Pensamentos Seletos

O cristianismo é a religião do fazer, não do dizer

Terça-feira, 23 de fevereiro de 2016, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na Missa de hoje, Papa se concentrou na diferença entre dizer e fazer, alertando fiéis sobre o risco de ser “cristão de aparência”

Depois da viagem ao México, o Papa Francisco retomou nesta terça-feira, 23, a celebração da Missa na Casa Santa Marta. Na homilia de hoje, frisou que o cristianismo é uma religião concreta, que age fazendo o bem, não uma “religião do dizer”, feita de hipocrisia e vaidade.

Deus é concreto, afirmou, mas são muitos os cristãos de aparência, que fazem da pertença à Igreja um adorno sem compromisso, uma ocasião de prestígio, ao invés de uma experiência de serviço aos mais pobres.

O Papa se concentrou na dialética evangélica entre o dizer e o fazer. A ênfase recai sobre as palavras de Jesus, que desmarcara a hipocrisia dos escribas e fariseus, convidando os discípulos e a multidão a observarem aquilo que eles ensinam, mas não a se comportarem como eles.

“O Senhor nos ensina o caminho do fazer. E quantas vezes encontramos pessoas – também nós, eh! – na Igreja: ‘Oh, sou muito católico!’. ‘Mas o que você faz?’ Quantos pais se dizem católicos, mas nunca têm tempo para falar com os próprios filhos, para brincar com eles, para ouvi-los. Talvez seus pais estejam num asilo, mas estão sempre ocupados e não podem ir visitá-los e os abandonam. ‘Mas sou muito católico, eh! Eu pertenço àquela associação’. Esta é a religião do dizer: eu digo que sou assim, mas faço mundanidade”.

O “dizer e não fazer”, segundo o Papa, é uma enganação. As palavras de Isaías, destacou, indicam o que Deus prefere: “Deixai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem”. “Socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva”. E demonstram também a infinita misericórdia de Deus, que diz à humanidade: “Vinde, debatamos. Ainda que vossos pecados sejam como púrpura, tornar-se-ão brancos como a neve”.

Fazer a vontade de Deus

“A misericórdia do Senhor vai ao encontro daqueles que têm a coragem de discutir com Ele, mas discutir sobre a verdade, sobre as coisas que fazem ou não fazem, só para corrigir. E este é o grande amor do Senhor, nesta dialética entre o dizer e o fazer. Ser cristão significa fazer: fazer a vontade de Deus. E, no último dia – porque todos nós teremos um, né? – naquele dia, o que o Senhor nos pedirá? Dirá: ‘O que disseram de mim?’. Não! Ele nos perguntará sobre as coisas que fizemos”.

Neste ponto, o Papa mencionou o capítulo do Evangelho de Mateus sobre o juízo final, quando Deus pedirá contas ao homem sobre o que fez em relação aos famintos, sedentos, encarcerados, estrangeiros. “Esta é a vida cristã. Dizer, somente, nos leva à vaidade, a fazer de conta de ser cristão. Mas não, não se é cristão assim”.

“Que o Senhor nos dê esta sabedoria de entender bem aonde está a diferença entre dizer e fazer e nos ensine o caminho do fazer e nos ajude a percorrê-lo, porque o caminho do dizer nos leva ao lugar aonde estavam os doutores da lei, os clérigos, que gostavam se vestir e ser como majestades, não? E esta não é a realidade do Evangelho! Que o Senhor nos ensine este caminho”.

São João da Cruz, o Doutor Místico

PENSAMENTOS DE SÃO JOÃO DA CRUZ

São João da Cruz nasceu em Fontiveros, na Espanha, em 1542.  Seu pai era rico e casou com uma moça pobre e por isso foi deserdado.  João entrou para o Carmelo com 21 anos, tomando o nome de João de São Matias. Em 1567, João tinha 25 anos e tinha sido recém- ordenado sacerdote, quando conheceu Santa Teresa que lhe propôs a reforma do ramo masculino do Carmelo (ela ja tinha iniciado a reforma feminina). João aceita a proposta e em 1568 inicia a reforma.  Troca o nome para João da Cruz e passa a viver com outros freis na mais radical pobreza e contemplação.  Mais tarde João foi preso, pelos antigos Carmelitas que não queriam a reforma.  Passou 9 meses na prisão, sendo tratado com extrema dureza. João costumava pedir a Deus três coisas: que Ele não o deixasse passar um só dia sem sofrimento, que não o deixasse morrer ocupando o cargo de superior e que lhe permitisse morrer humilhado e desprezado.  João da Cruz morreu em 1591 com 49 anos de idade.

“O Verbo Filho de Deus, juntamente com o Pai e o Espirito Santo, está essencial e realmente escondido no íntimo de cada ser.”

“Se está em mim aquele a quem minha alma ama, como não o encontro nem o sinto? É por estar ele escondido. Mas não te escondas também; assim podes encontrá-lo e senti-lo…”

“Teu Amado esposo é o tesouro escondido no campo de tua alma, pelo qual o sábio comerciante deu todas as suas riquezas.”

“Nisto tens motivo de grande gozo e alegria, vendo como todo o teu bem – a tua esperança – se encontra tão perto de ti, ou melhor, está dentro de ti, e tu não podes viver sem ele.”

“O demônio teme a alma unida a Deus como ao próprio Deus.”

“O amor consiste em despojar-se e desapegar-se, por Deus, de tudo o que não é Ele.”

“Como acontece aos bem-aventurados no céu: uns vêem mais a Deus e outos menos, mas todos o contemplam e estão felizes, porque cada um pode satisfazer a própria capacidade.”

“Para possuir Deus plenamente, é preciso nada ter; porque se o coração pertence a Ele, não pode voltar-se para outro.”

“Para buscar a Deus, requer-se um coração despojado e forte, livre de tudo o que não é puramente Deus.”

“Afeiçoar-se ao mesmo tempo a Deus e a criatura são coisas contrárias: não podem existir numa só pessoa.”

“Deus é inacessível. Não repares, portanto, no que as tuas faculdades podem compreender, nem teus sentidos experimentar, para que não te satisfaças com menos e assim perderes a presteza necessária para chegar a Ele.”

“A criatura atormenta, e o espírito de Deus gera alegria.”

“Há uma distância infinita entre o ser divino e o ser das criaturas, por isso é impossível à inteligência, por si só, atingir a Deus.”

“Que felicidade o homem poder libertar-se de dua sensualidade! Isto não pode ser bem compreendido, a meu ver, senão por quem o experimentou. Só então verá claramente como era miserável a escravidão em que se estava.”

“Adquire-se a sabedoria através do amor, do silêncio e da mortificação; grande sabedoria é saber calar e não inserir-se em ditos ou fatos e na vida alheia.”

“A purificação que leva a alma à união com Deus, é noite:  – quanto ao ponto de partida, pois a alma priva-se do prazer de todas as coisas do mundo;  – quanto ao caminho a tomar – a fé; noite verdadeiramente escura para o entendimento;  – quanto ao termo ao qual a alma se destina – Deus; ser incompreensivel e infinitamente acima de nossas faculdades.”

“É inegável que a alma chega ao conhecimento de Deus, antes pelo que ele não é do que pelo que ele é.”

“O amor não consiste em sentir grandes coisas, mas em despojar-se e sofrer pelo Amado.”

“É próprio do perfeito amor nada querer admitir ou tomar para si, nem atribuir-se coisa alguma, mas tudo referir ao Amado. Se nos amores da terra é assim, quanto mais no amor de Deus.”

“Sofrer por Deus é melhor que fazer milagres.”

“Quem não busca a cruz de Cristo não busca a glória de Cristo.”

“A alma que quer que Deus se lhe entregue inteiramente há de se entregar toda sem reservar nada para si.”

“Quando tiveres algum aborrecimento e desgosto, lembra-te de Cristo crucificado e cala-te.”

“Alma formosíssima entre todas as criaturas, que tanto desejas saber o lugar onde está teu Amado, a fim de o buscares e a ele te unires. Já te foi dito que és tu mesma o aposento onde ele mora, e o recôndito esconderijo em que se oculta.”

“Nisto tens motivo de grande gozo e alegria, vendo como todo o teu bem – a tua esperança – se encontra tão perto de ti, ou melhor está dentro de ti, e tu não podes viver sem ele.”

“Em teu recolhimento interior, regozija-te com ele, pois ele está muito perto de ti”.

“O amor não cansa nem se cansa.”

“Onde não há amor, põe amor e colherás amor.”

“Para se progredir, o que mais se necessita é saber calar diante de Deus… a linguagem que ele melhor ouve é a do silêncio de amor.”

“No ocaso da vida serás examinado sobre o amor.”

“Para a pessoa crescer na contemplação até chegar à união com Deus, deverão ficar de lado, e em silêncio, todos os meios e exercícios sensíveis das faculdades humanas.”

“Ora, não há maior grandeza para a alma do que ser igualada a Deus. Por isso, ele se serve somente do amor da alma, pois é próprio do Amor igualar o que ama com o objeto amado.”

“Para Deus, amar a alma é, de certa maneira, integrá-la em si mesmo, igualando-a consigo; ama, então, essa alma, nele e com ele, com o próprio amor com que ele se ama.”

“Aprende a amar a Deus como ele quer ser amado.”

“Quando tiveres teus desejos apagados, tuas afeições na aridez e angústias, e tuas faculdades incapazes de qualquer exercício interior, não sofras por isso; considera-te feliz por estares assim. É Deus que te vai livrando de ti mesmo, e tirando-te das mãos todas as coisas que possuis.”

“O progresso da pessoa é maior quando ela caminha às escuras e sem saber”.

“À medida que Deus prova o espírito e o sentido, a pessoa vai adquirindo, com sofrimento, virtudes, forças e perfeição.”

“Enquanto a pessoa não se despojar de tudo, não terá capacidade para receber o Espírito de Deus em pura transformação.”

“O que busca satisfação em alguma coisa não está livre para que Deus o plenifique de seu inefável sabor.”

“Ainda que estejas no sofrimento, não queiras fazer a tua vontade, pois terás assim o dobro de sofrimento.”

“Quanto mais Deus quer-se dar, tanto mais desperta em nós o desejo dele, até deixar-nos vazios para encher-nos de seus bens.”

“A amplidão do deserto ajuda muito o espírito e o corpo. O Senhor se compraz quando também o espírito tem o seu deserto.”

“Sofrer por Deus é melhor que fazer milagres.”

“É humilde quem se esconde no seu nada e sabe abandonar-se em Deus.”

“Põe a atenção amorosamente em Deus, sem ambição de querer sentir ou entender coisa particular a seu respeito.”

“Quando a alma deseja a Deus com toda a sinceridade, já possui o seu Amado.”

“Abandone-se a alma nas mãos de Deus e não queira ficar em suas próprias mãos; fazendo assim e deixando livres as potências, caminhará segura.”

“Quem não busca a cruz de Cristo não busca a glória de Cristo.”

“Quando tiveres algum aborrecimento e desgosto, lembra-te de Cristo crucificado e cala.”

“Queres alguma palavra de consolação? Olha o meu Filho, submisso, humilhado, por meu amor, e verás quantas palavras te responde.”

