Pensamentos Seletos

Relacione-se com Deus

O sentido do jejum e da oração

Antes de ser um fenômeno cristão, a oração é um fenômeno antropológico, isto é, todos os homens, de uma forma ou de outra, rezam, sentem a necessidade de se relacionar com Deus, de buscar o transcendente. O diálogo com Deus ocupa, certamente, o primeiro lugar para quem se decide dar-se a uma vida interior intensa. Deus se doa a quem, totalmente e sem reserva, a Ele se doa. A vida interior é uma vida de oração. Cada um deve encontrar tempo para estar com o Senhor em íntima comunhão e diálogo de amizade. Sem a vivência dos valores espirituais e evangélicos, não é possível ter conhecimento experiencial de Deus.

Qualquer pessoa que queira desenvolver a sua vida espiritual deve, todos os dias, encontrar o tempo suficiente para dedicar-se a determinados atos de oração. Os estudiosos afirmam que nunca foi encontrado um povo sem religião, sem celebrações e sem divindade. Isso nos mostra como, em cada um, está presente a necessidade de, em determinados momentos, recorrer ao Senhor. Na Bíblia, não encontramos nenhuma definição de oração, mas situações descritivas de homens e de mulheres que rezam. No entanto, ao longo dos séculos, muitos santos, teólogos, místicos procuraram dar uma definição deste misterioso e vivo diálogo com Deus. Santa Teresinha nos oferece uma explicação: “Para mim, a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado para o céu, um grito de reconhecimento e amor, no meio da provação ou no meio da alegria”.

Nunca devemos nos esquecer de que a oração, mais do que esforço pessoal ou iniciativa humana, é um dom gratuito de Deus. E, sendo Deus amor, inicia o diálogo, procura-nos. Como bem disse São João da Cruz: “Se é verdade que o homem procura a Deus, ainda mais é verdade que Deus procura o homem.” A Quaresma é um tempo especial em que a Igreja nos convida à prática do jejum e da oração a fim de que nós possamos nos preparar integralmente para reviver a vitória sobre a morte que Cristo veio trazer para toda a humanidade. Pela oração, tornamo-nos mais próximos de Deus, conversamos com Ele, pedimos, agradecemos, mas também aprendemos a escutar.

Escutamos Deus por intermédio do nosso exame de consciência, de nossas orações e da análise dos acontecimentos. A prática do jejum nos torna donos de nós mesmos pelo domínio da força de vontade. Quando jejuamos, vencemos a vontade de comer, muitas vezes por gula, e nosso organismo agradece e se desintoxica. Pensadores, estudiosos, médicos sugerem que o jejum “lava” o organismo. Jesus jejuou porque o jejum O tornou mais forte e mais próximo do Pai. Oração e jejum são, pois, ferramentas indispensáveis, de uma maneira intensa, no tempo quaresmal, mas necessárias também durante toda a nossa vida.

Dom Eurico dos Santos Veloso

Sinceridade de coração

Os valores da Quaresma
+ Juan del Río Martín

As chamadas coloquialmente “virtudes domésticas” são aqueles valores que muitas vezes damos por suposto e que em outras situações estão bem marginalizados. No entanto, sem eles a convivência familiar, social e religiosa faz-se impossível. Bento XVI em muitas ocasiões insistiu sobre a necessidade da sinceridade na vida cristã, porque “a conversão só é possível a partir da sinceridade, do exame de consciência sincero e arrependido”. Por esta razão, neste tempo de Quaresma é necessário que nos examinemos sobre como estamos na sinceridade, sem a qual não damos confiança aos outros, não criamos uma atmosfera de cordialidade e familiaridade ao nosso redor.

Dizemos que uma pessoa é sincera quando tem apreço pela verdade e suas ações estão marcadas pelo amor (cf. Rm 12,9). Não é por acaso que numa sociedade onde se valoriza o “esplendor da verdade” e a mesma caridade tenha sido reificada, a sinceridade com Deus, consigo mesmo e com os outros, seja um “bem escasso”. Parece prevalecer mais a mentira, o fingimento, a artificialidade etc., do que a retidão de intenção no que pensamos, falamos, e fazemos, de tal modo que como diria Maughm: “nos tempos de hipocrisia qualquer sinceridade parece cinismo”. Mas a necessidade dos mentirosos é acreditar que aquilo que é falado em segredo não será descoberto (cf. Lc 12, 2-3), e aí temos o ditado popular: “é mais rápido pegar um mentiroso que um aleijado”. Assim, terminada as férias das vaidades deste mundo passageiro, só ficará da pessoa a sua clareza simples e suas obras edificadas no amor.

Agora, conseguir um coração sincero supõe: renúncia à mentira e à meias verdades; a constância no esforço diário para manter a verdade na caridade; e a prudência que nos livra de confundir a sinceridade com a ingenuidade inconsciente. A sinceridade consigo mesmo se baseia no conhecimento das qualidade e defeitos de cada um. Isto motiva um duplo sentimento, por um lado de gratidão pelos dons recebidos do Altíssimo, por outro, de aceitação e superação dos defeitos próprios da natureza humana e daqueles que procedem dos erros pessoais. O saber colocar-se diante do próprio espelho, sem extremismos de qualquer tipo, exige uma boa dose de humildade.

Para a pessoa que crê, a sinceridade com Deus está na tomada de consciência da sua dependência radical com Aquele que lhe deu o ser e o sustenta. Da mesma forma, o incrédulo, se quiser ser sincero consigo mesmo, terá que se perguntar alguma vez: “O que você tem que não tenha recebido?, Por que te glorias, como se não tivesse recebido?” (1 Cor 4, 7). Há todo um mundo que nos precede e do qual não podemos prescindir, por isso também somos seres dependentes dos outros, quanto à vida, ambiente, cultura e muitas outras coisas que nos são dadas. Se aceitarmos essa dependência direta e indireta, chegaremos a ser sinceros com Deus, com os outros e nos teremos encontrado conosco mesmos.

A sinceridade tem um rosto que reflete simplicidade, naturalidade, franqueza. A pessoa sincera não se emaranha nem se complica por dentro, não busca o espetacular no exterior, mas faz do momento comum algo fora do comum tocado pela bondade do seu coração. O contrário disso é a afetação, o glamour, a arrogância, a jactância que tanto nos separa dos outros e cria um vazio existencial envolvente.

A raiz da insinceridade está na soberba. Àquele que acredita que pode conseguir tudo pelas suas muitas qualidades e esforços, terá a grande dificuldade de reconhecer o mistério na sua vida e ao mesmo tempo descobrir os pontos positivos que os outros têm. Essa cegueira faz com que ele perca objetividade diante da sua própria história, a culpa dos seus defeitos sempre serão dos outros, não será capaz de submeter-se à verdade, de valorizar o amor e a amizade. Por isso, o soberbo tentará tirar o lugar de Deus, ignorar seus companheiros e seus lábios não dirão nem sequer uma palavra veraz.

[Tradução Thácio Siqueira]

O segredo da esperança

Ela por meio do amor renova a fé

Na floresta das possibilidades, muitos pássaros passavam os dias a cantarolar as alegrias de viverem juntos. Uma vida em comunidade era motivo de festa permanente. O Canário da Alegria, todas as manhãs, acordava bem cedinho para anunciar um novo tempo que iria começar!

– Bom dia, meus amigos! É hora de acordar! O sol já despontou e temos muitos motivos para nos alegrar hoje!

Em pouco tempo, todos os pássaros estavam reunidos para, juntos, tomarem o café da manhã.  A Pombinha da Paz sempre chegava trazendo a todos a serenidade que os unia cada vez mais. Sempre tinha uma palavra que devolvia a paz aos corações atribulados.

Contudo, naquela manhã, faltava um pássaro em particular: A Águia da Fé, que sempre voava pelas alturas, não apareceu. Preocupado, o Bem-te-vi da Solidariedade saiu à sua procura. Voou muito até que conseguiu localizá-la, sozinha, em uma árvore afastada da floresta.

– O que houve, minha amiga? Estamos preocupados com você. Todos estavam reunidos para o café da manhã e notamos a sua ausência. Como podemos estar alegres e sermos solidários se nos falta a Fé ao nosso lado? Sem você a Paz se torna tempestade!

