Pensamentos Seletos

O homem precisa recobrar a visão da fé

Domingo, 28 de outubro de 2012, André Luiz / Da Redação

Bartimeu representa o homem que reconhece o seu mal, e grita ao Senhor com a confiança de ser curado.

O Papa Bento XVI presidiu, neste domingo, na Basílica de São Pedro, a Eucaristia que encerrou o Sínodo dos Bispos para a Nova Evangelização. Em sua homília, construída a partir da narrativa da cura do cego Bartimeu no Evangelho de São Marcos (Mc 10, 46-52), o Papa enfatizou a figura do cego como sendo a representação do homem moderno que, por vezes, perdeu a visão da fé e precisa reencontrá-la na pessoa de Jesus.

Bartimeu não era cego de nascença, mas perdeu a vista, diz o Papa. Ele simboliza o homem que perdeu a luz, tem consciência disso, mas ainda conserva em si a esperança de que alguém possa lhe trazer novamente a possibilidade de ver. E este alguém seria Jesus Cristo, luz do mundo e que tem o poder de restituir no homem a capacidade de ver.

Para o Papa, o primeiro passo é reconhecer-se cego. Ou seja, reconhecer-se necessitado de Deus, da sua cura, da sua luz. Do contrário, o homem permanece cego e miserável contentando-se com as pobres esmolas que o mundo paganizado lhe oferece.

Citando Santo Agostinho, o Papa observa que há riquezas invisíveis que o homem pode perder durante a vida. Os homens “perderam a orientação segura e firme da vida e tornaram-se, muitas vezes inconscientemente, mendigos do sentido da existência”, diz Bento XVI.

Esse homem que, segundo o Papa, tornou-se “mendigo do sentido da existência”, é o mais necessitado da Nova Evangelização que “pode voltar a abrir os seus olhos e ensinar-lhes a estrada.”

Ao falar da Nova Evangelização, Bento XVI, sublinhou três linhas pastorais que emergiram do Sínodo. São elas: Sacramentos da iniciação cristã; a missão ad gentes e o terceiro aspecto ligado às pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo.

“A Igreja procura lançar mão de novos métodos, valendo-se também de novas linguagens, apropriadas às diversas culturas do mundo, para implementar um diálogo de simpatia e amizade que se fundamenta em Deus que é Amor”, salientou o Papa, a respeito da necessidade de se viver uma evangelização que percorra caminhos renovados.

Bento XVI encerrou a homilia referindo-se ao cego Bartimeu que fez a experiência do encontro com Jesus Cristo e tornou-se discípulo do Mestre. Assim, terminou o Papa, “são os novos evangelizadores: pessoas que fizeram a experiência de ser curadas por Deus, através de Jesus Cristo. Eles têm como característica a alegria do coração, que diz com o Salmista: O Senhor fez por nós grandes coisas; por isso, exultamos de alegria (Sl 126/125, 3).”

 

Homilia do Papa: conclusão do XIII Sínodo dos Bispos
Venerados Irmãos,
Ilustres Senhores e Senhoras,
Amados irmãos e irmãs!

O milagre da cura do cego Bartimeu ocupa uma posição significativa na estrutura do Evangelho de Marcos. De fato, está colocado no fim da seção designada «viagem para Jerusalém», isto é, a última peregrinação de Jesus para a Cidade Santa, para a Páscoa em que, como Ele sabe, O aguardam a paixão, a morte e a ressurreição. Para subir a Jerusalém a partir do vale do Jordão, Jesus passa por Jericó, e o encontro com Bartimeu tem lugar à saída da cidade, «quando – observa o evangelista – [Jesus] ia a sair de Jericó com os seus discípulos e uma grande multidão» (10, 46), a mesma multidão que, dali a pouco, aclamará Jesus como Messias na sua entrada em Jerusalém. Precisamente na estrada estava sentado a mendigar Bartimeu, cujo nome significa «filho de Timeu», como diz o próprio evangelista. Todo o Evangelho de Marcos é um itinerário de fé, que se desenvolve gradualmente na escola de Jesus. Os discípulos são os primeiros atores deste percurso de descoberta, mas há ainda outros personagens que desempenham papel importante, e Bartimeu é um deles. A sua cura prodigiosa é a última que Jesus realiza antes da sua paixão, e não é por acaso que se trata da cura dum cego, isto é, duma pessoa cujos olhos perderam a luz. A partir de outros textos, sabemos também que a condição de cegueira tem um significado denso nos Evangelhos. Representa o homem que tem necessidade da luz de Deus – a luz da fé – para conhecer verdadeiramente a realidade e caminhar pela estrada da vida. Condição essencial é reconhecer-se cego, necessitado desta luz; caso contrário, permanece-se cego para sempre (cf. Jo 9, 39-41).

Situado naquele ponto estratégico da narração de Marcos, Bartimeu é apresentado como modelo. Ele não é cego de nascença, mas perdeu a vista: é o homem que perdeu a luz e está ciente disso, mas não perdeu a esperança, sabe agarrar a possibilidade deste encontro com Jesus e confia-se a Ele para ser curado. Na realidade, ouvindo dizer que o Mestre passa pela sua estrada, grita: «Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim!» (Mc 10, 47), e repete-o vigorosamente (v. 48) E quando Jesus o chama e lhe pergunta que quer d’Ele, responde: «Mestre, que eu veja!» (v. 51). Bartimeu representa o homem que reconhece o seu mal, e grita ao Senhor com a confiança de ser curado. A sua imploração, simples e sincera, é exemplar, tendo entrado na tradição da oração cristã da mesma forma que a súplica do publicano no templo: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador» (Lc 18, 13). No encontro com Cristo, vivido com fé, Bartimeu readquire a luz que havia perdido e, com ela, a plenitude da sua própria dignidade: põe-se de pé e retoma o caminho, que desde então tem um guia, Jesus, e uma estrada, a mesma que Jesus percorre. O evangelista não nos diz mais nada de Bartimeu, mas nele mostra-nos quem é o discípulo: aquele que, com a luz da fé, segue Jesus «pelo caminho» (v. 52).

