Homilia da Semana

Quem Planta Amor, Colhe o Céu!

Não sei se você já fez uma experiência super interessante que é plantar um feijãozinho e acompanhar todas as suas fases de crescimento… se ainda não fez, te convido a plantar um hoje. Toda semente carrega dentro dela uma vida, que se plantada e cuidada produz um fruto… e no caso do feijão, com certeza dará feijão… assim, se plantar maçã, você não terá como colher mamão. Se você olhar dentro da vagem que nasce deste feijãozinho, encontrará vários feijões. Tem um ditado popular muito verdadeiro que diz o seguinte: O QUE VOCÊ PLANTA, VOCÊ COLHE.

Conta uma história que todas as atitudes de amor que temos aqui na Terra, como ajudar as pessoas que precisam de nós, ajudar os nossos pais a cuidar da casa, cuidar das pessoas que são mais velhas e precisam de nós, ajudar nossos amigos na escola, ajudar nossos irmãos, enfim fazermos o bem… é como se fôssemos ajuntando tijolinhos no céu e quando chegar o nosso dia de ir pra lá, com o tanto de tijolos que tivermos mandado, é que será construída a nossa casa no céu, onde moraremos para sempre. Que tamanho será a sua casa, heim???

Portanto, quem planta AMOR, vai colher amor e ainda vai ganhar uma enorme casa no céu. E quanto mais amarmos, mais perto vamos estar de Jesus e também de Nossa Senhora.

Por falar em Nossa Senhora, imagina só como deve ser lindo o palácio de amor em que ela mora, bem no coração de Deus, isto tudo pelo quanto ela amou e nos ensinou a amar.

Para termos uma idéia do tanto que ela plantou amor, quando chegou o dia dela ir pro céu, os anjos vieram buscá-la.

Hoje Deus preparou algo muito especial para nós. Ele quer nos falar um pouco de sua mãe: Maria Santíssima.

Você assistiu o filme “Maria, mãe de Jesus”? Pois ele mostra um pouco do que Maria viveu e como viveu.

Era uma mulher simples, atenciosa, amorosa, gostava de ajudar as pessoas, era boa filha, e o mais importante, era alguém que rezava e conhecia bem a Palavra de Deus.

Foi a escolhida por Deus Pai, para gerar, cuidar e educar seu filho Jesus, juntamente com José. Maria ficou grávida pela ação do Espírito Santo, após nove meses Jesus nasceu num estábulo, pois não havia lugar para abrigá-los naquela cidade de Belém onde estavam.

Que mulher corajosa não!? Ter seu filho junto com os animais (burrinhos, bois, vaquinhas e etc), mas estava feliz, pois seu filhinho nasceu forte e bonito e era aquecido pelo bafo destes animais.

Voltando alguns dias depois para casa em Nazaré, foi cuidando de Jesus, dando banho, papinha e mama. Conversava com o seu filho, brincava com ele, viu seus primeiros passinhos e escutou suas primeiras palavras.

Maria era feliz!

Com o tempo, Jesus foi crescendo, passou pela adolescência e se tornou adulto. José o ensinou o oficio de carpinteiro e sua mãe o ensinou tudo sobre Deus e sua palavra. Rezavam juntos todos os dias e Jesus foi crescendo cheio de graça e sabedoria.

Maria participou dia-a-dia da vida de seu filho, cozinhando para ele, lavando suas roupas, indo a festas juntos, ensinando a ler e escrever, conhecia suas amigos, iam à Sinagoga (templo = Igreja) rezar e ouvir a Palavra de Deus. Ela sempre foi muito presente na vida de Jesus, renunciava muitas coisas para estar junto dele e servi-lo.

Aos 30 anos, Jesus começou a sair para as cidades vizinhas e povoados distantes, para levar o amor de Deus e mostrar a todos como era viver bem, deixando os pecados de lado, mudando de atitude, ensinando-os a rezar e a ter uma vida nova.

Nessa época Maria não ia junto, mas ficava em oração por toda obra evangelizadora realizada por Jesus e seus discípulos.

Sofreu muito quando o seu filho foi perseguido, bateram nele com chicotes, coroaram-no com espinhos e o levaram para ser crucificado.

Caminhou com Ele até o Calvário e viu o seu Jesus morrer na cruz. Seu coração estava esmagado pela dor do sofrimento.

Quando desceram Jesus da cruz, segurou-o em seus braços pela última vez. As lágrimas escorriam no seu rosto vendo seu filho morto e humilhado injustamente. Mas, mesmo assim seu coração estava cheio de esperança, pois sabia que não terminava ali aquela dor.

Depois presenciou Jesus ressuscitado: que alegria!!!

Maria viveu a sua vida toda santamente, sem reclamar, murmurar, acusar ou julgar quem quer que seja.

E você reclama? Murmura? Acusa os outros? Faz julgamentos?

Maria serviu toda a sua vida, rezou o tempo todo, estava sempre atenta em tudo e guardava tudo no seu coração.

Você ajuda a quem precisa, a qualquer hora? Reza sempre? Fica sempre atento a tudo que acontece para saber o que pode fazer? E ao invés de brigar, falar mal, julgar, guarda tudo em seu coração?

Pois bem, foi por tudo o que ela viveu, como aceitou e acolheu tudo, que recebeu uma grande graça, uma grande bênção, um grande presente de Deus: FOI LEVADA AOS CÉUS DE CORPO E ALMA. O que significa isso?

Você já rezou o terço? Nos “Mistérios Gloriosos” contemplamos a “Assunção de Nossa Senhora ao céu”. É justamente isto: Maria não morreu, foi levada ao céu de corpo e alma. Fico imaginando Jesus vindo buscá-la e juntamente com os anjos levando-a para o céu.

É um mistério lindo, que também nós viveremos um dia, quando Jesus vier em glória.

Se já tivermos morrido, ressuscitaremos e se estivermos ainda vivos veremos com nossos olhos o que Nossa Senhora já viu, a glória de Deus e conheceremos o céu. Você quer esse presente?

Ah! Mas vai depender também de você, das suas atitudes, da sua maneira de amar, de ajudar os outros, de rezar e querer cada vez mais conhecer as coisas de Deus.

Se você tiver dificuldade, pense em como foi a vida de Maria e peça que ela te ensine.

Experimente, vale a pena!!!

Que Maria, Mãe de Jesus e nossa interceda por você e por mim.

Amém!!!

Fonte: Denize Simões Ferreira – Diocese de Franca  

 

MANUAL DE PSICOLOGIA DE MARIA MÃE DE JESUS

Há sete manifestações verbais de Maria nas Escrituras.

Inicia-se com sua primeira resposta/pergunta  -“MAS COMO ISTO PODE SER?” Segue-se por – “FAÇA-SE A SUA VONTADE”. Continua com a terceira (implícita) de sua SAUDAÇÃO À ISABEL. Em resposta ela rejubila com o – MAGNIFICAT. Continuamos – “POR QUE NOS FEZ ISTO?” – “ELES NÃO TÊM MAIS VINHO”.

Pontua-se com – “FAÇAM TUDO O QUE ELE VOS DISSER”.

MAS COMO? – Maria nos faz perceber que sempre existem dúvidas, dificuldades, incertezas, não conhecimentos. Em outras palavras, conflitos.  Nessas primeiras palavras, anuvia suas dúvidas sem querer provas, ou sorrindo incrédula. No caso, ela pensou que ela não sabia como, mas Ele saberia. Nas grandes dificuldades que enfrentamos como pais e mães quase nos afogamos exatamente nas dúvidas, incerteza, temores. Hoje em dia nas opções de valores para os filhos quando uma sociedade insiste em mostrar um lado inverso, chefiado por um outro deus qualquer é pergunta constante em todos os dias – “Mas como?”.

Ela não fica quieta, aguardando toda a comunicação do anjo Gabriel de olhos baixos e sem ousar se manifestar. Não, ela não se cala. Ela ousa e se manifesta. Uma característica de personalidade para os participativos que não temem uma atitude de iniciativa. Dá continuidade àquela conversa e a um novo rumo para a humanidade, demonstrando não haver impossibilidades superiores.

O fato psicológico, deste momento de Maria, fica por conta de ela questionar, querer entender, descobrir, saber o que aceitar. Todos estes raciocínios, referentes a atitude crítica, muitas vezes vitais. Podemos invocar por ela, nestes momentos em que senso crítico é necessidade.

Como num diálogo o anjo Gabriel retoma a palavra que agora era dele e a informa que o Espírito Santo estará com ela e que o poder do Altíssimo lhe cobrirá com sua sombra.

Ela é consciente de que GRANDES COISAS se reservam realmente para aqueles que abrem a porta ao Seu chamado. É a segunda manifestação de Maria. – “SOU A SERVA DO SENHOR, FAÇA-SE O QUE ELE DIZ SER PARA MIM”.

Este foi o SIM. Sim para Deus e para todos nós.

Como fator psicológico, desta passagem bíblica, fica o que a psicologia mais gosta – tomar consciência, vivenciar, tornar-se presente no que é preciso e válido.   A terceira manifestação nos vem implícita pela saudação de Maria a sua prima Isabel, que com sua resposta de alegria ouve a continuidade do quarto momento de pronunciamento de Maria. “MINHA ALMA GLORIFICA AO SENHOR, MEU ESPÍRITO EXULTA DE ALEGRIA EM DEUS MEU SALVADOR, PORQUE OLHOU PARA SUA POBRE SERVA”. É muito importante reavivar esta capacidade de auxílio, altruísmo, extroversão em ir alem de si mesma. Muitas famílias são marcadas pelo egoísmo, constante de ser apenas elas, serem ‘centros egocêntricos’ do mundo, não se ensinando a colaboração, a ajuda nas dificuldades de outras pessoas e a abrir espaços necessários. Há todo um fator psicológico em partilhar, cooperar e conviver. Ainda pelo Magnificat ela demonstra uma maravilhosa auto-estima – “O Senhor fez em mim maravilhas…”

Hoje em dia acha-se que as características da auto-estima estão voltadas para se defender do que se acha que é baixa-estima, muito questionável principalmente em relação à educação de filhos. Fica tudo invertido e auto-estima merece outro conceito. Vale analisar toda esta passagem completa, pois toda a maravilha do MAGNIFICAT nos mostra o poder, a bondade a misericórdia de Deus acompanhando um bom princípio de auto-estima.

…E assim Jesus nasce e vai crescendo acompanhado por Maria. Poderíamos dizer que os dois crescem se acompanhando. Mãe também deve estar em constante crescimento para si mesmo e para seus filhos. – Mãe em crescimento. Mulher em crescimento. Crescer positivo, não imitando ou paralisando-se aos filhos mesmos ou querendo fazer suas coisas. Crescer para o mundo, com suas novidades, com suas ameaças, com suas atitudes. Tomar parte do mundo, pois ninguém faz se não é. Mãe não é só para prover recursos materiais e necessários, mas também inserir seu filho com elementos positivos neste mundo que aí está. Maria estava presente nas Bodas de Cana, ela estava presente aos pés da cruz.

No quinto momento o pronunciamento de Maria é a pergunta aflita feita a seu Filho com 12 anos de idade: -“POR QUE VOCÊ FEZ ISTO?”.

Na resposta que Ele estava se ocupando das coisas de seu Pai ela guardou em seu coração, mesmo que não a compreendesse bem.

Esta pergunta é constantemente feita pelos pais, sempre. Sabe-se bem o que é um momento torturante. É momento de apelos, orações, ameaças, temores fortes. Mas temos que corresponder às situações para poder encaminha-las para o lado positivo. Não ter receio de perguntar. Esta atitude é muitas vezes bem difícil. Saber respeitar, reorientar, acompanhar os filhos.

…E Ele e sua mãe continuavam em seus crescimentos.

E foram a uma festa de casamento.

No sexto momento ela fala diretamente com seu Filho, adulto, ao perceber que havia algo faltando. Ela avisa a seu Filho – “ELES NÃO TÊM MAIS VINHO”. Ele respondeu que não era ainda a hora dEle, mas ela insiste, pois ela sabe que sempre Ele lhe atende. E seu sétimo e último pronunciamento firme, seguro – “FAZEI TUDO O QUE ELE VOS DISSER” – parece um legado constante para o que devemos fazer.

Reler os evangelhos e buscar inspiração nos valores que passamos para nossos filhos. Na cruz Jesus apresenta Maria e João como mãe e filho. Jesus também diz, em outro momento, que seriam seus irmãos todos aqueles que ouvissem a palavra do Pai. Mas, pensamos que neste momento das Bodas de Cana é a própria Maria quem assume a maternidade de todos nós.

Este foi o primeiro milagre da vida pública de Jesus. Ele é introduzido na vida pública pelas palavras e, novamente, iniciativa de Maria, a mesma que lhe dá a vida física. Ele até titubeia a respeito de não ser sua hora, mas ela é firme, consciente e clara.

Desde o reencontro aos doze anos, para chegar neste ápice das bodas de Cana que não limitou negativamente seu filho, muitos usariam a palavra castração. Respeitou suas necessidades para Sua missão. Acompanhou seu desenvolvimento intelectual (sabe-se que Ele era conhecedor das Escrituras) e o “lançou” na vida pública.

Não deve ter sido nada fácil, embora sublime, ser mãe do Jesus humano. Mas ela, que desde a Anunciação percebemos não ser cabisbaixa demonstra acreditar na sua positiva autoridade. Autoridade dizendo (à humanidade) para fazermos tudo o que Ele nos dissesse. O que implicitamente era uma afirmação (ordem!) para que Ele fizesse o que era necessário.

Ela sempre pensa no bem dos outros, presta atenção aos que os rodeiam e esse desenvolvimento social é crescente desde o Jesus bebê convivendo com pastores, magos e homens de todas as classes e diferenças.

A maior psicologia de Maria é descobrir que nas fraquezas, nos sofrimentos, nas incertezas há toda a contrapartida da força, da transformação.

De fato Maria é um belo exemplo psicológico a ser refletido.

É Mãe por inteiro, pois sofreu, alegrou-se, desenvolveu-se junto com seu Filho, a ponto de não se intrometer, mas o encaminhando sendo, até, um ponto de referência para sua vida pública, o seu ‘deixar o ninho’.

Um bom lembrete – somos todos irmãos de seu Filho.

