luz III, 247). Pelo encontro com o Logos, a alma recebe a imortalidade. O verdadeiro encontro e a união com o Logos acontece na contemplação, ou seja, na visão de Deus pelo Espírito. Interpretando a parábola dessa maneira, ela adquire um significado atual aplicável a cada um de nós, descrevendo o cami­nho interior da auto-realização e da unificação com Deus. Todos nós somos convidados para a festa nup­cial. A nossa vocação cristã não quer dizer apenas que devemos cumprir os mandamentos de Deus, mas que somos convidados a ser um com Deus em Jesus Cristo. O objetivo de nossa vida é a auto-realização pela qual nos fundimos com o nosso núcleo divino. Quantas vezes passamos pelo convite sem lhe dar a devida atenção! Primeiro, desprezamos o convite que se ma­nifesta em impulsos sutis de nosso coração. Intuímos que a nossa verdadeira vocação consiste em deixarmo-nos cair em Deus para nos tornar um com ele. Mas a voz convidativa de Deus é tão baixinha que não chega a alcançar a nossa consciência. Ou, como lembra a segunda chamada, temos coisas mais importantes a fazer: aumentar o nosso patrimônio, correr atrás do sucesso, cuidar dos negócios do dia-a-dia. Às vezes, sufocamos simplesmente os nossos impulsos internos porque nos desagradam. Eles não nos deixam em paz. Então, preferimos anestesiá-los pelo acúmulo de atividades ou os calamos, matando-os.

É o ego que assassina os servos do rei. O ego não gosta de ser incomodado em suas aspirações egoístas. Mas o rei envia os seus servos outra vez. Tudo o que há em nós é convidado. Os que andam pelas estradas são os pobres. O nosso lado pobre se abre mais facil­mente para Deus do que o nosso lado bem-sucedido. Os servos têm ordens de percorrer todo o reino até onde terminam as estradas. Todos os setores de nossa alma, toda a nossa história, até mesmo as zonas periféricas de nosso inconsciente, tudo é convidado a se unir a Deus. Nada fica excluído, nem mesmo o mal. É uma mensagem consoladora. A única condição da parte de Deus é que demos a devida atenção ao convite, que ponhamos tudo o que há em nós em relação com ele. Para mim, a veste nupcial significa que respeito o rei que me convida, que trato com cuidado tudo o que está em mim, por mais pobre e roto que seja, a fim de pô-lo em relação com o casamento. Isso requer atenção e cuidado. Não preciso eliminar o mal que há em mim, mas preciso percebê-lo e revesti-lo com a roupa do amor. Preciso olhar com carinho para tudo o que há em mim e apresentá-lo a Deus. Aí então posso participar do banquete nupcial. Todo o meu ser pode unir-se a Deus. Mas, se eu tratar com desleixo o que sou e tenho, serei expulso da mesa; então, perderei o meu centro de gravidade e meu in­terior se cobrirá de trevas. Aquilo que não recebeu a devida atenção transforma-se em escuridão que me devora e me dilacera por dentro. É esse o sentido das palavras “choro e ranger de dentes”. Se eu não estiver disposto a encarar a minha própria verdade e a oferecê-la a Deus, esta me triturará e me destruirá. A minha vida se transformará em choro e lamentações. O mal em mim se tornará uma fonte de tristeza e de pranto, de desespero e de absurdeza.

Mateus realça em sua versão da parábola contada por Jesus a prevalência da graça sobre qualquer esfor­ço humano. Mas, ao mesmo tempo, exige que o ser humano responda à graça por meio de seus atos, pela transformação de sua mentalidade e pela disposição de aceitar com seriedade o mistério da graça. Dessa for­ma, tornam-se visíveis os contornos de sua imagem da Igreja e do ser humano: a Igreja não é uma comunidade de seres perfeitos, e sim de bons e maus, de for­tes e fracos, de conscientes e inconscientes. A Igreja e seus dirigentes não têm o direito de excluir certas pessoas do banquete comum. Essa medida cabe ao rei, ou seja, ao próprio Deus no fim dos tempos. Como a Igreja, o ser humano também está cheio de equívocos e contrastes. No ser humano há coisas boas e más, luz e trevas, disponibilidade e recusa. Mateus nos admoesta a tomarmos consciência daquilo que está em nós, colocando por cima de tudo a veste que Deus nos oferece, isto é, a veste do amor incondicional que nos aceita como somos. Se continuarmos vivendo no estado de inconsciência, sem vestir a melhor roupa de que dispomos, então a recusa se transformará em auto-destruição, em choro e ranger de dentes.

 

A parábola das dez virgens (25, 1-13)

Dificilmente uma outra parábola terá provocado tanta repercussão na exegese e na história da arte quanto a das dez virgens. A representação mais antiga das dez virgens encontra-se em Roma, num afresco do século IV. A arte românica e gótica visualizava as vir­gens prudentes e insensatas, sobretudo nos portais dedicados a Nossa Senhora. Tanto as virgens prudentes quanto as insensatas davam aos leitores e observadores a oportunidade, de se identificar com elas. A parábola alude a costumes nupciais judaicos. Mas há nela tam­bém elementos que não combinam com os rituais nupciais daquele tempo, por exemplo, o fato de a porta ser fechada.

Há diversas maneiras de interpretar a parábola.

Posso vê-la como uma descrição do juízo final ou de meu encontro com Cristo, o noivo, na minha morte. A parábola me recomenda, nesse caso, a viver conscien­temente e a estar preparado para a vinda do Senhor.

Mas posso interpretar a parábola também como referência à vinda de Jesus em qualquer momento. Quando Jesus chega, ele celebra o casamento comigo, e então fico completamente um comigo mesmo, porque se realiza a convergência dos meus antagonis­mos: homem e mulher, luz e trevas, dia e noite, Deus e homem. Será a festa da minha auto-realização e da minha união com Deus. Essa é a meta da nossa vida, marcada pela alegria, por festejos e celebrações. A parábola descreve o caminho para essa festa de nossa auto-realização.

Dez moças saem ao encontro do noivo a fim de conduzi-lo até a noiva. Elas levam tochas, provavel­mente tochas com vasilhas, “que eram feitas de uma vara em cuja ponta era presa uma vasilha de fogo cheia de trapos embebidos em azeite” (Luz III, 471). Essas tochas duravam pouco. Era necessário repor constantemente o azeite para que queimassem durante mais tempo. É de supor que as moças aguardavam na casa da noiva a hora de sair. Quando soa o grito, avisando que o noivo está se aproximando, aprontam as suas tochas. Só a essa altura as moças insensatas se dão conta de que não trouxeram azeite. Como acender então as suas tochas e mantê-las ace­sas? Os exegetas que falam em lâmpadas a azeite supõem que estas ficaram acesas até àquela hora e que as moças insensatas não previram um possível atraso do noivo. Outros exegetas acham que as moças só acenderam as suas tochas na hora em que ouviram o grito de aviso. Só então as virgens insensatas teriam percebido que estavam sem azeite. Assim, não estavam em condições de participar até o fim da dança do en­contro. No primeiro caso, a insensatez está ligada a falta de previsão de que o retorno de Cristo poderia retardar-se. No segundo caso, ser insensato significaria viver distraído, sem se preocupar com as coisas neces­sárias a tarefa a ser cumprida; deixar faltar o azeite para as tochas denotaria irresponsabilidade. Prefiro a segun­da alternativa. As virgens prudentes se preparam cuidadosamente para a dança nupcial, as outras se mos­tram descuidadas e pouco interessadas na cerimônia.

Essa confrontação entre a prudência e a insensa­tez é típica das parábolas de Jesus. Assim ele compa­ra, por exemplo, o homem prudente com o homem insensato: um constrói a sua casa sobre a rocha, o outro sobre a areia (Mt 7, 24-27). Na parábola do homem insensato ele não conta com a sua morte prematura (Lc 12, 16-21). Na história do administra­dor injusto ele é elogiado porque age de maneira pru­dente (Lc 16, 1-18). A palavra grega para “insensato” é moros, ou seja, “estúpido, bobo”. É aplicada a uma ação que não é adequada à circunstância, denotando falta de reflexão e inteligência. A insensatez pode ser uma força que confunde a razão, levando o homem a um comportamento contrário ao bom senso (Bertram, 837 s). A palavra grega para “prudente” e phronimos que vem de phrenes = diafragma, interior do homem, consciência, razão. As virgens prudentes são, portanto, aquelas guiadas por seu entendimento e que tem bom senso. Em Platão, o homem prudente e ponderado é sempre também o homem bom, enquanto o insensato é o mau. Quem é ponderado dirige a sua atenção ao que é divino. Na parábola, as virgens insensatas são aquelas que fecham os olhos diante da realidade, en­quanto as prudentes sabem avaliar corretamente a situação. Para estas, a realidade exterior é uma imagem da interior, isto é, da sua relação com Deus.