Num dos seus escritos, Santo Agostinho observa um particular acerca da figura de Bartimeu, que pode ser interessante e significativo também hoje para nós. O santo Bispo de Hipona reflete sobre o fato de Marcos referir, neste caso, não só o nome da pessoa que é curada, mas também de seu pai, e chega à conclusão de que «Bartimeu, filho de Timeu, era um personagem decaído duma situação de grande prosperidade, e a sua condição de miséria devia ser universalmente conhecida e de domínio público, enquanto não era apenas cego, mas um mendigo que estava sentado na berma da estrada. Por esta razão, Marcos não o quis recordar só a ele, porque o facto de ter recuperado a vista conferiu ao milagre tão grande ressonância como grande era a fama da desventura que atingira o cego» (O consenso dos evangelistas, 2, 65, 125: PL 34, 1138). Assim escreve Santo Agostinho!

Esta interpretação de Bartimeu como pessoa decaída duma condição de «grande prosperidade» é sugestiva, convidando-nos a refletir sobre o fato que há riquezas preciosas na nossa vida que podemos perder e que não são materiais. Nesta perspectiva, Bartimeu poderia representar aqueles que vivem em regiões de antiga evangelização, onde a luz da fé se debilitou, e se afastaram de Deus, deixando de O considerarem relevante na própria vida: são pessoas que deste modo perderam uma grande riqueza, «decaíram» duma alta dignidade – não econômica ou de poder terreno, mas a dignidade cristã –, perderam a orientação segura e firme da vida e tornaram-se, muitas vezes inconscientemente, mendigos do sentido da existência. São as inúmeras pessoas que precisam de uma nova evangelização, isto é, de um novo encontro com Jesus, o Cristo, o Filho de Deus (cf. Mc 1, 1), que pode voltar a abrir os seus olhos e ensinar-lhes a estrada. É significativo que, no momento em que concluímos a Assembléia Sinodal sobre a Nova Evangelização, a Liturgia nos proponha o Evangelho de Bartimeu. Esta Palavra de Deus tem algo a dizer de modo particular a nós que nestes dias nos debruçamos sobre a urgência de anunciar novamente Cristo onde a luz da fé se debilitou, onde o fogo de Deus, à semelhança dum fogo em brasas, pede para ser reavivado a fim de se tornar chama viva que dá luz e calor a toda a casa.

A nova evangelização diz respeito a toda a vida da Igreja. Refere-se, em primeiro lugar, à pastoral ordinária que deve ser mais animada pelo fogo do Espírito a fim de incendiar os corações dos fiéis que frequentam regularmente a comunidade reunindo-se no dia do Senhor para se alimentarem da sua Palavra e do Pão de vida eterna. Aqui gostaria de sublinhar três linhas pastorais que emergiram do Sínodo. A primeira diz respeito aos Sacramentos da iniciação cristã. Foi reafirmada a necessidade de acompanhar, com uma catequese adequada, a preparação para o Baptismo, a Confirmação e a Eucaristia; e reiterou-se também a importância da Penitência, sacramento da misericórdia de Deus. É através deste itinerário sacramental que passa o chamamento do Senhor à santidade, que é dirigido a todos os cristãos. Na realidade, várias vezes se repetiu que os verdadeiros protagonistas da nova evangelização são os santos: eles falam, com o exemplo da vida e as obras da caridade, uma linguagem compreensível a todos.

Em segundo lugar, a nova evangelização está essencialmente ligada à missão ad gentes. A Igreja tem o dever de evangelizar, de anunciar a mensagem da salvação aos homens que ainda não conhecem Jesus Cristo. No decurso das próprias reflexões sinodais, foi sublinhado que há muitos ambientes em África, na Ásia e na Oceânia, onde os habitantes aguardam com viva expectativa – às vezes sem estar plenamente conscientes disso – o primeiro anúncio do Evangelho. Por isso, é preciso pedir ao Espírito Santo que suscite na Igreja um renovado dinamismo missionário, cujos protagonistas sejam, de modo especial, os agentes pastorais e os fiéis leigos. A globalização provocou um notável deslocamento de populações, pelo que se impõe a necessidade do primeiro anúncio também nos países de antiga evangelização. Todos os homens têm o direito de conhecer Jesus Cristo e o seu Evangelho; e a isso corresponde o dever dos cristãos – de todos os cristãos: sacerdotes, religiosos e leigos – de anunciarem a Boa Nova.

Um terceiro aspecto diz respeito às pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo. Durante os trabalhos sinodais, foi posto em evidência que estas pessoas se encontram em todos os continentes, especialmente nos países mais secularizados. A Igreja dedica-lhes uma atenção especial, para que encontrem de novo Jesus Cristo, redescubram a alegria da fé e voltem à prática religiosa na comunidade dos fiéis. Para além dos métodos tradicionais de pastoral, sempre válidos, a Igreja procura lançar mão de novos métodos, valendo-se também de novas linguagens, apropriadas às diversas culturas do mundo, para implementar um diálogo de simpatia e amizade que se fundamenta em Deus que é Amor. Em várias partes do mundo, a Igreja já encetou este caminho de criatividade pastoral para se aproximar das pessoas afastadas ou à procura do sentido da vida, da felicidade e, em última instância, de Deus. Recordamos algumas missões urbanas importantes, o «Átrio dos Gentios», a missão continental, etc.. Não há dúvida que o Senhor, Bom Pastor, abençoará abundantemente estes esforços que nascem do zelo pela sua Pessoa e pelo seu Evangelho.

Queridos irmãos e irmãs, Bartimeu, uma vez obtida novamente a vista graças a Jesus, juntou-se à multidão dos discípulos, entre os quais havia seguramente outros que, como ele, foram curados pelo Mestre. Assim são os novos evangelizadores: pessoas que fizeram a experiência de ser curadas por Deus, através de Jesus Cristo. Eles têm como característica a alegria do coração, que diz com o Salmista: «O Senhor fez por nós grandes coisas; por isso, exultamos de alegria» (Sal 126/125, 3). Com jubilosa gratidão, hoje também nós nos dirigimos ao Senhor Jesus, Redemptor hominis e Lumen gentium, fazendo nossa uma oração de São Clemente de Alexandria: «Até agora errei na esperança de encontrar Deus, mas porque Vós me iluminais, ó Senhor, encontro Deus por meio de Vós, e de Vós recebo o Pai, torno-me herdeiro convosco, porque não Vos envergonhastes de me ter por irmão. Cancelemos, portanto, cancelemos o esquecimento da verdade, a ignorância; e, removendo as trevas que nos impedem de ver como a névoa nos olhos, contemplemos o verdadeiro Deus…; já que, sobre nós sepultados nas trevas e prisioneiros da sombra da morte, brilhou uma luz do céu [luz] mais pura que o sol, mais doce que a vida nesta terra» (Protrettico, 113, 2–114, 1). Amém.