Fonte: Maria Lúcia Pedroso Yoshida

Vida Religiosa

Muitos estão sendo vencidos pelo medo de seguir, até o fim, o projeto de Jesus
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

“O hábito não faz o monge”, diz o provérbio, mas, sem dúvida, chama um pouco, ou muita, atenção. Talvez uma criança curiosa tenha nos incomodado com perguntas inocentes querendo saber: “Por que aquela pessoa estava vestida daquele jeito?” Claro que podemos sair da pergunta com uma resposta curta e grossa: “É uma freira” ou “É um frei”. E se a criança insistir, querendo saber mais, saberíamos responder à altura e com gosto? Ou nos esconderíamos atrás do banal “deixa pra lá”, equivalente a não saber ou ao não querer responder? Tenho certeza: digam o que quiserem, finjam não ver, ignorem a presença deles e delas, mas os religiosos e as religiosas chamam atenção. Não porque queiram isso. Mas – ou por usarem o hábito ou pelo jeito – obrigam-nos a perguntar por que eles e elas escolheram aquela forma de viver. Por quê? Insisto sobre os questionamentos pelo fato de a vida religiosa também ter mudado. A freira que anda pelas casas do bairro pobre é formada em Pedagogia e está estudando Ciências Sociais. O monge, que abre a porta do convento e acolhe os mendigos é mestre em Letras pela PUC de São Paulo. O frei que anda de bicicleta, evitando os buracos e a lama da periferia, é advogado. A irmãzinha que cuida da creche é enfermeira diplomada e continua estudando Medicina de noite. O irmão que está no acampamento dos sem-terra é doutor em Teologia. E assim poderíamos continuar. Quem tem uma imagem dos irmãos e das irmãs como de “coitadinhos” meio perdidos e fora do tempo está muito enganado. Não somente porque eles e elas, hoje, estudam mais, mas porque continuam sabendo muito bem o que querem. Eles têm um grande projeto de vida. Querem ser felizes vivendo o Evangelho. Querem contribuir com a sociedade de hoje seguindo as pegadas de Jesus Cristo. Se a vida religiosa podia parecer, no passado, um refúgio para ter uma “certa” tranqüilidade, ou uma fuga por medo das coisas perigosas do mundo, hoje é exatamente o contrário. Vida religiosa não é para pessoas fracas. É cada vez mais exigente. Dizem que o celibato para o Reino de Deus e a virgindade consagrada são coisas para sexualmente frustrados. A pobreza é considerada excesso de loucura e inaptidão administrativa. A obediência, uma inútil inibição dos projetos pessoais, uma afronta à liberdade individual. Essas coisas são bobagens, claro, mas só para os acomodados, os que ficam alucinados e iludidos pelas coisas do mundo, para os que adoram encontrar defeitos nos outros e só sabem criticar. Por isso, a vida religiosa sempre será questionada e sempre chamará atenção. O caminho é difícil e a porta estreita. É preciso empurrá-la para entrar, não é para todos. Se não entendemos tudo isso, ou não sabemos responder bem às perguntas acima, tenhamos ao menos o bom senso de não falar à toa e, quem sabe, aprendamos a agradecer a essas pessoas, que pagam com a própria vida as suas escolhas. Se não fosse assim, a Irmã Dorothy Stang não teria morrido. O padre Bossi, do PIME, não teria sido seqüestrado lá nas Filipinas. Os religiosos e as religiosas podem ter muitos defeitos, como todos, mas não são nem bobos nem ingênuos. A chamada crise da vida religiosa pode ser pela quantidade; mas com certeza não o é pela qualidade. Talvez aos jovens, hoje, falte coragem. Estão sendo vencidos pelo medo de seguir, até o fim, o projeto de Jesus. Sentem medo de parecer diferentes ou de incomodar aos outros; de começar a mudar a história, mudando a própria vida. Por isso Jesus repetiu tantas vezes aos discípulos: não tenham medo… E o repete ainda em nossos dias. Para nós todos.

 

A VIDA CONSAGRADA

Na visão do apóstolo São Paulo (1Cor 12, 4-11), a comunidade cristã é constituída com uma riqueza incalculável de dons e ministérios, todos sob a ação do Espírito Santo, em vista do bem comum. É a chamada diversidade na unidade, um corpo com membros diferentes e distintos na sua ação. Assim temos na Igreja a Vida Religiosa, organizada atualmente nos chamados Institutos de Vida Consagrada. São instituições existentes e aprovadas pela Igreja, nas quais as pessoas livremente ligam-se, de forma muito natural, buscando objetivos muito definidos. E isto é fruto da ação do Espírito Santo, enriquecendo e animando a caminhada da Igreja. Uma das características de quem entra para a Vida Religiosa, é fazer os votos dos Conselhos Evangélicos, isto é, voto de castidade, de pobreza e de obediência. Além disto, devem viver a vida fraterna em comunidade, onde tudo é colocado em comum e ninguém é dono de nada. O desprendimento deve ser total, como “sinal” do Reino de Deus. A Vida Religiosa santifica e dá força à Igreja na sua história. É o Espírito de Deus quem vai despertando, nos chamados “fundadores”, um estilo de vida cristã com objetivos específicos. A Vida Religiosa é uma consagração da pessoa a Deus. É como um verdadeiro matrimônio que se estabelece com Deus, numa doação exclusiva e contínua. Os seus membros fazem votos, que podem ser perpétuos ou temporários, ficando estes últimos, sujeitos à renovação de tempo em tempo. Faz também parte da estrutura da Vida Religiosa a fraternidade vivida em comum por todos os seus membros. Após os votos, ou a partir do momento em que um membro passa a pertencer oficialmente ao Instituto, os seus bens são colocados em comum. Ele perde a capacidade de ter bens pessoais, mas no conjunto, é beneficiado por tudo o que é de todos. Na verdade é chamado a viver na pobreza, porém não lhe faltando o necessário para a sua vivência na comunidade. A vida religiosa acontece a partir de uma vocação divina. E um dos primeiros passos, de forma mais oficial, é o noviciado. Ali começa a vida no Instituto (Congregação). O vocacionado tem que ser admitido pelo Superior, mediante algumas condições: idade mínima de dezessete anos, saúde suficiente e comprovada maturidade para assumir tal estado de vida. Um destaque todo especial deve ser dado à liberdade na decisão. Ninguém pode ser forçado ao fazer a própria escolha do estilo de vida na Igreja. O noviciado deve cultivar nos noviços a vivência das virtudes humanas e cristãs, a busca da perfeição pela oração e pela renúncia de si mesmos, a contemplar os mistérios da salvação, a ler e meditar as Sagradas Escrituras, a prestar culto a Deus pela liturgia, a levar uma vida consagrada a Deus e aos homens, mediante os conselhos evangélicos, com os votos da obediência, da castidade e da pobreza, numa visão de amor à Igreja. O noviciado prepara a pessoa para ser admitida na profissão temporária. E é um tempo, não só de formação, mas também de discernimento e de prova. Existe uma grande seriedade no processo que culmina com a profissão religiosa, quando o membro assume publicamente a observância dos votos, consagrando-se a Deus pelo ministério da Igreja. A partir daí ele é incorporado ao Instituto com os direitos e deveres que lhes são próprios. A riqueza da Vida Religiosa enriquece também a Igreja. Os religiosos “puxam” a Igreja. Fazem com que ela reflita e tome posições concretas na sociedade. São quase como uma oposição, que faz com que, quem está na situação, mexa-se e coloque-se a serviço. Mas é a Igreja em movimento, fazendo acontecer a sua missão no mundo, construindo o Reino de Deus.

 

VIDA CONSAGRADA: SEGUIR CRISTO CASTO, POBRE E OBEDIENTE
Mirticeli Medeiros / Da Redação

Em todas as épocas mulheres e homens são chamados a vida consagrada

Durante o mês de agosto, a Igreja no Brasil convida os católicos a refletir sobre a riqueza das mais diversas vocações na Igreja e no domingo, 21, todos foram levados a lançar um olhar especial sobre a vida consagrada. O Vaticano possui a Congregação para os Institutos de vida consagrada e Sociedade de Vida Apostólica, órgão instituído em 29 de junho de 1908, que cuida justamente das mais diversas congregações religiosas e institutos de vida consagrada espalhados pelo mundo. A cada ano, o Papa também dirige uma mensagem especial a todos os religiosos e religiosas em 2 de fevereiro, dia mundial da vida consagrada. “Deste modo, a vida consagrada, na sua vivencia cotidiana sobre as estradas da humanidade, manifesta o Evangelho e o Reino já presente e operante”, disse o Papa emérito Bento XVI, em 2 de fevereiro de 2011. Ao pensar em vida consagrada, para a maioria, vem à mente as grandes mulheres como Madre Tereza de Calcutá, Edith Stein (Santa Tereza Benedita da Cruz) e tantas outras religiosas que ao entenderem o sentido mais profundo da vocação, traduziram o chamado em doação. Mulheres e homens de várias épocas que encarnaram na vida os conselhos evangélicos da pobreza, obediência e da castidade configurando-se a Cristo, pobre, casto e obediente. “A vida religiosa, de fato, conduz a pessoa a assumir de forma consciente e concreta o mistério da paixão de Cristo, sua morte e ressurreição. A partir deste fundamento, se forma o homem novo, o religioso e o apóstolo”, afirmou Irmã Maria Ângela, psicóloga e doutora em Vida Consagrada, da Congregação das Missionárias de Santo Antonio Maria Claret.

A vida consagrada não é uma realidade isolada e marginal, mas diz respeito a toda a Igreja’

A formação na vida religiosa A religiosa, que realiza um estudo aprofundado sobre a formação na vida consagrada, destaca a responsabilidade da Igreja perante esta vocação tão nobre, que expressa sua beleza no rosto dos mais diversos carismas, suscitados pelo Espírito Santo, ao longo dos séculos. A Igreja, enfatiza Irmã Maria, entende a importância deste chamado para cumprir com eficácia sua missão universal e por isto, investe nestas vocações sobretudo no tocante à formação. “Em uma chave de leitura educativa e mística da maturidade à luz do mistério pascal, o documento de Diretrizes sobre a formação nos Institutos religiosos, de 1990, revela o processo de maturidade como um programa formativo que dura toda a vida”, salienta. A exortação pós sinodal Vita Consecrata, escrita pelo Papa São João Paulo II , em 1996, expressa bem o apreço da Igreja por esta vocação, destacando que estes religiosos realizam junto a Igreja, sua grande missão: evangelizar. “A presença universal da vida consagrada e o carácter evangélico do seu testemunho provam, com toda a evidência — caso isso fosse ainda necessário —, que ela não é uma realidade isolada e marginal, mas diz respeito a toda a Igreja”, afirma a Exortação de São João Paulo II.

Solenidade da Assunção de Maria Santíssima

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São Lucas 1, 39-56
Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade da Judeia. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Então, erguendo a voz, exclamou: «Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? Pois, logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio. Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor.» Maria disse, então: «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome. A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.» Maria ficou com Isabel cerca de três meses. Depois regressou a sua casa.

Hoje, 19 de agosto, com a Igreja do Brasil, nós celebramos a solenidade da Assunção da Santíssima Virgem aos céus em corpo e alma. Uma solenidade que bem examinada e meditada nos faz refletir: A Virgem Maria jamais realizou façanhas extraordinárias na sua vida. Até mesmo a concepção do verbo de Deus e o Seu nascimento se deram em circunstâncias absolutamente normais que não chamaram a atenção de quem quer que fosse. Nossa Senhora nunca realizou façanhas admiráveis, nunca realizou um milagre em sua vida. Durante os largos anos passados na aldeia de Nazaré, juntamente com seu esposo José e seu filho Jesus, jamais atirou e chamou a atenção de quem quer que fosse, a não ser pelo fato de conhecê-La como uma dona de casa. Alguém que na monotonia da existência lavava, cozinhava, passava, limpava a sua casinha. Mais tarde, depois da ressurreição de Jesus, Maria nunca recebeu um ministério publico ou oficial da igreja. Na verdade nós se quer sabemos o que se passou com a mãe de Jesus depois da morte de Jesus. Uma vida tão humilde, tão simples, aparentemente tão vazia, ou pelo menos vazia de coisas espetaculares aos olhos dos homens, termina com a Glória da Assunção somente a ela devida. Isto nos faz pensar: Deus, ao que tudo indica, prefere as pessoas humildes, simples e podemos dizer, como amava Maria, escondeu-A apenas para Si, de resto, nós praticamente nada sabemos de sua existência. A glória de Maria lhe adviria sim, mas lhe adviria somente no futuro, e não mais neste mundo. Somente após o término de sua existência terrestre entre nós. Conosco também Deus age da mesma maneira, ao que tudo indica a lógica de Deus não se modifica. Deus prefere pessoas humildes, simples, obedientes como Maria, pessoas que Lhe escutam a voz diariamente, que ruminam Suas Palavras em seus corações e que fora dos refletores da mídia e do estardalhaço do povo, crescem e amadurecem para Deus.

 

«Em Cristo, todos serão vivificados, cada qual na sua ordem» (1Cor 15, 22-23)
São Bernardo (1091-1153), monge cistercense e Doutor da Igreja
1º Sermão para a Assunção (a partir da trad. Pain de Cîteaux 32, p. 63 rev.)

Hoje a Virgem Maria sobe, gloriosa, ao céu. É o cúmulo de alegria dos anjos e dos santos. Com efeito, se uma simples palavra sua de saudação fez exultar o menino que ainda estava no seio materno (Lc 1, 44), qual não terá sido sido o regozijo dos anjos e dos santos, quando puderam ouvir a sua voz, ver o seu rosto, e gozar da sua presença abençoada! E para nós, irmãos bem-amados, que festa a da sua assunção gloriosa, que motivo de alegria e que fonte de júbilo temos hoje! A presença de Maria ilumina o mundo inteiro, a tal ponto resplandece o céu, irradiado pelo brilho desta Virgem plenamente santa. Por conseguinte, é justificadamente que ecoa nos céus a acção de graças e o louvor. Ora […], na medida em que o céu exulta da presença de Maria, não seria razoável que o nosso mundo chorasse a sua ausência? Mas não, não nos lastimemos, porque não temos aqui cidade permanente (Heb 13, 14), antes procuramos aquela aonde a Virgem Maria chegou hoje. Se já estamos inscritos no número de habitantes dessa cidade, convém que hoje nos lembremos dela […], compartilhemos a sua alegria, participemos nesta alegria que hoje deleita a cidade de Deus; uma alegria que depois se espalha como o orvalho sobre a nossa terra. Sim, Ela precedeu-nos, a nossa Rainha, precedeu-nos e foi recebida com tanta glória que nós, seus humildes servos, podemos seguir a nossa Rainha com toda confiança gritando [com a Esposa do Cântico dos Cânticos]: «Arrasta-me atrás de ti. Corramos ao odor dos teus perfumes!» (Ct 1, 3-4) Viajantes sobre a terra, enviamos à frente a nossa advogada […], a Mãe de misericórdia, para defender eficazmente a nossa salvação.

 

Maria assunta ao Céu
Padre Pacheco

Hoje, dia do Senhor, domingo, quando celebramos a Páscoa dominical da Ressurreição do Senhor, queremos também celebrar a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora. O Papa Pio XII, em 1950, proclama o Dogma da Assunção da Santíssima Virgem Maria, que consiste no seguinte: “Cumprido o curso de sua vida terrena, Maria foi assunta ao Céu em corpo e alma”. Para dizer que: 1º) Maria tem especial participação na Ressurreição do Filho – Ela está unida à glória do Filho; 2º) Ela é a antecipação da sorte dos eleitos – primícias e exemplo da Igreja. Segundo a Tradição da Igreja, logo após a Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, João a teria levado para morar com ele, assumindo-a como mãe, numa cidade chamada Éfeso; todavia, antes de Maria vir a morrer – entenda-se esta morte não como conseqüência do pecado, pois Maria não pecou. O termo “dormição” é para dizer de uma morte diferenciada, não como qualquer morte fruto de pecado; a verdade é esta: Maria morreu – João a teria trazido para Jerusalém. Maria morre e é assunta em Jerusalém; pode se dizer que ela tenha sido velada no Monte Sião, em Jerusalém e levada para ser sepultada ao lado do Monte das Oliveiras, túmulo este que se encontra vazio – obviamente – e que pode ser visitado e visto até hoje. A Santíssima Virgem Maria participa da Glória do Filho e é a antecipação da sorte dos eleitos; isso significa que já existe uma criatura ressuscitada no Céu, em copo e alma: Maria. Mas tudo isso devido ao fato de Deus lhe ter preparado para esta missão tão linda e particular: ser a Mãe do Filho d’Ele; todavia, houve uma colaboração e uma correspondência pela parte de Nossa Senhora. Para dizer que ela é modelo de como ser Igreja. O devoto da Virgem Maria é aquele que toma a decisão de viver as virtudes dela, a saber: Mulher do silêncio: Precisamos aprender de Maria a silenciar o nosso coração de todas as agitações do mundo e de todo barulho, fruto das realidades que são contrárias à vontade de Deus na nossa vida. Silenciar é muito mais que não fazer barulho; silenciar é ter a coragem de retirar-se constantemente para encontrar-se com o Senhor e aí escutar o Seu Coração. Mulher da Palavra: A Santíssima Virgem rezava os salmos; era íntima da Palavra de Deus; prova disso é ela repetir o Cântico de Ana ao se encontrar com Isabel, cântico este lá do Antigo Testamento. Muito mais que o fato de narrar esse cântico, a prova de que a Virgem Maria é a mulher da Palavra é a sua total confiança na misericórdia e na providência de Deus, que regia toda a sua vida e a vida do mundo. Mulher do serviço: Maria sobe a montanha para visitar a sua parenta Isabel; ela vai à casa da prima não tendo como prioridade tratar de serviços domésticos, mas vai para levar o mistério até a vida daquela mulher, que, com certeza, muitos traumas trazia pelo fato de ter sido estéril por muitos anos –  fato tido como sinal de maldição. O mistério em Maria, que é o próprio Deus, a leva até a prima, para que esta possa ser curada. Para dizer que devemos ser, efetivamente, portadores e condutores do mistério, que é Deus, às pessoas, pois Ele se encontra em nós, dentro de nós, desde o momento do nosso batismo. Mulher da obediência: Maria só tinha olhar para a vontade de Deus, para obedecer ao Todo-Poderoso nas circunstancias ordinárias da vida; é ela quem diz a cada um de nós – única frase de Maria na Sagrada Escritura, de forma direta: “Fazei tudo o que Ele vos disser.” Viver esta Solenidade da Assunção de Maria, ser devoto de Maria, por excelência, nada mais é que obedecer a Deus e fazer com que Ele seja o Senhor, verdadeiramente, da nossa vida.