O fato de Jesus contar a sua parábola usando como pano de fundo os costumes nupciais judaicos certamente faz com que os ouvintes fiquem especial­mente atentos, porque uma história de casamento desperta sempre o lado emotivo do ouvinte. Assim, com a sua maneira de descrever a cena do casamento, Jesus prende primeiro a atenção dos presentes. Mas depois cria um clima de estranhamento que provoca os ouvintes. As pessoas ficam desconfiadas, irritadas até, quando as virgens prudentes se recusam a dividir o seu azeite com as insensatas. Ainda hoje, muitos ouvintes reagem a essa atitude das virgens prudentes com uma reprovação moral. Por que as virgens prudentes não repartem o seu azeite com as insensatas? Isso é puro egoísmo. Por que não dividir a própria alegria com as outras? Mas Jesus não julga o comportamento das virgens prudentes. Ele o aceita como um fato. Jesus usa a parábola para avisar os ouvintes: “No momento decisivo, vocês não podem confiar simplesmente nos outros. Se vocês preferem viver alienados, não podem reclamar do fato de os outros lhes abrirem os olhos”. Trata-se de uma pará­bola de advertência que deve ser interpretada à maneira de um sonho de advertência, em que não é justificado o comportamento dos outros, mas em questão mostradas as conseqüências do próprio com­portamento. Levando uma vida com a cabeça ao léu, ficarei de mãos vazias no momento decisivo.

Os exegetas sempre tentaram explicar o sentido do azeite. Muitos o interpretam como sendo as boas obras que devem juntar-se à fé (representada pelas tochas). Agostinho vê no azeite o símbolo da convicção que deve determinar a ação do cristão. Para ele, o azeite é a imagem do amor. Não posso repartir a mi­nha convicção com os outros. As moças prudentes não podem dividir o seu amor com as insensatas. Posso dividir com outros o meu pão, o vinho, meus bens materiais e espirituais. Mas não posso impingir aos outros a minha convicção. Essa é uma tarefa indivi­dual. Por isso, Agostinho entende a parábola como uma advertência: devemos despertar em nós o amor que já está dentro de nós, mas do qual estamos muitas vezes isolados. Uma senhora que tinha refletido sobre o sentido do azeite em sua vida comentou depois num grupo: o azeite serve para requintar as comidas, e com azeite posso ungir o meu corpo. Ela viu nessa parábola a permissão de Jesus para permitir-se certos mimos, para tratar bem a si próprio, para não andar o tempo todo com a consciência pesada. Cada um quer inter­pretar o azeite à sua maneira, dependendo da própria experiência. E é legítimo que cada um medite sobre a parábola de Jesus, de acordo com o horizonte par­ticular de sua experiência.

As moças prudentes remetem as insensatas aos comerciantes de que poderão comprar o azeite ne­cessário. Desde Agostinho, essa recomendação das virgens prudentes é entendida em sentido irônico. Durante a noite, não há como fazer compras. As lojas estão fechadas. Assim, Jesus talvez quisesse dizer com essa imagem: no momento decisivo, não podemos comprar o que não tivemos o cuidado prévio de desenvolver em nós. O amor não pode ser compra­do. Ele precisa crescer dentro de nós. Precisamos trabalhá-lo para que determine o nosso agir. Outros exegetas partem do pressuposto de que, durante um casamento, toda a vila está acordada e que deve ser possível também comprar azeite dos comerciantes. Nesse caso, o ponto-chave se reduziria apenas ao atra­so. Se eu não viver o presente, se não me concentrar prudentemente naquilo que está acontecendo no mo­mento, chegarei tarde ao momento decisivo da vida.

As virgens insensatas se vêem diante de portas fechadas. Normalmente, entre os judeus, a casa em que se realizava o casamento ficava aberta a todos os convidados. Podia-se chegar a qualquer hora. Por isso produz-se um certo estranhamento na história do casamento quando Jesus diz que as portas estavam fechadas para as moças atrasadas. Mas essa é uma projeção recorrente em nossos sonhos: chegar tarde significa que continuo preso a problemas de meu pas­sado e que ainda estou ruminando os traumas do passado, sentindo-me, portanto, incapaz de viver o momento presente. E as portas fechadas indicam que não tenho relação com o meu interior, com o meu verdadeiro eu. No judaísmo, as portas fechadas são expressão proverbial das oportunidades perdidas (Gnilka, 352). Sonhar com atraso e portas fechadas não significa nunca que tem de ser assim. Trata-se, isso sim, de sonhos de advertência que me pretendem alertar que é preciso acordar, que preciso dar atenção ao momento presente e entrar em contato com a mi­nha alma e o meu coração. Se eu continuar andando pelo mundo, sem relacionar-me comigo mesmo, po­de ser que um dia seja tarde demais. Estarei tão separado de mim mesmo que já não haverá tempo para construir uma relação. Para que não chegue a esse ponto, Jesus conta essa parábola.

Devemos estar atentos, viver o momento. Deve­mos manter os olhos abertos para reconhecer a reali­dade como ela é. E devemos ser prudentes. Os Padres da Igreja entendem por prudência não ficar apenas ouvindo as palavras de Jesus, mas segui-las. Foi pen­sando nisso que Mateus colocou no encerramento do Sermão da Montanha a parábola do homem prudente que constrói a sua casa sobre a rocha. Para Mateus, a vida cristã não consiste apenas em seguir certas idéias, é necessário cumprir concretamente as palavras de Jesus no dia-a-dia, dando-lhes a resposta correta com obras de amor. A fé e as obras são inseparáveis para Mateus. É uma teologia que difere da de Paulo. Ele acentua um aspecto e faz com que a sua comuni­dade se lembre constantemente dele: a fé precisa se expressar, senão ela se desfaz.

 

A parábola dos talentos (25, 14-30)

A parábola dos talentos desperta em muitos ouvintes indignação. Instintivamente, eles sentem pena do terceiro servo, porque recebeu apenas um talento e ainda por cima é castigado. Jesus os convida propositalmente a se solidarizar com o terceiro servo para que possa abrir-lhes os olhos para a única maneira de realizar-se de fato na vida. Quando enterramos o nosso talento, como o fez o terceiro servo, recusamo-nos a viver. Muitas vezes, os intérpretes abusaram dessa parábola. Houve professores que recorressem à parábo­la para incentivar os alunos a dar mais de si, aprovei­tando melhor os seus talentos. Mas, nessa parábola, Jesus não está interessado no rendimento, e sim no tema da confiança e do medo. Os dois primeiros servos fizeram render os talentos que o senhor lhes confiara. Eles não são premiados por seu esforço, e sim pela confiança. Quem trabalha com dinheiro corre sempre o risco de perdê-lo. Não há mercado financeiro sem risco. Quem teme o risco enterra o seu talento, como fez o terceiro servo. A parábola nos explica perfeitamente por que o terceiro servo escon­deu o seu talento na terra. Ele se sentiu preterido e discriminado em relação aos outros servos. Recebeu menos do que eles. Ele se compara com eles e recusa a sua vida porque não foi tão bem aquinhoado como os seus semelhantes.

O segundo motivo que o faz enterrar o seu talento é a imagem que tem de Deus: “Eu sabia que és homem rigoroso; colhes onde não semeaste, ajuntas o que não espalhaste; amedrontado, fui esconder o teu talento na terra” (25, 24s). O terceiro servo tem diante dos olhos a imagem de um Deus que julga e castiga, a imagem de um senhor severo, que não admite nem um erro sequer. E ele tem medo desse Deus. Jesus pretende dizer aos seus ouvintes: “Se você tiver uma imagem tão negativa de Deus, se você imagina que Deus é um contador severo e um Deus arbitrário que colhe onde não semeou, então a sua vida será já agora um choro e ranger de dentes. E se você tiver medo de Deus, esse medo o paralisará e o impedirá de viver. Uma imagem doentia de Deus faz de você um doente”.

O terceiro motivo pelo qual o último servo es­conde o seu talento é o pensamento centrado na segurança. Como ele se sente prejudicado, não quer de modo algum perder o que tem. Não quer come­ter nenhum erro para não se expor à crítica. Mas justamente porque não quer cometer nenhum erro, faz tudo errado. Justamente por querer controlar tu­do, perde o controle sobre a sua vida. Ele, que quer ficar agarrado ao seu talento, acaba perdendo o seu talento e a si mesmo.

O senhor chama esse servo de “mau e temeroso”, não de “preguiçoso”, como se diz em algumas tradu­ções. O servo não se empenhou porque estava com medo. Trata-se de uma pessoa insegura que não tem coragem de tomar uma decisão. O senhor o repreende porque poderia ter agido de outra maneira em vista da imagem de severo que fazia do seu senhor. Pelo menos poderia ter levado o dinheiro ao banco, onde teria rendido juros. Naquela época, a taxa de juros podia ser de no máximo doze por cento. Portanto, teria sido um rendimento modesto. Mas o servo mostrou que não sabe lidar com dinheiro. Por isso vão lhe tirar o talento e entregá-lo a outrem. Esse procedimento deixa os ouvintes indignados. Quantas vezes escuto a reação: “Isso é injusto. O servo já fora prejudicado. Ele não tem culpa. E agora lhe tiram tudo!”. Prevendo essa reação, Jesus quer chamar a atenção dos ouvintes para as conseqüências de um pensamento que só pro­cura o que é seguro. Quem vive tão temeroso como o terceiro servo destrói-se a si mesmo, subtrai-se a própria vida, nega a si mesmo a vida.