A festa litúrgica de Nossa Senhora de Guadalupe

Terça-feira, 12 de dezembro de 2017, Da Redação, com Boletim da Santa Sé

Padroeira de toda a América é celebrada hoje; Missa com o Papa marcou a festividade litúrgica

O Papa Francisco presidiu nesta terça-feira, 12, a Santa Missa na Basílica Vaticana por ocasião da Festa Litúrgica de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira de toda a América. Em sua homilia, ele destacou a riqueza da diversidade cultural da América Latina e a necessidade de valorização desses povos.

Francisco iniciou a homilia falando do prefácio do Magnificat, que ele gosta de chamar de “cântico de Isabel” ou “cântico da fecundidade”. Isabel sob o sinal de esterilidade e da fecundidade foram justamente os dois pontos que o Pontífice destacou. Na época, a esterilidade era considerada um castigo divino, fruto do próprio pecado ou do esposo. “Imaginemos por um instante os olhares de seus familiares, dos vizinhos, dela mesma, esterilidade que vai fundo e termina paralisando toda a vida”.

A esterilidade, segundo o Papa, pode tomar muitos nomes e formas cada vez que uma pessoa sente em sua carne a vergonha, às vezes estigmatizada por sentir-se de pouco valor. Isso se vislumbra no índio Juan Diego – a quem apareceu a Virgem de Guadalupe – , quando diz a Maria: “eu em verdade não valho nada”, “sou submetido a sombras e cargos alheios, é o meu paradeiro, não posso ir além daquilo que te dignas enviar-me”.

Esse sentimento também pode estar nas comunidades indígenas e afroamericanas, que em muitas ocasiões não são tratadas com dignidade e igualdade de condições, ou ainda nos pobres, desempregados, migrantes, mulheres excluídas em razão do sexo ou condição socioeconômica.

Mas junto a Isabel estéril contempla-se também Isabel a mulher fecunda, observou o Santo Padre. Ela que não podia ter filhos carregou em seu seio o precursor da salvação. “Nela entendemos que o sonho de Deus não é nem será a esterilidade nem estigmatizar ou encher de vergonha seus filhos, mas fazer brotar neles e deles um canto de louvor”.

Em meio à dialética de fecundidade-esterilidade, o Papa convidou a olhar para a riqueza da diversidade cultural dos povos da América Latina e Caribe. É um sinal da grande riqueza que deve ser não só cultivada, mas defendida de toda tentativa homogenizadora que acaba impondo um único modo de pensar, de ser, de sentir e de viver, especialmente aos jovens. A fecundidade, destacou Francisco, exige defender os povos de uma colonização ideológica que apaga o mais rico deles, sejam indígenas, afroamericanos, mestiços, camponeses ou suburbanos.

“A Mãe de Deus é imagem da Igreja e dela queremos aprender a ser Igreja com rosto mestiço, com rosto indígena, afroamericano, rosto camponês, rosto cola, ala, cacaxtle. Rosto pobre, de desempregado, de menino e menina, idoso e jovem para que ninguém se sinta estéril nem infecundo, para que ninguém se sinta envergonhado ou pouca coisa. Mas, ao contrário, para que cada um igual a Isabel e Juan Diego possa sentir-se portador de uma promessa, de uma esperança”.

A Festa da Virgem de Guadalupe

Padroeira da América Latina

Sexta-feira, 12 de dezembro de 2014, André Cunha / Da redação

Francisco disse que, ao aparecer no México, Maria assumiu em si a simbologia cultural e religiosa dos indígenas

Numa cerimônia atípica na Basílica de São Pedro, em Roma, o Papa Francisco presidiu a Missa da Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina, nesta sexta-feira, 12.

A Missa foi celebrada em espanhol e português; o coral entoou cantos em ritmos latinos, com instrumentos musicais típicos da região, diferente do que comumente se vê na basílica vaticana.

Na homilia, Francisco disse que o trecho do salmo “Manifestai a sua glória entre as nações” expressa o desejo profundo dos que celebram esta festa. “São os povos e as nações de nossa Pátria Grande latino-americana os que hoje comemoram com gratidão e alegria a festividade de sua padroeira, Nossa Senhora de Guadalupe, cuja devoção se estende desde o Alasca até a Patagônia”.

Ele recordou a aparição da Virgem Maria no México, “que assumiu em si a simbologia cultural e religiosa dos indígenas”, e afirmou que esta manifestação trouxe grande esperança aos povos da América Latina.

“A Santa Mãe de Deus não só visitou este povo, mas quis também ficar com ele. Deixou estampada misteriosamente sua sagrada imagem no manto de seu mensageiro [Juan Diego] para que a tivéssemos bem presente, fazendo-se símbolo da aliança de Maria com estes povos, a quem dá alma e ternura”, disse o Papa.

A intercessão de Maria, segundo o Santo Padre, transformou a fé cristã no “tesouro mais rico” do povo americano, “cuja pedra preciosa é Jesus Cristo, que se transmite até hoje por meio do batismo de multidões de pessoas”.

Recordando o “Magnificat” e as “bem-aventuranças”, o Papa desejou que o futuro da América Latina seja construído em favor dos pobres, dos que sofrem, dos humildes, dos que tem fome e sede de Justiça; pelos compassivos, pelos de coração puro, pelos que trabalham pela paz e pelos perseguidos por causa do nome de Cristo.

