Pensamentos Seletos

Relacione-se com Deus

O sentido do jejum e da oração

Antes de ser um fenômeno cristão, a oração é um fenômeno antropológico, isto é, todos os homens, de uma forma ou de outra, rezam, sentem a necessidade de se relacionar com Deus, de buscar o transcendente. O diálogo com Deus ocupa, certamente, o primeiro lugar para quem se decide dar-se a uma vida interior intensa. Deus se doa a quem, totalmente e sem reserva, a Ele se doa. A vida interior é uma vida de oração. Cada um deve encontrar tempo para estar com o Senhor em íntima comunhão e diálogo de amizade. Sem a vivência dos valores espirituais e evangélicos, não é possível ter conhecimento experiencial de Deus.

Qualquer pessoa que queira desenvolver a sua vida espiritual deve, todos os dias, encontrar o tempo suficiente para dedicar-se a determinados atos de oração. Os estudiosos afirmam que nunca foi encontrado um povo sem religião, sem celebrações e sem divindade. Isso nos mostra como, em cada um, está presente a necessidade de, em determinados momentos, recorrer ao Senhor. Na Bíblia, não encontramos nenhuma definição de oração, mas situações descritivas de homens e de mulheres que rezam. No entanto, ao longo dos séculos, muitos santos, teólogos, místicos procuraram dar uma definição deste misterioso e vivo diálogo com Deus. Santa Teresinha nos oferece uma explicação: “Para mim, a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado para o céu, um grito de reconhecimento e amor, no meio da provação ou no meio da alegria”.

Nunca devemos nos esquecer de que a oração, mais do que esforço pessoal ou iniciativa humana, é um dom gratuito de Deus. E, sendo Deus amor, inicia o diálogo, procura-nos. Como bem disse São João da Cruz: “Se é verdade que o homem procura a Deus, ainda mais é verdade que Deus procura o homem.” A Quaresma é um tempo especial em que a Igreja nos convida à prática do jejum e da oração a fim de que nós possamos nos preparar integralmente para reviver a vitória sobre a morte que Cristo veio trazer para toda a humanidade. Pela oração, tornamo-nos mais próximos de Deus, conversamos com Ele, pedimos, agradecemos, mas também aprendemos a escutar.

Escutamos Deus por intermédio do nosso exame de consciência, de nossas orações e da análise dos acontecimentos. A prática do jejum nos torna donos de nós mesmos pelo domínio da força de vontade. Quando jejuamos, vencemos a vontade de comer, muitas vezes por gula, e nosso organismo agradece e se desintoxica. Pensadores, estudiosos, médicos sugerem que o jejum “lava” o organismo. Jesus jejuou porque o jejum O tornou mais forte e mais próximo do Pai. Oração e jejum são, pois, ferramentas indispensáveis, de uma maneira intensa, no tempo quaresmal, mas necessárias também durante toda a nossa vida.

Dom Eurico dos Santos Veloso

Sinceridade de coração

Os valores da Quaresma
+ Juan del Río Martín

As chamadas coloquialmente “virtudes domésticas” são aqueles valores que muitas vezes damos por suposto e que em outras situações estão bem marginalizados. No entanto, sem eles a convivência familiar, social e religiosa faz-se impossível. Bento XVI em muitas ocasiões insistiu sobre a necessidade da sinceridade na vida cristã, porque “a conversão só é possível a partir da sinceridade, do exame de consciência sincero e arrependido”. Por esta razão, neste tempo de Quaresma é necessário que nos examinemos sobre como estamos na sinceridade, sem a qual não damos confiança aos outros, não criamos uma atmosfera de cordialidade e familiaridade ao nosso redor.

Dizemos que uma pessoa é sincera quando tem apreço pela verdade e suas ações estão marcadas pelo amor (cf. Rm 12,9). Não é por acaso que numa sociedade onde se valoriza o “esplendor da verdade” e a mesma caridade tenha sido reificada, a sinceridade com Deus, consigo mesmo e com os outros, seja um “bem escasso”. Parece prevalecer mais a mentira, o fingimento, a artificialidade etc., do que a retidão de intenção no que pensamos, falamos, e fazemos, de tal modo que como diria Maughm: “nos tempos de hipocrisia qualquer sinceridade parece cinismo”. Mas a necessidade dos mentirosos é acreditar que aquilo que é falado em segredo não será descoberto (cf. Lc 12, 2-3), e aí temos o ditado popular: “é mais rápido pegar um mentiroso que um aleijado”. Assim, terminada as férias das vaidades deste mundo passageiro, só ficará da pessoa a sua clareza simples e suas obras edificadas no amor.

Agora, conseguir um coração sincero supõe: renúncia à mentira e à meias verdades; a constância no esforço diário para manter a verdade na caridade; e a prudência que nos livra de confundir a sinceridade com a ingenuidade inconsciente. A sinceridade consigo mesmo se baseia no conhecimento das qualidade e defeitos de cada um. Isto motiva um duplo sentimento, por um lado de gratidão pelos dons recebidos do Altíssimo, por outro, de aceitação e superação dos defeitos próprios da natureza humana e daqueles que procedem dos erros pessoais. O saber colocar-se diante do próprio espelho, sem extremismos de qualquer tipo, exige uma boa dose de humildade.

Para a pessoa que crê, a sinceridade com Deus está na tomada de consciência da sua dependência radical com Aquele que lhe deu o ser e o sustenta. Da mesma forma, o incrédulo, se quiser ser sincero consigo mesmo, terá que se perguntar alguma vez: “O que você tem que não tenha recebido?, Por que te glorias, como se não tivesse recebido?” (1 Cor 4, 7). Há todo um mundo que nos precede e do qual não podemos prescindir, por isso também somos seres dependentes dos outros, quanto à vida, ambiente, cultura e muitas outras coisas que nos são dadas. Se aceitarmos essa dependência direta e indireta, chegaremos a ser sinceros com Deus, com os outros e nos teremos encontrado conosco mesmos.