“Não é bem orientado o espírito que quer caminhar por doçuras e facilidades, fugindo de imitar a Cristo.”

“A pessoa crucificada interior e exteriormente com Cristo viverá feliz e satisfeita e, na paciência, possuirá a sua alma.”

“Não te detenhas em coisas mesquinhas, nem repares nas migalhas que caem da mesa de teu Pai. Sai, e gloria-te em tua glória; esconde-te nela e aí goza, e alcançarás os pedidos de teu coração.”

“O amor é a união do Pai e do Filho: e assim é a união da alma com Deus.”

“Embora a alma tenha altíssimas revelações divinas, a mais elevada contemplação, a ciência de todos os mistérios… se lhe falta amor, de nada lhe servirá para unir-se a Deus.”

“Deus só coloca sua graça e predileção numa alma, na medida da vontade e do amor da mesma alma.”

“Quando a alma se acha livre e purificada de tudo, em união com Deus, nenhuma coisa poderá aborrecê-la. Daqui se origina para ela, neste estado, o gozo de uma contínua suavidade e tranqüilidade, que ela nunca perde nem jamais lhe falta.”

“Como a alma já possui, enfim, perfeito amor, é chamada Esposa do Filho de Deus.”

“Tal é a alma que está enamorada de Deus. Não pretende vantagem ou prêmio algum a não ser perder tudo e a si mesma, voluntariamente, por Deus, e nisto encontra todo o seu lucro.”

“Não basta que Deus que nos ame para dar-nos virtudes; é preciso que, de nossa parte, também o amemos, a fim de podermos recebê-las e conservá-las.”

“É próprio do perfeito amor nada querer admitir ou tomar para si, nem atribuir-se coisa alguma, mas tudo referir ao Amado. Se nos amores da terra é assim, quanto mais no amor de Deus.”

“Para Deus, amar a alma é, de certa maneira integrá-la em si mesmo, igualando-a consigo; ama, então, essa alma, nele e com ele, com o próprio amor com que se ama.”

“O olhar de Deus produz na alma quatro bens, isto é, a purificam, a favorecem, a enriquecem e a iluminam. É como o sol que, dardejando na terra os seus raios, seca, aquece, embeleza e faz resplandecer os objetos.”

“Não fujas dos sofrimentos, porque neles está a tua saúde.”

“Amado meu, tudo o que é difícil e trabalhoso o quero para mim, e tudo o que é suave e saboroso o quero para ti.”

“Na união com o Amado, a alma verdadeiramente se rejubila e louva a Deus, com o mesmo Deus, e assim este louvor é perfeitíssimo e muito agradável a ele.”

“Oh, que bens serão aqueles que gozaremos com o olhar da SANTÍSSIMA TRINDADE!”

“Deus quer mais de ti um mínimo de obediência e docilidade do que todas as ações que realizas por ele”.

“O falar distrai e o silêncio na ação leva ao recolhimento e dá força ao espírito.”

“Nenhuma representação ou imaginação serve de meio próximo para a união com Deus; portanto, deve a alma despojar-se de todas elas.”

“Aprendam a permanecer em Deus, com atenção amorosa, com calma, sem se preocuparem com a imaginação e com as imagens que ela forma. Assim, as faculdades descansam e não atuam; recebem passivamente a ação divina.”

“Grande mal é olhar mais para os bens de Deus do que para o próprio Deus. Ele pede oração e despojamento.”

“Ao que está desprendido, não lhe pesam cuidados, na hora da oração ou fora dela.”

“Para entrar no caminho do espírito (que é a contemplação) deve a pessoa espiritual deixar o caminho da imaginação e da meditação sensível.”

“O Senhor se comunica passivamente ao espírito, assim como a luz se comunica passivamente a quem não faz mais que abrir os olhos para recebê-la.”

“Suma da perfeição:  Esquecimento do criado,  memória do Criador,  atenção ao interior  e estar amando o Amado.”

“Olha que Deus só reina numa alma pacificada e desinteressada.”

“Deus está portanto escondido na alma e ali o há de buscá-lo com amor o bom contemplativo.”

“É pois de notar, que o amor é a inclinação da alma e a força e a virtude que ela tem para ir a Deus, por que é mediante o amor que a alma se une com Deus.”

“O afeto e o apego da alma à criatura torna-a semelhante a esta mesma criatura. Quanto maior a afeição, maior a identidade e semelhança, por que é próprio do amor tornar aquele que ama semelhante ao amado.”

“O centro da alma é Deus, e quando ela houver chegado a ele segundo toda a sua capacidade, atingirá o seu último e mais profundo centro, o que se verificará quando com todas as suas forças conhece e ama a Deus.”

“Uma transformação no Amado, na qual ambas as partes se cedem reciprocamente, transferindo cada uma a posse de si para a outra, com uma certa consumação de união amorosa, na qual a alma se torna divina e deus por participação.”

“Que mais queres, ó alma, e que mais buscas fora de ti, se encontras em teu próprio ser a riqueza, a satisfação, a fartura e o reino, que é teu Amado a quem procuras e desejas?”

“Em teu recolhimento interior, regozija-te com ele, pois ele está muito perto de ti.”

“A alma que verdadeiramente ama a Deus não deixa de fazer o que pode para achar o Filho de Deus, seu Amado. Mesmo depois de haver empregado todos os esforços, não se contenta e julga não ter feito nada.”

“Ó Senhor, Deus meu! Quem te buscará com amor tão puro e singelo que deixe de te encontrar, conforme o desejo de sua vontade, se és tu o primeiro a mostrar-te e a sair ao encontro daqueles que te desejam?”

“A alma que busca a Deus e permanece em seus desejos e comodismo, busca-o de noite, e, portanto, não o encontrará. Mas quem o busca através das obras e exercícios da virtude, deixando de lado seus gostos e prazeres, certamente o encontrará, pois o busca de dia.”

“Quando a pessoa abre e se liberta de todo condicionamento, e une perfeitamente sua vontade a de Deus, transforma-se naquele que lhe comunica o ser sobrenatural, de tal maneira que se parece com o próprio Deus e se deixa possuir totalmente por ele.”

“O amor consiste em despojar-se e desapegar-se, por Deus, de tudo o que não é ele.”

“A pessoa, cujo estado de perfeição não corresponde à sua própria capacidade, jamais gozará da verdadeira paz e satisfação, porque, em suas faculdades, não chegou ainda àquele grau de despojamento, que se requer para a simples união.”

“Nesta desnudez acha o espírito sua quietação e descanso, pois nada cobiçando, nada o fatiga para cima e nada o oprime para baixo, por estar no centro de sua humildade. Porque quando alguma coisa cobiça, nisto mesmo se cansa e atormenta.”

“Quanto mais a pessoa se aproxima de Deus, mais profundas são as trevas que sente, e maior a escuridão, por causa de sua própria fraqueza. Assim, quanto mais alguém se aproxima do sol, sentirá, com seu grande resplendor, maior obscuridade e sofrimento, em razão da fraqueza e incapacidade de seus olhos.”

“Quem não procura senão a Deus não anda nas trevas, por mais fraco e pobre que seja”.

“Todo poder e liberdade do mundo, comparados com a soberania e a independência do espírito de Deus, são completa servidão, angústia e cativeiro.”

“Deus é inacessível. Não repares, portanto, no que as tuas faculdades podem compreender, nem teus sentidos experimentar, para que não te satisfaças com menos e assim perderes a presteza necessária para chegar a ele.”

“As visões e apreensões dos sentidos não têm proporção alguma com Deus: não podem servir de meio para a união com ele.”

“Quando a pessoa ama alguma coisa fora de Deus, torna-se incapaz de se transformar nele e de se unir a ele.”

“A criatura atormenta, e o Espírito de Deus gera alegria.”

“A mosca que pousa no mel não pode voar; a alma que fica presa ao sabor do prazer sente-se impedida em sua liberdade e contemplação.”

“O caminho da vida é de muito pouco ativismo e barulho. Requer mais mortificação da vontade do que muito sabe. Caminhará mais quem carregar consigo menos coisas e desejos.”

“A fé e o amor são os dois guias de cego que te conduzirão, através de caminhos desconhecidos, até os segredos de Deus.”

“O caminho que conduz a vós, Senhor, é caminho santo que se percorre na pureza da fé.”

“A esperança em Deus só pode ser perfeita quando se afasta da memória tudo o que se contrapõe a Deus.”

“O amor não consiste em sentir grandes coisas, mas em despojar-se e sofrer pelo Amado.”

“Por causa de prazeres passageiros, sofrem-se grandes tormentos eternos.”

“Criatura alguma merece amor senão pelo bem que nela há. Amar desse modo é amar segundo a vontade de Deus e com grande liberdade; e se este amor nos une à criatura, mais fortemente ainda nos une ao Criador.”

“Quanto mais se acredita em Deus e se serve a ele sem testemunhos e sinais, tanto mais ele é exaltado pelo homem.”

“Para quem ama, a morte não pode ser amarga, pois nela se encontram todas as doçuras e alegrias do amor. Sua lembrança não é triste, mas traz alegria. Não apavora nem causa sofrimento, pois é o término de todas as dores e o início de todo bem.”

“Quando tiveres teus desejos apagados, tuas afeições na aridez e angústias, e tuas faculdades incapazes de qualquer exercício interior, não sofras por isso; considera-te feliz por estares assim. É Deus que te vai livrando de ti mesmo, e tirando-te das mãos todas as coisas que possuis.”

“O progresso da pessoa é maior quando ela caminha às escuras e sem saber.

“À medida que Deus prova o espírito e o sentido, a pessoa vai adquirindo, com sofrimento, virtudes, forças e perfeição.”

“Enquanto a pessoa não se despojar de tudo, não terá capacidade para receber o Espírito de Deus em pura transformação.”

“O que busca satisfação em alguma coisa não está livre para que Deus o plenifique de seu inefável sabor.”

“Ainda que estejas no sofrimento, não queiras fazer a tua vontade, pois terás assim o dobro de sofrimento.”

“Quanto mais Deus quer-se dar, tanto mais desperta em nós o desejo dele, até deixar-nos vazios para encher-nos de seus bens.”

“A amplidão do deserto ajuda muito o espírito e o corpo. O Senhor se compraz quando também o espírito tem o seu deserto.”

“Põe a atenção amorosamente em Deus, sem ambição de querer sentir ou entender coisa particular a seu respeito.”

“Quando a alma deseja a Deus com toda a sinceridade, já possui o seu Amado”.

“Abandone-se a alma nas mãos de Deus e não queira ficar em suas próprias mãos; fazendo assim e deixando livres as potências, caminhará segura.”

“Quem não busca a cruz de Cristo não busca a glória de Cristo.”

“Não é bem orientado o espírito que quer caminhar por doçuras e facilidades, fugindo de imitar a Cristo.”

“Se quiseres chegar a possuir Cristo, jamais o busques sem a cruz.”

“Não te detenhas em coisas mesquinhas, nem repares nas migalhas que caem da mesa de teu Pai. Sai, e gloria-te em tua glória; esconde-te nela e aí goza, e alcançarás os pedidos de teu coração.”

“O olhar de Deus é amar e conceder favores.”