“Fazemos esta oração porque a América Latina é o ‘continente da esperança’, porque dela se esperam novos modelos de desenvolvimento que unam a tradição cristã e o progresso civil, justiça e equidade com a reconciliação, desenvolvimento científico e tecnológico com a sabedoria humana, sofrimento fecundo com alegria cheia de esperança”, destacou.

Por fim, o Sumo Pontífice pediu a intercessão de Maria – “a Mãe de Deus, a Rainha, a minha Senhora, a minha jovenzinha, a minha pequena, como a chamou São Juan Diego” – para que continue companhando, auxiliando e protegendo o povo latino-americano.

Maria acompanha o caminho dos seus filhos

Nossa Senhora de Guadalupe

“Celebra-se a festa de Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira de toda a América. Aproveito o ensejo para saudar os irmãos e irmãs daquele Continente, e faço-o pensando na Virgem de Tepeyac. Quando apareceu a Juan Diego, o seu rosto era mestiço e as suas vestes, cheias de símbolos da cultura indígena.

Seguindo o exemplo de Jesus, Maria está ao lado dos seus filhos, acompanha o seu caminho como mãe atenciosa, partilha as alegrias e esperanças, os sofrimentos e as angústias do Povo de Deus, do qual todos os povos da terra são chamados a fazer parte.

A aparição da imagem da Virgem no manto de Juan Diego foi o sinal profético de um abraço, o abraço de Maria a todos os habitantes das vastas terras americanas, a quantos já estavam ali e aos que teriam chegado depois. Este abraço de Maria indicou a senda que sempre caracterizou a América: é uma terra onde podem conviver povos diversos, uma terra capaz de respeitar a vida humana em todas as suas fases, desde o ventre materno até à velhice, capaz de acolher os emigrantes, os povos, os pobres e os marginalizados de todas as épocas.

A América é uma terra generosa. Esta é a mensagem de Nossa Senhora de Guadalupe e também a minha mensagem, a mensagem da Igreja. Encorajo todos os habitantes do Continente americano a manter os braços abertos como a Virgem Maria, com amor e ternura. Caros irmãos e irmãs da América inteira, rezo por todos vós, mas também vós orai por mim! Que a alegria do Evangelho esteja sempre nos vossos corações! O Senhor vos abençoe e a Virgem vos acompanhe!”

Pio X proclamou Nossa Senhora de Guadalupe como “Padroeira de toda a América Latina”; Pio XI como “Padroeira de todas as “Américas”; Pio XII a chamou “Imperatriz das Américas” e João XXIII “A Missionária Celeste do Novo Mundo” e “Mãe das Américas”.

Papa Francisco

Amizade: caminho para Deus

Ser amigo implica querer que o outro seja amigo de Cristo

A amizade é o melhor bem humano. Vale mais que as riquezas, o poder, a ciência ou as honras. A amizade é o amor que se tem por uma pessoa em razão dela mesma, do que ela é, independente das vantagens ou desvantagens que ela possa nos proporcionar. Além disso, a amizade é o caminho para chegar a Deus.

Ser amigo é relação e também virtude que consiste na firme vontade de querer e procurar o bem do outro. A amizade acontece quando duas pessoas querem e procuram, reciprocamente, o bem do outro. Para ter amigos, para estabelecer relações de amizade, é necessário, primeiro, adquirir a virtude da amizade.

Hoje, costuma-se usar a palavra amizade somente no que diz respeito às relações que se têm com pessoas que não são da família, mas este é um conceito limitado. O amor da amizade é, pelo contrário, o amor que caracteriza a vida familiar, na qual as pessoas convivem e se amam por si mesmas. A família se constitui a partir da amizade conjugal, porque implica o compromisso recíproco de procurar o bem integral do outro por toda a vida. A vida familiar dá lugar às outras relações de amizade, algumas entre desiguais, como a amizade paterna ou a amizade filial, e outra entre iguais, como a amizade fraternal.

A amizade com pessoas que não são da família tem a mesma essência que a amizade familiar. Os amigos querem e procuram o bem do amigo, a quem consideram valioso por si mesmo, por ser quem são, independentemente de qualquer utilidade ou vantagem que possa proporcionar.

Quem tem fé em Cristo e sabe que Ele é o amigo por excelência, Aquele que quer e procura o nosso bem mais do que ninguém, mais que nós mesmos. Jesus deu sua vida por todos nós, a fim de que todos possamos alcançar a felicidade eterna. Queira, naturalmente, que seus amigos sejam também amigos de Cristo. Por isso, para um cristão ser amigo implica querer que o outro também seja amigo do Senhor.

Esse é o apostolado da amizade que ensinou São Josemaria Escrivá. Não se trata de ganhar adeptos nem de crescimento de um grupo, muito menos de manipular as pessoas para que sirvam a fins políticos, econômicos ou de qualquer outra natureza. Ser apóstolo, ensinava ele, é ser amigo primeiro de Cristo e, em seguida, de todas as pessoas com quem convive: familiares, amigos da escola, companheiros de trabalho, clientes, fornecedores, vizinhos, sócios e, em geral, qualquer pessoa com quem ele conviva. Àqueles amigos que queremos bem, convidamos e ajudamos para que sejam amigos de Cristo. Se o amigo recusa o convite, a amizade permanece, porque o amigo é querido por si mesmo, mas se aceita o convite, então a amizade se fortalece, porque ambos são amigos do Amigo.

Termino com umas palavras que o Papa emérito Bento XVI dirigiu a um numeroso grupo de jovens, em Roma, durante o Congresso Universitário – UNIV, em abril de 2006: “quem descobriu a Cristo não pode deixar de levar os demais até Ele, uma vez que não é possível guardar para si uma grande alegria sem comunicá-la. Esta é a tarefa a que os chama o Senhor, este é o ‘apostolado da amizade’ que São Josemaria descreve como ‘amizade pessoal’, sacrificada, sincera, de tu a tu, de coração a coração”. Todo cristão está convidado a ser amigo de Deus e, com Sua graça, atrair para Ele seus próprios amigos. O amor apostólico converte-se, deste modo, em uma autêntica paixão que se expressa comunicando aos demais a felicidade que se encontra em Jesus”.

Jorge Adame Goddard
http://www.opusdei.org.br

A esperança do Oriente

Olha para o Cristo, vai ao Seu encontro!