A sinceridade tem um rosto que reflete simplicidade, naturalidade, franqueza. A pessoa sincera não se emaranha nem se complica por dentro, não busca o espetacular no exterior, mas faz do momento comum algo fora do comum tocado pela bondade do seu coração. O contrário disso é a afetação, o glamour, a arrogância, a jactância que tanto nos separa dos outros e cria um vazio existencial envolvente.

A raiz da insinceridade está na soberba. Àquele que acredita que pode conseguir tudo pelas suas muitas qualidades e esforços, terá a grande dificuldade de reconhecer o mistério na sua vida e ao mesmo tempo descobrir os pontos positivos que os outros têm. Essa cegueira faz com que ele perca objetividade diante da sua própria história, a culpa dos seus defeitos sempre serão dos outros, não será capaz de submeter-se à verdade, de valorizar o amor e a amizade. Por isso, o soberbo tentará tirar o lugar de Deus, ignorar seus companheiros e seus lábios não dirão nem sequer uma palavra veraz.

[Tradução Thácio Siqueira]

O segredo da esperança

Ela por meio do amor renova a fé

Na floresta das possibilidades, muitos pássaros passavam os dias a cantarolar as alegrias de viverem juntos. Uma vida em comunidade era motivo de festa permanente. O Canário da Alegria, todas as manhãs, acordava bem cedinho para anunciar um novo tempo que iria começar!

– Bom dia, meus amigos! É hora de acordar! O sol já despontou e temos muitos motivos para nos alegrar hoje!

Em pouco tempo, todos os pássaros estavam reunidos para, juntos, tomarem o café da manhã.  A Pombinha da Paz sempre chegava trazendo a todos a serenidade que os unia cada vez mais. Sempre tinha uma palavra que devolvia a paz aos corações atribulados.

Contudo, naquela manhã, faltava um pássaro em particular: A Águia da Fé, que sempre voava pelas alturas, não apareceu. Preocupado, o Bem-te-vi da Solidariedade saiu à sua procura. Voou muito até que conseguiu localizá-la, sozinha, em uma árvore afastada da floresta.

– O que houve, minha amiga? Estamos preocupados com você. Todos estavam reunidos para o café da manhã e notamos a sua ausência. Como podemos estar alegres e sermos solidários se nos falta a Fé ao nosso lado? Sem você a Paz se torna tempestade!

– Pois é, meu amigo solidário… Ontem à noite, quando voltava para casa, soube que minha mãe, a Águia da Ternura, não está bem. Disseram-me que ela está muito doente, e eu, sinceramente, não sei o que fazer.

Pensativo, o Bem-te-vi da Solidariedade saiu e foi conversar com a Coruja da Sabedoria.

– Minha amiga da Sabedoria, o que podemos fazer para ajudar nossa amiga Águia da Fé. Ela está muito triste e não sei como ajudá-la.

Imediatamente, a Coruja da Sabedoria reuniu todos os pássaros da Floresta dos Carismas. E, diante de todos, explicou o ocorrido.

– Diante desta situação difícil, só há uma solução!

– E qual seria, Coruja da Sabedoria?

– Precisamos encontrar um Beija-Flor que se encontra na Floresta das Decepções.

Assustados, os pássaros se entreolharam, pois a Floresta das Decepções era extremamente perigosa. Muitos pássaros já haviam se perdido nela. Quem seria louco de ir até lá?

– Eu vou! Se for preciso dar a minha vida para salvar a vida da Águia da Fé, eu irei.

E foi assim que o Pardal do Amor partiu em busca do Beija-Flor que se encontrava na Floresta das Decepções.

Depois de muitos dias, o Pardal voltava com o Beija-Flor. Imediatamente, foram ao encontro da Águia. Olhando para ela, o Beija-Flor disse:

– Minha amiga, não fique com medo, pois a Fé que traz em si é muito maior que as tristezas da vida. Sua mãe ficará bem. Com o Amor, a Paz, a Solidariedade, a Alegria, seus amigos que sempre estão junto de você, irá enfrentar as dificuldades da vida.

Olhando profundamente nos olhos do Beija-Flor, a Águia da Fé disse:

– Obrigada, meu amigo. Você despertou em mim um sentimento que eu não conhecia. Você é muito sábio, apenas a sua cor é um pouco estranha! Nunca vi um pássaro verde. Por falar nisso, qual o seu nome Beija-Flor?

– Meu nome é Esperança. Cheguei até você por meio do Amor para que a sua Fé pudesse ser renovada e, assim, pudesse devolver à Ternura, as Alegrias das Possibilidades de uma Paz infinita.

Padre Flávio Sobreiro
Bacharel em Filosofia pela PUCCAMP. Teólogo pela Faculdade Católica de Pouso Alegre – MG. Vigário Paroquial da Paróquia Nossa Senhora do Carmo (Cambuí-MG). Padre da Arquidiocese de Pouso Alegre – MG.

O nosso caminho de fé é ligado ao de Maria…

… “Mãe de Deus” e nossa Mãe

Papa Francisco na Missa, em São Pedro

A iniciar o novo ano, a Igreja latina celebra desde tempos imemorais a grande solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Seguindo a tradição, o Papa Francisco preside, na basílica de São Pedro, à celebração eucarística, a partir das 10 horas, que pode ser seguida em directo, neste site, também com comentários em português. A missa é com celebrada por grande número de padres e um certo número de bispos e cardeais presentes em Roma. Este primeiro de Janeiro é também o quadragésimo sétimo Dia Mundial da Paz, instituído pelo Papa Paulo VI. Tema proposto desta vez: Fraternidade, fundamento e caminho para a paz.

A homilia da Missa foi toda ela centrada na figura de Maria, Mãe de Deus, partindo das leituras proclamadas, a começar pela primeira, do Livro dos Números, com a bênção que Deus sugerira a Moisés, para que fosse invocada sobre todo o povo. “É significativo ouvir estas palavras de bênção no início de um novo ano – observou o Papa:

“São palavras que dão força, coragem e esperança; não uma esperança ilusória, assente em frágeis promessas humanas, nem uma esperança ingénua que imagina melhor o futuro, simplesmente porque é futuro.”