“Quando a alma se acha livre e purificada de tudo, em união com Deus, nenhuma coisa poderá aborrecê-la. Daqui se origina para ela, neste estado, o gozo de uma contínua suavidade e tranqüilidade, que ela nunca perde nem jamais lhe falta.”

“O falar distrai e o silêncio na ação leva ao recolhimento e dá força ao espírito.”

“Nenhuma representação ou imaginação serve de meio próximo para a união com Deus; portanto, deve a alma despojar-se de todas elas.”

“Aprendam a permanecer em Deus, com atenção amorosa, com calma, sem se preocuparem com a imaginação e com as imagens que ela forma. Assim, as faculdades descansam e não atuam; recebem passivamente a ação divina.”

“Ao que está desprendido, não lhe pesam cuidados, na hora da oração ou fora dela”.

“Para entrar no caminho do espírito (que é a contemplação) deve a pessoa espiritual deixar o caminho da imaginação e da meditação sensível.”

“O Senhor se comunica passivamente ao espírito, assim como a luz se comunica passivamente a quem não faz mais que abrir os olhos para recebê-la.”

“É humilde quem se esconde no seu nada e sabe abandonar-se em Deus.”

“Não se contentar com o que diz o confessor é orgulho e falta de fé.”

“Sem o amor nada são todas as obras reunidas.”

“O mais leve movimento de uma alma animada de puro amor é mais proveitoso à Igreja do que todas as demais obras reunidas.”

“Meus são os Céus e minha é a Terra, meus são os homens, e os justos são meus; e meus são os pecadores. Os Anjos são meus, e a Mãe de Deus, todas as coisas são minhas. O próprio Deus é meu e para mim, pois Cristo é meu e todo para mim.” (Sobre a Eucaristia)

“Não faça coisa alguma, nem diga palavra alguma, que Cristo não faria ou não diria se encontrasse nas mesmas circunstâncias.”

“Nada peça a não ser a cruz, e precisamente sem consolação, pois isso é perfeito.”

“Renuncie aos desejos e encontrará o que seu coração deseja.”

“Quem se queixa ou murmura não é cristão perfeito, nem mesmo bom cristão.”

“Um coração puro encontra em tudo o conhecimento de Deus.”

“As criaturas são vestígios das pegadas de Deus, pelas quais se reconhece sua grandeza, poder e sabedoria.”

“Os incomensuráveis bens de Deus só podem ser acolhidos por um coração vazio.”

“O Verbo Filho de Deus, juntamente com o Pai e o Espírito Santo, está essencialmente e realmente escondido no íntimo de cada ser.”

“É em teu próprio ser que podes desejá-Lo e adorá-Lo – não o procures fora de ti porque te distrairás e cansarás. Não o encontrarás nem gozarás dele com maior segurança, nem mais depressa, nem mais de perto, do que dentro de ti mesmo.”

“O estado de união consiste na transformação total da vontade humana na divina, de modo que nela nada haja de contrário a essa vontade, mas seja sempre movida, em tudo, pela vontade de Deus. Por isso dizemos que, nesse estado, as duas vontades formam uma só – a de Deus.”

“Dar tudo pelo Tudo.”

“Quem souber morrer a tudo terá vida em tudo.”

“Para o homem de coração puro, tudo se transforma em mensagem divina.”

“Adquire-se a sabedoria através do amor, do silêncio e da mortificação; grande sabedoria é saber calar e não inserir-se em ditos ou fatos e na vida alheia.”

“A alma que quer que Deus se lhe entregue inteiramente, há de se entregar toda sem reservar nada para si.”

 

CÂNTICO ESPIRITUAL – Poesia

I

Onde é que te escondeste, Amado, e me deixaste com gemido? Como o cervo fugiste, Havendo‑me ferido; Saí, por ti clamando, e eras já ido.

II

Pastores que subirdes Além, pelas malhadas, ao Outeiro,  Se, porventura, virdes Aquele a quem mais quero, Dizei‑lhe: que adoeço, peno, e morro. III

Buscando meus amores, irei por estes montes e ribeiras; Não colherei as flores, nem temerei as feras, E passarei os fortes e fronteiras.

PERGUNTA ÀS CRIATURAS

IV 0 bosques e espessuras,  Plantados pela mão de meu Amado! ó prado de verduras, De flores esmaltado, Dizei‑me se por vós ele há passado!

RESPOSTA DAS CRIATURAS V

Mil graças derramando, Passou por estes soutos com presteza, E, enquanto os ia olhando, Só com sua figura A todos revestiu de formosura.

ESPOSA

VI

Quem poderá curar‑me?! Acaba de entregar‑te já deveras; Não queiras enviar‑me Mais mensageiro algum, Pois não sabem dizer‑me o que desejo.

VII

E todos quantos vagam, De ti me vão mil graças relatando, E todos mais me chagam; E deixa‑me morrendo Um “não sei quê”, que ficam balbuciando.

VIII

Mas como perseveras, Ó vida, não vivendo onde já vives? Se fazem com que morras  As flechas que recebes Daquilo que do Amado em ti concebes?

IX

Por que, pois, hás chagado Este meu coração, o não saraste? E, já que mo hás roubado, Por que assim o deixaste E não tomas o roubo que roubaste?

X

Extingue os meus anseios, Porque ninguém os pode desfazer; E vejam‑te meus olhos, Pois deles és a luz, E para ti somente os quero ter.

XI

Mostra tua presença! Mate‑me a tua vista e formosura; Olha que esta doença De amor jamais se cura, A não ser com a presença e com a figura.

XII

0 cristalina fonte, Se nesses teus semblantes prateados Formasses de repente Os olhos desejados Que tenho nas entranhas debuxados!

XIII

Aparta‑os, meu Amado, Que eu alço o vôo.

ESPOSO

Oh! volve‑te, columba, Que o cervo vulnerado No alto do outeiro assoma,  Ao sopro de teu vôo, e fresco toma.

ESPOSA

No Amado acho as montanhas, Os vales solitários, nemorosos,  As ilhas mais estranhas, Os rios rumorosos, E o sussurro dos ares amorosos;

XV

A noite sossegada, Quase aos levantes do raiar da aurora;  A música calada, A solidão sonora, A ceia que recreia e que enamora.

XVI

Caçai‑nos as raposas, Que está já toda em flor a nossa vinha; Enquanto estas rosas Faremos uma pinha, E ninguém apareça na colina!

XVII

Detém‑te, Aquilão morto! Vem, Austro, que despertas os amores: Aspira por meu horto, E corram seus olores, E o Amado pascerá por entre as flores.

XVIII

0 ninfas da Judéia, Enquanto pelas flores e rosais Vai recendendo o âmbar, Ficai nos arrabaldes E não ouseis tocar nossos umbrais.

XIX

Esconde‑te, Querido! Voltando tua face, olha as montanhas; E não queiras dizê‑lo, Mas olha as companheiras Da que vai pelas ilhas mais estranhas.

ESPOSO

XX

A vós, aves ligeiras,  Leões, cervos e gamos saltadores, Montes, vales, ribeiras, Águas, ventos, ardores, E, das noites, os medos veladores:

XXI

Pelas amenas liras E cantos de sereias, vos conjuro Que cessem vossas iras, E não toqueis no muro, Para a Esposa dormir sono seguro.

XXII

Entrou, enfim, a Esposa No horto ameno por ela desejado; E a seu sabor repousa, 0 colo reclinado Sobre os braços dulcíssimos do Amado.

XXIII

Sob o pé da macieira, Ali, comigo foste desposada; Ali te dei a mão, E foste renovada Onde a primeira mãe foi violada.

ESPOSA

XXIV

Nosso leito é florido, De covas de leões entrelaçado, Em púrpura estendido, De paz edificado, De mil escudos de ouro coroado.

XXV

Após tuas pisadas Vão discorrendo as jovens no caminho, Ao toque de centelha, Ao temperado vinho, Dando emissões de bálsamo divino.

ESPOSA

XXVI

Na interior adega Do Amado meu, bebi; quando saía, Por toda aquela várzea já nada mais sabia, E o rebanho perdi que antes seguia.

XXVII

Ali me abriu seu peito E ciência me ensinou mui deleitosa; E a ele, em dom perfeito, Me dei, sem deixar coisa, E então lhe prometi ser sua esposa.

XXVIII

Minha alma se há votado, Com meu cabedal todo, a seu serviço; já não guardo mais gado, Nem mais tenho outro ofício, Que só amar é já meu exercício.

XXIX

Se agora, em meio à praça,  já não for mais eu vista, nem achada,  Direis que me hei perdido, E, andando enamorada, Perdidiça me fiz e fui ganhada.

XXX

De flores e esmeraldas, Pelas frescas manhãs bem escolhidas Faremos as grinaldas Em teu amor floridas, E num cabelo meu entretecidas.

XXXI

Só naquele cabelo Que em meu colo a voar consideraste, ‑ Ao vê‑lo no meu colo, Nele preso ficaste, E num só de meus olhos te chagaste.

XXXII

Quando tu me fitavas, Teus olhos sua graça me infundiam;  E assim me sobreamavas, E nisso mereciam Meus olhos adorar o que em ti viam.

XXXIII

Não queiras desprezar‑me, Porque, se cor trigueira em mim achaste, já podes ver‑me agora, Pois, desde que me olhaste, A graça e a formosura em mim deixaste.

XXXIV

Eis que a branca pombinha Para a arca, com seu ramo, regressou; E, feliz, a rolinha 0 par tão desejado  já nas ribeiras verdes encontrou.

XXXV

Em solidão vivia, Em solidão seu ninho há já construído; E em solidão a guia, A sós, o seu Querido, Também na solidão, de amor ferido.

XXXVI

Gozemo‑nos, Amado! Vamo‑nos ver em tua formosura, No monte e na colina, Onde brota a água pura; Entremos mais adentro na espessura.

XXXVII

E, logo, as mais subidas Cavernas que há na pedra, buscaremos; Estão bem escondidas; E juntos entraremos, E das romãs o mosto sorveremos.

XXXVIII

Ali me mostrarias Aquilo que minha alma pretendia, E logo me darias, Ali, tu, vida minha, Aquilo que me deste no outro dia.

XXXIX

E o aspirar da brisa, Do doce rouxinol a voz amena, 0 souto e seu encanto, Pela noite serena, Com chama que consuma sem dar pena.

XL

Ali ninguém olhava; Aminadab tampouco aparecia; 0 cerco sossegava; Mesmo a cavalaria, Só à vista das águias, já descia.

 

NOITE ESCURA – Poesia

1. Em uma noite escura, De amor em vivas ânsias inflamadas,  Oh! ditosa ventura!  Saí sem ser notada,  Já minha casa estando sossegada.

2. Na escuridão, segura,  Pela secreta escada, disfarçada,  Oh! ditosa ventura!  Na escuridão, velada,  Já minha casa estando sossegada.

3. Em noite tão ditosa, E num segredo em que ninguém me via,  Nem eu olhava coisa,  Sem outra luz nem guia Além da que no coração me ardia.

4. Essa luz me guiava, Com mais clareza que a do meio-dia  Aonde me esperava  Quem eu bem conhecia, Em sítio onde ninguém aparecia.

5. Oh! noite que me guiaste, Oh! noite mais amável que a alvorada!  Oh! noite que juntaste  Amado com amada, Amada já no Amado transformada!

