Homilia da Semana

Papa Francisco fala aos jovens na Vigília JMJ

27/07/2013 

Queridos Jovens

Recentemente, lembrou-se da história de São Francisco de Assis. Diante do crucifixo, ele ouve a voz de Jesus que diz: “Vai, Francisco, e repara a minha casa.” E o jovem Francis responde prontamente e generosamente a este chamado do Senhor, reparar a sua casa. Mas que casa? Aos poucos, ela percebe que era para reparar um edifício pedreiro e pedra, mas de dar a sua contribuição para a vida da Igreja, que foi colocado a serviço da Igreja, amando e trabalhando para você ela cada vez mais refletir o rosto de Cristo.

Também hoje o Senhor continua a exigir os jovens para a Igreja. Também hoje chama cada um de vocês para seguir em sua Igreja e para serem missionários. Como? Como? Pensei em três imagens que podem ajudar-nos a entender melhor o que significa ser discípulo-missionário: em primeiro lugar, o campo como um lugar onde a semeadura, o Em segundo lugar, o campo como um campo de treinamento, e, o terceiro, o campo como um canteiro de obras.

1. O campo como um lugar onde a semeadura. Nós todos sabemos que a parábola de Jesus que fala de um semeador saiu a semear em um campo, uma parte da semente caiu à beira do caminho, entre pedras ou entre espinhos, e não conseguiu se desenvolver, mas outras caíram em boa terra e trouxe muito frutos (cf. Mt 13.1-9). O próprio Jesus explicou o significado da parábola: A semente é a Palavra de Deus semeada em nossos corações (cf. Mt 13:18-23). Por favor, deixe Cristo e sua Palavra entrar em sua vida, para germinar e crescer.

Jesus nos diz que as sementes que caíram à beira do caminho, ou debaixo de pedras e entre os espinhos, foram infrutíferos. Que tipo de terreno é, o tipo de terreno que queremos ser? Talvez, por vezes, como o caminho: ouvimos o Senhor, mas não muda nada na vida, porque nos deixamos atordoar tantas queixas superficiais que ouvimos, ou o pedregoso terreno: congratulamo-nos com Jesus com entusiasmo, mas são inconstantes e, nas dificuldades, temos a coragem de ir contra, ou são como o terreno espinhoso: as coisas, as paixões negativas abafar em nós as palavras do Senhor (cf. Mt 13,18-22). Hoje, no entanto, tenho certeza de que a semente cai em terra boa, você quer ser boa terra, e não cristãos em tempo parcial, e não “amido” fachada, mas é verdade. Tenho certeza que você não quer viver na ilusão de liberdade que é levado pela moda e conveniência do momento. Eu sei que você sugere acima, as decisões finais dar pleno sentido à vida. Jesus é capaz de oferecer isso. Ele é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14:6). Confiar nele. Deixemo-nos guiar por ele.

2. O campo como um treinamento. Jesus nos convida a segui-lo por toda a vida, nos chama a ser seus discípulos, que “jogar na sua equipa.” Acho que a maioria de vocês, como o esporte. E aqui, no Brasil, como em outros países, o futebol é uma paixão nacional. Bem, o que faz um jogador quando ele é chamado para ser parte de uma equipe? Tem que treinar e treinar muito. Por isso, é em nossas vidas como discípulos do Senhor. São Paulo nos diz: “Todo atleta exerce ao redor, e eles o fazem para alcançar uma coroa corruptível, mas nós fazemos isso por uma coroa incorruptível” (1 Coríntios 9:25). Jesus nos oferece algo maior do que a Copa do Mundo! Ele oferece a possibilidade de uma vida produtiva e feliz, e um futuro com ele sem fim, a vida eterna. Mas nós treinamos nos pede para “entrar em forma”, sem medo de enfrentar qualquer situação da vida, testemunhar a nossa fé. Como? Através do diálogo com ele: a oração, que é a conversa diária com Deus que sempre escuta. Através dos sacramentos, que são cultivadas em nossa presença e nós conformados com Cristo. Através do amor fraterno, a capacidade de ouvir, compreender, perdoar, aceitar, ajudar os outros, a todos, excluindo sem marginalizar. Queridos jovens, vocês são os “Atletas de Cristo” autênticos!

3. O campo como um canteiro de obras. Quando o nosso coração é uma boa terra que recebe a Palavra de Deus, quando “sweatshops”, tentando viver como cristãos, nós experimentamos algo grande: nunca estamos sozinhos, somos parte de uma família de irmãos que viajam da mesma forma: nós somos parte da Igreja, de fato, nos tornamos construtores da Igreja e protagonistas da história. São Pedro nos diz que somos pedras que formam uma casa espiritual (cf. 1 Pe 2:05) que vivem. E olhando para este estágio, vemos que tem a forma de uma igreja construída com pedras, tijolos. Na Igreja de Jesus, somos pedras vivas, e Jesus nos pede para construir a Sua Igreja, e não como uma pequena capela onde ser apenas um punhado de pessoas. Nós pedimos que a sua igreja é tão grande que pode acomodar toda a humanidade, que é a casa de todos. Jesus diz para mim, para você, para cada uma delas: “Ide e fazei discípulos de todas as nações.” Esta tarde, respondamos-lhes: Sim, eu também quero ser uma pedra viva, juntos, edificar a Igreja de Jesus. Digamos juntos: eu quero ir e ser um construtor da Igreja de Cristo.

Seu jovem coração tem o desejo de construir um mundo melhor. Tenho acompanhado de perto as notícias sobre tantos jovens em muitas partes do mundo, têm saído às ruas para expressar um desejo para uma civilização mais justa e fraterna. No entanto, fica a pergunta: Por onde começar? Quais são os critérios para a construção de uma sociedade mais justa? Quando Madre Teresa foi perguntado o que mudaria na Igreja, disse: Você e eu.

Queridos amigos, não se esqueça: você é do domínio da fé. Vocês são os atletas de Cristo. Vocês são os construtores de uma igreja mais bonita e um mundo melhor. Levantai os vossos olhos para a Virgem. Ela nos ajuda a seguir Jesus nos dá um exemplo com o seu “sim” a Deus: “Eis aqui a serva do Senhor, para ser feito em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). É o que nós também dizemos a Deus com Maria: Faça-se em mim segundo a tua palavra. Assim seja.