É uma esperança que tem a sua razão de ser precisamente na bênção de Deus; uma bênção que contém… os votos da Igreja para cada um de nós, repletos da protecção amorosa do Senhor, da sua ajuda providente. Ora – prosseguiu Papa Francisco – os votos contidos nesta bênção realizaram-se plenamente numa mulher, Maria, enquanto destinada a tornar-Se a Mãe de Deus, e realizaram-se n’Ela antes de qualquer outra criatura.

“Mãe de Deus! Este é o título principal e essencial de Nossa Senhora. Trata-se duma qualidade, duma função que a fé do povo cristão, na sua terna e genuína devoção à Mãe celeste, desde sempre Lhe reconheceu.”

Papa Francisco evocou, a este propósito, aquele momento importante da história da Igreja Antiga que foi o Concílio de Éfeso, no qual se definiu com autoridade a maternidade divina da Virgem. Esta verdade da maternidade divina de Maria – recordou – ecoou em Roma, onde, pouco depois, se construiu a Basílica de Santa Maria Maior, o primeiro santuário mariano de Roma e de todo o Ocidente, no qual se venera a imagem da Mãe de Deus – a Theotokos – sob o título de Salus populi romani. Diz-se que os habitantes de Éfeso, durante o Concílio, se teriam congregado aos lados da porta da basílica onde estavam reunidos os Bispos e gritavam: «Mãe de Deus!» Os fiéis, pedindo que se definisse oficialmente este título de Nossa Senhora, demonstravam reconhecer a sua maternidade divina. “É a atitude espontânea e sincera dos filhos, que conhecem bem a sua Mãe, porque A amam com imensa ternura.”

Mas é também o exercício do “sensus fidei” unânime do santo e fiel povo de Deus, que , na unidade, nunca se engana – acrescentou o Papa, logo prosseguindo:

“Desde sempre Maria está presente no coração, na devoção e sobretudo no caminho de fé do povo cristão.”

O nosso itinerário de fé é igual ao de Maria; por isso, A sentimos particularmente próxima de nós! – sublinhou o Papa. O nosso caminho de fé está indissoluvelmente ligado a Maria, desde o momento em que Jesus, quando estava para morrer na cruz, no-La deu como Mãe, dizendo: «Eis a tua mãe!»

“Estas palavras têm o valor dum testamento, e dão ao mundo uma Mãe. Desde então, a Mãe de Deus tornou-Se também nossa Mãe! Na hora em que a fé dos discípulos se ia quebrantando com tantas dificuldades e incertezas, Jesus confiava-lhes Aquela que fora a primeira a acreditar e cuja fé não desfaleceria jamais. E a «mulher» torna-Se nossa Mãe, no momento em que perde o Filho divino. O seu coração ferido dilata-se para dar espaço a todos os homens, bons e maus; e ama-os como os amava Jesus.”

A Mãe do Redentor caminha diante de nós e sempre nos confirma na fé, na vocação e na missão. Com o seu exemplo de humildade e disponibilidade à vontade de Deus, ajuda-nos a traduzir a nossa fé num anúncio, jubiloso e sem fronteiras, do Evangelho – observou ainda o Papa Francisco, quase a concluir.

“A Ela confiamos o nosso itinerário de fé, os desejos do nosso coração, as nossas necessidades, as carências do mundo inteiro, especialmente a sua fome e sede de justiça e de paz; e invocamo-La todos juntos: Santa Mãe de Deus! Santa Mãe de Deus! Santa Mãe de Deus!”

Como habitualmente nestas celebrações papais, usaram-se diferentes línguas nas leituras e na oração dos fiéis: – um jovem chinês rezou pela paz entre os povos e nações, invocando Jesus, Príncipe da paz, para que se vençam todas as divisões, ódios e rancores; – uma mãe de família rezou, em espanhol, pelas mulheres e por todas as mães, chamadas a gerar, defender e promover a vida; – em árabe, recordou-se o ano novo, para que Jesus eduque todos a viver activamente na história, sempre orientados para a Vida eterna; – finalmente, em português, rezou-se por toda a assembleia presente…

Eis o texto integral da homilia:

Amados Irmãos e Irmãs, A primeira leitura propôs-nos a antiga súplica de bênção que Deus sugerira a Moisés, para que a ensinasse a Aarão e seus filhos: «O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Nm 6, 24-26). É muito significativo ouvir estas palavras de bênção no início dum novo ano: acompanharão o nosso caminho neste tempo que se abre diante de nós. São palavras que dão força, coragem e esperança; não uma esperança ilusória, assente em frágeis promessas humanas, nem uma esperança ingénua que imagina melhor o futuro, simplesmente porque é futuro. Esta esperança tem a sua razão de ser precisamente na bênção de Deus; uma bênção que contém os votos maiores, os votos da Igreja para cada um de nós, repletos da protecção amorosa do Senhor, da sua ajuda providente.

Os votos contidos nesta bênção realizaram-se plenamente numa mulher, Maria, enquanto destinada a tornar-Se a Mãe de Deus, e realizaram-se n’Ela antes de qualquer outra criatura.

Mãe de Deus! Este é o título principal e essencial de Nossa Senhora. Trata-se duma qualidade, duma função que a fé do povo cristão, na sua terna e genuína devoção à Mãe celeste, desde sempre Lhe reconheceu. Lembremos aquele momento importante da história da Igreja Antiga que foi o Concílio de Éfeso, no qual se definiu com autoridade a maternidade divina da Virgem. Esta verdade da maternidade divina de Maria ecoou em Roma, onde, pouco depois, se construiu a Basílica de Santa Maria Maior, o primeiro santuário mariano de Roma e de todo o Ocidente, no qual se venera a imagem da Mãe de Deus – a Theotokos – sob o título de Salus populi romani. Diz-se que os habitantes de Éfeso, durante o Concílio, se teriam congregado aos lados da porta da basílica onde estavam reunidos os Bispos e gritavam: «Mãe de Deus!» Os fiéis, pedindo que se definisse oficialmente este título de Nossa Senhora, demonstravam reconhecer a sua maternidade divina. É a atitude espontânea e sincera dos filhos, que conhecem bem a sua Mãe, porque A amam com imensa ternura. Mais ainda: é o sensus fidei do santo fiel Povo de Deus, que nunca – na sua unidade – nunca se engana.