Na segunda leitura (Fl 1,4-6.8-11) da Liturgia da Palavra do II Domingo do Advento, por duas vezes São Paulo refere-se ao Dia de Cristo: “Aquele que começou em vós uma boa obra, há de levá-la à perfeição até ao Dia de Cristo”; “que o vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência, para discernirdes o que é melhor. Assim ficareis puros e sem defeito para o Dia de Cristo”. Para este Dia de Cristo, estamos nos preparando no santo Tempo do Advento.

Dia de Cristo é o Natal; Dia de Cristo é o “todo-dia”, quando sabemos reconhecer suas visitas; Dia de Cristo será a sua Vinda gloriosa no final dos tempos. Quem celebra piedosamente o Dia de Cristo no Natal e é atento pela vigilância ao Dia de Cristo de “todo-dia”, estará pronto na perfeição do amor, estará puro e sem defeito para o Dia de Cristo no final dos tempos!

É certo que não poderemos fugir do Cristo Jesus: diante dele todos nós estaremos um dia porque através dele e para ele fomos criados e somente nele nossa existência chegará à sua plenitude. A liturgia ilustra ainda de modo comovente a situação da humanidade e também a situação da Igreja, pequeno resto peregrino e acabrunhado sobre esta terra: trata-se de uma humanidade sofrida, de uma Igreja em exílio, mas que será consolada pelo Senhor. Recordemos a palavra de Baruc (Br 5,1-9) profeta “Despe, ó Jerusalém, a veste de luto e de aflição, e reveste, para sempre, os adornos da glória vinda de Deus!” Que belo convite, que sonho, que felicidade!

Pensemos na nossa vida, pensemos nas ânsias da Mãe Igreja, e alegremo-nos com o consolo que Deus nos promete! “Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e põe na cabeça o diadema da glória do Eterno. Deus mostrará teu esplendor, ó Jerusalém, a todos os que estão debaixo do céu!” Vede, o nosso Deus como é: um Deus que promete, um Deus que abre a estrada da esperança, um Deus que consola, um Deus que nos prepara um futuro de bênção, de paz e de vida! Mas, quando será esta paz, de onde virá? Escutai, caríssimos: “Levanta-te, Jerusalém – levanta-te, irmão; levanta-te, irmã! Levanta-te, Mãe católica! – põe-te no alto e olha para o Oriente!” O Oriente, é o lugar da luz, o lado no qual o sol nasce e o dia começa; o Oriente é o próprio Cristo Jesus! Olhar para o Oriente é esperar o Dia de Cristo, o Dia sem fim, a Luz que não tem ocaso!

Quem caminha sem olhar o Oriente, caminha sem saber para onde vai; quem avança noutra direção, não caminha para a luz, mas vai ao encontro das trevas: “des-orienta-se”! “Levanta-te, põe-te no alto e olha para o Oriente!” Olha para o Cristo, vai ao seu encontro! Então, tu verás a salvação de Deus; tu experimentarás que o Senhor não é Deus de longe, mas de perto; tu experimentarás o quanto o Senhor é capaz de consolar o que chorava, de acalmar o que estava aflito, de reconduzir o transviado: “Vê teus filhos reunidos pela voz do Santo, desde o poente até o levante, jubilosos por Deus ter-se lembrado deles. Deus ordenou que se abaixassem todos os altos montes e as colinas eternas, e se enchessem os vales, para aplainar a terra, a fim de que Israel sua Igreja santa, seu povo eleito, caminhe com segurança sob a glória de Deus!”

Vede, é de paz que o Senhor nos fala, é a salvação que nos promete! Se agora lançarmos as sementes da vida entre lágrimas, haveremos de colher com alegria; se agora muitas vezes na tristeza formos espalhando as sementes, um dia, no Dia de Cristo, nosso Oriente bendito, com alegria voltaremos carregados com os frutos em feixes! As promessas do Senhor, fazem-nos compreender que nossa vida tem sentido, que tudo quanto nos acontece pode e deve ser vivido à luz de Deus! Uma das grandes misérias do nosso tempo é a solidão humana. Não se trata de uma solidão qualquer, mas de uma sensação mortal de viver a vida diante de ninguém, de caminhar a lugar nenhum, de gastar energia e sonho para produzir vazio… Mas, quando voltamos o rosto para o Oriente, quando nos deixamos banhar por sua luz que, como uma aurora bendita já começa a difundir seus raios, então tudo se enche de paz e de alegria, porque tudo ganha um novo sentido!

Portanto, no Senhor, pensai na vossa vida concreta, nas vossas semanas e dias feitos de experiências bem reais e miúdas… Pois bem, Deus, em Cristo, visita a nossa vida! São Lucas (Lucas 3,1-6)) ao narrar o aparecimento de João Batista, o precursor do Messias, começa mostrando como a palavra do Senhor, como a sua salvação nos atinge e nos encontra bem no concreto de nossa vida, no nosso aqui e no nosso agora.

A salvação não é um mito, a vinda do Senhor até nós não é uma estória de trancoso… Escutai como é concreta a sua vinda, como tem uma história e uma geografia: “No décimo quinto ano do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes administrava a Galiléia, seu irmão Filipe, as regiões da Ituréia e Traconítide, e Lisânias, a Abilene; quando Anás e Caifás eram sumo sacerdotes, foi então que a palavra de Deus foi dirigida a João, o filho de Zacarias, no deserto.” Vede, irmãos, e compreendei: a Palavra de Deus vem nós num “quando” e num “onde”.

O “quando” é hoje, agora, neste período da nossa vida; o “onde” é aí onde você vive: na sua casa, no seu trabalho, nas suas relações, nos seus conflitos! É neste agora e neste aqui, neste “quando” e neste “onde” que Deus vem ao nosso encontro em Cristo Jesus! E o que devemos fazer para acolhê-lo? Como devemos proceder para que não venha na os em vão? Como agir para que a sua luz nos possa iluminar? Escutai ainda o Evangelho: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas; as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados serão aplainados. E toda carne verá a salvação de Deus”.