 

Na escola de Maria aprendemos a servir
Padre Aloísio

Quando se caminha na fé não se pergunta, mas se obedece, porque a fé nos dá esta certeza. Obedeça a Deus e obedeça a Igreja, porque quando se vive a fé, tudo é possibilidade de encontro com Deus. Maria nos ensina o caminho da missionariedade, ela sobe a montanha para prestar serviço. A nossa visita à casa de alguém precisa ser carregada dessa espiritualidade. Na escola de Maria a missão é familiar, não é estranha. Se vai na casa de alguém é para prestar o grande serviço de amor. Quando sobe a montanha, que quer dizer lugar de oração e contemplação, não significa subir só para ficar parado, mas também para dizer coisas importantes, pois lá no alto é que Maria pode comunicar a profecia, chegar ao coração de Isabel, e no alto foi comunicado a boa nova e lá também Maria presta serviço.  Quem reza não pode rezar somente olhando para as suas necessidades e problemas, mas a oração deve ser um serviço para todos. Quando rezamos, nos lembramos de todos que nos pedem oração, isso mostra que nos colocamos a serviço do outro. Não deixe de prestar o seu serviço também na vida de oração, para aqueles que te pedem oração e também por aqueles que não estão te pedindo, mas que por amor você não deixe de orar. As riquezas do amor de Deus que chegam até nós, precisam ser transmitida aos outros. Não se vai transformar nenhuma pessoa se não for por amor. O amor que nós somos convidados a estudar com Maria é o amor Ágape, amor de fraternidade, amor de irmão. É lá na montanha que Nossa Senhora nos ensina o que é ter vida interior. Nós somos treinados a viver olhando para o externo, e nos deixamos apavorar, nos deixamos influenciar, e ao perceber as situações do mundo, vivemos tomados de revoltas e rancor, porque ouvimos muito barulho. Maria nos ensina em uma das suas virtudes: o silêncio. Este silêncio que nos ensina a ouvir a voz mais importante, a voz do Cristo. Mas também nos faz ouvir a voz dos nossos irmãos que nos pedem ajuda. A Festa da Assunção nos convida a dar esse espaço que Deus tem direito, de ser Deus dentro de nós, onde nós poderemos ouvir a voz e também o envio, porque esta missão tem missão de eternidade. Não podemos prestar serviço a Deus como se fosse algo comum, para servir a Deus é preciso servir com qualidade, empenho e amor. Para Deus não basta meia resposta, Deus quer tudo, Ele não quer migalhas, porque Ele se deu para nós no seu Filho por inteiro. Assim fez a Virgem Maria, ofereceu o sangue a carne a vida por amor, e por isso, Deus concede a ela a graça de ser aquela que nos precede na eternidade, que nos indica o caminho, mas para isso é preciso ser fiel. Fidelidade a Deus. “Na escola de Maria aprendemos a ser missionários” Quando se é fiel pode se cantar com todo entusiasmo as maravilhas do Senhor. Porque Ele não escolhe pessoas preparadas, mas escolhe os fracos e frágeis para manifestar a sua força e fazer maravilhas. Maria na sua fraqueza, lá na região de Nazaré, foi escolhida para manifestar a força de Deus, por isso ela canta o magnificat: “A minha alma glorifica o Senhor, meu espírito exulta de alegria, em Deus meu salvador”. Esse é um dos cânticos mais belos, porque ela não cantou só com os lábios, mas com todo o coração. Qual é a canção que você precisa cantar hoje na sua vida? A canção da adoração; da oração que diz a Deus que você depende d’Ele, porque esta é a melhor oração que precisamos cultivar em nós. Fruto disso tudo é essa graça de participar desse mistério tão profundo da gloria de seu Filho e de toda Trindade. Mas para isso é preciso ter a coragem de não trazer no seu corpo a mentira, estéticas, imoralidades e exaltações a um corpo vazio que não tem vida, porque um corpo vazio de Deus morre, mas um corpo habitado por Deus é fonte de vida. Você não pode tornar o seu corpo um esgoto. Nós precisamos proclamar com a nossa vida as maravilhas de Deus. Deus não faz “cadastro” para saber quanto você vai dar de lucro, ou para saber até quando você vai dar lucro para as muitas ilusões do mundo. Ele simplesmente oferece a você uma possibilidade, e sem fazer “cadastro” te acolhe, porque para ser santo não precisa fazer cadastro. Para mostrar que seu corpo é morada de Deus você não precisa se mostrar, mas precisa se recobrir de dignidade, porque você que se veste assim não será confundido. Precisamos nos preocupar em nos cuidar por inteiros, porque não somos metade, podemos até ficar aos cacos, mas Deus sabe pegar os cacos e transformá-los em uma linda obra de arte. Pedacinhos de nós colocados em Deus se torna uma linda obra. Na escola de Maria tudo é motivo de cantar a gloria de Deus, quer na alegria, na dor, nas incompreensões. “O Senhor fez em mim maravilhas e santo é seu nome”. Não podemos duvidar disso, pois Deus fez, faz e continuará fazendo maravilhas em nós. Nessa escola de Maria que você vai encontrar a felicidade e a razão da sua vida que é Jesus Cristo.

O Matrimônio e a Família no Plano de Deus

1. O que ensina a Igreja sobre a família?

A Igreja ensina que a família é um dos bens mais preciosos da humanidade.

2. Por que é um bem tão precioso?

A família é um dom precioso porque forma parte do plano de Deus para que todas as pessoas possam nascer e desenvolver-se em uma comunidade de amor, ser bons filhos de Deus neste mundo e participar na vida futura do Reino dos Céus: Deus quis que os homens, formando a família, colaborem com Ele nesta tarefa.

3. Onde estão revelados os planos de Deus sobre o matrimônio e a família?

Nas Sagradas Escrituras -a Bíblia-, se narra a criação do primeiro homem e da primeira mulher: Deus os criou a sua imagem e semelhança; os fez varão e mulher, os abençoou e os mandou crescer e multiplicar-se para povoar a terra (cf. Gn 1, 27). E para que isto fosse possível de um modo verdadeiramente humano, Deus mandou que o homem e a mulher se unissem para formar a comunidade de vida e amor que é o matrimônio (cf. Gn 2, 19-24).

4. Que benefícios traz formar uma família como Deus manda?

Quando as famílias se formam segundo a vontade de Deus, são fortes, sanas e felizes; possibilitam a promoção humana e espiritual dos seus membros contribuindo à renovação de toda a sociedade e da mesma Igreja.

5. Como ajuda a Igreja aos homens para conheçam o bem da família?

A Igreja oferece sua ajuda a todos os homens recordando-lhes qual é o desígnio de Deus sobre a família e sobre o matrimônio. Corresponde de modo especial aos católicos compreender e dar testemunho dos ensinamentos de Jesus neste campo.

6 . Como é possível realizar plenamente o projeto de Deus sobre o matrimônio e a família?

Somente com a ajuda da graça de Deus, vivendo de verdade o Evangelho, é possível realizar plenamente o projeto de Deus sobre o matrimônio e a família.

7. Por que existem tantas famílias quebradas ou com dificuldades? Por que às vezes parece tão difícil cumprir a vontade de Deus sobre o matrimônio?

Adão e Eva pecaram desobedecendo a Deus e desde então todos os homens nasceu com o pecado original. Este pecado e os que cada pessoa comete tornam fazem que seja difícil conhecer e cumprir a vontade de Deus sobre o matrimônio Por isso Jesus Cristo quis vir ao mundo: para redimir-nos do pecado e para que pudéssemos viver como filhos de Deus nesta vida e alcançar o Céu. É necessária a luz do Evangelho e da graça de Cristo para devolver ao homem, e também ao matrimônio e à família, sua bondade e beleza originais.

8. Quais são as conseqüências para a sociedade por não cumprir o plano de Deus sobre a família e o matrimônio?

Quando a infidelidade, o egoísmo e a irresponsabilidade dos pais com respeito aos filhos são as normas de conduta, toda a sociedade se vê afetada pela corrupção, pela desonestidade de costumes e pela violência.

9. Qual é a situação da família e nossa sociedade?

As mudanças culturais das últimas décadas influenciaram fortemente no conceito tradicional da família. Entretanto, a família é uma instituição natural dotada de uma extraordinária vitalidade, com grande capacidade de reação e defesa. Não todas estas mudanças foram prejudiciais e por isso o panorama atual sobre a família se pode dizer que está composto de aspectos positivos e negativos.

10. Quais aspectos positivos se notam em muitas famílias?

O sentido cristão da vida influenciou muito para que em nossa sociedade se promova cada vez mais: uma consciência mais viva da liberdade e responsabilidades pessoais no seio das famílias; o desejo de que as relações entre os esposos e dos pais com os filhos sejam virtuosas; uma grande preocupação pela dignidade da mulher; uma atitude mais atenta à paternidade e maternidade responsáveis; um maior cuidado com a educação dos filhos; uma maior preocupação pelas famílias para que se relacionem e se ajudem entre si.

11. Quais aspectos negativos encontramos nas famílias do nosso país?

São muitos e todos eles revelam as conseqüências que provoca o rechaço do amor de Deus pelos homens e mulheres da nossa época. De modo resumido podemos indicar: uma equivocada concepção da independência dos esposos; defeitos na autoridade e na relação entre pais e filhos; dificuldades para que a família transmita os valores humanos e cristãos; crescente número de divórcios e de uniões não matrimoniais; o recurso fácil à esterilização, ao aborto e a extensão de uma mentalidade anti-natalista muito difundida entre os matrimônios; condições morais de miséria, insegurança e materialismo; a emergência silenciosa de grande número de crianças de rua fruto da irresponsabilidade ou da incapacidade educativa dos seus pais; grande quantidade de pessoas abandonadas pela falta de famílias estáveis e solidárias.

12. O que podemos fazer para que os sinais negativos não prevaleçam?

A única solução eficaz é que cada homem e cada mulher se esforcem para viver nas suas famílias os ensinamentos do Evangelho, com autenticidade. O sentido cristão da vida fará que sempre prevaleçam os sinais positivos sobre os negativos, por mais que estes nunca faltem.

13. Jesus Cristo nos deu algum exemplo especial sobre a família?

Sim, porque Jesus Cristo nasceu em uma família exemplar; seus pais foram José e Maria. Ele os obedeceu em tudo (cf. Lc 2, 51) e aprendeu deles a crescer como verdadeiro homem. Assim pois, a família de Cristo é exemplo e modelo para toda família.

14. Estes ensinamentos são válidos para a família dos dias de hoje?

Os exemplos da Sagrada Família alcançam os homens de todas as épocas e culturas, porque o único modo de conseguir a realização pessoal e a dos seres amados é criar um lar onde a ternura, o respeito, a fidelidade, o trabalho, o serviço desinteressado sejam as normas de vida.

15. Quem deve sentir-se responsável por fortalecer a instituição familiar?

Cada homem é responsável de uma maneira ou de outra pela sociedade em que vive, e portanto da instituição familiar, que é o seu fundamento. Os casados, devem responder pela família que formaram para que seja segundo o desígnio de Deus: os que permanecem solteiros, devem cuidar daquela na qual nasceram. Os jovens e adolescentes têm uma particular responsabilidade de prepararem-se para construir estavelmente sua futura família.

Fonte: Catecismo da família e do matrimônio
Padres Fernando Castro e Jaime Molina  

 

Se nos amamos e vamos nos casar, por que não podemos ter relações?
“A relação sexual dentro do matrimônio defende a integridade do amor: seja a dos cônjuges entre si, seja o amor deles para com o fruto natural do matrimônio: o filho”
Roma,  12 de Agosto de 2013  (Zenit.org)  Pe. Anderson Alves

Essa é uma pergunta que alguns namorados cristãos comprometidos se fazem. Se eles sentem um amor real, por que não podem expressá-lo num gesto de intimidade que poderia ajudar a crescer o afeto entre os dois? Se a união corporal será comum dentro de pouco tempo, por que não iniciá-la quando o amor parece já ser maduro? Certamente, a maioria dos cristãos aceita que uma relação realizada por pessoas que mal se conhecem é irresponsável e pecaminosa. Mas não seria exagerado dizer o mesmo do ato realizado por namorados sinceros, fiéis e que estão (quase) decididos a se casar?

Para responder a essa questão é preciso lembrar que a Igreja não tem autoridade para mudar o que Deus revelou. A Palavra de Deus é sempre viva e eficaz, é uma luz que guia nossos passos. E ela ensina: “O corpo não é para a fornicação, e sim para o Senhor, e o Senhor é para o corpo”; “Fugi da fornicação. Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o impuro peca contra o seu próprio corpo”[1]. Esses textos expressam o valor altíssimo do corpo humano, que é templo do Espírito Santo, e não algo que possa ser usado ou abusado. E a fornicação (ato sexual fora do casamento) é um ato pecaminoso, porque reduz o valor do corpo humano ao de uma coisa, a algo utilizável. As relações sexuais não são meros atos físicos, mas devem ser expressão de algo mais profundo: a doação total e incondicional de uma pessoa a outra. E essa doação é real e se concretiza com o pacto matrimonial. Por isso, o ato sexual é bom quando busca o bem do casal e está aberto à transmissão da vida[2]. Esses são os dois fins do matrimônio.

Mas como aceitar isso nos nossos dias? Há algum motivo racional que poderia convencer-nos da verdade desses ensinamentos? Cremos que há vários motivos. Apresentamos agora alguns.

1. A relação sexual dentro do matrimônio defende especialmente a mulher e o possível fruto dessa relação: o filho. Se a geração de um filho se dá antes do matrimônio, o que geralmente ocorre? Esse novo ser passa a ser visto mais como um problema do que como um dom. Pois a concepção de um filho não obriga ao homem (o pai) a se casar. Se o pai é reto e tem um sentido apurado de justiça, manterá suas obrigações financeiras para com esse filho e para com a mulher. Mas isso não basta para a criança. Cada filho tem o direito de nascer dentro de um matrimônio sólido, no qual os pais busquem a felicidade juntos. Dentro do matrimônio, o filho é seu fruto natural, está protegido social e juridicamente e é naturalmente visto como um dom, e não como um fruto indesejável;

2. Em geral, quem vive a castidade no namoro terá menos dificuldades de viver a fidelidade ao matrimônio. Hoje em dia, o “permissivismo” moral é grande. A “educação sexual” transmitida pelos meios de comunicação e, às vezes, pelas escolas, diz somente: “faça o que você quiser, desde que seja com preservativos e escondido dos seus pais”. Para vencer nesse ambiente hostil e irresponsável é necessária uma verdadeira educação à castidade, que é a proteção do amor autêntico. E o período de namoro serve para isso: para que o casal cresça no conhecimento mútuo, elabore projetos comuns e adquira virtudes indispensáveis para a vida matrimonial. Se o casal vive bem esse período, sem chegar a ter intimidades próprias da vida matrimonial, passará por uma verdadeira escola de castidade e de fidelidade. Constatamos que pecar contra a castidade antes do matrimônio é tão fácil quanto pecar contra a fidelidade dentro dele. Assim, estará mais preparado para viver a fidelidade quem se preparou bem antes, vivendo a castidade no namoro;

3. O amor matrimonial não se reduz a um exercício físico, mas é a comunhão total de vida. Certa vez, disse Chesterton: «Em tudo que vale a pena, até em cada prazer, há um ponto de dor ou tédio que deve ser preservado, para que o prazer possa reviver e durar. A alegria da batalha vem depois do primeiro medo da morte; a alegria em ler Virgílio vem depois do tédio de aprendê-lo; o brilho no banhista vem depois do choque gelado do banho do mar; e o sucesso do casamento vem depois da decepção com a lua-de-mel»[3]. O que diz esse autor, que foi um homem bem casado por muitos anos, é uma verdade comprovável. O prazer do ato sexual certamente existe, mas não é tudo na vida matrimonial. O ato sexual é, como todo ato humano, sempre ambíguo, pois ao mesmo tempo em que realiza quem o faz, causa certa frustração, porque o coração humano é feito para o infinito e não se contenta com atos singulares. Todo jovem deve reconhecer isso, que faz parte de todo processo de maturação, e o ideal é que isso ocorra dentro do matrimônio. Só quem supera a “decepção” inicial pode ser feliz no matrimônio, pois a felicidade vem de Deus, do amor fiel e responsável renovado diariamente em atos de doação mútua. O amor não é o mesmo que o prazer, mas é uma entrega voluntária e fiel, que supera todas as dificuldades.