Desde sempre Maria está presente no coração, na devoção e sobretudo no caminho de fé do povo cristão. «A Igreja caminha no tempo (…). Mas, nesta caminhada, a Igreja procede seguindo as pegadas do itinerário percorrido pela Virgem Maria» (JOÃO PAULO II, Enc. Redemptoris Mater, 2). O nosso itinerário de fé é igual ao de Maria; por isso, A sentimos particularmente próxima de nós! No que diz respeito à fé, que é o fulcro da vida cristã, a Mãe de Deus partilhou a nossa condição, teve de caminhar pelas mesmas estradas, às vezes difíceis e obscuras, trilhadas por nós, teve de avançar pelo «caminho da fé» (CONC. ECUM. VAT. II, Const. Lumen gentium, 58).

O nosso caminho de fé está indissoluvelmente ligado a Maria, desde o momento em que Jesus, quando estava para morrer na cruz, no-La deu como Mãe, dizendo: «Eis a tua mãe!» (Jo 19, 27). Estas palavras têm o valor dum testamento, e dão ao mundo uma Mãe. Desde então, a Mãe de Deus tornou-Se também nossa Mãe! Na hora em que a fé dos discípulos se ia quebrantando com tantas dificuldades e incertezas, Jesus confiava-lhes Aquela que fora a primeira a acreditar e cuja fé não desfaleceria jamais. E a «mulher» torna-Se nossa Mãe, no momento em que perde o Filho divino. O seu coração ferido dilata-se para dar espaço a todos os homens, bons e maus; e ama-os como os amava Jesus. A mulher que, nas bodas de Caná da Galileia, dera a sua colaboração de fé para a manifestação das maravilhas de Deus na mundo, no Calvário mantém acesa a chama da fé na ressurreição do Filho, e comunica-a aos outros com carinho maternal. Assim Maria torna-Se fonte de esperança e de alegria verdadeira.

A Mãe do Redentor caminha diante de nós e sempre nos confirma na fé, na vocação e na missão. Com o seu exemplo de humildade e disponibilidade à vontade de Deus, ajuda-nos a traduzir a nossa fé num anúncio, jubiloso e sem fronteiras, do Evangelho. Deste modo, a nossa missão será fecunda, porque está modelada pela maternidade de Maria. A Ela confiamos o nosso itinerário de fé, os desejos do nosso coração, as nossas necessidades, as carências do mundo inteiro, especialmente a sua fome e sede de justiça e de paz; e invocamo-La todos juntos: Santa Mãe de Deus!

A ternura de Deus

Quarta-feira, 24 de dezembro de 2014, Jéssica Marçal / Da Redação

Francisco convidou fiéis a refletirem sobre o modo como acolhem a ternura de Deus, que aceita a miséria humana e se enamora por sua pequenez

Deixar-se acolher pela ternura de Deus e, assim, saber enfrentar a vida com bondade e mansidão. Essa foi a mensagem deixada pelo Papa Francisco em sua homilia na Missa do Natal do Senhor, celebrada nesta quarta-feira, 24, na Basílica Vaticana. O Santo Padre se concentrou na luz que Jesus é para o mundo e que livra o homem de toda escuridão.

“A presença do Senhor no meio do seu povo cancela o peso da derrota e a tristeza da escravidão e restabelece o júbilo e a alegria”, disse o Papa, recordando que, mesmo com violências, guerras, ódio e prepotência ao longo dos séculos, Deus soube esperar, pois é Pai e sua paciente fidelidade é mais forte que as trevas e a corrupção.

“Nisto consiste o anúncio da noite de Natal. Deus não conhece a explosão de ira nem a impaciência; permanece lá, como o pai da parábola do filho pródigo, à espera de vislumbrar ao longe o regresso do filho perdido”.

Retomando a cena do nascimento de Jesus, Francisco explicou que a mensagem que todos esperavam na época era a ternura de Deus, que aceita a miséria humana e se enamora por sua pequenez. Dessa forma, essa noite de Natal é um convite para que cada um reflita sobre o modo como acolhe a ternura de Deus em sua vida.

“Deixo-me alcançar por Ele, deixo-me abraçar, ou impeço-Lhe de aproximar-Se? ‘Oh não, eu procuro o Senhor!’– poderíamos replicar. Porém a coisa mais importante não é procurá-Lo, mas deixar que seja Ele a encontrar-me e cobrir-me amorosamente das suas carícias. Esta é a pergunta que o Menino nos coloca com a sua mera presença: permito a Deus que me queira bem?”.

Francisco destacou que é grande a necessidade que o mundo tem hoje de ternura e a resposta do cristão não pode ser diferente daquela que Deus dá à pequenez do homem. “A vida deve ser enfrentada com bondade, com mansidão. Quando nos damos conta de que Deus Se enamorou da nossa pequenez, de que Ele mesmo Se faz pequeno para melhor nos encontrar, não podemos deixar de Lhe abrir o nosso coração”.

Na conclusão da homilia, o Papa convidou os fiéis a contemplarem o presépio. Ele lembrou que quem viu a “grande luz” foram pessoas simples, dispostas a acolher o dom de Deus, e não os arrogantes. “Olhemos o presépio e façamos este pedido à Virgem Mãe: ‘Ó Maria, mostrai-nos Jesus!’”.

 

HOMILIA

«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles»(Is 9,1). «Um anjo do Senhor apareceu [aos pastores], e a glória do Senhor refulgiu em volta deles» (Lc 2,9). É assim que a Liturgia desta santa noite de Natal nos apresenta o nascimento do Salvador: como luz que penetra e dissolve a mais densa escuridão. A presença do Senhor no meio do seu povo cancela o peso da derrota e a tristeza da escravidão e restabelece o júbilo e a alegria.