6. Em meu peito florido Que, inteiro, para ele só guardava,  Quedou-se adormecido,  E eu, terna, o regalava, E dos cedros o leque o refrescava.

7. Da ameia a brisa amena, Quando eu os seus cabelos afagava,  Com sua mão serena  Em meu colo soprava, E meus sentidos todos transportava,

8. Esquecida, quedei-me, O rosto reclinado sobre o Amado;  Tudo cessou. Deixei-me,  Largando meu cuidado Por entre as açucenas olvidado.

 

CHAMA VIVA DE AMOR – Poesia

“Oh! Chama de amor viva  que ternamente feres  De minha alma no mais profundo centro!  Pois não és mais esquiva,  Acaba já, se queres,  Ah! Rompe a tela deste doce encontro.

Oh! Cautério suave!  Oh! Regalada chaga!  Oh! Branda mão! Oh! Toque delicado  Que a vida eterna sabe,  E paga toda dívida!  Matando, a morte em vida me hás trocado.

Oh! Lâmpadas de fogo  Em cujos resplendores  As profundas cavernas do sentido, – que estava escuro e cego, – Com estranhos primores Calor e luz dão junto a seu Querido!

Oh! Quão manso e amoroso  Despertas em meu seio  Onde tu só secretamente moras:  Nesse aspirar gostoso,  De bens e glória cheio,  Quão delicadamente me enamoras!”

 

“ÊXTASE DE ALTA CONTEMPLAÇÃO”

Entrei aonde não soube e quedei-me não sabendo toda a ciência transcendendo.

Eu não soube aonde entrava, porém, quando me vi, sem saber onde estava, grandes coisas entendi; não direi o que senti, que me quedei não sabendo, toda a ciência transcendendo.

De paz e de piedade era a ciência perfeita, em profunda soledade entendida (via recta); era coisa tão secreta, que fiquei como gemendo, toda a ciência transcendendo.

Estava tão embevecido, tão absorto e alheado, que se quedou meu sentido de todo o sentir privado, e o espírito dotado de um entender não entendendo, toda a ciência transcendendo.

O que ali chega deveras de si mesmo desfalece; quanto mais sabia primeiro muito baixo lhe parece, e seu saber tanto cresce, que se queda não sabendo, toda a ciência transcendendo.

Quanto mais alto se sobe, tanto menos se entendia, como a nuvem tenebrosa que na noite esclarecia; por isso quem a sabia fica sempre não sabendo, toda a ciência transcendendo.

Este saber não sabendo é de tão alto poder, que os sábios discorrendo jamais o podem vencer, que não chega o seu saber a não entender entendendo, toda a ciência transcendendo.

E é de tão alta excelência aquele sumo saber, que não há arte ou ciência que o possam apreender; quem se soubera vencer com um não saber sabendo, irá sempre transcendendo.

E se o quiserdes ouvir, consiste esta suma ciência em um subido sentir da divinal Essência; é obra da sua clemência fazer quedar não entendendo, toda a ciência transcendendo. São João da Cruz.

Fonte: Obras Completas do Doutor Místico São João da Cruz. Coimbra, 1977.

 

CATEQUESE DO PAPA: SÃO JOÃO DA CRUZ, O “DOUTOR MÍSTICO”
Catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral desta quarta-feira, 16/02/2011.

***

Queridos irmãos e irmãs:

Há duas semanas, apresentei a figura da grande mística espanhola Teresa de Jesus. Hoje, eu gostaria de falar sobre outro importante santo dessa terra, amigo espiritual de Santa Teresa, reformador, ao lado de sua família religiosa carmelita: São João da Cruz, proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XI, em 1926, a quem a tradição apelidou de Doctor mysticus, “Doutor místico”.

João da Cruz nasceu em 1542, na pequena cidade de Fontiveros, perto de Ávila, em Castilla la Vieja, filho de Gonzalo de Yepes e Catalina Álvarez. Sua família era muito pobre, porque o pai, de origem nobre de Toledo, tinha sido expulso de casa e deserdado por ter se casado com Catalina, uma humilde tecelã de seda. Órfão de pai em tenra idade, João, aos 9 anos, mudou-se, com sua mãe e seu irmão Francisco, a Medina del Campo, perto de Valladolid, centro comercial e cultural. Lá, frequentou o Colegio de los Doctrinos, além de realizar trabalhos humildes para as freiras da igreja-convento de Madeleine. Posteriormente, dadas as suas qualidades humanas e seu desempenho na escola, foi admitido inicialmente como enfermeiro no Hospital de la Concepción, e mais tarde no Colégio dos Jesuítas, fundado em Medina del Campo: João entrou aos 18 anos e estudou, durante três anos, humanidades, retórica e línguas clássicas. No final da sua formação, teve muito clara sua própria vocação: a vida religiosa e, entre as muitas ordens presentes em Medina, sentiu-se chamado ao Carmelo.

No verão de 1563, iniciou o noviciado entre as Carmelitas da cidade, tomando o nome religioso de Matias. No ano seguinte, foi destinado à prestigiada Universidade de Salamanca, onde estudou por três anos filosofia e artes. Em 1567, foi ordenado sacerdote e voltou para Medina del Campo para celebrar sua primeira Missa, cercado pelo amor de sua família. E foi precisamente lá que teve lugar o primeiro contato entre João e Teresa de Jesus. O encontro foi crucial para ambos: Teresa explicou seu plano de reforma do Carmelo, também no ramo masculino, e sugeriu a João que se unisse a ela “para maior glória de Deus”; o jovem padre ficou fascinado pelas ideias de Teresa, chegando a se tornar um grande apoio para o projeto. Os dois trabalharam juntos alguns meses, compartilhando ideais e propostas para inaugurar, o mais breve possível, a primeira casa dos Carmelitas Descalços: a abertura ocorreu em 28 de dezembro de 1568, em Duruelo, lugar solitário da província de Ávila. Com João, formavam esta primeira comunidade masculina outros três companheiros. Ao renovar sua profissão religiosa segundo a Regra primitiva, os quatro adotaram um novo nome: João foi chamado “da Cruz”, nome com o qual seria depois universalmente conhecido. No final de 1572, a pedido de Santa Teresa, tornou-se confessor e vigário do mosteiro da Encarnação, em Ávila, onde a santa era priora. Foram anos de estreita colaboração e amizade espiritual, que enriqueceu ambos. Desse período datam também as mais importantes obras teresianas e os primeiros escritos de João.

A adesão à reforma carmelita não foi fácil e custou a João inclusive graves sofrimentos. O episódio mais dramático foi, em 1577, sua captura e reclusão no convento dos Carmelitas da Antiga Observância de Toledo, devido a uma acusação injusta. O santo permaneceu na prisão por seis meses, sujeito a privações e constrições físicas e morais. Aqui ele compôs, juntamente com outros poemas, o famoso “Cântico Espiritual”. Finalmente, na noite entre 16 e 17 de agosto de 1578, conseguiu fugir de maneira arriscada, refugiando-se no mosteiro das Carmelitas Descalças da cidade. Santa Teresa e seus companheiros reformados comemoraram sua libertação com imensa alegria e, após um curto período de tempo para recuperar as forças, João foi destinado a Andaluzia, onde passou dez anos em vários mosteiros, especialmente em Granada. Assumiu cargos cada vez mais importantes na Ordem, até se tornar Vigário Provincial, e completou a redação de seus tratados espirituais. Depois, ele voltou para sua terra natal, como membro do governo geral da família religiosa teresiana, que já gozava de plena autonomia legal. Morou no Carmelo de Segóvia, desempenhando o cargo de superior daquela comunidade. Em 1591, teve de deixar todas as responsabilidades, pois foi destinado à nova província religiosa do México. Enquanto se preparava para a longa viagem com outros dez companheiros, retirou-se a um mosteiro solitário, perto de Jaén, onde ficou gravemente doente. João enfrentou enormes sofrimentos com paciência e serenidade exemplares. Morreu na noite entre 13 e 14 de dezembro de 1591, enquanto seus irmãos recitavam o ofício matutino. Ele se despediu deles dizendo: “Hoje vou cantar o ofício no céu”. Seus restos mortais foram transferidos para Segóvia. Foi beatificado por Clemente X, em 1675, e canonizado por Bento XIII, em 1726.

João é considerado um dos maiores poetas líricos da literatura espanhola. Suas principais são “Subida ao Monte Carmelo”, “Noite escura da alma”, “Cântico Espiritual” e “Chama viva de amor”.

No “Cântico Espiritual”, São João apresenta o caminho de purificação da alma, ou seja, a progressiva possessão gozosa de Deus, até que a alma chegue a sentir que ama a Deus com o mesmo amor com que é amada por Ele. A “Chama viva de amor” continua nesta perspectiva, descrevendo mais detalhadamente o estado de união transformadora com Deus. O exemplo utilizado por João é sempre o do fogo, que quanto mais arde e consome a lenha, mais se torna incandescente, até converter-se em chama: assim é o Espírito Santo, que, durante a noite escura, purifica e “limpa” a alma e, ao longo do tempo, a ilumina e esquenta como se fosse uma chama. A vida da alma é uma contínua festa do Espírito Santo, que permite entrever a glória da união com Deus na eternidade.

A “Subida ao Monte Carmelo” apresenta o itinerário espiritual do ponto de vista da purificação progressiva da alma, necessária para escalar o cume da perfeição cristã, simbolizada pelo cume do Monte Carmelo. Esta purificação é proposta como um caminho que o homem empreende, em colaboração com a ação divina, para libertar a alma de todo apego ou afeto contrário à vontade de Deus. A purificação, que, para alcançar a união de amor com Deus, deve ser total, começa na via dos sentidos e prossegue com aquela que se obtém pelas três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, que purificam a intenção, a memória e a vontade.

A “Noite escura”, descreve o aspecto “passivo”, ou seja, a intervenção de Deus no processo de “purificação” da alma. O esforço humano, de fato, por si só é incapaz de chegar às raízes profundas das más inclinações e maus costumes da pessoa: pode freá-las, mas não desenraizá-las totalmente. Para fazê-lo, é necessária a ação especial de Deus, que purifica radicalmente o espírito e o dispõe para a união de amor com Ele. São João define esta purificação como “passiva”, justamente porque, mesmo que aceita pela alma, é realizada pela ação misteriosa do Espírito Santo, que, como uma chama de fogo, consome toda impureza. Neste estado, a alma está sujeita a todo tipo de provas, como se estivesse em uma noite escura.