Fonte: Portal Católico  

XIV Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por Mons. Inácio José Schuster

14ª Domingo do tempo comum
Lucas, capítulo 10, versículos 1 a 12 e 17 a 20
O Senhor designou outros tantos setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, para cada cidade e lugar para onde se dirigia, e lhes dizia: “A messe é grande, mas os operários são poucos. Pedi ao senhor da messe que envie operários a Sua messe”. Não bastaram Doze, para este Evangelista, além dos Doze destinados para a primeira missão, mais setenta e dois discípulos. Setenta e dois é um número altamente expressivo e simbólico no Antigo Testamento. Nos primeiros capítulos do Gênesis, setenta e duas foram as nações que existiam na Terra. Setenta e dois discípulos: o texto quer dizer que todos se transformam em Apóstolos e enviados de Jesus. Hoje, neste domingo, através deste texto, a Igreja deseja, bem na linha da nossa última Conferência Episcopal Americana, em Aparecida, realizar um movimento amplo, uma ampla movimentação de todos os fiéis católicos. Não estamos mais em tempos de tranqüilidade e não é esta uma tática para desbancarmos seitas que pululam no meio de nós. O Papa, quando veio ao Brasil, disse que a Igreja não faz proselitismo. A Igreja acolhe por atração. Todos os católicos, aqueles que freqüentam uma Assembléia Eucarística, ou tem consciência clara do momento grave em que vivemos, somos convocados, hoje, através deste texto de Lucas, porque a messe é grande e os operários são poucos. Imaginem a tristeza e a desilusão de um agricultor ou de um fazendeiro ao ver os seus frutos se perderem todos por falta absoluta de operários para a sua colheita. Assim acontece entre nós. Os nossos sacerdotes são poucos, nós não chegamos a vinte mil padres, no Brasil, mas os sacerdotes necessitam da sua ajuda. Você pode começar movimentando primeiramente a sua família, quem sabe indiferente ou não praticante. Você pode ajudar através de um movimento missionário em sua comunidade e sua paróquia. O que desejo comunicar e inculcar é que ninguém fique tranqüilamente guardando a fé para si próprio. A fé foi feita para que seja transmitida e nós só nos enriquecermos diante de Deus, na medida em que deixarmos o nosso conforto para anunciar o Evangelho da nossa Salvação. Ouça-me o Senhor deseja vê-lo entre os demais setenta e dois discípulos que o precederam onde quer que ele vá.

 

Jesus envia seus discípulos em missão e a escolha dos setenta e dois indica o alcance universal que o Senhor dá a este envio. Colocado justamente no início da subida de Jesus para Jerusalém, ele acrescenta a esta grande secção de São Lucas, em que a formação dos discípulos tem tanta importância, uma perspectiva missionária. Jesus quer justamente formar seus continuadores e fundar sua Igreja, em sua intenção, “católica”. É verdade, que isto só se concretizará após Pentecostes, sendo assim um anúncio da futura missão dos seus Apóstolos. Com efeito, escreve Orígenes, “não só os Doze Apóstolos pregaram a fé de Cristo, mas se nos diz que outros setenta foram enviados para pregar a Palavra de Deus, para que graças a eles, o mundo conhecesse as palmas da vitória de Cristo”. “Se houver um homem de paz, a vossa paz…”. O missionário de Cristo anuncia a Sua paz e deve comunicá-la aos que se preparam para recebê-la. Eles pertencem ao grupo dos artesãos da paz, do qual também faz parte São Francisco de Assis, que suplica: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz”. Até a segunda vinda do Senhor, os discípulos, no entanto, devem estar preparados para enfrentar oposição e perseguição, como ovelhas no meio de lobos. Jesus veio como cordeiro que tira os pecados do mundo. Nós somos convocados a oferecer nossa vida no humilde serviço de nosso Senhor e Mestre.

 

14º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C

No evangelho deste domingo Jesus chama 72 discípulos e envia-os dois a dois a pregar e a dar testemunho. Cristo “designou” estes discípulos, ou seja, chamou-os por sua própria iniciativa, e “enviou-os”. O número 72 indica que o chamamento e a missão não são coisas exclusivas dos Doze apóstolos, mas de um maior número de discípulos; ou seja, abrange cada um de nós. Todos somos chamados e enviados, todos temos a missão de ser testemunhas de Jesus. Todavia, hoje, teremos que afirmar que “a messe é grande e os trabalhadores são poucos”. É preciso pedir “ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe”. Cada um de nós tem de pertencer a este grupo dos trabalhadores; há trabalho para todos. Esta missão não é individual, mas comunitária (“dois a dois”). Toda a comunidade é enviada, é missionária, identificada com os 72 discípulos. Quando os 72 são enviados, Jesus fez-lhes uma série de conselhos e de advertências. Envia-os “como cordeiros para o meio de lobos”; ou seja, que devem estar preparados para enfrentar as dificuldades, com perseverança e serenidade. Alguns povos não os quererão receber. Mesmo assim, deverão continuar a ser pessoas de paz, mesmo para todos aqueles que a não têm. Outro conselho é que “não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias”. Uma vida sóbria, desinteressada. Nada poderá prejudicar a sua missão: “não vos demoreis a saudar alguém pelo caminho”. Então, qual é a missão dos 72? “Curai os enfermos e dizei-lhes: Está perto de vós o Reino de Deus”. O anúncio da Boa Nova do Reino, a mensagem do Evangelho, deve ser acompanhada de obras que mostrem a paz e o amor de Deus. Os destinatários deste anúncio são todos os homens: aqueles que o acolhem ou que o rejeitam. “Os 72 discípulos voltaram cheios de alegria”. Regressam à comunidade e relatam a sua experiência. Estão alegres, porque a sua missão foi frutífera. Mas, Jesus diz-lhes: “não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão escritos nos Céus”. A alegria da missão não dever ser pelos resultados alcançados, mas pela satisfação de missão cumprida. É a alegria da fé. Na 1ª leitura, o profeta Isaías convida à alegria, à festa, porque Deus derrama um rio de paz sobre Jerusalém. “Quando o virdes, alegrar-se-á o vosso coração”. O Salmo convida a louvar o Senhor pelas suas obras admiráveis: “Alegremo-nos Nele”. São Paulo, na 2ª leitura, ao terminar a Carta aos Gálatas, reconhece que só na Cruz de Cristo pode gloriar-se. Identifica-se com Jesus Crucificado (“trago no meu corpo os estigmas de Jesus”), sabendo que é Nele que encontrará a paz, a misericórdia de Deus e a salvação. “Pois nem a circuncisão nem a incircuncisão valem alguma coisa: o que tem valor é a nova criatura”; para todos nós, é esta a fonte de uma profunda alegria. Por isso, na Oração de Coleta, pedimos: “dai aos vossos fiéis uma santa alegria, para que, livres da escravidão do pecado, possam chegar à felicidade eterna”. Devemos, pois, ser missionários e testemunhas do evangelho, enviados por Jesus, e viver na alegria; não pelos resultados alcançados, mas pela satisfação em viver intensamente a nossa fé.