Também nós, nesta noite abençoada, viemos à casa de Deus atravessando as trevas que envolvem a terra, mas guiados pela chama da fé que ilumina os nossos passos e animados pela esperança de encontrar a «grande luz». Abrindo o nosso coração, temos, também nós, a possibilidade de contemplar o milagre daquele menino-sol que, surgindo do alto, ilumina o horizonte.

A origem das trevas que envolvem o mundo perde-se na noite dos tempos. Pensemos no obscuro momento em que foi cometido o primeiro crime da humanidade, quando a mão de Caim, cego pela inveja, feriu de morte o irmão Abel (cf. Gn 4, 8). Assim, o curso dos séculos tem sido marcado por violências, guerras, ódio, prepotência. Mas Deus, que havia posto suas expectativas no homem feito à sua imagem e semelhança, esperava. O tempo de espera fez-se tão longo que a certo momento, quiçá, deveria renunciar; mas Ele não podia renunciar, não podia negar-Se a Si mesmo (cf. 2 Tm 2, 13). Por isso, continuou a esperar pacientemente face à corrupção de homens e povos. A paciência de Deus. Quão difícil é entender isso, a paciência de Deus para conosco.

Ao longo do caminho da história, a luz que rasga a escuridão revela-nos que Deus é Pai e que a sua paciente fidelidade é mais forte do que as trevas e do que a corrupção. Nisto consiste o anúncio da noite de Natal. Deus não conhece a explosão de ira nem a impaciência; permanece lá, como o pai da parábola do filho pródigo, à espera de vislumbrar ao longe o regresso do filho perdido, todos os dias, com paciência, a paciência de Deus.

A profecia de Isaías anuncia a aurora duma luz imensa que rasga a escuridão. Ela nasce em Belém e é acolhida pelas mãos amorosas de Maria, pelo afeto de José, pela maravilha dos pastores. Quando os anjos anunciaram aos pastores o nascimento do Redentor, fizeram-no com estas palavras: «Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12). O «sinal» é a humildade de Deus levada ao extremo; é o amor com que Ele, naquela noite, assumiu a nossa fragilidade, o nosso sofrimento, as nossas angústias, os nossos desejos e as nossas limitações. A mensagem que todos esperavam, que todos procuravam nas profundezas da própria alma, mais não era que a ternura de Deus: Deus que nos fixa com olhos cheios de afeto, que aceita a nossa miséria, Deus enamorado da nossa pequenez.

Nesta noite santa, ao mesmo tempo que contemplamos o Menino Jesus recém-nascido e reclinado numa manjedoura, somos convidados a refletir. Como acolhemos a ternura de Deus? Deixo-me alcançar por Ele, deixo-me abraçar, ou impeço-Lhe de aproximar-Se? «Oh não, eu procuro o Senhor!»– poderíamos replicar. Porém a coisa mais importante não é procurá-Lo, mas deixar que seja Ele a encontrar-me e cobrir-me amorosamente das suas carícias. Esta é a pergunta que o Menino nos coloca com a sua mera presença: permito a Deus que me queira bem?

E ainda: temos a coragem de acolher, com ternura, as situações difíceis e os problemas de quem vive ao nosso lado, ou preferimos as soluções impessoais, talvez eficientes mas desprovidas do calor do Evangelho? Quão grande é a necessidade que o mundo tem hoje de ternura! A paciência de Deus, a proximidade de Deus, a ternura de Deus.

A resposta do cristão não pode ser diferente da que Deus dá à nossa pequenez. A vida deve ser enfrentada com bondade, com mansidão. Quando nos damos conta de que Deus Se enamorou da nossa pequenez, de que Ele mesmo Se faz pequeno para melhor nos encontrar, não podemos deixar de Lhe abrir o nosso coração pedindo-Lhe: «Senhor, ajudai-me a ser como Vós, concedei-me a graça da ternura nas circunstâncias mais duras da vida, dai-me a graça de me aproximar ao ver qualquer necessidade, a graça da mansidão em qualquer conflito».

Queridos irmãos e irmãs, nesta noite santa, contemplamos o presépio: nele, «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz» (Is 9,1). Viram-na as pessoas simples, dispostas a acolher o dom de Deus. Pelo contrário, não a viram os arrogantes, os soberbos, aqueles que estabelecem as leis segundo os próprios critérios pessoais, aqueles que assumem atitudes de fechamento. Olhemos o presépio e façamos este pedido à Virgem Mãe: «Ó Maria, mostrai-nos Jesus!»

Caras sorridentes

Um sorriso não custa nada e rende muito

“Não esqueças – dizia São Josemaria Escrivá – que, às vezes, faz-nos falta ter ao lado caras sorridentes” (Sulco, n. 57).

Ele o recomendava, e (sou testemunha disso) praticava-o em favor dos outros todos os dias. Costumava dizer, por experiência própria, que, em muitas ocasiões, “sorrir é a melhor mortificação”, porque custa. Sim, pode nos custar, custar muito, sobretudo nos dias em que não nos sentimos bem ou andamos aflitos e preocupados, mas o esforço sacrificado de tentar sorrir por amor – por amor a Deus e por amor aos outros -, passando por cima das dificuldades, constitui um belo serviço, pois torna mais amável e alegre a vida dos que convivem conosco.

É estranho, mas alguns pensam que sorrir sem ter vontade é hipocrisia. Não é verdade. Por exemplo, fazer o esforço, no lar, de sorrir para evitar preocupações, angústias, tormentos, mau humor ao marido, à mulher, aos filhos, é um grande ato de amor. O sorriso afetuoso dissipa nuvens, desarma irritações, abre uma nesga de céu por onde pode entrar o sol da alegria e o bom humor.

Por isso, deve-se lutar, esforçadamente, para não privar desse bem os outros. Sorrir não é só uma reação espontânea, uma atitude “natural” que não se pode controlar; pode – e deve, muitas vezes – ser um ato voluntário de amor, praticado com esforço consciente, pensando no bem dos outros.