Vê, é de ti que o Senhor fala; é à tua vida que ele se refere: queres ver a luz do Oriente? Queres dirigir-te para o Dia eterno? Queres realmente estar pronto para o Dia de Cristo no Natal, no “todo-dia” e no Último Dia? Então, endireita agora teus caminhos, abaixa as montanhas da soberba e do orgulho, aterá os vales do medo, da covardia e do vão temor, e endireita as tortuosas estradas de teus vícios e de teus pecados! Aí sim, tu e toda carne verão a salvação de Deus: na celebração do Natal vamos vê-la reclinada num pobre presépio, no “todo-dia” vamos experimentá-la de tantos modos e em tantos momentos e, no Último Dia, Dia de Cristo, iremos vê-la face a face como eterna delícia, alegria sem fim e vida imperecível!

Vamos, irmãos, caminhemos com fé ao encontro do Senhor! E para que o nosso caminho não seja sem rumo e em vão, endireitemos desde agora as estradas de nossa vida! Levantemo-nos, ponhamo-nos no alto da virtude e vejamos: vem a nós a alegria do nosso Deus! A ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Dom Henrique Soares da Costa
http://www.domhenrique.com.br

Abrir caminhos de esperança no deserto dos corações áridos

De Mariangela Jaguraba

Cidade do Vaticano – O Papa Francisco rezou a oração mariana do Angelus, neste II Domingo de Advento (10/12), com os fiéis e peregrinos presentes na Praça São Pedro.

Na alocução que precedeu a oração, o Pontífice recordou que no domingo passado, “iniciamos o Advento com o convite a vigiar”, e “neste segundo domingo desse tempo de preparação ao Natal, a liturgia nos indica os seguintes conteúdos: é um tempo para reconhecer os vazios a serem preenchidos em nossa vida, para aplainar as asperezas do orgulho e criar espaço para Jesus que vem”.

“O Profeta Isaías se dirige ao povo anunciando o fim do Exílio na Babilônia e o retorno a Jerusalém. Ele profetiza: «Grita uma voz: Preparai no deserto o caminho do Senhor […]. Nivelem-se todos os vales». Os vales a serem nivelados representam todos os vazios do nosso comportamento diante de Deus, todos os nossos pecados de omissão.”

“O vazio em nossa vida pode ser porque não rezamos ou rezamos pouco. O Advento é o momento favorável para rezar com mais intensidade, para reservar à vida espiritual o lugar importante que lhe cabe. Outro vazio pode ser a falta de caridade para com o próximo, sobretudo em relação às pessoas que precisam de ajuda não só material, mas também espiritual. Somos chamados a prestar mais atenção às necessidades dos outros, estar mais próximos. Desta forma, como João Batista, poderemos abrir caminhos de esperança no deserto dos corações áridos de muitas pessoas.”

“Rebaixem-se todos os montes e colinas”, exorta ainda Isaías.

“Os montes e as colinas que devem ser rebaixados são o orgulho, a soberba e a prepotência. Onde existe orgulho, prepotência e soberba o Senhor não pode entrar, pois o coração está cheio de orgulho, prepotência e soberba. Devemos assumir comportamentos de mansidão e humildade, sem repreender, mas ouvir, falar com mansidão e assim preparar a vinda de nosso Salvador que é manso e humilde de coração. Depois, somos convidados a eliminar todos os obstáculos que colocamos em nossa união com o Senhor: “O terreno acidentado se torne plano e alisem-se as asperezas. A glória do Senhor então se manifestará, e todos os homens juntos irão vê-la”, diz Isaías.

Segundo o Papa, “essas ações devem ser realizadas com alegria, porque são finalizadas à preparação da chegada de Jesus. Quando esperamos em casa a visita de uma pessoa querida, organizamos tudo com carinho e felicidade. Devemos fazer o mesmo para a vinda do Senhor: esperá-lo a cada dia com solicitude, para ser preenchidos com a sua graça quando Ele vier”.

Francisco sublinhou que no Evangelho, João Batista representa a figura da “voz que grita no deserto”, anunciada pelo Profeta Isaías.

“O Salvador que esperamos é capaz de transformar a nossa vida com a sua graça, com força do Espírito Santo, com a força do amor. O Espírito Santo derrama em nossos corações o amor de Deus, fonte inexaurível de purificação, de vida nova e liberdade. A Virgem Maria viveu plenamente esta realidade, deixando-se “batizar” pelo Espírito Santo que a encheu de sua força. Ela, que preparou a vinda de Cristo com a totalidade de sua existência, nos ajude a seguir seu exemplo e guie os nossos passos para o encontro com o Senhor que vem.”

Em Maria, a humanidade abre-se realmente a Deus

Sábado, 08 de dezembro de 2012, Jéssica Marçal / Da Redação

‘Em Maria a Palavra de Deus encontra escuta, recepção, resposta’, destacou Bento XVI antes de rezar o Angelus junto com os fiéis na Praça São Pedro  

Neste sábado, 8, dia em que a Igreja celebra a Festa da Imaculada Conceição, o Papa Bento XVI uniu-se aos fiéis na Praça São Pedro para rezar o Angelus. Em suas palavras antes da oração mariana, o Santo Padre destacou que, em Maria, a humanidade e a história abrem-se realmente para Deus.

“Em Maria a Palavra de Deus encontra escuta, recepção, resposta (…) Em Maria a humanidade, a história se abrem realmente a Deus, acolhem a sua graça, estão dispostas a fazer a sua vontade”, disse.

Bento XVI também enfatizou que a luz que emana de Maria ajuda os fiéis a compreender o verdadeiro sentido do pecado original. Ele explicou que em Maria está plenamente viva a relação com Deus que o pecado rompe. “Maria é livre do pecado porque é toda de Deus, totalmente esvaziada por Ele. É cheia de sua Graça, do seu Amor”.

O Santo Padre disse ainda que a doutrina da Imaculada Conceição de Maria exprime a certeza de fé de que as promessas de Deus não falham. “A Imaculada está a demonstrar que a Graça é capaz de suscitar uma resposta, que a fidelidade de Deus sabe gerar uma fé verdadeira e boa”.