 

Isaías 66, 10-14c; Gálatas 6, 14-18; Lucas 10, 1-12.17-20
«O Reino de Deus está perto de vós»

Também desta vez comentamos o Evangelho com a ajuda do livro do Papa Bento XVI sobre Jesus. Antes, contudo, desejaria fazer uma observação de caráter geral. A crítica feita ao livro do Papa desde alguns setores é que ele se atenha ao que dizem os Evangelhos sem ter em conta os resultados da pesquisa histórica moderna, a qual levaria, segundo aqueles, a conclusões muito diferentes. Trata-se de uma idéia muito difundida que está alimentando toda uma literatura do tipo O Código da Vinci, de Dan Brown, e obras de divulgação histórica baseadas nos mesmos pressupostos. Creio que é urgente esclarecer um equívoco fundamental presente em tudo isso. A idéia de uma pesquisa histórica sobre Jesus unitária, retilínea, que prossegue sem obstáculos até a plena luz sobre Ele é um puro mito que se vende às pessoas, mas no qual nenhum historiador sério de hoje já crê. Cito uma das mais conhecidas representantes da pesquisa histórica sobre Jesus, a americana Paula Fredriksen: «Os livros se multiplicam — escreve –. Na pesquisa científica recente, Jesus foi apresentado como a figura de um santo do século primeiro, como um filósofo cínico itinerante, como um visionário radical e um reformador social que prega uma ética igualitária a favor dos últimos, como um regionalista galileu que luta contra as convenções religiosas da elite da Judéia (como o templo e a Torah), como um campeão da libertação nacional ou, ao contrário, como seu opositor e crítico, e assim sucessivamente. Todas essas figuras foram apresentadas com argumentos acadêmicos rigorosos e metodologia; todas foram defendidas apelando a dados antigos. Os debates continuam e o consenso — inclusive sobre pontos tão básicos como o que constitui evidência — parece uma remota esperança» [1]. Com frequência se apela aos novos dados e às descobertas recentes que por fim teriam situado a pesquisa histórica em uma posição de vantagem com respeito ao passado. Mas estas novas fontes históricas deram lugar a duas imagens de Cristo opostas e inconciliáveis entre si, ainda presentes neste contexto. Por um lado, um Jesus «judeu de pés e cabeça»; por outro, um Jesus filho da Galiléia helenizada de seu tempo, impregnado da filosofia cínica. À luz deste dado de fato, pergunto-me: o que deveria ter feito o Papa? Escrever a enésima reconstrução histórica para debater e rebater todas as objeções contrárias? O que o Papa optou por fazer foi apresentar positivamente a figura e ensinamento de Jesus como é entendido pela Igreja, partindo da convicção de que o Cristo dos Evangelhos é, também desde o ponto de vista histórico, a figura mais confiável e segura. Após esta declaração, passemos ao Evangelho do domingo. Trata-se do episódio do envio em missão dos setenta e dois discípulos. Depois de ter-lhes dito como devem ir (de dois em dois, como cordeiros, sem levar dinheiro…), Jesus lhes explica também o que devem anunciar: «Dizei-lhes: “O Reino de Deus está próximo de vós…”». Sabe-se que a frase «Chegou a vós o Reino de Deus» é o coração da pregação de Jesus e a premissa implícita de todo seu ensinamento. O Reino de Deus chegou entre vós, por isso, amai os vossos inimigos; «o Reino de Deus está próximo», por isso, se tua mão te escandaliza, corta-a: é melhor entrar sem uma das mãos no Reino de Deus do que com as duas mãos ficar fora… Tudo toma sentido de Reino. Sempre se discutiu sobre o que entendia precisamente Jesus com a expressão «Reino de Deus». Para alguns seria um reino puramente interior que consiste em uma vida conforme à lei de Deus; para outros, seria, ao contrário, um reino social e político que o homem deve concretizar, se necessário também com a luta e a revolução. O Papa observa essas interpretações do passado e revela o que têm em comum: o centro do interesse se traslada de Deus ao homem; já não se trata de um Reino de Deus, mas um reino do homem, do qual o homem é o artífice principal. Esta é uma idéia de reino compatível, em última instância, também com o ateísmo. Na pregação de Jesus, a vinda do Reino de Deus indica que, enviando ao mundo Seu Filho, Deus decidiu — por assim dizer — tomar pessoalmente em sua mão a sorte do mundo, comprometer-se com ele, atuar desde seu interior. É mais fácil intuir o que significa Reino de Deus que explicá-lo, porque é uma realidade que ultrapassa toda explicação. Segue ainda muito difundida a idéia de que Jesus esperasse um iminente fim do mundo e de que, portanto, o Reino de Deus por Ele pregado não se realizasse neste mundo, mas no que nós chamamos «o mais além». Os Evangelhos contêm, com efeito, algumas afirmações que permitem essa interpretação. Mas esta não se sustenta se se olha o conjunto das palavras de Cristo: «O ensinamento de Jesus não é uma ética para aqueles que esperam um rápido fim do mundo, mas para aqueles que experimentaram o fim deste mundo e a chegada nele do Reino de Deus: para aqueles que sabem que “as coisas velhas passaram” e o mundo se converteu em uma “nova criação”, dado que Deus veio como rei» (Ch. Dodd). Em outras palavras: Jesus não anunciou o fim do mundo, mas o fim de um mundo, e nisso os fatos não o desmentiram. Mas também João Batista pregava esta mudança, falando de um iminente juízo de Deus. Então onde está a novidade de Cristo? A novidade se contém do todo em um advérbio de tempo: «agora», «já». Com Jesus, o Reino de Deus já não é algo só «iminente», mas presente. «O aspecto novo e exclusivo da mensagem de Jesus — escreve o Papa — consiste no fato de que Ele nos diz: Deus atua agora — é esta a hora na qual Deus, de uma forma que vai mais além de qualquer outra modalidade precedente, revela-se na história como seu próprio Senhor, como o Deus vivo». Daqui surge esse sentido de urgência que se traduz em todas as parábolas de Jesus, especialmente nas chamadas «parábolas do Reino». Soou a hora decisiva da história, agora é o momento de tomar a decisão que salva; o banquete está preparado: rejeitar entrar porque se acaba de tomar esposa ou se acaba de comprar um par de bois ou por outro motivo, significa estar excluídos para sempre e ver o próprio lugar ocupado por outros. Partamos desta última reflexão para uma aplicação prática e atual da mensagem escutada. O que Jesus dizia a seus contemporâneos serve também para nós hoje. Esse «agora» e «hoje» permanecerá invariável até o fim do mundo (Hb 3, 13). Isto significa que a pessoa que escuta hoje, talvez de forma casual, a palavra de Cristo: «O tempo de Deus se cumpriu e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede no Evangelho» (Mc 1, 15), encontra-se ante a própria eleição que aqueles que a escutavam há dois mil anos em uma aldeia da Galiléia: ou crer e entrar no Reino, ou rejeitar crer e ficar fora. Lamentavelmente, a de crer parece ao contrário a última das preocupações para muitos que lêem hoje o Evangelho ou escrevem livros sobre ele. Em lugar de submeter-se ao juízo de Cristo, muitos se erigem em seus juízos. Jesus está mais que nunca sob processo. Trata-se de uma espécie de «juízo universal» ao contrário. Sobretudo os estudiosos correm este perigo. O estudioso deve «dominar» o objeto da ciência que cultiva e permanecer neutro ante ele; mas como «dominar» ou ser neutro ante o objeto, quando se trata de Jesus Cristo? Neste caso, mais que «dominar» conta «deixar-se dominar». O Reino de Deus era tão importante para Jesus que nos ensinou a orar cada dia por sua vinda. Dirigimos-nos a Deus dizendo: «Venha a nós o vosso Reino»; mas também Deus se dirige a nós e diz pela boca de Jesus: «O Reino de Deus veio entre vós; não esperais, entrai nele!».