A este propósito, gosto de recordar um cartão de Boas-Festas que um padre amigo me mandou em fins de 1992. Era uma folha de papel simples, xerocada na paróquia, e trazia uma espécie de poema. Não sei se era da autoria dele ou se o tomara emprestado de alguma publicação ou da internet. Seja como for, o conteúdo era muito simpático. Debaixo do cabeçalho – um sorriso -, vinham as seguintes frases:

– “Não custa nada e rende muito.” – “Enriquece quem o recebe, sem empobrecer quem o dá.” – “Dura somente um instante, mas os seus efeitos perduram para sempre.” – “Ninguém é tão rico que dele não precise.” – “Ninguém é tão pobre que não o possa dar a todos.” – “Leva a felicidade a todos e a toda a parte.” – “É símbolo da amizade, da boa vontade, é alento para os desanimados, repouso para os cansados, raio de sol para os tristes, ressurreição para os desesperados.” – “Não se compra nem se empresta.” – “Nenhuma moeda do mundo pode pagar o seu valor.” – “Não há ninguém que precise tanto de um sorriso como aquele que já não sabe sorrir.” – “Quando você nasceu, todos sorriram, só você é que chorava. Viva de tal maneira que, quando você morrer, todos chorem e só você sorria.”

Padre Francisco Faus
http://www.padrefaus.org/

O dever do descanso

O grande Santo Agostinho, visualizando a experiência do Paraíso, disse que na eternidade haverá louvor, oração, amor e descanso (“laudabimus, orabimus, amabimus, vacabimus”). Feitos para glorificar a Deus, no louvor e na oração, desde já nos realizamos como pessoas. E cantar, ensina o mesmo santo, é próprio de quem ama. Quem louva, reza e ama a Deus e ao próximo é feliz. E daí encontra as condições para o adequado descanso. Para os cristãos, o dia do Senhor, chamado Domingo, é dedicado a celebrar o mistério pascal de Cristo, ao descanso, à família e à solidariedade. Neste dia, de modo especial, queremos antecipar as realidades esperadas para a eternidade, dentre elas o descanso. E outras ocasiões, especialmente as justas merecidas férias, são oportunidades preciosas para um adequado repouso, que nos dê condições para rezar melhor, louvar a Deus e querer e fazer o bem, no amor ao próximo. É sabido que pessoas agitadas e cansadas acabam dando guarida em seu interior a sentimentos destinados a transformá-las em presenças agressivas em suas famílias e na sociedade.

“A ligação entre o dia do Senhor e o dia do descanso na sociedade civil tem uma importância e um significado que ultrapassam o horizonte propriamente cristão. De fato, a alternância de trabalho e descanso, inscrita na natureza humana, foi querida pelo próprio Deus, como se deduz do texto da criação no livro do Gênesis (cf. 2,2-3; Ex 20,8-11): o repouso é coisa sagrada, constituindo a condição necessária para o homem se subtrair ao ciclo, por vezes excessivamente absorvente, dos afazeres terrenos e retomar consciência de que tudo é obra de Deus. O poder sobre a criação, que Deus concede ao homem, é tão prodigioso que este corre o risco de esquecer-se que Deus é o Criador, de quem tudo depende. Este reconhecimento é ainda mais urgente na nossa época, porque a ciência e a técnica aumentaram incrivelmente o poder que o homem exerce através do seu trabalho. Importa não perder de vista que o trabalho é, ainda no nosso tempo, uma dura escravidão para muitos, seja por causa das condições miseráveis em que é efetuado e dos horários impostos, especialmente nas regiões mais pobres do mundo, seja por subsistirem, mesmo nas sociedades economicamente mais desenvolvidas, demasiados casos de injustiça e exploração do homem pelo homem.

Quando a Igreja, ao longo dos séculos, legislou sobre o descanso dominical, teve em consideração sobretudo o trabalho dos operários, certamente não porque este fosse um trabalho menos digno relativamente às exigências espirituais da prática dominical, mas porque mais carente duma regulamentação que aliviasse o seu peso e permitisse a todos santificarem o dia do Senhor. Nesta linha, Leão XIII, na Encíclica Rerum Novarum apontava o descanso festivo como um direito do trabalhador, que o Estado deve garantir” (João Paulo II, Carta Apostólica Dies Domini n. 65-66).

Muitos de nós falham com os próprios deveres quando não vivem o domingo em suas diversas dimensões e quando não se dedicam ao necessário descanso. Sim, é pecar contra a lei de Deus não descansar! Queremos entrar numa escola de repouso, descanso, férias! Outros não sabem descansar. O descanso, para não se tornar vazio nem fonte de tédio, deve gerar enriquecimento espiritual, maior liberdade, possibilidade de contemplação e comunhão fraterna. Os fiéis hão de escolher, de entre os meios da cultura humana e as diversões que a sociedade proporciona, aqueles que estão mais de acordo com uma vida segundo os preceitos do Evangelho (Cf. Dies Domini 68).

A volta para casa, num final de domingo, assim como o retorno de um período de férias em nossas magníficas praias nunca sejam marcados pelo remorso suscitado pela entrega aos vícios, nem pelos acidentes de trânsito, mas cheios de alegria e disposição. Há uma grande tarefa a ser vivida pelos cristãos e pela Igreja, no meio da sociedade, onde nos cabe defender o primado absoluto de Deus e também a primazia e a dignidade da pessoa humana sobre as exigências da vida social e econômica, antecipando de certo modo os novos céus e a nova terra, onde a liberdade será definitiva e total (Cf. Dies Domini 68), na oração, no louvor, no amor e no descanso.

Dom Alberto Taveira
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

O Dom da Esperança

A fé nasce das incertezas

Manhãs sempre são um sinal de recomeço. Quando as forças parecem estar no fim, sempre se faz necessário buscar na fé as certezas de um novo tempo. Assim é a vida: um contínuo processo de estações, onde o hoje é sempre uma nova oportunidade de ser feliz.

