Homilia da Semana

Ex-evangélico explica porque retornou ao Catolicismo

http://igrejamilitante.wordpress.com/2012/08/27/ex-evangelico-explica-porque-retornou-ao-catolicismo/

Testemunho de A. Silva
Originalmente publicado por Voz da Igreja

Eu, que por muitos anos frequentei igrejas evangélicas de diversas denominações, e por muito tempo fui enganado e explorado pelos seus pastores, dedico este testemunho a todos aqueles que se declaram “ex-católicos”, sem nunca terem sido católicos de fato, mas sobem aos púlpitos protestantes “evangélicos”, que eles, por pura ignorância, chamam de “altar” – Se não há sacrifício não é e nem pode ser altar: só existe Altar na Igreja Católica –  para induzirem ao erro seus irmãos mais ingênuos. Não creio que um dia tenham sido católicos os que depõem seus falsos testemunhos dizendo que encontraram a salvação em alguma “igreja evangélica”, porque os verdadeiros católicos já encontraram Jesus e a Salvação na Igreja que Ele mesmo nos deu, e não podem abandonar a Comunhão com Deus, seu Criador e Salvador, a não ser que nunca tenham comungado, de fato, com o Senhor Jesus Cristo. Enumero abaixo Algumas razões porque deixei o protestantismo e retornei a primeira e única Igreja de Jesus Cristo.

1) O princípio “só a Bíblia” (Sola Scriptura)
Nada mais falso do que esse princípio. Os cristãos do primeiro século não dispunham de Bíblia. E nem os cristãos dos séculos seguintes. Na verdade, os cristãos só puderam contar com a Bíblia para consulta, como hoje, muitos anos depois da invenção da imprensa, que só aconteceu no ano de 1455. Então, será que o Senhor Jesus esperaria mais de um século e meio para revelar sua verdadeira doutrina para o mundo? Se assim fosse, Ele teria mentido, pois disse antes de partir para o martírio que estaria com a sua Igreja até o fim do mundo (cf. Mateus 28, 19-20). Além disso, para que a Bíblia fosse a única fonte de revelação, seria no mínimo necessário que ela mesmo se proclamasse assim; e não é o caso, pelo contrário. A Bíblia diz que a Igreja é a coluna e o sustentáculo da verdade (1 Tim 3, 15), e não as Escrituras. Nela, Jesus Cristo diz ainda: “Vocês examinam as Escrituras, buscando nelas a vida eterna. Pois elas testemunham de Mim, e vocês não querem vir a Mim, para que tenham a Vida!” (João 5, 39-40). Sim, a Bíblia diz que as Escrituras são ÚTEIS para instruir, mas nunca diz, em versículo algum, que somenteas Escrituras instruem, ou que só o que as Escrituras dizem é que vale como base para a fé. Isso é uma invenção humana sem nenhum fundamento. E a Bíblia também diz que devemos guardar a Tradição (cf. 2 Tessalonicenses 2, 15 e 2 Tessalonicenses 3, 6, entre outros). Contrariando a Bíblia, os “evangélicos” rejeitam a Tradição.

2) O princípio “Só a fé salva”
A mesma Bíblia ensina que a fé sem obras é morta, na Epístola de Tiago (2, 14-26). A mesma Bíblia ensina que o cristão deve perseverar até o fim para ser salvo (Mt 24, 13). E ainda acrescenta que seremos julgados,todos, por nossas ações boas ou más. Existem várias passagens que dão conta de um julgamento futuro e, sendo assim, é falso que alguém aqui na terra já esteja salvo só porque “aceitou Jesus”. Não basta ir à frente de uma assembleia e dizer “Aceito Jesus como meu Senhor e Salvador” para ganhar o Céu. Não, não. É preciso muito mais do que isso. Conversão não é da boca para fora: é preciso que cada um tome a sua cruz e siga o Senhor, que, aliás, nunca prometeu prosperidade para quem o seguisse. Portanto, é totalmente mentirosa a afirmação de que basta ter fé para ser salvo. Ora, os demônios também creem (Tiago 2, 19)…

3) Lutero
Foi Martinho Lutero quem começou com as “igrejas” protestantes, que deram origem às “igrejas evangélicas” de hoje. Mas o que ele pensava é seguido apenas em parte pelos “evangélicos” de hoje. Eles seguem somente os princípios “Só a Bíblia” e “Só a Fé”. Embora Lutero seja o fundador de todas as igrejas evangélicas que existem hoje, por que não são todos luteranos? Na verdade, isso seria bem menos pior… Por outro lado, se reconhecem que Lutero é um homem falível, como é possível a um “evangélico” ter tanta certeza de que os princípios que ele inventou sejam dignos de confiança absoluta? Mais do que o que ensina a única Igreja que tem 2.000 anos e foi instituída diretamente por Jesus Cristo? Mais: o próprio Lutero contestou o Papa e decretou que não se deve confiar num sacerdote. Mas ele mesmo era um ex-sacerdote católico. Então, se ele mesmo se descarta como pessoa confiável, quem é tolo o suficiente para dar crédito ao que ele disse ou escreveu?

4) Subjetivismo religioso I
Uma denominação evangélica não é igual a outra em matéria de fé. Isso é fato, pois: Umas batizam crianças, outras não; Umas admitem o divórcio, outras o repudiam; Umas aceitam mulheres como “pastoras”, outras não; Umas praticam a “santa ceia”, outras não; Umas ensinam que devemos guardar o sábado, outras não; Algumas ensinam a teologia da prosperidade, outras a repudiam; Por aí vai… Tem “bispo evangélico” por aí defendendo até o aborto, só porque a Igreja Católica é (claro) contra! É comum ouvirmos frases como estas: “Nesta ‘igreja’ está o verdadeiro caminho”, ou “Deus levantou este ministério” ou ainda “a tua vitória está aqui”. Mais comum ainda é os “pastores” dizerem que as igrejas deles são “ungidas”… Ora, se todas essas igrejas ditas “evangélicas” são tão diferentes entre si, e a Verdade é uma só, como é possível um “evangélico” ter certeza que está no caminho certo, ou que o seu “pastor” está pregando a “Verdade”, se existem tantos outros “pastores” (que também dizem seguir a Bíblia e afirmam que são “ungidos”) que discordam dele?

5) Subjetivismo religioso II
Cada “crente” pode interpretar a Bíblia do jeito que quiser, segundo a tese protestante de Lutero. Mas todos nós sabemos que um “crente” não concorda com outro em todas as coisas. Muitas vezes divergem entre si mais do que convergem. Se cada qual interpreta a Bíblia do seu jeito, e nem poderia ser diferente, então, como é possível um “evangélico” ter a certeza de que está certo na sua interpretação? E por quê, meu Deus, por quê apenas a interpretação da Igreja Católica é que está totalmente errada, em tudo? Essa é a mais cruel de todas as incoerências das “igrejas” ditas “evangélicas”: praticamente todas elas se reservam o direito de criticar umas às outras, mas todas são unânimes em criticar a Igreja Católica! O mais incrível é não percebem que, agindo assim, estão cumprindo as profecias bíblicas do próprio Senhor Jesus Cristo: “Sereis odiados de todos por causa do meu Nome” (Lucas 21, 17); “Bem aventurados sereis quando, mentindo, disserem toda espécie de mal contra vós, por amor ao meu Nome” (Mateus 5, 11-12)… Os pastores se ajoelham e se prostram diante de réplicas da Arca da Antiga Aliança, mas eles não chamam esses pastores de “idólatras”. Só os católicos são chamados assim. Eles idolatram até lencinhos embebidos no suor de alguns pastores, mas não acham que isso é idolatria… Em algumas denominações, acontece a distribuição de lembrancinhas, sabonetinhos para espantar “olho gordo”, vidrinhos de óleo “ungido”, “rosas consagradas”, etc, etc… Mas nada disso, para eles, é idolatria. Somente os católicos é que são idólatras. Todos pensam assim, porque todos sofreram a mesma lavagem cerebral, que é muito difícil de reverter.

6) Subjetivismo religioso III
A interpretação pessoal da Bíblia por cada “crente” e “pastor” afronta claramente a Bíblia. De acordo com a santa Palavra de Deus, interpretação alguma é de caráter individual. Examinar a Bíblia não é o mesmo que interpretá-la. Posso examinar uma pessoa e lhe informar que encontrei uma mancha na sua pele. Mas o diagnóstico deve ser feito pelo médico, e não por mim, que sou leigo.

7) “Igreja não importa” e “igreja não salva”…
Todo “crente” diz em alto e bom som: “Igreja não salva ninguém”. Ora, se igreja não salva ninguém e cada um pode interpretar a Bíblia pessoalmente, para quê frequentar alguma denominação? Quando ocorre algum escândalo envolvendo algum “pastor”, o crente também diz: “Olha para Jesus e não para o pregador”. Mas se o pregador ensina tolices e princípios contrários ao verdadeiro cristianismo, por que eu deveria ouvir o que ele diz? Não é possível “olhar para Jesus” assim. Pelo contrário, isso só vai colocar em risco a minha alma! Se cada crente pode interpretar pessoalmente a Bíblia, se “igreja” não salva ninguém e o pastor não é confiável (ele é só um homem falível), então por que os “evangélicos” continuam dando tanto crédito aos pregadores?

8) Evangelização ou PROSELITISMO?
E se cada um de fato pode interpretar a Bíblia a partir da sua leitura pessoal, que conta com a assistência do Espírito Santo, por que ao invés de pregar não se imprimem Bíblias e se distribui à população? Ora, se basta ter fé para ser salvo e se cada um pode ser o próprio intérprete da Bíblia, para que servem as denominações, os cultos, os “pastores”, as pregações, livros, CDs e DVDs? Ao invés dos milhões em dízimos e ofertas, que sustentam toda uma estrutura que é desnecessária (afinal todos os que crerem já estão salvos…), por que não reunir esses recursos e construir gráficas e mais gráficas para a impressão de Bíblias e distribuí-las para todos aqueles que não conhecem Jesus? Eu digo porquê: porque os “pastores” se encarregam de passar a sua interpretação pessoal da Bíblia aos ingênuos que os seguem. E essa interpretação é deturpada e não tem nada a ver com a Mensagem original nos Evangelhos. Os “evangélicos” pensam que entendem a Bíblia, mas na verdade tudo o que eles conhecem é a interpretação pessoal deste ou daquele “pastor”. Se nem o pregador é digno de confiança, razão pela qual o crente deve confrontar o seu entendimento pessoal da Palavra com a pregação do palestrante, por que razão alguém deveria dar crédito a um desconhecido que lhe vem falar como porta-voz de Jesus?

9) Interpretação bíblica
Agora, se cada um pode interpretar a Bíblia e se todas as interpretações estão corretas, mesmo que sejam todas diferentes entre si, por que só a interpretação católica está errada? A Bíblia só pode ser interpretada se a pessoa está sob o rótulo de “evangélico”? Nesse caso, o que salva não é a fé, é o rótulo. E se for assim, ao contrário do que eles afirmam, a placa da igreja ou o rótulo de “evangélico” é que salva. Pela visão protestante, milhares e milhares de denominações estão corretas nas suas interpretações bíblicas, mesmo que sejam diferentes entre si. Todas elas estão certas e apenas uma está errada, que seria a Igreja Católica. Justamente a primeira igreja que existiu é que não conta com a assistência do Espírito Santo. Nesse caso, Jesus mentiu quando disse que os portais do inferno não prevaleceriam contra a Igreja (Mt 16, 18) pois o inferno teria triunfado contra a Igreja Católica, e também quando disse que estaria com a sua Igreja até o fim do mundo: ele só se faz presente para quem carrega o rótulo de “evangélico”…

10) O Pai Nosso
A oração é bíblica. Foi ensinada pelo Senhor Jesus. O “evangélico” a repudia. Por quê? Para não parecer católico! O “crente” jura defender a Bíblia, mas é o primeiro a não obedecê-la… Ele decidiu que não irá recitar o Pai Nosso e fim de papo. E pior. Quem o faz está errado, ainda que esteja obedecendo à Bíblia. O crente se acha melhor do que Jesus. Jesus fez a oração do Pai Nosso, mas o “evangélico” não tem que fazê-la…

11) Maria
Isabel, que ficou cheia do Espírito Santo com a visita de Maria, chamou-a de “mãe do meu Senhor”. O crente a chama de “mulher como outra qualquer”… Isabel recebeu o Espírito Santo com a chegada de Maria, grávida de Jesus Cristo, Deus Todo-Poderoso. O “evangélico” fica cheio de ira quando se menciona o nome de Maria… João Batista estremece no ventre de Isabel ao ouvir a voz de Maria. O crente se enfurece quando ouve o nome Maria… A Bíblia diz que Maria será chamada de bem aventurada por todas as gerações. O crente a chama de mulher pecadora como qualquer outra. O protestante rasga os Textos Sagrados. E jura defender a Bíblia. Seguem o que querem e desprezam o que não lhes interessa!

12) Confissão
A Bíblia é clara: aos Apóstolos foi dado o poder de reter e perdoar pecados (Lucas 20, 21-23). Como é possível reter ou perdoar se alguém não lhes confessa? Desnecessário falar mais a respeito.

13) Fundação de “igrejas”
A Bíblia não faz qualquer referência à milhares de “igrejas” diferentes e separadas, mundo afora. Mas para fundarem suas denominações, os “evangélicos” não fazem questão da tal da base bíblica de que tanto falam. A Bíblia diz que devemos ser um só corpo. Eles fazem o contrário. Dividem-se, subdividem-se, de novo e de novo. Se uma igreja não está agradando, procuram outra mais ao seu gosto, e os mais espertos fundam as suas próprias igrejas, do jeito que acham mais certo (ou do jeito que dá mais lucro, em muitos casos), segundo sua própria interpretação da Bíblia. E todos dizem que estão sendo guiados por Deus. Existe um Deus ou muitos deuses? Se é um só Deus, como tantas igrejas podem ensinar coisas diferentes, e todas estão certas, menos a católica? Eles fragmentam o Corpo e pulverizam a mensagem do Evangelho. Fazem o contrário do que o Senhor ordenou! Basta um crente discordar do outro, – e isso é a coisa mais fácil de acontecer, – que já surge uma nova denominação. Seus líderes podem ter “visões” para fundarem novas denominações. Mas somente as revelações católicas aprovadas pela Santa Igreja é que são refutadas… O crente acredita no que deseja. E rejeita tudo que é católico. Sempre dois pesos e duas medidas. O pastor falou que teve uma visão e todo mundo engole. Nessa hora o “biblicamente” ou “a Palavra de Deus” não tem qualquer importância.

 

“A Igreja não está formada somente pelos padres, a Igreja somos todos”, diz o Papa

VATICANO, 11 Set. 13 (ACI/EWTN Noticias) .- O Papa Francisco retomou nesta manhã as catequeses sobre a Igreja neste Ano da Fé e, ante umas cinquenta mil pessoas presentes na Praça de São Pedro, explicou que a Igreja é mãe e que todos somos parte dela, não só os bispos “e os padres”. “Às vezes ouço: ‘Eu creio em Deus, mas não na Igreja… Ouvi que a Igreja diz… os padres dizem…’. Mas uma coisa são os padres, mas a Igreja não é formada somente de padres, a Igreja somos todos! E se você diz que crê em Deus e não crê na Igreja, está dizendo que não acredita em si mesmo; e isto é uma contradição”. O Papa Francisco disse que “a Igreja somos todos: da criança recentemente batizada aos Bispos, ao Papa; todos somos Igreja e todos somos iguais aos olhos de Deus! Todos somos chamados a colaborar ao nascimento à fé de novos cristãos, todos somos chamados a ser educadores na fé, a anunciar o Evangelho… Todos participamos da maternidade da Igreja, todos somos Igreja, a fim de que a luz de Cristo alcance os extremos confins da terra. E viva à santa mãe Igreja!”. O Santo Padre refletiu em torno da maternidade da Igreja, recordando que “entre as imagens que o Concílio Vaticano II escolheu para fazer-nos entender melhor a natureza da Igreja, há aquela da ‘mãe’: a Igreja é nossa mãe na fé, na vida sobrenatural”. “Para mim, é uma das imagens mais belas da Igreja: a Igreja mãe! Em que sentido e de que modo a Igreja é mãe? Partamos da realidade humana da maternidade: o que faz uma mãe?”. “Antes de tudo, uma mãe gera a vida, leva no seu ventre por nove meses o próprio filho e depois o abre à vida, gerando-o. Assim é a Igreja: nos gera na fé, por obra do Espírito Santo que a torna fecunda, como a Virgem Maria”. Certamente, prosseguiu o Santo Padre, “a fé é um ato pessoal… mas eu recebo a fé dos outros, em uma família, em uma comunidade que me ensina a dizer “eu creio”, “nós cremos”. Um cristão não é uma ilha! Nós nãos nos tornamos cristãos em laboratório, não nos tornamos cristãos sozinhos e com as nossas forças, mas a fé é um presente, é um dom de Deus que nos vem dado na Igreja e através da Igreja”. “E a Igreja nos doa a vida de fé no Batismo: aquele é o momento no qual nos faz nascer como filhos de Deus, o momento no qual nos dá a vida de Deus, nos gera como mãe… Isto nos faz entender uma coisa importante: o nosso fazer parte da Igreja não é um fato exterior e formal, não é preencher um cartão que nos deram, mas é um ato interior e vital; não se pertence? à Igreja como se pertence a uma sociedade, a um partido ou a qualquer outra organização. O vínculo é vital, como aquele que se tem com a própria mãe, porque, como afirma Santo Agostinho, a ‘Igreja é realmente mãe dos cristãos’”. O Papa ressaltou que “uma mãe não se limita a gerar a vida, mas com grande cuidado ajuda os seus filhos a crescer, dá a eles o leite, alimenta-os, ensina-lhes o caminho da vida, acompanha-os sempre com a sua atenção, com o seu afeto, com o seu amor, mesmo quando são grandes. E nisto sabe também corrigir, perdoar, compreender, sabe ser próxima na doença, no sofrimento. Em uma palavra, uma boa mãe ajuda os filhos a sair de si mesmos, a não permanecer comodamente debaixo das asas maternas”. “A Igreja, como boa mãe, faz a mesma coisa: acompanha o nosso crescimento transmitindo a Palavra de Deus, que é uma luz que nos indica o caminho da vida cristã; administrando os Sacramentos. Alimenta-nos com a Eucaristia, traz a nós o perdão de Deus através do Sacramento da Penitência, sustenta-nos no momento da doença com a Unção dos enfermos. A Igreja nos acompanha em toda a nossa vida de fé, em toda a nossa vida cristã”. Francisco assinalou que nos primeiros séculos da Igreja havia uma realidade muito clara: “a Igreja, enquanto é mãe dos cristãos, enquanto ‘forma’ os cristãos, é também ‘formada’ por eles. A Igreja não é algo diferente de nós mesmos, mas é vista como a totalidade dos crentes, como o “nós” dos cristãos: eu, você, todos nós somos parte da Igreja”.

São José Moscati – 16 de Dezembro

MOSCATI – O DOUTOR QUE VIROU SANTO – O AMOR QUE CURA
(Giuseppe Moscati – Doctor to the Poor) 
Itália
2009
Gênero: Drama
Duração: 200 Min.
Produtora: Casablanca Filmes
Direção: Giacomo Campiotti
Elenco: Beppe Fiorelo, Etorre Bassi, Kasia Smutniak

Sinopse: Giuseppe Moscati, um médico ainda muito admirado na Itália pelo trabalho que fez com os pobres no final do século XIX e inicio do século XX, é um dos poucos leigos a ser canonizado pela Igreja Católica, tornando-se assim um santo. Veremos aqui sua trajetória e sua ajuda no tratamento de pessoas necessitadas em plena epidemia da Cólera, das que sofreram da erupção do vulcão Vesúvio e na condução das investigações que levaram a descoberta da insulina como cura para a diabetes.

 

SÃO JOSÉ MOSCATI
Médico e Santo de Nápoles
Antonio Tripodoro s.j. – Egidio Ridolfo s.j.
[Tradução por Alberto Penna Rodrigues – Fabio Boldo]
http://www.gesuiti.it/moscati/Brasil.html

Quem é São José Moscati?
Paulo VI, o Papa que o beatificou: “Quem é este que se nos propõe para que todos o imitemos e veneremos? É um leigo que fez de sua vida uma missão vivida em plena autenticidade evangélica… É um professor universitário que deixou entre seus alunos uma marca de profunda admiração… É um homem de ciência célebre pela sua contribuição científica a nível internacional… Sua existência é simplesmente tudo isto…”
João Paulo II, o Papa que o canonizou: “O homem que a partir de hoje nós invocaremos como um Santo da Igreja universal representa para nós a realização concreta do leigo cristão. José Moscati, Médico diretor de clínica, pesquisador famoso no domínio científico, professor universitário de fisiologia humana e de química fisiológica, tomou suas múltiplas atividades com todo o engajamento que necessita a delicada profissão de leigo. Sob este ponto de vista Moscati é um exemplo não somente a ser admirado, mas a ser seguido, sobretudo pelos representantes sanitários. Ele representa um exemplo até para os que não partilham de sua fé”.

Os Pais
A família Moscati provém de Santa Lucia de Serino, pequena região na província de Avellino.
Em S. Lucia de Serino, em 1836, nasceu Francisco, o pai do futuro Santo, que se diplomou em jurisprudência e percorreu brilhantemente a carreira da magistratura.
Foi juiz do Tribunal de Cassino, Presidente do Tribunal de Benevento, Conselheiro da Corte de Apelo, primeiro em Ancona e depois em Nápoles, onde faleceu em 21 de Dezembro de 1897.
Em Cassino Francisco Moscati conheceu e esposou Rosa de Luca. Do matrimônio nasceram nove filhos: José foi o sétimo.
Assim viveu o pai do Santo, todo ano conduzia a esposa e os filhos a terra natal, para um período de repouso e para estar em contato com a natureza. Se dirigiam juntos à igreja das Clarissas, para participar da Missa, que freqüentemente o próprio Francisco servia.
Em duas cartas S. José Moscati faz referência a terra natal. A primeira é de 20 de Julho de 1923, escrita durante sua viagem à França e Inglaterra:
“Às 14.20 horas partimos para Modane, para a França. […] Atravessamos os vales fechados de montes recobertos de castanheiras (Borgonha). Aqui e lá o nastro prateado dos rios: como é simples esta paisagem como aquela inesquecível de Serino, o único lugar ao mundo, a Irpinia, onde com prazer passarei os meus dias, porque encerra as mais importantes, as mais doces memórias da minha infância, e os restos mortais dos meus queridos!”
A segunda carta foi escrita em 19 de Janeiro de 1924, depois de ter presenciado a morte de um tio seu:
“O fim de tio Carmelo é o abalo de tantas recordações queridas ligadas à sua pessoa. Oh, as doces memórias da infância, dos montes de Serino! Assim como as pessoas da terra de meu pai me estão plantadas no coração indelével; e a desilusão de mais: Precipita a parte romântica da minha personalidade. E mais me sinto só, só e próximo a Deus!”

Benevento, cidade natal do Santo
José Moscati nasceu em Benevento em 25 de Julho de 1880, festa litúrgica de S. Tiago Maior Apóstolo. A família mudou-se para lá de Cassino em 1877, quando Francisco Moscati foi promovido Presidente do Tribunal, tomando moradia na Rua S. Diodato, nos arredores do hospital dos irmãos de caridade.
Poucos meses depois foram morar em um apartamento da Rua Porta Áurea, próximo ao Arco de Trajano, construído em honra do Imperador em 114 d.C. No palácio Andreotti, comprado depois da família Leo, nasceu José, no último quarto à esquerda. Se tem acesso ao apartamento através de um amplo portal que vai a um pátio ao qual parte uma grande escada de pedra. Uma lápide ao lado do portão de entrada recorda o acontecimento.
Na Catedral de Benevento, na capela do SS. Sacramento, se pode admirar a estátua de mármore de S. José Moscati, obra de P. Mazzei de Pietrasanta.

Benevento ao nascimento de Moscati
Em 3 de Setembro de 1860, após cerca de oito séculos de governo pontifício, Benevento era anexada ao Reino da Itália.
O último Delegado Apostólico, Mons. Eduardo Agnelli, ao deixar a cidade havia recebido honra das armas dos soldados do novo regime. A cidade mudava de vida e entrava na ordem territorial da nação italiana.
“Segundo o esquema político piemontês foram desapropriados os conventos, expulsos os religiosos, violados os arquivos, deturpadas ou destruídas as linhas arquitetônicas dos antigos edifícios. Alguns esperavam coisas novas e interessantes. Outros temiam… O clan maçônico, importado da zona limítrofe, então também teve seu tempo favorável.
Á chegada da família Moscati, […] em Benevento os ardores eram em boa parte ás escondidas” (Lauro Maio, S.Giuseppe Moscati e Benevento sua città natale, Benevento 1987, p.13).

Formação humana e cristã
José Moscati nasceu em Benevento no dia 25 de Julho de 1880. Filho de Francisco, Presidente do Tribunal de Benevento e de Rosa de Luca, dos Marqueses de Roseto. José era o sétimo de nove filhos.
Ele foi batizado em casa seis dias após o nascimento, no dia 31 de Julho de 1880, festa de santo Inácio de Loiola, por Dom Inocente Maio.
Em 1881, seu pai foi promovido conselheiro na Corte de Apelação e se transfere para Ancona com sua família. Em 1884, ele se muda para Nápoles como Presidente da Corte de Apelação.
O pequeno José fez seu primeiro encontro com Jesus Eucarístico, no dia 8 de Dezembro de 1888, na igreja das Servas do Sagrado-Coração (Ancelle del Sacro Cuore) de Nápoles, durante uma cerimônia celebrada por Monsenhor Henrique Marano. Não possuímos outras informações sobre este acontecimento, mas podemos dizer que foi neste dia que foram lançadas as bases de sua vida eucarística, que será um dos segredos da santidade do professor Moscati.
Após os estudos primários, José Moscati entra no Liceu Clássico, instituto Vittorio-Emanuele, no qual ele prestará o vestibular em 1897.
Dois meses após ter iniciado seus estudos de Medicina, o jovem Moscati é atingido por um grande luto, que o marcará profundamente: seu pai Francisco, em seguida a uma hemorragia cerebral, morrerá dois dias mais tarde, no dia 21 de Dezembro de 1897, após ter recebido os últimos sacramentos.
No ambiente universitário, Moscati se distinguirá pelo seu cuidado e empenho e no dia 4 de Agosto de 1903, obterá seu Doutorado de Medicina, com uma tese sobre a urogenese hepática, e obterá louvores.

Universidade e Hospital
Após a obtenção do Doutorado em Medicina, a universidade e o hospital se tornarão o campo de atividade do jovem médico. Logo ele passará um concurso de Colaborador Extraordinário no Hospital dos Incuráveis (1903) e um outro de Assistente no Instituto de Química Psicológica (1908), onde ele logo ganhará muitas marcas de admiração e de prestígio no domínio científico.
Um novo luto, no dia 13 de Junho de 1904, atinge Moscati, seu irmão Alberto morre, o qual sofria de epilepsia após uma queda de cavalo durante uma parada militar em 1892.
José tinha o hábito de passar várias horas junto a ele para tratá-lo. É à cabeceira de seu irmão que ele decidirá seguir os estudos de medicina, caso único em sua família e objeto de discussões.
Em 1906, erupção do Vesúvio, Moscati se distinguirá pelos seus trabalhos de socorro. Na Torre del Greco (perto de Nápoles), ele providenciará a evacuação do hospital de onde ele próprio ajudará os doentes a sair antes do desabamento do teto.
Dois dias mais tarde ele mandará uma carta ao diretor geral dos Hospitais Reunidos de Nápoles, propondo gratificar as pessoas que o ajudaram, mas insistirá muito para que não citem o seu nome.
Em 1911, com 31 anos, o doutor Moscati é aprovado no concurso de Colaborador ordinário dos Hospitais Reunidos. Era um concurso muito importante que não era realizado desde 1880 e do qual participam médicos vindos de todas as partes.
No mesmo ano, pela iniciativa de Antônio Cardarelli, a Academia Real de Medicina Cirúrgica o nomeará Membro participante e o Ministério de Educação Pública lhe atribuirá o Doutorado em Química Fisiológica.
«Lembrem-se que, ao optar pela medicina, vocês tomaram a responsabilidade de uma missão sublime. Com Deus no coração, perseverem, praticando os ensinamentos de seus pais, o amor e a compaixão pelos que sofrem e com uma fé e um entusiasmo surdos aos elogios e às críticas» (carta enviada ao doutor Giuseppe Biondi; 1 de Setembro de 1921).
No final do ano de 1914, Rosa, a mãe do professor Moscati, atingida pela diabete, vê a sua doença, ainda incurável por então, se agravar. Moscati foi um dos primeiros médicos em Nápoles, a experimentar a insulina. Sua mãe morre no dia 25 de Novembro de 1914.
Antes de expirar, após ter recebido com muita devoção os últimos sacramentos, ela dirá aos seus filhos que se ajuntam em torno a ela: “Meus filhos, morro contente. Fujam do pecado que é o maior mal da vida”.
No dia 24 de Maio de 1915, a Itália entra no conflito mundial; o professor Moscati apresenta o pedido de alistamento voluntário, entretanto ele não será aceito. As autoridades militares confiarão os feridos aos seus cuidados. Ele visitará e cuidará de aproximadamente 3.000 militares, pelos quais ele redigirá um diário e suas histórias clínicas. Moscati foi para eles não somente o médico, mas também o consolador atencioso e afetuoso.
Nos anos que se seguirão, o professor Moscati renunciará à cadeira de Química Fisiológica da Universidade Frederico II de Nápoles. Será seu amigo e compadre, o professor Quagliarello, designado pelo próprio Moscati como alternativa, a se beneficiar disto.
Mais tarde, o professor Quagliarello se tornará Reitor desta universidade. É ele que, com grande humildade, nos fornecerá estas informações e declarará muito justamente: “Quantos gestos de generosidade deste gênero ele não fez? Só o Bom Deus o sabe, pois muito freqüentemente, os próprios beneficiários não estavam ao par”.

Escolha definitiva pelo trabalho hospitalar
Após esta decisão, tomada conscientemente, o professor Moscati se orienta definitivamente em direção do trabalho hospitalar, onde ele empregará todo seu tempo, sua experiência e seus recursos. As doenças e misérias físicas e espirituais estarão sempre no primeiro lugar de suas preocupações, pois os doentes – ele dirá – «são a imagem de Jesus Cristo, almas imortais, divinas, que temos o dever urgente de amar como a nós mesmos, segundo o Evangelho».
São estas as convicções que Moscati manifesta nos seus escritos, principalmente quando ele se dirige aos seus colegas, lembrando-lhes que «a dor não deve ser tratada como uma vacilação ou uma contração muscular, mas como o grito de uma alma ao qual um outro irmão, o médico, acorre com ardor e caridade»
O renome de Moscati como professor e médico aumentava com a sua fama. Todos falavam de suas aulas, de suas qualidades de discernimento, de seu trabalho com os doentes. O conselho de administração o nomeará Diretor da Sala III dos Homens. Era em 1919.

Médico Diretor do Instituto de Anatomia Patológica
Além de seu intenso trabalho entre a Universidade e o Hospital o professor Moscati assegurava também a direção do Instituto de Anatomia Patológica, anteriormente dirigido por Luciano Armanni, mas em seguida descuidado por falta de atenção.
«Mas a vida não acaba com a morte, ela continua num mundo melhor. Foi a todos prometido, após a redenção do mundo, que chegará o dia que nos reunirá aos nossos seres queridos já falecidos, e que nos levará ao Amor supremo» (carta a Mr Mariconda, de 27 de Fevereiro de 1919).
De acordo com o professor Quagliarello ele se tornará logo “um mestre em autópsias”. O professor Rafael Rossiello, que estudou a fundo e com competência a anatomia patológica de São José Moscati, afirma que após sua morte, nem as revista sanitárias, nem os que se lembravam dele em seus discursos, nem as numerosas biografias revelaram “sua atividade de mestre do setor e diretor do Instituto de Anatomia e Histologia Patológica “Luciano Armanni”.
Por outro lado a descoberta – pelo doutor Renato Guerrieri – médico diretor do hospital dos incuráveis, de um registro de autópsias efetuadas por Moscati no período – indo de 25 de Dezembro de 1925 a 9 de Fevereiro de 1927 – nos mostra de novo o aspecto quase desconhecido da personalidade complexa de José Moscati no domínio médico e científico.
Luciano Armanni fizera gravar esta frase na entrada da sala de anatomia: “Hic est locus ubi mors gaudet succurrere vitae” (“Aqui a morte está contente de ajudar a vida”). “Mas na sala – escreve o professor Nicola Donadio – não havia nenhum traço de religião. O aposento era austero, mas vazio, exatamente como em todos os lugares dominados pelo materialismo.
O professor Moscati teve uma idéia e a realizou, a de colocar muito alto na parede da sala, de modo que pudesse dominar o aposento, um crucifixo com uma inscrição que não poderia ser melhor: «Ero mors tua, o mors» (citação do profeta Oséias, 13. 14: Oh morte, eu serei a tua morte”).
As autópsias realizadas por Moscati eram uma lição de vida.