Estas indicações sobre as principais obras do santo nos ajudam a chegar mais perto dos pontos sobressalentes de sua vasta e profunda doutrina mística, que tem como objetivo descrever um caminho seguro para chegar à santidade – o estado de perfeição ao qual Deus chama todos nós. De acordo com João da Cruz, tudo o que existe, criado por Deus, é bom. Através das criaturas, podemos chegar à descoberta d’Aquele que deixou nelas seu selo. A fé, porém, é a única fonte dada ao homem para conhecer a Deus como Ele é em si mesmo, como o Deus Uno e Trino. Tudo o que Deus queria comunicar ao homem, já disse em Jesus Cristo, o Verbo feito carne. Ele, Jesus Cristo, é o caminho único e definitivo até o Pai (cf. Jo 14,6). Qualquer coisa criada não é nada comparada com Deus e nada vale fora d’Ele; por conseguinte, para alcançar o amor perfeito de Deus, qualquer outro amor deve ser conformado, em Cristo, ao amor divino. Daí a insistência de São João da Cruz na necessidade da purificação e do esvaziamento interior para transformar-se em Deus, que é a única meta da perfeição. Esta “purificação” não é mera ausência física de coisas ou de sua utilização; o que torna a alma pura e livre, na verdade, é eliminar toda a dependência desordenada das coisas. Tudo deve ser colocado em Deus como centro e fim da vida. O longo e laborioso processo de purificação exige esforço pessoal, mas o verdadeiro protagonista é Deus: tudo que o homem pode fazer é “dispor-se” para estar aberto à ação divina e não colocar obstáculos a ela. Vivendo as virtudes teologais, o homem se eleva e dá valor ao seu próprio esforço. O ritmo de crescimento da fé, da esperança e da caridade segue o ritmo do trabalho de purificação e da progressiva união com Deus, até transformar-se n’Ele. Quando se alcança este objetivo, a alma mergulha na própria vida trinitária, de forma que São João diz que esta chega a amar a Deus com o mesmo amor com que Ele ama, porque a ama no Espírito Santo. Assim, o Doutor Místico sustenta que não há verdadeira união de amor com Deus se não culminar com a união trinitária. Neste estado supremo, a alma santa conhece tudo em Deus e já não deve passar pelas criaturas para chegar a Ele. A alma já se sente inundada pelo amor divino e regozija-se totalmente nele.

Queridos irmãos e irmãs, no final, a pergunta que não quer calar: este santo, com sua alta mística, com esse árduo caminho até o cume da perfeição, tem algo a dizer a nós, ao cristão normal que vive nas circunstâncias da vida hoje, ou é um exemplo, um modelo somente para algumas almas escolhidas que podem realmente empreender este caminho da purificação, da ascensão mística? Para encontrar a resposta, devemos primeiro observar que a vida de São João da Cruz não era um “voar pelas nuvens místicas”, senão que foi uma vida dura, muito prática e concreta, tanto como reformador da ordem, onde encontrou muitas oposições, quanto como superior provincial, ou na prisão dos seus irmãos na religião, onde foi exposto a insultos incríveis e agressões físicas. Foi uma vida dura, mas precisamente nos últimos meses na prisão, ele escreveu uma de suas obras mais belas. E assim entendemos que o caminho com Cristo, esse ir com Cristo, “o Caminho”, não é um peso adicional à carga já bastante difícil da nossa vida; não é algo que tornaria ainda mais pesado este fardo, e sim algo completamente diferente, é uma luz, uma força que nos ajuda a carregar esse peso. Se um homem tem em si um grande amor, este amor quase lhe dá asas, e então suporta mais facilmente todos os aborrecimentos da vida, porque carrega dentro de si esta grande luz; esta é a fé: ser amado por Deus e deixar-se amar por Deus em Cristo Jesus. Esse deixar-se amar é a luz que nos ajuda a carregar o peso de cada dia. E a santidade não é obra nossa, muito difícil, mas é precisamente esta “abertura”: abrir as janelas da nossa alma para que a luz de Deus possa entrar; não esquecer de Deus, porque precisamente na abertura à sua luz, encontramos força, a alegria dos redimidos. Oremos ao Senhor para que nos ajude a encontrar esta santidade, para que nos ajude a deixar-nos amar por Deus, já que esta é a vocação de todos nós e a verdadeira redenção. Obrigado.

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Há duas semanas apresentei a figura da grande mística espanhola Teresa de Jesus; hoje gostaria de falar de São João da Cruz, reformador junto com ela da Ordem Carmelita. Nasceu em uma família pobre, tendo ficado órfão de pai ainda jovem. Devido às suas qualidades humanas e resultados no estudo, foi admitido no Colégio dos Jesuítas em Medina do Campo. Terminada a sua formação, decidiu fazer-se Carmelita. Após ter sido ordenado sacerdote, conheceu Santa Teresa, a qual lhe expôs o plano reformador para a sua ordem religiosa, que daria origem aos Carmelitas Descalços. Contudo, a sua adesão à reforma, devido a injustiças e incompreensões, causou-lhe muito sofrimento. Por fim, depois de fazer parte do governo geral da família teresiana, morreu em 1591 [mil quinhentos e noventa e um], dizendo aos seus confrades que recitavam o Ofício Matutino: “Hoje vou cantar o Ofício no céu”. Suas principais obras, nas quais apresenta a sua profunda doutrina mística, são: Subida ao Monte Carmelo; Noite Escura; Cântico Espiritual e Chama viva de Amor.

Amados peregrinos de língua portuguesa: a todos saúdo cordialmente e recordo, com São João da Cruz, que a santidade não é privilégio de poucos, mas vocação a qual todo cristão é chamado. Por isso, exorto-vos a entrardes de modo sempre mais decidido no caminho de purificação do coração e da vida, para irdes ao encontro de Cristo. Somente nele jaz a verdadeira felicidade. Ide em paz!

Fonte: Zenit

 

DO CÂNTICO ESPIRITUAL, de São João da Cruz, Presbítero
(Red. B, str. 36-37, Edit. E. Pacho, S. Juan de la Cruz,  Obras completas, Burgos, 1982, p. 1124-1135)
(Sec. XVI)

Conhecimento do mistério escondido em Cristo Jesus

Embora os santos doutores tenham explicado muitos mistérios e maravilhas, e pessoas devotadas a esse estado de vida os conheçam, contudo, a maior parte desses mistérios está por ser enunciada, ou melhor, resta para ser entendida.

Por isso é preciso cavar fundo em Cristo, que se assemelha a uma mina riquíssima, contendo em si os maiores tesouros; nela por mais que alguém cave em profundidade, nunca encontra fim ou termo. Ao contrário, em toda cavidade aqui e ali novos veios de novas riquezas.

Por este motivo o apóstolo Paulo falou acerca de Cristo: Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência de Deus (Cl 2, 3). A alma não pode ter acesso a estes tesouros, nem consegue alcançá-los se não houver antes atravessado e entrado na espessura dos trabalhos, sofrendo interna e externamente e sem ter primeiro recebido de Deus muitos benefícios intelectuais e sensíveis e sem prévio e contínuo exercício espiritual.

Tudo isto é, sem dúvida, insignificante; são meras disposições para as sublimes profundidades do conhecimento dos mistérios de Cristo, a mais alta sabedoria a que se pode chegar nesta vida.

Quem dera reconhecessem os homens ser totalmente impossível chegar à espessura das riquezas e da sabedoria de Deus! Importa antes entrar na espessura das labutas, suportar muitos sofrimentos, a ponto de renunciar à consolação e ao desejo dela. Com quanta razão a alma, sedenta da divina sabedoria, escolhe antes em verdade entrar na espessura da cruz.

Por isso, São Paulo exortava os efésios a não desanimarem nas tribulações, a serem fortíssimos, enraizados e fundados na caridade, para que pudessem compreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura, a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento, a fim de serem cumulados até receber toda a plenitude de Deus (Ef 3, 17-19).

Já que a porta por onde se pode entrar até esta preciosa sabedoria é a cruz, e é porta  estreita, muitos são os que cobiçam as delícias que por ela se alcançam; pouquíssimos os  que desejam por ela entrar.

Para seguir Jesus é preciso mover-se

Sexta-feira, 13 de janeiro de 2017, Da Redação, com Rádio Vaticano

Na homilia de hoje, Papa falou da importância de seguir Jesus em vez de ficar parado apenas olhando, como faziam os escribas

Para seguir Jesus é preciso caminhar, não ficar com “alma sentada”, disse o Papa Francisco na Missa desta sexta-feira, 13, na Casa Santa Marta. Francisco destacou que a fé, se é autêntica, sempre faz correr riscos, mas dá a verdadeira esperança.

O povo segue Jesus por interesse ou por uma palavra de conforto. O Santo Padre se concentrou no Evangelho do dia para destacar que, mesmo se a pureza de intenção não é “total”, perfeita, é importante seguir Jesus, caminhar atrás Dele. As pessoas se sentiam atraídas por sua autoridade; pelas coisas que dizia e como dizia se fazia entender e também curava.

Algumas vezes, explicou o Papa, Jesus repreendia o povo que o seguia porque estava mais interessando em uma conveniência que na Palavra de Deus. Mas o Senhor se deixava seguir por todos, porque sabia que todos são pecadores. O problema maior era os que ficavam parados.

“Os parados! Aqueles que estavam à beira do caminho, olhavam. Ficavam sentados. Ficavam sentados lá alguns escribas: estes não seguiam, olhavam. Olhavam do balcão. Não iam caminhando na própria vida: ‘balconavam’ a vida! Justamente ali: não arriscavam nunca! Somente julgavam. Também os juízes eram fortes, não? Em seu coração: ‘que povo ignorante! Que gente supersticiosa!’ E quantas vezes também nós, quando vemos a piedade do povo simples, nos vem em mente aquele clericalismo que faz tanto mal à Igreja”.

Essas pessoas que seguiam Jesus não ficavam paradas, mas arriscavam para encontrá-Lo, para encontrar aquilo que queriam. O Papa citou como exemplo o caso da cananeia, da pecadora na casa de Simão e da Samaritana. Todas arriscaram e encontraram, a salvação.

“Seguir Jesus não é fácil, mas é belo! E sempre se arrisca (…) Seguir Jesus, porque precisamos de algo ou seguir Jesus arriscando e isso significa seguir Jesus com fé: esta é a fé. Confiar em Jesus. ‘Confio em Jesus, confio a minha vida a Jesus? Estou em caminho atrás de Jesus, mesmo se pareço ridículo às vezes? Ou estou sentado olhando como faziam os outros, olhando a vida, ou estou com a alma sentada – digamos assim – com a alma fechada para a amargura, a falta de esperança?’ Cada um de nós pode se fazer estas perguntas hoje”.

O homem precisa recobrar a visão da fé

Domingo, 28 de outubro de 2012, André Luiz / Da Redação

Bartimeu representa o homem que reconhece o seu mal, e grita ao Senhor com a confiança de ser curado.

O Papa Bento XVI presidiu, neste domingo, na Basílica de São Pedro, a Eucaristia que encerrou o Sínodo dos Bispos para a Nova Evangelização. Em sua homília, construída a partir da narrativa da cura do cego Bartimeu no Evangelho de São Marcos (Mc 10, 46-52), o Papa enfatizou a figura do cego como sendo a representação do homem moderno que, por vezes, perdeu a visão da fé e precisa reencontrá-la na pessoa de Jesus.

Bartimeu não era cego de nascença, mas perdeu a vista, diz o Papa. Ele simboliza o homem que perdeu a luz, tem consciência disso, mas ainda conserva em si a esperança de que alguém possa lhe trazer novamente a possibilidade de ver. E este alguém seria Jesus Cristo, luz do mundo e que tem o poder de restituir no homem a capacidade de ver.

Para o Papa, o primeiro passo é reconhecer-se cego. Ou seja, reconhecer-se necessitado de Deus, da sua cura, da sua luz. Do contrário, o homem permanece cego e miserável contentando-se com as pobres esmolas que o mundo paganizado lhe oferece.