[1] [Texto original em inglês]: «In recent scholarship, Jesus has been imagined and presented as a type of first-century shaman figure; as a Cynic-sort of wandering wise man; as a visionary radical and social reformer preaching egalitarian ethics to the destitute; as a Galilean regionalist alienated from the elitism of Judean religious conventions (like Temple and Torah); as a champion of national liberation and, on the contrary, as its opponent and critic — on and on. All these figures are presented with rigorous academic argument and methodology; all are defended with appeals to the ancient data. Debate continues at a roiling pitch, and consensus — even on issues so basic as what constitutes evidence and how to construe it — seems a distant hope».

Sétimo Domingo do Tempo Comum B

Por Mons. Inácio José Schuster

Isaías 43, 18-19.21-22.24b-25; 2 Coríntios 1, 18-22; Marcos 2, 1-12

Teus pecados estão perdoados

Um dia que Jesus estava em casa (talvez na casa de Simão Pedro, em Cafarnaum), reuniu-se tal multidão que não se podia de modo algum entrar pela porta. Um pequeno grupo de pessoas que tinha um familiar ou amigo paralítico pensou em superar o obstáculo tirando o teto e descendo o enfermo pelas pontas de um lençol diante de Jesus. Ele, diante daquilo, disse ao paralítico: «Filho, teus pecados estão perdoados».

Alguns escribas presentes pensam em seus corações: «Blasfêmia! Quem pode perdoar os pecados, senão Deus somente?». Jesus não desmente sua afirmação, mas demonstra com os fatos ter sobre a terra o poder próprio de Deus: «Para que saibais que o Filho do homem tem na terra o poder de perdoar pecados –diz ao paralítico–: “A ti te digo, levanta-te, toma tua maca e vai-te para casa”».

O que ocorreu naquele dia na casa de Simão é o que Jesus continua fazendo hoje na Igreja. Nós somos aquele paralítico, cada vez que nos apresentamos, escravos do pecado, para receber o perdão de Deus.

Uma imagem da natureza nos ajudará (pelo menos ajudou a mim) a entender porque só Deus pode perdoar os pecados. Trata-se da imagem da estalagmite. A estalagmite é uma dessa colunas calcárias que se forma no fundo de certas grutas milenares pela queda de água calcária do teto da caverna. A coluna que pende do teto da gruta se chama estalactite, a que se forma abaixo, no ponto em que cai a gota, estalagmite. A questão não é a água e seu fluxo ao exterior, mas sim que em cada gota de água há uma pequena porcentagem de calcário que se deposita e faz massa com a precedente. É assim que, com o passar de milênios, formam-se essas colunas de reflexos brilhantes, belas de contemplar, mas que se se vêem melhor se parecem barras de uma cela ou a afiados dentes de uma fera de boca aberta de par em par.

O mesmo ocorre em nossa vida. Nossos pecados, no curso dos anos foram caindo no fundo de nosso coração como muitas gotas de água calcária. Cada um depositou aí um pouco de calcário –isto é, de opacidade, de dureza e de resistência a Deus– que ia fazendo massa com o que havia deixado o pecado precedente. Como acontece na natureza, o grosso se ia, graças às confissões, às Eucaristias, à oração. Mas cada vez permanecia algo não dissolvido, e isso porque o arrependimento e o propósito não eram «perfeitos». E assim nossa estalagmite pessoal cresceu como uma coluna de calcário, como um rígido busto de gesso que enjaula nossa vontade. Entende-se então de uma vez só o que é o famoso «coração de pedra» do qual a Bíblia fala: é o coração que nós mesmos criamos, por força de pecados.

O que fazer nesta situação? Não posso eliminar essa pedra com minha vontade somente, porque aquela está precisamente em minha vontade. Compreende-se pois o dom que representa a redenção operada por Cristo. De muitas maneiras, Cristo continua sua obra de perdoar os pecados. Mas existe um modo específico ao qual é obrigatório recorrer quando se trata de rupturas graves com Deus, e é o sacramento da penitência.

O mais importante que a Bíblia tem a nos dizer acerca do pecado não é que somos pecadores, mas que temos um Deus que perdoa o pecado e, uma vez perdoado, o esquece, cancela-o, faz algo novo. Devemos transformar o arrependimento em louvor e ação de graças, como fizeram aquele dia, em Cafarnaum, os homens que haviam assistido ao milagre do paralítico: «Todos se maravilharam e glorificavam a Deus dizendo: “Jamais vimos coisa parecida”».

 

Evangelho segundo São Marcos 2, 1-12
Dias depois, tendo Jesus voltado a Cafarnaúm, ouviu-se dizer que estava em casa. Juntou-se tanta gente que nem mesmo à volta da porta havia lugar, e anunciava-lhes a Palavra. Vieram, então, trazer-lhe um paralítico, transportado por quatro homens. Como não podiam aproximar-se por causa da multidão, descobriram o teto no sítio onde Ele estava, fizeram uma abertura e desceram o catre em que jazia o paralítico. Vendo Jesus a fé daqueles homens, disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados.» Ora estavam lá sentados alguns doutores da Lei que discorriam em seus corações: «Porque fala este assim? Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?» Jesus percebeu logo, em seu íntimo, que eles assim discorriam; e disse-lhes: «Porque discorreis assim em vossos corações? Que é mais fácil? Dizer ao paralítico: ‘Os teus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levanta-te, pega no teu catre e anda’? Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados, Eu te ordeno disse ao paralítico: levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa.» Ele levantou-se e, pegando logo no catre, saiu à vista de todos, de modo que todos se maravilhavam e glorificavam a Deus, dizendo: «Nunca vimos coisa assim!»