4. Boa parte dos casais que fazem planos sérios de casamento acabam por se separar antes que isso se realize. Nem o namoro e nem o noivado dão ao casal o mesmo nível de comprometimento um com o outro que só dá o matrimônio. Por isso, quem tem relações sexuais antes do casamento corre o sério risco de se entregar a alguém com quem, ao fim, não se unirá sacramentalmente. E tal pecado sempre marca profundamente a alma e traz sérias consequências (principalmente afetivas), ainda que seja plenamente perdoado por Deus após uma boa Confissão.

Nos tempos atuais as pessoas “usam” o sexo como se fosse um jogo. E o que ocorre? Cada vez menos pessoas adquirem a capacidade de fazer escolhas definitivas, cada vez menos pessoas se casam. O ato matrimonial, ao qual Deus quis unir um prazer sensível, deve produzir um prazer superior, de natureza espiritual: a alegria de saber que se está cumprindo a vontade de Deus. E o ato de gerar um filho é algo de milagroso, no qual se dá a união das partes materiais provenientes dos pais e a criação de uma nova alma humana, diretamente por Deus. O prazer que os pais têm ao saber que estão colaborando com Deus é algo único.

A resposta à pergunta diz, portanto, que o amor não é somente um sentimento vago, nem mesmo se reduz ao prazer. Mas é algo bem prático e exigente, que implica a vontade concreta de colaborar com os planos de Deus, que concebeu o ato matrimonial como a expressão perfeita de uma doação integral de duas pessoas, um homem e uma mulher, colaborando assim com a mesma obra criadora de Deus.

[1] 1Cor 6, 13 e 18; cfr.: Tob 4, 13; At 21, 25; Ef 5, 3.
[2]  Cfr. Catecismo da Igreja Católica, § 2361-2363.
[3] Chesterton, O que há de errado no mundo, EditoraEcclesiae,Campinas2012.

 

A restauração da família em Cristo

A restauração das famílias atuais em Jesus Cristo

O Papa São João Paulo II chamou a família de “Santuário da vida”  (Carta às Famílias, 11). Santuário quer dizer “lugar sagrado”. É ali que a vida humana surge como de uma nascente sagrada, e é cultivada e formada. É missão sagrada da família, guardar, revelar e comunicar ao mundo o amor e a vida. É a “a Igreja doméstica” (LG, 11) onde Deus reside, é reconhecido, amado, adorado e servido. Disse o Concílio Vaticano II que: “A salvação da pessoa e da sociedade humana estão intimamente ligadas à condição feliz da comunidade conjugal e familiar” (Gaudium et Spes, 47) e “constitui o fundamento da sociedade” (GS, 52).

Desde que Deus desejou criar o homem e a mulher “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26), Ele os quis “em família”.  Se a família for destruída, a sociedade também o será. O Catecismo da Igreja Católica (CIC), diz que ela é “vestígio e imagem da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sua atividade procriadora e educadora é o reflexo da obra criadora do Pai” (§ 2205). Jesus nasceu e viveu numa família; fez seu primeiro milagre nas Bodas de Caná onde nascia uma família.

Mais do que nunca hoje a família é ameaçada e atingida, como diz o  Papa João Paulo II, pela praga do divórcio, das “uniões livres”, do aborto, da eutanásia, do chamado “amor livre”, do “sexo seguro”, da “produção independente”, dos “casamentos” de homossexuais, dos preservativos, etc., frutos de uma sociedade mergulhada no consumismo e no utilitarismo, e que fez uma opção pela “cultura do prazer”.

O Papa disse na Carta às Famílias que: “Nos nossos dias, infelizmente, vários programas sustentados por meios muito poderosos parecem apostados na desagregação da família” (CF, 5). “No contexto da civilização do desfrutamento, a  mulher pode tornar-se para o homem um objeto, o filho um obstáculo para os pais, a família uma instituição embaraçante para a liberdade dos membros que a compõem” (CF,13).

Quando, em 1994, o Parlamento Europeu, reconheceu a validade jurídica dos matrimônios entre homossexuais, até admitindo a adoção de crianças por eles, o Papa João Paulo II, reagiu de maneira forte e imediata: “Não é moralmente admissível a aprovação jurídica da prática homossexual. Ser compreensivos para com quem peca, e para com quem não é capaz de libertar-se desta tendência, não significa abdicar das exigências da norma moral… Não há dúvida de que estamos diante de uma grande e terrível tentação” (20/02/94).

Quando se cria “famílias” falsas, que não estão de acordo com a vontade de Deus, se destrói a família verdadeira e se põe em risco a sociedade.

Hoje estamos vendo, como disse o Papa João Paulo II no Brasil, em 1997, milhares de “filhos órfãos de pais vivos”, por causa do “sexo livre” e irresponsável. São milhares de crianças sendo criadas sem o calor do pai. E as mães tendo de lutar bravamente e sozinhas para que não falte o pão dos filhos. Por que? Porque destruiu-se a família, o “Santuário da vida”; então, quem sofre são as próprias pessoas, especialmente os mais inocentes. A criança não pediu para vir ao mundo; não pediu para nascer; então, quem lhes dá a vida deve cuidar para que elas tenham um pai, uma mãe, um lar…

Por isso, as famílias precisam “ressuscitar” para uma vida nova em Jesus Cristo; isto é, viver segundo a lei de Deus: não pecar contra a castidade, não viver a vida sexual fora do casamento e nem antes dele; casar apenas um homem com uma mulher unidos pelo sacramento do matrimônio. Nada de divórcio, amor e fidelidade até a morte. Está é a lei de Deus; este é o caminho da felicidade, da paz e da vida eterna em Deus. Como disse  o Pe. Zezinho: “Que nenhuma família comece em qualquer de repente, que nenhuma família termine por falta de amor… que marido e mulher não se traiam e não traiam os seus filhos… que o homem carregue nos ombros a graça de um pai… seja a firme esperança de um céu aqui mesmo e depois”.

Prof. Felipe Aquino

 

“O CRISTO DISFARÇADO EM MINHA CASA”
Como salvar minha família
Pe. Léo, SCJ

Irmão Bento era um monge muito santo. Além de santo, tinha a fama de ser excelente conselheiro matrimonial. Sua fama se espalhava por toda a região. Segundo diziam, este santo monge tinha o dom da palavra de ciência e da palavra de sabedoria, e esses dons sempre se manifestavam em forma de visões.

Sr. Alfredo, numa duvidosa tarde, foi procurá-lo e descreveu o grande drama que estava vivendo:

– Irmão Bento, eu estou vivendo mergulhado em grandes problemas. Estamos passando por uma séria crise financeira. Tudo em nossa casa dá errado. De uns tempos pra cá, nada dá certo em nossa vida. Minha família vive um pequeno inferno. Minha mulher está sempre doente. Ela só sabe reclamar da vida e dos problemas. Eu, de vez em quando, acabo exagerando na bebida. Meu filho mais velho cheira cocaína, fuma maconha, tem o corpo todo cheio de tatuagens, não faz a barba, toca saxofone e flauta nos botecos por aí. Bebe que é uma coisa medonha e tem um cabelo tão longo que mais parece uma moça. Minha filha é terrível. Cada dia ela aparece com um namorado diferente. E, o pior, usa umas roupas que o senhor nem pode imaginar. Meu filho caçula, de 12 anos, já foi expulso de três colégios. Só quer saber de andar de bicicleta e ver televisão. E, o pior, hoje faz seis meses, três dias e quatro horas que minha sogra esta morando lá em casa. Para o senhor ver, tudo esta errado em minha vida e eu preciso de sua ajuda. O que devo fazer? Porque tudo está dando errado em nossa família? Nós já fizemos de tudo que nos ensinaram. Fomos até a uma benzedeira e ela pediu que levássemos umas velas, uma galinha, uma garrafa de cachaça e ainda cobrou mais duzentos reais. Mas parece que até ficou pior do que estava. Já queimamos incenso, compramos uma pirâmide, fizemos mapa astral e nada mudou. Então eu resolvi procurar o senhor. Já que o senhor é um homem tão santo e tem visões, será que o senhor não poderia me dizer a causa de todos estes problemas? Eu já não estou mais agüentando esta vida. Por favor, me ensine uma reza, ou faça uma oração por nós. Pelo amor de Deus, nos ajude.

O santo homem de Deus colocou a mão sobre a cabeça do senhor Alfredo e fez uma silenciosa oração. Depois lhe disse:

– Sr. Alfredo. Estou tendo uma visão. O Senhor está me mostrando uma coisa muito grave! Deus está me revelando que dentro de sua casa tudo vai mal, e tudo vai mal porque vocês estão cometendo um dos mais medonhos pecados da face da terra. É algo muito sério. Mas, não sei se posso revelá-lo ao senhor.

O homem arregalou os olhos e falou:

– Por favor, Irmão Bento! Foi para isso que eu vim até aqui. O que está acontecendo?

– Sabe, meu senhor, o problema é que dentro de sua casa vocês estão cometendo o pior pecado do mundo. Nem tenho coragem de falar sobre isso…

– Mas, homem de Deus – interrompeu seu Alfredo -, por favor. O senhor pode falar sem medo. Quem está cometendo este pecado? Eu já estava mesmo desconfiado de minha mulher! O senhor pode me contar que eu acabo com a vida do sujeito.

Por favor… – Não é nada disso Alfredo! – O pecado que vocês estão cometendo é o pior de todos, disse o Irmão Bento.

– Mas que pecado tão terrível é este? Pelo amor de Deus, seu monge, pode falar que estou preparado para ouvir.

– Bem, meu filho. O senhor sabe que Deus é amor. E que Deus amou tanto o mundo que mandou seu Filho único para que todos que nele cressem fossem salvos. Jesus veio e nós o matamos. Então Deus o mandou novamente para a Terra, só que Ele não poderia vir com o mesmo rosto de antes, senão o mundo o mataria mais rápido ainda, e diante das câmeras de televisão. Então Jesus voltou, só que Ele veio disfarçado. E a verdade é que um dos membros de sua família é o próprio Cristo, disfarçado.

– O senhor está falando que lá em casa mora o próprio Senhor Jesus Cristo, disfarçado? É melhor o senhor conferir aí na sua Bíblia, porque acho isso impossível. Se o senhor conhecesse minha família jamais falaria uma barbaridade dessas… É que o senhor não faz idéia de como é a nossa família…

– É isto mesmo! Não é nenhum engano! Jesus está disfarçado em um dos membros de sua família e, como vocês não o reconhecem, tudo vai mal. Afinal de contas, sem saber quem é o Cristo disfarçado, vocês ficam tratando mal um ao outro. E, como vocês estão se tratando muito mal, estão ofendendo a Jesus Cristo dentro de sua casa. E é este o grande pecado de vocês. Aliás, esse é o maior pecado que alguém pode cometer. Enquanto vocês não descobrirem quem é o Cristo, nada irá mudar na vida de vocês.

– Sério mesmo? Ah, mas eu vou resolver isso, ou não me chamo Alfredo.

Sr. Alfredo saiu daquele encontro cheio de preocupação. Quem em sua casa poderia ser o Cristo disfarçado? Antes de chegar em casa, para não perder o costume, passou no barzinho e tomou logo umas três doses da “branquinha”. Ele gostava tanto disso, que ao dar um gole, sempre tapava o nariz, pois, gostava dela bem pura, só em sentir o cheiro já ficava com a boca cheia d’água. Logo para não estragar o sabor, tapava o nariz para não correr o risco de salivar. Tomou seus tragos e foi rapidamente para casa, onde reuniu toda a família. Diante de todos falou com seu encontro particular com Irmão Bento, o homem de Deus já conhecido por todos. Disse-lhes claramente, sem rodeios, que ali vivia o Cristo disfarçado e que era preciso descobri-lo imediatamente, já que enquanto não se detectasse quem era o Cristo disfarçado, nada melhoraria naquela casa.

Sem muita cerimônia perguntou:

– Quem de vocês é o Cristo disfarçado? Que se apresente, agora!

Todos se entreolharam admirados. Será que o Sr. Alfredo tinha bebido além da medida? Que história é essa mais sem cabimento. Os filhos chegaram a esboçar um riso disfarçado.

Mas Sr. Alfredo insistiu:

– Quem é o Cristo disfarçado?

Como ninguém se apresentou, Sr. Alfredo voltou a falar com o Irmão Bento.

Olha aqui é o Alfredo, eu estive aí ontem à tarde. O senhor me disse que o Cristo disfarçado estava morando em minha casa. Queria pedir que o senhor conferisse melhor o endereço, pois fiz uma ampla pesquisa em minha casa e chegamos à conclusão que lá ele não mora mesmo. O monge continuou irredutível.

– Pois, lhe digo com certeza Sr. Alfredo, um deles é o Cristo disfarçado!

Outra reunião com a família, e agora, com mais veemência ainda, disse Sr. Alfredo:

– Olha gente, o monge é um homem santo. Tudo que ele falou até hoje deu certo. Ele não iria inventar uma história dessas. Uma aqui nesta casa é mesmo o Cristo disfarçado, e é melhor que se mostre logo.

Juninho, o mais novo, arriscou um palpite:

– Pai, quem sabe seja a vovó!

– Sr. Alfredo ficou enfurecido:

– Meu filho, não fale uma bobagem dessas, nem por brincadeira. Cale essa boca. Onde já se viu você falar uma coisa destas! Oh, meu Deus, perdoa meu filho por esta blasfêmia. Filho, olhe bem para sua avó. Como é que Cristo poderia se disfarçar num trambolho desses? Meu filho, eu quero que você aprenda uma coisa, desde pequeno, para nunca mais esquecer: sogra a gente deve gostar, igualzinho eu gosto de cerveja, ou seja, geladinha em cima da mesa.

– Então deve ser o papai – disse a filha Juliana, fofa e linda, como sempre!

– Aí foi a vez da sogra externar seu direito de opinar, cheia de uma fúria que ela guardava há anos:

– Ah, deve ser mesmo! Eu fico olhando para a cara desse homem e imaginando Cristo disfarçado de anta bêbada. Você já ouviu falar que Cristo era um alcoólatra, mal-educado, bruto e sem escrúpulos? Agora é que estamos pecando mesmo de verdade. Este homem é um jumento em forma humana. Nunca vi uma pessoa mais ignorante. Como é que pode ele ser o Cristo?

D. Matilde, a esposa, até então em completo silêncio, completou:

– Alfredo ser o Cristo disfarçado? Isso seria uma grande piada. Ele é um homem da pior espécie possível. Vive deixando roupa espalhada pelo chão do banheiro. Quando falo com ele, está sempre bocejando. Fuma no quarto. Assiste a TV sempre com o controle remoto na mão. Chega suado da rua e com os pés sujos do jogo de futebol e vai direto para a cama. Bebe feito um condenado. Não corta e nem limpa as unhas dos pés. Chega a esquecer o nome dos próprios filhos e fica perguntando baixinho, como se chama aquele menorzinho? E você Juliana vem me dizer que ele poderia ser o Cristo disfarçado? Tenha dó, minha filha.

Caíque o filho mais velho, que até então estava só observando o furdunço, deu o seu palpite:

– Talvez então seja a mamãe!