Mateus viu no senhor certamente a figura do pró­prio Jesus que, na ascensão, se retirou dos homens e que, no fim dos tempos, voltará em sua glória. Os servos são os cristãos aos quais Deus confiou o seu patrimônio. É uma imagem que revela a dignidade de todo ser humano. A cada um, Deus confiou algo de seu próprio patrimônio. Os talentos foram interpre­tados de diversas maneiras na tradição espiritual. Para Orígenes, eles representam a palavra de Deus. Os cinco talentos simbolizariam, então, a compreensão espiritual da Escritura. Os dois talentos remeteriam as pessoas que, ao lado da compreensão literal, contam também com um sentido espiritual. Um único talento signifi­caria que a pessoa fica presa ao sentido literal. Outros interpretam os cinco talentos como os cinco sentidos que o ser humano recebeu de Deus. Na Idade Média, todos os dons e carismas que Deus deu aos homens são chamados de talentos. A multiplicação dos talentos era vista como uma compreensão mais aprofundada da Escritura ou como o amor que torna a nossa vida fecunda. Esconder o talento na terra era considerado já na Idade Média como um sinal de medo. Quem tem medo gira só em torno de si mesmo. Ele não conhece a liberdade de dar-se no amor.

Para mim, a parábola nos convida a viver em fun­ção da confiança e não do medo. Quem procura evitar todo e qualquer erro, acaba fazendo tudo errado. Ele próprio transforma a sua vida num inferno cheio de medos. Quem procura controlar tudo por medo, range muitas vezes os dentes à noite, porque tudo o que ele gostaria de suprimir por medo virá à tona de noite e ele terá de reprimi-lo a força. Assim, a vida dele es­tará marcada por choro e ranger de dentes. A pergun­ta é por que Jesus usa imagens tão drásticas. Tudo indica que é necessário levar essa atitude receosa ao absurdo, porque temos pena dela por natureza. Existe em nós a tendência de ter pena de nós mesmos. Fa­cilmente, achamos que fomos prejudicados. Tudo na vida é tão difícil. Não dá para viver direito com o pouco que recebemos. Jesus nos quer livrar dessa atitude, pintando em cores tão drásticas essa posição diante da vida. Ele usa a parábola para expulsar o medo pelo medo, para que optemos pelo caminho da confiança e do amor.

Para mim, nessa parábola se revela a sabedoria com que Jesus lida com as pessoas que se rebaixam a si próprias, sentindo-se inferiores quando se com­param com os outros. Um psicólogo, meu amigo, me contou a história de uma mulher que só falava mal de si mesma. Conversando com ela, tentava erguê-la e mostrar-lhe também os seus lados positivos. Mas quan­to mais ele procurava falar do bem, tanto mais ela se depreciava. Até que lhe veio finalmente a iluminação: passou a reforçar as afirmações negativas da mulher. E de repente ela começou a rebelar-se: “O que o senhor está pensando, me rebaixar de tal maneira!”. Às vezes é necessário chamar a atenção das pessoas para a sua atitude catastrófica, confirmando-a, para que acordem, enfim, e percebam como a sua visão de si mesmas está errada. Como o psicólogo citado, Jesus gostaria de despertar no ouvinte a confiança, descre­vendo as conseqüências de seu medo. Ele gostaria de mostrar-lhe os seus lados fortes pintando as suas fra­quezas. Ele gostaria de abrir os olhos daquele que tem pena de si mesmo, para que deixe de girar em torno do próprio eu, criando coragem para arriscar a vida.

JESUS, CAMINHO PARA A LIBERDADE

O EVANGELHO DE MARCOS

Jesus fala em parábolas (4, 1-34)

Marcos faz Jesus interromper suas atividades para dar lugar a um longo discurso. Na primeira parte do evangelho, durante a atuação de Jesus na Galiléia, Jesus explica por meio de três parábolas qual deve ser sua atividade. Na terceira par­te, que descreve a estada de Jesus em Jerusalém, num segun­do grande discurso Jesus fala do fim dos tempos e daquilo que haverá de acontecer no mundo a partir de sua morte na cruz e em conseqüência dessa morte e de sua ressurreição, ou seja, como o mundo haverá de chegar ao fim por sua inter­venção. No capítulo quatro, o tema central e a atuação de Je­sus, que inclui suas obras poderosas e a proclamação da pala­vra. Jesus está a serviço de Deus lançando a semente divina para que esta brote no coração dos homens. Jesus explica a chegada do Reino: este virá por meio do próprio Jesus, por meio de suas obras e da palavra semeada por ele. Mas sua pa­lavra não encontra terreno fértil em todas as pessoas. Ela cai no caminho, cai em solo pedregoso e entre os espinhos. Mas quando cai em terra boa produz muitos frutos. O próprio Je­sus explica a seus discípulos porque fala em parábolas (4, 10­-12). O Reino de Deus só pode ser entendido pelos homens aos quais foi confiado o mistério do Reino. Os discípulos se tornam iniciados no mistério de Deus. Para os outros, “os de fora”, as parábolas guardam um caráter enigmático. Hoje, essa afirmação nos parece estranha. Mas é dessa maneira que Marcos justifica o número reduzido de pessoas que acredi­tam em sua mensagem. Tudo permanece enigmático para aqueles que não adotaram o caminho proposto por Jesus. É uma palavra consoladora para nós que vivemos hoje. Muitos cristãos sofrem com o fato de serem tão poucos os que se abrem à mensagem de Jesus. Quem está do lado de fora, quem não entrou no Reino de Deus, quem não está em con­tato com seu mundo interior, com sua alma, não pode enten­der as palavras de Jesus. Elas continuam enigmáticas até que Deus mesmo toque o coração do indivíduo para abri-lo ao mistério de sua palavra.

Jesus explica aos discípulos a parábola do semeador. São quatro tipos de pessoas que ouvem a Palavra de Deus. No caso dos primeiros ouvintes, a palavra cai à beira do caminho. Je­sus diz que Satanás logo vem e retira a Palavra que neles foi semeada (4, 15). Isso quer dizer que a palavra nem consegue penetrar em seu coração. São pessoas que não param para que a palavra possa entrar nelas. Jesus vê nos pássaros que comem as sementes a figura de Satanás. Os pássaros são pensamen­tos que, dentro do homem, ficam pulando de um lado para o outro. Quem está constantemente às voltas com mil idéias não está propriamente fazendo nenhum mal, mas torna-se incapaz de atender ao apelo divino. Por isso é correto dizer que a super­ficialidade e a atividade ininterrupta que isolam o próprio co­ração acabam sendo expressões do demoníaco. O ser humano, em vez de viver, é vivido.

Em outros, a palavra cai em terra pedregosa: “Ao ouvirem a Palavra, logo a acolhem com alegria; mas não tem raízes em si mesmos, são homens de momento; e, mal chega a tribula­ção ou a perseguição por causa da Palavra, eles caem” (4, 16­-17). São as pessoas que facilmente se deixam entusiasmar. Aceitam a palavra com alegria. Sentem-se atraídas por ela. Mas não tem profundidade: Vivem apenas em função de suas emo­ções, que as lançam de um lado para o outro. Logo que as tri­bulações ou a perseguição despertam outras emoções, essas pessoas se deixam guiar por estas. Não tem raízes. Não tem ati­tude. O primeiro choque as derruba. É uma imagem que re­presenta muitos cristãos que se deixam tocar pela palavra de Jesus. Mas, como não tem profundidade, a palavra não pode lançar raízes. Qualquer rajada de vento as faz cair.

Entre os espinhos cai a Palavra naqueles que são domina­dos por preocupações, pelas riquezas ilusórias e pela concupis­cência. As paixões dessa natureza sufocam a palavra de Deus. Por um lado existe a vontade de seguir a palavra. Mas a con­cupiscência é mais forte. O indivíduo quer ser o melhor, o maior e o mais rico. A Palavra de Deus é uma coisa boa, des­de que não atrapalhe o sujeito na consecução de seus próprios objetivos. Assim, ela é apenas tolerada. As prioridades são ou­tras. Mas, alem das paixões, os espinhos representam também as feridas e contusões. Há pessoas que se sentem tão machu­cadas que a Palavra de Deus não alcança seu coração. As feri­das “se intrometem” (4, 19) na alma. Gravitamos exclusiva­mente em torno de nossas feridas, de modo que a Palavra de Deus nem tem chance de trazer cura e libertação. Enxergamos apenas a nós mesmos e as mágoas que nos foram infligidas.

Com esses três exemplos negativos, Jesus nos adverte que a Palavra de Deus não pode ser abraçada apenas superficial­mente. Quando lhe oferecemos, porém, nosso coração, ela cai em terra boa. Produzirá muitos frutos, “trinta por um, sessenta por um, cem por um” (4, 20). Trata-se, portanto, de uma pa­rábola cheia de otimismo. A palavra semeada por Jesus na Galiléia frutificará não apenas nos corações de seus discípulos, mas no coração de todos aqueles que se abrem a mensagem do Evangelho. Serão recompensadas em abundância. Sua vida será fecunda. Quem aceita Jesus em seu íntimo, experimenta­rá a alegria de uma vida fértil.