Citando Santo Agostinho, o Papa observa que há riquezas invisíveis que o homem pode perder durante a vida. Os homens “perderam a orientação segura e firme da vida e tornaram-se, muitas vezes inconscientemente, mendigos do sentido da existência”, diz Bento XVI.

Esse homem que, segundo o Papa, tornou-se “mendigo do sentido da existência”, é o mais necessitado da Nova Evangelização que “pode voltar a abrir os seus olhos e ensinar-lhes a estrada.”

Ao falar da Nova Evangelização, Bento XVI, sublinhou três linhas pastorais que emergiram do Sínodo. São elas: Sacramentos da iniciação cristã; a missão ad gentes e o terceiro aspecto ligado às pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo.

“A Igreja procura lançar mão de novos métodos, valendo-se também de novas linguagens, apropriadas às diversas culturas do mundo, para implementar um diálogo de simpatia e amizade que se fundamenta em Deus que é Amor”, salientou o Papa, a respeito da necessidade de se viver uma evangelização que percorra caminhos renovados.

Bento XVI encerrou a homilia referindo-se ao cego Bartimeu que fez a experiência do encontro com Jesus Cristo e tornou-se discípulo do Mestre. Assim, terminou o Papa, “são os novos evangelizadores: pessoas que fizeram a experiência de ser curadas por Deus, através de Jesus Cristo. Eles têm como característica a alegria do coração, que diz com o Salmista: O Senhor fez por nós grandes coisas; por isso, exultamos de alegria (Sl 126/125, 3).”

 

Homilia do Papa: conclusão do XIII Sínodo dos Bispos
Venerados Irmãos,
Ilustres Senhores e Senhoras,
Amados irmãos e irmãs!

O milagre da cura do cego Bartimeu ocupa uma posição significativa na estrutura do Evangelho de Marcos. De fato, está colocado no fim da seção designada «viagem para Jerusalém», isto é, a última peregrinação de Jesus para a Cidade Santa, para a Páscoa em que, como Ele sabe, O aguardam a paixão, a morte e a ressurreição. Para subir a Jerusalém a partir do vale do Jordão, Jesus passa por Jericó, e o encontro com Bartimeu tem lugar à saída da cidade, «quando – observa o evangelista – [Jesus] ia a sair de Jericó com os seus discípulos e uma grande multidão» (10, 46), a mesma multidão que, dali a pouco, aclamará Jesus como Messias na sua entrada em Jerusalém. Precisamente na estrada estava sentado a mendigar Bartimeu, cujo nome significa «filho de Timeu», como diz o próprio evangelista. Todo o Evangelho de Marcos é um itinerário de fé, que se desenvolve gradualmente na escola de Jesus. Os discípulos são os primeiros atores deste percurso de descoberta, mas há ainda outros personagens que desempenham papel importante, e Bartimeu é um deles. A sua cura prodigiosa é a última que Jesus realiza antes da sua paixão, e não é por acaso que se trata da cura dum cego, isto é, duma pessoa cujos olhos perderam a luz. A partir de outros textos, sabemos também que a condição de cegueira tem um significado denso nos Evangelhos. Representa o homem que tem necessidade da luz de Deus – a luz da fé – para conhecer verdadeiramente a realidade e caminhar pela estrada da vida. Condição essencial é reconhecer-se cego, necessitado desta luz; caso contrário, permanece-se cego para sempre (cf. Jo 9, 39-41).

Situado naquele ponto estratégico da narração de Marcos, Bartimeu é apresentado como modelo. Ele não é cego de nascença, mas perdeu a vista: é o homem que perdeu a luz e está ciente disso, mas não perdeu a esperança, sabe agarrar a possibilidade deste encontro com Jesus e confia-se a Ele para ser curado. Na realidade, ouvindo dizer que o Mestre passa pela sua estrada, grita: «Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim!» (Mc 10, 47), e repete-o vigorosamente (v. 48) E quando Jesus o chama e lhe pergunta que quer d’Ele, responde: «Mestre, que eu veja!» (v. 51). Bartimeu representa o homem que reconhece o seu mal, e grita ao Senhor com a confiança de ser curado. A sua imploração, simples e sincera, é exemplar, tendo entrado na tradição da oração cristã da mesma forma que a súplica do publicano no templo: «Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador» (Lc 18, 13). No encontro com Cristo, vivido com fé, Bartimeu readquire a luz que havia perdido e, com ela, a plenitude da sua própria dignidade: põe-se de pé e retoma o caminho, que desde então tem um guia, Jesus, e uma estrada, a mesma que Jesus percorre. O evangelista não nos diz mais nada de Bartimeu, mas nele mostra-nos quem é o discípulo: aquele que, com a luz da fé, segue Jesus «pelo caminho» (v. 52).

Num dos seus escritos, Santo Agostinho observa um particular acerca da figura de Bartimeu, que pode ser interessante e significativo também hoje para nós. O santo Bispo de Hipona reflete sobre o fato de Marcos referir, neste caso, não só o nome da pessoa que é curada, mas também de seu pai, e chega à conclusão de que «Bartimeu, filho de Timeu, era um personagem decaído duma situação de grande prosperidade, e a sua condição de miséria devia ser universalmente conhecida e de domínio público, enquanto não era apenas cego, mas um mendigo que estava sentado na berma da estrada. Por esta razão, Marcos não o quis recordar só a ele, porque o facto de ter recuperado a vista conferiu ao milagre tão grande ressonância como grande era a fama da desventura que atingira o cego» (O consenso dos evangelistas, 2, 65, 125: PL 34, 1138). Assim escreve Santo Agostinho!

Esta interpretação de Bartimeu como pessoa decaída duma condição de «grande prosperidade» é sugestiva, convidando-nos a refletir sobre o fato que há riquezas preciosas na nossa vida que podemos perder e que não são materiais. Nesta perspectiva, Bartimeu poderia representar aqueles que vivem em regiões de antiga evangelização, onde a luz da fé se debilitou, e se afastaram de Deus, deixando de O considerarem relevante na própria vida: são pessoas que deste modo perderam uma grande riqueza, «decaíram» duma alta dignidade – não econômica ou de poder terreno, mas a dignidade cristã –, perderam a orientação segura e firme da vida e tornaram-se, muitas vezes inconscientemente, mendigos do sentido da existência. São as inúmeras pessoas que precisam de uma nova evangelização, isto é, de um novo encontro com Jesus, o Cristo, o Filho de Deus (cf. Mc 1, 1), que pode voltar a abrir os seus olhos e ensinar-lhes a estrada. É significativo que, no momento em que concluímos a Assembléia Sinodal sobre a Nova Evangelização, a Liturgia nos proponha o Evangelho de Bartimeu. Esta Palavra de Deus tem algo a dizer de modo particular a nós que nestes dias nos debruçamos sobre a urgência de anunciar novamente Cristo onde a luz da fé se debilitou, onde o fogo de Deus, à semelhança dum fogo em brasas, pede para ser reavivado a fim de se tornar chama viva que dá luz e calor a toda a casa.

A nova evangelização diz respeito a toda a vida da Igreja. Refere-se, em primeiro lugar, à pastoral ordinária que deve ser mais animada pelo fogo do Espírito a fim de incendiar os corações dos fiéis que frequentam regularmente a comunidade reunindo-se no dia do Senhor para se alimentarem da sua Palavra e do Pão de vida eterna. Aqui gostaria de sublinhar três linhas pastorais que emergiram do Sínodo. A primeira diz respeito aos Sacramentos da iniciação cristã. Foi reafirmada a necessidade de acompanhar, com uma catequese adequada, a preparação para o Baptismo, a Confirmação e a Eucaristia; e reiterou-se também a importância da Penitência, sacramento da misericórdia de Deus. É através deste itinerário sacramental que passa o chamamento do Senhor à santidade, que é dirigido a todos os cristãos. Na realidade, várias vezes se repetiu que os verdadeiros protagonistas da nova evangelização são os santos: eles falam, com o exemplo da vida e as obras da caridade, uma linguagem compreensível a todos.

Em segundo lugar, a nova evangelização está essencialmente ligada à missão ad gentes. A Igreja tem o dever de evangelizar, de anunciar a mensagem da salvação aos homens que ainda não conhecem Jesus Cristo. No decurso das próprias reflexões sinodais, foi sublinhado que há muitos ambientes em África, na Ásia e na Oceânia, onde os habitantes aguardam com viva expectativa – às vezes sem estar plenamente conscientes disso – o primeiro anúncio do Evangelho. Por isso, é preciso pedir ao Espírito Santo que suscite na Igreja um renovado dinamismo missionário, cujos protagonistas sejam, de modo especial, os agentes pastorais e os fiéis leigos. A globalização provocou um notável deslocamento de populações, pelo que se impõe a necessidade do primeiro anúncio também nos países de antiga evangelização. Todos os homens têm o direito de conhecer Jesus Cristo e o seu Evangelho; e a isso corresponde o dever dos cristãos – de todos os cristãos: sacerdotes, religiosos e leigos – de anunciarem a Boa Nova.

Um terceiro aspecto diz respeito às pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo. Durante os trabalhos sinodais, foi posto em evidência que estas pessoas se encontram em todos os continentes, especialmente nos países mais secularizados. A Igreja dedica-lhes uma atenção especial, para que encontrem de novo Jesus Cristo, redescubram a alegria da fé e voltem à prática religiosa na comunidade dos fiéis. Para além dos métodos tradicionais de pastoral, sempre válidos, a Igreja procura lançar mão de novos métodos, valendo-se também de novas linguagens, apropriadas às diversas culturas do mundo, para implementar um diálogo de simpatia e amizade que se fundamenta em Deus que é Amor. Em várias partes do mundo, a Igreja já encetou este caminho de criatividade pastoral para se aproximar das pessoas afastadas ou à procura do sentido da vida, da felicidade e, em última instância, de Deus. Recordamos algumas missões urbanas importantes, o «Átrio dos Gentios», a missão continental, etc.. Não há dúvida que o Senhor, Bom Pastor, abençoará abundantemente estes esforços que nascem do zelo pela sua Pessoa e pelo seu Evangelho.

Queridos irmãos e irmãs, Bartimeu, uma vez obtida novamente a vista graças a Jesus, juntou-se à multidão dos discípulos, entre os quais havia seguramente outros que, como ele, foram curados pelo Mestre. Assim são os novos evangelizadores: pessoas que fizeram a experiência de ser curadas por Deus, através de Jesus Cristo. Eles têm como característica a alegria do coração, que diz com o Salmista: «O Senhor fez por nós grandes coisas; por isso, exultamos de alegria» (Sal 126/125, 3). Com jubilosa gratidão, hoje também nós nos dirigimos ao Senhor Jesus, Redemptor hominis e Lumen gentium, fazendo nossa uma oração de São Clemente de Alexandria: «Até agora errei na esperança de encontrar Deus, mas porque Vós me iluminais, ó Senhor, encontro Deus por meio de Vós, e de Vós recebo o Pai, torno-me herdeiro convosco, porque não Vos envergonhastes de me ter por irmão. Cancelemos, portanto, cancelemos o esquecimento da verdade, a ignorância; e, removendo as trevas que nos impedem de ver como a névoa nos olhos, contemplemos o verdadeiro Deus…; já que, sobre nós sepultados nas trevas e prisioneiros da sombra da morte, brilhou uma luz do céu [luz] mais pura que o sol, mais doce que a vida nesta terra» (Protrettico, 113, 2–114, 1). Amém.