– Pois é, meu amigo solidário… Ontem à noite, quando voltava para casa, soube que minha mãe, a Águia da Ternura, não está bem. Disseram-me que ela está muito doente, e eu, sinceramente, não sei o que fazer.

Pensativo, o Bem-te-vi da Solidariedade saiu e foi conversar com a Coruja da Sabedoria.

– Minha amiga da Sabedoria, o que podemos fazer para ajudar nossa amiga Águia da Fé. Ela está muito triste e não sei como ajudá-la.

Imediatamente, a Coruja da Sabedoria reuniu todos os pássaros da Floresta dos Carismas. E, diante de todos, explicou o ocorrido.

– Diante desta situação difícil, só há uma solução!

– E qual seria, Coruja da Sabedoria?

– Precisamos encontrar um Beija-Flor que se encontra na Floresta das Decepções.

Assustados, os pássaros se entreolharam, pois a Floresta das Decepções era extremamente perigosa. Muitos pássaros já haviam se perdido nela. Quem seria louco de ir até lá?

– Eu vou! Se for preciso dar a minha vida para salvar a vida da Águia da Fé, eu irei.

E foi assim que o Pardal do Amor partiu em busca do Beija-Flor que se encontrava na Floresta das Decepções.

Depois de muitos dias, o Pardal voltava com o Beija-Flor. Imediatamente, foram ao encontro da Águia. Olhando para ela, o Beija-Flor disse:

– Minha amiga, não fique com medo, pois a Fé que traz em si é muito maior que as tristezas da vida. Sua mãe ficará bem. Com o Amor, a Paz, a Solidariedade, a Alegria, seus amigos que sempre estão junto de você, irá enfrentar as dificuldades da vida.

Olhando profundamente nos olhos do Beija-Flor, a Águia da Fé disse:

– Obrigada, meu amigo. Você despertou em mim um sentimento que eu não conhecia. Você é muito sábio, apenas a sua cor é um pouco estranha! Nunca vi um pássaro verde. Por falar nisso, qual o seu nome Beija-Flor?

– Meu nome é Esperança. Cheguei até você por meio do Amor para que a sua Fé pudesse ser renovada e, assim, pudesse devolver à Ternura, as Alegrias das Possibilidades de uma Paz infinita.

Padre Flávio Sobreiro
Bacharel em Filosofia pela PUCCAMP. Teólogo pela Faculdade Católica de Pouso Alegre – MG. Vigário Paroquial da Paróquia Nossa Senhora do Carmo (Cambuí-MG). Padre da Arquidiocese de Pouso Alegre – MG.

Vocação é fruto do bom testemunho dos consagrados

Sábado, 15 de dezembro de 2012, André Luiz / Da Redação

“As vocações sacerdotais e religiosas nascem da experiência do encontro pessoal com Cristo, do diálogo sincero e familiar com Ele”, diz o Papa

O Vaticano publicou neste sábado, 15, a mensagem do Papa Bento XVI para o 50º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que será celebrado no 4º Domingo de Páscoa, em 21 de abril de 2013. Na mensagem, o Santo Padre reflete o tema: “Vocações, sinal de esperança fundada na fé” e explica que a esperança e a fé estão unidas a uma resposta eficaz ao chamado de Cristo.

“Este itinerário, que torna uma pessoa capaz de acolher a chamada de Deus, é possível no âmbito de comunidades cristãs que vivem uma intensa atmosfera de fé, um generoso testemunho de adesão ao Evangelho.”

Bento XVI lembra que Cristo continua passando no dia-a-dia das pessoas chamando-as ao Seu seguimento e, que a resposta à vocação passa pela renúncia de si mesmo.

“Para acolher este convite, é preciso deixar de escolher por si mesmo o próprio caminho. Segui-Lo significa entranhar a própria vontade na vontade de Jesus, dar-Lhe verdadeiramente a precedência”

O papa ressaltou que a resposta à vocação sacerdotal ou à vida consagrada é um dos frutos mais maduros que a comunidade cristã pode oferecer e está ligado ao testemunho dos presbíteros e religiosos.

Por fim, o Pontífice dirigiu-se aos jovens, encorajando-os a responderem com generosidade aos apelos de Cristo, para uma vida totalmente entregue a Ele e aos irmãos.

“Amados jovens, não tenhais medo de O seguir e de percorrer os caminhos exigentes e corajosos da caridade e do compromisso generoso. Sereis felizes por servir, sereis testemunhas daquela alegria que o mundo não pode dar, sereis chamas vivas de um amor infinito e eterno, aprendereis a ‘dar a razão da vossa esperança’ (1 Ped 3,15).”

 

Mensagem do Papa para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações 2013
Rádio Vaticano

Amados irmãos e irmãs!

No quinquagésimo Dia Mundial de Oração pelas Vocações que será celebrado no IV Domingo de Páscoa, 21 de Abril de 2013, desejo convidar-vos a refletir sobre o tema «As vocações sinal da esperança fundada na fé», que bem se integra no contexto do Ano da Fé e no cinquentenário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II. Decorria o período da Assembleia conciliar quando o Servo de Deus Paulo VI instituiu este Dia de unânime invocação a Deus Pai para que continue a enviar operários para a sua Igreja (cf. Mt 9,38). «O problema do número suficiente de sacerdotes – sublinhava então o Sumo Pontífice – interpela todos os fiéis, não só porque disso depende o futuro da sociedade cristã, mas também porque este problema é o indicador concreto e inexorável da vitalidade de fé e amor de cada comunidade paroquial e diocesana, e o testemunho da saúde moral das famílias cristãs. Onde desabrocham numerosas as vocações para o estado eclesiástico e religioso, vive-se generosamente segundo o Evangelho» (Paulo VI, Radiomensagem, 11 de Abril de 1964).

Nestas cinco décadas, as várias comunidades eclesiais dispersas pelo mundo inteiro têm-se espiritualmente unido todos os anos, no IV Domingo de Páscoa, para implorar de Deus o dom de santas vocações e propor de novo à reflexão de todos a urgência da resposta à chamada divina. Na realidade, este significativo encontro anual tem favorecido fortemente o empenho por se consolidar sempre mais, no centro da espiritualidade, da ação pastoral e da oração dos fiéis, a importância das vocações para o sacerdócio e a vida consagrada.

A esperança é expectativa de algo de positivo para o futuro, mas que deve ao mesmo tempo sustentar o nosso presente, marcado frequentemente por dissabores e insucessos. Onde está fundada a nossa esperança? Olhando a história do povo de Israel narrada no Antigo Testamento, vemos aparecer constantemente, mesmo nos momentos de maior dificuldade como o exílio, um elemento que os profetas de modo particular não cessam de recordar: a memória das promessas feitas por Deus aos Patriarcas; memória essa que requer a imitação do comportamento exemplar de Abraão, o qual – como sublinha o Apóstolo Paulo – «foi com uma esperança, para além do que se podia esperar, que ele acreditou e assim se tornou pai de muitos povos, conforme o que tinha sido dito: Assim será a tua descendência» (Rm 4,18). Então, uma verdade consoladora e instrutiva que emerge de toda a história da salvação é a fidelidade de Deus à aliança, com a qual Se comprometeu e que renovou sempre que o homem a rompeu pela infidelidade, pelo pecado, desde o tempo do dilúvio (cf. Gn 8,21-22) até ao êxodo e ao caminho no deserto (cf. Dt 9,7); fidelidade de Deus que foi até ao ponto de selar a nova e eterna aliança com o homem por meio do sangue de seu Filho, morto e ressuscitado para a nossa salvação.