Sr. Alfredo mais uma vez se enfureceu:

– Meu filho, isto seria uma outra bobagem sem tamanho. Sua mãe só sabe reclamar da vida. Basta a gente pegar um jornal para ler e ela já vem puxando conversa fiada, e quando a gente esta morrendo de sono ela vem querendo ter uma conversa séria. Enche a casa de plantas e ainda coloca uma samambaia bem em cima do DVD. Quando eu quero ir a uma festa, ela faz cara feia, mostra desânimo e faz tudo para que eu desista. Erra sempre quando me compra uma roupa de presente, sempre fica pequeno. Quando lhe dou um presente, logo ela repassa para a empregada. Vive falando mal da minha mãe. Chorou a gravidez inteira e tudo que vocês fazem de errado ela logo diz que a culpa é minha. Basta um erro e ela já diz que puxou o pai. Meu filho, como ela poderia ser o Cristo? Olha, a Bíblia diz que Jesus curava todas as doenças. A sua mãe tem todas as doenças. Ela é absolutamente o contrário de Jesus! Depois, se sua mãe fosse o Cristo disfarçado, a cruz de Jesus deveria ser de aço ou ferro fundido. Que outra cruz suportaria tanto peso assim? Sua mãe só sabe comer e reclamar…

Juliana então disse:

– Talvez seja o Caíque!

Foi então a vez do Juninho reclamar:

– Como o Caíque? Jesus por acaso fumava maconha? Olhe bem para a cara do Caíque: um cabelo horroroso. Ele lava os cabelos. E aquela caveira que ele tem tatuada nas costas? Como pode ser o Cristo?

D. Matilde exclamou:

– Pode ser o Juninho: ele é o mais novo da casa!

Foi a vez de Juliana retrucar:

– Mamãe, que absurdo! Jesus era um menino muito inteligente. A Bíblia diz que aos doze anos Ele se perdeu e quando sua mãe o encontrou estava no meio de doutores, explicando-lhes as Escrituras. O Juninho é um burrinho em forma de gente. Já foi expulso de três escolas, e este ano, pelo jeito que está, vai ser reprovado de novo!

– E se for a Juliana? – Perguntou a avó com os olhos cheios de ternura.

Caíque não se conteve:

– O que? A Juliana ser Jesus? Isto sim é que é uma blasfêmia! Olhe bem, para as roupas que ela usa. E os namorados esquisitos? A senhora sabia que ela é chamada a vassourinha da nossa rua? Já varreu todos os rapazes. Namorou e ficou com a maioria deles. A única coisa em que a Juliana é parecida com Jesus é a roupa. Ela se veste igualzinho o Cristo quando foi pregado na cruz. Nunca poderia ser o Cristo disfarçado!

A discussão continuou por longo tempo. Cada um só se recordava dos defeitos do outro. Sr. Alfredo voltou a procurar o Irmão Bento, dizendo-lhe que talvez tivesse se enganado. No entanto o monge continuava afirmando que um deles era o Cristo disfarçado! Alfredo voltou desanimado para casa. Disse para todos que o monge continuava afirmando que Jesus estava disfarçado em um deles ali. Cansado sentou-se, como sempre, diante da TV. No entanto, os filhos continuaram pensando na idéia.

Juninho então falou:

– Talvez seja mesmo a vovó. Ela até que gosta muito de rezar. E depois é a mais velha da família! Acho que precisamos tratá-la um pouco melhor! Os irmãos concordaram com a idéia. E até o Sr. Alfredo ficou pensando na possibilidade. Por mais triste e terrível, a possibilidade, segundo a palavra firme e certa do monge, era real. E se a sogra fosse, de fato, o Cristo disfarçado? Mudaram o tratamento com a velha. Passaram a dialogar com ela, fazer-lhe um carinho, tratá-la com mais respeito e atenção.

Alfredo, tentando superar todos os conflitos que tinha com a sogra, resolveu até lhe fazer um agrado, levando uma xícara de café na cama. Quando bateu na porta, já sentiu que a acolhida não seria das melhores:

– Quem é? – Sou eu, minha sogrinha querida.

– Entre. – Bom dia… vim trazer um cafezinho quentinho para a senhora.

– Para mim? Tem certeza? Bebe um gole primeiro…

A sogra chegou a pensar que tinha veneno no café. Mas acabou aceitando o agrado do genro e passou a tratá-lo melhor também. Mas, como ninguém tinha certeza acerca de que quem pudesse ser o Cristo disfarçado, a dúvida então persistia. Poderia muito bem ser qualquer um. E se fosse o Pai? Talvez a mãe? Ou um dos filhos? Como o monge havia falado, cada um ali era um possível candidato. Acabaram melhorando o tratamento em relação aos outros membros da família.

D. Matilde parecia muito mais feliz. Já não reclamava tanto de doenças, e Sr. Alfredo já não parava mais no barzinho para tomar seu trago de sempre. Cada um começou a tratar o outro com a possibilidade de ser o Cristo disfarçado.

Marido e mulher se olhavam com mais carinho e respeito. Os filhos começaram a perceber os valores dos pais. Os pais passaram a reservar um tempo para o diálogo, para o carinho entre si e para com os filhos. Genro e sogra já não se estranhavam. E as coisas começaram a mudar naquela casa.

Algum tempo depois, tudo havia mudado. As coisas se acertaram como que por um milagre. Juninho conseguiu melhorar muito seu rendimento na escola. Caíque chegou a ajudá-lo em muitas lições, e Juliana já não saía tanto pelas lanchonetes e boates. O clima daquela casa parecia outro! Aquela família, que dizia viver num pequeno inferno, agora começou a experimentar algumas mudanças consideráveis. Já não tinha tanta dívida, porque se uniram para pagar o que deviam. O pai, pela vontade de chegar logo em casa, já não parava mais nos botecos do caminho. Era tão bom quando Juliana vinha deitar-se no colo do Sr. Alfredo!

A família foi também descobrindo o valor da oração. E foi com grande alegria que o Irmão Bento viu todos eles na Missa das dez horas daquele domingo. Na terceira fila de bancos do lado esquerdo, toda a família, um do lado do outro, participando da Santa Missa.

Ele ficou tão emocionado que ao final da celebração foi procurá-los para um abraço muito sincero, e disse-lhes:

– Que bom! Vocês descobriram o segredo! Na medida em que começaram a tratar o outro como se fosse o próprio Cristo, vocês aprenderam a ver Jesus um no outro. Com isso, descobriram algo maravilhoso: vocês estão enxergando um ao outro com os olhos do próprio Cristo. Vocês descobriram o grande segredo. Tentando ver Cristo disfarçado, descobriram o Cristo que existe, de fato, no coração e na vida do outro, e em cada um. E este segredo foi Jesus mesmo quem nos ensinou: “todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40).

É isto mesmo meus irmãos. Quem não for capaz de ver Jesus na pessoa do outro, jamais vai ser capaz de ver a pessoa do próprio Jesus. Esse é o grande segredo para a vida familiar! Esse é o grande segredo para a restauração de nossas famílias. Talvez você também se encontre, hoje, como o Sr. Alfredo, naquela tarde em que foi ao encontro de Irmão Bento. E porque as coisas não vão bem em sua casa? Jesus deve também estar disfarçado em algum dos membros de sua família… enquanto não se conseguir enxergar cada um com os olhos do próprio Cristo, nada melhorará na vida familiar.

A maior graça que um casal precisa para si e para seus filhos é enxergar cada um com os olhos de Jesus. Quando isso acontece, passam a enxergar Jesus em cada um. Não tenhas medo de transformar suas necessidades familiares numa oração sincera e verdadeira: Senhor, dá-nos a graça de enxergar com Teus olhos, do jeito que Tu Senhor, enxergas. Sonda-nos hoje e Tem compaixão de cada um de nós. Tu, Senhor, que nos teceste no seio materno, dá-nos a graça de perceber-nos segundo Teu amor misericordioso.

Parábola transcrita do livro “Famílias Restauradas” (Padre Léo, scj). Este texto é abertura do Livro, que tratará das questões que foram apresentadas nesta pequena estória de uma família que não por acaso pode ser um retrato de uma família que conhecemos muito bem. A sua família também poderá se encontrar com este Cristo, que na verdade não está disfarçado como na estória, mas está vivo e presente em sua casa podendo ser encontrado facilmente a qualquer momento, porque Ele se deixa encontrar. 

Abençoados sejam nossos pais!

EXEMPLO PATERNO

“O Senhor quer que o pai seja honrado pelos filhos… Honre a seu pai em atos e palavras, para que a bênção dele venha sobre você” (Eclesiástico 3, 2 e 8).

Mesmo que atualmente a figura paterna seja menosprezada pelo mundo, a presença do pai é essencial na edificação de um lar. A graça de ser pai é uma missão confiada por Deus para que o homem seja fonte de referência na família através de seus exemplos de dedicação, acolhida, consolo, amor, perdão e fé. Na maioria dos casos, o filho imita o seu pai, tanto nos bons quanto nos maus exemplos. Por isso, cabe ao pai a imensa responsabilidade de orientar corretamente seus filhos. E aos filhos, cabe honrá-lo através de atos e palavras, fazendo frutificar a semente dos ensinamentos cultivada por ele. Que Deus ilumine a todos vocês que são pais para que desempenhem da melhor maneira possível a sua missão.

 

ABENÇOADOS SEJAM NOSSOS PAIS
Dom Orani João Tempesta, O. Cist., arcebispo do Rio de Janeiro

Neste segundo domingo de agosto comemoramos o Dia dos Pais, mesmo sabendo que todos os dias devem ser dedicados aos pais e à valorização do ingente papel paterno na família, constituída pelo casamento do homem com a mulher, dentro da convocação da Igreja, para terem filhos e os educarem na fé. Na comunidade família, o pai é chamado a viver o seu dom. Por isso mesmo recordamos que nesse mesmo domingo rezamos pela vocação matrimonial e iniciamos a Semana Nacional da Família. A paternidade começa no compromisso de vida do marido para com sua esposa, baseando-se no amor desinteressado e generoso. Descobrir a beleza de colaborar no plano da criação e se responsabilizar pelo futuro é por demais belo para que não contemplemos essa bonita missão recebida de Deus! Os filhos e filhas devem ter a oportunidade de reconhecer no pai a presença do amor, da escuta e do apoio oportuno para o seu crescimento, para se tornarem pessoas que experimentem o amor e vivam com equilíbrio a vida humana e com conhecimento dos seus direitos e responsabilidades. Também receberão o apoio para alcançar a auto-estima, a autêntica autonomia e independência para compartilhar e celebrar os seus sucessos, e dar conforto quando confrontado com o fracasso. Os pais não serão julgados pelo valor dos bens materiais que eles possam ou devam proporcionar a seus filhos: o que realmente importa é a forma como o Pai orienta seus filhos para Jesus Cristo e qual o papel de modelo de fidelidade de valores ele realmente apresenta no seio de sua família. Neste sentido, o pai é chamado a assegurar o desenvolvimento harmonioso e de união entre todos os membros da sua família e partilha com a esposa a formação dos filhos. Porém compartilhamos também as angústias de muitos pais, que hoje, frente às frustrações da procura por emprego, ou de desejo de dar o melhor pela sua família, sem poder fazê-lo olham com preocupação a vida de sua família e o futuro de seus filhos. Aqui temos a necessidade de uma sociedade mais justa e solidária que devemos construir com a nossa participação. Deus é a fonte da vida e do amor em que a família vive no mundo de hoje. O Papa Paulo VI já nos recordava na Encíclica Humanae Vitae que o casamento “não é efeito do acaso ou do produto da evolução de forças naturais inconscientes: é uma instituição sapiente do Criador para realizar na humanidade o seu desígnio de amor” (HV 8). Daí que na missão de pai este é convidado a frutificar e ter a vida ao máximo, exercendo sua função específica biológica e psicológica no contexto da família. Mais do que nunca hoje notamos a necessidade desse equilíbrio familiar e o papel do Pai na formação humana de seus filhos. Não se pode abdicar dessa obrigação fundamental da célula da sociedade que é a família e a missão que esta tem no presente e futuro da sociedade. Para os cristãos isso se reveste de uma vocação e conta com a graça de Deus para que possa corresponder ao chamado de Deus para bem desempenhá-la. Em resumo poderíamos dizer que a missão do Pai é uma vocação, em última instância, do próprio matrimônio. Este significa uma união de pessoa com todos os seus valores, e tudo o que deve representar a medida de sua própria dignidade. Todo homem e toda mulher devem doar-se mutuamente em dom sincero de si, através das expressões de sua masculinidade e de feminilidade, o que transpassará certamente para o seu relacionamento com os filhos que virão de sua união. A família é desafiada com variados problemas urgentes e inúmeros ataques e crises que são, na verdade, provocados pelas tendências de uma sociedade em mudança. Portanto, é importante lembrar que os cônjuges têm uma importante missão na educação dos seus filhos, passando-lhes valores e nobres ideais. Neste contexto, surge o conceito de Pai como serviço no amor, conforme nos recorda o Papa Paulo VI: “na tarefa de transmitir a vida, os pais não são livres para procederem à vontade, como se pudessem determinar de forma totalmente autônoma as vias honestas a seguir, mas devem conformar a sua atividade de acordo com a intenção criadora de Deus, expressa na própria natureza do matrimônio e de seus atos”. A criança não pode exercer certas fases de sua maturidade psicológica sem a ajuda paterna, que a ajuda a ousar e a enfrentar as adversidades da vida. O pai educa principalmente pela sua conduta pessoal, que consigo também carrega os variados aspectos da sua própria identidade. Os filhos e também filhas olham para a figura paterna muito mais do que apenas uma extensão de seus conhecimentos limitados. Olham para seus gestos, suas expressões e para o seu testemunho. Procuram neste um valor e um sentido de suas vidas, que encontrarão, certamente, na realidade das coisas, na vida que se apresentará diante deles, um dia. Em suma, a paternidade é um “link” para as consciências dos filhos, que os orienta na condução moral e nos princípios éticos de suas existências. Rogamos hoje a São José, como modelo de pai, que abraçou por inteiro as suas responsabilidades e que ressalta sempre em nós a sua firmeza e sua perseverança, confiando sempre em Deus. Imagens de São José com frequência o retratam segurando uma régua de carpinteiro, mas que podem muito bem simbolizar não só o seu ofício, mas também a sua capacidade de governar e medir as suas posições como homem de família e como pessoa de fé. São Bento, grande mestre da espiritualidade, diz que o abade de um mosteiro tem que mostrar a atitude dura de um mestre e a ternura de um pai. O mesmo deveria se aplicar aos pais de família. Devem ser tanto carinhosos com seus filhos, enquanto agem com firmeza em sua educação. Auguro que os pais de nossa Arquidiocese e do Brasil possam transmitir as verdades da nossa fé católica aos seus filhos e dar um bonito testemunho de discipulado e missionariedade, para que a sua família, rezando e celebrando unidos a sua fé, seja a autêntica Igreja doméstica, parcela da Igreja de Cristo. Que Deus abençoe todos os pais!

 

DO CORAÇÃO DOS PAIS PARA O CORAÇÃO DOS FILHOS
Monsenhor Jonas Abib

Você pai, tem de provocar, tem de fazer coisas, tem de pedir a Deus a arte, a graça, de fazer com que os seus filhos sejam apaixonados por você. Você precisa! Não basta amar! É preciso que os seus filhos sintam que você os ama. Não basta “fazer coisas”. É preciso que eles sintam que são amados.

Eu até digo para muitos pais e muitas mães: larguem de dar coisas! Larguem de “pensar no futuro”, para dar mais coisas no futuro, e cada vez mais coisas no futuro. Larguem de dar coisas! Os seus filhos precisam de amor e de serem excitados para o amor. Não dêem mais coisas! Não comprem mais os seus filhos. Não os “entuchem” mais lhes dando coisas, roupas, moto, carro… Isso não resolve! Eu repito: não resolve.