Relato de um aluno de Moscati: o doutor André Piro, Médico Diretor da Ala III Masculina, no Hospital dos Incuráveis
Um dia, enquanto estávamos visitando os doentes, fomos convidados a ir à sala das autópsias; ficamos surpresos, não podendo entender este convite, pois neste dia não havia nenhuma autópsia a ser feita.
O professor Moscati, que nos tinha convidado, já tinha se dirigido à sala e nos apressamos em segui-lo.
Sobre a mesa anatômica não havia nada e os que nos tinham precedido estavam olhando a parede, no alto da qual podia-se admirar um Crucifixo com uma inscrição “Ero mors tua, o mors” que o Professor fizera dependurar. Tínhamos sidos convidados a prestar homenagem ao Cristo, à Vida que voltava a este lugar de morte após uma ausência bem longa.
Em 1919 ele foi nomeado oficialmente Médico Diretor da Ala Masculina, pela Administração do Hospital. De acordo com as avaliações sobre o trabalho de Moscati e as alusões à sua nova posição constatamos que esta última promoção foi uma grande alegria para todos: seus amigos, seus assistentes e alunos.
A reputação de Moscati como mestre e médico era indiscutível. Todo mundo exaltava suas aulas, seus diagnósticos e seu trabalho entre os doentes.
«O médico está numa posição privilegiada, pois freqüentemente ele se encontra em presença de almas que – apesar de erros cometidos – estão capitulando e voltando aos princípios éticos dos ancestrais e estão ansiosos em serem reconfortados, pois estão arrasados pelas dores. Bem aventurado o médico, que pode compreender o mistério destes corações e inflamá-los de novo» (carta enviada ao doutor Onófrio Nastri de Amalfi (SA), no dia 8 de Março de 1925).
Ninguém mais do que ele podia aspirar a este posto e ninguém era mais qualificado do que ele para recebê-la. Também ele estava contente, mas como sempre para ele, a satisfação humana não estava separada da satisfação espiritual que apenas passava pelos fatos contingentes e tomava raízes por motivações muito mais elevadas e nobres.
No hospital os sucessos não lhe diziam respeito mas concerniam exclusivamente os doentes pelos quais ele se empenhava e trabalhava com afinco. É o que se apreende de uma carta escrita no dia 26 de Julho de 1919 dirigida ao Senador G.D’Andrea – Presidente dos Hospitais Reunidos de Nápoles.
«Agradeço vivamente Vossa Senhoria e o Conselho de Administração pela promoção de Médico diretor de Sala, que acaba de me ser concedida.
Desde minha infância, via com interesse o hospital dos Incuráveis, que meu pai me mostrava com o dedo e este lugar me inspirava sentimentos de compaixão por causa da dor sem nome, aliviada no interior destas paredes.
Levado por profunda emoção eu começava a refletir sobre a renovação periódica do mundo e as ilusões se iam como se fossem as flores das laranjeiras que caíam em volta de mim.
Nesta época, eu me consagrava aos estudos de Letras e não imaginava e nem sonhava que um dia neste edifício branco – onde mal se viam atrás dos vitrais os doentes hospitalizados como se fossem fantasmas brancos – eu subiria ao escalão mais elevado da medicina.
Vou tentar, graças a Deus, e com minhas módicas forças, de responder à confiança que me foi concedida e de colaborar na reconstrução econômica dos velhos hospitais de Nápoles nestes tempos tão miseráveis».

A Morte Repentina
No dia 12 de Abril de 1927, Terça-Feira Santa, o professor Moscati, depois de ter participado da missa, como todos os dias, e de ter recebido a comunhão, passou a manhã no hospital, depois voltou para casa e após uma refeição, como de hábito, ele se ocupou dos pacientes que vinham consultá-lo em casa.
Por volta das 15 horas, ele teve um mal-estar e se sentou no seu sofá, pouco depois ele cruzou os braços e expirou serenamente. Ele tinha 46 anos e 8 meses.
A notícia de sua morte se espalhou imediatamente e a dor foi unânime. Os pobres principalmente o prantearam sinceramente, pois eles tinham perdido o seu benfeitor.

Traslado do corpo para a igreja do “Gesù Nuovo”
O corpo foi enterrado no cemitério de Poggioreale. Mas três anos mais tarde, no dia 16 de Novembro de 1930, por insistência de várias personalidades do clero e de leigos, o arcebispo de Nápoles, cardeal Alessio Ascalesi, permitiu o traslado do corpo do cemitério para a igreja do Gesù Nuovo, entre uma dupla fileira de pessoas.
É Nina Moscati, a irmã do professor, que nesta ocasião será a mais feliz de todos, pois ela sempre esteve perto de seu irmão para encorajá-lo e apoiá-lo na prática de caridade e será ela quem, após a morte, doará à igreja todos os pertences pessoais de Moscati assim como os móveis e objetos.
O corpo foi deposto numa sala atrás do altar de São Francisco Xavier, e hoje uma pedra de mármore, colocada à direita deste altar, lembra-o ainda.

A Beatificação (Paulo VI)
A grande estima e a consideração que já em vida cercavam o professor Moscati cresceram após a sua morte, e logo a dor e as lágrimas dos que o conheceram e amaram se tornaram em alegria, entusiasmo e reza. Rogava-se por ele para tudo.
Enquanto isto, instruiu-se o processo para o exame de dois milagres: duas curas atribuídas ao Servidor de Deus.
Neste dia, na praça de São Pedro, apesar de uma chuva que cairá várias vezes, uma grande multidão de fiéis seguirá com viva emoção até o fim o rito sagrado.
No dia 16 de Novembro de 1975, o papa Paulo VI proclama José Moscati Bem-Aventurado, durante uma celebração solene na basílica de São Pedro em Roma.

A Canonização (João Paulo II)
Em 1977, dois anos após a Beatificação, houve o reconhecimento canônico do corpo: recompôs-se o esqueleto de Moscati e depuseram-no num relicário de bronze feito pelo professor Amadeu Garufi e em seguida colocado sob o altar da Visitação.
A devoção a Moscati vai aumentando cada dia mais. As graças obtidas por sua intercessão são cada dia mais numerosas. Com vistas à canonização, será examinada a cura da leucemia, ou mielóideaguda mielobástica, do jovem José Montefusco, que aconteceu em 1979.
Finalmente, após longos exames, durante o consistório de 28 de Abril de 1987, o Papa João Paulo II fixa a data da canonização para o dia 25 de Outubro do mesmo ano 1987.
De 1 a 30 de Outubro, em Roma, se desenrolava a VII assembléia do Sínodo dos Bispos, cujo tema era: “Vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo, 20 anos após o Concílio Vaticano II”.
No dia 25 de Outubro de 1987, às 10 horas da manhã, na Praça de São Pedro, em Roma, o Papa João Paulo II, em presença de 100.000 pessoas, proclama e admite oficialmente José Moscati no número dos Santos (60 anos após sua morte).
Não poderia haver melhor coincidência: José Moscati era um leigo que tinha cumprido sua missão na Igreja e no mundo. Sua canonização era muito desejada e esperada por todos: estudantes, universitários e médicos, que tinham conhecido o médico Moscati como um homem de grande fé e de grande caridade, que assistia e aliviava os sofrimentos de seus doentes, mas que principalmente, levava-os a Deus.
Sua festa litúrgica será fixada para o dia 16 de Novembro.

Oração a São José Moscati
“Ó São José Moscati, médico e insigne cientista, que no exercício da profissão curavas o corpo e o espírito de teus pacientes, olha também para nós que agora recorremos com fé a tua intercessão.
Dá-nos saúde física e espiritual, intercedendo por nós junto ao Senhor. Alivia as penas dos sofredores, conforta os doentes, consola os aflitos, dá esperança aos desesperançados.
Que os jovens encontrem em ti um modelo, os trabalhadores um exemplo, os idosos um conforto, os moribundos a esperança do prêmio eterno.
Sê para todos nós um guia seguro de laboriosidade, honestidade e caridade, a fim de que cumpramos cristãmente os nossos deveres, dando glória a Deus, nosso Pai. Amém”.

ALGUNS PENSAMENTOS DE SÃO JOSÉ MOSCATI
(Tradução por Clemente Treccani)

“A vida é um piscar de olho: honras, triunfos, riquezas e ciências tombam, diante da realização do grito do Gênesis, do grito lançado por Deus contra o homem culpado: tu morrerás! Mas a vida não acaba com a morte, continua com um jeito melhor. Para todos é prometido, após a redenção do mundo, o dia que nos reunirá a nossos entes falecidos, e que nos reconduzirá ao supremo Amor!” [De carta ao advogado Mariconda, que perdeu a irmã. 27 de fevereiro 1919].

“Mas a vida foi definida um relâmpago no eterno. E nossa humanidade, por mérito da dor que a recheia, e da qual se saciou Aquele que vestiu nossa carne, transcende a matéria e nos leva desejar uma felicidade além do mundo. Bem-aventurados aqueles que seguem essa tendência da consciência, e olham para o além, onde os afetos terrenos, que pareciam precocemente quebrados, serão reunidos” [Da carta à Senhorita Carlotta Petravella, que perdeu a mãe. 20 de janeiro 1920].

“Lembras que, seguindo a medicina, assumiste a responsabilidade de uma sublime missão. Persevera, com Deus no coração, com os ensinamentos de teu pai e de tua mãe sempre na memória, com amor e piedade para os derrelitos, com fé e entusiasmo, surdo aos elogios e críticas, impassível à inveja, disposto só ao bem” [Da carta ao Dr. Giuseppe Biondi, 4 de setembro 1921].

“Seja o que for, lembra duas coisas: Deus não abandona ninguém. Quanto mais te sentires só, ignorado, vilipendiado, incompreendido e quando pensares sucumbir ao peso de uma grave injustiça, terás a sensação de uma força infinita e arcana, que te tornará capaz de propósitos bons e viris, de cuja potência te maravilharás, quando tornares sereno. E esta força é Deus!” [Da carta ao Dr. Cosimo Zacchino, 6 de outubro 1921].

“Os doentes são as imagens de Jesus Cristo. Muitos malvados, delinqüentes, blasfemadores, acabam de chegar ao hospital por disposição da misericórdia de Deus, que os quer salvos! Nos hospitais a missão das irmãs, médicos, enfermeiros, é de colaborar a esta infinita misericórdia, ajudando, perdoando, e se sacrificando” [Folhinha escrita por Moscati, com data de 17 de janeiro de 1922, e encontrada num livro após sua morte].

“Mesmo longe, não deixes de cultivar e rever cada dia teus conhecimentos. O progresso fica numa contínua critica de quanto aprendemos. Uma só ciência é inabalável e imutável, aquela revelada por Deus, a ciência do além! Em todas suas obras, olhe para o Céu e à eternidade da vida e da alma, e teu rumo será bem diferente de como seria sugerido pelas puras considerações humanas, e tua atividade será inspirada ao bem” [Da carta ao Dr. Consoli, aluno de Moscati, que devia deixar Nápoles. 22 de julho 1922].

“Meu Jesus, amor! Teu amor me torna sublime; teu amor me santifica, me leva não a uma criatura só, mas a todas as criaturas, à infinita beleza de todos os seres, criados à tua imagem e semelhança!” [Oração escrita por Moscati, de 5 de junho de 1922, encontrada pela irmã Nina].

“Não a ciência, mas a caridade transformou o mundo, em algumas épocas; somente poucas pessoas passaram à história por causa da ciência; mas todos poderão ficar eternos, símbolo da eternidade da vida, em que a morte é só uma etapa, uma metamorfose para uma ascensão maior, se dedicarem-se ao bem.
Sempre está vivo no meu coração a amargura por saber-te longe; e somente me conforta a esperança que tu tenhas guardado em ti algo de mim; não porque vale nada, mas por aquele conteúdo espiritual que me esforcei de guardar e difundir ao meu redor: tarefa sublime, mas tão inatingível pelas minhas pobres forças! [Da carta ao Dr. Antonio Guerricchio, 22 de julho 1922].

“Ama a verdade; mostra-te qual és, sem ficções, medos e precauções. Se a vida te custar perseguição, aceita-a; e se for o tormento, suporta-o. E se para a verdade precisares sacrificar a ti mesmo e tua vida, seja forte no sacrifício” [Bilhete escrito no 17 de outubro 1922, por Giuseppe Moscati].

Lembra que viver é missão, é dever, é dor! Cada um de nós deve ter seu lugar de combate…
Lembra de te preocupar não só do corpo, mas também das almas que gemem, que te procuram. Quantas dores saberás aliviar mais facilmente com o conselho, e descendo ao espírito, mais do que as frias receitas a ser entregues para o farmacêutico! Se alegre, porque grande será sua recompensa; mas precisa dar exemplo de tua elevação a Deus para aqueles que te rodeiam” [Da carta ao Dr. Cosimo Zacchino. Ascensão 1923].

“Acreditei que todos os jovens merecedores, encaminhados entre as esperanças, sacrifícios, anseios de suas famílias, à via da medicina nobilíssima, tivessem o direito a se aperfeiçoarem, lendo um livro que não foi imprimido preto no branco, mas que por capa tem as camas hospitalares e as salas de laboratório, e por conteúdo a dolorida carne dos homens e o material científico, livro que precisa ser lido com infinito amor e grande sacrifício ao próximo. Pensei que fosse uma dívida de consciência instruir os jovens, aborrecendo o costume de guardar com mistério ciumento o fruto da própria experiência, mas revelá-lo a eles…” [Da carta ao Prof. Francesco Pentimalli. 11 de setembro 1929].

“Todos os jovens deveriam compreender que na prática da continência está o melhor modo de se prevenir da maior doença transmissível… Tendo seu espírito e seu coração longe da imoralidade, com um exercício de renúncia e de sacrifício, deveriam jurar de conceder sua maturidade e sanidade sexual somente ao ser unicamente amado” [Do prefácio de G. Moscati a um livro de Giuseppe De Giovanni s.j. e do Prof. Mario Mazzeo, com o título: L’eugenica. 1925].

“Tenho aqui na mesinha, entre as primeiras flores da primavera, o retrato de tua filha, e paro, enquanto escrevo, a meditar sobre a caducidade das coisas humanas. Beldade, todo encanto da vida passa… Fica eterno só o amor, causa de toda obra boa, que sobrevive a nós, que é esperança e religião, porque o amor é Deus. Satanás tentou poluir também o amor terreno, mas Deus o purificou pela morte. Grandiosa morte que não é fim, mas princípio do sublime e do divino, diante dele estas flores e beleza são nada! Teu anjo, tirado em seus verdes anos, como sua dileta amiga, encontrada nos últimos dias, a bem-aventurada Teresa, do céu protege a ti e a sua mãe…” [Da carta ao Escrivão De Magistris, cuja jovem filha faleceu. 7 de março 1924. *José Moscati era muito devoto à então bem aventurada Teresa do Menino Jesus (S. Teresa de Lisieux). Fale dela em algumas suas cartas e tinha em seu quarto uma sua imagem. Sobre isso pode-se ler o artigo de Giuseppe Samà s.j.: S. Teresa de Lisieux e S. José Moscati, dois grandes santos de nosso tempo].

“Esta noite li a sua tese. Foi um grande sucesso… A comissão toda aplaudiu. Veja que quem não abandona Deus, terá sempre um guia na vida, segura e reta. Não prevalecerão desvios, paixões contra aquele que do trabalho e da ciência – dos quais Initium est timor Domini – fez seu ideal” [Da carta ao Dr. Francesco Pansini. 10 de março 1926].

“Que a matéria seja animada por muitíssimas e profundas energias que a envolvem em suas atividades e na progressiva complexidade de suas formas, nada se opõe a acolher, mas precisa também lembrar que este princípio de espiritualidade… esta ordem maravilhosa, que se organiza na matéria até alcançar os mais altos topos de sua elaborada organização, não seja outra coisa que o atestado de um Deus absconditus que regula com suprema inteligência este soberbo edifício sobre o qual se eleva a vida, vida que acontece por causa das leis da Alta Sabedoria que tudo move; ainda mais maravilhosas quando elas governam não somente os cosmos colossais, mas também a mais delicada trama do mais microscópico elemento” [Pensamento de Moscati referido pelo Prof. Pietro Castellino após a morte do Santo].

“A necessidade de eternizar no mármore e no bronze as grandes figuras falecidas, e celebrar sua obra, demonstra que o pensamento e o espírito humano são eternos. Abaixo de cada cruz e cada haste deste cemitério, onde parece que haja só ossos inermes e pó, há a lembrança de um coração que viveu do amor infinito e sofreu uma imensa dor; tem a sede de um espírito que não pode ficar extinguido” [Palavras de Moscati para a dedicação de um busto a Giovanni Paladino, no cemitério de Poggioreale].

“Amamos a Deus sem medida, quer dizer, sem medida na dor e sem medida no amor… Coloquemos todo nosso afeto, não somente nas coisas que Deus quer, mas na vontade do mesmo Deus que as determina” [Do depoimento da Senhorita Emma Picchillo].

“Exercitemo-nos quotidianamente na caridade. Deus é caridade: quem está na caridade está em Deus e Deus está nele. Não esqueçamos de fazer cada dia, aliás, cada instante, oferenda de nossas ações a Deus, cumprindo tudo por amor a ele” [Do depoimento da Senhorita Emma Picchillo].

Terceiro Domingo do Advento – Gaudete – Ano C

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São Lucas 3, 10-18
E as multidões perguntavam-lhe: «Que devemos, então, fazer?» Respondia-lhes: «Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem mantimentos faça o mesmo.» Vieram também alguns cobradores de impostos, para serem batizados e disseram-lhe: «Mestre, que havemos de fazer?» Respondeu-lhes: «Nada exijais além do que vos foi estabelecido.» Por sua vez, os soldados perguntavam-lhe: «E nós, que devemos fazer?» Respondeu-lhes: «Não exerçais violência sobre ninguém, não denuncieis injustamente e contentai-vos com o vosso soldo.» Estando o povo na expectativa e pensando intimamente se ele não seria o Messias, João disse a todos: «Eu batizo-vos em água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu, a quem não sou digno de desatar a correia das sandálias. Ele há-de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo. Tem na mão a pá de joeirar, para limpar a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro; mas queimará a palha num fogo inextinguível.» E, com estas e muitas outras exortações, anunciava a Boa-Nova ao povo.

Neste terceiro domingo do Advento, João nos ensina que ele não apenas batizava, mas se transformou também num catequista e evangelizador. Os que por ele eram batizados vinham novamente a ele e perguntavam: “Mestre e agora, o que devemos fazer?” O quanto os sacerdotes gostariam que o povo fiel viesse a sua procura com docilidade e prontidão: “Padre, que devo eu fazer após meu batismo, após minha conversão, para agradar a Deus?” As respostas que dá João são surpreendentes: “Aquele que tem duas túnicas, dê uma a quem nada tem, aos soldados exerçam a sua função sem realizarem violências inúteis”. A todos, de uma maneira ou de outra, João dá uma lição prática, não extraordinária, mas que pode ser posta em prática concretamente no nosso dia a dia: cada um seja capaz de co-dividir o que tem. Não haveria modo melhor de esperarmos Jesus Cristo e prepararmos nosso coração para sua nova visita neste natal se não co-dividir com os nossos irmãos, o muito ou pouco que possuímos. Você possui muitas riquezas? Seja sensível a quem nada tem. Você é rico em sabedoria ou em ciência? Reparta um pouco do seu saber com quem nada sabe. Você possui auto-suficiência na vida? Ajude um necessitado. Você sente bem e feliz? Distribua sorrisos a quem se encontra na tristeza ou na provação. Você já passou por provações? Console aquele que esta passando por esses momentos difíceis. Numa palavra, neste terceiro domingo do Advento, não há ninguém que não possa fazer algo de concreto para transformar a sua vida numa co-divisão de bens materiais, de bens psicológicos, e não se esqueça de bens espirituais também. Co-divida sua fé, sua catequese, o seu tempo livre com a Igreja, preste-se algum serviço voluntário em sua paróquia. Eis modos bem concretos e ao alcance de cada um de nós, pequenos e grandes, jovens e idosos, que o Batista aconselha neste terceiro domingo do advento.

 

«Vai chegar alguém mais forte do que eu»
São Máximo de Turim (?-c. 420), bispo
Sermão 88 (a partir da trad. Année en Fêtes, Migne 2000, p. 37)

João não falava apenas do seu tempo quando anunciou o Senhor aos fariseus, dizendo: «Preparai os caminhos do Senhor, endireitai as Suas veredas» (Mt 3, 3). João brada hoje em nós, e o trovão da sua voz abala o deserto dos nossos pecados. Mesmo abafada pelo sono do martírio, a sua voz ressoa ainda, e continua a dizer-nos: «Preparai os caminhos do Senhor, endireitai as Suas veredas». […] João Batista ordenou, pois, que preparássemos os caminhos do Senhor. Vejamos que caminho preparou ele para o Salvador. Desde o princípio, traçou e ordenou na perfeição o caminho para a chegada de Cristo, pois foi em todas as coisas sóbrio, humilde, contido e virgem. É ao descrever todas estas virtudes que o evangelista afirma: «João trazia um trajo de pêlos de camelo e um cinto de couro à volta da cintura; alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre» (Mt 3, 4). Que sinal maior de humildade pode haver num profeta do que o desprezo pelas vestes elegantes, em troca de pêlos rugosos? Que mais profundo sinal de fé pode haver do que estar sempre pronto, de rins cingidos, para desempenhar todas as tarefas servis? Que marca de abstinência mais notável pode haver, do que a renúncia às delícias desta vida, para se alimentar de gafanhotos e mel silvestre? Todos estes comportamentos do profeta eram, a meu ver, proféticos em si mesmos. Que o mensageiro de Cristo se vestisse de pêlos de camelo significava, muito simplesmente, que Cristo, ao vir a este mundo, Se revestiria do nosso corpo humano, deste tecido grosso, enrugado pelos nossos pecados. […] O cinto de couro significa que a nossa frágil carne, orientada para o vício antes da vinda de Cristo, seria por Ele conduzida à virtude.

 

Advento é tempo de alegria
Padre Bruno

Estamos no domingo da alegria, alegria da expectativa do Senhor que há de vir. Quando se espera por uma visita, a primeira coisa que a dona de casa faz é a faxina, e este tempo é exatamente para isto, para limpar nossa casa, para esperar Jesus. Durante toda a semana que passou, a palavra que mais foi proclamada foi a esperança e nessa terceira semana, é a semana que precisamos nos alegrar, não é um tempo de tristezas, mas sim de mudança, de conversão, de dizer não as coisas de mal e assumir Jesus. A segunda leitura diz “Alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos. Que a vossa bondade seja conhecida de todos os homens! O Senhor está próximo!” (Filipenses 4, 4-5). Por isso a urgência de uma mudança verdadeira, não podemos nos acostumar as coisas que do mundo, que quer vivamos no mais ou menos. Você pode até achar que está sozinho, mas o mestre de Israel nunca te abandona. “Não vos inquieteis com coisa alguma, mas apresentai as vossas necessidades a Deus, em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças. E a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações e pensamento em Cristo Jesus” (Filipenses 4, 6-7). Nesse domingo temos que assumir essa palavra e vivê-la com desejo. Eu sei que todos trazemos dificuldades, mas alegrai-vos no Senhor. Se estivermos alicerçados na palavra de Deus, superaremos todas as tribulações. E precisamos pedir a Deus para que escutemos Sua voz e pratiquemos sua Palavra Devemos escutá-la [palavra de Deus], e colocar em prática. A nossa alegria, vem do Senhor. Diante de todas as tribulações que vivemos, temos que ter essa ordem em nossa mente “Alegrai-vos”. Mas nós na primeira dificuldade, queremos pular do barco. “Seja uma pessoa positiva, que acredita em Deus, que luta” Precisamos nos fortalecer na Palavra do Senhor com toda a radicalidade. Na primeira leitura diz: O Senhor revogou a sentença contra ti, afastou teus inimigos; o rei de Israel é o Senhor, ele está no meio de ti, nunca mais temerás o mal (Sofonias 3, 15). Para viver isso é preciso de fé, a palavra ainda fala “Naquele dia, se dirá a Jerusalém: “Não temas, Sião, não te deixes levar pelo desânimo! O Senhor, teu Deus, está no meio de ti” (Sofonias 3, 16-1a). O Senhor está no nosso meio. Não desanime, olhe para frente, não será tudo sempre maravilhas, problemas sempre tivemos, temos e teremos, mas Cristo é nossa força. As tribulações virão, mas essa profecia do Senhor se realiza. As promessas todas se realizarão, mas no seu tempo. Estamos num tempo de esperança, para mostrar que a Igreja espera o Senhor, mas para o Senhor vir, é preciso mudança de vida. Você não está aqui a toa, você tem um missão. O Senhor nos fala, e agora é preciso praticar. Eu preciso saber escutar e assumir a palavra de Deus na minha vida. Quem quer benção, restauração viva a palavra de Deus. 2012 foi um ano de dificuldades para todo o Brasil, mas quem é maior, Deus ou nossos problemas? Deus, então por que tanta tristeza? Vamos ser bálsamo de alegria para nossos irmãos. Seja uma pessoa positiva, que acredita em Deus, que luta. Sábio cristão é aquele que sabe se levantar.

 

A esperança é a característica do tempo do Advento
A esperança cristã faz viver no momento presente o que se espera no futuro; ainda não o vivemos plenamente, mas já o estamos a viver. Por isso, é uma esperança confiante, liberta de todas as escravidões do momento presente, permitindo viver agora o futuro; é uma esperança ativa que nos motiva a caminhar. Neste domingo, todos os momentos da celebração convidam-nos a viver nesta esperança. Toda a celebração convida-nos a uma alegria interior, serena e confiante naquilo que celebraremos no Natal com “alegria renovada” (Oração Coleta), porque um dia se realizará plenamente na nossa vida. A esperança e a fé estão intimamente ligadas; a fé conduz à esperança. Esta esperança convicta de que a vida tem sempre sentido e que de vale sempre a pena viver a vida é uma mensagem muito atual na sociedade hodierna, onde reina a idéia do imediato. Os nossos olhos estão postos em Deus que em nós continua a fazer prodígios. Toda a celebração deste domingo respira o júbilo e a alegria que brotam deste mistério da esperança fiel. “Clama jubilosamente, filha de Sião; solta brados de alegria, Israel. Exulta, rejubila de todo o coração, filha de Jerusalém”, diz o Profeta Sofonias na primeira leitura. “Entoai cânticos de alegria, habitantes de Sião”, clama o Profeta Isaías no Salmo Responsorial. “Alegrai-vos sempre o Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos”, diz São Paulo na Carta aos Filipenses. Mas, qual é o motivo para esta alegria? “O Senhor está próximo”, diz São Paulo (2ª leitura). “O Senhor, Rei de Israel, está no meio de ti”, diz Sofonias. “É grande no meio de vós o Santo de Israel”, canta o Salmo. No tempo do Advento, aguardamos pelas festas do Natal que se aproximam, apesar de sabermos que Aquele por quem esperamos, já está presente no meio de nós, no interior de cada um e de cada comunidade. Esperamo-Lo, porque já está presente; virá, porque já está aqui, da mesma forma como fez na primeira vez. O Prefácio do Advento II, próprio para os últimos dias do Advento, proclama: “Foi Ele que os Profetas anunciaram, a Virgem Mãe esperou com inefável amor, João Baptista proclamou estar para vir e mostrou já presente no meio dos homens. É Ele que nos dá a graça de nos prepararmos com alegria para o mistério do seu nascimento”. Seria bom que nesta semana celebrássemos o Sacramento da Reconciliação, sentindo ainda mais a presença de Deus encarnado entre nós, para O recebermos com toda a alegria. “Que devemos fazer?” Era a pergunta que faziam a João. É também a nossa questão. E João, de certeza, responderá: partilhar com os outros, viver praticando a justiça, considerar os outros como irmãos, sem abusar de ninguém. É assim que se prepara o Reino. Todavia, João sabe como é difícil viver assim! Ele somente pode aconselhar, batizar com água e pedir todo o esforço das pessoas. Mas esta é a preparação necessária para o verdadeiro batismo que ele não pode dar. Esta é a missão do Messias: “Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo”. Então, a pregação de João não responde à pergunta “Que devemos fazer?”, mas a outra pergunta: “Como devemos ser?” Temos de ser novas criaturas e isso só acontece através da ação do Espírito Santo. Só Ele nos pode dar o dom da conversão e transformar este mundo num lugar onde reine a justiça que João pregava. No evangelho, vemos que o povo estava na expectativa. É a nossa missão: criar esperança em todos aqueles que nos rodeiam, porque só assim tem pleno sentido levar-lhes a Boa Nova. Como João, teremos que mostrar ao mundo e proclamar bem alto que não somos a boa nova, porque a salvação vem somente de Deus. Ele é a Boa Nova para a humanidade de hoje. A Oração Sobre as Oferendas resume muito bem o sentido da celebração deste domingo quando pedimos a Deus que “com a celebração do mistério por Vós instituído, realize em nós plenamente a obra da salvação”.

 

TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO
Lucas 3, 10-18
“Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo”

Esta passagem trata da pregação de João Batista, que: “Percorria toda a região do rio Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados” (v. 3) O início do texto de hoje, versículos 10-14, que constam somente em Lucas,  mostra bem a sua teologia e contexto – não são os líderes religiosos que estão prontos para arrepender-se, mas o povo comum, e até pessoas que estavam à margem da sociedade, – como cobradores de impostos e soldados.  Mais adiante no Evangelho, são estas as pessoas que vão responder positivamente diante da pregação do próprio Jesus.  Escrevendo para as comunidades pelo ano 80-85 d.C., Lucas quer lembrar aos cristãos que eles também devam estar abertos para achar sinceridade e bondade fora das vias “aceitáveis”- como fizeram João e Jesus! A frase lapidar do trecho é a pergunta que os diversos grupos formulam para João: “O que devemos fazer?”  Esta pergunta aparece mais vezes no Terceiro Evangelho, em Lc 10, 25 (na boca dum doutor da Lei) e Lc 18, 18 (uma pessoa importante), e também nos Atos dos Apóstolos: At 2, 37 (os judeus depois da pregação do Pedro), At 16, 30  (o carcereiro gentio de Filipos), At 22, 10 (Saulo, o perseguidor).  Usando este artifício, Lucas quer salientar que é uma pergunta que tem que ser feita constantemente durante a nossa caminhada.  Não há cristão que possa se dispensar de fazê-la sempre, por achar que já sabe a resposta. É interessante que João, embora uma pessoa de cunho fortemente ascético, não exige sacrifícios, ou práticas religiosos como jejum e abstinência.  Ela enfatiza uma exigência muito mais radical, que atinge o cerne do nosso ser – uma preocupação com os mais pobres, manifestada na busca de justiça e solidariedade.  As Campanhas da Fraternidade seguem esta linha de João – pois muitas vezes é mais fácil abster-se de uma carne ou uma bebida do que engajar-se na luta por um mundo melhor. Este trecho traz à tona mais uma vez um dos temas principais do Evangelho de Lucas – o uso correto dos bens materiais.  No fundo, João aqui prega antecipadamente o que mais tarde Jesus vai ensinar – a partilha dos bens com as pessoas que sofrem necessidades, a justiça nos relacionamentos econômicos e políticos,  a conversão que se manifesta numa mudança radical da vida. A segunda parte da passagem insiste que João é inferior a Jesus.  João batiza com água como agente de purificação, mas Jesus usará a força purificadora maior do Espírito Santo e do fogo.  Lucas vai mostrar em Atos 2 – na história de Pentecostes – como o fogo do Espírito Santo cumpre a sua missão nas pessoas. E o texto termina com a declaração que “João anunciava a Boa Notícia ao povo de muitos  outros modos” (v. 18). O que João prega é tão semelhante ao que Jesus pregará que também merece ser taxado de “Boa Notícia”.  A boa notícia da chegada da misericórdia e da salvação de Deus duma forma gratuita, mas que exige resposta de cada pessoa.  É a crise existencial do mundo todo – aceitar ou rejeitar a salvação oferecida gratuitamente em Jesus.  E para Lucas, esta decisão tem que ser renovada sempre, através da pergunta “o que devemos fazer”, enquanto continuamos andando “pelo caminho”!

São João da Cruz – 14 de Dezembro

Por Pe. Fernando José Cardoso

Hoje, 14 de Dezembro, a Igreja celebra a memória de São João da Cruz. Ele juntamente com Santa Tereza de Jesus, foi um dos reformadores da Ordem Carmelitana no Século XVI. Sofreu muito por causa da reforma de sua própria ordem, porque desejava reconquistar o primitivo fervor perdido com o relaxamento. Desejava viver como os primitivos eremitas carmelitas, que se colocavam no maior número de horas possíveis do dia, na presença de Deus, na leitura meditada da Sagrada Escritura, para depois poderem com capacidade e amor dividir este Pão espiritual com os irmãos na fé. Esta celebração é oportuna no tempo do Advento. São João da Cruz, fala de noites escuras que precedem os dias luminosos que estão por vir no futuro, e isto para nós é advento. “Agora aceitamos as trevas, a penumbra e a escuridão em direção e em marcha para a luz. A noite será mais luminosa do que o dia”. São João da Cruz traz-nos um exemplo admirável que pode ser bem usado neste tempo de advento: “A madeira – diz ele – antes de se incandescer com o fogo se contorce toda inteira, deixa sair todo caldo que possuía, torna-se inteiramente preta e somente aos poucos ela vai se incandescendo para tornar brasa, uma só coisa com o fogo”. Não é bem a imagem de cada um de nós neste período e tempo do advento? Não somos uma madeira seca que gostaríamos de ser uma só coisa ou realidade como o fogo consumador de Deus? “Quem é capaz – diz Isaias – de permanecer junto a um fogo devorador?” Pois este fogo já realiza o seu serviço de purificação dentro de nós, através das noites escuras que nós com São João da Cruz, aceitamos com resignação, e não só com alegria e na esperança de nos tornar um dia, no final do advento da nossa existência, uma só coisa, como um braseiro, uma só coisa como o amor de Deus, cantando com Ele para sempre as misericórdias do Senhor. Agora se deixe trabalhar, ainda que dolorosamente, os frutos serão desproporcionais ao trabalho agora realizado.