Em todos os momentos, sobretudo nos mais difíceis, é sempre a fidelidade do Senhor – verdadeira força motriz da história da salvação – que faz vibrar os corações dos homens e mulheres e os confirma na esperança de chegar um dia à «Terra Prometida». O fundamento seguro de toda a esperança está aqui: Deus nunca nos deixa sozinhos e permanece fiel à palavra dada. Por este motivo, em toda a situação, seja ela feliz ou desfavorável, podemos manter uma esperança firme, rezando com o salmista: «Só em Deus descansa a minha alma, d’Ele vem a minha esperança» (Sl 62/61,6). Portanto ter esperança equivale a confiar no Deus fiel, que mantém as promessas da aliança. Por isso, a fé e a esperança estão intimamente unidas. A esperança «é, de fato, uma palavra central da fé bíblica, a ponto de, em várias passagens, ser possível intercambiar os termos “fé” e “esperança”. Assim, a Carta aos Hebreus liga estreitamente a “plenitude da fé” (10,22) com a “imutável profissão da esperança” (10,23). De igual modo, quando a Primeira Carta de Pedro exorta os cristãos a estarem sempre prontos a responder a propósito do logos – o sentido e a razão – da sua esperança (3,15), “esperança” equivale a “fé”» (Enc. Spe salvi, 2).

Amados irmãos e irmãs, em que consiste a fidelidade de Deus à qual podemos confiar-nos com firme esperança? Consiste no seu amor. Ele, que é Pai, derrama o seu amor no mais íntimo de nós mesmos, através do Espírito Santo (cf. Rm 5,5). E é precisamente este amor, manifestado plenamente em Jesus Cristo, que interpela a nossa existência, pedindo a cada qual uma resposta a propósito do que quer fazer da sua vida e quanto está disposto a apostar para a realizar plenamente. Por vezes o amor de Deus segue percursos surpreendentes, mas sempre alcança a quantos se deixam encontrar. Assim a esperança nutre-se desta certeza: «Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele» (1 Jo 4,16). E este amor exigente e profundo, que vai além da superficialidade, infunde-nos coragem, dá-nos esperança no caminho da vida e no futuro, faz-nos ter confiança em nós mesmos, na história e nos outros. Apraz-me repetir, de modo particular a vós jovens, estas palavras: «Que seria da vossa vida, sem este amor? Deus cuida do homem desde a criação até ao fim dos tempos, quando completar o seu desígnio de salvação. No Senhor ressuscitado, temos a certeza da nossa esperança» (Discurso aos jovens da diocese de São Marino-Montefeltro, 19 de Junho de 2011).

Também hoje, como aconteceu durante a sua vida terrena, Jesus, o Ressuscitado, passa pelas estradas da nossa vida e vê-nos imersos nas nossas atividades, com os nossos desejos e necessidades. É precisamente no nosso dia-a-dia que Ele continua a dirigir-nos a sua palavra; chama-nos a realizar a nossa vida com Ele, o único capaz de saciar a nossa sede de esperança. Vivente na comunidade de discípulos que é a Igreja, Ele chama também hoje a segui-Lo. E este apelo pode chegar em qualquer momento. Jesus repete também hoje: «Vem e segue-Me!» (Mc 10,21). Para acolher este convite, é preciso deixar de escolher por si mesmo o próprio caminho. Segui-Lo significa entranhar a própria vontade na vontade de Jesus, dar-Lhe verdadeiramente a precedência, antepô-Lo a tudo o que faz parte da nossa vida: família, trabalho, interesses pessoais, nós mesmos. Significa entregar-Lhe a própria vida, viver com Ele em profunda intimidade, por Ele entrar em comunhão com o Pai no Espírito Santo e, consequentemente, com os irmãos e irmãs. Esta comunhão de vida com Jesus é o «lugar» privilegiado onde se pode experimentar a esperança e onde a vida será livre e plena.

As vocações sacerdotais e religiosas nascem da experiência do encontro pessoal com Cristo, do diálogo sincero e familiar com Ele, para entrar na sua vontade. Por isso, é necessário crescer na experiência de fé, entendida como profunda relação com Jesus, como escuta interior da sua voz que ressoa dentro de nós. Este itinerário, que torna uma pessoa capaz de acolher a chamada de Deus, é possível no âmbito de comunidades cristãs que vivem uma intensa atmosfera de fé, um generoso testemunho de adesão ao Evangelho, uma paixão missionária que induza a pessoa à doação total de si mesma pelo Reino de Deus, alimentada pela recepção dos sacramentos, especialmente a Eucaristia, e por uma fervorosa vida de oração. Esta «deve, por um lado, ser muito pessoal, um confronto do meu eu com Deus, com o Deus vivo; mas, por outro, deve ser incessantemente guiada e iluminada pelas grandes orações da Igreja e dos santos, pela oração litúrgica, na qual o Senhor nos ensina continuamente a rezar de modo justo» (Enc. Spe salvi, 34).

A oração constante e profunda faz crescer a fé da comunidade cristã, na certeza sempre renovada de que Deus nunca abandona o seu povo e que o sustenta suscitando vocações especiais, para o sacerdócio e para a vida consagrada, que sejam sinais de esperança para o mundo. Na realidade, os presbíteros e os religiosos são chamados a entregar-se de forma incondicional ao Povo de Deus, num serviço de amor ao Evangelho e à Igreja, num serviço àquela esperança firme que só a abertura ao horizonte de Deus pode gerar.

Assim eles, com o testemunho da sua fé e com o seu fervor apostólico, podem transmitir, em particular às novas gerações, o ardente desejo de responder generosa e prontamente a Cristo, que chama a segui-Lo mais de perto. Quando um discípulo de Jesus acolhe a chamada divina para se dedicar ao ministério sacerdotal ou à vida consagrada, manifesta-se um dos frutos mais maduros da comunidade cristã, que ajuda a olhar com particular confiança e esperança para o futuro da Igreja e o seu empenho de evangelização. Na verdade, sempre terá necessidade de novos trabalhadores para a pregação do Evangelho, a celebração da Eucaristia, o sacramento da Reconciliação.

Por isso, oxalá não faltem sacerdotes zelosos que saibam estar ao lado dos jovens como «companheiros de viagem», para os ajudarem, no caminho por vezes tortuoso e obscuro da vida, a reconhecer Cristo, Caminho, Verdade e Vida (cf. Jo 14,6); para lhes proporem com coragem evangélica a beleza do serviço a Deus, à comunidade cristã, aos irmãos. Não faltem sacerdotes que mostrem a fecundidade de um compromisso entusiasmante, que confere um sentido de plenitude à própria existência, porque fundado sobre a fé n’Aquele que nos amou primeiro (cf. 1 Jo 4,19).

Do mesmo modo, desejo que os jovens, no meio de tantas propostas superficiais e efêmeras, saibam cultivar a atração pelos valores, as metas altas, as opções radicais por um serviço aos outros seguindo os passos de Jesus. Amados jovens, não tenhais medo de O seguir e de percorrer os caminhos exigentes e corajosos da caridade e do compromisso generoso. Sereis felizes por servir, sereis testemunhas daquela alegria que o mundo não pode dar, sereis chamas vivas de um amor infinito e eterno, aprendereis a «dar a razão da vossa esperança» (1 Ped 3,15).

Vaticano, 6 de Outubro 2012.

O nosso caminho de fé é ligado ao de Maria…

… “Mãe de Deus” e nossa Mãe

Papa Francisco na Missa, em São Pedro

A iniciar o novo ano, a Igreja latina celebra desde tempos imemorais a grande solenidade de Santa Maria Mãe de Deus. Seguindo a tradição, o Papa Francisco preside, na basílica de São Pedro, à celebração eucarística, a partir das 10 horas, que pode ser seguida em directo, neste site, também com comentários em português. A missa é com celebrada por grande número de padres e um certo número de bispos e cardeais presentes em Roma. Este primeiro de Janeiro é também o quadragésimo sétimo Dia Mundial da Paz, instituído pelo Papa Paulo VI. Tema proposto desta vez: Fraternidade, fundamento e caminho para a paz.

A homilia da Missa foi toda ela centrada na figura de Maria, Mãe de Deus, partindo das leituras proclamadas, a começar pela primeira, do Livro dos Números, com a bênção que Deus sugerira a Moisés, para que fosse invocada sobre todo o povo. “É significativo ouvir estas palavras de bênção no início de um novo ano – observou o Papa:

“São palavras que dão força, coragem e esperança; não uma esperança ilusória, assente em frágeis promessas humanas, nem uma esperança ingénua que imagina melhor o futuro, simplesmente porque é futuro.”