“Não basta amar! É preciso que os seus filhos sintam que você os ama”

Mude. Mude radicalmente. Peça hoje, peça agora a Dom Bosco educador, a Nossa Senhora Auxiliadora, a mestra de Dom Bosco, peça a Jesus, o Mestre dos mestres, Aquele que disse: “Amai-vos uns aos outros”, peça-Lhe um coração de educador, de educadora, um coração de pai, um coração de mãe. Porque, infelizmente, o mundo deformou o seu coração. Este mundo consumista ensinou a você e o levou (e os seus colegas o ajudaram nisso) a querer “comprar” os outros. Talvez você tenha sido uma pessoa comprada por outros. Fizeram isso com você: o compraram com coisas. Compraram você com as coisas que queria, mas também com as coisas que você não queria. E você viveu na base do consumo. Por isso você vive um amor na base do consumo: dando coisas e tentando angariar amor agindo assim.

E, na verdade, eu lhe digo: esses filhos só fazem desaforo. Só dão ingratidão e decepção para nós. Filho que recebeu, recebeu e recebeu coisas, só dá “coice” no pai e na mãe! Quem muito recebe coisas devolve em forma de “coice”! O filho que muito recebe coisas só acaba devolvendo “coice”!

Se você pai, mãe, não quer continuar levando “coice” de seus filhos não lhes dê mais coisas. Não compre mais o seu filho. Não fique preocupado em trabalhar, trabalhar, trabalhar, para dar, para dar, para dar… Não! Ame e provoque o amor.

Mesmo que você tenha de passar um tempo em “jejum”, ou seja, sem dar coisas. Seu filho e sua filha ficarão admirados. Eles irão estranhar e dirão: “Meu pai e minha mãe viviam me dando coisas, mas agora pararam… O que aconteceu? Será que meu pai não gosta mais de mim? Será que ele não tem mais dinheiro? Será que ele entrou em depressão? Será que a minha mãe ‘pirou’?”

Vai valer a pena, talvez, um tempo de “jejum” até que seu filho estranhe (estou lhe dando lições muito concretas!) e daqui a pouco você começa a amar de uma maneira diferente. E daí você sabe do que o seu filho, a sua filha, gosta. E que não são “coisas”. Todo filho gosta de presença. Gosta de uma mão na cabeça. Gosta de um gesto, de uma cama arrumada (que não é coisa que você está dando!), gosta de um bilhete, de uma flor. Gosta até mesmo de uma comida, de um jeito de arrumar os pratos, de ficar junto, de ouvir, de chamar para trabalhar junto. […]

Ame porque você é capaz de amar. Ame e faça com que seus filhos sintam que você os ama. […] E eu digo para você: ame com gestos. Gesto é gesto. Gesto não é coisa! Ame com gestos.

 

“Não um amigo, mas apenas pai”
Flavio Insinna homenageia o pai ao apresentar sua autobiografia no Fiuggi Family Festival
Luca Marcolivio

FIUGGI, Itália, sexta-feira, 27 de julho de 2012 (ZENIT.org) – Apesar de o clichê de que “o tempo cura todas as feridas”, a morte de um ente querido é uma marca indelével no coração de qualquer pessoa. A experiência universal da morte do pai torna-se única e especial na obra do ator e apresentador de televisão italiano Flavio Insinna, que narra seu drama no livro autobiográfico Neanche con un morso all’orecchio [Nem com uma mordida na orelha, em tradução livre] (Mondadori, 2012, em italiano). Insinna compartilhou o seu depoimento nesta semana com o público do Fiuggi Family Festival, superando o difícil desafio de evitar as lágrimas fáceis e conservando a abordagem irônica. Durante a conversa com a apresentadora Julie Arlin, Insinna traçou a personalidade do pai, Salvatore, médico de origem siciliana, muitas vezes duro e severo na forma, mas generosíssimo em espírito. O artista fala da extraordinária dedicação de seu pai pela família e pelos pacientes, em prol dos quais, até os últimos momentos da vida, ele foi literalmente se “consumindo”. “Ele dizia que um médico de família tem que saber tudo da família, cada problema humano deles, e que o paciente vira uma criança, porque tem medo: por isso, o sorriso do médico é fundamental”. “Ele se importava muito com o nosso estudo e com a nossa formação”, prossegue Insinna, “e costumava dizer para os filhos: ‘você tem que viver a vida como se fosse o último dia e estudar como fosse viver para sempre’. E recomendava ler uma página por dia, do que quer que fosse”. O casamento dos pais de Flavio Insinna durou mais de cinquenta anos, não “porque eram outros tempos, mas porque os meus pais eram pessoas de outros tempos. Muita gente que leu o meu livro me disse que eu tive sorte de ter uma família tão unida. O meu pai sabia pegar as coisas ordinárias em família e transformá-las em coisas extraordinárias: ele nos ensinou a ser pessoas decentes, sem ser moralistas”. Do falecido pai, Insinna recordou comovido as várias vezes em que recebeu dele um “não”, além das renúncias que o ajudaram a crescer. “Ele nunca quis ser ‘amigo’, mas apenas pai. E nunca me deu ‘descontos’. Ele me educou para estar sempre me superando”. “Um dia, ele me disse: ‘filho, você acha que teria sido mais fácil dizer sempre que sim? Se uma pessoa sempre diz que sim, aquilo é bom durante algum tempinho, mas depois, no fundo, você tem a sensação de que ela não lhe dá a mínima’”. “Ele me dizia sempre: ‘filho, o dilúvio não está vindo em cima de você’, querendo me dizer para não pensar só em mim, para olhar para os outros e para as necessidades dos outros. Não existe só o ‘eu’, mas também o ‘nós’”. “Uma vez eu disse que também podia ter sido médico, e ele me respondeu que nós teríamos tido que pagar um bom advogado para cada paciente que eu teria matado… Ele me via mesmo como advogado”. A opção de Flavio pela carreira artística não foi compartilhada inicialmente pela família. Mas, com o tempo, as coisas mudaram. “Volta e meia, eu fazia o meu pai ler os scripts, e o último telefonema antes de subir no palco e logo depois era sempre para os meus pais”. Insinna acredita que, involuntariamente, o pai o tenha encaminhado para a carreira teatral, já que “ele tinha um talento extraordinário para contar histórias com um grande timing cômico”. Da relação do pai com a fé, Insinna declarou: “Ele era um homem da ciência e, no começo, acreditava pouco. Mas mamãe, como aquela gota que vai furando a pedra, o envolveu cada vez mais, fazendo com que ele fosse à missa e convivesse mais com os padres”. “Católico ou não, ele sempre tentou trazer alegria para a nossa vida. Mas se nós conseguimos nos dar ao luxo de discutir durante anos e mesmo assim permanecer unidos, o mérito foi da mamãe e do grande amor que ela sempre colocou em tudo”. No fim do encontro, Insinna reconheceu a impossibilidade de apagar uma dor tão grande como a da morte de um pai. “Não faz sentido dizer num funeral que ‘é a vida’. Como você diz isso na frente da morte? E outro absurdo é falar de uma pessoa morta dizendo que ‘ele já era velho’”. Depois de um luto tão difícil, “você continua vivendo com dignidade, mas o vazio que um ente querido deixa é um buraco que vai crescendo dia após dia. É uma dor que eu acho que Alguém vai me explicar quando eu mesmo passar para a melhor vida…”. [Trad. ZENIT]

 

O PAI NUNCA DESISTE

Havia um homem muito rico, possuía muitos bens, uma grande fazenda, muito gado e vários empregados. Tinha ele um único filho, que, ao contrário do pai, não gostava de trabalho nem de compromissos. O que ele mais gostava era de festas, estar com seus amigos e de ser bajulado por eles. Seu pai sempre o advertia que seus amigos só estavam ao seu lado enquanto ele tivesse o que lhes oferecer, depois o abandonariam. Os insistentes conselhos do pai lhe retiniam os ouvidos e logo se ausentava sem dar o mínimo de atenção.
Um dia o velho pai, já avançado na idade, disse aos seus empregados para construírem um pequeno celeiro e dentro do celeiro ele mesmo fez uma forca, e junto a ela, uma placa com os dizeres: “Para você nunca mais desprezar as palavras de seu pai”. Mais tarde chamou o filho, o levou até o celeiro e disse:
– Meu filho, eu já estou velho e quando eu partir, você tomará conta de tudo o que é meu, e sei qual será o seu futuro. Você vai deixar a fazenda nas mãos dos empregados e irá gastar todo dinheiro com seus amigos, irá vender os animais e os bens para se sustentar, e quando não tiver mais dinheiro, seus amigos vão se afastar. E quando você não tiver mais nada, vai se arrepender amargamente de não ter me dado ouvidos. É por isso que eu construí esta forca; sim, ela é para você, e quero que me prometa que se acontecer o que eu disse, você se enforcará nela.
O jovem riu, achou absurdo, mas, para não contrariar o pai, prometeu e pensou que jamais isso pudesse ocorrer.
O tempo passou, o pai morreu e seu filho tomou conta de tudo, mas assim como se havia previsto, o jovem gastou tudo, vendeu os bens, perdeu os amigos e a própria dignidade. Desesperado e aflito, começou a refletir sobre a sua vida e viu que havia sido um tolo, lembrou-se do pai e começou a chorar e dizer:
– Ah, meu pai, se eu tivesse ouvido os teus conselhos, mas agora é tarde, é tarde demais.
– Pesaroso, o jovem levantou os olhos e longe avistou o pequeno celeiro, era a única coisa que lhe restava. A passos lentos se dirigiu ate lá e, entrando, viu a forca e a placa empoeirada e disse:
– Eu nunca segui as palavras do meu pai, não pude alegrá-lo quando estava vivo, mas pelo menos esta vez vou fazer a vontade dele, vou cumprir minha promessa, não me resta mais nada. Então subiu nos degraus e colocou a corda no pescoço e disse:
– Ah! se eu tivesse uma nova chance …
E pulou, sentiu por um instante a corda apertar sua garganta, mas o braço da forca era oco e quebrou-se facilmente, o rapaz caiu no chão, e sobre ele caíram jóias, esmeraldas, pérolas, diamantes.
A forca estava cheia de pedras preciosas, e um bilhete que dizia:
– Essa é a sua nova chance. Eu te Amo muito.
Seu Pai

– Isso é o que faz nosso maravilhoso Pai: Deus.

E para você papai: feliz dia dos Pais!

 

Este homem que admiramos tanto, com todas as suas virtudes e também com seus limites. Este homem com olhar de menino, sempre pronto e atento, mostrando-nos o caminho da vida, que está pela frente.

Este mestre contador de histórias traz em seu coração tantas memórias, espalha no nosso caminhar muitas esperanças, certezas e confiança.

Este homem alegre e brincalhão, mas também, às vezes, silencioso e pensativo, homem de fé e grande luta, sensível e generoso.

O abraço aconchegante a nos acolher, este homem, pai, com quem aprendemos a viver. Pai, paizinho, paizão… nosso velho, grande amigão, conselheiro e leal amigo: infinito é teu coração.

Obrigado, pai, por orientar nosso caminho, feito de lutas e incertezas mas também de muitas esperanças e sonhos…

 

O Pai e a Família

Neste domingo celebramos o Dia dos Pais! Dentro da comunidade família, o pai é chamado a viver o seu dom. Os pais são planos de Deus para a família. Esta comemoração, que veio através da sociedade civil, nos ajuda a valorizar no âmbito religioso a vida familiar. Apesar da exploração comercial deste dia, a Igreja no Brasil, neste mês vocacional, recorda a vocação à vida em família. Por isso mesmo começamos a viver também nesse dia a Semana Nacional da Família. Hoje, ultrapassamos a ideia do chamado pai provedor, enquanto ele é capaz de trabalhar, até arduamente, para abrigar sua família, colocar comida na mesa e pagar as contas no final do mês. A paternidade começa no compromisso de vida do marido para com sua esposa, baseando-se no amor desinteressado e generoso.
Os filhos e filhas devem reconhecer no pai a presença do amor, da escuta e do apoio oportuno para o seu crescimento, para se tornarem pessoas com conhecimento dos seus direitos e responsabilidades; o apoio para alcançar a auto-estima, a autêntica autonomia e independência e também para compartilhar e celebrar os seus sucessos, e dar conforto quando confrontado com o fracasso. O que conta para o cristão é a forma como o Pai orienta seus filhos para Jesus Cristo, e qual o papel de modelo de fidelidade de valores ele realmente quer apresentar no seio de sua família. Neste sentido, o pai é chamado a assegurar o desenvolvimento harmonioso e de união entre todos os membros da sua família. Deve partilhar com a esposa a formação dos filhos. Podemos afirmar que a paternidade é própria de uma verdadeira espiritualidade da família. Deus é a fonte da vida e do amor em que a família vive no mundo de hoje. O saudoso Papa Paulo VI já nos recordava na Encíclica Humanae Vitae que o casamento “não é efeito do acaso ou do produto da evolução de forças naturais inconscientes: é uma instituição sapiente do Criador para realizar na humanidade o seu desígnio de amor (HV 8). Daí que, na missão de pai, este é convidado a frutificar e ter a vida ao máximo, exercendo sua função específica biológica e psicológica no contexto da família.
Poderíamos dizer que a missão do Pai é uma vocação, em última instância, do próprio matrimônio. Este significa, antes de tudo, a união de uma pessoa com todos os seus valores e tudo o que deve representar a medida de sua própria dignidade. Todo homem e toda mulher deve doar-se mutuamente em dom sincero de si, através das expressões de sua masculinidade e de feminilidade, o que transpassará certamente para o seu relacionamento com os filhos que virão de sua união. A família é sempre desafiada com variados problemas urgentes, que são, na verdade, provocados pelas tendências de sua secularização. Neste contexto, surge o conceito de Pai como serviço no amor.
Novamente nos adverte Paulo VI: “na tarefa de transmitir a vida, os pais não são livres para procederem à vontade, como se pudessem determinar, de forma totalmente autônoma, as vias honestas a seguir, mas devem conformar a sua atividade de acordo com a intenção criadora de Deus, expressa na própria natureza do matrimônio e de seus atos”. A criança não pode exercer certas fases de sua maturidade psicológica sem a ajuda paterna, que a ajude a ousar e a enfrentar as adversidades da vida. O pai educa principalmente pela sua conduta pessoal, que consigo também carrega os seus variados aspectos da masculinidade do ser humano.
Os filhos e filhas olham para a figura paterna muito mais do que apenas como uma extensão de seus conhecimentos limitados. Olham para seus gestos, suas expressões e para o seu testemunho. Procuram neste um valor e um sentido de suas vidas, que encontrarão, certamente, na realidade das coisas, na vida que se apresentará diante deles, um dia. Em suma, a paternidade é um “link” para as consciências dos filhos, que os orienta na condução moral e nos princípios éticos de suas existências. Roguemos, hoje, a São José, como modelo de pai que abraçou por inteiro as suas responsabilidades, ressaltando a sua firmeza e sua perseverança, confiando sempre em Deus e no seu plano. Quantos pais estão diante das frustrações da procura por emprego, ou de desejo de dar o melhor pela sua família, sem poder fazê-lo! São Bento, grande mestre da espiritualidade, diz que o abade de um mosteiro tem que mostrar a atitude dura de um mestre e a ternura de um pai. O mesmo deveria se aplicar aos pais de família. Devem ser tanto carinhosos com seus filhos, enquanto agem com firmeza em sua educação.
Que a Semana Nacional da Família nos ajude a apresentar a beleza da vida em família cristã que procura ouvir a voz de Deus e colocar em prática a Sua Palavra. Eis um belo momento de apresentar ao mundo a importância e a necessidade das famílias cristãs e a proposta de sua presença na sociedade!
† Orani João Tempesta, O. Cist.  
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

XIX Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São João 6, 41-51
Os judeus puseram-se, então, a murmurar contra Ele por ter dito: ‘Eu sou o pão que desceu do Céu’; e diziam: «Não é Ele Jesus, o filho de José, de quem nós conhecemos o pai e a mãe? Como se atreve a dizer agora: ‘Eu desci do Céu’?» Jesus disse-lhes, em resposta: «Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não atrair; e Eu hei-de ressuscitá-lo no último dia. Está escrito nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Todo aquele que escutou o ensinamento que vem do Pai e o entendeu vem a mim. Não é que alguém tenha visto o Pai, a não ser aquele que tem a sua origem em Deus: esse é que viu o Pai. Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Os vossos pais comeram o maná no deserto, mas morreram. Este é o pão que desce do Céu; se alguém comer dele, não morrerá. Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, pela vida do mundo.»