Marcos descreve o fruto que a palavra de Jesus poderá produzir por meio de algumas metáforas. Os outros evangelhos citam essas palavras em outro contexto. Marcos as emprega aqui porque persegue um objetivo particular seu. O fruto que brota em nós pela força da Palavra de Deus é como uma luz que ilumina a vida humana, tornando visível o que está escon­dido (4, 21). Quem deixa a luz entrar nos abismos secretos de seu coração, viverá uma vida fecunda. Quem, ao invés disso, subtrai da luz divina amplas áreas de sua alma, impede o flu­xo da vida. Ficará paralisado e insensível. Um outro aspecto da vida consiste em distribuir em ampla medida (4, 24s). Quem redistribui generosamente o que recebeu verá que suas mãos não ficam vazias, antes não param de se encher. Dar não quer dizer apenas doar bens materiais aos pobres, significa também repassar o que se ouviu, o que se experimentou, o que se en­tendeu. Quem guarda tudo isso apenas para si mesmo acaba sufocado. A vida só flui e frutifica naquele que sabe dar.

Jesus passa, então, a contar a parábola da semente que germina por si. Essa parábola, cheia de esperança e otimismo, é exclusiva do Evangelho de Marcos. Nem é preciso grande esforço para fazer germinar a semente. Basta o trabalho paciente do agricultor que lança a semente e depois se deita e dorme e volta a levantar-se. Ele não precisa controlar a se­meada todos os dias. “De noite e de dia, a semente germina e cresce, sem que ele saiba como” (4, 27). É um grande misté­rio o processo pelo qual passa a palavra de Deus na alma hu­mana ou na plantação do mundo, até dar fruto. A terra pro­duz “por si mesma”. No grego está escrito automate. A semen­te cresce automaticamente, por si, sem nossa colaboração. É um milagre que Deus opera na terra. Esse mesmo milagre Deus operará em nossa alma. Ele fará com que a semente de sua palavra amadureça em nós. De nós exige-se apenas que façamos o óbvio. Trabalhar, dormir e levantar novamente para recomeçar a obra. Mas não há motivo para a impaciência. A semente há de nascer, quer queiramos quer não. A mensagem dessa parábola tira de nós aquela pressão angustiante de controlar e de fomentar constantemente o processo de nosso amadurecimento interior. Ela nos livra também da responsabilida­de que faz depender de nós a expansão do Reino de Deus no mundo. Deus mesmo cuida da semente que lança no mun­do por meio de Jesus e de seus discípulos. Nossa tarefa é a do lavrador que semeia, para depois continuar fazendo o que a vida do dia-a-dia exige.

A mensagem da parábola do grão de mostarda, contada também por Mateus e Lucas, é semelhante. Novamente se realça a ação espontânea da natureza. A atuação de Deus acaba­rá prevalecendo, mesmo que permaneça muitas vezes invisível. Nós mesmos viramos árvores em que outros podem buscar abrigo. E a Igreja, que nesse mundo parece ser apenas uma pequena grei, transforma-se em uma árvore que reúne os po­vos em sua sombra. Todas essas parábolas são expressão da mensagem do Evangelho de Marcos: Deus opera a salvação do ser humano na obscuridade; sob as aparências de coisas peque­nas e singelas se esconde o grande mistério da salvação de Deus. Na impotência da cruz, Deus manifesta seu poder sobre os demônios. No ódio dos assassinos revela-se o amor divino que vence toda a maldade deste mundo.

A parábola dos vinhateiros homicidas (12, 1-12)

Depois da expulsão dos vendedores do Templo, Marcos conta o confronto entre Jesus e os sumos sacerdotes, os escri­bas e os anciãos. E no meio desses debates Marcos – recorren­do novamente ao sistema sanduíche – insere a parábola dos vinhateiros homicidas. Essa história não é tão complexa quanto outras parábolas que podem receber interpretações em vários níveis. Aqui, Jesus esta contando seu próprio destino, e os ou­vintes sabem muito bem de que está falando: “Teriam com­preendido que era para eles que ele dissera esta parábola” (12, 12). Jesus começa a parábola com uma descrição do cântico da vinha, do profeta Isaías: “Um homem plantou uma vi­nha, cercou-a com uma sebe, cavou um lagar e construiu uma torre” (12, 1 = Isaías 5, 1s). No Antigo Testamento, a vinha é um símbolo recorrente do povo de Israel. Deus mesmo plan­tou essa vinha. Arrendou-a à vinhateiros. Deve ser uma metáfo­ra que designa os responsáveis pelo povo, os sumos sacerdo­tes e escribas. Por três vezes Deus manda um servo, para re­ceber dos vinhateiros sua parte da produção da vinha. Os ser­vos representam os profetas que Deus enviou vez por outra a seu povo. Mas, muitas vezes, o povo de Israel acabou matan­do seus profetas.

Chega a causar assombro a paciência de Deus para com seu povo. Ele reage de uma maneira bem diferente da infideli­dade do que faríamos nos humanos. O próprio Jesus ilustra essa atitude: “Só lhe restava seu filho bem-amado. Enviou-o por último, dizendo consigo mesmo: ‘Respeitarão meu filho'” (12, 6). Nessa passagem, Jesus quer mostrar claramente aos adversários a quem estão tentando matar: o filho bem-amado de Deus. Com esse versículo, Marcos interpreta o mistério da encarnação e da morte de Jesus. Deus nos mandou, em Jesus, seu filho amado. A vinda de Jesus e expressão do amor paci­ente de Deus. Mas a consideração de Deus é anulada pelas maquinações contrárias dos vinhateiros: “Disseram uns aos outros: É o herdeiro. Vinde! Matemo-lo e ficaremos com a herança” (12, 7). Eles o agarram, o matam e lançam seu corpo fora da vinha, para que os animais o devorem. Segundo a lei judaica, isso é crime de injúria (Grundmann, 323). Com essa parábola, Jesus desvenda a tramóia de seus adversários. É a última tentativa que Jesus faz, “para abrir os olhos de seus inimigos: mostrando-lhes todo o alcance de seu intento de matá-lo, Jesus lhes dá a oportunidade de voltarem a si enquanto é tempo e de pararem de conspirar contra ele” (lersel, 193). Mas é em vão a tentativa de Jesus. O leitor sabe que hão de matá-lo – e desta vez a vítima não é apenas um profeta, mas o filho amado de Deus.

A parábola da vinha segue uma segunda parábola, esta bem mais curta. Jesus cita o salmo 118 que fora lembrado tam­bém por seus discípulos durante a entrada triunfal em Jerusa­lém. Com total liberdade interior, Jesus o aplica a si próprio. A pedra que os construtores rejeitaram tomou-se pedra angular de uma nova construção. É uma expressão simbólica da repro­vação do velho Templo que perde seu valor com a morte de Jesus. Na morte e ressurreição de Jesus é erguido um novo Templo aberto a todos. Jesus interpreta seu destino não como um fracasso causado por seus adversários poderosos, mas co­mo um até de Deus: “Esta é a obra do Senhor, coisa admirável para nossos olhos!” (12, 11). Citando esse versículo do sal­mo, Marcos pretende abrir os olhos dos leitores para que reconheçam na morte e ressurreição de Jesus a atuação maravilhosa de Deus. Este não abandona o Filho que os sumos sacerdotes rejeitam e matam. Antes opera nele o milagre da ressurreição e faz do Filho a pedra angular do Templo erguido para todos os povos em Jesus. Pelas aparências, Jesus perde o embate com os sumos sacerdotes, escribas e anciãos. Mas, na realidade, o Filho amado está nas mãos de Deus. Ninguém consegue des­truí-lo contra a vontade de Deus. Ao contrário, o triunfo exte­rior transforma-se em derrota de seus adversários, enquanto a morte de Jesus vira fonte de salvação para seus discípulos.

Jesus Cristo e a pedra rejeitada pelos construtores, não só em sua morte e ressurreição, mas também em sua doutrina. A parábola dos vinhateiros homicidas forma o centro do confron­to entre Jesus e seus adversários. Durante sua atuação na Ga­liléia falou de Deus com autoridade, explicando as pessoas por meio de parábolas o mistério do Reino dos céus. Durante o caminho para Jerusalém, Jesus ensinou seus discípulos, expon­do-lhes o mistério de seu caminho para a cruz e para a ressurreição. Em Jerusalém, durante os debates com os sumos sacer­dotes, escribas e anciãos (11, 27), mostra o que ele considera ser o fundamento básico de sua espiritualidade, em contraste com a deles. São três os pilares sobre os quais repousa a fé anunciada por Jesus: o primeiro deles é a liberdade. O ser hu­mano pertence a Deus e não ao imperador. Por isso o impera­dor não tem poder sobre ele. O ser humano é a imagem de Deus, por isso ele só vive de acordo com seu ser quando se volta para Deus, para entregar-se a ele, em vez de orientar-se na opinião dos homens (12, 13-17). O segundo pilar é a fé na ressurreição dos mortos. Deus “não é Deus dos mortos, mas dos vivos” (12, 27). Na morte não sairemos da união com Deus, antes o contemplaremos continuamente, como o fazem os an­jos. O terceiro pilar é o amor de Deus, do próximo e de nós mesmos (12, 28-34). Sobre essas bases da liberdade, da pro­priedade de Deus e do amor, Jesus constrói o novo Templo em que o ser humano adorará Deus de forma adequada.