No domingo passado era um leproso que se aproximava de Jesus: “Se queres tens o poder de curar-me”. Hoje é um paralítico que é conduzido por outros quatro, solidários com ele já que não pode mover-se, até a presença de Jesus.

O auditório estava repleto, todos se sentiam testemunhas privilegiadas, escolhidas a dedo, para assistirem a uma cena espetacular que se desenrolaria imediatamente aos próprios olhos, veriam com eles, uma cura extraordinária, se houvesse televisão naquela época, lá estariam os câmeras preparados para captar o ângulo mais forte e decisivo do gesto taumatúrgico e curador de Jesus.

A primeira palavra de Jesus, no entanto desconcerta a todos: “Filho os teus pecados estão perdoados”. Esperava isto o paralítico?

O texto não nos diz: Ficou feliz ao saber que seus pecados, diante de Deus, estavam perdoados? Não sabemos. Terá ficado desiludido, não foi para isto que vinha aqui?

Também não conhecemos a reação desta pessoa, mas conhecemos a reação do auditório de suspense, à irritação: “Este blasfema”, porque quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus?

Diz-nos o Evangelista, que Jesus com olhos longemirantes, lendo por dentro os pensamentos dos corações, se auto-defende: “O que é mais fácil dizer, teus pecados são perdoados, ou levanta-te, toma a tua cama e vai para casa?”

Claro, no pensamento daquela gente, a resposta deveria ser a primeira, os teus pecados são perdoados, pois não há meio de se acertar, se realmente foram ou não, mas se o milagre fracassa, então se percebe que era um falso Profeta.

“No entanto, para que saibais que o Filho do Homem tem na terra poder de perdoar pecados, eu digo ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para a tua casa”, imediatamente curou-se no seu físico, depois de ter sido curado no coração completamente no corpo e no espírito, foi para casa.

Nós sofremos muito com nossas doenças materiais, basta um sinalzinho qualquer dentro de nós, não é preciso uma paralisia nem de longe, basta um pequeno alarme, e corremos todos para médicos, hospitais, exames que não tem fim, porque estamos todos preocupados com a saúde física, mas Jesus neste Evangelho, sem nos dizer que erramos e afirma-nos, porque isto é catequese, que existe um mal incomparavelmente pior, a respeito do qual nós olhamos pouco e fazemos tão pouco para extirpá-lo; o pecado dentro de nós.

Este sim causa um estrago muito mais irreparável do que os nossos males físicos e se nós vemos apenas o contrário é por que nós não temos os olhos de Deus, nós vemos as coisas com olhos meramente humanos e no horizonte meramente humano que termina com a morte, a sepultura, o cemitério e nada mais.

Peçamos hoje a Deus, que mostre-nos com Seus olhos os estragos que o pecado pode fazer em cada um de nós, mas que cada um de nós tenha a graça de ouvir de sua boca, através desta leitura e meditação: “Filho os teus pecados te são perdoados também”.

 

RECONHECER-SE INDIGENTE
Padre Fábio de Melo

Quanta sabedoria quando o salmista coloca a necessidade da cura para o pecado.

Há um cuidado humano com a saúde, no que comemos, como vivemos, como forma de prevenir as enfermidades nessa responsabilidade que cabe a mim e a você na observância da vida, no respeito ao organismo que somos. Não somos um mecanismo, somos organismo e precisamos respeitá-lo. Se não o fazemos, o levamos a falência antes da hora. Definhamos antes da hora.

E aqui, o salmista pede a Deus que lhe cure. Considerando o pecado como enfermidade.

Da mesma forma como nós interpretamos o cuidado da saúde com o corpo, descobrimos que a vida espiritual precisa seguir as mesmas regras.

O corpo é o território do sagrado.

E como medicamos o corpo para que ele seja curado, o salmista nos inspira e nos ensina que quando Deus nos perdoa, encontramos o processo de cura.

Curai-me Senhor pois pequei contra vós.

O perdão de Deus, o reconhecimento de Sua misericórdia, é um soro que colocamos em nossas veias todos os dias.

De vez em quando eu preciso bater na porta das pessoas que me amam e dizer: “Me ajuda a chegar até Deus? Porque está difícil sozinho.” A possibilidade de estar com vocês aqui, é um soro que entra na minha veia.

Deus não é sim e não. Deus é apenas ‘sim’. Aqui você pode decidir-se pelo processo de reconhecer que há um Deus que nos ama de maneira única, e que não há nenhuma realidade humana que possa ser capaz de ofuscar e ser maior do que esse amor.

O evangelho de hoje é uma prova concreta de que Deus continua apostando em Sua misericórdia conosco. Você que ama, eu pergunto: pode haver algo mais curativo em nossas vidas, do que amar e ser amado?

O ódio nos rouba, o amor nos devolve. Quando você não tem muitos motivos para se alegrar, e tem que lidar com suas fragilidades e não sabe o que fazer com elas, você não procura seus companheiros de copo, ou de fofoca. Você vai querer bater na porta de alguém que verdadeiramente vai saber olhar para suas indigências do jeito que elas merecem ser olhadas. Por que o primeiro milagre que Jesus faz de perdoar pecados, também participamos na dimensão humana.

‘Não podemos pensar na nossa indigência fora da misericórdia de Deus’

A cura que muitas vezes nos falta na vida, não é o perdão divino. Deus não tem nenhum problema em nos reconciliar com Ele. É especialidade dEle perdoar, compadecer-se, mas ainda não é minha, nem a sua.

Quantas vezes você sofreu na pele a vergonha de ter que mostrar quem você era para alguém que achava que te amava? E você errou?

Não tenho tido medo de ser fraco, indigente. E acolho como dom de Deus, porque a concretização do evangelho de hoje só acontecerá em nós no momento que a gente reconhecer que de vez em quando precisamos ser colocados na maca para que alguém nos leve na presença do Senhor.

Por que nos esconderam tanto tempo que Deus prefere os piores? E que no acolhimento da fraqueza podemos chegar a algum lugar, e que o contrário não? Nós não podemos negligenciar a oportunidade de dizer isso a ninguém.