Neste décimo nono domingo do tempo comum nós continuamos a ler, proclamar, meditar, assimilar o discurso famoso de Jesus, sua auto-revelação como o Pão descido do Céu. Mas os judeus que por primeiro escutaram esta afirmação se escandalizaram, afinal este homem quer subir alto demais. Como pode afirmar Ele ser um Pão descido do céu, se conhecemos perfeitamente suas origens e elas são humildes, como pode um aldeão de Nazaré dizer ser o Pão descido do céu, como pode o filho do carpinteiro fazer uma afirmação deste gênero? Todos os grandes movimentos religiosos e os místicos de todas as religiões excogitaram os meios mais extraordinários, para que o humano se elevasse ao Divino. Nós podemos sob este aspecto, enumerar, e até mesmo admirar as religiões orientais, o esforço que os homens fazem para atingir o infinito, a escalada a que são submetidos. Nós, porém devemos dizer com realismo que o abismo que separa o finito do infinito é intransponível. É intransponível o abismo que separa a criatura do Criador, não há nada, absolutamente nada, que se possa neste mundo, de longe sequer, comparar-se com o Criador. Nenhum profeta jamais transporia a margem do criado, para o Incriado, o único a realizar esta façanha foi o Homem Deus, Jesus de Nazaré. Por ser Deus, Ele podia ter um pé no infinito e por ser verdadeiro homem, poderia  colocar o outro pé no mundo finito, no nosso mundo e desta maneira unir admiravelmente os dois mundos, o mundo de Deus e o mundo das criaturas. Com Ele e Nele, Deus começou a falar como um homem fala com outro homem, com Ele e Nele, Deus passou a ter um rosto humano, que é o rosto da própria divindade. Com Ele e Nele o Pai invisível se tornou visível, porque Jesus é a visibilidade do Pai e o Pai é o lado invisível de Jesus. Nenhuma religião outra, a não ser o cristianismo, pode manifestar de braços dados,  o finito e o infinito, a criatura e o Criador. Apenas o cristianismo com Jesus, que é o pão descido do céu, com o qual você pode se alimentar na sua peregrinação do finito deste mundo, ao infinito da eternidade que nos espera.

 

19º Domingo do Tempo Comum – Ano B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)

“Considerai, Senhor, vossa aliança, e não abandoneis para sempre o vosso povo. Levantai-vos, Senhor; defendei-vos, Senhor; defendei vossa causa e não desprezeis o clamor de quem vos busca” (Sl 73,20- 19,22s).  

Meus queridos irmãos,
A liturgia de hoje está envolvida de uma bonita atmosfera: FIDELIDADE para com DEUS e para com a ALIANÇA que Ele estabeleceu para conosco. A primeira leitura (1 Reis 19,4-8) é repleta de significado para nós: ela iluminará o Evangelho. O primeiro livro dos Reis conta a história de Elias. O mesmo Deus que alimentou o povo no deserto agora alimenta Elias. Depois de comer, Elias quer descansar. Entretanto, Deus o faz caminhar, pela força do alimento recebido, 40 dias e 40 noites, até a montanha de Deus. O que significa isso? Não somente relembra os 40 anos em que o povo peregrinou no deserto, mas significa que a comida dada a Elias é o alimento para os embates da nossa vida. Se Elias, assaz cansado, ao ser alimentado por Deus caminhou 40 dias e 40 noites, todos nós, ao recebermos o Pão da Vida, o próprio Cristo, poderemos repetir a missão de Elias. Uma leitura do Antigo Testamento que, iluminada pelo Evangelho, demonstra-nos a força da Eucaristia que faz a Igreja.

Irmãos e irmãs,
No Evangelho (Jo 6,41-51), os judeus murmuravam contra Jesus, por causa de suas afirmações. No deserto, exatamente no contexto da doação do maná, os judeus murmuravam contra Moisés. “As murmurações de vocês não são contra mim, mas contra o Senhor” (Ex 16,8), interpela-os Moisés. Murmurar significa, para João, falta de fé, insinuando que, de qualquer maneira, triunfará a verdade de Deus. Assim como as murmurações no deserto, na verdade, não eram contra Moisés, mas contra Deus, assim também, agora, a murmuração não alcança apenas a pessoa de Jesus, que eles acreditavam apenas homem, mas alcançava o próprio Deus, que o escolhera e o enviara. Os judeus estranhavam a linguagem de Jesus. Os judeus conheciam José e Maria e, portanto, sabiam quem eram concretamente os pais de Jesus. Como podia Jesus dizer que descera do céu? Apesar da Encarnação por obra e graça do Espírito Santo, Jesus era conhecido como filho de José. A fé está novamente colocada em tela pelo Evangelho. Os olhos do corpo veem apenas o parentesco físico. A cegueira dos judeus não permitia que enxergasse naquele menino o FILHO DE DEUS. Aceitando Jesus como o enviado de Deus, aceitaremos sua palavra, seu ensinamento, sua verdade. A aceitação de Jesus, embora nos exija a humildade e o reconhecimento de que nada podemos sozinhos (Jo 15,4-5), implica num sincero esforço de nossa parte, numa caminhada de fé. É nesse esforço pessoal, na abertura e iluminação desse caminho que entra o Espírito Santo e faz-nos compreender a origem e a missão de Jesus, seus ensinamentos e sua paixão, sua páscoa e glorificação. A fé é e sempre será obra e graça divinas. A fé é um diálogo entre Deus, que nos atrai a Jesus Cristo e nós, que nos dispomos a escutar sua palavra e a vivê-la. Escutar Jesus alimenta-nos para a vida com Deus, para sempre. Ora, João diz que quem crê já tem a vida eterna. Como é essa vida eterna, divina? Será talvez esse bem-estar incomparável que sentimos quando ficamos mortos de cansaço por nos termos dedicado aos nossos irmãos até não poder mais? Portanto, sermos ensinados por Deus significa que, mediante a adesão à existência que Jesus viveu até a morte, abrimos em nossa vida espaço para a dimensão divina e definitiva de nossa vida, dimensão que lhe confere um sentido inesgotável e irrevogável: o sentido de Deus mesmo. Assim, irmãos e irmãs, a segunda leitura (Ef 4,30-5,2) nos ensina a imitar a Deus – no perdão mútuo – e a amar como Cristo nos amou. Em outros termos, nossa vocação de sermos semelhantes ao Pai se realiza na medida em que assumimos a existência de Cristo, dando-lhe crédito e imitando-o. Por isso, a primeira leitura ilumina o Evangelho: é a vida que Deus quer e o pão que alimenta essa vida é Jesus. Alimenta-a pela palavra que falou, pela vida que viveu, pela morte de que morreu: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. O Pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo 6,51).

Caros fiéis,
Filhos de Deus, animados por seu Espírito. O selo de garantia de nossa salvação é o Espírito Santo, o Espírito de amor, que provém do íntimo de Deus. A gente pode asfixiar por mesquinharias de todo o tipo, como também por estruturas que não lhe deixam espaço. Devemos realizar o contrário: liberalidade, bondade, perdão, segundo o modelo de Cristo, em cuja doação se manifesta o amor de Deus. Devemos abrir em nossa vida e sociedade um espaço onde possa soprar o Espírito de amor de Deus. Cristo veio realizar esta vida: é a própria vida do seu Pai, vida eterna, sem fim.  O homem a busca, mas não consegue encontrá-la ou só a encontra provisoriamente, e só sacia sua fome por momentos. Só Cristo pode saciar totalmente, porque este é o pão que desce do céu. Quem dele come não morre.

Meus irmãos,
Tenhamos certeza de que todos nós temos limitações e momentos de crise. Nestes momentos de crise a fé na presença de Deus, fortalece-nos e nos põe novamente de pé para retomar a caminhada. Jesus provoca crise e momentos de ruptura, pois sua mensagem nem sempre agrada; muito pelo contrário, a Palavra nos faz interpelar pela Verdade única que é Jesus, o Ressuscitado. Neste domingo dedicado aos pais, estes silenciosos homens que nos legaram a vida, recebam o carinho e as nossas orações para que continuem dando testemunho da fé católica, que supera todas as crises. A todos os pais, particularmente aos pais de nossa Paróquia, a nossa bênção afetuosa, pedindo-lhe que sejam pais comprometidos com a missão de anunciarem ao Cristo e que sejam comprometidos com uma família toda ela evangelizadora. Amém!

 

Depois da multiplicação dos pães que lemos há dois domingos, hoje começamos a ler e a refletir no evangelho de S. João uma longa catequese de Jesus sobre o significado do “Pão da Vida”. Apesar da terminologia de todo o capítulo, desde a multiplicação dos pães e a sua distribuição, parecer à primeira vista “eucarística”, o pensamento de Jesus vai percorrendo diversos “itens”. A perícope evangélica de hoje fala-nos do “Pão da vida” no sentido da fé. Se Cristo é o Pão que Deus envia à humanidade para que sacie a sua fome – como é a Luz para que ilumine a humanidade, como é o Pastor para que guie a humanidade e como é a Porta por onde entra a humanidade – a nossa primeira resposta deve ser acreditar nele como o Enviado de Deus. Os verbos que João emprega nesta primeira parte da sua catequese são “vir”, “ver” e “crer”. Conseqüência disto: “Quem acredita tem a vida eterna”. No próximo domingo, leremos a segunda parte, em que se desenvolverá a idéia que já hoje aparece um pouco: “comer” a carne que Jesus nos dará, o seu próprio Corpo, na Eucaristia. E a conseqüência será a mesma: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna”. Uma dramática cena prepara-nos para escutar o evangelho. O profeta Elias sofre uma grave crise na sua vida. Foge do rei Acab e da rainha Jezabel para defender a sua vida. Lutou por Deus, procurando convencer o povo a abandonar o culto aos falsos deuses e a regressar à Aliança com Deus. Não só não fazem caso ao que Elias prega como também o perseguem para matá-lo. A crise de Elias chega ao extremo: “Já basta, Senhor. Tirai-me a vida”. Como Elias, tantas vezes ficamos cansados ou caímos em crise! Não só os que abandonaram a fé e andam a procura de sentido para a vida por falsos caminhos, mas também os que se cansam de fazer o bem, como Elias e sofrem porque a sua voz não é ouvida e vêem os valores cristãos a serem esquecidos no nosso mundo. Em algum momento da vida, podemos sentir vontade de desistir, de nos “demitirmos”, de “deixar correr” e até desejarmos a morte. Por vezes, a vida é demasiadamente dramática e pesada. Elias foi ajudado pelo anjo de Deus: “Levanta-te e come”. “Fortalecido com aquele alimento, caminhou durante quarenta dias e quarenta noites”. No fim da caminhada, Deus esperava-o no monte. No evangelho surge uma multidão de pessoas famintas e buscando sentido à vida. Mas nem sempre entendem a mensagem que os sacia e lhes dá sentido à vida. Ouvem a palavra de Jesus: “Eu sou o pão que desceu do Céu”, mas não aceitam esta afirmação. O nosso caminho, por vezes, é tão difícil, superior às nossas forças, como aconteceu com Elias. Mas Deus pensou num alimento para esse caminho: enviou-nos como Mestre e Salvador o seu próprio Filho. Ele é o Pão que nos saciará, se O acolhermos. Também a nós Deus diz: “Levanta-te e come”, “escuta esse Mestre que te envio”, “segue esse Guia”, “come deste Pão”, “bebe desta Água”, “entra por esta Porta”. Assim, terá sentido a tua vida. Mais ainda: terás vida. Se não acreditamos em Jesus, se não construímos sobre Ele, se não nos deixarmos iluminar pela sua luz, tem pouco futuro a nossa vida. Como é essencial fixar os nossos olhos em Jesus Cristo e colocá-Lo no centro do nosso programa de vida! Em cada Eucaristia, seguimos o itinerário que Jesus nos ensinou no seu discurso do Pão da Vida. Em primeiro lugar, acreditamos Nele, “comemos Cristo-Palavra, ou seja, aprofundamos Nele a nossa fé. “Eu sou o pão que desceu do Céu… quem acredita tem a vida eterna”. É a primeira parte da missa, a “mesa da Palavra”. A segunda parte da missa é a “mais” eucarística. Cristo-Palavra e Cristo-Pão. Em cada missa, regressamos à escola de Jesus, à formação permanente que supõe a Eucaristia, escutando e aceitando a sua Palavra. Como seria bom que dissessem de nós: “e fortalecido com aquele alimento, caminhou durante mais uma semana”.

 

DÉCIMO NONO DOMINGO COMUM
Jo 6, 41-51
“Quem come deste pão viverá para sempre”
  

No texto de hoje, nos encontramos no meio do discurso de Jesus sobre o “Pão da Vida”. O gancho que João usa para pendurar o discurso é o pedido dos judeus em v. 35: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. Em resposta, Jesus começa o seu grande discurso. Divide-se em duas partes. Na primeira parte (vv. 35-50), que inclui o texto de hoje, o pão celestial que nos nutre é a revelação ou o ensinamento de Jesus (o tema sapiencial); na segunda parte (vv. 51-58) será a eucaristia (tema sacramental). O redator da comunidade joanina combinou “o pão do céu” com o material eucarístico da Última Ceia e assim formou a segunda parte do discurso como um paralelo à primeira. Isso explica a ausência de um relato da instituição da eucaristia nos textos da Ceia em João – pois o seu conteúdo básico foi colocado aqui. Como os seus antepassados murmuravam no deserto contra o pão que Deus mandava – o maná – agora eles se queixam do novo maná. Aqui logo aparece uma característica do João – a ironia. Os judeus (aqui se entende as autoridades judaicas e não o povo judeu) dizem que conhecem a origem de Jesus, pois só pensam na sua família de origem; e Jesus mostra que na verdade não a conhecem, pois eles não viram o Pai, a sua verdadeira origem. Aqui também aparece em v. 47 – mais uma característica joanina – a escatologia realizada. Enquanto para os Sinóticos o juízo é algo que acontece no último dia, para João, frequentemente, já aconteceu, pois a pessoa é salva ou condenada já, pela sua aceitação ou não de Jesus como o Filho de Deus. Aqui, de novo, João nos dá o que talvez seja uma variante das palavras da instituição da eucaristia: “O pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida” (v. 51). João enfatiza que o Verbo Divino se tornou carne e tem entregado a sua carne como alimento da vida eterna. O texto não é fácil, pois é extraído de um discurso muito mais comprido e que forma uma unidade. Mas está ligado à multiplicação dos pães – a participação eucarística no corpo e sangue de Jesus exige uma vivência de partilha e solidariedade. Esse tema é caro a João e é retomado na sua Primeira Carta.

 

«E o pão que Eu hei-de dar é a Minha carne, pela vida do mundo»
São Cirilo de Alexandria (380-444), Bispo e Doutor da Igreja
Comentário ao evangelho de São Lucas, 22

Como podia o homem, inexoravelmente preso à terra e submetido à morte, ter de novo acesso à imortalidade ? Era preciso que a sua carne se tornasse participante da força vivificadora que é Deus. Ora, a força vivificadora de Deus nosso Pai é a Sua Palavra, é o Filho Único; foi Ele que Deus nos enviou como Salvador e Redentor. […] Se deitares um pedacinho de pão em azeite, água ou vinho, impregnar-se-á das propriedades destes. Se o ferro estiver em contacto com o fogo, será tomado pela energia deste e, ainda que de fato o ferro seja por natureza ferro somente, tornar-se-á semelhante ao fogo. Do mesmo modo, portanto, o Verbo vivificador de Deus, ao unir-Se à carne de que Se apropriou, tornou-a vivificadora. Disse, com efeito: «Aquele que crê tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida». E ainda: «Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar, é a Minha carne. Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu sangue, não tereis a vida em vós». Do mesmo modo, portanto, ao comermos a carne de Cristo, Salvador de todos nós, e ao bebermos o Seu sangue, temos em nós a vida, tornamo-nos um com Ele, e Ele permanece em nós. Ele tinha de vir até nós da maneira que convém a Deus, pelo Espírito Santo, e de integrar-Se de alguma forma nos nossos corpos, pela Sua santa carne e pelo Seu precioso sangue que, em benção vivificadora, recebemos no pão e no vinho. De fato […], Deus usou de condescendência para com a nossa fragilidade e pôs toda a força da Sua vida nos elementos do pão e do vinho, que estão, assim, dotados da energia da Sua própria vida. Não hesiteis pois em crer, pois o próprio Senhor claramente o disse: «Isto é o Meu corpo» e «Isto é o Meu sangue».