JESUS, MODELO DO SER HUMANO

O EVANGELHO DE LUCAS

Jesus não foi apenas um terapeuta, mas tam­bém um abençoado narrador de parábolas. É nas parábolas que ele consegue apresentar de maneira mais clara a sua visão de Deus e dos homens. As parábolas têm a função de se encontrar com o ser humano exatamente lá onde ele está. Nelas, Jesus tala “muitas vezes sobre situações do dia-a-dia, que podem acontecer a qualquer um. Ou então ele descreve o trabalho do homem no campo. É evidente que Jesus sabia falar sobre a vida concreta das pessoas de tal maneira que cativava os seus ouvintes. Ele sabia mexer com a sensibilidade deles e fasciná-los. Mas então, de repente, ele dirige o olhar de seus ouvintes para Deus. De repente eles entendem: “Assim é Deus; é isso que Deus faz conosco”. Jesus não fala sobre Deus em termos abstratos. Ele começa com o humano. Conta de tal maneira sobre os homens e seu dia-a-dia, que os ouvintes podem entender quem é Deus e como é que ele age. As parábolas visam transformar o ouvinte e seu modo de ver, e conduzi-lo a uma nova imagem de Deus e do ser humano. Nas parábolas, en­contramos Jesus na sua maneira muito pessoal de contar sobre Deus. E as parábolas, contadas por Jesus, foram redigidas tão artisticamente por Lucas que não apenas comoveram os gregos da época, mas sensibilizam ainda hoje o nosso coração.

Nas parábolas Jesus fala apenas de Deus e do homem na sua relação com Deus. Para o teólogo evangélico Klaas Huizing, as pa­rábolas são autênticos auto-retratos de Jesus.

Nas parábolas Jesus retratou a si mesmo – e não foi por acaso que Lucas, venerado na iconografia como pintor, copiou esse auto-retrato de Jesus da maneira mais feliz; ou melhor: foi Lucas quem transformou as miniaturas em quadros (Huizing, p. 234).

Nas parábolas encontramo-nos, portanto, com o homem Je­sus, com a sua irradiação pessoal, com a sua maneira peculiar de pensar e de falar. Nelas, Jesus não apenas fala sobre o Reino de Deus, ele coloca o Reino de Deus na nossa presença. Nas palavras de Jesus, o Reino de Deus se aproxima de nós, torna-se experimen­tável, palpável. Então o céu se abre acima de nós, e entendemos que Deus está agindo agora, para nós e em nós. Em tal momento Deus se encarna, Deus se torna linguagem. Deus, então, se ex­prime nas palavras. O teólogo Hans Weder acha que a linguagem das parábolas não é apenas poética, mas também poiética, isto é, ela cria uma nova realidade. Ela faz o Reino de Deus chegar dentro da vida do ouvinte ou do leitor. O Reino de Deus torna-se rea­lidade pela imagem da parábola (Huizing, p. 122).

Foi Lucas quem nos transmitiu a mais bela parábola, sempre de novo contada e reinterpretada na literatura: a parábola do fi­lho pródigo, ou do filho reencontrado, ou, como querem outros, do pai misericordioso. Além das parábolas que Lucas deve a Mar­cos e Mateus, há toda uma série de parábolas encontradas ape­nas no evangelho de Lucas:

– a do fazendeiro rico (Lc 12, 13-21);

– a da dracma perdida (Lc 15, 8-10);

– a do gerente astuto (Lc 16, 1-8);

– a do rico e do pobre Lázaro (Lc 16, 19-31);

– e a do juiz iníquo e da viúva (Lc 18, 1-8).

Nessas parábolas exclusivamente lucanas, Lucas utiliza fre­qüentemente recursos estilísticos tipicamente gregos, sobretudo o recurso do monólogo. O “monólogo interior” tem na literatura grega “a função de revelar o caráter de uma pessoa, suas preocu­pações ou intenções” (Bovon II, p. 282). Esse recurso literário encontra-se, sobretudo na antiga literatura romanesca e nas comédias gregas, por exemplo, em Menandro, Plauto e Terêncio. Mas também as tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes utilizam o monólogo. No romance antigo de amor, o monólogo interior tem a função de aprofundar o envolvimento do leitor. “Os leitores des­lizam mesmo para dentro dos papéis dos personagens que agem no romance” (Heininger, p. 49). No romance Kallirhoe, Artaxerxes diz a si mesmo: “Tenta o que for possível, ó alma; volta a ti mes­ma. Outro conselheiro não tens” (id., p. 52). Isso lembra muito o solilóquio do fazendeiro rico com sua alma. Na comédia, os monólogos dos atores são diálogos com o espectador. O espectador é envolvido na ação. “O monólogo cria uma íntima união entre o espectador e o personagem no palco; o espectador se torna aqui, por assim dizer, o confidente do ator” (id., p. 78).

O monólogo interior começa com uma introdução ao assunto. Costuma ser a pergunta: “O que devo fazer?”. A seguir vem um resumo da situação. As diversas possibilidades são examinadas. E finalmente apresenta-se a solução do problema. O monólogo interior quer levar o leitor a um novo modo de agir, a conversão, para que saiba agora seguir o caminho certo. Porém, a pergunta “O que devo fazer?” não é exclusiva, em Lucas, do monólogo in­terior. Os publicanos e os soldados dirigem a mesma pergunta a João Batista (Lc 3, 10.12.13). É também a reação dos habitantes de Jerusalém ao sermão de Pedro no Pentecostes (At 2, 38). É a pergunta fundamental de toda a verdadeira filosofia. O filósofo estóico Epicteto, por exemplo, diz assim: “O que devemos fazer? Eis a pergunta de um bom discípulo da filosofia, ao sentir as do­res de parto da verdade” (id., p. 82). Lucas não inventa as suas parábolas. Ele toma as parábolas contadas por Jesus e as apre­senta numa forma literária que possa chamar a atenção dos gre­gos. Ele quer apresentar Jesus a seus leitores gregos como um poeta, que os introduz nos segredos da alma humana, que lhes revela os pensamentos secretos e lhes ensina a verdadeira filoso­fia, a sabedoria divina que leva à vida verdadeira.

Nas parábolas exclusivamente lucanas reconhecemos ainda a sua tendência de sempre apresentar exemplos do mundo femi­nino ao lado daqueles do mundo masculino. Ao lado da parábola da ovelha perdida (Lc 15, 3-7), que vem do mundo dos pastores de rebanho, ele coloca a parábola da dracma perdida, na qual uma mulher é a personagem central (Lc 15, 8-10). Ao lado do gerente astuto (Lc 16, 1-8), Lucas coloca a viúva destemida, que não tem medo do juiz iníquo (Lc 18, 1-8). Jesus compara o Reino dos Céus a um grão de mostarda que um homem jogou na sua horta, mas também ao fermento que uma mulher misturou numa bacia de farinha (Lc 13, 18-21). Lucas só sabe falar do mistério humano des­crevendo homens e mulheres no seu modo de agir e de pensar. Falar devidamente sobre Deus significa, para Lucas, combinar anima e animus, e ver em Deus tanto o masculino como o femi­nino. E só poderemos falar devidamente sobre o ser humano se olharmos com o mesmo carinho tanto o homem como a mulher, tentando compreender de cada qual o próprio modo de pensar.

 

A parábola da dracma perdida

A parábola curta sobre a dracma perdida (Lc 15, 8-10) segue a da ovelha perdida. Aqui, quem está no centro é uma mulher. Curio­samente, Lucas descreve as mulheres muitas vezes como viúvas ou como solteiras. A mulher não se define a partir do homem. Ela é por si mesma o que ela é. Assim também no caso desta mulher: não se trata de seu relacionamento com o marido, trata-­se dela mesma, do que ela é em si. Ela possuía dez dracmas. “Dez” é o número da totalidade. Quem possui dez dracmas é completo, está salvo. Mas essa mulher perdeu uma dracma. “Um” é outra imagem de totalidade. Se essa mulher perdeu uma dracma, ela saiu de sua completude, de sua unidade consigo mesma e com Deus. Ela perdeu seu centro – sem esse centro as outras nove dracmas também não lhe adiantam nada, perderam sua unidade, já não estão juntas entre si. A mulher sabe o que perdeu. Ela perdeu a si mesma. Gregório de Nissa interpreta essa dracma como sendo o Cristo. Do ponto de vista psicológico, poderíamos dizer que a dracma simboliza o “eu mesmo”. Quem perdeu a si mesmo ainda faz muita coisa, externamente, mas em tudo isso falta o centro, a força, a clareza.

Agora a mulher acende uma lâmpada. Para Gregório, é a in­teligência. Ela precisa da luz da inteligência para esclarecer a es­curidão do inconsciente, procurando aí a completude perdida. Mas Lucas, sem dúvida, pensa aí também na luz da fé. É somente pela fé que a inteligência fica realmente iluminada. É a luz de Deus, da qual precisamos para procurar a dracma na nossa casa inter­na. A mulher varre a casa toda. Ela remove a sujeira que se depo­sitou no chão da sua casa. Gregório interpreta essa sujeira como sendo a negligência com a qual vivemos. Quando nos ocupamos negligentemente com muitas atividades, a nossa casa fica suja. Não somos mais senhores da nossa casa. Uma camada de poeira deposita-se no chão da nossa alma. Então precisamos varrer ener­gicamente, para redescobrir o lustro original da nossa alma. E a mulher procura, incansavelmente. A palavra grega epimelos sig­nifica “solicitamente”, “cuidadosamente”, “com precisão e afin­co”. A mulher olha com atenção, procura com cuidado. Ela está preocupada; quer mesmo encontrar sua dracma. O ser humano não está apenas em busca de Deus, mas também de si mesmo, de sua verdadeira essência. Perdeu a si mesmo. É essa a desgraça do ser humano: alienar-se de si mesmo, perder a si mesmo.