Somos indigentes. É o que você precisa ver em mim, em cada um de nós, no seu pároco, nas pessoas que você diz amar. O amparo humano que nos anuncia o amparo de Deus. Deus segurou na minha mão e ele tinha rosto de gente.

Não temos outra coisa a anunciar nessa vida a não ser a misericórdia de Deus. Nada do teu passado pode ser maior do que força do futuro de Deus. Nada.

Falar do perdão de Deus na nossa vida, é falar do perdão que nós nos entregamos o tempo todo. A primeira parte desse milagre, que foi fazer a voltar a andar o que era paralítico, foi o Senhor perdoar o pecado dele. Quantas vezes na vida ficamos paralisados? Não vamos pra lugar algum. E quando investigamos a paralisia, vemos que em algum momento não soubemos nos reconciliar com aquilo que a gente é. A gente se projetou melhor do que era, ou o pior do que era e a gente acabou não sendo nada.

‘Nada do teu passado pode ser maior do que força do futuro de Deus’

Quantas vezes você se estragou porque não foi capaz de se perdoar? Não foi capaz de usar de misericórdia consigo mesmo? Não reconheceu que estava indigente, ou que na corrida chegou em último lugar.

Como é duro ser o último. Agora, quando estamos no pódio é fácil achar quem nos ama. Alguma coisa dentro de nós pede para que o fracasso do outro seja ridicularizado. Isso é demoníaco. Nós não sabemos lidar com o fracasso dos outros.

O mais desconcertante disso tudo é que Jesus ficava de olho em quem chegava por último, e deles fazia seguidores.

Pode ser que a gente esteja tentado a olhar só o ‘batalhão de frente’. Jesus ficava de olho para ver quem estava em último e o trazia para dentro. Por isso o cristianismo é anúncio de salvação.

O presente é para todos. Só basta querer receber. Nisso está a dimensão humana da salvação: eu quero, aceito, me disponho, e recebo aquilo que Deus quer me ofertar. Eu quero essa participação direta nesse presente que Deus me oferece.

Por isso, não olhe para trás. Não preste atenção no que não deu certo. Não ponha seu empenho no que você não tem. Deus só pode trabalhar naquele que se reconhece indigente. Qual é pior doente? É aquele que não quer ser tratado.

Aqui está a origem de toda enfermidade: o pecado que não recebe cura.

Como tratamos o corpo, precisamos tratar o espírito, a alma.

Não podemos pensar na nossa indigência fora da misericórdia de Deus. Ele nos quer arrependidos dos erros e prontos para começarmos de novo.

Deus nos ama, mesmo na indigência. Não negligencie a oportunidade de trazer Jesus ao coração das pessoas que você encontrar na sua vida.

A face mais sedutora de Deus é a misericórdia.

 

A CURA FÍSICA COMO PROVA DA CURA ESPIRITUAL
Mais uma vez o evangelista Marcos narra-nos uma cura de Jesus; agora, é a cura do paralítico. Jesus pregava e curava, palavras e obras, mensagem acompanhada de sinais para a salvação em nome de Deus e que já se concretizava na Sua Pessoa. A cura do paralítico tem muito a ver com a cura do leproso que meditamos na semana passada. No domingo passado, verificamos que Jesus não só curava o mal físico, mas também devolvia ao leproso a sua dignidade de pessoa. Além disso, libertava-o do pecado que, para muitos, era a causa da doença. Hoje, este elemento do perdão dos pecados é-nos mais claro, através da cura narrada por S. Marcos. Jesus diz ao paralítico: “Filho, os teus pecados estão perdoados”. O homem ansiava ser curado (andar por si próprio), mas, em primeiro lugar, Jesus concede-lhe uma cura espiritual. A cura física será uma prova da cura espiritual que antes tinha acontecido. Para Jesus, o mais importante é o perdão dos pecados, ou seja, é a renovação interior da pessoa. A fé em Jesus cura-nos por dentro para que o nosso coração possa ser renovado. Na 1ª Leitura do Livro de Isaías, encontramos o mesmo convite à renovação interior: “Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas. Eu vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não o vedes?… Sou Eu, sou Eu que, em atenção a Mim, tenho de apagar as tuas transgressões e não mais recordar as tuas faltas”. Perdoar os pecados é algo reservado somente a Deus. Por isso, os escribas protestam e acusam Jesus de blasfêmia: “Não é só Deus que pode perdoar os pecados?” Concordamos com esta pergunta, mas “o Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados”. Jesus é o Messias, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo. Com as suas palavras e obras, isto começa a tornar-se claro à vista de todos.
Meditemos na atitude do paralítico e dos seus acompanhantes. O texto diz que Jesus estava rodeado por uma multidão que não deixava ninguém aproximar-se Dele. “Trouxeram-Lhe um paralítico, transportado por quatro homens; e, como não podiam levá-lo até junto d’Ele, devido à multidão, descobriram o teto por cima do lugar onde Ele se encontrava e, feita assim uma abertura, desceram a enxerga em que jazia o paralítico”. É, de fato, um grande exemplo de fé, de confiança, de convicção e de luta contra as dificuldades. Aqueles homens acreditavam que Jesus podia curar o paralítico, tinham fé nisso mesmo; por isso, as dificuldades não lhes causavam desânimo, mas davam alento para lutar por aquilo que pretendiam. É um exemplo a registrar para a nossa vida: lutar pelas coisas; o que custa é que tem valor, mas não é fácil alcançar; é preciso lutar, sem desfalecer. É também um exemplo para a nossa caminhada de fé: quantas vezes temos dificuldades em viver a nossa fé, em viver como cristãos, desanimando facilmente? Viver a fé neste mundo é lutar contra a corrente. Por isso, não é fácil. Exige esforço, vontade, convicção. Mas vale a pena, porque seremos curados, fortalecidos e renovados, como o paralítico. São Paulo, na 2ª Leitura (iniciamos a leitura da 2ª Carta aos Coríntios), diz-nos que a nossa fé não pode ser sim e não, cheios de dúvidas e inseguranças, mas sempre um sim muito firme e convicto, um “amém”, ou seja, um sim a Deus e a Jesus Cristo. Esta firmeza tem de ser testemunhada no quotidiano. Que Jesus também nos possa dizer: “A tua fé te salvou”.
Mais um pormenor a ter em conta. Depois de Jesus ter curado o paralítico, diz-lhe: “levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa”. Cada um de nós tem uma enxerga para carregar, ou seja, todos temos uma cruz para transportar. Provavelmente, os problemas do dia a dia não serão resolvidos por Jesus. Todavia, temos esta força interior, este espírito renovado, que nos dá luz e coragem para olhar o horizonte da vida com otimismo. Com este interior forte e seguro, entoemos um hino de louvor e de ação de graças ao Senhor. Isaías, na 1ª Leitura, diz-nos: “O povo que formei para Mim proclamará os meus louvores”. Marcos, no evangelho, também nos diz: “todos ficaram maravilhados e glorificavam a Deus”. É esta a nossa atitude, quando celebramos a Eucaristia.
Com informações do Missal Romano, da CNBB e do SDPL