 

SÃO JOÃO DA CRUZ
Perto de Ávila, na Espanha, encontra-se Fontiveros. Lá nasceu João de Yepes, no ano de 1542. Os pais, Gonçalo e Catarina, eram pobres tecelões. Gonçalo morreu cedo e a viúva teve de passar por dificuldades enormes para sustentar os três filhos: Francisco, Luís e João. Mas Luís morreu de poucos anos. Catarina pediu ajuda aos parentes do seu defunto marido, por terras toledanas. Mudou para Arévalo e depois para Medina deI Campo. Medina era então o centro comercial de Castela. Feiras e mercados, artesanato e movimento. Lá experimentará João numerosos ofícios manuais, que não lhe agradam, embora não seja inútil para eles. A sua inclinação é para os estudos. A mãe envia-o para o Colégio da Doutrina; como acontece em quase todas as cidades castelhanas, existe também em Medina. E ele faz de acólito no convento das agostinhas. Em 1551 fundaram em Medina um colégio os padres da Companhia de Jesus. Nele estudará Humanidades. Nos estudos mostra-se João muito «agudo» e a sua aplicação é admirável. Mas todo esse esforço não vai terminar no estado clerical. Sente-se chamado à vida religiosa e escolhe a Ordem do Carmo, a Ordem de Maria, na qual pede o hábito em 1563. Chamar-se-á para o futuro João de Santa Maria. Devido ao talento e à virtude, depressa foi destinado para o colégio de Santo André, que a Ordem possui em Salamanca, ao lado da famosa Universidade. Lá estudará Artes e Teologia. Salamanca vive então todo o seu esplendor magisterial: entre outros professores célebres, tem Luís de Leão. Frei João foi no colégio dele «prefeito dos estudantes», o que indica o seu aproveitamento e a estima em que era tido. Em 1567 recebe a ordenação sacerdotal e vem a Medina celebrar a Missa nova junto da sua pobre mãe e do irmão Francisco. E dá-se então um encontro providencial e inesperado. Em Medina acaba de criar o seu segundo «pombalzinho da Virgem» a Madre Teresa de Jesus. Esta tem «patentes» do Geral da Ordem para fundar dois mosteiros de frades reformados. E pôs-se em contacto com o prior dos carmelitas de Medina. Ele está decidido a começar a reforma; e por ele lhe vem o conhecimento de Fr. João. Mas este deseja passar para a Cartuxa, sedento de penitência e solidão. Foi lá, na casa onde habitava momentaneamente a mãe, que se realizou a entrevista, transcendental para sempre na história da espiritualidade. A Madre Teresa convence Fr. João a que se una à reforma dos frades, para salvar o espírito do Carmo, ameaçado pelos homens e pelos tempos; é a empresa espiritual que ela fomenta por encargo do céu. Naquele dia, no recreio das religiosas, a madre comentou alvoroçada: «Já tenho frade e meio para começar!»… O meio frade aludia à pequena estatura de frei João. Depois do seu curso de Teologia em Salamanca, tudo se precipita. Estamos em 1568. Em Duruelo inaugura-se a vida descalça entre os carmelitas. Durante ano e meio, João (desde agora da Cruz) viverá austeridade, alegria, silêncio… Tudo é, diz, «música silenciosa», «solidão sonora». Tudo é paz… Mas dura pouco: não mais de ano e meio. Em seguida, a expansão da reforma carmelita arrasta-o no seu impulso. E proporcionou ao Santo contemplativo uma série de sofiimentos e trabalhos que tomaram bem verdadeiro o seu apelido monacal. O frade de Fontiveros dá começo a três casas de formação, pois na obra teresiana é ele providencialmente quem vai semeando o ideal de perfeição carmelita que traz na alma, e que em parte recebeu de Santa Teresa. Desde 1572 a 1577, frei João é confessor da Encarnação de Ávila. O visitador apostólico, Pedro Fernández, O padre levou como prioresa, para aquele mosteiro importante de religiosas carmelitas, a Madre Teresa, e esta consegue do visitador que ponha lá confessores descalços que a ajudem a tonificar o mosteiro. Numa casita junto do convento passará o nosso Santo, com um companheiro, quase cinco anos, confessando, dirigindo religiosas e gente de Ávila. Foi campo de experiências esplêndido. Sobretudo porque, durante longas temporadas, a primeira penitente e dirigida foi Santa Teresa de Jesus. Lá vão adquirindo maturidade a alma e o magistério do futuro doutor. O germe de muitas das suas doutrinas e das suas obras foi lá incubado. Mas a obra teresiana é obra de Deus, e, portanto há de ser obra selada pela cruz. A perseguição, por parte dos padres calçados, tinha de estalar. E foi cair sobre os representantes mais destacados da reforma, como era natural. Já em 1576 foi tirado violentamente Fr. João da casita da Encarnação; contudo, devolve-o a ela uma ordem do Núncio. Todavia, na noite de 02 de Dezembro de 1577 foi preso definitivamente. Em seguida, levam-no para o convento carmelita de Toledo. Foram nove meses de cárcere penoso: meses de cruz, de Getsémani, de noite… Mas são duma fecundidade maravilhosa. E aquela vida chamejante traduz-se em versos, em planos de escritos, em experiência saborosa e sábia da obra de Deus nas almas que a Ele se entregam. Nos meados de Agosto de 1578 consegue escapar-se do seu cárcere. Foi gesto dramático, em que interveio Deus e a audácia e confiança de Fr. João. Desde tal aventura até à morte, a vida de Fr. João será afinal sempre a mesma. Por uma parte, dentro da reforma, sempre ocupado em tarefas de formação e direção de frades e religiosas. Adiante percorreremos esses encargos que teve. Por outra parte, ocupará postos de governo, num plano secundário sempre, uma vez que os primeiros cargos os manterão sempre Gracián e Dória; estes nomes e esta atividade enchem dolorosamente os lustros iniciais da reforma teresiana. João não recebeu do céu a missão da luta externa em primeiro lugar. Será o homem escondido que mantém a brasa pura e que, nas contendas de família, dá a nota de elevação e de equilíbrio, que tantas vezes faltou nos outros. A mesma Santa, tão penetrante e intuitiva, deu-se perfeitamente conta desse papel que tocava ao seu «pequeno Sêneca», iluminado conselheiro. Mas para a obra secreta e misteriosa da formação espiritual das suas filhas, tem plena confiança no seu Padre João, naquele «santico de Frei João», cujos «ossinhos farão milagres», «homem celestial e divino…, (que) não encontrei em toda a Castela outro como ele, nem que tanto afervore no caminho do céu…». E não é que a psicologia sobrenatural da Madre coincida em tudo com a de Fr. João? Completam-se um ao outro, embora Santa Teresa não tenha conhecido em toda a profundidade a riqueza doutrinal de são João da Cruz e a influência que ia ter, através dos séculos, na espiritualidade cristã universal. Pelo menos, não temos indício de tal visão profética teresiana. De Toledo, frei João foi enviado como superior ao convento do Cal vário, na serra de Jaén. Tiveram os descalços uma espécie de capítulo em Almodóvar do Campo, a que ele assistiu. E lá foi nomeado para aquela solidão da Serra Morena. Foram meses felizes, de paz recolhida e calada, de oração e cultivo de almas seletas, de contemplação e êxtase. Revivem os dias de Duruelo. Do Calvário, atende às carmelitas de Beas de Seguras. Vai com freqüência confessá-las, fornece-lhes os seus primeiros escritos espirituais. Entre elas está como prioresa Ana de Jesus, que ficará por toda a vida ligadíssima às transformações sanjoanistas. Magnífico campo de experiências foi ela para o santo doutor! A 13 de Junho de 1579 partiu para Baeza, a fundar um colégio para os seus frades. Como reitor de Baeza, assiste o Santo ao capítulo de separação da reforma, que se realiza em Alcalá, no princípio de Março de 1581. Foi eleito terceiro definidor, continuando no reitorado. Em seguida, vai como prior para o convento dos Mártires, em Granada, onde permanecerá até fins de 1588. Anos fecundos, na sua tarefa de escritor sobretudo. Aquele lugar incomparável facilitava a produção da sua pena tomada chama. Durante este período da sua vida, as viagens foram-se multiplicando cada vez mais. Viagens a Caravaca e a Á vila, para ultimar com a Madre Teresa a fundação de religiosas em Granada, viagens aos capítulos. Em 1585, foi nomeado vigário provincial da Andaluzia. Assim aumentaram as suas atividades externas. Tudo isso violentaria, sem dúvida, as suas aspirações mais profundas, mas a cruz de Cristo era o apelido que selava a sua vida. Em 1586, fundação de descalços em Córdova; trasladação da casa das descalças de Sevilha, reunião de definição em Madrid e fundação na Corte das descalças, com Ana de Jesus à frente, dos descalços em Mancha Real, preparação da de Bujalance, etc., etc. No capítulo de Valhadolide de 1587 deixa de ser vigário provincial e volta a prior de Granada. Foi outro breve espaço de tempo para gozar o retiro. Pôde assim continuar os afazeres de diretor de almas e as atividades literárias. Em 1588, realizou-se em Madrid o capítulo geral para executar um breve de Sisto V, que organizava de maneira nova a reforma do Carmo. Ficou ele sendo um dos seis conselheiros do vigário geral, com residência em Segóvia, onde habitou quase três anos, sendo ao mesmo tempo prior da casa. Também dirigiu almas (as carmelitas, sacerdotes, leigos). Nas covas naturais da horta conventual, Fr. João vive, intensa, a sua vida interior, feita de «nadas» e de união com o «Tudo». Um dia, a imagem dolorosa de Jesus perguntou-lhe o que desejava em paga do seu amor puro e exclusivo. João da Cruz respondeu generosamente: «Padecer, Senhor, e ser desprezado por causa de Vós». A sua oração ia ser ouvida abundantemente. Em 1591, o capítulo deixa-o posto a um canto, como «trapo velho da cozinha». É que está sendo pessoa pouco aceite para o vigário, Dória. Obedece fidelissimamente, mas diz com toda a franqueza o seu parecer, quando o caso é disso. E sobrevém um choque forte entre as religiosas e os frades, por causa da organização do governo destas. Suspeita-se que João está por elas. Mas é eliminado com toda a facilidade e sangue frio. Mais, começa-se um processo contra ele, o qual, na intenção do executor, deve terminar com a expulsão para fora da Ordem. Fr. João pede para retirar-se ao conventinho de La Pefiuela. E ofereceu-se a ir para as Índías; deixaria de ser estorvo. Em La Pefiuela está poucos meses. A reforma padece. Nos conventinhos teresianos andaluzes, o processo contra João decorre, perturbando as almas. Ele reza, sofre e cala-se. Escrevia: «Do que a mim me toca, filha, não lhe dê pena, que nenhuma me dá a mim». E a 21 de Setembro de 1591, faltando-lhe já poucos dias para entrar na eternidade, acrescentava: «Amanhã vou a Úbeda para curar umas febrezinhas, que, como há mais de oito dias me dão cada dia e não me passam, parece-me que precisarei da ajuda da medicina: mas com a intenção de voltar logo para aqui, pois com certeza que nesta solidão me encontro muito bem». Escolhe o convento de Úbeda porque no de Baeza é mais conhecido e estimado. No caminho – um penoso caminhar enfermo! – vai acompanhado por um irmão leigo. E um episódio simples dá-nos essa nota humana que dorme sempre escondida na alma dos santos. O seu fastio leva-o a desejar espargos. Não é tempo deles. Mas, providencialmente, encontram-nos os viajantes, como resposta celestial à debilidade humilde do fradinho. Em Úbeda, uns dias longos, de mais de dois meses, para acabar de consumar-se a união na cruz, uma erisipela numa perna, que pouco a pouco foi intoxicando todo o corpo. A septicemia foi-se apoderando de todo ele e manifestando-se em tumores cada vez mais impressionantes. O prior da casa trata-o com frieza e falta de consideração. Tudo é sofrimento. «Estou-me consumindo em dores!»; «Mais paciente, mais amor e mais dor!», exclamará outras vezes. Assim até 13 de Dezembro. Nessa noite agonizou santamente, docemente… Ao tocar a meia-noite, partindo do «esterqueiro do desprezo» foi cantar matinas ao céu, como ele mesmo repetira no dia último. Apesar da chuva abundante e de ele ser pouquíssimo conhecido em Úbeda, depressa se enche o convento com os que desejam venerar o cadáver. E o prior manda abrir todas as portas. Abertas ficaram sempre. A interminável procissão dos devotos, dos discípulos, dos admiradores continua a aproximar-se das suas relíquias; relíquias da sua vida e da sua pena, relíquias vivas da sua eterna lição. Recordemos brevemente as suas obras literárias. Valeram-lhe, em 1926, o título de doutor da Igreja. (Tinha sido canonizado em 1726). As obras maiores são vários poemas, maravilhosos poemas, que o levantaram ao cume do lirismo em geral: poesia pura, simbólica e ardente, cujo mistério se mantém inexplicável, apesar da sua simplicidade humana e dos antecedentes literários, bíblicos e extrabíblicos, que pretendamos encontrar-lhes. As obras que em prosa interpretam aqueles poemas são bem conhecidas: Subida do Monte Carmelo, Noite escura da alma (estas duas formam parte dum todo, que ficou afinal por terminar), Cântico espiritual e Chama viva de amor. No decurso delas, o itinerário que a alma percorre é claro e certeiro. Negação e purificação das suas desordens debaixo de todos os aspectos. «Nada, nada, nada… Nem isto nem aquilo…» Para se entregar ao Senhor através dos atos das virtudes teologais – fé, esperança e caridade – que vão cristificando mais a alma e apertando assim a mística união. União em que o Deus-amor se apodera mais e mais da alma, que fica em Deus perdida, endeusada no seu Deus. Alguns outros poemas, uns poucos avisos: «ditos de luz e amor; um punhado de cartas – restam-nos também como migalhas abençoadas, caídas da sua mesa. Tudo riquíssimo e sublime. Tudo serviu de manjar, desde há três séculos, aos espíritos melhores. A sua glória e magistério alargam-se com o tempo, cada vez mais. João da Cruz é o doutor místico por antonomásia, da Igreja, o representante principal da sua mística no mundo, a figura mais egrégia da cultura espanhola e uma das principais da cultura universal. Foi tomado como patrono da rádio, pois, quando pregava, a sua voz chegava até muito longe.

 

ARIDEZ ESPIRITUAL
Quanto mais a noite fica escura, mais perto está a aurora
Prof. Felipe Aquino / [email protected]

Muitas vezes, podemos passar por algum período de aridez espiritual, isto é, não temos vontade de rezar, torna-se difícil participar da Santa Missa, a reza do terço fica pesada, entre outros. Até mesmo a Sagrada Comunhão se torna um sacrifício diante das dúvidas que podem atingir a nossa alma. Parece que o céu sumiu. Como vencer esse estado de espírito no qual parece que Deus está longe e que nos falta a fé? Primeiro, é preciso verificar se esta situação não é tibieza, ou seja, causada por nossa culpa em não perseverar no cuidado da vida espiritual, e, sobretudo, verificar se não há pecados graves em nossa alma, que possam estar afugentando dela a graça de Deus. Se não houver pecados na alma, então, é preciso antes de tudo, calma, paciência e perseverança nos exercícios espirituais: oração, vida sacramental, caridade, penitência, entre outros. Mesmo sem vontade ou sem gosto, continuar, sem jamais parar, os exercícios espirituais. O Senhor, às vezes, permite essas provações para que aprendamos a “buscar mais o Deus das consolações do que as consolações de Deus”, como ensinou um santo. São João da Cruz, místico que tanto experimentou o que chamou de “noite escura da fé”, afirmou que “o progresso da pessoa é maior quando ela caminha às escuras e sem saber.” Muitas vezes, nos deleitamos nas orações gostosas, cheias de fervor sensível, como crianças quando comem doces. Mas quando vem a luta deixamos a oração. Veja o que nos diz a Palavra de Deus: “Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes, quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho (Pr 3,11s). Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige?… Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos… Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o qual nos dará a vida? Os primeiros nos educaram para pouco tempo, segundo a sua própria conveniência, ao passo que este o faz para nosso bem, para nos comunicar sua santidade” (Hb 12,5-10). Deus nos quer santos, e é também algumas vezes pela provação e pela aridez espiritual que Ele arranca as ervas daninhas do jardim de nossas almas. Coragem, alma querida de Deus! Jesus disse que Ele é a videira verdadeira, e Seu Pai o bom agricultor, que podará todo ramo bom que der fruto, para que produza mais fruto (cf. Jo 15,1-2). Não podemos querer apenas o açúcar do pão e renegar o pão do sacrifício. Às vezes, a meditação é difícil, a oração é penosa, distraída, surgem as noites e as trevas… Nessas horas é preciso silêncio, abandono, paciência. O Esposo há de voltar logo… Em breve vai raiar a aurora e os fantasmas vão sumir. Quanto mais a noite fica escura, tanto mais perto nos aproximamos da aurora. Deus sabe pelo que estamos passando, louvado seja o Seu santo Nome! É hora de abandono em Suas mãos paternas. Em meio às trevas alguns sentem o coração como se fosse de gelo, não sentem mais amor a Jesus, perdem a piedade, se sentem condenados. Que desoladora confusão espiritual! Nessas horas a única saída é fechar os olhos e dar as mãos a Jesus para ser guiado por Ele na fé; confiança e abandono, irmão! Só o Senhor sabe o caminho para sairmos deste matagal fechado e escuro. Deus nos prepara para a contemplação pelas provas passivas, ensinam os santos. Ele as produz e a alma apenas tem que aceitar. É o duro caminho dos que querem a perfeição. Ele está purificando a alma; o Cirurgião Celeste está nos operando a alma. São João da Cruz fala da famosa “noite dos sentidos” cheia de aridez e de provação, um verdadeiro martírio para a alma. Segundo o santo doutor, é Jesus que chama a alma a caminhar com Ele no deserto, mesmo queimando os pés e sendo queimado pelo sol, para se santificar. Calma, alma querida de Deus, Ele faz isso porque o ama muito! O fogo bom não é aquele “fogo de palha”, alto e bonito, mas rápido, que logo se apaga; mas é o fogo baixo que pega na lenha grossa e permanece por muito tempo. O fogo de palha é só para começar… É isso que está acontecendo; não se assuste; não se preocupe porque o gosto de rezar sumiu e se tornou agora um sacrifício penoso… Fé não é sentimento e muito menos sentimentalismo; fé é adesão, com a mente, a Deus, às Suas verdades e às Suas determinações. Não se preocupe em estar ou não “sentindo” fé ou devoção; apenas viva-a; vá à Missa, ao grupo de oração, ao terço, com ou sem vontade, com ou sem gosto, com ou sem sentimento. Assim, temos mais méritos ainda diante de Deus. Nessa situação talvez você precise de um diretor espiritual, especialmente na Confissão, para uma boa orientação.

Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira da América Latina – 12 de Dezembro

A importância das aparições

Em 1531, os missionários espanhóis franciscanos e dominicanos evangelizavam os índios maias e astecas no México, e tinham muita dificuldade nessa missão porque esses índios eram idólatras e ofereciam aos seus muitos deuses sacrifícios humanos de milhares de rapazes e de virgens, nos altos das muitas pirâmides que podem ser visitadas ainda hoje no México. Um sacerdote cortava fora o coração de vítima, com uma faca de pedra pouco afiada e o oferecia aos deuses. Nesse ano a Virgem Mãe de Deus apareceu ao piedoso índio São João Diego, na colina de Tepeyac, perto da capital do México. Com muito carinho ela pediu que ele fosse ao bispo pedir-lhe que nesse lugar construísse um Santuário em sua honra. D.João de Zumárraga, primeiro bispo do México, franciscano, vindo da Espanha, retardou a resposta a fim de averiguar cuidadosamente o ocorrido. Quando o índio, movido por uma segunda aparição e nova insistência da Virgem, renovou suas súplicas entre lágrimas, ordenou-lhe o bispo que pedisse a Nossa Senhora um sinal de que a ordem vinha realmente da grande Mãe de Deus. Então Nossa Senhora enviou ao Bispo o conhecido sinla milagroso das rosas. Ela disse ao índio: “Filho querido, essas rosas são o sinal que você vai levar ao bispo. Diga-lhe em meu nome que, nessas rosas, ele verá minha vontade e a cumprirá. Você é o meu embaixador e merece a minha confiança… Quando chegar diante do Bispo, desdobre a sua tilma” (manto) e mostre-lhe o que carrega, porém só na presença do bispo. Diga-lhe tudo o que viu e ouviu, nada omitindo…” Essas rosas só davam em Castela na Espanha, de onde era procedente o bispo. João Diego obedeceu e, ao despejar as flores perante o bispo, eis que surge no seu manto a linda pintura milagrosa de Nossa Senhora tal como ela lhe apareceu. O bispo acompanhou João ao local designado por Nossa Senhora. O ícone de Nossa Senhora de Guadalupe é repleto de sinais milagrosos. Até hoje os cientistas não conseguem explicá-lo. Não sabem que produto tingiu o manto; não é deste mundo. A fama do milagre espalhou-se rapidamente por todo o território. Os cidadãos, profundamente impressionados por tão grande prodígio, procuraram guardar respeitosamente a santa Imagem na capela do paço episcopal. Mais tarde, após várias construções e ampliações, chegou-se ao templo atual. Em 1754, escrevia o papa Bento XIV: “Nela tudo é milagroso: uma Imagem que provém de flores colhidas num terreno totalmente estéril, no qual só podem crescer espinheiros; uma Imagem estampada numa tela tão rala que, através dela, pode-se enxergar o povo e a nave da Igreja tão facilmente como através de um filó; uma Imagem em nada deteriorada, nem no seu supremo encanto, nem no brilho de suas cores, pelas emanações do lago vizinho que, todavia, corroem a prata, o ouro e o bronze… Deus não agiu assim com nenhuma outra nação.” A partir das aparições de Nossa Senhora de Guadalupe os missionários passaram a evangelizar os índios em massa; mais de sete milhões foram batizados em poucos anos e o México é hoje o país que mais católicos têm (94% da população). Em 1910 o Papa S. Pio X proclamou Nossa Senhora de Guadalupe “Padroeira da América Latina”, e em 1945, o Papa Pio XII a proclamou “Imperatriz da América Latina”. Há hoje, infelizmente, uma mentalidade muito errada em nossos meios acadêmicos que quer ver na civilização asteca algo melhor que nossa atual civilização cristã; nada mais triste. A turma do “politicamente correto”, inclusive os adeptos da perigosa teologia da libertação, quer desprezar os missionários espanhóis, que “impuseram uma religião estrangeira sobre os inocentes nativos que encontraram.” Inocentes nativos? As grandes sociedades asteca e maia foram construídas com base na conquista de povos não-astecas e não-maias, com a mão-de-obra escrava e o assassinato ritual daqueles escravos. Seus elogiados canais e magníficos templos foram construídos por escravos. Estas culturas se man¬tiveram baseadas no medo. Quem se indispusesse com os sacerdotes, pagos pelo Estado; tinha seu coração arrancado fora. Numa única cerimônia os astecas cortaram fora os corações de 10 mil virgens obtidas com o seqüestro de moças e meninas dos povoados vizinhos. Esses corações eram oferecidos aos deuses. (cf. “Astecas eram escravocratas e genocidas”, William A. Hamilton, escritor e colunista, artigo para a “USA Today”). Nelson Ascher, jornalista Integrado à equipe de articulistas da “Folha de São Paulo”, no seu artigo Canibalismo dos Astecas”, diz entre outras coisas que: “Sabe-se que o centro da religião asteca era a sacrifício humano, mas a escala em que era realizado aponta para urna realidade ainda mais sinistra. Segundo palavras do padre espanhol Sahgun, o mais minucioso historiador de então da civilização indígena do México, pode-se ver a descrição do sacrifício humano no topo das pirâmides: a vítima, segura por quatro sacerdotes, tinha o peito aberto por um quinto com uma faca de obsidiana, e seu coração pulsante arrancado -, após ser o cadáver arrojado escada abaixo culminava com um singelo: “Después, lo cocian Y lo comian’ (Depois cozinhavam-no e comiam)”. “Carne humana era muito apreciada com tomate nativo da região, e provavelmente temperada com chili. Num festival de quatro dias, em finais do século 15, os astecas te¬riam “abatido” vinte mil prisioneiros. Parece que este era também o consumo anual médio só na capital.” “Os astecas inclusive promoviam suas numerosas guerras com a única finalidade de capturar prisioneiros para seus rituais sofisticados que incluíam, em um de seus meses, o esfolamento após a qual os sacerdotes se vestiam com as peles das vítimas.” Podemos chamar isso de civilização? Infelizmente essas cruentas práticas dos maias e astecas são acoberta¬das, enquanto as práticas dos espanhóis são anunciadas aos quatro ventos. Mostram-se em planetários os feitos dos astecas e maias no campo da astronomia, mas as o assassi¬nato ritual e rotineiro de milhões de pessoas é maliciosamente encoberto. Como pode uma “civilização” desta ser melhor do que o Cristianismo, que prega amor até aos inimigos? É um contra senso; uma grande incoerência. Por isso a chegada de Fernando Cortez em 1521 no México e os esforços para converter os povos indígenas ao cristianismo são tratados com desdém. O Papa Bento XVI no seu discurso de abertura do V CELAM, em Aparecida, falou da importância da evangelização da América Latina que começou com Cristóvão Colombo em 12 de outubro de 1492. Ele disse: “O anúncio de Jesus e de seu Evangelho não supôs, em nenhum momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura estranha”. “Para os povos pré-colombianos, a evangelização significou conhecer e acolher a Cristo, o Deus desconhecido que seus antepassados, sem sabê-lo, procuravam em suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que desejavam silenciosamente”. “Significou também ter recebido, com as águas do batismo, a vida divina que os fez filhos de Deus por adoção; ter recebido, além disso, o Espírito Santo que veio a fecundar suas culturas, as purificando e desenvolvendo os numerosos germens e sementes que o Verbo encarnado tinha posto nelas, as orientando assim pelos caminhos do Evangelho”. “A utopia de voltar a dar vida às religiões pré-colombianas, separando as de Cristo e da Igreja universal, não seria um progresso, a não ser um retrocesso. Em realidade seria uma involução para um momento histórico ancorado no passado”. É verdade que houve muitos erros e abusos por parte dos espanhóis que para cá vieram; muitos saíram das prisões na Espanha; mas o Evangelho livrou o México da barbárie asteca e maia. E isso graças a Nossa Senhora de Guadalupe, Aquela que “esmaga a cabeça da serpente”, e aos valorosos franciscanos e dominicanos.

Felipe Aquino / [email protected]

 

Por que o Nome “de Guadalupe”?

“Então o tio manifestou que era verdade e que naquela ocasião ele havia melhorado e que A tinha visto da mesma maneira como Ela havia aparecido ao seu sobrinho, sabendo por Ela que o enviou ao México para ver o Bispo. Também, a Senhora o disse que quando ele fosse ao Bispo, lhe revelaria o que viu e de que maneira milagrosa Ela o havia curado, e como seria chamada, assim como Sua Santíssima Imagem, a sempre Virgem Santa Maria de Guadalupe” (Nican Mopohua). Por que haveria a Virgem Maria, de aparecer a um índio em um recentemente conquistado México e falando-lhe em seu idioma nativo, Nahuatl, e querer chamar-se “de Guadalupe”, um nome espanhol? Quis Ela em todo caso, ser chamada de Guadalupe por causa da estátua de Nossa Senhora de Guadalupe em Estremadura, Espanha? Em todas as suas aparições, a Santíssima Virgem Maria, identificou-se como Virgem Maria e títulos como Mãe de Deus entre outros, e geralmente logo conhecida com o nome de lugares ou regiões onde Ela havia aparecido (Lourdes, Fátima, etc.). Então, por que a Virgem, aparecendo a um índio em um México recém invadido e falando-lhe em seu idioma nativo, querer ser chamada com um nome espanhol de Guadalupe? Estava Ela querendo referir-se a milagrosa estátua de Nossa Senhora de Guadalupe, que foi outorgada pelo Papa Gregório Magno, ao Arcebispo de Sevilla, que estava perdida por 600 anos e foi encontrada por Gil Cordero em 1326, guiado por uma aparição de Nossa Senhora? A milagrosa e veneradíssima estátua foi chamada de Guadalupe porque assim chamava-se o povoado situado ao redor do descobrimento. A origem do nome Guadalupe sempre foi motivo de controvérsias, e muitas possíveis explicações tem sido dadas. Entretanto, acredita-se como a mais provável que o nome é o resultado do nahuatl para o espanhol, das palavras usadas pela Virgem durante Sua aparição a Juan Bernardino, o tio enfermo de Juan Diego. Acredita-se que Nossa Senhora usou a palavra Azteca Nahuatl de coatlaxopeuh o qual é pronunciado “quatlasupe” e soa extremamente parecido com a palavra em espanhol Guadalupe. Coa significando serpente, tla o artigo “a”, enquanto xopeuh significa esmagar. Assim, Nossa Senhora deve ter chamado a si mesma como “Aquela que esmaga a serpente”. Devemos lembrar que os Aztecas ofereciam anualmente mais de 20.000 homens, mulheres e crianças como sacrifícios a seus deuses, sempre sedentos de sangue, ritos que em muitos casos incluíam canibalismo dos corpos das vítimas. Em 1487, devido a dedicação de um novo templo em tenochtilan, uns 80.000 cativos foram imolados em sacrifícios humanos em uma só cerimônia que durou quatro dias. Certamente, neste caso Ela esmagou a serpente, e milhões de nativos foram convertidos ao Cristianismo.

 

A IMAGEM DE GUADALUPE MUDOU A HISTÓRIA DO OCIDENTE
Conclusões de um livro publicado por um jornalista do jornal alemão «Die Welt»
ROMA, domingo, 11 de dezembro de 2005

A imagem da Virgem de Guadalupe mudou a história do Ocidente, conclui um livro publicado em espanhol pelo correspondente em Roma do jornal diário alemão «Die Welt». Paul Badde, no volume «A Moreninha – Como a aparição da Virgem configurou a história universal», recém-editado no México por «Boa Imprensa» (271 páginas), mostra como a religião e a cultura da América, e particularmente do México, são impossíveis de compreender sem conhecer a história das aparições de Maria ao indígena São Juan Diego. «Sem este enigmático evento não se pode explicar por que os habitantes da América Central e do Sul, em um lapso mínimo, incorporaram-se ao cristianismo», explica o jornalista e historiador, depois de ter reconstruído os primeiros fracassos dos evangelizadores após a conquista do império asteca. «Foi Maria de Guadalupe quem integrou todo um continente à cultura ocidental», explica depois de ter penetrado nos numerosos mistérios que rodeiam a Virgem do Tepeyac. O livro aprofunda em alguns deles, como por exemplo, o fato de que não foi pintada com nenhum tipo de corante nem pigmento (como o Santo Sudário de Turim) ou o que ainda hoje se conserve o tecido de fibras de agave que deveria ter se apodrecido em vinte anos. A investigação mostra também as figuras contidas nas pupilas dos olhos da Virgem que podem ser percebidas quando se ampliam com 25.000 pixels por milímetro quadrado, respeitando as leis ópticas que na época das aparições eram totalmente desconhecidas. Outro capítulo está dedicado aos símbolos apresentados nas vestes da Moreninha, impossíveis de decifrar para um ocidental e que, contudo, eram um livro aberto para os índios: entre outras coisas, representa o firmamento estelar em dezembro de 1531, seguindo os códigos astecas da época. Badde vai oferecendo estas e outras surpresas ao leitor, capítulo por capítulo, mas, ao ir descobrindo-as, a vida do jornalista alemão se transforma. Ao final, ao contemplar a imagem da Virgem na Villa de Guadalupe, a vida do escritor ficaria totalmente estremecida: «Ai, minha menina! Desculpe-me que cheguei tão tarde. Mas já sabes que tive muitos afazeres. Moreninha minha!», afirma no último capítulo, convertido sem se dar conta em uma oração. Badde deu a conhecer pela primeira vez ao grande público alemão o que aconteceu em dezembro de 1531 no Monte Tepeyac. Agora permite ao grande público de língua espanhola, e em particular ao mexicano, surpreender-se ante aqueles fatos com os olhos de um alemão.

 

HISTÓRIA DE NOSSA SENHORA DE GUADALUPE É «APAIXONANTE»
Entrevista com o padre Alexandre Paciolli, L.C.

BRASÍLIA, quarta-feira, 10 de dezembro de 2008 (ZENIT.org).- «Sem dúvida a história de Nossa Senhora de Guadalupe é apaixonante, assim como todos os estudos realizados na imagem dela», afirma o sacerdote responsável pelo apostolado da Virgem Peregrina da Família. Às vésperas do dia da padroeira da América, 12 de dezembro, Zenit entrevistou o Pe. Alexandre Paciolli, L.C., pároco da paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, em Brasília. O sacerdote Legionário de Cristo falará sobre o milagre de Guadalupe durante o Encontro Juventude e Família, que se celebra de 12 a 14 de dezembro na capital brasileira.

Como surgiu o apostolado da Virgem Peregrina de Guadalupe? Quando eu era diácono, no ano 2000, tive a graça de exercer meu ministério no Rio de Janeiro. Lá, depois de palpar o fervor das famílias, mas ao mesmo tempo, de ver também tantas situações delicadas, senti a necessidade de levar uma capela de Nossa Senhora de Guadalupe aos lares católicos para que a Padroeira da América abençoasse aquelas situações. Comecei, portanto, com a ajuda da Canção Nova, a divulgar a devoção a Virgem de Guadalupe e a propagar os últimos estudos científicos na tilma de São Juan Diego. Foi uma bênção. No primeiro evento na Canção Nova saíram 1500 capelinhas peregrinas. Depois fui ao Hallel de Franca para pregar, e lá também Nossa Senhora de Guadalupe entrou em muitos lares. Hoje está em mais de 20 países!

Fale-nos dos objetivos e dos frutos do apostolado. Os objetivos desse apostolado são, por meio da Padroeira da América, a Virgem de Guadalupe: rezar o terço em família, convidar mais famílias a que rezem o terço, acolher a vida humana, promover as vocações à vida consagrada e sacerdotal e de dar testemunho do amor cristão. Os frutos são: muitas conversões, curas materiais e espirituais, famílias renovadas… Sugiro que possam ver o site: www.virgemperegrina.com.br para que leiam mais testemunhos.

A história da Virgem de Guadalupe continua a seduzir corações e a despertar interesse ainda hoje, não? Sem dúvida a história de Nossa Senhora de Guadalupe é apaixonante, assim como todos os estudos realizados na imagem dela. Este fato, para o qual a ciência, depois de 500 anos, ainda não pode encontrar explicação certa, é um dos mistérios mais surpreendentes de todos os tempos. Um mistério que representa desde então, um dos maiores pontos de união entre todos nós católicos. Dizia o Dr. Homero Hernández Illescas, Investigador e científico guadalupano: “É um fato que não se pode explicar simplesmente por argumentos meramente humanos”. E sem dúvida é assim! A Santíssima Virgem de Guadalupe está ligada de modo especial ao nascimento da Igreja na História dos povos da América que através dela chegaram a encontrar a Cristo. A aparição da Santíssima Virgem ao índio Juan Diego na colina do Tepeyac teve uma repercussão decisiva na evangelização. Tal influxo supera amplamente os limites da nação mexicana, alcançando o continente inteiro. A América reconheceu no rosto mestiço da Virgem de Guadalupe o grande exemplo de evangelização perfeitamente inculturada. Não somente no Centro e no Sul, mas também no norte do continente a Virgem de Guadalupe é venerada como Rainha de toda a América. De fato, Pio X proclamou Nossa Senhora de Guadalupe “Padroeira de toda a América Latina”; Pio XI de “Padroeira de todas as Américas”; em 1945 o Papa Pio XII a proclama “Imperatriz de toda a América”, João XIII “Missionária Celeste do novo mundo” e “Mãe das Américas”; finalmente João Paulo II pediu que seja celebrado o dia 12 de dezembro, em todo continente Americano, a Virgem de Guadalupe, “Mãe e Evangelizadora da América”! Não são várias Américas, mas uma só América sob o manto de Nossa Senhora de Guadalupe.