Por fim, o Pontífice confirmou sua ida hoje à tarde, como de costume, à Praça de Espanha, para a homenagem a Maria Imaculada. “Sigamos o exemplo da Mãe de Deus, para que também em nós a graça do Senhor encontre resposta em uma fé genuína e fecunda”, concluiu.

 

Angelus – Festa da Imaculada Conceição – 08/12/2012  
Boletim da Santa Sé (Tradução: Jéssica Marçal, equipe CN Notícias)

Queridos irmãos e irmãs,

A todos vós, boa festa da Maria Imaculada! Neste Ano da Fé, gostaria de salientar que Maria é a Imaculada por um dom gratuito da graça de Deus, que encontrou, porém, nela perfeita disponibilidade e colaboração. Neste sentido ela é “bem aventurada” porque “acreditou” (Lc 1,45), porque teve uma fé forte em Deus. Maria representa aquele “resto de Israel”, aquela raiz santa que os profetas anunciaram. Nela encontram acolhimento as promessas da antiga Aliança. Em Maria a Palavra de Deus encontra escuta, recepção, resposta, encontra aquele ‘sim’ que a permite tomar carne e vir habitar em meio a nós. Em Maria a humanidade, a história se abrem realmente a Deus, acolhem a sua graça, estão dispostas a fazer a sua vontade. Maria é expressão genuína da Graça. Ela representa o novo Israel, que as Escrituras do Antigo Testamento descrevem com o símbolo da esposa. E São Paulo retoma esta linguagem na Carta aos Efésios lá onde fala do matrimônio e diz que “Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível” (5,25-27). Os Padres da Igreja desenvolveram esta imagem e assim a doutrina da Imaculada nasceu primeiro em referência à Igreja virgem-mãe, e depois a Maria. Assim escreve poeticamente Efrem o Sírio: “Como os corpos pecaram e morreram, e a terra, sua mãe, é maldita, (cfr Gen 3,17-19),  assim por causa deste corpo que é a Igreja incorruptível, sua terra é bendita desde o início. Esta terra é o corpo de Maria, templo no qual uma semente foi colocada” (Diatessaron 4, 15: SC 121, 102).

A luz que emana da figura de Maria nos ajuda também a compreender o verdadeiro sentido do pecado original. Em Maria, de fato, é plenamente viva e operante aquela relação com Deus que o pecado rompe. Nela não tem alguma oposição entre Deus e o seu ser: tem plena comunhão, plena concordância. Tem um “sim” recíproco, entre Deus e ela e ela e Deus. Maria é livre do pecado porque é toda de Deus, totalmente esvaziada por Ele. É cheia de sua Graça, do seu Amor.

Em conclusão, a doutrina da Imaculada Conceição de Maria exprime a certeza de fé que as promessas de Deus foram realizadas: que a sua aliança não falha, mas produziu uma raiz santa, da qual brotou o Fruto bendito de todo o universo, Jesus, o Salvador. A Imaculada está a demonstrar que a Graça é capaz de suscitar uma resposta, que a fidelidade de Deus sabe gerar uma fé verdadeira e boa.

Queridos amigos, esta tarde, como é de costume, vou para a Praça de Espanha, para a homenagem a Maria Imaculada. Sigamos o exemplo da Mãe de Deus, para que também em nós a graça do Senhor encontre resposta em uma fé genuína e fecunda.

Como Deus pousou o seu olhar sobre Maria, jovenzinha da periferia de Israel

… assim também sobre nós Deus pousa o seu olhar de amor e salvação: Papa no Angelus

Neste II domingo do Advento, que coincide com a festa da Imaculada Conceição de Maria, ao meio-dia, como habitualmente aos domingos, o Papa rezou com os fiéis presentes na Praça de São Pedro e todos os que o seguiam, de longe, através dos meios de comunicação.

O Papa comentou o Evangelho da anunciação, em que a Igreja contempla Maria como “a cheia de graça”, tal como Deus a encarou desde o primeiro instante no seu desígnio de amor. “Maria apoia-nos no nosso caminho em direcção ao Natal, porque ela nos ensina como viver este tempo de Advento em atitude de espera do Senhor”.

O Papa fez notar que Maria, à qual o anjo Gabriel saúda da parte de Deus, era uma jovenzinha de Nazaré, pequena localidade da Galileia, na periferia do império romano e também na periferia de Israel. E contudo, foi precisamente sobre ela que se pousou o olhar do Senhor, que a tinha escolhida para ser a Mãe do seu Filho. Foi em vista desta maternidade (prosseguiu o Papa) que Maria foi preservada do pecado original, “aquela fractura na comunhão com Deus, com os outros e com a criação, que fere em profundidade cada um dos seres humanos”. Uma fractura sanada antecipadamente no Mãe d’Aquele que veio a libertar-nos da escravidão do pecado”.

“A Imaculada está inscrita no projecto de Deus: é fruto do amor de Deus que salva o mundo”. Aliás, sublinhou com especial insistência o Papa Francisco, “não nos é alheio o mistério desta rapariguinha de Nazaré, que está no coração de Deus”.

“Na verdade, Deus poisa o seu olhar sobre cada homem e cada mulher!” “Contemplando a nossa Mãe Imaculada, reconheçamos também o nosso destino mais autêntico, a nossa vocação mais profunda: sermos amados, sermos transformados pelo amor”.

Depois da reza das Ave Marias, o Papa pediu a todos que se unissem espiritualmente à Igreja que vive na América do Norte, que hoje recorda a fundação da sua primeira paróquia, há 350 anos: Notre-Dame de Québec…

O Santo Padre recordou também que, esta tarde, seguindo uma antiga tradição, se deslocará à Praça de Espanha para rezar aos pés do monumento à Imaculada.

“Peço-vos que vos unais espiritualmente a mim nesta peregrinação, que é um acto de devoção filial a Maria, para lhe confiar a cidade de Roma, a Igreja e toda a humanidade”.

Da Praça de Espanha o Santo Padre deslocar-se-á também à basílica de Santa Maria Maior, para venerar, privadamente, o ícone de Nossa Senhora, “Salus popoli romani”.