A mulher encontra a sua dracma. Encontra a si mesma. Ago­ra ela convoca as suas amigas e as suas vizinhas: “Alegrai-vos comigo; encontrei de novo a dracma que eu tinha perdido” (Lc 15, 9). Quem se encontra a si mesmo encontra também um novo relacionamento com o próximo. A mulher convida apenas mulhe­res. É junto com elas que ela quer celebrar a festa da sua própria maturação. Ela achou a dracma perdida. Ela encontrou-se com Deus como o fundamento da sua humanidade. Segundo C. G. Jung, não podemos nos encontrar a nós mesmos sem descobrir a ima­gem de Deus na nossa alma. O “eu mesmo” não é o resultado da história da nossa vida; é o que Deus, no início, imaginou que deveríamos ser. Na dracma reencontrada Lucas vê a conversão do pecador. O pecador tinha perdido a si mesmo. Ele não é mais ele mesmo. Converter-se significa: começar a pensar de outra forma, ver por trás das coisas. A conversão é o caminho no qual desco­brimos a nós mesmos, de verdade. Devemos abandonar o que é superficial e partir em busca da dracma no fundo da nossa alma.

Então – diz Jesus – os anjos de Deus hão de alegrar-se de nós. Jesus veio para nos lembrar do núcleo divino. Convocou-nos para a conversão, a fim de que encontremos Deus em nós, e em Deus encontremos, de verdade, nós mesmos. Jesus é aquele que nos chama para o caminho da auto-realização. A meta desse cami­nho é a alegria de sermos humanos. Mas só seremos plenamente humanos quando tivermos encontrado a Deus, quando tivermos redescoberto em nós o núcleo divino. O pecado consiste em nos desencontrarmos conosco, perdendo-nos, vivendo fora de nós mesmos, entregando a nossa vida, em vez de vivê-la pessoalmente. Jesus, segundo Lucas, é aquele que convida o ser humano a ser verdadeiramente humano, a encontrar o seu próprio centro e, nele, Deus, como o verdadeiro fundamento da sua existência.

Uma parábola sempre tem vários planos, deixa ao leitor a liberdade de projetar nela as suas próprias experiências, os seus próprios anseios. A mulher com as suas dracmas pode ser uma imagem da alma humana que perdeu o seu centro, e agora vive em busca do seu verdadeiro “eu”. Mas pode ser também uma ima­gem de Deus que procura o homem perdido, e para isso revira a casa inteira. Se interpretamos assim a parábola, então Deus é descrito na figura de uma mulher. No Antigo Testamento não há texto nenhum em que Deus seja comparado a uma mulher que revira a casa. O exegeta suíço Hermann-Josef Venetz comenta: “Quem faz coisa semelhante mostra-se altamente competente e livre, e também muito próximo de Deus e do mundo” (Venetz, p. 124). Tauler interpreta essa parábola no sentido de que Deus, logo quando estamos bem instalados na casa da nossa vida, começa a agir como uma mulher que remexe tudo para procurar a dracma. Tauler acha que e exatamente no centro da vida que estamos “bem instalados”. E de tanto agir externamente perdemos a dracma. Então Deus nos joga numa crise, em “apuros”, a fim de achar dentro de nós a dracma, o nosso verdadeiro “eu mesmo”.

Essa parábola, no entanto, pode ser aplicada também a Jesus. Jesus, então, entende seu próprio modo de agir como um agir feminino e maternal. Deus, de fato, mandou seu Filho, Jesus, para que acendesse neste mundo a luz da fé, e para que varresse tudo, procurando incansavelmente o ser humano. Jesus andava exata­mente atrás dos publicanos e dos pecadores, aqueles que, na opinião dos fariseus, estavam “perdidos”. No agir da mulher, po­rém, está descrito igualmente aquilo que Jesus opera na alma de cada um. Jesus acende a luz na casa das pessoas, para que cada um se reconheça a si mesmo, para que o olhar de cada um pene­tre nas profundezas de sua própria alma. Jesus varre o interior da alma, expulsando dela, por sua palavra, todos os demônios, todos os padrões de vida que impedem o ser humano de viver. E ele busca incansavelmente o “eu mesmo” do ser humano. Para Platão, o maior dos filósofos gregos, a finalidade da vida huma­na era encontrar o seu verdadeiro “eu”, a sua alma original. Para Lucas, Jesus é o viandante divino que nos põe em contato com o nosso verdadeiro “eu”, com o nosso núcleo divino.

A parábola do filho pródigo

A mais bela parábola contada por Lucas é sem dúvida, a do filho pródigo. Ela já recebeu inúmeras interpretações. Isso mostra que o texto mexe com o leitor. Contar uma parábola, de fato, é mais do que proclamar uma verdade teológica. As parábolas não pretendem nem informar nem provar – querem nos obrigar a tomar posição. Os filólogos falam em “comunicação persuasiva”. Quando Jesus conta uma parábola, ele põe algo em movimento dentro do ouvinte. Não podemos ler a parábola do filho pródigo, da maneira como Lucas a relata, sem que dentro de nós se inicie um processo de mudança. O filho mais novo e o filho mais velho nos colocam diante da pergunta: “Onde é que eu estou? Pareço com o mais novo ou com o mais velho? Ou com ambos? Será que conheço bem esses dois lados dentro de mim?”. O tema dos dois irmãos aponta exatamente para a polaridade interna da nossa alma. Temos dentro de nós o filho mais novo, que gostaria de viver, simplesmente, sem olhar para leis e medidas. E temos den­tro de nós o irmão mais velho, o bem comportado, que se esfor­ça para obedecer a todos os mandamentos. Deveríamos olhar para ambos os lados, e ligar entre si os dois pólos opostos dentro de nós. A parábola não levanta o dedo moralizante, mandando que me converta e faça penitência. Não, Lucas narra a parábola de Jesus de tal maneira que não posso deixar de me fazer estas per­guntas: “Onde é que me obstinei? Onde é que me alimentei com coisas vis? Será que me perdi?” Enquanto leio a parábola, meu coração me incita a voltar para o pai, para lá onde estou real­mente em casa.

Da literatura grega, poderíamos citar muitos exemplos seme­lhantes à parábola do filho pródigo. Lá encontra-se freqüente­mente o tema da confissão de culpa de um filho ao seu pai, de­pois de ter gastado as economias do pai com uma mulher disso­luta, uma hetaíra. Plauto conta de um pai que perdeu seus dois filhos. Reencontrando-os, ele faz uma festa. Desde Aristófanes são conhecidos, na tradição das comédias, “os dois irmãos: um bem comportado; o outro, devasso” (Heininger, p. 151). Esses exem­plos mostram que Lucas deve ter seguido um curso de retórica. Ele conhece a literatura grega, com seus romances, comédias, tragédias e fábulas. Lucas lança mão de sua formação de retor para estabelecer um contato direto com o leitor. E isso não vale ape­nas para o leitor grego, mas igualmente para nós. Lucas acertou uma linguagem que atinge o coração de qualquer um. Ninguém conseguirá se subtrair à mensagem dessa parábola.

O filho está aborrecido com a vida acomodada na sua casa. Ele exige do pai, desde já, a sua parte na herança. Ele quer viver a própria vida, e sem demora. Isso corresponde à atitude de mui­tos jovens de hoje. Querem simplesmente viver, sem limites e, se possível, sem demora. O filho mais novo parte para um país longínquo. Nisso não há nada de condenável. Isso mostra que ele é corajoso. Mas então ele esbanja os seus haveres “numa vida des­comedida”. O texto reza: zon asotos, ele vivia sem esperança, uma vida infame, desregrada, depravada. Aristóteles define asotos assim: “esbanjador é quem se arruína por seu modo de viver” (Heininger, p. 159). O filho decai de tal maneira que recorre a um cidadão, tornando-se dependente dele. O homem manda-o cuidar dos porcos, lá fora no campo. Para leitores judeus isso é um sinal de que o filho se perdeu totalmente, desistiu de si mesmo e de sua dignidade. Foi parar junto aos porcos. Mas ele nem ga­nha as bolotas que os porcos comem. Depois de chegar no fundo do poço, depois que tudo lhe foi arrancado das mãos, quando está sentado, vazio e fracassado, em cima dos cacos da sua existên­cia, aí ele cai em si e começa a pensar. Ele, que se alienou, que se entregou inteiramente em mãos alheias, entra de novo em contato consigo mesmo, volta para dentro de si. Encontrando-se consigo, ele começa um solilóquio que reflete fielmente a sua situação interna: “Quantos operários de meu pai tem pão de so­bra, e eu, aqui, estou morrendo de fome (apollymai, “perco-me”, “estou sucumbindo”). Vou embora daqui (anastas, “levantar-se”, “ressurgir”); vou ter com meu pai, e lhe direi: “Pai, pequei con­tra o céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho. Tra­ta-me como a um dos teus empregados” (Lc 15, 17s). Este soli­lóquio pinta o estado de alma do filho, e deixa o leitor adivinhar o que ele está sentindo. O filho está prestes a desanimar com­pletamente. Mas uma voz interna o faz retornar. Ele não quer se perder. Ele quer viver. E o que ele viu, dentro de seu coração, isso ele faz e ele se põe a caminho para o pai. O pai sente dó, e sai correndo. Para um pai de família ter pressa era inconveniente. Mas o pai não liga para o seu status. O filho é mais importante. Por isso, ele vai ao encontro do filho, correndo, lança-se ao pes­coço do filho, cobre-o de beijos. Nem deixa o filho acabar de fa­lar, e manda logo que os empregados busquem a roupa do filho, que lhe ponham o anel no dedo e o sapato nos pés. Com isso o pai o recebe de novo, inteiramente, dentro da família. E ele manda fazer uma festa: “Vamos comer; vamos ser alegres. Pois meu fi­lho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi reencon­trado” (Lc 15, 23s).