É uma esperança que tem a sua razão de ser precisamente na bênção de Deus; uma bênção que contém… os votos da Igreja para cada um de nós, repletos da protecção amorosa do Senhor, da sua ajuda providente. Ora – prosseguiu Papa Francisco – os votos contidos nesta bênção realizaram-se plenamente numa mulher, Maria, enquanto destinada a tornar-Se a Mãe de Deus, e realizaram-se n’Ela antes de qualquer outra criatura.

“Mãe de Deus! Este é o título principal e essencial de Nossa Senhora. Trata-se duma qualidade, duma função que a fé do povo cristão, na sua terna e genuína devoção à Mãe celeste, desde sempre Lhe reconheceu.”

Papa Francisco evocou, a este propósito, aquele momento importante da história da Igreja Antiga que foi o Concílio de Éfeso, no qual se definiu com autoridade a maternidade divina da Virgem. Esta verdade da maternidade divina de Maria – recordou – ecoou em Roma, onde, pouco depois, se construiu a Basílica de Santa Maria Maior, o primeiro santuário mariano de Roma e de todo o Ocidente, no qual se venera a imagem da Mãe de Deus – a Theotokos – sob o título de Salus populi romani. Diz-se que os habitantes de Éfeso, durante o Concílio, se teriam congregado aos lados da porta da basílica onde estavam reunidos os Bispos e gritavam: «Mãe de Deus!» Os fiéis, pedindo que se definisse oficialmente este título de Nossa Senhora, demonstravam reconhecer a sua maternidade divina. “É a atitude espontânea e sincera dos filhos, que conhecem bem a sua Mãe, porque A amam com imensa ternura.”

Mas é também o exercício do “sensus fidei” unânime do santo e fiel povo de Deus, que , na unidade, nunca se engana – acrescentou o Papa, logo prosseguindo:

“Desde sempre Maria está presente no coração, na devoção e sobretudo no caminho de fé do povo cristão.”

O nosso itinerário de fé é igual ao de Maria; por isso, A sentimos particularmente próxima de nós! – sublinhou o Papa. O nosso caminho de fé está indissoluvelmente ligado a Maria, desde o momento em que Jesus, quando estava para morrer na cruz, no-La deu como Mãe, dizendo: «Eis a tua mãe!»

“Estas palavras têm o valor dum testamento, e dão ao mundo uma Mãe. Desde então, a Mãe de Deus tornou-Se também nossa Mãe! Na hora em que a fé dos discípulos se ia quebrantando com tantas dificuldades e incertezas, Jesus confiava-lhes Aquela que fora a primeira a acreditar e cuja fé não desfaleceria jamais. E a «mulher» torna-Se nossa Mãe, no momento em que perde o Filho divino. O seu coração ferido dilata-se para dar espaço a todos os homens, bons e maus; e ama-os como os amava Jesus.”

A Mãe do Redentor caminha diante de nós e sempre nos confirma na fé, na vocação e na missão. Com o seu exemplo de humildade e disponibilidade à vontade de Deus, ajuda-nos a traduzir a nossa fé num anúncio, jubiloso e sem fronteiras, do Evangelho – observou ainda o Papa Francisco, quase a concluir.

“A Ela confiamos o nosso itinerário de fé, os desejos do nosso coração, as nossas necessidades, as carências do mundo inteiro, especialmente a sua fome e sede de justiça e de paz; e invocamo-La todos juntos: Santa Mãe de Deus! Santa Mãe de Deus! Santa Mãe de Deus!”

Como habitualmente nestas celebrações papais, usaram-se diferentes línguas nas leituras e na oração dos fiéis: – um jovem chinês rezou pela paz entre os povos e nações, invocando Jesus, Príncipe da paz, para que se vençam todas as divisões, ódios e rancores; – uma mãe de família rezou, em espanhol, pelas mulheres e por todas as mães, chamadas a gerar, defender e promover a vida; – em árabe, recordou-se o ano novo, para que Jesus eduque todos a viver activamente na história, sempre orientados para a Vida eterna; – finalmente, em português, rezou-se por toda a assembleia presente…

Eis o texto integral da homilia:

Amados Irmãos e Irmãs, A primeira leitura propôs-nos a antiga súplica de bênção que Deus sugerira a Moisés, para que a ensinasse a Aarão e seus filhos: «O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor dirija para ti o seu olhar e te conceda a paz» (Nm 6, 24-26). É muito significativo ouvir estas palavras de bênção no início dum novo ano: acompanharão o nosso caminho neste tempo que se abre diante de nós. São palavras que dão força, coragem e esperança; não uma esperança ilusória, assente em frágeis promessas humanas, nem uma esperança ingénua que imagina melhor o futuro, simplesmente porque é futuro. Esta esperança tem a sua razão de ser precisamente na bênção de Deus; uma bênção que contém os votos maiores, os votos da Igreja para cada um de nós, repletos da protecção amorosa do Senhor, da sua ajuda providente.

Os votos contidos nesta bênção realizaram-se plenamente numa mulher, Maria, enquanto destinada a tornar-Se a Mãe de Deus, e realizaram-se n’Ela antes de qualquer outra criatura.

Mãe de Deus! Este é o título principal e essencial de Nossa Senhora. Trata-se duma qualidade, duma função que a fé do povo cristão, na sua terna e genuína devoção à Mãe celeste, desde sempre Lhe reconheceu. Lembremos aquele momento importante da história da Igreja Antiga que foi o Concílio de Éfeso, no qual se definiu com autoridade a maternidade divina da Virgem. Esta verdade da maternidade divina de Maria ecoou em Roma, onde, pouco depois, se construiu a Basílica de Santa Maria Maior, o primeiro santuário mariano de Roma e de todo o Ocidente, no qual se venera a imagem da Mãe de Deus – a Theotokos – sob o título de Salus populi romani. Diz-se que os habitantes de Éfeso, durante o Concílio, se teriam congregado aos lados da porta da basílica onde estavam reunidos os Bispos e gritavam: «Mãe de Deus!» Os fiéis, pedindo que se definisse oficialmente este título de Nossa Senhora, demonstravam reconhecer a sua maternidade divina. É a atitude espontânea e sincera dos filhos, que conhecem bem a sua Mãe, porque A amam com imensa ternura. Mais ainda: é o sensus fidei do santo fiel Povo de Deus, que nunca – na sua unidade – nunca se engana.

Desde sempre Maria está presente no coração, na devoção e sobretudo no caminho de fé do povo cristão. «A Igreja caminha no tempo (…). Mas, nesta caminhada, a Igreja procede seguindo as pegadas do itinerário percorrido pela Virgem Maria» (JOÃO PAULO II, Enc. Redemptoris Mater, 2). O nosso itinerário de fé é igual ao de Maria; por isso, A sentimos particularmente próxima de nós! No que diz respeito à fé, que é o fulcro da vida cristã, a Mãe de Deus partilhou a nossa condição, teve de caminhar pelas mesmas estradas, às vezes difíceis e obscuras, trilhadas por nós, teve de avançar pelo «caminho da fé» (CONC. ECUM. VAT. II, Const. Lumen gentium, 58).

O nosso caminho de fé está indissoluvelmente ligado a Maria, desde o momento em que Jesus, quando estava para morrer na cruz, no-La deu como Mãe, dizendo: «Eis a tua mãe!» (Jo 19, 27). Estas palavras têm o valor dum testamento, e dão ao mundo uma Mãe. Desde então, a Mãe de Deus tornou-Se também nossa Mãe! Na hora em que a fé dos discípulos se ia quebrantando com tantas dificuldades e incertezas, Jesus confiava-lhes Aquela que fora a primeira a acreditar e cuja fé não desfaleceria jamais. E a «mulher» torna-Se nossa Mãe, no momento em que perde o Filho divino. O seu coração ferido dilata-se para dar espaço a todos os homens, bons e maus; e ama-os como os amava Jesus. A mulher que, nas bodas de Caná da Galileia, dera a sua colaboração de fé para a manifestação das maravilhas de Deus na mundo, no Calvário mantém acesa a chama da fé na ressurreição do Filho, e comunica-a aos outros com carinho maternal. Assim Maria torna-Se fonte de esperança e de alegria verdadeira.