Nem sempre é fácil buscar algo que ainda não se consegue ver. A fé nasce das incertezas. Se tudo fosse certo não haveria necessidade de acreditarmos em algo que ainda não nasceu no jardim de nossas possibilidades. Quando o incerto nasce, a certeza da fé nos devolve a calma de uma manhã de esperanças sempre novas.

Nas estações da alma a esperança sempre nos convida a colhermos as flores que ainda são apenas sementes. Somente quem aprendeu a semear saberá que a colheita leva tempo e é preciso saber esperar. Os agricultores sabem que a semente leva tempo para nascer. Diante da sepultura da semente eles sabem que ela está em um processo silencioso de germinação. E quando menos se espera, a semente surge a partir de um processo reconciliado com o tempo da natureza. É o milagre dos processos de ressurreição que superam a morte, dando lugar ao verde de eternas esperanças.

A esperança passa pelo mesmo processo da semente: ela nasce das incertezas a partir de uma certeza maior. Nem sempre é fácil acreditar quando tudo parece ser tempestade e as ondas revoltas da vida parecem afundar as pequenas esperanças que ainda nos mantêm em pé.

Diante das desesperanças da mulher que iria levar o filho para ser sepultado, Jesus aparece como um sinal de vida em meio à morte. A procissão das possibilidades encontra-se com a procissão das despedidas.  Diante das lágrimas daquela mãe que contempla seu filho já sem vida, o Senhor reconhece as dores de quem não tem mais a esperança como companhia. As alegrias de outrora eram agora somente a saudade de um tempo que se foi. O passado era apenas uma recordação de um presente doloroso e de lágrimas.

Quando Jesus se aproxima, as noites daquela senhora começam a ganhar tonalidades de uma nova manhã com cores de vida. Das trevas das incertezas começam a desabrochar o verde de um novo tempo. As lágrimas que antes molhavam as saudades de um tempo de alegrias, agora cedem lugar aos sorrisos de uma vida nova que traz as certezas das flores que germinam repletas de fé no jardim da alma.

Foi na esperança diante da morte já decretada que Jesus devolveu a vida àquela senhora que caminhava por uma estrada sem flores e sem vida. O inverno de uma estação sem vida fez daquele jardim de tristezas um lindo canteiro de flores de esperança.

Em Jesus Cristo encontramos a certeza nas horas incertas. Diante do Autor da Vida toda semente é sempre uma possibilidade de esperança, que renasce a cada gota de fé que irriga o solo das tristezas. Enquanto houver uma semente de esperança haverá a certeza de uma nova vida a desabrochar.

Padre Flávio Sobreiro, Bacharel em Filosofia pela PUCCAMP. Teólogo pela Faculdade Católica de Pouso Alegre – MG. Vigário Paroquial da Paróquia Nossa Senhora do Carmo (Cambuí-MG). Padre da Arquidiocese de Pouso Alegre – MG. http://www.flaviosobreiro.com

O que o cristão deve levar em sua mochila?

Por Padre Luizinho

Nós estamos neste mundo de passagem: a vida é passageira, por isso, buscai as coisas do alto. São João Maria Vianney dizia: “O dia é como uma moeda de ouro que Deus nos dá para comprar a eternidade”. Nós não teremos outra vida para concertar o que fizemos de errado ou para fazer o que deveríamos ter feito ou que você não deixou Deus fazer ou que não fizeram por você. Essa moeda são minhas escolhas, atitudes, minha consciência. Para abraçar aquilo que Jesus já conquistou para mim. São Paulo tem um conselho extraordinário que me faz lembrar o Pe Léo: Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está entronizado à direita de Deus; cuidai das coisas do alto, não do que é da terra. Pois morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus (Cl 3, 1-3).

Juntai tesouros para o céu, somos peregrinos aqui e na nossa mochila carregamos nossa missão e o verdadeiro sentido do que buscamos. A felicidade plena, a realização total, a plenitude do seu ser não esta aqui, não se realizará aqui na terra. Nós não ouvimos, nem vemos o que Deus tem preparado para aqueles que Ele ama, essa é a nossa esperança eu vou ressuscitar e vamos viver a eternidade. Agora a escolha do que eu serei na eternidade se faz no tempo presente aqui e agora. Nós estamos peregrinando na face da terra, e nossa vida não pode ser de qualquer jeito e nesta peregrinação Deus nos deu uma mochila, que nos dar todas as condições para viver neste mundo e para viver a eternidade:  Mas, como está escrito, “o que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram, nem os ouvidos ouviram, nem coração algum jamais pressentiu” (cf. 1Cor 2, 9).

O que carregar nesta mochila?

Primeiro item que o cristão leva: O DOM CARISMÁTICO DA FÉ não é a cruz como alguns pensaram que seria a cruz, mas a cruz sem fé não tem sentido. – Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado (Mc 16, 16).
“A fim de que todo o que nele crer tenha vida eterna” (Jo 3, 15).
A fé é a certeza daquilo que ainda se espera a demonstração de realidades que não se vêem. Ora, sem a fé é impossível agradar a Deus, pois quem dele se aproxima deve crer que ele existe e recompensa os que o procuram (cf. Hb 11,1.6).

Segunda coisa que se leva na mochila: A CRUZ: Chamou, então, a multidão, juntamente com os discípulos, e disse-lhes: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”! (Mc 8, 34).
E quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim (Mt 10, 38).
Quem não carrega sua cruz e não caminha após mim, não pode ser meu discípulo (Lc 14, 27).
Carregando a sua cruz, ele saiu para o lugar chamado Calvário (em hebraico: Gólgota) (Jo 19, 17).

Terceiro item de necessidades básicas: A PALAVRA DE DEUS – Aquele, porém, que guarda a sua palavra, nele o amor de Deus é verdadeiramente perfeito. É assim que conhecemos se estamos nele: (1Jo 2, 5).
Lâmpada para meus passos é tua palavra e luz no meu caminho (Sl 119, 105).