É para os fariseus e os doutores da Lei que Jesus conta a parábola do filho pródigo. Escandalizou-os o fato de Jesus comer com os pecadores (Lc 15, 2). Nessa parábola ele nos conta não apenas quem é Deus e como um ser humano pode mudar de rumo e achar a sua felicidade, mas interpreta também com ela o seu próprio modo de agir. Jesus toma a refeição com os pecadores a fim de tornar visível e experimentável, aqui nesta terra, a mi­sericórdia de Deus. Ele desceu do céu para anunciar o Deus mise­ricordioso, que tem compaixão de todos os que se perderam a si mesmos, que morreram internamente, que se alienaram de si mesmos. Comendo e bebendo com os pecadores, Jesus age por ordem do Pai, e deixa a misericórdia divina aparecer concretamen­te. O que Jesus fazia nas refeições com os pecadores acontece também, no entender de Lucas, em cada celebração da Eucaris­tia. Aí Deus celebra conosco uma refeição festiva, na qual pode­mos nos alegrar, juntamente com Cristo, porque estávamos mor­tos, mas voltamos à vida novamente; estávamos perdidos, mas reencontramo-nos. Assim Jesus, nessa parábola, descreve também a sua própria missão. Ele se entende como aquele que chama novamente à vida os que estavam internamente mortos, evoca neles a vida. E ele entende ser sua tarefa buscar os que se perde­ram, os que sucumbiram. Com essa parábola Jesus quer desper­tar a esperança da vida naqueles que desanimaram de si mesmos. Também para eles um novo rumo é possível. Não há motivo para desanimar. Por mais que erremos o caminho, por mais que ten­temos matar a nossa fome com coisas vis, existe a volta para a casa do Pai, onde podemos realmente sentir-nos em casa, e onde podemos ser integralmente aquilo que somos da parte de Deus: filhos e filhas do Pai celeste.

Mas o convite de Jesus aos pecadores encontra oposição. Na parábola aparece de repente o filho mais velho, que reage à ale­gria festiva com mau humor. O Antigo Testamento conhece a ira do piedoso, quando Deus tem misericórdia do pecador. Jonas, por exemplo, reage com indignação à misericórdia de Deus para com Nínive. E o salmista fala sobre a ira dos devotos diante do suces­so dos maus (Sl 37, 1). Cada um dos três personagens é caracteri­zado por seus sentimentos: o filho mais novo se arrepende, o pai sente compaixão e o filho mais velho fica com raiva. O filho mais velho não representa apenas os fariseus, que se esforçam muito por obedecer aos mandamentos de Deus, mas cumprem muitas vezes os seus deveres sem descobrir a riqueza da vida que Deus lhes oferece. Todo leitor pode ver a si mesmo no filho mais ve­lho. Freqüentemente consideramos nosso ideal cumprir todos os mandamentos e fazer somente a vontade de Deus. Mas a raiva por causa dos outros, que não ligam para os mandamentos, mostra que o nosso bom comportamento não nasce de motivos puros, e que não nos torna felizes. Freqüentemente, o que está atrás dis­so é o medo de viver. Quando, então, o filho mais novo encarna e vive as nossas sombras (a vivacidade reprimida), ficamos indig­nados. Os motivos inconscientes que levaram o filho mais velho a permanecer em casa, a ser bonzinho e bem adaptado, tornam-­se patentes nas suas palavras ao pai: “Já faz tantos anos que eu te sirvo sem jamais ter desobedecido as tuas ordens; e nunca me deste um cabrito sequer para festejar com meus amigos. Mas quando chegou este teu filho, que esbanjou teus bens com pros­titutas, mataste o bezerro gordo para ele”. Não foi por generosi­dade que esse filho cumpriu a vontade do pai; queria ser reco­nhecido por isso. Ficou esperando, secretamente, que o pai o premiasse por ter ticado em casa, e que o preferisse ao filho mais novo. Por trás da fachada da boa conduta podemos perceber fan­tasias sexuais recalcadas, pois, quando ele censura o irmão por ter dilapidado os seus haveres com prostitutas, isso não é confirmado pela narrativa. Isso corresponde à sua própria fantasia. No irmão mais velho, Lucas descreve o nosso lado escuro, que não poucas vezes se esconde por trás de uma fachada devota.

Também ao filho mais velho o pai se dirige com muito amor: “Meu filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas agora temos que nos alegrar, e fazer festa, porque teu ir­mão estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi reencon­trado” (Lc 15, 31s). É uma frase cheia de ternura, essa resposta ao filho mais velho. Entretanto, o pai lhe chama a atenção: “esse teu filho” também é irmão dele. Se o seu irmão, que tinha erra­do o caminho, foi reencontrado, e se aquele que estava morto tornou a viver, então isso é motivo suficiente para fazermos uma festa alegre.

Ninguém poderá ler essa parábola sem entrar em contato com seus próprios desejos e necessidades, anseios e emoções. Os dois filhos revelam coisas escondidas no fundo de nossa alma. E am­bos lembram-nos a misericórdia do Pai. A ele podemos recorrer, quer sejamos o filho mais novo ou o mais velho, o desregrado ou o correto, o atrevido ou o adaptado. Ambos estavam mortos e perdidos, cada um à sua maneira, um numa vida desregrada, o outro em correção ansiosa. O Pai misericordioso nos convida a viver, a festejar com alegria, para que encontremos a vida den­tro de nós, e nisso nos alegremos.

A parábola do gerente astuto

Quero comentar rapidamente uma outra parábola exclusivamen­te lucana, a do gerente astuto (Lc 16, 1-8). Ainda hoje, ela é ca­paz de provocar o leitor. Quando tento explicá-la num grupo, sem­pre surge algum protesto. Como é que Jesus pode aprovar uma fraude? Aqui percebemos como Jesus é habilidoso na arte de mexer com o leitor. Ao provocar o ouvinte, Jesus o seduz para, ir além da posição segura da sua religiosidade. Exatamente lá onde uma parábola nos escandaliza, somos desafiados a questionar e corri­gir o nosso modo de pensar sobre Deus e os homens. Com essa pa­rábola sobre o administrador velhaco, que dribla seu patrão, Jesus sem dúvida provocou gozação entre os seus ouvintes, que deve­mos procurar, sobretudo entre os pobres. Mas não se trata disso. Trata-se da questão: Como é que nós lidamos com as nossas cul­pas? Queiramos ou não, nós contraímos “dívidas”, isto é, culpamo­-nos de alguma coisa, ou somos inculpados. Não há jeito de tirar­mos o corpo fora. A questão é: Como reagimos a isso? Vamos sen­tir vergonha o resto da vida, vestindo roupas de penitente, con­forme o gerente delibera consigo mesmo no seu solilóquio? En­tão todos vão falar mal de nós, e ficaremos sempre pedindo es­molas. A outra possibilidade de reagir à dívida seria dar duro, trabalhar cerrando os dentes, a fim de doravante fazer tudo di­reitinho e cumprir rigorosamente todos os mandamentos. Mas ambos esses caminhos levam a um beco sem saída. O gerente, no seu solilóquio, encontra um terceiro caminho, que Jesus aprova. Em vez de querer pagar, penando, a sua dívida a Deus, ou de querer morrer de vergonha, deveríamos nos aproveitar da dívida como chance para entrarmos em contato com os outros. A culpa nos convida a nos relacionar mais humanamente com os outros. O gerente faz a única coisa possível: ele chama os vendedores e reduz a sua dívida. Assim ele tem esperança de que o receberão nas suas casas. Ele lida criativamente com a própria dívida. Ele usa a imaginação para resolver o seu problema da melhor maneira possível. Jesus elogia a astúcia do gerente velhaco: “Os filhos deste mundo são mais avisados no trato com seus semelhantes do que os filhos da luz” (Lc 16, 8). A expressão “filhos da luz” lembra os essênios, que eram muito piedosos, mas expulsavam sem dó a todos os que transgrediam as suas normas. Na comunidade cristã não deve ser assim. Os cristãos não devem se excluir uns aos ou­tros; devem receber nas suas casas quem se torna culpado. Jesus fala aqui sobre a culpa em termos muito simples e realistas. Na Igreja ainda não chegamos a entender a sua linguagem, tão aberta e clara. Exatamente ao se tratar de culpa, corremos o perigo de rebaixar e desvalorizar as pessoas. Impingimos-lhes sentimentos de culpa para que, contritos, exibam arrependimento. Com Jesus podemos aprender a falar de outra maneira sobre culpa e senti­mentos de culpa. Jesus quer nos mostrar um caminho para aprendermos a lidar com a nossa culpa sem perder a auto-estima.