A Mãe do Redentor caminha diante de nós e sempre nos confirma na fé, na vocação e na missão. Com o seu exemplo de humildade e disponibilidade à vontade de Deus, ajuda-nos a traduzir a nossa fé num anúncio, jubiloso e sem fronteiras, do Evangelho. Deste modo, a nossa missão será fecunda, porque está modelada pela maternidade de Maria. A Ela confiamos o nosso itinerário de fé, os desejos do nosso coração, as nossas necessidades, as carências do mundo inteiro, especialmente a sua fome e sede de justiça e de paz; e invocamo-La todos juntos: Santa Mãe de Deus!

A oração na vida do 1º mártir cristão

Quarta-feira, 02 de maio de 2012 / Mirticeli Medeiros / Da Redação

‘O testemunho de São Estevão nos oferece algumas indicações para a nossa oração e para a nossa vida’, disse Bento XVI  

O Papa Bento XVI deu continuidade nesta quarta-feira, à série de catequeses sobre a oração nos Atos dos Apóstolos. Desta vez, o Santo Padre concentrou seu discurso sobre a oração de Santo Estevão, o primeiro mártir cristão.

“No momento do seu martírio, narrado nos atos dos apóstolos, se manifesta, mais uma vez, a fecunda relação entre a Palavra de Deus e a oração”, destacou o Santo Padre.

Bento XVI explicou o conteúdo do discurso proferido por Estevão pouco antes do seu martírio e também salientou que a oração feita pelo mártir estava em profunda ligação com aquela proferida por Jesus no alto da cruz.

“A vida e o discurso de Estevão de repente se interrompem com o apedrejamento, mas exatamente o seu martírio é o cumprimento da sua vida e da sua mensagem: ele se torna uma coisa só com Cristo”, disse.

Ao final da catequese, o Pontífice apresentou a vida de Estevão como modelo a ser seguido por todas as pessoas que desejam estreitar os laços de comunhão com Deus.

“Queridos irmãos e irmãs, o testemunho de São Estevão nos oferece algumas indicações para a nossa oração e para a nossa vida. Podemos nos perguntar: de onde este primeiro mártir cristão trouxe forças para enfrentar os seus perseguidores e chegar à doação de si mesmo? A resposta é simples: do seu relacionamento com Deus”, concluiu.

 

CATEQUESE de Bento XVI – Oração de Estevão

Queridos irmãos e irmãs,

Nas últimas catequeses vimos como, na oração pessoal a comunitária, a leitura e a meditação da Sagrada Escritura abram à escuta de Deus que nos fala e infundem luzes para entender o presente. Hoje gostaria de falar do testemunho e da oração do primeiro mártir da Igreja, Santo Estevão, um dos sete escolhidos para o serviço da caridade junto aos necessitados. No momento do seu martírio, narrado nos atos dos apóstolos, se manifesta, mais uma vez, a fecunda relação entre a Palavra de Deus e a oração.

Estevão foi conduzido ao tribunal, diante do Sinédrio, onde foi acusado de ter declarado que “Jesus destruiria este lugar, (o templo), e mudaria os costumes que Moisés havia transmitido” (At 6,14). Durante a sua vida pública, Jesus havia efetivamente preanunciado a destruição do templo de Jerusalém: “Destruais este templo e em três dias eu o farei ressurgir” (Jo 2,19). Todavia, como destaca o evangelista João, “ele falava do templo do seu corpo. Quando, depois, ressuscitou dos mortos, os seus discípulos se recordaram que havia dito aquilo, e acreditaram nas Escrituras e na palavra dita por Jesus” (Jo 2, 21-22).

O discurso de Estevão diante do tribunal, o mais longo dos atos dos apóstolos, se desenvolve exatamente a partir dessa profecia de Jesus, o qual é o novo templo, inaugura o novo culto, e substitui, com a oferta que faz de si mesmo sobre a cruz, os sacrifícios antigos. Estevão quer demonstrar como seja infundada a acusação que lhe foi dirigida de mudar a lei de Moisés e ilustra a sua visão da história da salvação, da aliança entre Deus e o homem. Ele relê então toda a narração bíblica, itinerário contido na Sagrada Escritura, para mostrar que isso conduz ao lugar da presença definitiva de Deus, que é Jesus Cristo, em particular a sua paixão, morte e ressurreição. Nesta prospectiva, Estevão lê também o seu ser discípulo de Jesus, seguindo-o até o martírio. A meditação sobre a Sagrada Escritura lhe permite compreender a sua missão, a sua vida, o seu presente. Nisto ele é guiado pela luz do Espírito Santo, pelo seu relacionamento íntimo com o Senhor, tanto que os membros do Sinédrio viram o seu rosto “como de um anjo” (At 6,15). Tal sinal de assistência divina, faz alusão ao rosto irradiante de Moisés descendo do Monte Sinai após ter encontrado Deus. (Ex 34,29-35; II Cor 3,7-8).

No seu discurso, Estevão parte do chamado de Abraão, peregrino em direção à terra indicada por Deus e que a teve como posse somente em nível de promessa; passa depois a José, vendido pelos irmãos, mas assistido e libertado por Deus, para chegar a Moisés, que se torna instrumento de Deus para libertar o seu povo, mas encontra também e mais vezes a rejeição da sua gente. Nestes eventos narrados pela Sagrada Escritura, diante da qual Estevão demonstra estar em religiosa escuta, emerge sempre Deus, que não se cansa de ir ao encontro do homem apesar de encontrar frequentemente uma obstinada oposição. E isso no passado, no presente e no futuro.

Portanto, em todo o antigo testamento, ele vê a prefiguração da situação vivida pelo próprio Jesus, o Filho de Deus que se fez carne,  que –  como os antigos pais – encontra obstáculos, rejeição, morte. Estevão se refere ainda a Josué, a Davi e a Salomão, que estão relacionados à construção do templo de Jerusalém, e conclui com as palavras do profeta Isaías (66,1-2): “O céu é o meu trono e a terra escabelo dos meus pés. Como casa poderá construir-me, diz o Senhor, a qual será lugar do meu repouso? Não é porventura a minha mão que criou todas estas coisas?” (At 7,49-50). Na sua meditação sobre o agir de Deus na história da salvação, evidenciando a perene tentação de rejeitar Deus e a sua ação, ele afirma que Jesus é o Justo anunciado pelos profetas; nEle Deus mesmo se fez presente em modo único e definitivo: Jesus é o “lugar” do verdadeiro culto. Estevão não nega a importância do templo por um certo tempo, mas sublinha que “Deus não habita em construções feitas pela mão do homem” (At 7,48). O novo e verdadeiro templo no qual Deus habita é seu Filho, que assumiu a carne humana, é a humanidade de Cristo, o Ressuscitado que recolhe os povos e os une no Sacramento do Seu Corpo e do seu Sangue. A expressão a respeito do templo “não construído por mãos de homens”, se encotnra também na teologia de São Paulo e na Carta aos Hebreus: o corpo de Jesus, o qual Ele assumiu para sofrer ele mesmo como vítima do sacrifício para expiar os pecados, é o novo templo de Deus, o lugar da presença de Deus vivente; nEle Deus e homem, Deus e o mundo estão realmente em contato: Jesus toma sobre si todo o pecado da humanidade para levá-lo no amor de Deus e para queimá-lo neste amor. Aproximar-se da cruz, entrar em comunhão com Cristo, quer dizer entrar nesta transformação. E isto é entrar em contato com Deus, entrar no verdadeiro templo.