A festa litúrgica de Nossa Senhora de Guadalupe

Terça-feira, 12 de dezembro de 2017, Da Redação, com Boletim da Santa Sé

Padroeira de toda a América é celebrada hoje; Missa com o Papa marcou a festividade litúrgica

O Papa Francisco presidiu nesta terça-feira, 12, a Santa Missa na Basílica Vaticana por ocasião da Festa Litúrgica de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira de toda a América. Em sua homilia, ele destacou a riqueza da diversidade cultural da América Latina e a necessidade de valorização desses povos.

Francisco iniciou a homilia falando do prefácio do Magnificat, que ele gosta de chamar de “cântico de Isabel” ou “cântico da fecundidade”. Isabel sob o sinal de esterilidade e da fecundidade foram justamente os dois pontos que o Pontífice destacou. Na época, a esterilidade era considerada um castigo divino, fruto do próprio pecado ou do esposo. “Imaginemos por um instante os olhares de seus familiares, dos vizinhos, dela mesma, esterilidade que vai fundo e termina paralisando toda a vida”.

A esterilidade, segundo o Papa, pode tomar muitos nomes e formas cada vez que uma pessoa sente em sua carne a vergonha, às vezes estigmatizada por sentir-se de pouco valor. Isso se vislumbra no índio Juan Diego – a quem apareceu a Virgem de Guadalupe – , quando diz a Maria: “eu em verdade não valho nada”, “sou submetido a sombras e cargos alheios, é o meu paradeiro, não posso ir além daquilo que te dignas enviar-me”.

Esse sentimento também pode estar nas comunidades indígenas e afroamericanas, que em muitas ocasiões não são tratadas com dignidade e igualdade de condições, ou ainda nos pobres, desempregados, migrantes, mulheres excluídas em razão do sexo ou condição socioeconômica.

Mas junto a Isabel estéril contempla-se também Isabel a mulher fecunda, observou o Santo Padre. Ela que não podia ter filhos carregou em seu seio o precursor da salvação. “Nela entendemos que o sonho de Deus não é nem será a esterilidade nem estigmatizar ou encher de vergonha seus filhos, mas fazer brotar neles e deles um canto de louvor”.

Em meio à dialética de fecundidade-esterilidade, o Papa convidou a olhar para a riqueza da diversidade cultural dos povos da América Latina e Caribe. É um sinal da grande riqueza que deve ser não só cultivada, mas defendida de toda tentativa homogenizadora que acaba impondo um único modo de pensar, de ser, de sentir e de viver, especialmente aos jovens. A fecundidade, destacou Francisco, exige defender os povos de uma colonização ideológica que apaga o mais rico deles, sejam indígenas, afroamericanos, mestiços, camponeses ou suburbanos.

“A Mãe de Deus é imagem da Igreja e dela queremos aprender a ser Igreja com rosto mestiço, com rosto indígena, afroamericano, rosto camponês, rosto cola, ala, cacaxtle. Rosto pobre, de desempregado, de menino e menina, idoso e jovem para que ninguém se sinta estéril nem infecundo, para que ninguém se sinta envergonhado ou pouca coisa. Mas, ao contrário, para que cada um igual a Isabel e Juan Diego possa sentir-se portador de uma promessa, de uma esperança”.

A Festa da Virgem de Guadalupe

Padroeira da América Latina

Sexta-feira, 12 de dezembro de 2014, André Cunha / Da redação

Francisco disse que, ao aparecer no México, Maria assumiu em si a simbologia cultural e religiosa dos indígenas

Numa cerimônia atípica na Basílica de São Pedro, em Roma, o Papa Francisco presidiu a Missa da Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina, nesta sexta-feira, 12.

A Missa foi celebrada em espanhol e português; o coral entoou cantos em ritmos latinos, com instrumentos musicais típicos da região, diferente do que comumente se vê na basílica vaticana.

Na homilia, Francisco disse que o trecho do salmo “Manifestai a sua glória entre as nações” expressa o desejo profundo dos que celebram esta festa. “São os povos e as nações de nossa Pátria Grande latino-americana os que hoje comemoram com gratidão e alegria a festividade de sua padroeira, Nossa Senhora de Guadalupe, cuja devoção se estende desde o Alasca até a Patagônia”.

Ele recordou a aparição da Virgem Maria no México, “que assumiu em si a simbologia cultural e religiosa dos indígenas”, e afirmou que esta manifestação trouxe grande esperança aos povos da América Latina.

“A Santa Mãe de Deus não só visitou este povo, mas quis também ficar com ele. Deixou estampada misteriosamente sua sagrada imagem no manto de seu mensageiro [Juan Diego] para que a tivéssemos bem presente, fazendo-se símbolo da aliança de Maria com estes povos, a quem dá alma e ternura”, disse o Papa.

A intercessão de Maria, segundo o Santo Padre, transformou a fé cristã no “tesouro mais rico” do povo americano, “cuja pedra preciosa é Jesus Cristo, que se transmite até hoje por meio do batismo de multidões de pessoas”.

Recordando o “Magnificat” e as “bem-aventuranças”, o Papa desejou que o futuro da América Latina seja construído em favor dos pobres, dos que sofrem, dos humildes, dos que tem fome e sede de Justiça; pelos compassivos, pelos de coração puro, pelos que trabalham pela paz e pelos perseguidos por causa do nome de Cristo.

“Fazemos esta oração porque a América Latina é o ‘continente da esperança’, porque dela se esperam novos modelos de desenvolvimento que unam a tradição cristã e o progresso civil, justiça e equidade com a reconciliação, desenvolvimento científico e tecnológico com a sabedoria humana, sofrimento fecundo com alegria cheia de esperança”, destacou.

Por fim, o Sumo Pontífice pediu a intercessão de Maria – “a Mãe de Deus, a Rainha, a minha Senhora, a minha jovenzinha, a minha pequena, como a chamou São Juan Diego” – para que continue companhando, auxiliando e protegendo o povo latino-americano.

Maria acompanha o caminho dos seus filhos

Nossa Senhora de Guadalupe

“Celebra-se a festa de Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira de toda a América. Aproveito o ensejo para saudar os irmãos e irmãs daquele Continente, e faço-o pensando na Virgem de Tepeyac. Quando apareceu a Juan Diego, o seu rosto era mestiço e as suas vestes, cheias de símbolos da cultura indígena.

Seguindo o exemplo de Jesus, Maria está ao lado dos seus filhos, acompanha o seu caminho como mãe atenciosa, partilha as alegrias e esperanças, os sofrimentos e as angústias do Povo de Deus, do qual todos os povos da terra são chamados a fazer parte.

A aparição da imagem da Virgem no manto de Juan Diego foi o sinal profético de um abraço, o abraço de Maria a todos os habitantes das vastas terras americanas, a quantos já estavam ali e aos que teriam chegado depois. Este abraço de Maria indicou a senda que sempre caracterizou a América: é uma terra onde podem conviver povos diversos, uma terra capaz de respeitar a vida humana em todas as suas fases, desde o ventre materno até à velhice, capaz de acolher os emigrantes, os povos, os pobres e os marginalizados de todas as épocas.

A América é uma terra generosa. Esta é a mensagem de Nossa Senhora de Guadalupe e também a minha mensagem, a mensagem da Igreja. Encorajo todos os habitantes do Continente americano a manter os braços abertos como a Virgem Maria, com amor e ternura. Caros irmãos e irmãs da América inteira, rezo por todos vós, mas também vós orai por mim! Que a alegria do Evangelho esteja sempre nos vossos corações! O Senhor vos abençoe e a Virgem vos acompanhe!”

Pio X proclamou Nossa Senhora de Guadalupe como “Padroeira de toda a América Latina”; Pio XI como “Padroeira de todas as “Américas”; Pio XII a chamou “Imperatriz das Américas” e João XXIII “A Missionária Celeste do Novo Mundo” e “Mãe das Américas”.

Papa Francisco

Amizade: caminho para Deus

Ser amigo implica querer que o outro seja amigo de Cristo

A amizade é o melhor bem humano. Vale mais que as riquezas, o poder, a ciência ou as honras. A amizade é o amor que se tem por uma pessoa em razão dela mesma, do que ela é, independente das vantagens ou desvantagens que ela possa nos proporcionar. Além disso, a amizade é o caminho para chegar a Deus.

Ser amigo é relação e também virtude que consiste na firme vontade de querer e procurar o bem do outro. A amizade acontece quando duas pessoas querem e procuram, reciprocamente, o bem do outro. Para ter amigos, para estabelecer relações de amizade, é necessário, primeiro, adquirir a virtude da amizade.

Hoje, costuma-se usar a palavra amizade somente no que diz respeito às relações que se têm com pessoas que não são da família, mas este é um conceito limitado. O amor da amizade é, pelo contrário, o amor que caracteriza a vida familiar, na qual as pessoas convivem e se amam por si mesmas. A família se constitui a partir da amizade conjugal, porque implica o compromisso recíproco de procurar o bem integral do outro por toda a vida. A vida familiar dá lugar às outras relações de amizade, algumas entre desiguais, como a amizade paterna ou a amizade filial, e outra entre iguais, como a amizade fraternal.

A amizade com pessoas que não são da família tem a mesma essência que a amizade familiar. Os amigos querem e procuram o bem do amigo, a quem consideram valioso por si mesmo, por ser quem são, independentemente de qualquer utilidade ou vantagem que possa proporcionar.

Quem tem fé em Cristo e sabe que Ele é o amigo por excelência, Aquele que quer e procura o nosso bem mais do que ninguém, mais que nós mesmos. Jesus deu sua vida por todos nós, a fim de que todos possamos alcançar a felicidade eterna. Queira, naturalmente, que seus amigos sejam também amigos de Cristo. Por isso, para um cristão ser amigo implica querer que o outro também seja amigo do Senhor.

Esse é o apostolado da amizade que ensinou São Josemaria Escrivá. Não se trata de ganhar adeptos nem de crescimento de um grupo, muito menos de manipular as pessoas para que sirvam a fins políticos, econômicos ou de qualquer outra natureza. Ser apóstolo, ensinava ele, é ser amigo primeiro de Cristo e, em seguida, de todas as pessoas com quem convive: familiares, amigos da escola, companheiros de trabalho, clientes, fornecedores, vizinhos, sócios e, em geral, qualquer pessoa com quem ele conviva. Àqueles amigos que queremos bem, convidamos e ajudamos para que sejam amigos de Cristo. Se o amigo recusa o convite, a amizade permanece, porque o amigo é querido por si mesmo, mas se aceita o convite, então a amizade se fortalece, porque ambos são amigos do Amigo.