Qual o significado dos apostolados marianos na América, continente de grande devoção à Virgem? Para mim esses apostolados têm a função de unir nosso continente americano sob o manto de Nossa Senhora; um continente marcado por tantas diferenças sociais, situações de conflito, em certos lugares de opressão, invasão das seitas… Nossa Senhora vem nos dizer que deseja que a nossa fé católica siga sempre forte, que não desistamos ou diminuamos o ritmo da evangelização, pois Ela está passando adiante de todas nossas necessidades. De fato gosto muito dessa oração a Nossa Senhora de Guadalupe escrita por João Paulo II que reflete o que falei acima: “Concedei que sejamos fiéis testemunhas da vossa Ressurreição aos olhos das novas gerações da América, para que, conhecendo-Vos, Vos sigam e encontrem em Vós a sua paz e a sua alegria… Dai-nos força para anunciar corajosamente a vossa Palavra ao serviço da nova evangelização, para consolidar no mundo a esperança… Nossa Senhora de Guadalupe, Mãe da América, rogai por nós!” (Ecclesia in America, 76).

Qual a importância de cultivar o amor por Maria, de forma especial sob o título da Virgem de Guadalupe? De entregar a Nossa Senhora de Guadalupe o nosso continente, para que nele reine sempre o fervor evangelizador, na fidelidade a Cristo e à Igreja. Vemos em Maria de Guadalupe a “Estrela da primeira e da nova evangelização”. Ela deu forças para que nossos predecessores fossem fiéis a Cristo. Nós também seremos fiéis, sob o manto Dela! Porém não podemos esquecer-nos que toda devoção mariana essencialmente é imitação de Maria! Portanto a Santíssima Virgem Maria deve ser para cada um de nós o modelo mais acabado da nova criatura surgida do poder redentor de Cristo, e o testemunho mais eloqüente da novidade de vida trazida ao mundo pela ressurreição do Senhor. Devemos sempre cultivar a verdadeira devoção à Santíssima Virgem, Mãe amantíssima da Igreja, que consiste muito especialmente na imitação de suas virtudes, sobretudo de sua fé, esperança e caridade, de sua obediência, de sua humildade e de sua colaboração no plano redentor de Cristo.
(José Caetano / Alexandre Ribeiro)

 

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II À REPÚBLICA DOMINICANA, MÉXICO E BAHAMAS
ORAÇÃO DO SANTO PADRE À NOSSA SENHORA DE GUADALUPE

Ó Virgem Imaculada, Mãe do verdadeiro Deus e Mãe da Igreja! Vós, que, deste lugar, manifestais a vossa clemência e a vossa compaixão por todos os que imploram o vosso amparo: ouvi a oração que com filial confiança Vos dirigimos e apresentai-a ao vosso Filho Jesus, único Redentor nosso. Mãe de misericórdia, Mestra do sacrifício escondido e silencioso, a Vós, que vindes ao encontro de nós todos, pecadores, consagramos, neste dia, todo o nosso ser e todo o nosso amor. Consagramo-Vos também a nossa vida, os nossos trabalhos, as nossas alegrias, as nossas doenças e os nossos sofrimentos. Dai a paz, a justiça e a prosperidade aos nossos povos, já que tudo o que nós temos e o que somos o deixamos ao vosso cuidado, Mãe e Senhora nossa. Queremos ser totalmente vossos e convosco desejamos percorrer o caminho de uma fidelidade plena a Jesus Cristo na sua Igreja: não nos deixeis desprender da vossa mão amorosa. Virgem de Guadalupe, Mãe das Américas, pedimo-Vos por todos os Bispos, a fim de que eles conduzam os fiéis por veredas de intensa vida cristã, de amor e de humilde serviço a Deus e às almas. Contemplai esta seara imensa e intercedei por que o Senhor infunda fome de santidade em todo o Povo de Deus e conceda abundantes vocações de sacerdotes e religiosos fortes na fé e zelosos dispensadores dos mistérios de Deus. Concedei aos nossos lares a graça de amarem e respeitarem a vida nascente, com o mesmo amor com que Vós em vosso seio concebestes a vida do Filho de Deus. Virgem Santa Maria, Mãe do Amor Formoso, protegei as nossas famílias, para que elas estejam sempre muito unidas, e abençoai a educação dos nossos filhos. Esperança nossa, olhai-nos com compaixão ensinai-nos a ir continuamente para Jesus e, se cairmos, ajudai-nos a levantarmo-nos e a voltarmos para Ele, mediante a confissão das nossas culpas e dos nossos pecados no sacramento da Penitência que traz sossego à alma. Suplicamo-Vos que nos concedais um amor muito grande a todos os santos Sacramentos que são como que as marcas que o vosso Filho nos deixou na terra. Assim, nossa Mãe Santíssima, com a paz de Deus na consciência, com os nossos corações livres do mal e de ódios, poderemos levar a todos a alegria verdadeira e a verdadeira paz, as quais vêm do Vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo que, com Deus Pai e com o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

IOANNES PAULUS PP. II México, Janeiro de 1979

Uma japonesa se converte do Budismo ao Catolicismo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS
401 – outubro 1995
Testemunhos

Em síntese: Eis o relato da conversão de uma jovem budista ao Catolicismo. A transição não foi fácil, pois o Budismo e o Xintoísmo, para os japoneses, fazem parte da identidade japonesa, ao passo que o Cristianismo tem a aparência de uma religião européia. Aos poucos, porém, Michaela Motose percebeu que, abraçando o Cristianismo, ela não traía o budismo, pois esta religião a preparara para acolher em plenitude a Palavra de Deus encarnada em Jesus Cristo. Passo a passo ela foi deixando de ocultar ao mundo a sua identidade cristã, para tentar harmonizar entre si a nacionalidade japonesa e a fé católica. Afinal o que importa, diz ela, não é ser japonesa ou ser européia; é ser ela mesma vivendo a sua vocação cristã de Franciscana Missionária de Maria.

* * *
O anúncio do Evangelho aos povos da Ásia e da África encontrou tradições culturais e religiosas muito antigas, que oferecem resistência à pregação da Boa-Nova. Esta parece ocidental, européia, de modo que afeta o próprio senso nacionalista ou patriótico de vários povos. Todavia não é este o primeiro desafio que o Evangelho sofre; nos primeiros séculos ele enfrentou o poderio do Império Romano pagão perseguidor, ao qual conseguiu falar por causa do fulgor da verdade de Jesus Cristo. Tertuliano (+220 aproximadamente), jurista latino convertido, chegou a exclamar: “Ó alma humana, naturalmente cristã!”. O Cristianismo corresponde aos anseios mais profundos da alma humana, anunciando-lhe que Deus é o Primeiro Amor: de maneira gratuita e irreversível, ama o homem e acompanha-o para dar-lhe a plenitude da vida. A experiência, portanto, ensina que não é inútil tentar apregoar a Boa-Nova; ela tem em seu favor a força da vitória de Cristo, pois não é mera mensagem de um filósofo; é um sacramental ou a mensagem de Deus a todos os homens. Em nossos dias há significativos casos de pessoas que, atraídas pela grandeza da mensagem cristã, vencem preconceitos culturais e dizem um Sim total a Jesus Cristo; testemunham assim quanto o ser humano é sequioso da verdade religiosa ou de conhecer o autêntico sentido da vida. Segue-se o auto-relato da conversão de uma jovem -Michaela Motose – japonesa, que, a partir do budismo, encontrou Jesus Cristo (1).

INTRODUÇÃO
São Paulo disse: ‘O que sou, eu o sou pela graça de Deus’. Creio que foi o maravilhoso amor de meu país que me levou ao caminho do encontro com Jesus Cristo. Através do amor e da educação budista que me deram, recebi tal graça. Sou cristã desde os vinte anos de idade. Alguns anos depois tornei-me Religiosa na Congregação das Franciscanas Missionárias de Maria. Fui enviada ao Marrocos em missão e, depois, à França. Atualmente trabalho na cooperação missionária. Pediram-me que eu lhes comunique a minha experiência: a passagem do budismo para o Cristianismo e o que para mim o budismo representa hoje. Não me sinto digna de estar aqui, mas respondo com simplicidade e alegria.

O CONTEXTO RELIGIOSO JAPONÊS
O Japão constitui uma sociedade de consumo por excelência. Atualmente é pioneiro do progresso tecnológico. Além disto, a civilização japonesa se enraíza numa tradição de dois mil anos, em que caminham lado a lado o xintoísmo e o budismo. O Cristianismo foi introduzido em 1549 por São Francisco Xavier no momento em que o país se unificava. Pouco depois, um dos mais poderosos senhores feudais receou que a atividade missionária acarretasse uma invasão estrangeira. Em conseqüência, começou a perseguir os cristãos e a expulsar do país todos os missionários estrangeiros. Depois disto, o Japão fechou suas portas para o resto do mundo durante três séculos. Ao contrário, o xintoísmo e o budismo puderam desenvolver-se livremente, servindo para corroborar a unidade do país.

1 O texto que se segue, é traduzido do relato francês intitulado Le Chemin d’Emaüs au Japon e publicado pelo periódico Le Christ au Monde, janeiro-fevereiro 1995, pp.26-30.  

O xintoísmo e o budismo se irmanam na vida da sociedade do Japão; por exemplo, a cerimônia do casamento e a apresentação da criança recém-nascida ocorrem no templo xintoísta; mas os funerais são sempre celebrados no templo budista.   No decorrer dos séculos este cerimonial se arraigou tão bem na vida cotidiana que ele se tornou uma forma de cultura mais do que uma expressão religiosa. Em 1865 missionários franceses evangelizaram de novo o Japão. Em nossos dias há 0,35% (430.000) de católicos sobre um total de 123.000.000 de habitantes.

INFÂNCIA BUDISTA
Nasci numa família budista praticante, e fui educada para tomar-me esposa de um bonzo (2). Em casa, como em quase todas as famílias japonesas, tínhamos dois altares: o do xintoísmo e o do budismo. Seguindo o exemplo de meus pais e de minha avó, desde pequena eu costumava rezar diante do altar de Buda. Um dia minha avó me perguntou: ‘Que pedes diante do altar?’ Surpreendida por esta pergunta inesperada, respondi-lhe: ‘Nada!’. Ela me disse: ‘Está bem. Para agradar a Buda, é suficiente que fiques diante dele sem pedir coisa alguma’. Conservei este hábito de rezar adquirido na minha infância. Creio que esta semente de oração da minha infância continua a se desenvolver atualmente: estar diante de Deus, com as mãos vazias, e numa atitude de recolhimento. Desde a idade de quinze anos procurei um sentido para a minha vida e para toda a aventura humana. Mas ninguém respondeu de maneira satisfatória às minhas perguntas. Após os estudos de segundo grau, passei no exame vestibular para a Universidade. Isto mudou completamente a minha vida. Lá via pela primeira vez a Cruz, uma capela e Religiosas. Antes das aulas, elas começavam com uma oração, dizendo: ‘Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’. Ainda que dito em japonês, eu nada compreendia de tudo o que elas diziam.

2  O bonzo é como que um sacerdote budista. (N. d. R.).

Mais: a Cruz de Cristo me abalou; o semblante de Buda com o seu sorriso suave, misericordioso, sempre sereno, seduzia-me porque me suscitava paz interior. O importante para uma japonesa é viver em harmonia consigo mesma, com a natureza e ter o gosto das coisas belas; isto é um meio de entrar em contato com o Divino. Um dia, durante uma aula de Religião, uma Irmã leu esta passagem da Bíblia: ‘Jesus morreu na Cruz em favor de todos os povos’ (Ef 2) e esta outra: ‘Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida’ (Jo 14,6). Ouvindo estes textos, fiquei profundamente tocada. Coloquei para mim a questão: ‘Será que Ele morreu realmente em favor dos africanos, dos asiáticos e também por mim?’. Por conseguinte, Jesus se apresenta como aquele que abre o caminho. Este caminho não é outro senão Ele mesmo. Isto não me era claro e eu desejava saber mais sobre o Evangelho, de modo que comecei a estudá-lo com um missionário. Um dia descobri que Deus é Amor e que somos todos amados por Deus. Até então eu seguira a voz da minha consciência, levando vida moralmente honesta; mas isto não era suficiente para mim. Creio que a pessoa, muitas vezes sem o saber, aspira ao encontro com Deus, que nos criou por amor. Queria tornar-me filha de Deus pelo Batismo. Mas, ao mesmo tempo, eu não desejava violar a harmonia da família, pois em meu íntimo eu sentia como que uma ruptura. Todavia aos poucos se concretizava a grande aventura que seria a minha adesão à religião ‘européia’.

O CRISTIANISMO: RELIGIÃO EUROPÉIA?
O Cristianismo incontestavelmente marcou a cultura ocidental. Assim, por exemplo, a arquitetura das igrejas francesas encarna o Cristianismo. Até o parque de Versalhes, com as suas plataformas artificiais, com as suas alamedas bem traçadas, tem uma simetria que lembra o Infinito. Os japoneses nutrem uma atitude de espírito e uma disposição de alma que decorrem da mentalidade budista, xintoísta e confucionista; toda a vida japonesa é um culto à harmonia e à beleza; tenhamos em vista a mobilidade das nuvens, os reflexos da lua sobre as águas, as flores das cerejeiras… ou ainda a arquitetura dos templos e das pontes, que está sempre em harmonia com a natureza do ambiente. Por isto na minha alma havia um sentimento de intimidade com a natureza e de resignação confiante na ordem do universo. No relato do Gênesis sobre a criação lê-se: ‘O Senhor Deus tomou o homem e o estabeleceu no jardim do Éden para que o cultivasse e guardasse’ (Gn 2,5). Qual é a função do homem frente à natureza? Toca-lhe a tarefa de aperfeiçoar a criação; o homem é o gerente do mundo com plenos poderes: Adão, o homem, isto é, todo homem assume a criação para continuá-la. A Bíblia é muito clara; o mundo foi dado ao homem para que ele torne o mundo habitável. O japonês não tem o ideal de transformar a natureza para subordiná-la às suas necessidades; mas ele aceita a ordem existente no universo e procura adaptar-se a ela. Contudo Jesus mais e mais me atraía. Após um conselho de família, o bonzo me disse: ‘Se julgas que tal é o teu caminho, não te posso dizer Não’. Assim aos vinte anos recebi o Batismo. Em conseqüência, tive que seguir minha vida: experimentar uma certa dilaceração para aceitar algo que me era totalmente estranho. Eu sentia uma ruptura dos laços que me uniam aos meus familiares e amigos e eu tinha vergonha face aos meus antepassados. Naquela época, eu vivia escondida e não ousava dizer que me tornara católica. A Igreja no Japão nasceu e cresceu graças à Igreja da Europa, que é uma semente convertida em árvore. Esta árvore foi transplantada para o Japão. A Igreja no Japão por muito tempo se apresentou com um semblante estrangeiro. Em meio à paisagem japonesa, a arquitetura cristã guarda seu estilo europeu. Este compreende gestos e práticas pouco usuais no meu país: oração de joelhos, genuflexão, etc. Embora a Liturgia fosse celebrada em língua japonesa, eu tinha a impressão de estar trajando uma veste que não fora talhada segundo as minhas medidas. Todavia no meu íntimo eu compreendia aos poucos que o Senhor me chamava à Vida Religiosa. Um dia encontrei um missionário francês e fiquei impressionada pelo modo de viver dos missionários de Jesus Cristo, pela sua humildade, sua simplicidade e principalmente pela sua caridade. Eles dão a vida pelos japoneses sem esperar algo em retorno. No Evangelho de São João se lê: ‘Não há maior amor do que dar a vida…’. Se eu não tivesse encontrado missionários, a minha caminhada teria sido bem diferente da que é hoje. Apesar de muitas dificuldades, tomei a decisão de entrar na Vida Religiosa, de tudo deixar para seguir o Cristo e, a seu exemplo, doar-me totalmente a Deus e aos outros.

CONCILIAR DUAS IDENTIDADES
Cada vez mais freqüentemente coloco-me a pergunta: Como posso conciliar o Evangelho e duas identidades: a de autêntica japonesa e a de católica batizada? No Japão, após o meu Batismo vivi a vida cristã em meio a outras crenças religiosas, aceitando simplesmente não ser plenamente japonesa; era feliz na Vida Religiosa. Há alguns anos, vivendo na França, descobri que eu não devia descuidar de harmonizar com a cultura japonesa o que atualmente experimento como católica. Nasci no Japão, de pais japoneses. Minha identidade tem raízes na cultura japonesa, e eu passei do budismo ao Catolicismo. Tornar-me cristã não foi nem propriamente a rejeição da minha religião nem passagem de uma religião a outra, mas o cumprimento de todas as minhas aspirações mediante a acolhida da Palavra de Deus, que se revela em Jesus Cristo. Hoje agradeço por ter sido educada no budismo, onde encontrei as sementes da Palavra de Deus, que me tornaram capaz de acolhê-la um dia em plenitude, encarnada em Jesus Cristo; não tenho o sentimento de ter traído a religião que me foi transmitida desde o berço. O mistério de Cristo se desvenda progressivamente e eu me torno pouco a pouco mais ‘cristã’. Como Religiosa missionária na França, o que me importa não é tornar-me francesa nem ficar japonesa. É simplesmente ser eu mesma e viver a minha vocação cristã de Franciscana Missionária de Maria”.

Sem comentários.

 

DE BUDISTA A TOMISTA: a conversão ao catolicismo do filósofo Paul Williams
Catedrático de filosofia budista na Universidade de Bristol e budista praticante, foi durante mais de 30 anos uma das principais autoridades acadêmicas sobre budismo no Reino Unido. Porém em 1999 se converteu ao catolicismo, ao refletir sobre o karma e a vida após a morte.

Pablo Ginés/ReL  – 6 diciembre 2011 –   ReligionenLibertad.com

Paul Williams, catedrático de filosofia budista e professor de religiões da Índia na Universidade de Bristol, foi durante mais de 30 anos uma das principais autoridades acadêmicas sobre budismo no Reino Unido. Também era um budista convencido, intelectual e praticante. Porém em 1999 surprerndeu  seus alunos, companheiros e familiares quando anunciou que se convertia ao cristianismo, mais ainda ao catolicismo mais ortodoxo. Em 2002 publicou um livro com seu testemunho de conversão e suas reflexões.

Na revista budista inglesa Dharmalife não escondiam sua perplexidade: “Williams é um dos principais estudiosos britânicos do budismo e um budista praticante de muitos anos. De fato, seu livro ‘O Budismo Mahayana’ é uma jóia de claridade e visão. Que surpreendente foi escutar há dois anos que tinha decidido ser católico. […] Catolicismo! Tinha tendência a acreditar que enquanto o budismo é uma opção vital e espiritual para as pessoas modernas, o catolicismo pertence a um passado problemático. Minha visão de catolicismo é influenciada pelos testemunhos de amigos ex-católicos, sobre os efeitos debilitadores da culpa, sua busca de bases emocionais saudáveis para suas vidas… Como poderia uma pessoa inteligente e bem informada tomar tal opção?”, se pergunta o crítico da revista.

Williams  explicou em seu livro “Unexpected Way”, de 2002, e em algumas entrevistas e testemunhos escritos.

Juventude anglicana tíbia

Paul Williams nasceu em 1950. A família de sua mãe não era religiosa,  depois de sua conversão descobriu que teve uma bisavó católica. A família de seu padre era tipicamente anglicana. Sendo muito jovem, Paul se juntou ao coral da paróquia anglicana porque  gostava de cantar. Foi crismado em sua adolescência pelo bispo anglicano de Dover e  com 18 anos recorda que ia  comungar algumas vezes. Mas não tinha uma relação próxima com Cristo nem recebeu formação.

Seu irmão trouxe da biblioteca um livro sobre yoga, e com ele Williams se afeiçoou à cultura oriental nos muito alternativos anos 60. “Estive implicado no estilo de vida e das coisas que os adolescentes fazem. Ao aproximarem-se os exames públicos deixei o coral, deixei de servir na igreja, perdi o contato com ela,  deixei o cabelo comprido e me vestia diferente”.

Meditação e budismo

Estudando na Universidade de Sussex se especializou em filosofia indiana e depois em budismo. Tinha lido algo de Santo Tomás de Aquino e lhe pareceu admirável, rápido se esqueceu dele. “Por um tempo fiz a Meditação Trascendental de Maharishi Mahesh Yogui, porém a deixei porque me desgostava de sua superficialidade e me parecia que distorcia a tradição indiana”, escreveu em seu livro.

Em 1973 já  tinha tudo claro: tinha estudado tanto o budismo que via o mundo com categorias budistas, lhe pareciam coerentes, Deus não era necessário e se considerou já budista. Se “refugiou” formalmente como budista na tradição tibetana Dgelugspa, a do Dalai Lama. Sendo professor na Universidade de Bristol criou seu próprio círculo de budistas.

Praticava a meditação, dava palestras em encontros budistas, aparecia em debates televisivos como budista tibetano e participou de debates públicos com o católico dissidente Hans Küng e o catalão orientalista Raimon Panikkar.

O que atraia do budismo

“Interessava-me a filosofia, mas também a meditação e o exótico Oriente. Muitos de nós encontrávamos o budismo interessante, ao princípio, porque parecia muito mais racional que as alternativas, e às vezes muito mais exótico. Os budistas não crêem em Deus, ou melhor, não parecia ter razões para crer em Deus e a existência do mal era para nós um argumento positivo em seu contrário. Nós que havíamos crescido como cristãos estávamos fartos de defender  Deus num mundo hostil, cheio de detratores. No budismo  tem um sistema de moralidade, espiritualidade e filosofia inensamente sofisticado (e exótico), que não necessita de Deus para nada”, explica Williams.

Anos depois, ao converter-se ao catolicismo, o filósofo seguiu refletindo e escreveu: “Se olhamos como são os budistas do Ocidente, o chamado Budismo Ocidental, o que encontramos com regularidade é uma forma de cristianismo na qual tiraram as partes que os cristãos pós-cristãos encontram mais dificuldades em aceitar”.

Williams inclusive conheceu um líder chamado Sthaira Sangharakshita que propunha aos budistas de passado cristão praticar a “blasfêmia terapêutica”, para conseguir desapegar-se de seu fundo cristão, insultando coisas consideradas santas em sua cultura. Para Williams esta idéia  parecia uma barbaridade.

O  problema da reencarnação

O budismo no Ocidente se apresenta sobretudo como técnicas para viver experiências positivas: paz, harmonia, relaxamento… Mas a medida que Williams via o passar dos anos, como filósofo não podia evitar fazer-se perguntas, e entre elas: o que passa depois da morte? Há budistas que preferem não pensar no tema, e consideram que é “Mara”, uma “ilusão”, uma distração, um tema no qual não vale a pena pensar, mas pode um filósofo deixar de perguntar-se?

“Os budistas crêem no renascimento, ou melhor, na reencarnação, como é chamada. Não há um início na série de vidas renascidas: todos temos renascido infinitas vezes, não há princípio nem se necessita de um Deus que o inicie”, explica.

Williams recorda que na época dos primeiros cristãos as crenças a favor do renascimiento estavam muito difundidas na Grécia e Roma, mas o cristianismo nunca as aceitou. “E por boas razões: se a reencarnação é certa, nós não temos nenhuma esperança”.

O que há de mim numa barata?

Imaginemos que vamos  ser executados sem dor amanhã pela manhã, mas sabemos com toda segurança que depois reencarnaremos como uma barata. “Acostumar-te-ás, não á tão mal, ser barata não é como o nada ou o grande vazio, é uma vida, seguirás vivo… Mas por que nada disso nos consola?”, argumenta Williams.

Mais específico ainda: “Não peço que imagineis que despertais dentro do corpo de uma barata, como na  Metamorfose de Kafka. Serias uma barata, e quem sabe quais são os sonhos ou imaginações de uma barata?”

“O terror de ser executado na aurora e renascer como barata é que, simplesmente, isso seria meu fim. Não posso imaginar como ´r renascer como barata porque não há nada que imaginar! Simplesmente, não teria nada de mim aí. Se a reencarnação é certa, nem eu nem meus seres queridos sobreviveríamos à morte. O eu, a pessoa real que sou, minha história, se acaba. Quem sabe haja outro ser vivo com algum tipo de conexão causal com a vida que eu fui, alguém influenciado por meu karma, mas eu já não estou”.

“No nível cotidiano, os budistas tendem a obscurecer este fato -que eu desapareço do tudo com a morte- quando falam de ´meu renascer´ ou de ´preocupar-se por tuas vidas futuras´, mas na realidade qualquer renascer -como uma barata sul-americana- não seria ´eu mesmo´, e por tanto cabe perguntar-se por que hei de preocupar-me por minhas reencarnações futuras”.

Iluminação, sim… mas quem a consegue?

Para escapar do ciclo das reencarnações, o budismo ensina que é possível alcançar a iluminação, o nirvana, uma absoluta perfeição e desapego nesta vida. Quando alguém tem 20 anos pode pensar que com muito esforço o conseguirá. Mas Williams, com mais de 20 anos de intensa prática budista e meditativa o tinha claro: “É evidente que não vou  conseguir a iluminação nesta vida. Todos os budistas tenderão a dizer isso de todo o mundo. A iluminação é uma conquista extremadamente rara e suprema, para heróis espirituais, não para nós, não para gente como eu. Assim que eu, e meus amigos e familiares, não temos esperança”.

Karma: pagar pelas outras vidas tuas… que não eras tu

Williams explica rapidamente a teoria do karma: alguns males e alguns bens que experimentas, são consequência do que fizeste em uma vida passada. Mas em qual sentido se puede decir que el dictador cruel y maligno que fuiste en otra vida eras tú? “La idea de que um bebê sofre uma dolorosa enfermidade por algo que fez outra pessoa, inclusive se o bebê é de alguma maneira um renascimento dessa pessoa, não pode ver-se como satisfatório. Não pode se dizer que o que alguém fez, seja a resposta mais aceitável ao problema do mal. O bebê não foi quem fez os atos malvados, como também eu não sou uma barata depois de minha execução”.

O cristianismo oferece esperança

“O budismo não tinha esperança para mim. Os cristãos sim têm esperança. Assim então eu quis ser cristão. Voltei a examinar as coisas que tinha rejeitado em minha juventude. Dei-me conta que é racional crer em Deus, tão racional -hoje penso que mais racional- do que crer, como os budistas, que não há Deus”.

Examinou a chave da proposta cristã: que Jesus tinha ressuscitado. “Assombrou-me descobrir que a ressurreição literal de Cristo dentre os mortos depois de sua crucifixão é a explicação mais racional do sucedido. Isso fazia do cristianismo a opção mais racional das religiões teístas, e como cristão considerei que devia dar prioridade à Igreja Católica. Em meu livro analizo vários argumentos que me deram para não facer-me católico e explico como não conseguiram dissuadir-me”.

“O cristianismo é a religião do valor infinito de cada pessoa. Cada pessoa é uma criação individual de Deus, e como tal Deus a ama e valoriza infinitamente. Nisto se baseia toda a moral cristã, desde o valor da família ao altruísmo e o sacrifício dos santos. Por sermos infinitamente valiosos, é que Jesus morreu por nós, para salvar-nos a cada um. E somos as pessoas que somos, com nossas histórias, amigos e parentes. Nossa fé é que em Deus nossas mortes terão significado para cada um de nós, de formas que excedem nossa imaginação mas que inclusive agora já suscitam nossa esperança e alimentam nossas vidas”.

Hoje Paul Williams é laico dominicano e um grande admirador de São Tomás de Aquino. Lamenta que às vezes, em encontros ecumênicos ou análises de religião comparada, se faça o contraste entre os místicos cristãos de linguagem simples (como São João da Cruz) com teóricos budistas muito elaborados, com um discurso muito intelectualizado que fazem parecer o místico cristão uma versão simples de uma filosofia complexa. Williams considera que esses autores budistas devem contrastar-se melhor com autores sistemáticos como São Tomás. Segue sendo, em todos os sentidos, professor e especialista em budismo.

Segundo Domingo do Advento – Ano C

Por Pe. Inácio José Schuster

João o Batista, profeta do Altíssimo
Baruc, 5, 1-9; Filipenses 1, 4-6.8-11, Lucas 3, 1-6 

O Evangelho deste domingo se ocupa por inteiro da figura de João Batista. Desde o momento de seu nascimento, João Batista foi saudado por seu pai Zacarias como profeta: «E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, pois irás adiante do Senhor para preparar seus caminhos» (Lc 1, 76). O que fez o Precursor para ser definido como um profeta, e mais, «o maior dos profetas» (Lc 7, 28)? Antes de tudo, seguindo os passos dos antigos profetas de Israel, pregou contra a opressão e a injustiça social. No Evangelho do próximo domingo, nós o ouviremos dizer: «Quem tiver duas túnicas, que as reparta com o que não tem; quem tiver o que comer, que faça o mesmo». Aos publicanos [arrecadadores de impostos, ndt.], que tão freqüentemente desagravam os pobres com requerimentos arbitrários, lhes diz: «Não exijais mais do que vos está fixado». Aos soldados, inclinados à violência: «Não façais extorsão a ninguém, não façais denúncias falsas» (Lc 3, 11-14). Também as palavras sobre os vales que serão aterrados, as montanhas e colinas que serão rebaixadas e as passagens tortuosas que ficarão retas, poderíamos entendê-las assim: «Toda injusta diferença social entre riquíssimos (as montanhas) e paupérrimos (os vales) deve ser eliminada, ou ao menos reduzida; as passagens tortuosas da corrupção e do engano devem ficar retas». Até aqui reconhecemos facilmente a idéia que atualmente temos do profeta: alguém que impulsiona à mudança; que denuncia as deformações do sistema, que aponta seu dedo contra o poder em todas suas formas — religioso, econômico, militar — e se atreve a gritar na cara do tirano: «Não te é lícito!» (Mt 14, 4). Mas João Batista faz também uma segunda coisa: dá ao povo o «conhecimento de salvação pelo perdão de seus pecados» (Lc 1, 77). Onde está, poderíamos perguntar-nos, a profecia neste caso? Os profetas anunciavam uma salvação futura; mas João Batista não anuncia uma salvação futura; indica uma que está presente. Ele é quem aponta seu dedo para uma pessoa e grita: «Aqui está!» (João 1, 29). «Aquilo que se esperou durante séculos e séculos está aqui, é Ele!». Que estremecimento deveu percorrer aquele dia o corpo dos presentes que o ouviram falar assim!. Os profetas tradicionais ajudavam seus contemporâneos a superar o muro do tempo e olhar o futuro; mas ele ajuda a superar o muro, ainda mais grosso, das aparências contrárias, e permite descobrir o Messias oculto por trás do aspecto de um homem como os demais. O Batista inaugurava assim a nova profecia cristã, que não consiste em anunciar uma salvação futura («nos últimos tempos»), mas em revelar a presença escondida de Cristo no mundo. O que tudo isto tem a nos dizer? Que também devemos manter juntos estes dois aspectos do ministério profético: compromisso pela justiça social por uma parte, e anúncio do Evangelho por outra. Não podemos partir pela metade esta tarefa, nem em um sentido nem em outro. Um anúncio de Cristo, sem o acompanhamento do esforço pela promoção humana, resultaria desencarnado e pouco crível; um compromisso pela justiça, privado do anúncio de fé e do contato regenerador com a palavra de Deus, se esgotaria logo, ou acabaria em estéril contestação. Ele nos diz também que o anúncio do Evangelho e a luta pela justiça não devem ficar como coisas justapostas, sem vínculo entre si. Deve ser precisamente o Evangelho de Cristo o que nos impulsiona a lutar pelo respeito do homem, de forma que seja possível a todo homem «ver a salvação de Deus». João Batista não pregava contra os abusos como agitador social, mas como arauto do Evangelho, «para preparar ao Senhor um povo bem disposto» (Lc 1, 17).

 

Um dos personagens do Advento é São João Batista que ocupará a nossa reflexão neste e no próximo domingo. Hoje, o evangelho fala-nos na figura de João Batista; no próximo domingo, falará na sua mensagem. Estamos lendo, com poucas interrupções, o terceiro capítulo do evangelho de São Lucas. Na nossa pregação, seria bom não cairmos na repetição. São Lucas tem uma preocupação em situar o que narra com uma precisão histórica. Como exemplo, temos o modo como inicia o seu evangelho: “Resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo”. Outro exemplo, é a perícope evangélica deste domingo e da Noite de Natal. Aquilo que São Lucas está a narrar são fatos históricos e não fábulas (2Pd 1, 16). As duas personagens que apresenta, João e Jesus, são históricas e estão muito unidas. Jesus será o cumprimento definitivo da Escritura na história. Mas é João que começa a cumprir tudo o que os profetas da história da salvação tinham anunciado. João representa a transição, ou seja, a passagem da história antiga para uma nova história. “Digo-vos: Entre os nascidos de mulher não há profeta maior do que João; mas, o mais pequeno do Reino de Deus é maior do que ele” (Lc 7, 28), dirá Jesus mais adiante quando falar especificamente de João Baptista. Porque cumpre a Escritura, está a começar uma nova história. Porque toda a sua vida é o grande esforço da pessoa humana para chegar a Deus, está a mostrar a necessidade de que seja o próprio Deus a fazer que venha o Seu Reino, porque nem João, sozinho, consegue. “Foi dirigida a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto”. Ele cumpria o que estava escrito “no livro dos oráculos do profeta Isaías: Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”. Agora, a Palavra de Deus já não é um anúncio futuro como tinha sido até então. Com João Batista, Maria e José, a Palavra de Deus é eficaz, porque se inicia algo de novo. João Batista muito fez para que a Escritura se cumprisse. A sua pregação, como veremos no próximo domingo, vai centrar-se no esforço necessário para se poder ver a “salvação de Deus”, apesar de ele ser somente uma voz. Ainda não é a Palavra. A Palavra é Jesus. João é somente a voz que clama, é o grito, mas salienta a necessidade da conversão. “Deus decidiu abater todos os altos montes e as colinas seculares e encher os vales”. Já o Profeta Baruc falava da conversão com a frase anterior. Só no momento em que o mundo estiver na mesma situação é que se poderá caminhar com segurança, “porque Deus conduzirá Israel na alegria, à luz da sua glória”. E o Reino será trazido por Jesus. Então, o sonho e a promessa tornar-se-á realidade. Com Jesus chegará a verdadeira renovação da vida e será magnífico o que Ele fará em nosso favor. “Grandes maravilhas fez por nós o Senhor: por isso exultamos de alegria”. É a esperança do Advento, alicerçada na realidade do Natal histórico de Jesus. Hoje, como João, devemos ser os anunciadores da conversão, da nossa própria conversão, para que através dela o Reino de Deus se torne presente. Por isso, São Paulo diz-nos: “Tenho plena confiança de que Aquele que começou em vós tão boa obra há-de levá-la a bom termo até ao dia de Cristo Jesus”. Peçamos ao Senhor que saibamos apreciar os valores autênticos ou, como diz a Oração Coleta deste domingo, que “os cuidados deste mundo não sejam obstáculo para caminharmos generosamente ao encontro de Cristo, mas que a sabedoria do alto nos leve a participar no esplendor da sua glória”. A Eucaristia de cada domingo torna possível o “sonho” (conversão) de João.