A vida e o discurso de Estevão de repente se interrompem com o apedrejamento, mas exatamente o seu martírio é o cumprimento da sua vida e da sua mensagem: ele se torna uma coisa só com Cristo. Assim a sua meditação sobre o agir de Deus na história, sobre a Palavra Divina que em Jesus encontrou seu pleno cumprimento, se torna uma participação à mesma oração da Cruz. Antes de morrer, de fato exclama: “Senhor Jesus, recebas o meu espírito” (At 7,59), apropriando-se das palavras do Salmo 31 v.6 e revivendo a última expressão de Jesus no Calvário: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Luc 23,46); e enfim, como Jesus, grita em alto e bom som diante daqueles que o estavam apedrejando: “Senhor, perdoa-lhes os pecados” (At 7,60). Notamos que, se de um lado a oração de Estevão retoma aquela de Jesus, diferente é o destinatário, porque a invocação é dirigida ao próprio Senhor, isto é, a Jesus que ele contempla glorificado à direita do Pai: “Eis, contemplo os céus abertos e o Filho do homem que está à direita de Deus” (v.55).

Queridos irmãos e irmãs, o testemunho de São Estevão nos oferece algumas indicações para a nossa oração e para a nossa vida. Podemos nos perguntar: de onde este primeiro mártir cristão trouxe forças para enfrentar os seus perseguidores e chegar à doação de si mesmo? A resposta é simples: do seu relacionamento com Deus, da sua comunhão com Cristo, da meditação sobre a história da salvação, do ver o agir de Deus, que em Jesus Cristo chegou ao cume. Também a nossa oração deve ser sempre nutrida pela escuta da Palavra de Deus, na comunhão com Jesus e sua Igreja.

Um segundo elemento: São Estevão vê  preanunciada, na história do amor entre Deus e o homem, a figura e a missão de Jesus. Ele – o Filho de Deus – é o templo “não feito pela mão do homem” no qual a presença de Deus Pai se fez próxima ao ponto de entrar na nossa carne humana para levar-nos a Deus, para abrir-nos as portas do céu. A nossa oração, então, deve ser a contemplação de Jesus à direita de Deus, de Jesus como Senhor da nossa, da minha existência cotidiana. Nele, sob a guia do Espírito Santo, podemos também nos voltarmos a Deus, realizar um contato real com Deus com a confiança e o abandono dos filhos que se dirigem a um Pai que os ama em modo infinito. Obrigado.

A ternura de Deus

Quarta-feira, 24 de dezembro de 2014, Jéssica Marçal / Da Redação

Francisco convidou fiéis a refletirem sobre o modo como acolhem a ternura de Deus, que aceita a miséria humana e se enamora por sua pequenez

Deixar-se acolher pela ternura de Deus e, assim, saber enfrentar a vida com bondade e mansidão. Essa foi a mensagem deixada pelo Papa Francisco em sua homilia na Missa do Natal do Senhor, celebrada nesta quarta-feira, 24, na Basílica Vaticana. O Santo Padre se concentrou na luz que Jesus é para o mundo e que livra o homem de toda escuridão.

“A presença do Senhor no meio do seu povo cancela o peso da derrota e a tristeza da escravidão e restabelece o júbilo e a alegria”, disse o Papa, recordando que, mesmo com violências, guerras, ódio e prepotência ao longo dos séculos, Deus soube esperar, pois é Pai e sua paciente fidelidade é mais forte que as trevas e a corrupção.

“Nisto consiste o anúncio da noite de Natal. Deus não conhece a explosão de ira nem a impaciência; permanece lá, como o pai da parábola do filho pródigo, à espera de vislumbrar ao longe o regresso do filho perdido”.

Retomando a cena do nascimento de Jesus, Francisco explicou que a mensagem que todos esperavam na época era a ternura de Deus, que aceita a miséria humana e se enamora por sua pequenez. Dessa forma, essa noite de Natal é um convite para que cada um reflita sobre o modo como acolhe a ternura de Deus em sua vida.

“Deixo-me alcançar por Ele, deixo-me abraçar, ou impeço-Lhe de aproximar-Se? ‘Oh não, eu procuro o Senhor!’– poderíamos replicar. Porém a coisa mais importante não é procurá-Lo, mas deixar que seja Ele a encontrar-me e cobrir-me amorosamente das suas carícias. Esta é a pergunta que o Menino nos coloca com a sua mera presença: permito a Deus que me queira bem?”.

Francisco destacou que é grande a necessidade que o mundo tem hoje de ternura e a resposta do cristão não pode ser diferente daquela que Deus dá à pequenez do homem. “A vida deve ser enfrentada com bondade, com mansidão. Quando nos damos conta de que Deus Se enamorou da nossa pequenez, de que Ele mesmo Se faz pequeno para melhor nos encontrar, não podemos deixar de Lhe abrir o nosso coração”.

Na conclusão da homilia, o Papa convidou os fiéis a contemplarem o presépio. Ele lembrou que quem viu a “grande luz” foram pessoas simples, dispostas a acolher o dom de Deus, e não os arrogantes. “Olhemos o presépio e façamos este pedido à Virgem Mãe: ‘Ó Maria, mostrai-nos Jesus!’”.

 

HOMILIA

«O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles»(Is 9,1). «Um anjo do Senhor apareceu [aos pastores], e a glória do Senhor refulgiu em volta deles» (Lc 2,9). É assim que a Liturgia desta santa noite de Natal nos apresenta o nascimento do Salvador: como luz que penetra e dissolve a mais densa escuridão. A presença do Senhor no meio do seu povo cancela o peso da derrota e a tristeza da escravidão e restabelece o júbilo e a alegria.

Também nós, nesta noite abençoada, viemos à casa de Deus atravessando as trevas que envolvem a terra, mas guiados pela chama da fé que ilumina os nossos passos e animados pela esperança de encontrar a «grande luz». Abrindo o nosso coração, temos, também nós, a possibilidade de contemplar o milagre daquele menino-sol que, surgindo do alto, ilumina o horizonte.

A origem das trevas que envolvem o mundo perde-se na noite dos tempos. Pensemos no obscuro momento em que foi cometido o primeiro crime da humanidade, quando a mão de Caim, cego pela inveja, feriu de morte o irmão Abel (cf. Gn 4, 8). Assim, o curso dos séculos tem sido marcado por violências, guerras, ódio, prepotência. Mas Deus, que havia posto suas expectativas no homem feito à sua imagem e semelhança, esperava. O tempo de espera fez-se tão longo que a certo momento, quiçá, deveria renunciar; mas Ele não podia renunciar, não podia negar-Se a Si mesmo (cf. 2 Tm 2, 13). Por isso, continuou a esperar pacientemente face à corrupção de homens e povos. A paciência de Deus. Quão difícil é entender isso, a paciência de Deus para conosco.

Ao longo do caminho da história, a luz que rasga a escuridão revela-nos que Deus é Pai e que a sua paciente fidelidade é mais forte do que as trevas e do que a corrupção. Nisto consiste o anúncio da noite de Natal. Deus não conhece a explosão de ira nem a impaciência; permanece lá, como o pai da parábola do filho pródigo, à espera de vislumbrar ao longe o regresso do filho perdido, todos os dias, com paciência, a paciência de Deus.

A profecia de Isaías anuncia a aurora duma luz imensa que rasga a escuridão. Ela nasce em Belém e é acolhida pelas mãos amorosas de Maria, pelo afeto de José, pela maravilha dos pastores. Quando os anjos anunciaram aos pastores o nascimento do Redentor, fizeram-no com estas palavras: «Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura» (Lc 2, 12). O «sinal» é a humildade de Deus levada ao extremo; é o amor com que Ele, naquela noite, assumiu a nossa fragilidade, o nosso sofrimento, as nossas angústias, os nossos desejos e as nossas limitações. A mensagem que todos esperavam, que todos procuravam nas profundezas da própria alma, mais não era que a ternura de Deus: Deus que nos fixa com olhos cheios de afeto, que aceita a nossa miséria, Deus enamorado da nossa pequenez.

Nesta noite santa, ao mesmo tempo que contemplamos o Menino Jesus recém-nascido e reclinado numa manjedoura, somos convidados a refletir. Como acolhemos a ternura de Deus? Deixo-me alcançar por Ele, deixo-me abraçar, ou impeço-Lhe de aproximar-Se? «Oh não, eu procuro o Senhor!»– poderíamos replicar. Porém a coisa mais importante não é procurá-Lo, mas deixar que seja Ele a encontrar-me e cobrir-me amorosamente das suas carícias. Esta é a pergunta que o Menino nos coloca com a sua mera presença: permito a Deus que me queira bem?