Gratuidade e partilha, a exemplo de Maria

Dia da Imaculada

Segunda-feira, 8 de dezembro de 2014, Da Redação, com Rádio Vaticano

Francisco rezou o Angelus na solenidade da Imaculada; reflexão focou o dom da gratuidade e da partilha

Como Maria, todos os cristãos saibam oferecer a Deus um “sim” pleno à sua vontade e se doar aos outros como instrumentos de acolhimento, reconciliação e perdão. Este foi o desejo que o Papa Francisco expressou no Angelus rezado nesta segunda-feira, 8, no dia da Imaculada Conceição. À tarde, o Pontífice irá para a Praça de Espanha, como já é tradição, para a veneração à estátua da Imaculada.

Francisco refletiu sobre “gratuidade e partilha”, tomando como exemplo Maria, escolhida desde sempre e preservada da culpa original. Segundo o Papa, nada é mais eficaz e fecundo do que escutar e acolher a Palavra de Deus.

“A atitude de Maria de Nazaré nos mostra que ‘o ser’ vem antes do ‘fazer’, e que é necessário deixar-se fazer por Deus para ser verdadeiramente como Ele nos quer. Maria é receptiva, mas não passiva. Como, a nível físico, recebe o poder do Espírito Santo, mas depois doa carne e sangue ao Filho de Deus que se forma nela, assim, no plano espiritual, acolhe a graça e corresponde a ela com a fé”.

Citando Santo Agostinho, o Pontífice recordou que a Virgem concebeu antes no coração do que no ventre e que este mistério da acolhida da graça é uma possibilidade para todos. Francisco observou, que tanto Maria como o ser humano foram abençoados e escolhidos desde a criação do mundo, com uma diferença: Maria foi preservada e o homem foi salvo graças ao Batismo e à fé.

O Papa reiterou no final do encontro que a salvação é gratuita e se deve dar o que se recebe. A gratuidade, disse, é a consequência que se impõe diante do amor, da misericórdia, da graça divina derramada nos corações.

“Porque, se tudo nos foi dado, tudo deve ser dado novamente. De que modo? Deixando que o Espírito Santo faça de nós um dom para os outros; que nos torne instrumentos de acolhida, de reconciliação e de perdão. Se a nossa existência se deixa transformar pela graça do Senhor, não poderemos reter para nós a luz que vem da sua face, mas a deixaremos passar, para que ilumine os outros”.

 

ANGELUS

Queridos irmãos e irmãs, bom dia! Boa Festa!

A mensagem da festa de hoje da Imaculada Conceição da Virgem Maria pode se resumir com estas palavras: tudo é dom gratuito de Deus, tudo é graça, tudo é dom do seu amor por nós. O Anjo Gabriel chama Maria “cheia de graça” (Lc 1, 28): nela não há espaço para o pecado, porque Deus a escolheu desde sempre mãe de Jesus e a preservou da culpa original. E Maria corresponde à graça e se abandona dizendo ao Anjo: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (v. 38). Não diz: “Eu farei segundo a tua palavra”: não! Mas: “Faça-se em mim…”. E o Verbo se fez carne em seu ventre. Também a nós é pedido escutar Deus que nos fala e acolher a sua vontade; segundo a lógica evangélica, nada é mais eficaz e fecundo que escutar e acolher a Palavra do Senhor, que vem do Evangelho, da Bíblia. O Senhor nos fala sempre!

A atitude de Maria de Nazaré nos mostra que “ser” vem antes do “fazer” e que é preciso “deixar fazer” a Deus para “ser” verdadeiramente como Ele nos quer. É Ele que faz em nós tantas maravilhas. Maria é receptiva, mas não passiva. Como, a nível físico, recebe o poder do Espírito Santo mas depois doa carne e sangue ao Filho de Deus que se forma nela, assim, no plano espiritual, acolhe a graça e corresponde a essa com a fé. Por isso Santo Agostinho afirma que a Virgem “concebeu antes no coração que no ventre” (Discurso, 215, 4). Concebeu primeiro a fé e depois o Senhor. Este mistério do acolhimento da graça, que em Maria, por um privilégio único, era sem obstáculo do pecado, é uma possibilidade para todos. São Paulo, de fato, abre a sua Carta aos Efésios com estas palavras de louvor: “Bendito Deus, Pai do Senhor nosso Jesus Cristo, que nos abençoou com toda benção espiritual nos céus em Cristo” (1, 3). Como Maria é saudada por santa Isabel como “bendita entre as mulheres” (Lc 1, 42), assim também nós sempre fomos “benditos”, isso é, amados e por isso “escolhidos antes da criação do mundo para sermos santos e imaculados” (Ef 1, 4). Maria foi preservada, enquanto nós fomos salvos graças ao Batismo e à fé. Todos, porém, seja ela sejamos nós, por meio de Cristo, “em louvor do esplendor da sua graça” (v. 6), aquela graça de que a Imaculada foi preenchida em plenitude.

Diante do amor, diante da misericórdia, da graça divina derramada nos nossos corações, a consequência que se impõe é uma só: a gratuidade. Nenhum de nós pode comprar a salvação! A salvação é um dom gratuito do Senhor, um dom gratuito de Deus que vem em nós e mora em nós. Como recebemos gratuitamente, assim gratuitamente somos chamados a dar (cfr Mt 10, 8); a exemplo de Maria que, logo depois de ter acolhido o anúncio do Anjo, vai partilhar o dom da fecundidade com a parente Isabel. Porque, se tudo nos foi doado, tudo deve ser dado de volta. De que modo? Deixando que o Espírito Santo faça de nós um dom para os outros. O Espírito é dom para nós e nós, com a força do Espírito, devemos ser dom para os outros e deixar que o Espírito Santo nos faça nos tornarmos instrumentos de acolhimento, instrumentos de reconciliação, instrumentos de perdão. Se a nossa existência se deixa transformar pela graça do Senhor, porque a graça do Senhor nos transforma, não poderemos reter para nós a luz que vem da sua face, mas a deixaremos passar para que ilumine os outros. Aprendamos de Maria, que teve constantemente o olhar fixo sobre o Filho e a sua face se tornou “a face que a Cristo mais se assemelha” (Dante, Paraíso, XXXII, 87). E a ela nos dirijamos agora com a oração que recorda o anúncio do Anjo.

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