 

Evangelho segundo São Lucas 3, 1-6
No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes, tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe, tetrarca da Ituréia e da Traconítide, e Lisânias, tetrarca de Abilena, sob o pontificado de Anás e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto. Começou a percorrer toda a região do Jordão, pregando um batismo de penitência para remissão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor e endireitai as suas veredas. Toda a ravina será preenchida, todo o monte e colina serão abatidos; os caminhos tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos. E toda a criatura verá a salvação de Deus.’»

Por Pe. Fernando José Cardoso

Segundo domingo do advento. No décimo quinto ano do império de Tibério Cesar. Quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes Tetrarca da Galiléia. Felipe seu irmão, tetrarca da Ituréia e Traconitides, Lizaneas tetrarcas Labilenea. Quando eram sacerdotes Anás e Caifás. Que lista longa, e nós poderíamos aumentá-la com a galeria dos homens famosos da nossa época. Nós poderíamos citar Napoleão Bonaparte. Nós poderíamos citar na nossa história os imperadores Pedro I e Pedro II. Quantos homens célebres marcaram épocas no passado? O que acontece com toda esta leria, com todas estas celebridades? Desapareceram, não mais se apresentam a quem quer que seja, não perturbam mais ninguém. Diante destas figuras no passado, como devia aparecer mesquinho João Batista e, no entanto todos estes são lembrados apenas porque durante os seus governos apareceu uma figura no deserto da Judéia chamado João Batista. João Batista repito, nada era em comparação ao imperador Tibério Cesar, a Pôncios Pilatos e mesmo Herodes, no entanto todos estes são lembrados dois mil anos depois, apenas por causa de João Batista e ainda hoje, quantas igrejas são erigidas em honra deste santo, quantas festividades por ocasião da sua natividade, ou da sua celebração litúrgica. João Batista foi um homem designado por Deus, destinado a não desaparecer com o tempo e hoje, dois mil anos passados, despedindo-nos  tranquilamente daquela galeria de que não nos fala mais coisa alguma, somos convidados neste advento e neste domingo a nos matricular na escola do Batista. O que é que o Batista nos diz, dois mil anos depois de morto? Convida-nos a conversão, que todo vale seja soterrado, que todo monte e colina seja aplainada, isto é, deixando a linguagem simbólica e entrando na realidade, que o Povo de Deus, de todas as épocas, e nós também, nos também nos preparemos para receber Jesus, através de uma grande conversão do coração. Estamos próximos do Natal, mas Jesus não nascerá em todos os corações indistintamente. Jesus não despontará em todos. Há muitas maneiras, inclusive pagãs, de se celebrar o Natal. Jesus despontará e nascerá apenas naqueles corações que hoje seguirem o conselho de João Batista; nascerá apenas naqueles corações que levarem a sério sua conversão, deixarem de lado o homem velho, se revestirem do homem novo, e assim irem ao encontro da Salvação que vem de Deus.

 

«Preparai o caminho do Senhor»
São Cirilo de Alexandria (380-444), bispo e Doutor da Igreja
Sobre Isaías, III, 3 (a partir da trad. Sr Isabelle de la Source, Lire la Bible, t. 6, p. 99)

«O deserto e a terra árida alegrar-se-ão, a terra desolada exultará e florescerá» (Is 35, 1). Aquela a quem a Escritura inspirada chama em geral desértica e estéril é a Igreja vinda dos pagãos. Ela já existia entre os povos, mas não tinha recebido do céu o seu Esposo místico, quer dizer, o Cristo. […] Mas Cristo veio a ela: foi cativado pela sua fé, enriqueceu-a com o rio divino que jorra Dele, e jorra porque Ele é «fonte de vida, torrente de delícias» (Sl 35, 10.9). […] Assim que Ele Se tornou presente, a Igreja deixou de ser estéril e deserta; ela encontrou o seu Esposo, trouxe ao mundo inumeráveis filhos, cobriu-se de flores místicas. […] Isaías continua: «O deserto será atravessado por um caminho puro, que se chamará Caminho Sagrado» (Is 35, 8). O caminho puro é a força do Evangelho, penetrando a vida, ou, dizendo de outro modo, é a purificação do Espírito. Porque o Espírito retira a mancha imprimida na alma humana, liberta-a dos pecados e destrói qualquer nódoa. Este caminho é, pois, justamente chamado santo e puro; ele é inacessível a quem não está purificado. Com efeito, ninguém pode viver segundo o Evangelho se não foi primeiro purificado pelo santo batismo; portanto, ninguém o pode sem a fé. […] Só os que foram libertados da tirania do demônio poderão ter a vida gloriosa que o profeta ilustra com estas imagens: «Aí não haverá leões, nem animal feroz por aí passará» (Is 35, 9), por esse caminho puro. Anteriormente, com efeito, como um animal feroz, o diabo, esse inventor do pecado, atacava, com os espíritos maus, os habitantes da terra. Mas foi reduzido por Cristo ao puro nada, afastado para longe do rebanho dos crentes, despojado do domínio que exercia sobre eles. É por isso que, resgatados por Cristo e reunidos na fé, eles caminharão num só coração por este caminho puro (v. 9). Abandonando os seus antigos caminhos, «chegarão a Sião», quer dizer, à Igreja, «com uma alegria que não terá fim» (v. 10) nem na terra, nem nos céus, e darão glória a Deus, seu Salvador.

 

Maravilhas fez conosco o Senhor
Padre José Augusto

O roxo do tempo de advento tem a intenção de despertar a esperança. Todo esse dia foi feito para que você retorne para sua casa cheia de Espírito Santo. Por que o povo cantou dessa forma, este salmo? O povo daquela época estava sofrendo, pois Nabucodonosor entrou com suas tropas em Jerusalém e acabou com o povo de Deus, destruiu o templo onde o povo buscava o consolo do Senhor e levaram eles para Babilônia. Quanto sofrimento aquele povo viveu ao se separar. Mas o Pai os prometeu que depois de 70 anos eles retornariam. A esperança deles era acreditar que voltariam. Depois de 70 anos de sofrimento, Deus suscitou em Esdras um rei que matou Nabucodonosor e libertou aquele povo. E como o Senhor prometeu, depois de 70 anos aconteceu. Deus pode até tardar, mas as promessas d’Ele se realizaram e é por isso que estamos aqui, celebrando que Ele é a nossa vitória. Deus mudará a sua sorte. Por isso, não podemos perder a esperança, não podemos desanimar, espere no Senhor, seja firme e corajoso porque a qualquer momento sua sorte mudará, Deus é fiel! O nosso Deus é um Deus de surpresas, no salmo diz assim “Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria.” Se na ida você foi chorando, e se você hoje permanece chorando, saiba que você voltará com alegria. Muitas pessoas aqui estão celebrando as maravilhas que Deus fez, mas outros estão dizendo o Senhor ainda não fez, mas fará, por isso todos nós temos que cantar assim “Maravilhas fez conosco o Senhor: exultemos de alegria! ” Foram 70 anos de espera, mas depois aquele povo disse: “Encheu-se de sorriso nossa boca; nossos lábios de canções.” Hoje o evangelho termina com uma esperança: ‘Todos verão a salvação que vem de nosso Deus’ No ano de 2009 a Igreja está dizendo que todos verão a salvação que vem de nosso Deus. O Senhor não brinca, e Ele disse que são todos, por isso tenha calma, espere e Deus fará. A qualquer momento o Senhor voltará e nos levará para o céu. E hoje pela manhã todos viram Ele, O viram disfarçado. Quem ainda não celebrou, celebre porque a vitória de Deus virá. Jesus é a nossa vitória e quem está com Ele já é vitorioso.

 

SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO
Lucas 3,1-6 “Esta é a voz de quem grita no deserto: preparem o caminho do Senhor”

Atrás das informações históricas deste texto, referentes às autoridades seculares e religiosas que teriam influência nos primórdios do cristianismo, jaz a realidade trágica da resposta negativa deles à Palavra de Deus e aos seus mensageiros, João o Batista, e Jesus, o Cristo!  Na pessoa do Pôncio Pilatos, a autoridade romana vai agir na decisão de assassinar o Messias;  entre os governantes da Palestina, Herodes Antipas aparece diversas vezes no Evangelho, sempre com juízo negativo, e será o responsável pela morte de João, além de estar presente no sofrimento  de Jesus na Semana Santa;  Anás (Sumo Sacerdote de 6 – 15 d.C) e o seu genro Caifás (Sumo Sacerdote de 18 -37 d.C) só funcionam porque os romanos permitiam e realmente foi a eles que serviam.  Os sumos sacerdotes sempre serão hostis a Jesus e à sua pregação e no fundo eram eles os responsáveis pela sua morte. No meio deste elenco de poderosos corruptos e perseguidores, Deus manda João, o Batista, como arauto do novo tempo de graça e salvação. Deus não permite que a perversidade e a maldade tenham a palavra final na história da humanidade.  Essa será mais tarde a mensagem básica do Apocalipse – o mal já é um derrotado, e embora possa parecer diferente, é Deus e não a maldade que controla a caminhada da história.  Mensagem de conforto às comunidades sofridas do fim do primeiro século.  Mas esta vitória não se concretiza sem que haja luta, sacrifício, e cruz! Lucas põe na boca de João um trecho de Isaías: “Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem as suas estradas.  Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas; as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados.  E todo homem verá a salvação de Deus” (v. 4-6). Sem dúvida, podemos entender este trecho num sentido metafórico, como descrição de uma mudança radical no estilo de vida de quem quer aceitar o convite à penitência e ao arrependimento.  Os vales a serem aterrados, as montanhas e colinas a serem aplainadas, os caminhos esburacados a serem nivelados, simbolizam os empecilhos em nossas vidas a um seguimento mais radical e coerente de Jesus. Quem aceita a sua mensagem terá que mudar radicalmente – isso é, na raiz – a sua vida.  Advento, embora não seja tempo de penitência no sentido que a Quaresma é, se torna tempo oportuno para uma revisão de vida, para descobrir quais são as curvas, montanhas, e pedras que teremos que tirar para que o Senhor realmente possa habitar nos nossos corações. O último versículo: “E todo homem verá a salvação de Deus” (v. 6) faz eco ao tema lucano da universalidade da salvação, usando esta frase que não se encontra no texto paralelo de Mc 1, 3. Ninguém é excluída da mensagem e oferta da salvação.  Mas a resposta depende de cada um de nós!

Solenidade da Imaculada Conceição – 08 de Dezembro

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São Lucas 1, 26-38
Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.» Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus.» Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

Hoje, no coração do Advento aos 8 dias de dezembro, celebramos a solenidade da Imaculada Conceição. Na segunda leitura da Liturgia, o autor da carta aos Efésios afirma-nos que Deus nos predestinou, desde toda a eternidade, a sermos santos e imaculados em Sua presença. E quando o livro do Gênesis nos diz que criou Adão e de sua costela a companheira Eva, Deus os colocou no Jardim do Éden. Os padres da Igreja interpretaram muito bem este Jardim do Éden; colocou-os no Paraíso, isto é, em Cristo. Adão e Eva foram já pensados por Deus em vista de Cristo para que se realizassem plenamente como homem e mulher em Jesus Cristo e, dessa forma, todos nós somos pensados por Deus em Cristo a sermos santos e imaculados em Sua presença. Mas o que aconteceu com Adão e com Eva, melhor, o que continua a acontecer com todos os seres humanos? Degradaram-se através da tentação e da queda, buscaram outra realização à margem de Cristo. Ocorre que, contudo, não existe tal realização. Ou bem nós nos realizamos em Cristo, isto é, ou nós encetamos o caminho da vida, que é o caminho de Cristo, ou bem nós entramos para desvio e começamos a marchar na direção da morte, isto é, da morte eterna. Eis o drama de toda a humanidade. Hoje, aos 8 dias de dezembro, nós celebramos Aquela que, por graça especial de Deus e em previsão dos méritos de Cristo, pensada ela também desde toda eternidade em Cristo e em vista de Cristo, jamais se separou do Cristo, do qual seria mãe biológica neste mundo. Todos nós, em Adão e Eva, tivemos o pecado aninhado fundo em nossos corações. E temos ambos que fugir, envergonhados um do outro, da presença de Deus. Maria, na sua Imaculada Conceição, não teve jamais que fugir de Deus. Mas o que se contempla hoje em Nossa Senhora?  Sua pureza ilibada, Sua Conceição Imaculada, é o projeto. E Deus continua a tê-lo para com os degradados filhos de Eva, que somos todos nós. Deus não abandonou o Seu projeto e, ainda que nos veja desfigurados pelo pecado, Maria, em sua Imaculada Conceição, é hoje o espelho e ao mesmo tempo o futuro que nos espera, se nós deixarmos Deus trabalhar em nosso coração durante o longo tempo do Advento, que é o tempo de nossa vida que nos separa do encontro definitivo e transformante com Ele.

 

«Salve, ó cheia de graça»
Santo Epifânio de Salamina (? – 403), bispo
Homilia n°5; PG 43, 491.494.502 (a partir da trad. cf Solesmes, Lectionnaire, t. 1, p. 1003)

Que dizer? Que elogio se há-de fazer à Virgem gloriosa e santa? Ela ultrapassa todos os seres, à excepção apenas de Deus; por natureza, é mais bela que os querubins, os serafins e todo o exército dos anjos. Nem as línguas do céu nem as da terra, nem as línguas dos anjos bastam para louvá-la. Virgem bendita, pomba pura, esposa celeste […], templo e trono da divindade! Cristo, sol esplendoroso do céu e da terra, pertence-te. Tu és a nuvem luminosa que fez descer Cristo, Ele o brilho resplandecente que ilumina o mundo. Rejubila, ó cheia de graça, porta do céu; é de ti que fala o autor do Cântico dos Cânticos […] quando exclama: «És horto cerrado, minha irmã, minha esposa, horto cerrado, fonte selada» (4, 12). […] Santa Mãe de Deus, ovelha imaculada, tu trouxeste ao mundo o Cordeiro, Cristo, o Verbo encarnado em ti. […] Que maravilha espantosa nos céus: uma mulher vestida de sol (Ap 12, 1), trazendo nos braços a luz! […] Que maravilha espantosa nos céus: o Senhor dos anjos que Se torna filho da Virgem. Os anjos acusavam Eva; agora, cumulam Maria de glória, porque Ela levantou Eva da queda e abriu as portas do céu a Adão, outrora expulso do Paraíso. […] Imensa é a graça concedida a esta Virgem santa. É por isso que Gabriel a cumprimenta dizendo-lhe: «Rejubila, cheia de graça», resplandecente como o céu. «Rejubila, cheia de graça», Virgem ornada de virtudes sem número. […] «Rejubila, cheia de graça», tu que sacias os sedentos com as doçuras da fonte eterna. Rejubila, Santa Mãe Imaculada, tu que geraste Cristo, que te precede. Rejubila, púrpura real, tu que revestiste o Rei do céu e da terra. Rejubila, livro selado, tu que deste a ler ao mundo o Verbo, o Filho do Pai.

 

A Imaculada Conceição
Pe. Inácio José Schuster

Hoje, dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, queremos lembrar a sua assunção. Sim, pois depois de assunta aos Céus, a Virgem Maria é esta que está junto do Filho, na glória do Pai, intercedendo por cada um de nós. O Papa Pio XII, em 1950, proclama o ‘Dogma da Assunção da Santíssima Virgem Maria’, que consiste no seguinte: “Cumprido o curso de sua vida terrena, Maria foi assunta ao Céu em corpo e alma”. Para dizer que:
1º) Maria tem especial participação na ressurreição do Filho – Ela está unida à glória do Filho;
2º) Ela é a antecipação da sorte dos eleitos – primícias e exemplo da Igreja.
Segundo a Tradição da Igreja, logo após a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, João a teria levado para morar com ele, assumindo-a como mãe, numa cidade chamada Éfeso. Todavia, antes de Maria vir a morrer – entenda-se esta morte não como consequência do pecado, pois Maria não pecou, o termo “dormição” é para dizer de uma morte diferenciada, não como qualquer morte fruto de pecado; a verdade é esta: Maria morreu – João a teria trazido para Jerusalém. Maria morre e é assunta em Jerusalém; pode-se dizer que ela tenha sido velada no Monte Sião, em Jerusalém, e levada para ser sepultada ao lado do Monte das Oliveiras, túmulo este que se encontra vazio – obviamente – e que pode ser visitado e visto até hoje. A Santíssima Virgem Maria participa da Glória do Filho e é a antecipação da sorte dos eleitos; isso significa que já existe uma criatura ressuscitada no Céu em corpo e alma: Maria. Mas tudo isso devido ao fato de Deus tê-La preparado para esta missão tão linda e particular: ser a Mãe do Filho d’Ele. Todavia, houve uma colaboração e uma correspondência da parte de Nossa Senhora. Para dizer que ela é modelo de como ser Igreja. Queremos, hoje, nos ater à festa que estamos celebrando: a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria. O dogma da Imaculada Conceição foi instituído pelo Papa Pio IX no dia 8 de dezembro de 1854, que declara: “Desde a sua concepção, Maria foi preservada do pecado original e de suas conseqüências pelos méritos de Cristo, que se chama redenção preventiva”. O devoto da Virgem Maria é aquele que toma a decisão de viver as virtudes dela. A saber:
Mulher do silêncio: Precisamos aprender com Nossa Senhora a silenciar o nosso coração de todas as agitações do mundo e de todo barulho, fruto das realidades que são contrárias à vontade de Deus na nossa vida. Silenciar é muito mais que não fazer barulho, é ter a coragem de retirar-se constantemente para encontrar-se com o Senhor, e aí escutar o Seu Coração.
Mulher da Palavra: A Santíssima Virgem rezava os salmos; era íntima da Palavra de Deus; prova disso é ela repetir o Cântico de Ana ao se encontrar com Isabel, cântico este lá do Antigo Testamento. Muito mais que o fato de narrar esse cântico, a prova de que a Virgem Maria é a mulher da Palavra é a sua total confiança na misericórdia e na providência de Deus, que regia toda a sua vida e a vida do mundo.
Mulher do serviço: Maria sobe a montanha para visitar a sua parenta Isabel; ela vai à casa da prima não tendo como prioridade tratar de serviços domésticos, mas para levar o mistério até a vida daquela que, com certeza, muitos traumas trazia pelo fato de ter sido estéril por muitos anos – fato tido como sinal de maldição para o povo daquela época e lugar. O mistério em Maria, que é o próprio Deus, a leva até a prima, para que esta possa ser curada. Isso nos diz que devemos ser, efetivamente, portadores e condutores do mistério, que é Deus, para as pessoas, pois Ele se encontra em nós, dentro de nós, desde o momento do nosso batismo.
Mulher da obediência: Maria só tinha olhos para a vontade de Deus, para obedecer ao Todo-Poderoso nas circunstâncias ordinárias da vida; é ela quem diz a cada um de nós – única frase de Maria na Sagrada Escritura, de forma direta: “Fazei tudo o que Ele vos disser.” A Santíssima Virgem Maria é aquela que pode, verdadeiramente, nos ajudar a encher as talhas da nossa vida. Esta água viva é o Espírito Santo, o Esposo de Nossa Senhora. Quando o Espírito Santo percebe uma alma tomada de amor e da presença de Maria – a Sua esposa – o Ele vem e realiza maravilhas nessa alma, pois Ele não pode ficar separado da Sua esposa. As maravilhas que o Espírito realiza em nós nada mais são do que encher as talhas da nossa vida para que Cristo nos transforme neste vinho novo. Viver esta festa de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, ser devoto de Maria por excelência,  é obedecer a Deus e fazer com que Ele seja o Senhor, verdadeiramente, da nossa vida.

 

Lucas, capítulo 1, versículos de 26 a 38.
No coração do Advento, hoje 8 de dezembro, celebramos a Solenidade da Imaculada Conceição. No Brasil é festa de preceito. Esta celebração se solenizou após a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, pelo Papa Pio IX, no dia 08 de dezembro de 1854. Na verdade o texto da definição dogmática nos diz que Maria foi concebida sem a mancha do pecado de natureza, o pecado hereditário, o pecado de Adão. Mas nós celebramos muito mais do que uma simples Imaculada Conceição. Nós celebramos hoje toda a pureza de coração da Virgem Maria, que desde a sua mais tenra idade soube agradar a Deus. E agradou a Deus durante toda a sua vida. Nós desconhecemos a vida de Nossa Senhora. Nós desconhecemos sua infância, adolescência, juventude, seu casamento e vida de casada e até sua viuvez. Desconhecemos tudo. Mas uma coisa nos diz hoje a igreja: do primeiro ao último instante Maria outra coisa não fez a não ser agradar imensamente a Deus, seu Criador. Ao celebrarmos a Imaculada Conceição, a Solenidade da pureza de coração, da Virgem Maria, nós hoje, olhamos para aquela que deseja ser nosso modelo e nossa advogada. Sim, porque como ela, nós também, embora manchados pelo pecado, mas, porém lavados e purificados, gostaríamos de viver o resto da nossa existência, numa vida de agrado a Deus. Vida de busca incessante de Sua face, numa vida de ausência do pecado que Lhe ofende a vista. Nós fomos pecadores e podemos ser atualmente pecadores, mas não é esta uma necessidade ontológica do nosso ser; não necessitamos ser pecadores até o final de nossas existências. O sangue de Jesus nos diz o evangelista João, purifica-nos de todo pecado, e uma vida nova nos é proposta. Deus simplesmente fez com que se dissolvessem no Sangue do Cristo os nossos pecados. Doravante nos é restituída a inocência, e nós podemos caminhar e progredir na santidade.  Podemos nos tornar impecáveis. Sim, a Sagrada Escritura fala de cristãos que, com o tempo, tornaram-se praticamente impecáveis. De qualquer modo a impecabilidade é uma graça que já se pode obter ao menos parcialmente neste mundo. Eis o nosso sonho, neste advento: deixar de lado, abandonar definitivamente o pecado, e já viver na terra como os bem-aventurados de Céu.

 

O anjo Gabriel foi enviado não ao santuário de Jerusalém ou Ain-Karem, situados nos impressionantes montes da Judéia, onde nasceu João Batista, mas à simples cidade de Nazaré. Aí ele fala à Virgem Maria, comprometida com José, o que é destacado por Santo Ambrósio (397), ao dizer que “a Escritura tem razão de especificar estas duas coisas: que Maria era comprometida e virgem: Virgem, para que se saiba que não teve relações com um homem; comprometida, a fim de que ela não fosse censurada por ter perdido a sua virgindade… O Senhor preferiu que se duvidasse de seu nascimento, antes que da honra de sua Mãe (…). Ela é o tipo da Igreja, que é imaculada, e, no entanto esposa”. O anjo Gabriel foi enviado por Deus, mostrando pela forma do verbo: foi enviado que a iniciativa vem do mais alto, do Deus altíssimo. Por Ele foi enviado para anunciar a concepção virginal daquele que ama se dizer “enviado do Pai”. O anjo a saúda: Ave, fórmula corrente de saudação, que em seu sentido original expressa um desejo de alegria. E acrescenta: “cheia de graça”, por benevolência divina, pois o sujeito desta ação é Deus e a sua ternura suprema para com a humilde Virgem.  É a eficácia do amor de Deus, do poder transformante do olhar divino, do seu gesto criador. Daí reconhecermos na saudação a verdade: “Tu que eras e permaneces objeto da graça de Deus”.   Maria, concebida sem pecado, a Imaculada Conceição é glorificada junto a seu Filho, Rei e Senhor de todo o Universo. “Convinha que a Mãe virgem, escreve São Amadeus de Lausana (1159), pela honra devida a seu Filho, reinasse primeira na terra e, assim, penetrasse logo gloriosa no céu; convinha que fosse engrandecida aqui, para penetrar logo, cheia de santidade, nas mansões celestiais, indo de virtude em virtude e de glória em glória por obra do Espírito Santo”. Ela é a cheia de graça, em quem não há pecado, toda acolhida do dom de Deus. “Senhor, deixai vossa luz brilhar em meu coração para que eu conheça a alegria e a liberdade de vosso Reino. Enchei-me com vosso Santo Espírito e fortalecei-me para testemunhar a verdade de vosso Evangelho de Jesus Cristo”.

 

Não raro somos ao mesmo tempo “sim” e “não”. Somos “não” quando deixamos o mal dominar nossa existência e somos “sim” quando nos transformamos em instrumentos do bem e do amor! Que possamos sempre repetir com Maria: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Meditar e viver este compromisso nos ajudaria a crescer em muito na fidelidade a Palavra de Deus e aos valores do Evangelho. Mesmo que nos custe sacrifícios devemos nos esforçar em viver este compromisso de entrega total a Vontade de Deus. É claro que para saber qual é concretamente a vontade divina precisamos de muito discernimento, e para isto nos ajudará a oração, a meditação e o conselho do irmão mais experiente no caminho do Senhor. Que a Imaculada no ajude a dar nosso “sim” nos momentos mais desafiantes da vida. Quando sentimos desânimo, ou somos oprimidos pela doença, injustiça e perseguição, nos momentos de desencanto, nas horas de incerteza. Na dor da traição ou do abandono dos amigos! Que nossa mãe nos ajude nestas difíceis situações da existência a reafirmarmos na fé, que vale mais seguir a Palavra de Deus. E nos livre da tentação de responder o mal com o mal! Que a Imaculada nos auxilie a cada dia no esforço de sermos uma verdadeira imagem e semelhança de Deus! Homens e mulheres novos, amigos de Deus, fraternos entre nós e construtores de um mundo melhor. Que a Imaculada nos ajude a viver na graça divina, a buscarmos sempre o bem, ela que é a plena da graça, e nos acompanhe na nossa luta contra o pecado em todas as suas formas. Repitamos, pois com Maria muitíssimas vezes: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. E revalorizemos a importância da atitude de serviço. Ela foi Serva de Deus e dos irmãos, e nós também devemos ser. Aliás, o próprio Jesus disse que veio para servir e dar sua vida, e nos convidou a seguir o seu exemplo. Que nesta semana nos esforcemos por ser o que Deus deseja de nós, buscando sinceramente em nossa vida uma maior comunhão com Ele, abrindo-nos cada vez mais solidariamente aos irmãos e fugindo do pecado que desfigura em nós a imagem de Deus, e que causa tantos transtornos a nossa vivência comunitária. Seria bom que pudéssemos manifestar alguma atitude concreta de serviço aos irmãos”.

Ó Maria Concebida sem Pecado, rogai por nós que recorremos a vós!

 

IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA
São João Paulo II
Alocução de 27.11.1983
“Rejubila, cheia de graça!”

A alegria é uma componente fundamental do tempo sagrado que começa. O Advento é um tempo de vigilância, de oração, de conversão, para além de uma espera fervorosa e alegre. O motivo é claro: «O Senhor está próximo» (Fl 4, 5).
A primeira palavra dirigida a Maria no Novo Testamento é um convite jubiloso: «Exulta, rejubila!» (Lc 1,28 grego). Tal saudação está ligada à vinda do Salvador. Maria é a primeira a quem é anunciada uma alegria que, em seguida, será proclamada a todo o povo; Maria participa nela de uma forma e numa medida extraordinária. Em Maria, a alegria do antigo Israel concentra-se e encontra a sua plenitude; nela, a felicidade dos tempos messiânicos manifesta-se irrevogavelmente. A alegria da Virgem Maria é, de modo particular, a do «pequeno resto» de Israel (Is 10, 20 sg), dos pobres que esperam a salvação de Deus e que experimentam a sua fidelidade.
Para participarmos também nesta festa, é necessário esperarmos com humildade e acolhermos o Salvador com confiança. «Todos os fiéis que, pela liturgia, vivem o espírito do Advento, considerando o amor inefável com que a Virgem Maria esperava o Filho, serão levados a tomá-la como modelo e a preparar-se para ir ao encontro do Senhor que vem, ‘vigilantes na oração e cheios de alegria’» (Paulo VI, Marialis cultus,4; Missal Romano).

 

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO –  Ano A
Pe. Antonio Luiz Heggendorn, CP.