E ainda: temos a coragem de acolher, com ternura, as situações difíceis e os problemas de quem vive ao nosso lado, ou preferimos as soluções impessoais, talvez eficientes mas desprovidas do calor do Evangelho? Quão grande é a necessidade que o mundo tem hoje de ternura! A paciência de Deus, a proximidade de Deus, a ternura de Deus.

A resposta do cristão não pode ser diferente da que Deus dá à nossa pequenez. A vida deve ser enfrentada com bondade, com mansidão. Quando nos damos conta de que Deus Se enamorou da nossa pequenez, de que Ele mesmo Se faz pequeno para melhor nos encontrar, não podemos deixar de Lhe abrir o nosso coração pedindo-Lhe: «Senhor, ajudai-me a ser como Vós, concedei-me a graça da ternura nas circunstâncias mais duras da vida, dai-me a graça de me aproximar ao ver qualquer necessidade, a graça da mansidão em qualquer conflito».

Queridos irmãos e irmãs, nesta noite santa, contemplamos o presépio: nele, «o povo que andava nas trevas viu uma grande luz» (Is 9,1). Viram-na as pessoas simples, dispostas a acolher o dom de Deus. Pelo contrário, não a viram os arrogantes, os soberbos, aqueles que estabelecem as leis segundo os próprios critérios pessoais, aqueles que assumem atitudes de fechamento. Olhemos o presépio e façamos este pedido à Virgem Mãe: «Ó Maria, mostrai-nos Jesus!»

O que falar e como falar?

Certa vez um amigo me relatou os problemas com um antigo sócio num escritório de advocacia. Dizia ele que o colega o irritava profundamente quando, ao final do expediente, saía apressadamente para a academia e deixava por conta dele os assuntos pendentes, inclusive a tarefa de fechar o escritório. Com isso, ao aproximar-se o fim do dia era uma tortura imaginar o amigo se espreguiçando na poltrona enquanto dizia: “bem, agora vou pra ginástica”. Depois de muito tempo, num dia em que as coisas não haviam transcorrido muito bem, ao notar que o colega se preparava para sair, não se conteve e explodiu, dando causa a uma discussão que redundou numa inimizade difícil de ser resolvida.

Inúmeros exemplos semelhantes a esse poderíamos encontrar no relacionamento em família. Isso nos chama a atenção para um dado relevante na comunicação: precisamos dizer as coisas, porém, devemos fazê-lo no momento certo e da maneira adequada.

Por vezes, há defeitos reais na esposa, no marido ou nos filhos que causam incômodos. No entanto, não se fala oportunamente e, com isso, vai se avolumando certo rancor até que, em determinado momento, explode-se. E, quando isso acontece, na discussão, muitas vezes se dizem palavras injustas, exageradas ou ditadas pela imaginação, que não têm nenhuma eficácia no sentido de motivar o outro a vencer o defeito. Ao contrário, no calor da discussão, frequentemente dizem-se palavras que não se queria e não se deveria dizer, que magoam, deixando feridas difíceis de serem curadas.

Conheço um casal que desenvolveu o hábito de, nos momentos de descontração, talvez quando saem para jantar a sós, fazer com sinceridade a seguinte pergunta: “Nos últimos dias, há algo que eu tenha feito que lhe desagrada?”. É necessária muita humildade para ouvir a resposta. Mas é apenas questão de treino. Com o tempo, vai-se adquirindo o hábito de dizer as coisas com naturalidade, num tom ameno e positivo.

É muito importante dar um sentido positivo ao que se fala, sobretudo com os filhos. Frequentemente nos surpreendemos com frases do tipo: “eu já lhe falei mil vezes…”, “não aguento mais essa bagunça…”, “você sempre faz isso”, “você nunca se preocupa comigo”. Penso que as palavras “sempre” e “nunca” jamais deveriam ser utilizadas ao se apontar um defeito no comportamento do outro. É que elas não estimulam a melhorar e, além disso, quase sempre são injustas. Por exemplo, se a esposa se atrasa a nove dos dez compromissos que tiveram já seria injusto dizer que ela sempre chega atrasada. Talvez fosse o caso de se dizer, depois, com os ânimos serenos: “o que posso fazer para lhe ajudar a chegarmos no horário?”.

Um grande desafio é saber se colocar no lugar do outro. É que há defeitos que não temos e, quando os vemos na esposa, no marido ou nos filhos, isso no incomoda e até se chega a pensar que se faz de propósito. Por exemplo, uma esposa que é naturalmente ordenada com a casa costuma se aborrecer quando o marido deixa os objetos jogados. Após dizer uma vez e outra, ela chega a pensar que ele faz de propósito: “não é possível! Só pode ser pra me irritar que você deixar a sua carteira jogada!”. Devemos considerar, porém, que as pessoas são diferentes. Algo que nos é fácil realizar talvez seja difícil para os demais. Isso nos deve fomentar a compreensão. Não se trata de ignorar os defeitos, nem que não se deva corrigi-los, conforme o caso, mas sem asperezas, com a suavidade de quem busca, acima de tudo, o bem do próximo.

Deveríamos considerar, com frequência, que o que sai da nossa boca, os nossos gestos, o nosso modo de olhar, o tom e a intensidade da nossa voz, enfim, a maneira como nos comunicamos pode ser um fardo que imobiliza e desestimula as pessoas com quem convivemos. Ou, bem ao contrário, pode ser um alento, algo que move os demais a serem melhores. Eis aqui um grande desafio da comunicação: por meio dela podemos ser verdadeiros semeadores de paz e alegria nos nossos lares, no nosso trabalho e em todos os ambientes em que nos movemos.

Autor: Fábio Henrique Prado de Toledo é Juiz de Direito em Campinas e Especialista em Matrimônio e Educação Familiar pela Universitat Internacional de Catalunya – UIC. Endereço Eletrônico: [email protected]

Posso falar o que penso?

Há o dever de falar e há o dever de calar-se

A virtude da veracidade – dizer a verdade –, é como uma alta montanha com duas vertentes. A primeira contempla a “sinceridade”, o dever de dizer a verdade, evitando absolutamente a mentira. A segunda vertente contempla a virtude da “discrição”, concretamente, o silêncio virtuoso e “o segredo que deve ser guardado” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2469).

Há um direito à verdade e há um direito ao silêncio. Há o dever de falar e há o dever de calar-se. Assim como muitas vezes a justiça e o amor exigem que a verdade seja manifestada ao próximo, em outras ocasiões mandam guardar silêncio para resguardar a verdade.

É oportuno, para que isso fique mais claro, relembrar agora o que o Catecismo diz sobre a mentira: «Mentir é induzir em erro aquele que tem o direito de conhecer a verdade» (n. 2483).

Sublinhamos de propósito a expressão “tem o direito”, porque ela nos dá a chave desta segunda vertente. «O direito à comunicação da verdade – esclarece o Catecismo – não é incondicional. Cada um deve conformar a sua vida com o preceito evangélico do amor fraterno. Este requer, nas situações concretas, que se avalie se é conveniente ou não revelar a verdade àquele que a pede» (n. 2488).

Abordemos essa questão em forma de perguntas e respostas:

– É sempre oportuno dizer a um doente o grau de gravidade do seu mal?
– Às vezes, não é.
– Mas não é uma grave omissão esconder de um moribundo a situação crítica em que se encontra – falando-lhe pelo menos de “situação de risco” ou de “perigo”– , impedindo-o de se preparar com a recepção dos últimos Sacramentos?
– Sem dúvida, é um pecado de omissão.
– Mais uma pergunta: Um marido deve deixar aflita a esposa narrando todos os detalhes da crise profissional que o ameaça, se não há necessidade disso ou uma clara conveniência? Não será mais caridoso evitar-lhe, serenamente e com um sorriso, um sofrimento perfeitamente inútil, e só falar mais tarde, caso a crise se confirme?
– Depende das circunstâncias, mas geralmente é um ato de caridade evitar queixas, alarmismos e angústias inúteis, que só vão fazer sofrer uma pessoa que, no momento, não pode ajudar.
– Pelo contrário, não deverá falar à esposa quando for preciso viver uma especial confiança e apoio mútuos, a fim de enfrentarem juntos a adversidade?
– Certamente, nestes casos, deverá.