JESUS, PORTA PARA A VIDA

O EVANGELHO DE JOÃO

A metáfora da videira (15, 1-17)

Na metáfora da videira, Jesus explica a transformação operada em nosso corpo e em nossa alma pelo fato de Deus morar no ser humano. “A imagem da videira é mística pura” (SANFORD, 1997, p. 142, v. 2). Ela nos mostra como a nossa alma e transformada e fecundada pela união com Deus. A imagem da videira pode ser encontrada em mui­tas culturas. No Antigo Testamento, ela é o símbolo do po­vo de Israel. Jesus mesmo se diz a verdadeira videira. E ele o Israel verdadeiro. Nele realiza-se a promessa feita a Israel: Deus há de morar no meio dele e o povo de Israel cumpri­rá o mandamento de Deus produzindo desta maneira mui­tos frutos. Mas a videira é uma imagem cara também aos gregos. Dioniso é o Deus do vinho e do êxtase. O vinho é o sangue de Dioniso. Sem êxtase, o homem definha, fican­do preso na “caixa de seu ego”. Para Sanford, uma das fun­ções principais da religião consiste em “ajudar os homens a encontrar o verdadeiro êxtase, oferecendo caminhos que lhes permitam sair por um lapso de tempo dos limites e das estruturas habituais que costumam aprisioná-los” (Ibid., 149). João nos mostra o caminho cristão do êxtase que nos leva além de nós mesmos. Pela união com Cristo rompemos os limites estreitos do nosso eu, para entrar em contato com “a criatividade ilimitada do centro interior”. Cristo, o verdadeiro Dioniso, nos liberta da estreiteza de uma religião legalista, levando-nos à “ética da criatividade” (Berdyayev). Assim a imagem da videira foi interpretada já por Orígenes no início do século III. Para ele, a palavra de Jesus é como o vinho que “nos transmite uma sensa­ção de inspiração e nos enche de uma embriaguez que não é irracional, e sim divina”. Para Orígenes não são as práti­cas morais, mas antes as especulações místicas “que ale­gram o coração, provocando naqueles que as aceitam dentro de si uma sensação de inspiração e de alegria no Se­nhor”. A imagem da videira exprime o lado alegre de nos­so caminho espiritual. A meta de nosso caminhar é o êxtase da alegria na união com Deus.

Se Jesus afirma que é ele a videira verdadeira (“he ale­thine”), então há nisso um significado também para mim: se eu olhar para a videira, a árvore, a porta, o pão, se procu­rar entender a fundo as coisas terrenas, então acabarei des­cobrindo nelas o mistério de Jesus, o mistério de Deus e do homem. Tudo se transforma em símbolo de Deus que se tornou homem em Jesus. Bultmann vê na videira também uma imagem da árvore da vida, com a qual tantos mi­tos sonharam. Agora vem Jesus e diz: eu sou a realidade daquilo com que vocês sonharam. Em mim, os seus sonhos se realizam. Tudo aquilo que no mundo parece satisfazer a sua fome, a sua sede, o seu desejo de viver não passa de aparência. Só em mim, o seu desejo vira realidade. Eu sou a origem da vida verdadeira. Se vocês permanecerem em mim, produzirão frutos de verdade, e a sua vida terá senti­do e será fecunda.

Os temas abordados são três: permanecer na videira, dar frutos e desbastar os sarmentos. Nesse contexto, Jesus pronuncia as palavras memoráveis: “Vós já estais purifica­dos pela palavra que eu vos disse” (15, 3). Certamente, Je­sus falou aos discípulos de um modo tal que estes se senti­ram totalmente aceitos, puros, limpos, em harmonia consi­go próprios e com Deus. A palavra de Jesus expurgou de­les toda a impureza. Ela os colocou em contato com o núcleo límpido de sua alma. Deus mesmo os limpou pela pa­lavra de Jesus. Manifesta-se nessa palavra o carisma de Je­sus. Jesus certamente irradiava entre as pessoas uma sensa­ção que poderia exprimir-se nestas palavras: “Você está bem. Você está limpo. Deus o criou bom. O bem e a pure­za são mais fortes que qualquer pecado. Se você se abrir ao meu amor, tudo estará limpo em você, toda impureza será purificada e transformada”.

A tarefa mais importante do discípulo é permanecer em Jesus. A permanência é a condição para poder dar fru­tos. O ramo só pode dar frutos se permanecer preso à videi­ra. Permanecer em Jesus significa, segundo a metáfora, fi­car imbuído do espírito e do amor de Jesus. Assim como o ramo recebe a seiva da videira, assim flui dentro de nós o amor de Jesus manifestado na sua morte de cruz. Trata-se de um permanecer mútuo. Nós devemos permanecer em Jesus. E então também ele permanecerá em nós impreg­nando-nos com o seu amor. E esse amor nos faz dar fru­tos. O verdadeiro fruto não consiste em grandes feitos ex­teriores, ele se mostra, isso sim, no amor que passamos a irradiar. Tudo o que fazemos só será fecundo se levar a mar­ca do amor. As palavras que dissermos darão frutos se fo­rem palavras de amor. Os livros que escrevemos só ajuda­rão se forem imbuídos de amor. O nosso desempenho pro­fissional só contará na medida em que a sua motivação for o amor. Claro, existem pessoas que realizam feitos geniais. Mas se faltar o amor permanecerão infecundos. Desman­char-se-ão. Mas, o amor não se resume numa exigência moral que devemos cumprir. O amor fecundo emana de nós quando estamos em contato com o nosso centro, quando Cristo se torna o nosso centro e o nosso próprio eu. Em si mesmo, o eu é estéril. A fonte de nossa vitalida­de e criatividade está no nosso centro, no qual estamos unidos a Cristo.

À metáfora da videira segue imediatamente o tema do amor. Agora, Jesus explica em que consiste esse permane­cer nele: “permanecei no meu amor” (15, 9). O amor se pa­rece com um recinto em que podemos entrar e morar. E o amor se parece com uma fonte à qual estamos ligados, as­sim como o ramo está preso à videira da qual recebe força e vigor. O motivo do nosso amor é o amor de Jesus com o qual ele nos amou até a consumação. Esse amor é motivo de alegria. Os Padres da Igreja interpretaram a palavra de Jesus sobre a alegria perfeita que ele nos dá como a promes­sa de uma alegria indestrutível, de uma alegria que nin­guém nos pode tirar. O ser humano anseia por essa alegria que já não depende do sucesso e da atenção, mas que bro­ta de uma experiência interior. É a alegria como resposta ao amor incondicional de Jesus. Jesus nos põe em contato com a alegria que é uma qualidade interior de nossa alma. Nele, a nossa alma se expande. A alegria é a expressão da vida que está dentro de nós e com a qual Jesus nos põe em contato por meio de seu amor.

Jesus entende o seu amor como um amor entre ami­gos. Não é um amor que vem de cima, é um amor que vê no outro um igual, é um amor entre amigos. E o auge des­se amor amical é a morte de Jesus pelos amigos que somos nós. “Ninguém tem maior amor do que aquele que se des­pojada vida por aqueles a quem ama” (15, 13). 0 amor do amigo e, tanto para os judeus quanto para os gregos, o maior bem e o cumprimento de seu desejo mais profun­do. Jesus chama os discípulos de amigos. Eles já não são servos que não sabem o que o senhor faz e que não tem acesso ao coração de seu amo. O servo não entende o seu senhor, ele está sempre no escuro, “e por isso vive num estado de medo” (BULTMANN, 1950, p. 418). Os discípulos são amigos amados incondicionalmente por Jesus. Nessa imagem da amizade, João descreve o mistério da no­va relação de Deus com nos homens, que se tornou realida­de por Jesus. Somos amigos de Deus. Somos amigos de Je­sus. O amor amical e pura dádiva. Não nos sentimos mal em vista da obrigação de retribuí-lo. Ele simplesmente está aí. Quando passamos a ser amigos, o amor flui espontanea­mente. Na imagem do amigo, Jesus nos mostra a nossa dig­nidade. Estamos na mesma altura dele. Tornamo-nos ínti­mos. Ele se abriu conosco. Revelou-nos tudo o que ouviu do Pai. Estamos a par de todos os segredos desse amigo di­vino. A morte de Jesus não nos deve causar remorsos, como se fôssemos culpados pela morte dele por causa dos nos­sos pecados. Pelo contrário, na morte Jesus está especial­mente perto de nós, como nosso amigo. É nesse momen­to que é selada a nossa amizade. Podemos experimentar como somos importantes para Jesus, a ponto de ele entre­gar a sua vida por nós.

 

Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”

[São Jerônimo, Comm. in Esaiam, prefácio]

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