No primeiro domingo do advento fomos convidados a reviver a experiência do Povo de Israel em sua longa espera pela vinda do Messias. A palavra de ordem era, vigilância! Assim, procurando crescer numa esperança verdadeiramente ativa, e estando atentos as vindas constantes do Senhor, trabalhar pelo progresso do Reino de Deus. No segundo domingo do advento éramos convidados à conversão de nossa mente e de nossas atitudes. Hoje, ainda neste tempo de espera e preparação ao Natal, celebramos a festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.  Trata-se de olhar para o papel único e insubstituível de Maria na História da salvação. Ela que nasceu sem a mancha do pecado original e que colaborou plenamente com o projeto de Deus. As leituras de hoje nos ajudam a entender o significado do que estamos a comemorar. A primeira leitura (Gn 3, 9-15.20) está situada logo após o pecado da origem. O livro do Gênesis não é um livro de ciência, mas da revelação de Deus e sua mensagem é, portanto religiosa. Logo na primeira narrativa da criação encontramos a igualdade fundamental entre o homem e a mulher quando se diz que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança (Gn 1, 27). Na segunda narrativa da criação é destacada a complementaridade entre o homem e a mulher, existem diferenças, mas não para dividir se não para unir (Gn 2, 21 ss). Assim o homem foi criado em comunhão com Deus, em abertura aos demais e como senhor das coisas materiais. Este era o projeto divino. Portanto o ser humano foi criado “imaculado”, isto é sem pecado! Mas o homem preferiu declarar independência diante de Deus, na sua arrogância quis ser igual a Deus. Numa palavra não aceitou a soberania divina e quis ser ele mesmo o senhor de sua vida. Desobedecendo a Deus, acabou rompendo a amizade com Ele. Poeticamente diz o texto que Deus passeava com o homem no Éden, e mesmo depois da ruptura realizada pelo pecado voltou a procurar o homem. Mas agora Adão estava escondido e com medo. Aqui já percebemos algo bem claro, quando pecamos não é Deus que se afasta de nós, mas somos nós que nos escondemos de Deus! E o medo diante de Deus nunca é bom sinal, pois não podemos ter medo de um amigo e muito menos daquele que nos ama como o melhor dos pais. Ao ser interrogado sobre seu ato Adão empurra a culpa para Eva, e de modo indireto para Deus: “A mulher que tu me deste” (Gn 3, 12), pois seria como se quisesse dizer: a culpa foi de Deus por ter lhe dado Eva. Ainda hoje esta atitude de Adão repete se em todos aqueles que colocam em Deus a culpa pelos males que existem no mundo. Quantos culpam Deus pelo nascimento de uma criança defeituosa, pelas doenças, pela violência, etc. Por sua vez a mulher empurra a culpa para a serpente! Isto nos leva a perceber que o pecado não é só uma ruptura com Deus, mas atinge também o relacionamento com os irmãos. O não assumir a responsabilidade do próprio erro, o jogar nos outros a culpa dos próprios defeitos leva freqüentemente a divisões, ódios e agressões. O ser humano ficaria para sempre neste estado de inimizade com Deus e de divisão com os demais? Aí nosso texto apresenta a grande promessa, a boa notícia o que se chama de “Proto-Evangelho” – Deus providenciará a salvação! (Gn 3, 15) A descendência da mulher, isto é seu Filho, vencerá o mal e esmagará a serpente! Como vemos Deus promete que como por um homem e uma mulher, Adão e Eva, entrou no mundo o pecado, no futuro por um novo homem e uma nova mulher (Jesus e Maria) virá a vitória definitiva do bem e a restauração de seu projeto original. Na segunda leitura (Ef 1, 3-6.11-12) o Apóstolo aponta que fomos criados para participar da família de Deus. Diz que somos escolhidos desde a fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis. Assim devemos nos alegrar porque desde antes da criação do mundo Deus já havia pensado em nós. E o ser humano não é destinado a ruína, mas a vida plena! No fundo Paulo agradece ao Pai, pois por Jesus tivemos a possibilidade de sermos filhos de Deus. A redenção realizada pelo Senhor foi a vitória sobre o mal e a restauração do plano divino sobre o homem.  O ser humano agora pode viver como “imagem e semelhança de Deus” e mais ainda, pode ser seu filho e deve relacionar-se com os demais como irmãos. Bendito seja Deus por esta maravilha proclama Paulo neste texto. É verdade que ainda vemos em nosso mundo muita maldade, fatos tristes e até trágicos, mas somos chamados a “bendizer a Deus” a todo o momento, pois cremos que mesmo do mal produzido pelo homem, e não querido pela vontade de Deus, o Senhor é capaz de tirar um bem!  Mais uma vez somos convidados, a crescer na virtude da esperança colocando nossa confiança nas mãos amorosas de Deus nosso Pai. O Evangelho (Lc 1, 26- 38) de hoje é um texto muito conhecido por todos nós e nos apresenta o convite do Senhor a Virgem Maria. O relato segue um esquema parecido com os anúncios do Velho Testamento do nascimento de grandes líderes que nasceram de mães velhas, ou de pais que não tinham mais fertilidade. Mas existe agora uma enorme diferença, não é uma casada estéril que dá a luz, como a mãe de João Batista, mas uma Virgem. Isto é algo totalmente novo na Escritura Sagrada e não encontramos nada semelhante!   Os caminhos de Deus são mesmo diferentes dos nossos notemos alguns detalhes: O anjo é enviado a Nazaré na Galiléia, um lugar que era mal visto pelos judeus. Naquela época os galileus eram considerados ignorantes e impuros, pois estavam numa proximidade maior com os pagãos. Pode vir algo bom de Nazaré, perguntavam (Jo 1, 46). Ainda hoje encontramos estes preconceitos regionais e muito fortes por vezes. Não é o que acontece quando alguns falam de nosso bom povo nordestino? Quem é chamado? Um homem forte e valente? Não, uma virgem. Naquela época tinha mais valor a mulher casada e mãe de muitos filhos. Era uma vergonha a mulher que não conseguisse casar, e era desprezava a casada estéril.  Na Escritura Jerusalém é chamada de Virgem justamente nos momentos mais terríveis de sua história, quando estava derrotada, destruída ou sem esperança (Jr 31, 4). Pois bem é nesta lógica diferente que Deus inicia o cumprimento daquela promessa feita após a queda original, que meditávamos na primeira leitura de hoje. Ele através do anjo vai convidar Maria para uma missão especialíssima, ser a mãe do Redentor. Ela não é para Deus apenas um instrumento para que o Verbo possa encarnar-se, ela não é como uma mãe de aluguel, mas é uma eleita de Deus! Por isto o anjo a saúda como “cheia de graça”. A Virgem de Nazaré é convocada a uma colaboração consciente e ativa na obra da salvação. É certo que quem traz a salvação é Jesus, mas também é certo que quem nos dá Jesus é Maria! A mensagem central deste texto é sem dúvida a apresentação de Jesus como Filho do Pai, como aquele prometido que veio para nos salvar. Ele reinará para sempre e terá o trono de Davi! Podemos perceber a diferente lógica de Deus, pois naquela época a família de Davi não era nem grande, nem poderosa, mas totalmente decadente! Maria dialoga com o anjo procurando discernir as coisas, pois sabe muito bem que não pode dar a luz um filho se nunca teve relações com algum homem, como aponta a expressão “não conheço homem algum” (Lc 1, 34). O anjo explica a Maria que tudo ocorrerá pelo poder divino. A “sombra” de que fala o texto recorda-nos a “nuvem” que acompanhava o povo de Israel no deserto, e que posteriormente estava sobre a Arca da Aliança. Esta nuvem indica a presença de Deus. Assim Maria é a Nova Arca da Aliança, a antiga continha as tábuas da Lei, a nova traz em si o próprio Filho de Deus. Termina nosso texto apontando que para Deus tudo é possível, é esta sem dúvida para nós mais uma Boa Notícia! Pois mesmo apesar da nudez de nosso ser criatural, de nossas fraquezas e pecados, Deus pode fazer maravilhas se nos abrirmos ao seu amor. Maria então aceita o chamado e se colocada a disposição como a serva do Senhor!  Ofereceu sua pobreza a Deus e sua virgindade tornou-se fecunda.  Na vida de Maria tudo decorre da escolha divina para que ela fosse a mãe do salvador. Esta vocação é só dela e de ninguém mais. Assim o que celebramos hoje é uma conseqüência lógica da chamada “Maternidade Divina”. Ela foi concebida sem o pecado original, é a plena de graça desde o seu nascimento em vista dos méritos da Redenção de Jesus. Ela nasce Imaculada, sem a mancha do pecado da mesma forma que Adão e Eva foram criados imaculados. Mas existe uma enorme diferença: enquanto nossos primeiros pais pecaram e perderam a inocência, Maria não pecou e sempre foi em sua vida um pleno “sim” aos apelos e a vontade de Deus. O “SIM” dado por Maria na anunciação repetiu-se muitas vezes, e consumou-se aos pés da Cruz na entrega de seu Filho pela salvação da humanidade. Maria é desde a sua concepção o que Deus queria que todos os seres humanos fossem: “santos e irrepreensíveis”. Numa palavra, Maria não é deusa, mas a perfeita “imagem e semelhança de Deus”. Pois bem ao contemplarmos Maria, na festa de hoje, primeiramente busquemos em nossa vida viver como ela viveu. Oferecer nossa pobreza a Deus para que dela brote uma grande riqueza. Precisamos ser capazes de assumir nossos compromissos, e responder aos convites que o Senhor nos faz, como verdadeiros servos Dele como nossa mãe o foi. E que possamos dizer sempre “sim” à vontade de Deus em nossa vida. Não raro somos ao mesmo tempo “sim” e “não”. Somos “não” quando deixamos o mal dominar nossa existência e somos “sim” quando nos transformamos em instrumentos do bem e do amor! Que possamos sempre repetir com Maria: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Meditar e viver este compromisso nos ajudaria a crescer em muito na fidelidade a Palavra de Deus e aos valores do Evangelho. Mesmo que nos custe sacrifícios devemos nos esforçar em viver este compromisso de entrega total a Vontade de Deus. É claro que para saber qual é concretamente a vontade divina precisamos de muito discernimento, e para isto nos ajudará a oração, a meditação e o conselho do irmão mais experiente no caminho do Senhor. Que a Imaculada no ajude a dar nosso “sim” nos momentos mais desafiantes da vida. Quando sentimos desânimo, ou somos oprimidos pela doença, injustiça e perseguição, nos momentos de desencanto, nas horas de incerteza. Na dor da traição ou do abandono dos amigos! Que nossa mãe nos ajude nestas difíceis situações da existência a reafirmarmos na fé, que vale mais seguir a Palavra de Deus. E nos livre da tentação de responder o mal com o mal! Que a Imaculada nos auxilie a cada dia no esforço de sermos uma verdadeira imagem e semelhança de Deus! Homens e mulheres novos, amigos de Deus, fraternos entre nós e construtores de um mundo melhor. Que a Imaculada nos ajude a viver na graça divina, a buscarmos sempre o bem, ela que é a plena da graça, e nos acompanhe na nossa luta contra o pecado em todas as suas formas. Que nesta semana nos esforcemos por ser o que Deus deseja de nós, buscando sinceramente em nossa vida uma maior comunhão com Ele, abrindo-nos cada vez mais solidariamente aos irmãos e fugindo do pecado que desfigura em nós a imagem de Deus, e que causa tantos transtornos a nossa vivência comunitária. Repitamos, pois com Maria muitíssimas vezes: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. E revalorizemos a importância da atitude de serviço. Ela foi Serva de Deus e dos irmãos, e nós também devemos ser. Aliás, o próprio Jesus disse que veio para servir e dar sua vida, e nos convidou a seguir o seu exemplo. Seria bom que nesta semana pudéssemos manifestar alguma atitude concreta de serviço aos irmãos. Não nos esqueçamos de que “quem não vive para servir não serve para viver”.

Pregações de Advento

São Francisco de Assis “nunca pensou ser chamado para reformar a Igreja”, disse o pregador da casa Pontifícia
Na primeira pregação do Advento, Pe. Raniero Cantalamessa explicou de que forma o patrono da Itália contribuiu para a reforma da Igreja
Por Thácio Lincon Soares de Siqueira

“O propósito destas três meditações do Advento é preparar-nos para o Natal na companhia de Francisco de Assis”, disse Pe. Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, na sua primeira pregação de Advento dirigida ao Santo Padre e aos prelados da Cúria na manhã desta sexta-feira. Seguindo o Poverello de Assis Pe. Raniero se aventurou em compreender qual o caminho de santidade de São Francisco, caminho este que foi causa de reforma para a Igreja, e, portanto, saber como nós, hoje, poderíamos fazer o mesmo. Em primeiro lugar o pregador da casa pontifícia destacou que a conversão de Giovanni de Pietro de Bernardone não foi propriamente uma obra pessoal, uma obra fruto do esforço pessoal, mas de Deus. “Francisco não escolheu a pobreza e muito menos o pauperismo; escolheu os pobres!” Porém, a escolha verdadeira não se tratou de “escolher entre riqueza e pobreza, nem entre ricos e pobres”, mas “de escolher entre si mesmo e Deus”. Em definitiva, Francisco não “apaixona-se por uma virtude, nem mesmo pela pobreza; apaixona-se por uma pessoa”, Cristo. E no fundo no fundo, não foi ele que o procurou, mas foi o próprio Cristo que “tinha preparado o seu coração para que a sua liberdade, no momento certo, respondesse à graça”. Na época do santo de Assis – destaca Pe. Raniero – “Todos brandiam contra a Igreja o ideal da pobreza e simplicidade evangélica fazendo disso uma arma polêmica, mais do que um ideal espiritual a ser vivido com humildade, chegando a questionar também o ministério da Igreja, o sacerdócio e o papado”. Francisco, porém, nunca teve a intenção de reformar a Igreja, disse Pe. Raniero. “Ele nunca pensou ser chamado para reformar a Igreja”. E relembrando as famosas palavras do crucifixo da Igreja de São Damião “vai, Francisco, e repara a minha Igreja”, o pregador da casa pontifícia exortou a não tirar conclusões erradas e precipitadas de tais palavras. Porque Francisco mesmo “compreendeu aquelas palavras no sentido bastante modesto de ter que reparar materialmente a igrejinha de São Damião”. Portanto, perguntou-se Pe. Raniero, “Se não quis ser um reformador, o que foi que quis ser e fazer Francisco?”. E respondeu dizendo: “Ele realizou em si a reforma e assim indicou tacitamente à Igreja o único caminho para sair da crise: reaproximar-se do evangelho, reaproximar-se dos homens e especialmente dos humildes e dos pobres.” “Francisco não exortava a fazer “penitências”, mas fazer “penitência” (no singular”!) que, veremos, é totalmente outra coisa.” Portanto, reaproximar a Igreja do povo, sem necessariamente distanciar-se da cultura. “Francisco fez no seu tempo aquilo que no tempo do Concílio Vaticano II tentou-se fazer com o lema: “quebrar as muralhas”: quebrar o isolamento da Igreja, trazê-la de novo para o contato com o povo.” Também “Escolhe ser um iletrado mas não condena a ciência.” A verdadeira reforma da Igreja, destacou o Pe. Raniero citando Yves Congar, é a “que permanece tal e não se transforma em cisma: isto é, a capacidade de não absolutizar a própria intuição, mas permanecer solidário com o todo que é a Igreja”. Imitar Francisco hoje, trazer a sua experiência para nossa época, implica começar como o próprio santo começou, convertendo-se, negando-se, porém não esquecendo-se que “a coisa mais importante é aquela positiva: Se queres seguir-me;” Ou seja, “É o seguir Cristo, possuir Cristo. Dizer não a si mesmo é o meio; dizer sim a Cristo é o fim”. O pregador da casa pontifícia terminou a sua primeira meditação de advento reconhecendo que tudo isso é “Uma meta difícil (eu não falo certamente como quem já a alcançou!), mas a história de Francisco, nos mostra o que pode nascer de uma negação de si feita em resposta à graça.”

 

Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap.
Primeira pregação de Advento
FRANCISCO DE ASSIS E A REFORMA DA IGREJA POR MEIO DA SANTIDADE

O propósito destas três meditações do Advento é preparar-nos para o Natal na companhia de Francisco de Assis. Dele, nesta primeira meditação, gostaria de destacar a natureza do seu retorno ao Evangelho. O teólogo Yves Congar, em seu estudo sobre “Verdadeira e falsa reforma na Igreja” vê em Francisco o exemplo mais claro de reforma da Igreja pelo caminho da santidade[1]. Gostaríamos de procurar compreender em que consistiu a sua reforma pelo caminho da santidade e o que o seu exemplo implica para cada época da Igreja, inclusive a nossa.

1. A conversão de Francisco
Para entender um pouco da aventura de Francisco é preciso partir da sua conversão. Desse evento existem, nas fontes, diferentes descrições com notáveis diferenças entre si. Felizmente temos uma fonte absolutamente confiável que nos dispensa de escolher entre as várias versões. Temos o mesmo testemunho de Francisco no seu Testamento, a sua ipsissima vox, como se diz das palavras certamente ditas por Cristo no Evangelho. Diz: «O Senhor concedeu a mim, irmão Francisco, que começasse a fazer penitência assim: quando eu estava nos pecados parecia-me muito amargo ver os leprosos: e o próprio Senhor conduziu-me entre eles e fui misericordioso para com eles. E ao afastar-me deles, o que me parecia amargo foi-me trocado por doçura de alma e corpo. E, depois, demorei só um pouco e saí do mundo” » (FF 110). É sobre esse texto que justamente se baseiam os historiadores, mas com um limite intransponível para eles. Os historiadores, mesmo os mais bem intencionados e mais respeitosos com as peculiaridades da vida de Francisco, como era, entre os italianos Raoul Manselli, não conseguem entender o porquê último da sua mudança radical. Detêm-se – e com razão, por causa do seu método – na porta, falando de um “segredo de Francisco”, destinado a permanecer assim para sempre. O que se consegue constatar historicamente é a decisão de Francisco de mudar o seu status social. De pertença à classe superior, que contava na cidade por nobreza e riqueza, ele escolheu colocar-se no extremo oposto, compartilhando a vida dos últimos, daqueles que não eram nada, os assim chamados “menores”, atingidos por todos os tipos de pobreza. Os historiadores justamente insistem no fato de que Francisco não escolheu a pobreza e muito menos o pauperismo; escolheu os pobres! A mudança é motivada mais pelo mandamento; “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, que pelo conselho: “Se queres ser perfeito, vai’, vende tudo o que tens e dá aos pobres, depois vem e segue-me”. Era a compaixão pela pobre gente, mais do que a busca da própria perfeição que o movia, a caridade mais do que a pobreza. Tudo isso é verdade , mas ainda assim não toca o fundo do problema. É o efeito da mudança, não a sua causa. A escolha verdadeira é muito mais radical: não se tratou de escolher entre riqueza e pobreza, nem entre ricos e pobres, entre a pertença a uma classe mais do que a outra, mas de escolher entre si mesmo e Deus, entre salvar a própria vida ou perdê-la pelo Evangelho. Houve alguns (por exemplo, em tempos mais recentes, Simone Weil ), que chegaram a Cristo por meio do amor aos pobres e houve outros que chegaram aos pobres partindo do amor por Cristo. Francisco pertence a este segundo grupo. A razão profunda da sua conversão não é de natureza social, mas evangélica. Jesus tinha formulado a lei uma vez por todas com uma das frases mais solenes e mais certamente autênticas do Evangelho: “Se alguém quer vir após mim , negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá , mas quem perder a sua vida por minha causa a encontrará ” (Mt 16 , 24-25) . Francisco, beijando o leproso, negou-se a si mesmo naquilo que era mais “amargo” e repugnante à sua natureza. Fez violência a si mesmo. O detalhe não escapou ao seu primeiro biógrafo que descreve assim o episódio: “Um dia um leproso parou diante dele: fez violência a si mesmo, aproximou-se dele e o beijou. A partir daquele momento decidiu desprezar-se sempre mais, até que pela misericórdia do Redentor obteve plena vitória”[2]. Francisco não foi voluntariamente aos leprosos, motivado por humana e religiosa compaixão. “O Senhor, escreve, levou-me no meio deles”. É nesse pequeno detalhe que os historiadores não sabem – nem poderiam – dar um juízo, e de fato é a origem de tudo. Jesus tinha preparado o seu coração para que a sua liberdade, no momento certo, respondesse à graça. O sonho de Spoleto tinha servido para isso e a pergunta de se preferia servir o servo ou o patrão, a doença, a prisão em Perugia e aquele mal-estar estranho que não lhe permitia mais encontrar alegria nas diversões e lhe fazia procurar lugares solitários. Embora sem pensar que se tratasse de Jesus em pessoa sob as aparências de um leproso (como mais tarde tentou-se fazer, pensando no caso análogo da vida de São Martinho de Tours[3]), naquele momento o leproso para Francisco representava em todos os aspectos Jesus. Não tinha ele dito: “O fizestes comigo”? Naquele momento escolheu entre si mesmo e Jesus. A conversão de Francisco é da mesma natureza daquela de Paulo. Para Paulo, em um certo momento, aquilo que antes tinha sido “lucro” mudou e tornou-se “perda”, “por amor de Cristo” (Fil 3, 5ss); para Francisco aquilo que tinha sido amargo converteu-se em doçura, também aqui “por Cristo”. Depois deste momento, ambos podem dizer: “Já não sou eu que vivo, mas Cristo vive em mim”. Tudo isso nos obriga a corrigir uma certa imagem de Francisco popularizada pela literatura posterior e aceita por Dante na Divina Comedia. A famosa metáfora das núpcias de Francisco com a Senhora Pobreza que deixou marcas profundas na arte e na poesia franciscanas pode ser enganosa. Não apaixona-se por uma virtude, nem mesmo pela pobreza; apaixona-se por uma pessoa. As núpcias de Francisco foram, como aquelas de outros místicos, um casamento com Cristo. Aos companheiros que lhe perguntavam se ele pretendia ter uma mulher, vendo-o uma noite estranhamente ausente e brilhante, o jovem Francisco respondeu : “Terei a esposa mais nobre e bela que vocês jamais viram”. Esta resposta é muitas vezes mal interpretada. Do contexto aparece claro que a esposa não é a pobreza, mas o tesouro escondido e a pérola preciosa, ou seja, Cristo. “Esposa, comenta Celano que narra o episódio, é a verdadeira religião que ele abraçou; e o reino dos céus é o tesouro escondido que ele procurou”[4]. Francisco não se casou com a pobreza, nem sequer com os pobres; casou-se com Cristo e foi por amor a ele que se casou, por assim dizer “em segundas núpcias” com a Senhora pobreza. Assim será sempre na santidade cristã. Na base do amor pela pobreza e pelos pobres, ou está o amor por Cristo, ou os pobres serão, de um modo ou de outro, instrumentalizados e a pobreza se tornará facilmente um fato polêmico contra a Igreja, ou uma ostentação de maior perfeição com relação a outros na Igreja, como aconteceu, infelizmente, também em alguns dos seguidores do Poverello. Em ambos os casos, faz-se da pobreza a pior forma de riqueza, aquela da própria justiça.

2. Francisco e a reforma da Igreja
Como foi que aconteceu que a partir de um evento tão íntimo e pessoal, como foi a conversão do jovem Francisco, tenha começado um movimento que mudou ao mesmo tempo o rosto da Igreja e teve tanta influência na história, até os nossos dias? É preciso dar uma olhada na situação da época. Na época de Francisco a reforma da Igreja era uma necessidade sentida mais ou menos conscientemente por todos. O corpo da Igreja vivia tensões e lacerações profundas. De um lado estava a Igreja institucional – papa, bispos, alto clero – desgastados pelos seus perenes conflitos e pelas suas alianças muito próximas com o império. Uma Igreja sentida muito distante, envolvida em assuntos muito acima dos interesses do povo. Em seguida, estavam as grandes ordens religiosas, muitas vezes prósperas pela cultura e espiritualidade após as várias reformas do século XI, entre as quais aquela Cisterciense, mas fatalmente identificadas com os grandes proprietários de terras, senhores feudais da época, vizinhos e ao mesmo tempo remotos também eles, por problemas e padrões de vida, do povo comum. No lado oposto havia uma sociedade que começava a emigrar dos campos para as cidades em busca de maior liberdade das várias servidões. Esta parte da sociedade identificava a Igreja com as classes dominantes das quais se sentia a necessidade de libertar-se. Assim, se alinhavam de boa vontade com aqueles que a contradiziam e a combatiam: hereges, grupos radicais e pauperísticos, enquanto simpatizava com o baixo clero, muitas vezes não com a altura espiritual dos prelados, porém mais perto das pessoas. Havia, portanto, fortes tensões que cada um procurava explorar em proveito próprio. A Hierarquia procurava responder a estas tensões melhorando a própria organização e reprimindo os abusos, tanto internamente (luta contra a simonia e concubinato dos padres) quanto externamente na sociedade. Os grupos hostis procuravam, pelo contrário, explodir as tensões, radicalizando o contraste com a Hierarquia dando origem a movimentos mais ou menos cismáticos. Todos brandiam contra a Igreja o ideal da pobreza e simplicidade evangélica fazendo disso uma arma polêmica, mais do que um ideal espiritual a ser vivido com humildade, chegando a questionar também o ministério da Igreja, o sacerdócio e o papado. Estamos acostumados a ver Francisco como o homem providencial que capta essas demandas populares de renovação, as purifica de toda carga polêmica e as traz de volta ou as atua na Igreja em profunda comunhão e submissão a essa. Francisco, portanto, como uma espécie de mediador entre os hereges rebeldes e a Igreja institucional. Em um conhecido manual de história da Igreja é apresentada dessa forma a sua missão: “Já que a riqueza e o poder da Igreja apareciam muitas vezes como uma fonte de graves males e os hereges do tempo a utilizavam como argumento para as principais acusações contra ela, em algumas almas piedosas surgiu o nobre desejo de restaurar a vida pobre de Jesus e da Igreja primitiva, para poder assim mais eficazmente, influenciar no povo com a palavra e o exemplo”[5]. Entre estas almas coloca-se naturalmente em primeiro lugar, juntamente com São Domingos, Francisco de Assis. O historiador protestante Paul Sabatier, embora tão benemérito dos estudos franciscanos, tornou quase canônica entre os historiadores, e não só entre aqueles leigos e protestantes, a tese segundo a qual o cardeal Ugolino (o futuro Papa Gregório IX) teria tido a intenção de captar Francisco para a Cúria, domesticando a carga crítica e revolucionária do seu movimento. Na prática é a tentativa de fazer de Francisco, um precursor de Lutero, ou seja, um reformador pela via de críticas, mais do que da santidade. Não sei se esta intenção possa ser atribuída a algum dos grandes protetores e amigos de Francisco. Parece difícil atribuí-la ao card. Ugolino e menos ainda a Inocêncio III, conhecido pela ação reformadora e o apoio dado às várias formas novas de vida espiritual surgidas em seu tempo, incluído os Frades Menores, os dominicanos, os Humilhados Milaneses. Uma coisa, porém, é absolutamente certa: aquela intenção nunca passou pela mente de Francisco. Ele nunca pensou ser chamado para reformar a Igreja. É preciso ter cuidado para não tirar conclusões erradas das famosas palavras do Crucifixo de São Damião “Vai’, Francisco e repara a minha Igreja que, como vês, está em ruínas”. As fontes mesmas nos asseguram que ele compreendeu aquelas palavras no sentido bastante modesto de ter que reparar materialmente a igrejinha de São Damião. Foram os discípulos e os biógrafos que interpretaram – e, é preciso dizer, não sem razão – aquelas palavras como se referindo à Igreja instituição e não só à Igreja edifício. Ele permaneceu sempre na sua interpretação literal e de fato continuou a reparar outras igrejinhas nos arredores de Assis que estavam em ruínas. Também o sonho em que Inocêncio III teria visto o Poverello sustentar com as suas costas a Igreja de Latrão desmoronando não diz nada de mais. Supondo que o fato seja histórico (um fato análogo também é narrado sobre São Domingos), o sonho foi do papa, não de Francisco! Ele nunca foi visto como o vemos hoje no afresco de Giotto. Isto significa ser reformador pelo caminho da santidade: sê-lo, sem sabê-lo!

3. Francisco e o retorno ao Evangelho
Se não quis ser um reformador, o que foi que quis ser e fazer Francisco? Também aqui temos a sorte de ter o testemunho direto do Santo no seu Testamento: “E depois que o Senhor me deu irmãos , ninguém me mostrou o que eu deveria fazer; mas o mesmo Altíssimo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do santo Evangelho. E eu com poucas palavras e simplesmente o fiz escrever, e o senhor Papa mo confirmou”. Fala do momento no qual, durante uma Missa, escutou a passagem do evangelho onde Jesus envia os seus discípulos dizendo: “Enviou-os a pregar o reino de Deus e a curar os enfermos. E disse-lhes: «Nada leveis para o caminho, nem bastão, nem alforje, nem pão, nem dinheiro; tampouco tenhais duas túnicas” (Lc 9, 2-3)[6]. Foi uma revelação impressionante daquelas que orientam toda uma vida. Daquele dia em diante foi clara a sua missão: um retorno simples e radical ao evangelho real, aquele vivido e pregado por Jesus. Restaurar no mundo a forma e o estilo de vida de Jesus e dos apóstolos descrito nos evangelhos. Escrevendo a Regra para os seus frades começará assim: “A regra e a vida dos Frades Menores é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”. Francisco não teorizou esta sua descoberta, tornando-a o programa para a reforma da Igreja. Ele realizou em si a reforma e assim indicou tacitamente à Igreja o único caminho para sair da crise: reaproximar-se do evangelho, reaproximar-se dos homens e especialmente dos humildes e dos pobres. Este retorno ao Evangelho reflete-se em primeiro lugar na pregação de Francisco. É surpreendente, mas todos notaram: o Poverello fala quase sempre de “fazer penitência”. A partir de então, diz o Celano, com grande fervor e exultação, ele começou a pregar a penitência, edificando todos com a simplicidade de suas palavras e a generosidade de seu coração. Onde quer que fosse, Francisco dizia, recomendava, suplicava que fizessem penitência[7]. O que é que Francisco compreendia com esta palavra que ele trazia tanto no coração? Neste sentido caímos (pelo menos eu caí por muito tempo) em erro. Reduzimos a mensagem de Francisco a uma simples exortação moral, a um bater-se no peito, angustiar-se e mortificar-se para expiar os pecados, enquanto que tem toda a vastidão e o ar do evangelho de Cristo. Francisco não exortava a fazer “penitências”, mas fazer “penitência” (no singular”!) que, veremos, é totalmente outra coisa. O Poverello, exceto nos poucos casos que conhecemos, escrevia em latim. E o que encontramos no texto latino, do Testamento, quando escreve: “O Senhor deu a mim, frade Francisco, começar a fazer penitência assim”? Encontramos a expressão “poenitentiam agere”. Sabe-se que ele amava expressar-se com as mesmas palavras de Jesus. E esta palavra – fazer penitência – é a palavra com a qual Jesus começou a pregar e que repetia em cada cidade e aldeia onde ia: “Depois que João foi preso, veio Jesus para a Galiléia proclamando o Evangelho de Deus: cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15). A palavra que hoje se traduz com “convertei-vos” ou “arrependei-vos”, no texto da Vulgata usado pelo Poverello, soava “poenitemini” e em Atos 2, 37 ainda mais literalmente “poenitentiam agite”, fazei penitência. Francisco nada fez além de relançar o grande apelo à conversão com o qual se abre a pregação de Jesus no Evangelho e aquela dos apóstolos no dia de Pentecostes. O que ele quis dizer com a palavra “conversão” não precisa explicá-lo: sua vida, ele mostrou. Francisco fez no seu tempo aquilo que no tempo do Concílio Vaticano II tentou-se fazer com o lema: “quebrar as muralhas”: quebrar o isolamento da Igreja, trazê-la de novo para o contato com o povo. Um dos fatores de escuridão do evangelho era a transformação da autoridade compreendida como serviço, em autoridade compreendida como poder que tinha produzido infinitos conflitos dentro e fora da Igreja. Francisco, por sua vez, resolve o problema em senso evangélico. Na sua Ordem, novidade absoluta, os superiores se chamarão ministros, ou seja, servos, e todos os outros frades, ou seja, irmãos. Outro muro de separação entre a Igreja e o povo era a ciência e a cultura da qual o clero e os monges tinham o monopólio na prática. Francisco sabe disso e, portanto, assume a posição drástica que sabemos sobre este ponto. Ele não é contrário à ciência-conhecimento, mas à ciência-poder; aquela que favorece aqueles que sabem ler sobre aqueles que não sabem ler e lhes permite comandar com altivez ao irmão: “Traga-me o breviário”. Durante o famoso Capítulo das Esteiras a alguns dos seus irmãos que queriam empurrá-lo a adequar-se à atitude das “ordens” cultas do tempo, respondeu com palavras de fogo que deixaram, lê-se, os frades tomados de temor: “Irmãos, meus irmãos, Deus me chamou para trilhar o caminho da simplicidade e o mostrou para mim. Não quero, portanto que me citem outrsa Regras, nem aquela de Santo Agostinho, nem aquela de São Bernardo ou de São Bento. O Senhor revelou -me ser sua vontade que eu fosse um idiota no mundo: esta é a ciência à qual Deus quer que nos dediquemos! Ele vos confundirá por meio da vossa mesma ciência e sabedoria”[8]. Sempre a mesma atitude coerente. Ele quer para si e para os seus irmãos a mais rígida pobreza, mas na Regra, exorta-os a “não desprezar e a não julgar os homens que vêm vestidos com hábitos finos e coloridos e usar comida e bebida delicadas, mas sim cada um julgue e despreze a si mesmo”[9]. Escolhe ser um iletrado mas não condena a ciência. Uma vez assegurado que a ciência não extinga “o espírito da santa oração e devoção”, será ele mesmo a permitir a frade Antonio de dedicar-se ao ensino da teologia e São Boaventura não pensa que está traindo o espírito do fundador, abrindo a ordem aos estudos nas grandes universidades. Yves Congar vê nisso uma das condições essenciais da “verdadeira reforma” na Igreja, a reforma, ou seja, que permanece tal e não se transforma em cisma: isto é, a capacidade de não absolutizar a própria intuição, mas permanecer solidário com o todo que é a Igreja[10]. A convicção, diz o Papa Francisco, na sua recente Exortação apostólica Fidei gaudium, que “o todo é superior à parte”.

4. Como imitar Francisco
O que diz a nós hoje a experiência de Francisco? O que podemos imitar dele, todos e rápido? Sejam aqueles que Deus chama a reformar a Igreja pelo caminho da santidade, sejam aqueles que se sentem chamados a renová-la pelo caminho da crítica, sejam aqueles que ele mesmo chama a reformá-la pelo caminho do cargo que ocupam?  A mesma coisa com a qual se começou a aventura espiritual de Francisco: a sua conversão do eu a Deus, a sua negação de si. É assim que nascem os verdadeiros reformadores, aqueles que mudam realmente algo na Igreja. Os mortos a si mesmos. Melhor, aqueles que decidem seriamente morrer a si mesmos, porque se trata de uma empresa que dura toda a vida e também além, se, como dizia brincando santa Teresa de Ávila, o nosso amor próprio morre vinte minutos depois de nós. Dizia um santo monge ortodoxo, Silvano do Monte Athos: “Para ser verdadeiramente livres, é necessário começar a ligar a si mesmo”. Homens como estes são livres com a liberdade do Espírito; nada os para e nada os espanta mais. Tornam-se reformadores pelo caminho da santidade, e não somente pelo caminho do ofício. Mas o que significa a proposta de Jesus de negar-se a si mesmo? É ainda possível propô-la a um mundo que fala somente de auto-realização, auto-afirmação? A negação nunca é fim em si mesmo, nem um ideal em si. A coisa mais importante é aquela positiva: Se queres seguir-me; É o seguir Cristo, possuir Cristo. Dizer não a si mesmo é o meio; dizer sim a Cristo é o fim. Paulo a apresenta como uma espécie de lei do espírito: “Se com a ajuda do Espírito fazes morrer as obras da carne, vivereis” (Rom 8, 13). Isso, como se pode ver, é um morrer para viver; é o oposto da visão filosófica que diz que a vida humana é “um viver para morrer” (Heidegger). Trata-se de saber qual fundamento queremos dar à nossa existência: se o nosso “eu” ou “Cristo”; na linguagem de Paulo, se queremos viver “para nós mesmos”, ou “para o Senhor” (cf. 2 Coríntios 5, 15, Rom 14 , 7-8). Viver “para si mesmos” significa viver para a própria comodidade, a própria glória, o próprio progresso; viver “para o Senhor” significa recolocar sempre em primeiro lugar, nas nossas intenções, a glória de Cristo, os interesses do Reino e da Igreja. Cada “não”, pequeno ou grande, falado a si mesmo por amor, é um sim dito a Cristo. Somente deve-se evitar a ilusão. Não se trata de saber tudo sobre a negação cristã, sua beleza e necessidade; trata-se de passar ao ato, de praticá-la. Um grande mestre de espírito da antiguidade dizia: “É possível despedaçar dez vezes a própria vontade em um brevíssimo tempo; e vos digo como. A pessoa está passeando e vê algo; o seu pensamento lhe diz: “Olha lá”, mas ele responde ao seu pensamento: “Não, não olho”, e despedaça assim a própria vontade. Depois encontra outros que estão falando (leia falando mal de alguém) e o seu pensamento lhe diz: “Fale’ também você aquilo que sabe”, e despedaça a sua vontade calando”[11].  Este antigo Padre traz, como se vê, exemplos tirados todos da vida monástica. Mas eles podem ser atualizados e adaptados facilmente para a vida de cada um, clérigos e leigos. Encontros, se não com um leproso como Francisco, com um pobre que você sabe que vai lhe pedir algo; o seu homem velho te empurra a passar do lado oposto do caminho, e você pelo contrário, se faz violência e lhe vai ao encontro, talvez presenteando-lhe somente com uma saudação e um sorriso, se não pode fazer outra coisa. Oferecem a você a ocasião para um lucro ilícito: e você diz não e negou a si mesmo. Foi contestado em uma ideia; toca o ponto sensível, gostaria de responder com força, cala e espera: despedaçou o seu eu. Acredita ter sido passado pra trás, um tratamento, ou um destino não adequado aos seus merecimentos: gostaria de contar para todos, fechando-se em um silêncio cheio de tácita reprovação. Diz não, quebra o silêncio, sorri e reabre o diálogo. Negou a si mesmo e salvou a caridade. E assim por diante. Um sinal que prova uma boa luta contra o próprio eu, é a capacidade ou ao menos o esforço de alegrar-se pelo bem feito ou a promoção recebida de outro, como se acontecesse consigo mesmo:  “Bem aventurado aquele servo – escreve Francisco em uma das suas Admoestações – que não se orgulha pelo bem que o Senhor diz e obra por meio dele, mas sim pelo bem que diz e obra por meio de outro”. Uma meta difícil (eu não falo certamente como quem já a alcançou!), mas a história de Francisco, nos mostra o que pode nascer de uma negação de si feita em resposta à graça. A meta final é poder dizer com Paulo e com Ele: “Não mais eu que vivo, Cristo vive em mim”. E haverá alegria e paz plenas, já sobre esta terra. Francisco, em sua “perfeita alegria”, é um exemplo vivo da “alegria que vem do Evangelho,” do Evangelii gaudium!