As situações, como percebemos, são inúmeras, mas a “regra de ouro” é sempre a mesma: a caridade, a norma que Cristo nos ensinou: Tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o vós a eles (Mt 7, 12).

Padre Francisco Faus
http://www.padrefaus.org/ 

Bote Fé!

J. Marques

Bote fé no seu dia a dia! Você pode melhorar seu ambiente. Partilhe sua fé, convide seus melhores amigos para participarem com você das celebrações dominicais.

Bote fé no seu potencial. Você pode transformar o mundo. Você é pedra viva de sua Igreja. Volte-se para ela, ou, se você é praticante, veja se há alguma coisa que pode ser melhorada, e não tenha medo de se reconhecer como precisando de mudança.

Bote fé no seu domingo, que não pode ser vivido como se fôssemos pagãos. A prioridade do domingo é prestar culto a Deus na igreja. Seis dias trabalhamos e ficamos longe da casa de Deus, mas um dia, que é o domingo, é reservado para o Senhor, aliás, domingo quer dizer exatamente “dia do Senhor”.

Bote fé na sua capacidade de aprender. Nunca é tarde para você aprender a doutrina católica e pô-la em prática. Não se esqueça de que o conhecimento não é privilégio da hierarquia; também os leigos podem e devem conhecer a doutrina. Estude a Bíblia em grupo, acompanhe a caminhada da Igreja e se engaje em suas campanhas de evangelização. Torne-se, você também, um missionário, um leigo atuante e amante da Igreja.

Bote fé na sua conversão, não fume, coma só o necessário e reduza ou elimine o álcool, cesse com as críticas e os ciúmes, apaixone-se pelas coisas de Deus, entre elas, a sua Igreja.

Bote fé no perdão ilimitado, não se vingue, não critique, semeie o bem. Seja um arauto da alegria e do perdão, e a paz será a sua recompensa.

Bote fé no amor desinteressado, atualize o seu dízimo, ponha-se à disposição da comunidade eclesial, escolha a pastoral em que você gostaria de servir. Mexa-se, importe-se com a sua Igreja. Bote fé no seu poder de transformar a sua família, incorporando a prática diária da – oração em comum. Não se esqueça de que família que reza unida, permanece unida.

Bote fé na sua vontade de se desapegar de coisas passageiras, como, por exemplo, ser escravo de times de futebol e de novela. Que essas distrações não asfixiem a verdade, e a verdade são os valores perenes.

Bote fé na esperança de dias melhores, mas para isso prepare-se para o futuro, estude, busque alternativas, não se escravize ao sono e aos prazeres fugazes. Esteja sempre entusiasmado com a sua família, com o seu trabalho e com a sua Igreja. E mostre esse entusiasmo!

Bote fé na simpatia. Por que ser mal-educado? Vamos cumprimentar a todos, ainda que não sejamos correspondidos. Que a nossa marca, a nossa diferença seja a maneira cortês de tratar as pessoas.

Bote fé na solidariedade, seja inclinado à benemerência, não se canse de exercitar a caridade, pois a fé só tem sentido se transformada no amor. Se formos vítimas de injustiça, não nos vinguemos. É melhor ser vítima que autor de injustiça! Leia novamente o que você acabou de ler: antes ser vítima de injustiça que seu autor! Você pode, eu posso, nós podemos melhorar, amar mais a Deus e ao próximo. Vamos jogar fora os rancores, as desavenças, os ciúmes, as críticas, vamos somar e não dividir, fazer o bem e perdoar sempre.

Bote fé no seu poder transformador e não se canse de agir corretamente. Seja escravo da caridade, alegre-se em ajudar os mais necessitados. A felicidade só se consegue através de práticas caritativas.

Bote fé na sua possibilidade de anunciar a boa nova. Evangelize com a sua presença e, aos poucos, vá adquirindo cultura religiosa e se transforme num evangelizador humilde, mas competente. Aos domingos, no almoço em família, pergunte qual é o Evangelho daquele dia. Ouça as manifestações espontâneas e faça comentários rápidos.

Bote fé na sistemática que apresentamos e você vai perceber como é bom gostar e falar da Palavra de Deus! Faça perguntas simples, dê as respostas e, com o tempo, você vai perceber que seus familiares aprenderam “brincando” ou “comendo”. Some-se a mim, pois faço isso há muito tempo, e, às vezes, até inoportunamente! “Não te descuides do carisma que está em ti” (1Tm 4, 14), é o conselho de São Paulo a Timóteo, e que serve também para nós, pois temos dons, carismas, e não devemos sepultá-los e sim exercitá-los. Vamos formar um exército de leigos atuantes, conhecedores da doutrina, modelo de cidadãos da cidade dos homens, para um dia sermos cidadãos da Cidade de Deus.

Bote fé na esperança, conforme já falado, pois quem espera sempre alcança. Desesperar-se, por quê? Nada disso, as dificuldades de hoje serão transformadas em vitórias amanhã. Não antecipemos os problemas, que poderão, inclusive, não existir. Bastam os problemas de hoje, os de amanhã serão administrados amanhã. Não os antecipar, eis a sabedoria.

Bote fé na sua vontade de transformar as estruturas viciadas. Você quer, e você pode. Aliste-se na linha de frente de sua Igreja; ao invés de crítica, aja e mostre como fazer o Reino de Deus crescer. E como fazer isso? Não se omitindo, sendo entusiasta, somando e não dividindo.

Bote fé na juventude, alie-se a ela. Não aborte as suas iniciativas, mas seja um elo agregador e propagador da criatividade dos jovens. Seja, para eles, uma agradável referência.

Bote fé na doutrina católica, leia mais, procure conhecer os fundamentos da fé católica. Esteja sempre pronto a mostrar a razão de sua fé. Apaixone-se pela Palavra de Deus, faça grupos de reflexão. Reze o terço. Incomode-se e não se acomode!

Bote fé na fraternidade. Não se canse de ajudar os mais necessitados, pois eles, um dia, serão os nossos juízes! Tenha prazer na solidariedade, a causa de nossa felicidade, pois se lhe dermos as costas estaremos incorporando a tristeza.

Bote fé no Brasil, pois é o país do presente e do futuro. Jamais verá um país como este! Saiba que a violência e a corrupção são duas pragas que estão maculando a nossa imagem. Cerremos fileiras em prol da não-violência e da ficha limpa. Vote limpo em todas as eleições, sempre, dando seu voto só a quem já provou ser honesto e capaz de trabalhar para o bem comum.

Bote fé na vontade de aprender, ratificando o que já falamos antes. Não se considere sábio, pois o que sabemos é uma gota e o que não sabemos é um oceano. Estude, recicle-se, esteja sempre atualizado com as coisas da Igreja e da sociedade em geral.

Bote fé na caridade, no amor desinteressado. Conforme todos nós já sabemos, a felicidade de amanhã depende de nossa ação solidária de hoje. Se exercitarmos o perdão, seremos felizes; se não perdoarmos, seremos infelizes.

Bote fé na sua capacidade de se desvencilhar de um defeito, de uma ideia fixa. Incorpore novos hábitos e novas atitudes. Renda-se ao equilíbrio, à sensatez, e não se escravize ao erro.

Bote fé na sua capacidade de inverter as falsas prioridades. Sinta a presença de Deus em você, leia mais a bíblia. Peça a Jesus que lhe dispense o seu Santo Espírito com os seus sete dons.

Bote fé no esquecimento do passado que nos deixou tristes. Importam pouco as divergências do passado, importam bastante as convergências que nos unem no presente e nos unirão no futuro. A palavra chave, portanto, é perdão e esquecimento das ofensas.

Bote fé em uma vida simples e não renda tributos à ostentação e ao consumismo. Saiba partilhar, não seja avarento.

E para concluir, bote fé no amor, porque o amor é tudo.

“Em virtude da fé, podemos reconhecer, naqueles que pedem nosso amor, o rosto do Senhor ressuscitado”.

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