Quarto item indispensável: OS SACRAMENTOS entre eles os principais Eucaristia e Confissão:
Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo. Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe (Jo 6, 51. 53-56).   Eucaristia celebrada e adorada.
Confissão como um sacramento de cura e libertação: Então, soprou sobre eles e falou: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, ficarão retidos” (Jo 20, 22-23).

Quinto item: O LOUVOR e a ação de graças deve ser a linguagem do cristão que caminha para santidade. O louvor abre as portas do sobrenatural:
Todas as manhãs devem apresentar-se para cantar graças e louvores ao SENHOR, e da mesma forma à tarde (I Crônicas 23, 30);
Entoaram um hino de louvor e gratidão ao SENHOR, cantando: “Sim, ele é bom, eterno é seu amor para com Israel”. E todo o povo manifestava em altas vozes sua alegria, louvando o SENHOR, porque estavam sendo colocados os fundamentos da Casa do SENHOR (Esdras 3, 11);
Aleluia! Louvai a Deus no seu santuário, louvai-o no firmamento do seu poder. Louvai-o por suas grandes obras, louvai-o pela sua imensa grandeza. Louvai-o tocando trombetas, louvai-o com harpa e cítara; louvai-o com tímpanos e danças, louvai-o nas cordas e nas flautas. Louvai-o com címbalos sonoros, louvai-o com címbalos retumbantes; todo ser vivo louve o SENHOR. Aleluia! (Sl 150).

Sexto item: A INTIMIDADE COM MARIA, relacionamento de filho. Isso será bem representado pela oração do Terço, meditando os mistérios de Nossa Salvação; “Sua mãe guardava todas estas coisas no coração” (Lc 2, 19.51).
Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” A partir daquela hora, o discípulo a acolheu no que era seu (cf. Jo 19, 26-27).

Sétimo item no caminho de perfeição: VIDA INTERIOR, oração pessoal, direção espiritual, onde nós vamos adquirindo sensibilidade para escutar a Deus e principalmente para respondê-lo com o testemunho de vida. Leia o Livro de Santa Tereza de Jesus: Castelo Interior ou Moradas.

Reveja a sua missão e a sua mochila.
Ide pelo mundo inteiro e a todos pregai o Evangelho. Mc 16,15

Motivos para não perder a esperança

10 passos para construir o Céu na Terra

Sempre desejamos que nossa vida seja um oásis de paz e harmonia. Porém, quando buscamos em nós mesmos estes sentimentos, ficamos confusos e, por vezes, acabamos nos desanimando. Descobrimos em nossa fragilidade que estamos longe do ideal que sonhamos. Contudo, é necessário nunca perdemos a esperança. O céu que buscamos começa a ser construído dentro de cada um de nós, no hoje da história.

Em nossa caminhada rumo ao céu que sonhamos, alguns passos são fundamentais:

1 – Respeitar o diferente
Nem sempre é fácil conviver com quem pensa diferente de nós. O respeito para com o outro nasce a partir do momento em que o reconhecemos não como um inimigo, mas como um ser humano limitado, necessitado de nossa ajuda e compreensão. Assim como ele, ainda estamos em processo de construção. Deus ainda não nos terminou.

2 – Evitar o julgamento
Todo o julgamento sempre nos conduz a graves desentendimentos. Jesus nunca julgou o outro, pelo contrário, sempre olhava para cada pessoa a partir das possibilidades que o ser humano carregava no seu coração. Quando julgamos o próximo, experimentamos, em nós mesmos, a consciência de que também não somos perfeitos.

3 – Reconciliar-se com o tempo
Queremos tudo para hoje e não damos ao tempo o período necessário para o amadurecimento interior de nossos sentimentos. Muitas pessoas têm se sufocado e sufocado outros com sua pressa e ansiedade. Quem colhe frutos verdes experimenta em si mesmo o amargo das antecipações.

4 – Reflexão interior
Cada gesto, atitude, palavra, olhar e decisão trazem em si as suas próprias consequências. Nossas escolhas sempre terão alguma consequência em nossa vida. Diante da vida e de seus desdobramentos, uma pergunta é sempre essencial: Qual lição eu aprendi com este acontecimento na minha vida? A cada lição aprendida, o tesouro da nossa sabedoria irá se enriquecendo com as pérolas do aprendizado.

5 – Viver em comunidade
Em tempos de comunidades virtuais, a vida real clama pela nossa presença. Nada pode substituir um abraço, um sorriso, um olhar carinhoso e terno. A vida em comunidade nos torna irmãos e irmãs. Quem se isola foge de si mesmo e dos outros.

6 – Ser solidário
A solidariedade é o amor ao próximo manifestado em gestos concretos. Nossos gestos solidários ganham inspiração cristã quando reconhecemos, em quem precisa de nossa ajuda, o próprio Cristo.

7 – Cultivar uma vida espiritual
A alma se alimenta daquilo que a ela oferecemos. Só iremos crescer interiormente quando alimentarmos nosso coração de uma espiritualidade madura e cristã, que reconheça a Cristo Ressuscitado como base de nossa fé.

8 – Alimentar-se da Palavra de Deus
Se o alimento é necessário à saúde biológica do nosso corpo, a Palavra de Deus é alimento seguro para a saúde de nossa vida interior. Quem busca, na Palavra de Deus, a luz para guiar seus passos terá seu caminho iluminado pelo amor do Pai.

9 – Ser amigo do silêncio
Tão importante quanto a fala é o silêncio. Se com ela ocorre a comunicação verbal, com o silêncio do nosso coração ocorre a comunicação espiritual. Coração silencioso é abrigo para as respostas de Deus à nossa vida.

10 – Vida de Oração
Quando descobrimos a Deus como um amigo, jamais podemos ficar um dia sem falar com Ele. Na oração fazemos a descoberta de uma amizade em que o filho se abandona totalmente nas mãos do Pai que o ama infinitamente. Se a oração é dialogo, a conversa que nasce desta relação entre nós e Deus se chama amor.

Padre Flávio Sobreiro

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