Traduzido do original italiano por Thácio Siqueira
[1] Y.Congar, Vera e falsa riforma nella Chiesa,Milano Jaka Book, 1972, p. 194.
[2] Celano, Vita Prima, VII, 17 (FF 348).
[3] Cf. Celano, Vita Seconda, V, 9 (FF 592)
[4] Cf. Celano, Vita prima, III, 7 (FF, 331).
[5] Bihhmeyer – Tuckle, II, p. 239.
[6] Legenda dei tre compagni VIII (FF 1431 s.).
[7] FF, 358; 1436 s.; 1508.
[8] Legenda perugina 114 (FF 1673).
[9] Regola Bollata, cap. II.
[10] Sobre as condições da verdadeira reforma veja Congar, ob. cit. pp. 177 ss.
[11] Doroteo di Gaza, Opere spirituali, I,20 (SCH 92,p.177).

 

Humildade é “fazer-se pequenos, mas por amor, para ‘elevar’ os outros”, disse Pe. Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap
Na sua segunda pregação de advento o Pregador da Casa Pontifícia discorre sobre a virtude da humildade à exemplo de São Francisco de Assis
Por Thácio Lincon Soares de Siqueira

Na manhã desta sexta-feira, na sua segunda pregação de Advento dirigida ao Santo Padre e aos membros da Cúria Romana, Pe. Raniero dirigiu a sua atenção a uma virtude especial que caracterizou toda a vida de São Francisco de Assis, a humildade. “A virtude da humildade tem um estatuto todo especial – disse o pregador da casa pontifícia – tem-na quem pensa que não a tem, não a tem quem pensa tê-la”. Mostra disso acontece em Maria Santíssima, que tinha a humildade em mais alto grau, mas só Deus sabia disso, ela não, disse Cantalamessa. E isso porque o próprio da humildade é que “o seu odor só é percebido por Deus, não por quem o emana.” Humildade, então, não é olhar para si mesmos ou para as próprias misérias; humildade “é olhar para Deus antes que a si mesmo e medir o abismo que separa o finito do infinito”, disse. “Paradoxalmente, porém, o que mais enchia de assombro a alma de Francisco não era a grandeza de Deus, mas a sua humildade”. Francisco, que dava a Deus o título: “Tu es humildade”, “captou uma verdade profundíssima sobre Deus”, que “Deus é humildade porque é amor” e se encarnou. “Diante das criaturas humanas, Deus se encontra desprovido de qualquer capacidade não só coercitiva, mas também defensiva”, disse, afirmando também que “É possível rejeitá-lo, excluí-lo: ele não se defenderá, deixará fazer”. Cristo é, portanto o segundo motor da humildade de Francisco. O homem-Deus que disse: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!” (Mt 11, 29). Porém, em que devemos imitar a humildade de Cristo?, perguntou-se o Pregador da Casa Pontifícia. Cristo nunca se reconheceu pecador, muito pelo contrário, se chamou de Mestre e Senhor, disse ser mais do que os maiores profetas. E eis que aqui, diz Pe. Raniero, aprendemos algo novo: “A humildade não consiste principalmente em ser pequenos, porque pode-se ser pequenos, sem ser humildes; não consiste principalmente no sentir-se pequenos” (…) mas no “fazer-se pequenos, e não por alguma necessidade ou utilidade pessoal, mas por amor, para “elevar” os outros”. E “Jesus se fez “pequeno”, como “se fez carne”, ou seja de forma permanente, até o fim. Escolheu pertencer à categoria dos pequenos e dos humildes” para sempre. Então, disse Pe. Cantalamessa, “Esta nova face da humildade é resumida em uma palavra: serviço.”. Algumas considerações práticas sobre a virtude da humildade Pe. Raniero disse que o considerar-se o mais vil e desprezível deve passar primeiro pelo ser considerado pelos demais dessa forma, assim como Francisco, que primeiro foi ridicularizado por amigos e familiares e considerado como “um ingrato, um fanático, alguém que nunca teria feito nada de bom na vida”. O motivo disso é que pretender lutar sozinho contra o orgulho “é como usar o próprio braço para punir a si mesmo: realmente nunca se fará mal.” Pe. Raniero assegurou que a luta contra o orgulho é algo de toda a vida. “O orgulho é capaz de alimentar-se tanto do mal quanto do bem; porém, ao contrário do que acontece com todos os outros vícios, o bem, não o mal, é o terreno de cultivo preferido deste terrível “vírus”.” Finalizando as suas reflexões, disse o Pregador da Casa Pontifícia, que a humildade não é só uma virtude privada, mas também da Igreja como instituição e povo de Deus. E “é com essa, melhor do que com qualquer apologética, que se acalmam as hostilidades e os prejuízos contra ela e se abre o caminho para a aceitação do Evangelho”.

 

Texto completo da segunda pregação de Advento do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap.
O Frei Capuchinho, Raniero Cantalamessa fala sobre a humildade como verdade e como serviço em Francisco de Assis.

1. Humildade objetiva e humildade subjetiva
Francisco de Assis, vimos na última pregação, é a prova viva de que a reforma mais útil para a Igreja é aquela pelo caminho da santidade, que consiste cada vez em um corajoso retorno ao Evangelho e que deve começar a partir de si mesmos. Nesta segunda meditação gostaria de aprofundar um aspecto do retorno ao Evangelho, uma virtude de Francisco. De acordo com Dante Alighieri, toda a glória de Francisco depende do “seu ter-se feito humilde[1]”, ou seja, da sua humildade. Mas, em que consistiu a proverbial humildade de São Francisco? Em todas as línguas pelas quais a Bíblia passou para chegar até nós, ou seja, em hebraico, grego, latim e italiano, a palavra “humildade” tem dois significados básicos: um objetivo que indica mesquinhez, pequenez ou miséria de fato e um subjetivo que indica o sentimento e o reconhecimento que se tem da própria pequenez. Este último é o que entendemos por virtude da humildade. Quando Maria diz no Magnificat: “Olhou para a humildade (tapeinosis) da sua serva”, entende a humildade no sentido objetivo, não subjetivo! Por isso muito apropriadamente em diferentes idiomas, por exemplo, em alemão, a palavra é traduzida como “pequenez” (Niedrigkeit). Como se pode imaginar, além do mais, que Maria exalte a sua humildade e atribua a essa a escolha de Deus, sem, com isso mesmo, destruir a humildade de Maria? No entanto, às vezes, se escreveu imprudentemente que em Maria não se reconhece nenhuma outra virtude a não ser aquela da humildade, como se, de tal forma, se fizesse uma grande honra, e não pelo contrário um grande erro, com tal virtude. A virtude da humildade tem um estatuto todo especial: a tem quem pensa que não a tem, não a tem quem pensa tê-la. Só Jesus pode declarar-se “humilde de coração” e sê-lo realmente; esta, veremos, é a característica única e irrepetível da humildade do homem-Deus. Maria não tinha, portanto, a virtude da humildade? Claro que tinha e no mais alto grau, mas só Deus sabia isso, ela não. Só este fato, de fato, constitui mérito incomparável da verdadeira humildade: que o seu odor só é percebido por Deus, não por quem o emana. São Bernardo escreve: “O verdadeiro humilde quer ser considerado desprezível, não proclamado humilde”.[2] A humildade de Francisco se coloca nesta linha. O Florilégio nos mostra um episódio significativo a este respeito e, no fundo, certamente histórico. Um dia, voltando S. Francisco de orar no bosque, e ao sair do bosque, o dito Frei Masseo quis experimentar-lhe a humildade; foi-lhe ao encontro e, a modo de gracejo, disse: “Por que a ti? Por que a ti? Por que a ti?” S. Francisco respondeu: “Que queres dizer?” Disse Frei Masseo: “Por que todo o mundo anda atrás de ti e toda a gente parece que deseja ver-te e ouvir-te e obedecer-te? Não és homem belo de corpo, não és de grande ciência, não és nobre: donde vem, pois, que todo o mundo anda atrás de ti?” Ouvindo isto, S. Francisco, todo jubiloso em espírito, levantando a face para o céu por grande espaço de tempo, esteve com a mente enlevada em Deus; e depois, voltando a si, ajoelhou-se e louvou e deu graças a Deus; e depois, com grande fervor de espírito, voltou-se para Frei Masseo e disse: “Queres saber por que a mim? Queres saber por que a mim? Queres saber por que todo o mundo anda atrás de mim? Isto recebi dos olhos de Deus altíssimo, os quais em cada lugar contemplam os bons e os maus: porque aqueles olhos santíssimos não encontraram entre os pecadores nenhum mais vil nem mais insuficiente nem maior pecador do que eu;[3]”

2. A humildade como verdade
A humildade de Francisco tem duas fontes de iluminação, uma de natureza teológica e uma de natureza cristológica. Reflitamos na primeira. Na Bíblia encontramos atos de humildade que não partem do homem, da consideração da própria miséria ou do próprio pecado, mas têm como única razão Deus e a sua santidade. Tal é exclamação de Isaías: “sou um homem de lábios impuros”, de frente à súbita manifestação da glória e da santidade de Deus no templo (Is 6, 5 s); tal é também o grito de Pedro depois da pesca milagrosa: “Afasta-te de mim, que sou um pecador!” (Lc 5, 8). Temos diante de nós a humildade essencial, aquela da criatura que toma consciência de si na presença de Deus. Enquanto a pessoa se comparar consigo mesma, com os outros ou com a sociedade, nunca terá a ideia exata do que ela é; falta-lhe a medida. “Que acento infinito, escreveu Kierkegaard, coloca-se no eu quando tem como medida Deus![4]” Francisco teve de modo eminente esta humildade. Uma máxima que repetia muito era: “O que um homem é diante de Deus, assim é, e nada mais[5]”.  O Florilégio narra que em uma noite, o irmão Leão quis espiar de longe o que fazia Francisco durante a sua oração noturna no bosque da Verna e de longe o ouvia murmurar por muito tempo algumas palavras. No dia seguinte o santo o chamou e, depois de tê-lo amavelmente repreendido por ter desobedecido sua ordem, revelou-lhe o conteúdo de sua oração : “Sabe, frei ovelhinha de Jesus Cristo, que quando eu dizia as palavras que ouviste estavam sendo mostrados a minha alma dois lumes: um da notícia e conhecimento de mim mesmo, o outro da notícia e conhecimento do Criador. Quando eu dizia: Quem és tu, ó dulcíssimo Deus meu? eu estava em lume de contemplação, em que via o abismo da infinita bondade, sabedoria e poder de Deus. E quando eu dizia: Quem sou eu? estava em um lume de contemplação em que via a profundeza lamentável de minha vileza e miséria[6]” Era aquilo que Santo Agostinho pedia a Deus e que considerava a totalidade de toda a sabedoria: “Noverim me, noverim te. Que eu conheça a mim e que eu conheça a ti; que eu me conheça para humilhar-me e que eu conheça a ti para amar-te[7]”. O episódio de Frei Leão foi certamente embelezado, como sempre no Florilégio, mas o conteúdo corresponde perfeitamente à ideia que Francisco tinha de si e de Deus. Prova disso é o começo do Cântico das criaturas com a distância infinita que coloca entre Deus “altíssimo, onipotente, bom Senhor”, a quem deve-se o louvor, a glória, a honra e a benção”, e o mísero mortal que não é digno nem sequer de “mencionar”, isto é, pronunciar, o seu nome. Altíssimo, onipotente, bom Senhor , Teus são o louvor, a glória, a honra e toda a bênção. Só a ti, altíssimo, são devidos; E homem algum é digno de te mencionar. Com esta luz, que eu chamei teológica, a humildade nos aparece essencialmente como verdade. “Me perguntava um dia, escreve Santa Teresa d’Avila, por qual motivo o Senhor ama tanto a humildade e veio-me à mente, de repente, sem nenhuma reflexão minha, que deve ser assim porque ele é a mais alta Verdade e a humildade é verdade[8]”. É uma luz que não humilha, mas pelo contrário dá alegria imensa e exalta. Ser humildes de fato não significa ser infelizes consigo e nem sequer reconhecer a própria miséria, nem, de alguma forma, a própria pequenez. É olhar para Deus antes que a si mesmo e medir o abismo que separa o finito do infinito. Quanto mais se percebe isso, mais se torna humilde. Então começa-se até mesmo a alegrar-se do próprio nada, porque é graças a ele que é possível oferecer a Deus um rosto cuja pequenez e cuja miséria cativou o coração da Santíssima Trindade desde toda a eternidade . Um grande discípula do Poverello, que o Papa Francisco proclamou santa há pouco tempo, Angela da Foligno, perto da morte, exclamou: “Oh, nada desconhecido, oh nada desconhecido! A alma não pode ter melhor visão neste mundo do que contemplar o próprio nada e morar nele como na cela de uma prisão[9]”. “Há um segredo neste conselho, uma verdade que se experimenta provando. Descobre-se então que existe realmente esta cela e que é possível entrar realmente cada vez que se queira. Ela consiste no calmo e tranquilo sentimento de ser um nada diante de Deus, mas um nada amado por ele! Quando se está dentro da cela, desta prisão luminosa, não se vêm mais os defeitos do próximo, ou se vêm em um outra luz. Compreende-se que é possível, com a graça e com o exercício, realizar o que disse o Apóstolo e que parece, à primeira vista, excessivo, isto é, “considerar todos os outros superiores a si” (cf. Fl 2, 3), ou pelo menos se entende como isso possa ter sido possível aos santos. Fechar-se naquela prisão é muito diferente de fechar-se em si mesmos; é, pelo contrário, abrir-se aos outros, ao ser, à objetividade das coisas. O contrário daquilo que sempre pensaram os inimigos da humildade cristã. É fechar-se ao egoísmo, não no egoísmo. É a vitória sobre um dos males que também a moderna psicologia julga funesta para a pessoa humana: o narcisismo. Naquela cela, além do mais, não penetra o inimigo. Um dia, Antônio, o Grande teve uma visão; viu, em um instante, todos os infinitos laços do inimigo estendidos pela terra e disse gemendo: “Quem poderá portanto evitar todos estes laços?” e respondeu-lhe uma voz: “Antônio, a humildade![10]” “Nada, escreve o autor da Imitação de Cristo, conseguirá fazer ensoberbecer aquele que está firmemente fixado em Deus[11]”

3. Humildade como serviço de amor
Falamos da humildade como verdade da criatura diante de Deus. Paradoxalmente, porém, o que mais enchia de assombro a alma de Francisco não era a grandeza de Deus, mas a sua humildade. Nos Louvores de Deus altíssimo que se conservam escritos com sua caligrafia em Assis, entre as perfeições de Deus – “Tu és Santo. Tu és Forte. Tu és Trino e Uno. Tu és Amor, Caridade. Tu és Sabedoria…” – a um certo ponto, Francisco insere um incomum: “Tu és humildade!” Não é um título colocado ali por engano! . Francisco captou uma verdade profundíssima sobre Deus que deveria também maravilhar-nos. Deus é humildade porque é amor. Diante das criaturas humanas, Deus se encontra desprovido de qualquer capacidade não só coercitiva, mas também defensiva. Se os seres humanos escolhem, como fizeram, recusar o seu amor, ele não pode intervir com autoridade para impor-se. Não pode fazer outra coisa além de respeitar a livre escolha dos homens. É possível rejeitá-lo, excluí-lo: ele não se defenderá, deixará fazer. Ou melhor, a sua maneira de defender-se e de defender os homens contra o seu próprio aniquilamento, será aquela de amar ainda e sempre, eternamente. O amor cria por sua própria natureza dependência e a dependência a humildade. Assim é também, misteriosamente, em Deus. O amor fornece, portanto, a chave para entender a humildade de Deus: é preciso pouco poder para se mostrar, é preciso muito mais, porém, para se esconder, para desaparecer. Deus é esta força ilimitada de escondimento de si e como tal se revela na encarnação. Pode ver a manifestação visível da humildade de Deus contemplando Cristo que se coloca de joelhos diante dos seus discípulos para lavar os seus pés – e eram, podemos imaginá-lo, pés sujos -, e ainda mais, quando, reduzido à mais radical impotência na cruz, continua a amar, sem nunca condenar. Francisco captou este nexo estreitíssimo entre a humildade de Deus e a encarnação. Eis algumas das suas fogosas palavras: “Eis que a cada dia ele se humilha, como quando desceu da sede real para o ventre da Virgem; cada dia ele mesmo vem a nós com aparência humilde; cada dia desce do seio do Pai para o altar nas mãos do sacerdote[12]”. “Oh, humildade sublime! Oh, sublimidade humilde, que o Senhor do universo, Deus e Filho de Deus, assim se humilhe ao ponto de esconder-se, para a nossa salvação, sob a pouca aparência de pão! Olhai, irmãos, a humildade de Deus, e abri os vossos corações diante dele[13]”. Descobrimos assim o segundo motor da humildade de Francisco: o exemplo de Cristo. É o mesmo motor que Paulo indicava aos Filipenses quando recomendava-lhes de ter os mesmos sentimentos de Cristo Jesus que  “humilhou-se a si mesmo fazendo-se obediente até a morte” (Fil 2 , 5.8). Antes de Paulo foi o próprio Jesus em pessoa que convidou os discípulos a imitar a sua humildade: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração!” (Mt 11, 29). Em que, poderíamos perguntar-nos, Jesus nos diz para Imitar a sua humildade? Em que Jesus foi humilde? Percorrendo os Evangelhos, nunca encontramos a menor admissão de culpa nos lábios de Jesus, nem quando conversa com os homens, nem quando conversa com o Pai. Esta – a propósito – é uma das provas mais escondidas, mas também das mais convincentes, da divindade de Cristo e da absoluta unicidade da sua consciência. Em nenhum santo, em nenhum grande da história e em nenhum fundador de religião, se encontra uma tal consciência de inocência. Todos reconhecem, mais ou menos, ter cometido alguns erros e ter algo para ser perdoados, pelo menos por Deus. Gandhi, por exemplo, tinha uma consciência agudíssima de ter, em certas ocasiões, tomado posições erradas; também ele teve os seus remorsos. Jesus nunca. Ele pode dizer dirigindo-se aos seus adversários: “Quem dentre vós me acusa de pecado? (Jo 8, 46). Jesus proclama ser “Mestre e Senhor” (cf. Jo 13, 13), de ser mais do que Abraão, Moisés, Jonas, Salomão. Onde, então, a humildade de Jesus, para poder dizer: “Aprendei de mim que sou humilde”? Aqui descobrimos algo importante. A humildade não consiste principalmente em ser pequenos, porque pode-se ser pequenos, sem ser humildes; não consiste principalmente no sentir-se pequenos, porque a pessoa pode sentir-se pequeno e sê-lo realmente e esta seria objetividade, não ainda humildade; sem contar que o sentir-se pequenos e insignificantes pode nascer também de um complexo de inferioridade e levar ao fechamento em si mesmo e ao desespero, em vez de à humildade. Portanto, a humildade, por si, no grau mais perfeito, não é no ser pequenos, não é no sentir-se pequenos, ou proclamar-se pequenos. É no fazer-se pequenos, e não por alguma necessidade ou utilidade pessoal, mas por amor, para “elevar” os outros. Assim foi a humildade de Jesus; ele se fez tão pequeno ao ponto de “desaparecer” mesmo para nós. A humildade de Jesus é a humildade que desce de Deus e que tem o seu modelo supremo em Deus, não no homem. Na posição em que se encontra, Deus não pode “elevar-se”; nada existe acima dele. Se Deus sai de si mesmo e faz algo fora da Trindade, isso só pode ser um abaixar-se e um fazer-se pequeno; só poderá ser, em outras palavras, humildade, ou, como dizia alguns Padres gregos, synkatabasis, ou seja, condescendência. São Francisco faz da “irmã água” o símbolo da humildade, definindo-a “útil, humilde, preciosa e casta”. A água de fato nunca se “exalta”, nunca “sobe”, mas sempre “desce”, até alcançar o ponto mais baixo. O vapor sobe e é por isso o símbolo tradicional do orgulho e da vaidade; a água desce e é por isso símbolo da humildade. Agora sabemos o que quer dizer a palavra de Jesus: “Aprendei de mim que sou humilde”. É um convite a fazer-nos pequenos por amor, a lavar, como ele, os pés dos irmãos. Em Jesus vemos, porém, também a seriedade desta escolha. Não se trata, de fato, de descer e fazer-se pequeno de tanto em tanto, como um rei que, na sua generosidade, de vez em quando, se digna descer entre o povo e talvez também servi-lo com algo. Jesus se fez “pequeno”, como “se fez carne”, ou seja de forma permanente, até o fim. Escolheu pertencer à categoria dos pequenos e dos humildes. Esta nova face da humildade é resumida em uma palavra: serviço. Um dia – lemos no Evangelho – os discípulos tinham discutido uns com os outros sobre quem era o “maior”; então Jesus, “sentando-se” – como para dar maior solenidade à lição que estava prestes a dar -, chamou os Doze e disse-lhes: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (Mc 9 , 35). Quem quer ser o “primeiro” seja o ” último”, ou seja, desça, se abaixe. Mas, depois explica o que compreende por último: seja o “servo” de todos. A humildade proclamada por Jesus é portanto serviço. No Evangelho de Mateus, esta lição de Jesus é proclamada com um exemplo: “Exatamente como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20 , 28).

4. Uma Igreja humilde
Algumas considerações práticas sobre a virtude da humildade, tomadas em todas as suas manifestações, ou seja, tanto na relação com Deus quanto na relação com os homens. Não devemos nos iludir pensando que alcançamos a humildade só porque a palavra de Deus nos tenha levado a descobrir o nosso nada e nos tenha mostrado que ela tem que traduzir-se em serviço fraterno. Até que ponto chegamos de fato à humildade se vê quando a iniciativa passa de nós para os outros, ou seja, quando não somos mais nós que reconhecemos os nossos defeitos e erros, mas são os outros que o fazem; quando não somos somente capazes de dizer-nos a verdade, mas também de deixar que os outros a digam, de boa vontade. Antes de reconhecer-se diante de Frei Matteo como o mais vil dos homens, Francisco tinha aceitado de bom grado e por um longo tempo, ser ridicularizado, considerado por amigos, familiares e por toda a cidade de Assis, um ingrato, um fanático, alguém que nunca teria feito nada de bom na vida. Em que ponto estamos na luta contra o orgulho, se vê, em outras palavras, do como nós reagimos, externamente ou internamente, quando somos contrariados, corrigidos, criticados ou deixados de lado. Pretender matar o próprio orgulho batendo nele sozinhos, sem a intervenção de fora de ninguém, é como usar o próprio braço para punir a si mesmo: realmente nunca se fará mal. É como se um médico quisesse tirar um tumor dele mesmo sozinho. Quando tento receber glória de um homem por qualquer coisa que eu diga ou faça, é quase certo que quem está na minha frente tenta receber glória de mim a respeito de como escuta e como responde. E acontece assim que cada um busca a sua própria glória e ninguém a recebe e, se, por acaso, a recebe não é mais do que “vaidade”, ou seja, glória vazia, destinada a dissolver-se em fumaça com a morte. Mas o efeito é igualmente terrível; Jesus atribuía à busca da própria glória até mesmo a impossibilidade de crer. Dizia aos fariseus: “Como podeis crer, vós que recebeis glória uns dos outros, e não procurais a glória que vem do Deus único?” (Jo 5, 44). Quando nos encontremos imersos em pensamentos e desejos de glória humana, joguemos na mistura de tais pensamentos, como uma tocha ardente, a palavra que Jesus mesmo usou e que nos deixou: “Eu não busco a minha glória!” (Jo 8, 50). A luta da humildade dura a vida inteira e se estende a todos os aspectos da mesma. O orgulho é capaz de alimentar-se tanto do mal quanto do bem; porém, ao contrário do que acontece com todos os outros vícios, o bem, não o mal, é o terreno de cultivo preferido deste terrível “vírus”. Escreve sabiamente o filósofo Pascal: “A vaidade tem raízes tão profundas no coração do homem que um soldado, um servo da milícia, um cozinheiro, um carregador se gaba e finge ter seus admiradores e os mesmos filósofos os querem. E aqueles que escrevem contra a vanglória aspiram à glória de terem escrito bem, e aqueles que os leem, a vangloria de tê-los lido; e eu, que escrevo isto, talvez tenha o mesmo desejo; e aqueles que me leem talvez também[14]”. Para que o homem “não se ensoberbeça”, Deus geralmente o fixa no chão com uma espécie de âncora; coloca do seu lado, como com São Paulo, um “mensageiro de Satanás que o fere”, “um espinho na carne” (2 cor 12, 7). Não sabemos exatamente o que fosse exatamente para o Apóstolo este “espinho na carne”, mas sabemos bem o que é para nós! Cada um que queira seguir o Senhor e servir a Igreja o tem. São situações humilhantes que nos lembram constantemente, às vezes de noite e de dia, a dura realidade daquilo que nós somos. Pode ser um defeito, uma doença, uma fraqueza, uma impotência, que o Senhor nos deixa, apesar de todas as súplicas; uma tentação persistente e humilhante, talvez mesmo uma tentação de soberba; uma pessoa com a qual somos obrigamos a conviver e que, apesar da retidão de ambas as partes, tem o poder de tirar fora a nossa fragilidade, de demolir a nossa presunção. A humildade não é apenas uma virtude privada. Existe uma humildade que deve brilhar na Igreja como instituição e povo de Deus. Se Deus é humildade, também a Igreja deve ser humildade; se Cristo serviu, também a Igreja deve servir, e servir por amor. Por muito tempo a Igreja, no seu conjunto, tem apresentado ao mundo a verdade de Cristo, mas talvez não muito a humildade de Cristo. No entanto, é com essa, melhor do que com qualquer apologética, que se acalmam as hostilidade e os prejuízos contra ela e se abre o caminho para a aceitação do Evangelho. Há um episódio de Os noivos de Manzoni que contém uma profunda verdade psicológica e evangélica. Frei Cristoforo, acabado o noviciado, decide pedir publicamente perdão aos parentes do homem que, antes de fazer-se frade, matou em um duelo. A família se enfileira, formando uma espécie de forcas caudinas, de modo que o gesto se torne o mais humilhante possível para o frade e de maior satisfação para o orgulho da família. Mas, quando veem o jovem frade abaixar a testa no chão, ajoelhar-se diante do irmão do morto e pedir perdão, cai a arrogância, são eles que se sentem confusos e pedem perdão, até que ao final todos se apertam para beijar-lhe a mão e encomendar-se às suas orações[15]. São os milagres da humildade. No profeta Sofonias Deus diz: “Deixarei em teu seio um povo humilde e pobre, e procurará refúgio no nome do Senhor” (Sof 3, 12). Esta palavra ainda é atual e talvez também dessa dependerá o sucesso da evangelização na qual a Igreja está comprometida. Agora sou eu que, antes de terminar, tenho que lembrar a mim mesmo uma máxima querida por São Francisco. Ele repetia muitas vezes: “Carlos imperador, Orlando, Oliviero, todos os paladinos trouxeram uma vitória gloriosa e inesquecível… Mas há muitos que, somente com a narração dos seus feitos, querem receber honra e glória dos outros homens[16]”. Usava este exemplo para dizer que os santos praticaram as virtudes e outros procuram a glória somente narrando isso aos outros[17]. Para que também eu não entre nesse número, me esforço por colocar em prática o conselho que um antigo Pai do deserto, Isaque de Nínive, dava a quem é obrigado pelo dever a falar de coisas espirituais, às quais ainda não chegou com a própria vida: “Fale delas, dizia, como alguém que pertence à classe dos discípulos e não com autoridade, depois de ter humilhado a tua alma e de ter-se feito menor do que todos os teus ouvintes”. Com este espírito, Santo Padre, Veneráveis Pais, irmãos e irmãs, ousei falar-vos de humildade.

(Traduzido do original italiano por Thácio Siqueira/ ZENIT)
[1] Paraíso XI, 111.
[2] S. Bernardo de Claraval, Sermões sobre o Cântico, XVI, 10 (PL 183,853).
[3] Fioretti, cap. X.
[4] S. Kierkegaard, La malattia mortale,II, cap.1.  in Opere, a cura di C. Fabro, Sansoni, Firenze 1972, pp.662 s.
[5] Ammonizioni, XIX (FF 169); cf. também S. Bonaventura, Legenda maggiore, VI,1 (FF 1103).
[6] Considerações dos Sagrados Estigmas, III (FF 1916).
[7] S. Agostinho, Soliloquios,I,1,3; II, 1, 1 (PL 32, 870.885).
[8] S. Teresa d’Avila, Castelo Interior, VI dim., cap. 10.
[9] Il libro della B. Angela da Foligno, Quaracchi, 1985, p. 737.
[10] Apophtegmata Patrum, Antonio 7: PG 65, 77.
[11] Imitação de Cristo, II, cap. 10.
[12] Admoestações,I (FF 144).
[13] Carta à toda a Ordem (FF 221)
[14] B. Pascal, Pensieri, n. 150 Br.
[15] A. Manzoni,  Os Noivos, cap. IV.
[16] Admoestações VI (FF 155)
[17] Celano, Vida segunda, 72 (FF 1626)

 

Como São Francisco: degustar o mistério do Natal com os olhos e com os lábios
Última pregação do advento: pe. Cantalamessa analisa a humildade da encarnação a partir do ponto de vista do Pobrezinho de Assis e nos convida a “amar, socorrer e evangelizar” os pobres
Por Salvatore Cernuzio

Terceira e última pregação do advento, feita pelo pe. Raniero Cantalamessa. Depois de abordar a figura de São Francisco e de explicar como a Igreja inteira foi reformada graças àquele humilde frade, o pregador da Casa Pontifícia agora analisa o mistério do Natal, daquele “pobre Rei recém-nascido” encarnado na pequena cidade de Belém. O capuchinho lembrou ainda a tradição do presépio, criado pelo Santo de Assis na cidade de Greccio, e salientou que ele “nos ajuda a integrar a visão ontológica da encarnação com a visão mais existencial e religiosa”. “Não importa apenas saber que Deus se fez homem”, disse Cantalamessa, mas também “saber que tipo de homem ele se fez”. Entre São João e São Paulo já se percebem perspectivas diferentes, embora complementares, do evento da encarnação. Para João, “o Verbo se fez carne”; para Paulo, “Cristo, sendo rico, se fez pobre”. São Francisco “se alinha com São Paulo”, porque, “mais do que na realidade ontológica da humanidade de Cristo, ele insiste, até a comoção, na humildade e na pobreza dela”. Segundo as fontes, “a humildade da encarnação e a caridade da paixão” tinham o poder de levar o santo de Assis até as lágrimas. Uma vez, um frade lhe recordou, durante almoço, da pobreza e da indigência da Virgem Maria e do seu Filho. São Francisco imediatamente se levantou da mesa, explodiu em soluços de dor e, com as lágrimas lhe escorrendo pelo rosto, comeu o resto do pão sobre a terra nua. “O santo padroeiro da Itália devolveu ‘carne e sangue’ aos mistérios do cristianismo, tantas vezes ‘desencarnados’ e reduzidos a conceitos e silogismos”. A sua distinção “entre o fato da encarnação e o modo da encarnação”, disse o pregador da Casa Pontifícia, “lança luz sobre o problema atual da pobreza e da postura dos cristãos perante ela”. Em sua encarnação, Cristo “assumiu, de forma muito especial, o pobre, o humilde, o sofredor, a ponto de se identificar com eles”. No pobre há uma presença “real” de Cristo, não, é claro, como na Eucaristia, mas do jeito que Jesus disse: “Aquele certo alguém necessitado de um pouco de pão, aquele idoso que morria enrijecido de frio na calçada, era eu”. Cantalamessa prosseguiu: “Não acolhe plenamente a Cristo quem não está disposto a acolher o pobre com quem Cristo se identificou”. O pobre é um “vigário passivo de Cristo”, no seguinte sentido: “aquilo que se faz ao pobre é como se fosse feito a Cristo”. É por isso que João XXIII, no concílio, cunhou a expressão “Igreja dos pobres”, indicando que “todos os pobres do mundo, batizados ou não, fazem parte da Igreja”. Segue-se que o papa é o “pai dos pobres” e é “uma alegria ver como este papel tem sido levado a sério pelos últimos papas”, em particular pelo papa atual. No entanto, constatou o pregador, “nós temos a tendência de colocar paredes de vidro duplo entre nós e os pobres. Vemos os pobres andando, se agitando, gritando por trás da tela da televisão, nas páginas dos jornais e nas revistas missionárias, mas o seu clamor nos chega como de muito longe. Não penetra o nosso coração”. As palavras “pobre”, “imigrante”, provocam, nos países ricos, “o mesmo efeito que provocava nos antigos romanos o grito de “bárbaros”: o desconcerto, o pânico”. “Nós lamentamos e protestamos pelas crianças impedidas de nascer, mas não deveríamos fazer o mesmo pelos milhões de crianças que nascem e são condenado à morte pela fome, pela doença, forçadas a ir para a guerra e a matar umas as outras em nome de interesses que não são alheios a nós, dos países ricos?”. Devemos protestar não só “pelos idosos, pelos doentes, pelos deformados que a eutanásia ajuda a matar”, mas também “pelos idosos que morrem de frio ou que são abandonados à própria sorte”. O primeiro passo, portanto, é “superar a indiferença e a insensibilidade, é perceber os pobres”. Três palavras são essenciais: “amá-los, socorrê-los, evangelizá-los”. Amá-los no sentido de “respeitar e reconhecer a sua dignidade”, a exemplo de santos como São Francisco, São Vicente de Paulo e Santa Teresa de Calcutá, “cujo amor pelos pobres foi o caminho da sua santidade”. Os pobres “não merecem só a nossa simpatia, mas também a nossa admiração”, porque “eles são os verdadeiros campeões da humanidade”. Nós distribuímos tantos troféus e medalhas de ouro para quem simplesmente pulou um centímetro a mais do que o outro, mas não levamos em nenhuma consideração “os saltos mortais, as provas de força, os slalom de que os pobres são capazes tantas vezes” para sobreviver. Ao dever de amar os pobres, segue o de socorrê-los. “De que adianta ter pena de um irmão ou de uma irmã carente de roupa e de alimento e só dizer ‘Coitado, como você sofre! Vá, se aqueça, coma!’, sem lhe dar nada para se aquecer e para comer?”, perguntou o padre Cantalamessa, ecoando as palavras de São Tiago: “a compaixão, assim como a fé, sem obras é morta”. E acrescentou que, “no dia do juízo, Jesus não dirá: ‘Eu estava nu e tivestes pena de mim’, mas ‘Eu estava nu e me vestistes’. Não devemos culpar a Deus pela miséria do mundo, mas a nós mesmos”. Hoje não basta “a simples esmola”: podem ser feitas muitas coisas “para socorrer” os pobres e “promover a sua ascensão”. Entre elas, evangelizar: “Não podemos permitir que a nossa má consciência nos leve a cometer a enorme injustiça de privar da boa notícia aqueles que são os primeiros e mais naturais destinatários dela”, afirmou Cantalamessa. “A ação social deve acompanhar a evangelização, nunca substituí-la”. Os pobres “têm o direito sacrossanto de ouvir o evangelho na sua totalidade, e não numa edição resumida ou controversa”. Para finalizar, o pe. Raniero voltou a refletir sobre Francisco de Assis e explicou que, para ele, o Natal não era “apenas uma oportunidade de chorar a pobreza de Cristo”, mas uma festa que “fazia explodir toda a capacidade de exultação que havia em seu coração. No Natal, ele fazia loucuras literalmente, se tornava uma daquelas crianças que ficam sempre com os olhos cheios de maravilhamento diante do presépio, e, toda vez que dizia ‘Jesus’ ou ‘Menino de Belém’, passava a língua pelos lábios como a saborear e reter toda a doçura daquelas palavras”. Nós também, convidou Cantalamessa, podemos saborear os sentimentos de São Francisco. O capuchinho encerrou suas palavras recitando os versos de um popular canto natalino italiano, “Tu scendi dalle stelle” [Tu desces das estrelas], musicado por Santo Afonso Maria de Ligório, e propondo: “Deixemo-nos comover pela mensagem simples, mas essencial” deste canto.