Quarto Domingo do Tempo comum B

Por Mons. Inácio José Schuster

Deuteronômio 18, 15-20; 1 Coríntios 7, 32-35; Marcos 1, 21-28

O espírito imundo saiu dele

«Então um homem possuído por um espírito imundo pôs-se a gritar: “O que temos nós a ver contigo, Jesus de Nazaré? Viestes para nos destruir? Sei quem tu és: o Santo de Deus”. Jesus, então, disse: “Cala-te e sai dele”. E agitando-se violentamente o espírito imundo deu um forte grito e saiu dele». O que pensar deste episódio narrado no evangelho deste domingo e de muitos outros acontecimentos análogos presentes no Evangelho? Existem ainda os «espíritos imundos»? Existe o demônio? Quando se fala da crença no demônio, devemos distinguir dois níveis: o nível das crenças populares e o nível intelectual (literatura, filosofia e teologia). No nível popular, ou de costumes, nossa situação atual não é muito distinta da Idade Média, ou dos séculos XIV-XVI, tristemente famosos pela importância outorgada aos fenômenos diabólicos. Já não há, é verdade, processos de inquisição, fogueiras para endemoniados, caça de bruxas e coisas pelo estilo; mas as práticas que têm no centro o demônio estão ainda mais difundidas que então, e não só entre as classes pobres e populares. Transformou-se em um fenômeno social (e comercial!) de proporções vastíssimas. E mais, diria que quanto mais se procura expulsar o demônio pela porta, tanto mais volta a entrar pela janela; quanto mais é excluído pela fé, tanto mais prende na superstição. Muito diferentes estão as coisas no nível intelectual e cultural. Aqui reina já o silêncio mais absoluto sobre o demônio. O inimigo já não existe. O autor da desmitificação, R. Bultmann, escreveu: «Não se pode recorrer em caso de enfermidade a meios médicos e clínicos e por sua vez crer no mundo dos espíritos». Creio que um dos motivos pelos quais muitos acham difícil crer no demônio é porque se busca nos livros, enquanto que ao demônio não interessam os livros, mas as almas, e não se encontra freqüentado os institutos universitários, as bibliotecas e as academias, mas, precisamente, as almas. Paulo VI reafirmou com força a doutrina bíblica e tradicional em torno a este «agente obscuro e inimigo que é o demônio». Escreveu, entre outras coisas: «O mal já não é só uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual, pervertido e perversor. Terrível realidade. Misteriosa e espantosa». Também neste campo, contudo, a crise não passou em vão e sem trazer inclusive frutos positivos. No passado, com freqüência se exagerou ao falar do demônio, foi visto onde não estava, muitas ofensas e injustiças cometeram-se com o pretexto de combatê-lo; é necessária muita discrição e prudência para não cair precisamente no jogo do inimigo. Ver o demônio por todas as partes não é menos errôneo que não vê-lo por nenhuma. Dizia Agostinho: «Quando é acusado, o diabo se satisfaz. É mais, quer que o acuse, aceita com gosto toda tua recriminação, se isto serve para dissuadir-te de fazer tua confissão!». Entende-se portanto a prudência da Igreja ao desalentar a prática indiscriminada do exorcismo por parte de pessoas que não receberam nenhum mandato para exercer este ministério. Nossas cidades pululam de pessoas que fazem do exorcismo uma das muitas práticas de pagamento e atuações de «feitiços, mau-olhado, má sorte, negatividades malignas sobre pessoas, casas, empresas, atividades comerciais». Surpreende que em uma sociedade como a nossa, tão atenta às fraudes comerciais e disposta a denunciar casos de exaltado crédito e abusos no exercício da profissão, haja muitas pessoas dispostas a acreditar em superstições como estas. Antes ainda que Jesus dissesse algo aquele dia na sinagoga de Cafarnaum, o espírito imundo sentiu-se desalojado e obrigado a sair ao descoberto. Era a «santidade» de Jesus que aparecia «insustentável» para o espírito imundo. O cristão que vive em graça e é templo do Espírito Santo leva em si um pouco desta santidade de Cristo, e é precisamente esta a que opera, nos ambientes onde vive, um silencioso e eficaz exorcismo.

 

4º Domingo do Tempo Comum
Mc 1,21-28: “Até mesmo aos espíritos impuros. Ele dá ordem” (29.jan.2012)  

21Dirigiram-se para Cafarnaum. E já no dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e pôs-se a ensinar. 22Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas. 23Ora, na sinagoga deles achava-se um homem possesso de um espírito imundo, que gritou: 24“Que tens tu conosco, Jesus de Nazaré? Vieste perder-nos? Sei quem és: o Santo de Deus! 25Mas Jesus intimou-o, dizendo: “Cala-te, sai deste homem!” 26O espírito imundo agitou-o violentamente e, dando um grande grito, saiu. 27Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: “Que é isto? Eis um ensinamento novo, e feito com autoridade; além disso, ele manda até nos espíritos imundos e lhe obedecem!” 28A sua fama divulgou-se logo por todos os arredores da Galiléia.

A Sinagoga quer dizer reunião, assembléia, comunidade. Assim se chamava – e se chama – o lugar em que os Judeus se reuniam para escutar a leitura da Sagrada Escritura e rezar. No tempo de nosso Senhor havia Sinagogas em todas as cidades e aldeias da Palestina de certa importância; e fora da Palestina nos lugares onde havia uma comunidade de Judeus suficientemente numerosos. A Sinagoga constava principalmente de uma sala retangular, construída de tal forma que os assistentes, sentados, olhassem para Jerusalém. Na sala havia uma tribuna onde se lia e se explicava a Sagrada Escritura.

Na Sinagoga, Jesus mostrava a Sua autoridade ao ensinar. Tomava como base a Escritura, e como no Sermão da Montanha, distinguia-Se dos outros mestres, pois falava em nome próprio: “Mas Eu digo-vos”. O Senhor, na verdade, fala dos mistérios de Deus e das relações entre os homens; explica com simplicidade e com poder, porque fala do que sabe e dá testemunho do que viu. Os escribas ensinavam também ao povo o que está escrito em Moisés e nos profetas; mas Jesus pregava ao povo como Deus e Senhor do próprio Moisés (cf. São Beda (†735), In Marci Evangelium exposito). Jesus, primeiro faz e depois diz e não é como os escribas que dizem e não fazem.