Termino com umas palavras que o Papa emérito Bento XVI dirigiu a um numeroso grupo de jovens, em Roma, durante o Congresso Universitário – UNIV, em abril de 2006: “quem descobriu a Cristo não pode deixar de levar os demais até Ele, uma vez que não é possível guardar para si uma grande alegria sem comunicá-la. Esta é a tarefa a que os chama o Senhor, este é o ‘apostolado da amizade’ que São Josemaria descreve como ‘amizade pessoal’, sacrificada, sincera, de tu a tu, de coração a coração”. Todo cristão está convidado a ser amigo de Deus e, com Sua graça, atrair para Ele seus próprios amigos. O amor apostólico converte-se, deste modo, em uma autêntica paixão que se expressa comunicando aos demais a felicidade que se encontra em Jesus”.

Jorge Adame Goddard
http://www.opusdei.org.br

A esperança do Oriente

Olha para o Cristo, vai ao Seu encontro!

Na segunda leitura (Fl 1,4-6.8-11) da Liturgia da Palavra do II Domingo do Advento, por duas vezes São Paulo refere-se ao Dia de Cristo: “Aquele que começou em vós uma boa obra, há de levá-la à perfeição até ao Dia de Cristo”; “que o vosso amor cresça sempre mais, em todo o conhecimento e experiência, para discernirdes o que é melhor. Assim ficareis puros e sem defeito para o Dia de Cristo”. Para este Dia de Cristo, estamos nos preparando no santo Tempo do Advento.

Dia de Cristo é o Natal; Dia de Cristo é o “todo-dia”, quando sabemos reconhecer suas visitas; Dia de Cristo será a sua Vinda gloriosa no final dos tempos. Quem celebra piedosamente o Dia de Cristo no Natal e é atento pela vigilância ao Dia de Cristo de “todo-dia”, estará pronto na perfeição do amor, estará puro e sem defeito para o Dia de Cristo no final dos tempos!

É certo que não poderemos fugir do Cristo Jesus: diante dele todos nós estaremos um dia porque através dele e para ele fomos criados e somente nele nossa existência chegará à sua plenitude. A liturgia ilustra ainda de modo comovente a situação da humanidade e também a situação da Igreja, pequeno resto peregrino e acabrunhado sobre esta terra: trata-se de uma humanidade sofrida, de uma Igreja em exílio, mas que será consolada pelo Senhor. Recordemos a palavra de Baruc (Br 5,1-9) profeta “Despe, ó Jerusalém, a veste de luto e de aflição, e reveste, para sempre, os adornos da glória vinda de Deus!” Que belo convite, que sonho, que felicidade!

Pensemos na nossa vida, pensemos nas ânsias da Mãe Igreja, e alegremo-nos com o consolo que Deus nos promete! “Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e põe na cabeça o diadema da glória do Eterno. Deus mostrará teu esplendor, ó Jerusalém, a todos os que estão debaixo do céu!” Vede, o nosso Deus como é: um Deus que promete, um Deus que abre a estrada da esperança, um Deus que consola, um Deus que nos prepara um futuro de bênção, de paz e de vida! Mas, quando será esta paz, de onde virá? Escutai, caríssimos: “Levanta-te, Jerusalém – levanta-te, irmão; levanta-te, irmã! Levanta-te, Mãe católica! – põe-te no alto e olha para o Oriente!” O Oriente, é o lugar da luz, o lado no qual o sol nasce e o dia começa; o Oriente é o próprio Cristo Jesus! Olhar para o Oriente é esperar o Dia de Cristo, o Dia sem fim, a Luz que não tem ocaso!

Quem caminha sem olhar o Oriente, caminha sem saber para onde vai; quem avança noutra direção, não caminha para a luz, mas vai ao encontro das trevas: “des-orienta-se”! “Levanta-te, põe-te no alto e olha para o Oriente!” Olha para o Cristo, vai ao seu encontro! Então, tu verás a salvação de Deus; tu experimentarás que o Senhor não é Deus de longe, mas de perto; tu experimentarás o quanto o Senhor é capaz de consolar o que chorava, de acalmar o que estava aflito, de reconduzir o transviado: “Vê teus filhos reunidos pela voz do Santo, desde o poente até o levante, jubilosos por Deus ter-se lembrado deles. Deus ordenou que se abaixassem todos os altos montes e as colinas eternas, e se enchessem os vales, para aplainar a terra, a fim de que Israel sua Igreja santa, seu povo eleito, caminhe com segurança sob a glória de Deus!”

Vede, é de paz que o Senhor nos fala, é a salvação que nos promete! Se agora lançarmos as sementes da vida entre lágrimas, haveremos de colher com alegria; se agora muitas vezes na tristeza formos espalhando as sementes, um dia, no Dia de Cristo, nosso Oriente bendito, com alegria voltaremos carregados com os frutos em feixes! As promessas do Senhor, fazem-nos compreender que nossa vida tem sentido, que tudo quanto nos acontece pode e deve ser vivido à luz de Deus! Uma das grandes misérias do nosso tempo é a solidão humana. Não se trata de uma solidão qualquer, mas de uma sensação mortal de viver a vida diante de ninguém, de caminhar a lugar nenhum, de gastar energia e sonho para produzir vazio… Mas, quando voltamos o rosto para o Oriente, quando nos deixamos banhar por sua luz que, como uma aurora bendita já começa a difundir seus raios, então tudo se enche de paz e de alegria, porque tudo ganha um novo sentido!

Portanto, no Senhor, pensai na vossa vida concreta, nas vossas semanas e dias feitos de experiências bem reais e miúdas… Pois bem, Deus, em Cristo, visita a nossa vida! São Lucas (Lucas 3,1-6)) ao narrar o aparecimento de João Batista, o precursor do Messias, começa mostrando como a palavra do Senhor, como a sua salvação nos atinge e nos encontra bem no concreto de nossa vida, no nosso aqui e no nosso agora.

A salvação não é um mito, a vinda do Senhor até nós não é uma estória de trancoso… Escutai como é concreta a sua vinda, como tem uma história e uma geografia: “No décimo quinto ano do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes administrava a Galiléia, seu irmão Filipe, as regiões da Ituréia e Traconítide, e Lisânias, a Abilene; quando Anás e Caifás eram sumo sacerdotes, foi então que a palavra de Deus foi dirigida a João, o filho de Zacarias, no deserto.” Vede, irmãos, e compreendei: a Palavra de Deus vem nós num “quando” e num “onde”.

O “quando” é hoje, agora, neste período da nossa vida; o “onde” é aí onde você vive: na sua casa, no seu trabalho, nas suas relações, nos seus conflitos! É neste agora e neste aqui, neste “quando” e neste “onde” que Deus vem ao nosso encontro em Cristo Jesus! E o que devemos fazer para acolhê-lo? Como devemos proceder para que não venha na os em vão? Como agir para que a sua luz nos possa iluminar? Escutai ainda o Evangelho: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas; as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados serão aplainados. E toda carne verá a salvação de Deus”.

Vê, é de ti que o Senhor fala; é à tua vida que ele se refere: queres ver a luz do Oriente? Queres dirigir-te para o Dia eterno? Queres realmente estar pronto para o Dia de Cristo no Natal, no “todo-dia” e no Último Dia? Então, endireita agora teus caminhos, abaixa as montanhas da soberba e do orgulho, aterá os vales do medo, da covardia e do vão temor, e endireita as tortuosas estradas de teus vícios e de teus pecados! Aí sim, tu e toda carne verão a salvação de Deus: na celebração do Natal vamos vê-la reclinada num pobre presépio, no “todo-dia” vamos experimentá-la de tantos modos e em tantos momentos e, no Último Dia, Dia de Cristo, iremos vê-la face a face como eterna delícia, alegria sem fim e vida imperecível!

Vamos, irmãos, caminhemos com fé ao encontro do Senhor! E para que o nosso caminho não seja sem rumo e em vão, endireitemos desde agora as estradas de nossa vida! Levantemo-nos, ponhamo-nos no alto da virtude e vejamos: vem a nós a alegria do nosso Deus! A ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

Dom Henrique Soares da Costa
http://www.domhenrique.com.br

Abrir caminhos de esperança no deserto dos corações áridos

De Mariangela Jaguraba

Cidade do Vaticano – O Papa Francisco rezou a oração mariana do Angelus, neste II Domingo de Advento (10/12), com os fiéis e peregrinos presentes na Praça São Pedro.

Na alocução que precedeu a oração, o Pontífice recordou que no domingo passado, “iniciamos o Advento com o convite a vigiar”, e “neste segundo domingo desse tempo de preparação ao Natal, a liturgia nos indica os seguintes conteúdos: é um tempo para reconhecer os vazios a serem preenchidos em nossa vida, para aplainar as asperezas do orgulho e criar espaço para Jesus que vem”.

“O Profeta Isaías se dirige ao povo anunciando o fim do Exílio na Babilônia e o retorno a Jerusalém. Ele profetiza: «Grita uma voz: Preparai no deserto o caminho do Senhor […]. Nivelem-se todos os vales». Os vales a serem nivelados representam todos os vazios do nosso comportamento diante de Deus, todos os nossos pecados de omissão.”

“O vazio em nossa vida pode ser porque não rezamos ou rezamos pouco. O Advento é o momento favorável para rezar com mais intensidade, para reservar à vida espiritual o lugar importante que lhe cabe. Outro vazio pode ser a falta de caridade para com o próximo, sobretudo em relação às pessoas que precisam de ajuda não só material, mas também espiritual. Somos chamados a prestar mais atenção às necessidades dos outros, estar mais próximos. Desta forma, como João Batista, poderemos abrir caminhos de esperança no deserto dos corações áridos de muitas pessoas.”

“Rebaixem-se todos os montes e colinas”, exorta ainda Isaías.

“Os montes e as colinas que devem ser rebaixados são o orgulho, a soberba e a prepotência. Onde existe orgulho, prepotência e soberba o Senhor não pode entrar, pois o coração está cheio de orgulho, prepotência e soberba. Devemos assumir comportamentos de mansidão e humildade, sem repreender, mas ouvir, falar com mansidão e assim preparar a vinda de nosso Salvador que é manso e humilde de coração. Depois, somos convidados a eliminar todos os obstáculos que colocamos em nossa união com o Senhor: “O terreno acidentado se torne plano e alisem-se as asperezas. A glória do Senhor então se manifestará, e todos os homens juntos irão vê-la”, diz Isaías.

Segundo o Papa, “essas ações devem ser realizadas com alegria, porque são finalizadas à preparação da chegada de Jesus. Quando esperamos em casa a visita de uma pessoa querida, organizamos tudo com carinho e felicidade. Devemos fazer o mesmo para a vinda do Senhor: esperá-lo a cada dia com solicitude, para ser preenchidos com a sua graça quando Ele vier”.

Francisco sublinhou que no Evangelho, João Batista representa a figura da “voz que grita no deserto”, anunciada pelo Profeta Isaías.

“O Salvador que esperamos é capaz de transformar a nossa vida com a sua graça, com força do Espírito Santo, com a força do amor. O Espírito Santo derrama em nossos corações o amor de Deus, fonte inexaurível de purificação, de vida nova e liberdade. A Virgem Maria viveu plenamente esta realidade, deixando-se “batizar” pelo Espírito Santo que a encheu de sua força. Ela, que preparou a vinda de Cristo com a totalidade de sua existência, nos ajude a seguir seu exemplo e guie os nossos passos para o encontro com o Senhor que vem.”

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