 

Terceira e última pregação de Advento que o pregador da casa pontifícia, Pe. Raniero Cantalamessa, OFM. Cap. pronunciou hoje ao Papa e à Cúria Romana.
O mistério da Encarnação contemplado com os olhos de Francisco de Assis

1. Greccio e a instituição do presépio
Todos nós conhecemos a história de Francisco que, em Greccio, três anos antes de sua morte, deu início à tradição natalícia do presépio; mas é bom recordá-la, brevemente, nesta circunstância. Celano escreve assim: “Uns quinze dias antes do Natal, São Francisco mandou chamá-lo, como costumava fazer, e disse: “Se você quiser que celebremos o Natal em Greccio, é bom começar a preparar diligentemente e desde já o que eu vou dizer. Quero lembrar o menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e contemplar com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro”. […].E veio o dia da alegria. O santo vestiu dalmática, porque era diácono, e cantou com voz sonora o santo Evangelho. De fato, era “uma voz forte, doce, clara e sonora”, convidando a todos às alegrias eternas. Depois pregou ao povo presente, dizendo coisas doces como o mel sobre o nascimento do Rei pobre e sobre a pequena cidade de Belém.[1]” A importância do episódio não está tanto no fato em si e nem sequer na influência espetacular que teve na tradição cristã; está na novidade que isso revela a respeito da compreensão que o santo tinha do mistério da encarnação. A insistência demasiado unilateral, e às vezes até obsessiva, sobre os aspectos ontológicos da Encarnação (natureza, pessoa, união hipostática, comunicação dos idiomas) tinha feito muitas vezes perder de vista a verdadeira natureza do mistério cristão, reduzindo-o a um mistério especulativo, que deve ser formulado com categorias cada vez mais rigorosas, mas muito distantes do alcance do povo. Francisco de Assis nos ajuda a integrar a visão ontológica da Encarnação com aquela mais existencial e religiosa. Não importa, de fato, só saber que Deus se fez homem; importa também saber que tipo de homem se fez. É significativo o modo diferente e complementar com o qual João e Paulo descrevem o evento da encarnação. Para João, consiste no fato de que o Verbo, que era Deus, se fez carne (cf. Jo 1,1-14); para Paulo, consiste no fato de que “Cristo, sendo de natureza divina, assumiu a forma de servo e se humilhou a si mesmo fazendo-se obediente até a morte” (cf. Fl 2 , 5 ss.). Para João, o Verbo, sendo Deus, se fez homem; para Paulo “Cristo, sendo rico, se fez pobre” (cf. 2 Cor 8, 9). Francisco de Assis segue a lógica de São Paulo. Ao invés da realidade ontológica da humanidade de Cristo (na qual ele acredita firmemente com toda a Igreja), ele insiste, até à comoção, na humildade e na pobreza dela. Duas coisas, dizem as fontes, tinham o poder de comovê-lo até as lágrimas, cada vez que as escutava: “a humildade da encarnação e a caridade da sua paixão[2]”.  “Não consegui reprimir as lágrimas, ao pensar na extrema pobreza que padeceu nesse dia a Virgem Senhora pobrezinha. Uma vez, estando sentado à mesa a comer, e tendo um irmão recordado a pobreza da bem-aventurada Virgem e de seu Filho, imediatamente se levantou a chorar e a soluçar, e, com o rosto banhado em lágrimas, comeu o resto do pão sobre a terra nua[3]”. Francisco recolocou dessa forma “carne e sangue” nos mistérios do cristianismo, muitas vezes “desencarnados” e reduzidos a conceitos e silogismos nas escolas teológicas e nos livros. Um estudioso alemão viu em Francisco de Assis aquele que criou condições para o nascimento da arte moderna da Renascença, enquanto que dissolve pessoas e eventos sacros da rigidez estilizada do passado e lhes dá concretude e vida[4].

2. O Natal e os pobres
A diferença entre o  fato  da encarnação e o modo dela, entre a sua dimensão ontológica e aquela existencial, nos interessa porque lança luz sobre o problema atual da pobreza e da atitude dos cristãos para com ela. Ajuda a dar uma base bíblica e teológica para a opção preferencial pelos pobres, proclamada no Concílio Vaticano II. Se, pelo fato da encarnação, o Verbo, de certa forma, assumiu cada homem, como diziam certos Padres da Igreja, pelo modo em que ocorreu a encarnação, ele assumiu, de uma forma muito especial, o pobre, o humilde, o sofredor, a ponto de se identificar com eles. É claro que no pobre não se tem o mesmo gênero de presença de Cristo que se tem na Eucaristia e nos outros sacramentos, mas trata-se de uma presença, também essa, verdadeira, “real”. Ele “instituiu” este sinal, como instituiu a Eucaristia. Aquele que pronunciou sobre o pão as palavras: “Este é o meu corpo”, disse essas mesmas palavras também dos pobres. Disse-as quando, falando daquilo que se fizer, ou não se fizer, pelo faminto, o sedento, o prisioneiro, o desnudo e o desterrado, declarou solenemente: “O fizestes a mim” e “Não o fizestes a mim”. De fato isso equivale a dizer: “Aquela certa pessoa esfarrapada, necessitada de um pouco de pão, aquele ancião que morria entorpecido de frio nas calçadas, era eu!”. “Os Padres conciliares – escreveu Jean Guitton, observador leigo do Vaticano II, reencontraram o sacramento da pobreza, a presença de Cristo sob as espécies daqueles que sofrem[5]”. Não aceita plenamente a Cristo quem não estiver disposto a aceitar o pobre com o qual ele se identificou. Quem, no momento da comunhão, se aproxima cheio de fervor para receber a Cristo, mas tem o seu coração fechado para os pobres, se assemelha, diria Santo Agostinho, a alguém que vê se aproximar de longe um amigo que não vê há anos. Cheio de alegria, corre para encontrá-lo, fica na ponta dos pés para beijar sua testa, mas ao fazê-lo não percebe que está esmagando os seus pés com sapatos com pregos. Os pobres são os pés descalços que Cristo ainda colocou sobre esta terra. Também o pobre é um “vigário de Cristo”, aquele que faz as vezes de Cristo. Vigário, no sentido passivo, não ativo. Ou seja, não no sentido de que aquilo que faz o pobre é como se Cristo o fizesse, mas no sentido em que aquilo que se faz ao pobre é como se o fizesse a Cristo. É verdade, como escreve São Leão Magno, que depois da ascensão, “tudo aquilo que havia de visível em Nosso Senhor Jesus Cristo passou nos sinais sacramentais da Igreja[6]”, mas é igualmente verdade que, do ponto de vista da existência, isso também passou nos pobres e em todos aqueles dos quais ele disse: “o fizestes a mim”. Tragamos a consequência que deriva de tudo isso em termos de eclesiologia. João XXIII, no Concílio, cunhou a expressão “Igreja dos pobres[7]”. É, talvez, um significado que vai além do que se entende à primeira vista. A Igreja dos pobres não é constituída apenas pelos pobres da Igreja! Em certo sentido, todos os pobres do mundo, sejam batizados ou não, fazem parte. A sua pobreza e sofrimento é o seu batismo de sangue. Se os cristãos são aqueles que foram “batizados na morte de Cristo” (Rm 6, 3), quem é, de fato, mais batizado na morte de Cristo do que eles? Como não considerá-los, de alguma forma, Igreja de Cristo, se o próprio Cristo declarou que eles são o seu corpo? Eles são “cristãos”, não porque se declaram membros de Cristo, mas porque Cristo os declarou membros de si: “O fizestes a mim!”. Se existe um caso em que o polêmico termo “cristãos anônimos” pode ter uma aplicação plausível, é precisamente este dos pobres. A Igreja de Cristo é, portanto, muito maior do que o que as estatísticas atuais dizem. Não só como modo de dizer, mas verdadeiramente, realmente. Nenhum dos fundadores de religiões se identificou com os pobres como fez Jesus. Nenhum proclamou: “Tudo aquilo que fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40), onde o “irmão mais pequenino” não  indica somente o crente em Cristo, mas, como é aceito por todos, cada homem. Segue-se disso que o Papa, vigário de Cristo, é realmente o “pai dos pobres”, o pastor deste imenso rebanho, e é uma alegria e uma inspiração para todo o povo cristão ver como este papel tem sido levado a sério pelos últimos Sumos Pontífices e de uma maneira especial pelo pastor que hoje está sentado na Cátedra de Pedro. Ele é a voz mais respeitável que se eleva na defesa deles. A voz dos sem voz. Realmente não se “esqueceu dos pobres”! O que escreve o Papa, na recente exortação apostólica, sobre a necessidade de não ficar indiferente ante o drama da pobreza no mundo globalizado de hoje, me fez pensar em uma imagem. Temos a tendência de colocar entre nós e os pobres, vidros duplos. O efeito dos vidros duplos, muito utilizado hoje na construção, é que ele impede a passagem do frio, calor e do ruído, suaviza tudo, atenua, abafa tudo. E, de fato, vemos os pobres mover-se, agitar-se, gritar por trás da tela da televisão, nas páginas dos jornais e das revistas missionárias, mas o seu clamor nos chega como de longe. Não nos penetra o coração. Falo-o para a minha própria confusão e vergonha. A palavra: “os pobres” provoca, nos países ricos, aquilo que provocava nos romanos antigos o grito “os bárbaros”!: o choque, o pânico. Eles se preocupavam por construir muros e enviar exércitos às fronteiras para mantê-los afastados; nós fazemos a mesma coisa, de outras maneiras. Mas a história diz que é inútil. Choramos e reclamamos – e com razão! – pelas crianças que são impedidas de nascer, mas não devemos fazer o mesmo pelas milhões de crianças nascidas e condenadas à morte pela fome, doenças, crianças obrigadas a ir para a guerra e matar-se entre si por interesses que não são estranhos a nós dos países ricos? Não será porque a primeira pertence ao nosso continente e têm a nossa própria cor, enquanto a segunda pertence a outro continente e tem uma cor diferente? Protestamos – e mais do que com razão! – pelos idosos, os doentes, os deformados ajudados (às vezes forçados) a morrer com a eutanásia; mas não deveríamos fazer o mesmo pelos anciãos que morrem congelados de frio ou abandonados à sua sorte sozinhos? A lei do liberalismo econômico do “viver e deixar viver” nunca deveria transformar-se na lei do “viver e deixar morrer”, como está acontecendo em todo o mundo. É claro que a lei natural é santa, mas é precisamente para ter a força de aplica-la que temos necessidade de recomeçar da fé em Jesus Cristo. São Paulo escreveu: “O que era impossível à Lei, porque enfraquecida pela carne, Deus tornou possível, enviando o seu próprio Filho” (Rm 8, 3). Os primeiros cristãos, com os seus costumes, ajudaram o estado a mudar as próprias leis; nós cristãos de hoje não podemos fazer o contrário e pensar que seja o estado com as suas leis que têm o dever de mudar os costumes do povo.

3. Amar, socorrer, evangelizar os pobres
A primeira coisa a ser feita, com relação aos pobres, é, portanto quebrar os vidros duplos, superar a indiferença e a insensibilidade. Devemos, como, aliás, o Papa nos exorta: “Dar-nos conta” dos pobres, deixar-nos tomar por uma preocupação saudável pela sua presença no meio de nós, muitas vezes, a uma curta distância da nossa casa. O que precisamos fazer em concreto por eles, pode ser resumido em três palavras: amá-los, socorrê-los, evangeliza-los. Amar os pobres. O amor pelos pobres é um dos traços mais comuns da santidade católica. No próprio São Francisco, como vimos na primeira meditação, o amor pelos pobres, a partir de Cristo pobre, vem antes do que o amor pela pobreza e foi esse que o levou a casar-se com a pobreza. Para alguns santos, como São Vicente de Paulo, Madre Teresa de Calcutá e muitos outros, o amor para com os pobres foi, de fato, o seu caminho para a santidade, o seu carisma. Amar os pobres significa antes de tudo respeitá-los e reconhecer a sua dignidade. Neles, por causa da falta de outros títulos e distinções secundárias, brilha com uma luz mais brilhante a radical dignidade do ser humano. Em uma homilia de Natal realizada em Milão, o cardeal Montini dizia: “A visão completa da vida humana sob a luz de Cristo vê em um pobre algo mais do que um necessitado; vê neles um irmão misteriosamente revestido de uma dignidade, que exige pagar-lhe reverência, recebê-lo com cuidado, compadece-lo além do mérito[8]”. Mas os pobres não só merecem a nossa piedade; também merecem a nossa admiração. Eles são os verdadeiros campeões da humanidade. São distribuídos anualmente taças, medalhas de ouro, de prata, de bronze, ao mérito, à memória ou aos vencedores de competições. E talvez só porque foram capazes de correr em uma fração de segundos menos do que os outros, os cem, duzentos ou quatrocentos metros com barreiras, ou de saltar um centímetro mais alto do que os outros, ou de vencer uma maratona ou uma corrida de slalom. Contudo, se alguém observasse de quais saltos mortais, de quais forças, de quais slalom, são capazes, às vezes, os pobres, e não uma vez, mas durante toda a vida, o desempenho dos mais famosos atletas nos pareceriam joguinhos de crianças. O que é uma maratona em comparação, por exemplo, ao que faz um homem-riquixá de Calcutá, que no final de sua vida andou a pé o equivalente a várias voltas ao redor da terra, no calor mais extenuante, puxando um ou dois passageiros, por estradas ruins, entre buracos e poças d’água, deslizando-se entre um carro e outro para não ser atropelado? Francisco de Assis nos ajuda a descobrir uma razão ainda mais forte para amar os pobres: o fato de que eles não são simplesmente os nossos “semelhantes” ou o nosso “próximo”: são nossos irmãos! Jesus tinha falado: “Um só é o vosso Pai celeste e vós sois todos irmãos” (cf. Mt 23,8-9), mas esta palavra foi compreendida até agora como direcionada somente aos discípulos. Na tradição cristã, irmão no sentido estrito é somente aquele que compartilha da mesma fé e recebeu o mesmo batismo. Francisco retoma a palavra de Cristo e dá a ela um sentido universal que é aquele que certamente tinha em mente também Jesus. Francisco colocou “todo o mundo em estado de fraternidade[9]”. Chama irmãos não apenas os seus irmãos e companheiros de fé, mas também os leprosos, os ladrões, os sarracenos, ou seja, crentes e não-crentes, bons e maus, especialmente os pobres. Novidade, esta, absoluta, que estende o conceito de irmão e irmã também às criaturas inanimadas: o sol, a lua, a terra, a água e até mesmo a morte. Isso, evidentemente, é poesia, mais do que teologia. O santo sabe bem que entre essas criaturas e os seres humanos, feitos à imagem de Deus, há a mesma diferença do que entre o filho de um artista e as obras criadas por ele. Mas é que o senso de fraternidade universal do Pobrezinho não tem fronteiras. Isso da fraternidade é a contribuição específica que a fé cristã pode dar para fortalecer a paz no mundo e a luta contra a pobreza, como sugere o tema da próxima Jornada Mundial da Paz “Fraternidade, fundamento e caminho para a paz”. Pensando bem, esse é o único fundamento verdadeiro e não irrealista. Que sentido, de fato, falar de fraternidade e de solidariedade humana, se começarmos de uma certa visão científica do mundo que conhece, como únicas forças de ação no mundo, “o acaso e a necessidade”?  Se se parte, em outras palavras, de uma visão filosófica como aquela de Nietzsche, segundo a qual o mundo só é vontade de poder e toda tentativa de opor-se a isso é somente sinal de ressentimento dos fracos contra os fortes”? Está certo quem diz que “se o ser é apenas caos e força, a ação que busca a paz e a justiça permanecerá inevitavelmente sem fundamento[10]”. Falta, neste caso, uma razão suficiente para se opor ao liberalismo desenfreado e à iniquidade fortemente denunciada pelo Papa na exortação Evangelii gaudium. Ao dever de amar e respeitar os pobres, segue aquele de socorrê-los. Aqui nos ajuda São Tiago. Para que serve, diz ele, compadecer-se diante de um irmão ou uma irmã sem roupa ou comida, dizendo-lhes: “Pobrezinho, como sofre! Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos”, e não lhes der o necessário para a sua manutenção? A compaixão, como a fé, sem obras é morta (cf. Tg 2, 15-17). Jesus não dirá no juízo: “Estava nu e tivestes pena de mim”; mas “estava nu e me vestistes”. Não devemos culpar a Deus pela miséria do mundo, mas a nós mesmos. Um dia vendo uma criança tremendo de frio e que chorava de fome, um homem foi tomado de revolta e gritou: “Oh, Deus, onde estás? Porque não fazes nada por esta criatura inocente?”. Mas uma voz interior lhe respondeu: “Claro que fiz algo. Te fiz!”. E compreendeu imediatamente. Hoje, no entanto, já não é suficiente só a esmola. O problema da pobreza se tornou planetário. Quando os Padres da Igreja falavam dos pobres pensavam nos pobres da sua cidade, ou, no máximo, naqueles da cidade vizinha. Não conheciam nada mais, a não ser muito vagamente e, além do mais, embora conhecessem, enviar ajuda teria sido ainda mais difícil, em uma sociedade como a deles. Hoje sabemos que isso não basta, embora nada nos dispense de fazer aquilo que possamos também a nível individual. O exemplo dos muitos homens e mulheres do nosso tempo mostra-nos que há muitas coisas que podem ser feitas para socorrer, cada um de acordo com os seus meios e possibilidades, os pobres promover-lhes a elevação. Falando do “grito dos pobres”, na Evangelica testificatio, Paulo VI falava especialmente a nós religiosos: “Isso faz com que alguns de vocês cheguem aos pobres em seu estado, compartilhem com eles as suas preocupações amargas. Convida, por outro lado, não poucos dos vossos institutos a reconverter em favor dos pobres algumas das suas obras[11]”. Eliminar ou reduzir o injusto e escandaloso abismo que existe entre ricos e pobres no mundo é a tarefa mais urgente e mais ingente que o milênio que apenas terminou entregou ao novo milênio no qual entramos. Esperemos que não seja ainda o problema número um que o presente milênio deixará em herança para o próximo. Finalmente, evangelizar os pobres. Esta foi a missão que Jesus reconheceu como a sua por excelência: “O Espírito do senhor está sobre mim, me ungiu para evangelizar os pobres” (Lc 4, 18) e que indicou como sinal da presença do Reino aos enviados pelo Batista: “Aos pobres é anunciado a boa nova” (Mt 11, 15). Não devemos permitir que a nossa má consciência nos leve a cometer a enorme injustiça de privar da boa nova aqueles que são os primeiros e os mais naturais destinatários. Talvez, acrescentando à nossa desculpa, o provérbio que “barriga vazia não tem ouvidos”. Jesus multiplicava os pães e também a palavra, na verdade administrava primeiro, às vezes por três dias seguidos, a Palavra depois se preocupava também dos pães. Não só de pão vive o pobre, mas também de esperança e de cada palavra que sai da boca de Deus. Os pobres tem o direito sagrado de ouvir o Evangelho na sua totalidade, não em edições reduzidas ou polêmicas; o evangelho que fala de amor aos pobres, mas não de ódio aos ricos.

4. Alegria no céu e alegria na terra
Terminemos com outro tom. Para Francisco de Assis, Natal não era somente a ocasião para chorar a pobreza de Cristo; era também a festa que tinha o poder de fazer explodir toda a capacidade de alegria que estava no seu coração, e era muito grande. No Natal ele fazia literalmente loucuras. “Queria que neste dia os pobres e os mendigos fossem saciados pelos ricos, e que os bois e os burros recebessem uma ração de comida e de feno mais abundante que o normal. Se pudesse falar ao imperador – dizia – suplicarei a ele de emitir um decreto geral, pelo qual todos aqueles que têm possibilidades, devessem espalhar pelas ruas trigo e grãos, para que em um dia de tanta solenidade os pássaros e especialmente as irmãs cotovias tivessem em abundância[12]”. Transformava-se como que em uma dessas crianças que estavam com os olhos cheios de admiração diante do presépio. Durante a celebração do natal em Greccio, narra o biógrafo, quando pronunciava o nome ‘Belém’ enchia a boca de voz e de muito afeto, produzindo um som parecido ao balido das ovelhas. E cada vez que dizia: ‘Menino de Belém’ ou ‘Jesus’, passava a língua sobre os lábios, como para saborear e reter toda a doçura daquelas palavras”. Há uma canção de Natal que expressa perfeitamente os sentimentos de São Francisco, diante do presépio e isso não surpreende se pensarmos que foi escrita, letra e música, por um santo como ele, Santo Alfonso Maria de Ligorio. Escutando-o no tempo de natal, deixemo-nos comover pela sua mensagem simples mas essencial: Tu desces das estrelas ó Rei do céu, e vens em uma gruta no frio, e no gelo… A ti que sois do mundo o Criador, faltam os pães, o fogo, oh meu Senhor. Caro eleito bebezinho, quanta esta pobreza mais me apaixona, já que te fizeste amor pobre ainda. Santo Padre, Veneráveis Padres, irmãos e irmãs, Feliz Natal!

(Tradução Thácio Siqueira / www.zenit.org)
[1] Celano, Vida Primeira, 84-86 (Fontes Franciscanas, 468-470)
[2] Ib. 30, (FF 467).
[3] Celano, Vida Segunda, 200 (FF 788).
[4] H. Thode, Franz von Assisi und die Anfänge der Kunst des Renaissance in Italien, Berlin 1885.
[5] J. Guitton, cit. da R. Gil, Presencia de los pobres en el concilio, in “Proyección” 48, 1966, p.30.
[6] S. Leão Magno, Discurso 2 sobre a Ascensão, 2 (PL 54, 398).
[7] In AAS 54, 1962, p. 682.
[8] Cf. Il Gesú di Paolo VI, organizado por V. Levi, Milano 1985, p. 61.
[9] P. Damien Vorreux, Saint François d’Assise, Documents, Parigi 1968, p. 36.
[10] V. Mancuso, in La Repubblica, Venerdì 4 Ottobre 2013.
[11] Paulo VI, Evangelica testificatio, 18 (Ench. Vatic., 4, p.651).
[12] Celano, Vida Segunda,  151 (FF  787-788)

São Nicolau – 06 de Dezembro

O verdadeiro e único “papai-noel” de toda a História

A metamorfose do Papai Noel
http://pastoralteologica.blogspot.com.br/2011/12/metamorfose-do-papai-noel.html
Tradução: Alexandre de Hollanda Cavalcanti

O personagem gordo, alegre, vestido de vermelho e branco, com suas barbas longas a descer simpaticamente em contraste com o cetim do traje, que todos os anos faz sua aparição na publicidade comercial no período que antecede o natal, é conhecido com vários nomes. No Brasil é o simpático e de origem desconhecida, Papai Noel, na Europa é São Nicolau, nos Estados Unidos e outros Países Santa Claus. Este Papai Noel que está sempre nas portas das lojas, aumentando o faturamento natalino tem sua origem não em um escritório de marketing, mas em uma história bem real e verdadeira: São Nicolau, Bispo de Mira na Turquia e conhecido no Ocidente como São Nicolau de Bari.

São Nicolau de Mira

Este grande santo nasceu em Lícia, uma antiga província da Ásia Menor (Turquia). Ainda muito jovem perdeu seus pais, tornando-se um órfão saudoso e rico, pois herdara uma imensa fortuna que repartiu entre os pobres. Jovem, Nicolau disse «sim» ao chamado de Deus e foi viver em um mosteiro, sendo ordenado por seu próprio tio, que era Bispo.

Depois de visitar a Terra Santa, chegou à cidade de Mira, capital de Lícia, na Turquia, onde os bispos e sacerdotes, de acordo com o costume da época, estavam reunidos na Igreja deliberando para eleger um novo Bispo para a cidade, depois da morte do antigo Bispo diocesano. Depois de vários escrutínios, os reunidos haviam decidido, em comum acordo, nomear como bispo o primeiro sacerdote que no dia seguinte entrasse na igreja. Caiu serena a noite e quando o galo cantou saudando a aurora do dia seguinte, já os Bispos e sacerdotes estavam postos no coro da Igreja, espreitando, curiosos, quem seria o enviado de Deus. Cada vez que se abria a porta da Igreja, os olhares corriam para ver quem entrava… Junto com os raios dourados do amanhecer, uma velha senhora entrava para rezar, depois uma jovem, em seguida um menino… Seria este? Perguntaram-se alguns… Um dos mais anciãos recordou: combinamos que seria o primeiro sacerdote que entrasse…

Enquanto isso, cansado pela longa viagem, sacudia a poeira e limpava um pouco a roupa para entrar no templo sagrado o sacerdote Nicolau, a fim de rezar suas orações matutinas. A porta abriu-se, o sol antecedeu novamente o visitante e todos se levantaram com um estrondoso e súbito aplauso: o Espírito Santo havia enviado o novo Bispo para Mira. Nicolau não entendeu nada do que estava acontecendo, ajoelhou-se para rezar e viu-se rodeado por todo o clero que se aproximava reverente, como diante de uma aparição divina. O decano dos Bispos dirigiu-lhe a palavra e comunicou-lhe o acontecido. Nicolau hesitou. Mas percebendo que era o próprio Deus que lhe traçara o caminho, não seria esta a primeira vez que diria «não» para Deus. Seu «sim» era como o «fiat» de Maria: perpétuo e fiel. Poucos dias depois deu-se a solene cerimônia de sagração episcopal e o báculo de Pastor era posto nas mãos puras de Nicolau.

Nesta época já haviam cessado as perseguições aos cristãos e Constantino havia outorgado plena liberdade à Igreja mediante o Edito de Milão, do ano 313 d.C.. Sem embargo, Licínio, um dos que assinou o tratado, não foi fiel ao que decreto e iniciou uma perseguição contra os cristãos na região governada por ele. Os soldados chegaram ao palácio episcopal e prenderam Nicolau, levando-o para o cárcere central, em meio a ladrões e bandidos de toda ordem. A notícia chegou ao Imperador Constantino e depois de uma acirrada guerra, Licínio foi vencido e libertou todos os cristãos prisioneiros.

O primeiro milagre que se conheceu de São Nicolau foi sua intervenção para libertar a três jovens, o que ocorreu quando o governador Eustácio foi subornado para condenar a três inocentes. Nicolau se apresentou no momento da execução, deteve o carrasco, pôs em liberdade os prisioneiros e repreendeu publicamente a Eustácio, até que este reconheceu seu crime e se arrependeu.

Nessa ocasião estavam presentes três oficiais que mais tarde, ao ver-se eles mesmos em perigo de morte, se encomendaram a Nicolau através da oração. Essa mesma noite Nicolau apareceu em sonhos ao Imperador Constantino e lhe ordenou que pusesse em liberdade aos três oficiais.

Constantino interrogou aos três e ao conhecer que haviam invocado a Nicolau, lhes enviou livres ao santo Bispo com uma carta na qual rogava que orasse pela paz do mundo. Durante muito tempo este foi o milagre mais famoso de São Nicolau e praticamente o único que se sabia dele na época de São Metódio, que havia escrito sobre a vida de São Nicolau.

Depois de sua morte, em 06 de dezembro de 345, cresceu a devoção a São Nicolau aumentando as notícias de seus milagres. Converteu-se em patrono das crianças e dos marinheiros. O Imperador Justiniano construiu uma igreja em Constantinopla em sua honra. Foi nomeado patrono da Rússia e as igrejas dedicadas a seu nome eram mais que as de qualquer outro santo. No oriente o santo é conhecido como São Nicolau de Mira, pela cidade onde esteve como Bispo, porém no ocidente se chama São Nicolau de Bari, porque quando os muçulmanos invadiram a Turquia, os cristãos levaram as relíquias do santo à cidade de Bari, na Itália, onde repousam até nossos dias.

As três donzelas

Tratando-se de um santo muito popular não faltaram as maravilhosas histórias que se acumularam através dos séculos. Entre elas está a das três donzelas. Conta-se que na Diocese de Mira, um vizinho de São Nicolau se encontrava em tal pobreza que decidiu expor suas três filhas virgens à prostituição para encontrar o sustento para ele e para elas, já que não tinha dineiro para pagar o dote, exigido naquele tempo, para casar uma moça. Para evitar esta catástrofe ao pobre homem e às suas virtuosas filhas, São Nicolau tomou uma bolsa com moedas e ouro e, sob a escuridão da noite, a lançou pela chaminé da casa daquele aflito pai de família, que com isso pôde casar sua filha maior.

Dias depois, o bondoso Bispo repetiu a façanha, possibilitando o casamento das outras duas donzelas. Porém, na segunda ocasião, depois de lançar a bolsa sobre a parede do pátio da casa do pobre, esta se enredou na roupa que estava pendurada para secar. O pai correu para a janela e viu seu benfeitor que se afastava, agradecendo-lhe carinhosamente sua caridade.

A transformação de São Nicolau em «Santa Claus»

As antigas lendas das crianças e dos presentes pela chaminé e as meias deram lugar na Alemanha, Suíça e nos Países Baixos à lenda do «Menino Bispo» e sobretudo ao costume de que São Nicolau trazia secretamente presentes para as crianças.

Corria o ano de 1624, quando os imigrantes holandeses fundaram a cidade de Nova Amsterdan, hoje Nova York, e levaram consigo a tradição de Sinterklass, seu patrono, cuja festividade se celebra na Holanda entre 5 e 6 de dezembro.

Em 1809 o escritor Washington Irving, escreveu uma sátira, História de Nova York, na qual deformou o nome do santo holandês, Sinterklaas, com a pronúncia anglo-saxã Santa Claus. Mais tarde o poeta Clement C. Moore, em 1823, publicou um poema onde, baseando-se no personagem de Washington Irving, deu corpo ao atual mito de Santa Claus.

Posteriormente, por volta de 1863, adquiriu a fisionomia do gordo barbudo e bonachão, com a qual é conhecido atualmente. Nisto teve grande influência o desenhista sueco Thomas Nast, que tomou este personagem para suas ilustrações de Natal em Harper¡s Weekly. Ali adquiriu sua vestimenta vermelha, com altas botas e o gorro característico.

A meados do século XIX, o Santa Claus americano passou à Inglaterra e dali à França, onde se fundiu com o Bonhomme Noël, dando origem ao nosso Papai Noel. Em 1931, a empresa Coca-Cola encarregou ao pintor Habdon Sundblom que remodelasse a figura de Santa Claus-Papai Noel para fazê-lo mais humano e crível.

O mito atual

A princípios do século XX se difundiu a ideia de que Santa Claus vive no Pólo Norte; ainda que existem também outros lugares assinalados como possíveis para sua vivenda, como a Lapônia sueca, a Lapônia filandesa e a Groelandia. Desta maneira, o mito atual sustenta que Santa Calus vive no Pólo Norte junto com a Senhora Claus e uma grande quantidade de anões, chamados bendegums, que lhes ajudam na fabricação de brinquedos e outros presentes que as crianças lhes pedem em suas cartas.

Para poder transportar os presentes, Santa Claus os guarda em um saco mágico e os reparte na noite do 24 para 25 de dezembro, em um trenó mágico voador, puxado por míticas renas. Santa Claus pode entrar nas casas das crianças pela chaminé, transformando-se em uma espécie de fumaça mágica. Para saber se as crianças merecem os presentes, Santa Claus dispõe de um telescópio capaz de ver a todas as crianças do mundo, ajudados por outros seres mágicos que vigiam a conduta das crianças. Assim, se uma criança se comportou mal, como castigo não vira visitá-lo Papai Noel e o presente recebido será um saco de carvão.

Hoje em dia a imagem de Papai Noel é utilizado como estratégia de marketing para vender toda classe de coisas e quase ninguém conhece a história original de São Nicolau de Bari, Bispo de Mira. A publicidade comercial conseguiu impôr um mito pagão a um personagem real, cuja santidade serviu de inspiração a crianças e adultos por seu grande amor aos pobres e sobretudo às crianças.

Ensinemos às nossas crianças, fundamentos da sociedade de amanhã, que a santidade é o verdadeiro caminho para a vida. Contemos a história verdadeira de São Nicolau, que do alto dos céus abençoa as crianças para que cumpram seus deveres e inspirem seus pais a tratá-los com amor, responsabilidade e carinho, ensinando-lhes sempre os caminhos do bem e da caridade.

Um feliz e santo Natal para você e toda sua família!

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