Havia na Sinagoga, um homem possesso, mas Jesus o enfrenta com autoridade. A vitória de Jesus sobre o espírito imundo (demônio) é um sinal claro de que chegou a salvação divina. Jesus, ao vencer o Maligno, revela-Se como o Messias, o Salvador, com um poder superior ao dos demônios. Ao longo do Evangelho torna-se patente a luta contínua e vitoriosa do Senhor contra o demônio.

A oposição do demônio a Jesus vai aparecendo, cada vez mais clara: primeiro de forma sutil no deserto; depois se manifesta de forma violenta nos endemoninhados; torna-se radical e total na Paixão, que é “a hora e o poder das trevas” (Lc 22, 53). Mas, a vitória de Jesus é também cada vez mais patente, até ao triunfo total da Ressurreição.

São João Crisóstomo (†407) chama o demônio de imundo, devido a sua impiedade e afastamento de Deus, e porque se mistura em toda a obra má e contrária a Deus. Reconhece de alguma maneira a santidade de Cristo, mas este conhecimento não vai acompanhado pela caridade. A luta pode ser longa, mas terminará com uma vitória: o espírito maligno não pode nada contra Cristo.

A mesma autoridade que Jesus mostrou no ensino (Mc 1, 22) aparece agora nos seus atos. As palavras e os atos de Jesus evidenciam algo de superior, um poder divino, que enche de admiração e de temor aqueles que O escutam e observam.

Jesus de Nazaré é o Salvador esperado. Ele sabe e manifesta-se precisamente nos Seus atos e nas Suas palavras, que constituem uma unidade inseparável segundo os relatos evangélicos. Como ensina o Vaticano II (Dei Verbum, 2): “a Revelação faz-se com atos e palavras intimamente unidos entre si. As palavras esclarecem os atos; os fatos confirmam as palavras. Deste modo Jesus vai revelando progressivamente o mistério da Sua pessoa”.

Em continuidade a este episódio, o Evangelista narra a ida de Jesus, com os discípulos, para a casa de Pedro, que será a base da comunidade em seu convívio e em seu ministério. É a substituição da sinagoga pela igreja doméstica.

Fonte: Bíblia Sagrada, Santos Evangelhos, Edições Theologica, Braga, 1994.

 

O EXORCISMO SEGUNDO O CATECISMO DA IGREJA
Padre Rufus é sacerdote da arquidiocese de Bombaim, na Índia, e um dos exorcistas oficiais do Vaticano, responsável por analisar possíveis casos de possessão. 

O exorcismo é a invocação que a Igreja faz, em nome de Jesus Cristo, por intermédio de um ministro ordenado, para proteger e afugentar o demônio de uma pessoa ou objeto.

Eles podem ser divididos em dois tipos: simples e solenes. O exorcismo simples ocorre no rito do batismo, quando o cristão é preparado para confessar sua fé à Igreja. Já o exorcismo solene, que só pode ser celebrado por um presbítero designado, tem aspecto sacramental e é celebrado em casos de opressão ou possessão. Esse tipo de prática precisa ser autorizada pelo Ordinário, o bispo local, que pode ordenar um exorcismo solene mediante estudo do caso.

O exorcista deve ser um sacerdote, autorizado pelo bispo local ou com autorização expressa da Santa Sé.

Nos dias de hoje, muito se confunde a prática do exorcismo com orações de cura e libertação. Com relação a isso, o padre Gabriele Amorth, exorcista da diocese de Roma e autor do livro “Habla un Exorcista”, diz que o exorcismo é apenas o sacramental instituído pela Igreja. O poder de expulsar demônios que Jesus conferiu a todos os fiéis é válido. Este poder é baseado na lei e na oração, e pode ser exercido por indivíduos ou comunidades sem nenhuma autorização. Entretanto, esse tipo de ato, trata-se de preces de libertação, e não devem ser chamadas de exorcismos.

O que diz o Catecismo da Igreja a respeito do exorcismo:

E.56.1 Exorcismo na celebração do Batismo

§1237 Visto que o Batismo significa a libertação do pecado e de seu instigador, o Diabo, pronuncia-se um (ou vários) exorcismo(s) sobre o candidato. Este é ungido com o óleo dos catecúmenos ou então o celebrante impõe-lhe a mão, e o candidato renuncia explicitamente a satanás. Assim preparado, ele pode confessar a fé da Igreja, à qual será “confiado” pelo Batismo.

E.56.2 Significação dos exorcismos de Jesus

§517 Toda a vida de Cristo é mistério de Redenção. A Redenção nos vem antes de tudo pelo sangue da Cruz, mas este mistério está em ação em toda a vida de Cristo: já em sua Encarnação, pela qual, fazendo-se pobre, nos enriqueceu por sua pobreza; em sua vida oculta, que, por sua submissão, serve de reparação para nossa insubmissão; em sua palavra, que purifica seus ouvintes; em suas curas e em seus exorcismos, pelos quais “levou nossas fraquezas e carregou nossas doenças” (Mt 8, 17); em sua Ressurreição, pela qual nos justifica. §550 O advento do Reino de Deus é a derrota do reino de Satanás: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Mt 12, 28). Os exorcismos de Jesus libertam homens do domínio dos demônios. Antecipam a grande vitória de Jesus sobre “o príncipe deste mundo”. E pela Cruz de Cristo que o Reino de Deus ser definitivamente estabelecido: “Regnavit a ligno Deus – Deus reinou do alto do madeiro”.

E.56.3 Significação e fins do exorcismo e de sua maneira de fazer

§1673 Quando a Igreja exige publicamente e com autoridade, em nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou objeto seja protegido contra a influência do maligno e subtraído a seu domínio, fala-se de exorcismo. Jesus o praticou, é dele que a Igreja recebeu o poder e o encargo de exorcizar. Sob uma forma simples, o exorcismo é praticado durante a celebração do batismo. O exorcismo solene, chamado “grande exorcismo”, só pode ser praticado por um sacerdote, com a permissão do bispo. Nele é necessário proceder com prudência, observando estritamente as regras estabelecidas pela Igreja. O exorcismo visa expulsar os demônios ou livrar da influência demoníaca, e isto pela autoridade espiritual que Jesus confiou à sua Igreja. Bem diferente é o caso de doenças, sobretudo psíquicas, cujo tratamento depende da ciência médica. É importante, pois, verificar antes de celebrar o exorcismo se se trata de uma presença do maligno ou de uma doença.

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