 

Combatente fiel até a vitória
Padre Roger Luis

Queridos irmãos e queridas irmãs é uma graça muito grande nós estarmos celebrando esta eucaristia de encerramento deste acampamento. O dia em que Jesus retornar, nós viveremos o eterno domingo, o eterno dia do Senhor em nossas vidas. A natureza será renovada, nós seremos totalmente renovados, receberemos um corpo glorioso, porque Cristo será tudo em todos. Nós experimentaremos algo extraordinário neste eterno domingo, o dia do Senhor. Os nossos corações anseiam por este dia e tudo vai passar, pode ser que este dia chegue para alguns hoje ou amanhã, mas nós precisamos estar com os corações preparados. Desfrutaremos deste grande dia do Senhor, onde não haverá dor, choro, sofrimentos, mas enquanto isso não acontece, nós voltaremos para casa e continuaremos combatendo e não estaremos sozinhos, porque o Senhor está conosco e se o Senhor vai a nossa frente, é certa a nossa vitória! As armas do nosso combate não são armas carnais, são armas espirituais, capazes de derrubar muralhas. É no poder e na força do Senhor que nós precisamos combater e avançar. A mentalidade do combatente precisa ser a mentalidade do vencedor, sua mentalidade não pode ser a mentalidade dos derrotados e digo mais, não pelas suas próprias forças, mas pela força D’Aquele que está a nossa frente. A vinda de Jesus é eminente, os sinais são evidentes, nos estamos vislumbrando os últimos momentos desta humanidade. Quando será, nós não sabemos, mas nós sabemos que pode ser a qualquer momento e por isso precisamos estar preparados. As pessoas não conseguem se conter mais em sua sexualidade, como é triste ver jovens envoltos em algo que os oprime, que os joga para baixo. O tempo urge e Deus clama por homens e mulheres que se decidam por Ele, que vivam este combate, Deus clama por pessoas conscientes e decididas em viver na permanente oração, verdadeiros combatentes. É preciso que você persevere até o fim e faça um compromisso diário de fidelidade com Deus, Deus espera a sua fidelidade, Deus tem o céu preparado para você. Os sofrimentos do tempo presente não se comparam com a glória que há de vir! Tudo vai passar, mas nós precisamos nos comprometer e sermos fiéis a Deus, você precisa fazer este compromisso de fidelidade ao Senhor. Nós fomos marcados pelo Espírito Santo para que saíssemos da condição pagã e entrássemos na condição de filhos de Deus para o grande dia que virá, o dia do Senhor. A marca que foi colocada em você no batismo, ninguém pode arrancar. E a Palavra diz que nós não podemos entristecer o Espírito Santo, nós não podemos ter saudades das cebolas do Egito, não podemos querer voltar ao pecado. Você tem a marca do céu em você e ninguém pode tirá-la, é a marca da redenção, você é do céu, não tem mais jeito, o céu é um lugar onde nós estaremos um dia e nunca mais sairemos de lá. O diabo não pode tirar esta marca que esta em você, o pecado não pode tirar esta marca e nada que você fizer poderá tirar esta marca. Mas nós precisamos ser decididos pelo Senhor. Um dia o Senhor me marcou, há mais ou menos 15 anos, mas eu passei por cada provação, por sofrimentos e tive todos os motivos para desistir e muitas vezes na nossa luta diária contra nossos inimigos, contra nós mesmos, quantas vezes eu poderia ter desistido, mas quando olho para trás e constato, eu só não abandonei tudo porque todos os dias eu me esforço em ter uma vida constante em um relacionamento com Deus, não deixei e não vou deixar, pois vou permanecer com o Senhor até o fim dos dias, até o Senhor voltar! Você não pode desistir, você tem o sinal, você foi selado, marcado para o dia da redenção! Combatente você quer uma arma poderosa para vencer o mal? Use o amor! O amor é a arma que pode destruir o diabo, pois ele não suporta o amor. Um santo dizia: “Onde eu não encontro amor, eu planto amor e colherei amor”. E as vezes dentro da própria Igreja nos vemos pessoas brigando, uma querendo engolir a outra, isso tem que mudar através do amor. Talvez você precise plantar o amor em sua casa, com seu marido, com seus filhos e você verá que conseguirá colher amor. A resposta para acabarmos com a violência é o amor! A arma poderosa que nós combatentes temos, é o amor. Um dia poderemos dizer como São Paulo, “Combati o bom combate e guardei a minha fé!”, mas hoje talvez você volte para casa e tenha as mesmas dificuldades que antes ou até piores, mas o dia do Senhor vai chegar, quando vier a tentação para você largar tudo, volte-se ao Senhor, ore ao Senhor, há uma carreira a correr, uma vitória a alcançar e não podemos desistir. A vitória será nossa, essa é a vitória final, o céu! Vale a pena meus irmãos enfrentar gigantes, muralhas, pelo céu, o céu é o nosso lugar e se Deus é por nós quem será contra nós? Nós somos do céu e vamos habitar o céu. Deus nos diz hoje no Evangelho que o Pão do céu é que nos dará a vitória, combatente que não comunga é um combatente fraco, alguns querem comungar, mas não podem comungar, estes estão debaixo da misericórdia de Deus, mas há os que podem comungar e não comungam, criaram uma mentalidade de que não precisam comungar, nem confessar e digo a você, combatente que não comunga não agüentará, pois a eucaristia é o sustento e a garantia que chegaremos no dia do Senhor. Jovem quer vencer a força da carne, seja um jovem eucarístico, seja um avô, uma avó, um pai e uma mãe eucarísticos e você poderá contemplará a derrota de satanás e alcançarás o céu!

A santidade é o caminho normal do cristão

Discurso do Papa aos crismandos em Milão, durante o VII Encontro Mundial das Famílias 2012

ENCONTRO COM OS CRISMANDOS
DISCURSO DO PAPA BENTO XVI

Estádio “Meazza”, San Siro Sábado, 2 de Junho de 2012

Queridos jovens e moças!

É para mim uma grande alegria poder encontrar-me convosco durante a minha visita à vossa Cidade. Neste famoso estádio de futebol, hoje sois vós os protagonistas! Saúdo o vosso Arcebispo, Cardeal Angelo Scola, e agradeço-lhe as amáveis palavras que me dirigiu. Agradeço também a Pe. Samuele Marelli. Saúdo o vosso amigo que, em nome de todos vós, me deu as boas-vindas. Sinto-me feliz por saudar os Vigários episcopais que, em nome do Arcebispo, vos administraram ou administrarão a Crisma. Um obrigado particular à Fundação dos Oratórios Milaneses que organizou este encontro, aos vossos sacerdotes, a todos os catequistas, aos educadores, aos padrinhos e madrinhas, e a quantos em cada uma das comunidades paroquiais se fizeram vossos companheiros de viagem e vos testemunharam a fé em Jesus Cristo morto, ressuscitado e vivo.

Vós, queridos jovens, estais a preparar-vos para receber o Sacramento da Confirmação, ou já o recebestes há pouco tempo. Sei que fizestes um bom percurso formativo, chamado este ano «O espetáculo do Espírito». Ajudados por este itinerário, com diversas etapas, aprendestes a reconhecer as coisas maravilhosas que o Espírito Santo fez e faz na vossa vida e em quantos dizem «sim» ao Evangelho de Jesus Cristo. Descobristes o grande valor do Batismo, o primeiro dos sacramentos, a porta de entrada para a vida cristã. Vós recebeste-lo graças aos vossos pais, que juntamente com os padrinhos, em vosso nome, professaram o Credo e se comprometeram a educar-vos na fé. Esta foi para vós — assim como para mim, há muito tempo! — uma graça imensa. A partir daquele momento, renascidos da água e do Espírito Santo, começastes a fazer parte da família dos filhos de Deus, tornastes-vos cristãos, membros da Igreja.

Agora sois grandes, e podeis vós próprios dizer o vosso «sim» pessoal a Deus, um «sim» livre e consciente. O sacramento da Crisma confirma o Batismo e efunde sobre vós o Espírito Santo em abundância. Agora vós mesmos, cheios de gratidão, tendes a possibilidade de acolher os seus grandes dons que vos hão-de ajudar, no caminho da vida, a tornar-vos testemunhas fiéis e corajosas de Jesus. Os dons do Espírito são realidades maravilhosas, que vos permitem formar-vos como cristãos, viver o Evangelho e ser membros ativos da comunidade. Recordo brevemente estes dons, dos quais já nos fala o profeta Isaías e depois Jesus:

— o primeiro dom é a sabedoria, que vos faz descobrir como o Senhor é bom e grande e, como diz a palavra, dá à vossa vida sabor pleno, para que sejais, como dizia Jesus, «sal da terra»;

— depois o dom do intelecto, para que possais compreender em profundidade a Palavra de Deus e a verdade da fé;

— em seguida o dom do conselho, que vos guiará na descoberta do projeto de Deus sobre a vossa vida, a vida de cada um de vós;

— o dom da fortaleza, para vencer as tentações do mal e praticar sempre o bem, mesmo quando custa sacrifício;

— em seguida, o dom da ciência, não ciência no sentido técnico, como é ensinada na Universidade, mas ciência no sentido mais profundo, que ensina a encontrar na criação os sinais, as marcas de Deus, a compreender como Deus fala em todos os tempos e como fala a mim, e a animar com o Evangelho o trabalho de cada dia; compreender que há uma profundidade e compreendê-la e desta forma dar sabor ao trabalho, até ao que é difícil;

— outro dom é o da piedade, que mantém viva no coração a chama do amor ao nosso Pai que está no céu, de modo a rezar a Ele todos os dias com confiança e ternura de filhos amados; a não esquecer a realidade fundamental do mundo e da minha vida: que Deus existe e me conhece e espera a minha resposta ao seu projecto;

— e finalmente o sétimo e último dom é o temor de Deus — falamos há pouco do temor — temor de Deus não significa medo, mas sentir por Ele um respeito profundo, o respeito da vontade de Deus que é o verdadeiro desígnio da minha vida e o caminho através do qual a vida pessoal e comunitária pode ser boa; e hoje, com todas as crises que existem no mundo, vemos como é importante que cada um respeite esta vontade de Deus impressa nos nossos corações e segundo a qual devemos viver; e assim este temor de Deus é desejo de praticar o bem, de praticar a verdade, de fazer a vontade de Deus.

Queridos jovens e moças, toda a vida cristã é um caminho, é como percorrer um carreiro que leva a um monte — portanto nem sempre é fácil, mas subir a um monte é algo muito agradável — em companhia de Jesus; com estes dons preciosos a vossa amizade com Ele tornar-se-á ainda mais verdadeira e mais estreita. Ela alimenta-se continuamente no sacramento da Eucaristia, no qual recebemos o seu Corpo e o seu Sangue. Por isto vos convido a participar sempre com alegria e fidelidade na Missa dominical, quando toda a comunidade se reúne para rezar, ouvir a Palavra de Deus e participar no Sacrifício eucarístico em conjunto. E recebei também o Sacramento da Penitência, na Confissão: é um encontro com Jesus que perdoa os nossos pecados e nos ajuda a praticar o bem; receber o dom, recomeçar de novo é um grande dom na vida, saber que sou livre, que posso recomeçar, que tudo é perdoado. Não falte depois a vossa oração pessoal de cada dia. Aprendei a dialogar com o Senhor, confiai n’Ele, dizei-lhe as alegrias e as preocupações, e pedi-lhe iluminação e apoio para o vosso caminho.

Queridos amigos, vós sois privilegiados porque nas vossas paróquias há os oratórios, um grande dom da Diocese de Milão. O oratório, como diz a palavra, é um lugar onde se reza, mas também onde se está juntos na alegria da fé, onde se faz catequese, se joga, se organizam actividades de serviço e de outros géneros, diria, onde se aprende a viver. Sede frequentadores assíduos do vosso oratório, para amadurecer cada vez mais no conhecimento e no seguimento do Senhor! Estes sete dons do Espírito Santo crescem precisamente na comunidade onde se leva a vida na verdade, com Deus. Em família, sede obedientes aos pais, ouvi as indicações que vos dão, para crescer como Jesus «em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens» (Lc 2, 51-52). Por fim, não sejais indolentes, mas jovens e moças comprometidos, em particular no estudo, em vista da vida futura: é o vosso dever quotidiano e uma grande oportunidade que tendes para crescer e para preparar o futuro. Sede disponíveis e generosos com os outros, vencendo as tentações de vos pôr a vós próprios no centro, porque o egoísmo é inimigo da verdadeira alegria. Se apreciardes agora a beleza de fazer parte da comunidade de Jesus, podereis também vós dar a vossa contribuição para a fazer crescer e sabereis convidar os outros a fazer parte dela. Permiti-me dizer-vos também que o Senhor, todos os dias, também hoje, vos chama a coisas grandiosas. Sede abertos ao que vos sugere e se vos chamar a segui-lo no caminho do sacerdócio ou da vida consagrada, não lhe digais não! Seria uma ociosidade errada! Jesus encher-vos-á o coração para toda a vida!

Queridos jovens, queridas moças, digo-vos com força: tendei para ideais nobres: todos podem alcançar uma medida alta, não só alguns! Sede santos! Mas é possível ser santo na vossa idade? Respondo-vos: certamente! Diz isto também santo Ambrósio, grande santo da vossa Cidade, numa das suas obras, onde escreve: «Cada idade é madura para Cristo» (De virginitate, 40). E demonstra-o sobretudo o testemunho de tantos Santos vossos coetâneos, como Domenico Savio, ou Maria Goretti. A santidade é o caminho normal do cristão: não está reservada a poucos eleitos, mas está aberta a todos. Naturalmente, com a luz e a força do Espírito Santo, que não nos faltará se estendermos as nossas mãos e abrirmos o nosso coração! E com a guia da nossa Mãe. Quem é a nossa Mãe? É a Mãe de Jesus, Maria. A ela Jesus nos confiou a todos, antes de morrer na cruz. Então a Virgem Maria conserve sempre a beleza do vosso «sim» a Jesus, seu Filho, o grande e fiel Amigo da vossa vida. Assim seja!
© Copyright 2012 – Libreria Editrice Vaticana

 

Deus na alegria e na tristeza
Padre Paulo Ricardo

Irmãos, nos reunimos para celebrar a Eucaristia, que é o mais importante que podemos fazer nesta terra, não existe nada de mais solene e grandioso. Não há nada que possamos imaginar nesta terra tão importante quanto celebrar a Eucaristia. Dentro desses tantos jovens eu gostaria de recordar de um grupo de jovens que está neste altar, os seminaristas, neste ano sacerdotal, que se dispõe a seguir este caminho, a vocês, meus filhos quero dizer, Deus ama muito vocês, mas tenham cuidado, pois o demônio odeia muito vocês, tenham muito cuidado. O Papa proclamou este ano para que nós nos convertamos, e é no seminário que começa nossa conversão, eu falo para vocês que não façam como eu, que se converteu depois de padre, eu já tinha cinco anos de padre. Não esperem serem ordenados para se converterem. Que bom estarmos neste clima de festa, pois é exatamente isto que nos fala o Evangelho. Jesus acaba de sair de uma festa escandalosa na casa de Mateus. Mateus era um corretor de impostos, hoje diríamos que ele é um político corrupto, e Jesus vai à festa de sua casa, Ele come com os pecadores. Jesus fazia festa, é neste contexto que se dá o Evangelho de hoje, os discípulos não faziam jejum, e isso era um escândalo. Aqui nós enxergamos o que é Igreja, saiba você que se converteu há pouco tempo e está participando de uma paróquia, não se iluda, tem gente que pensa que dentro da Igreja só encontrará ‘santinhos’, quando você vai ao hospital, você encontra doentes, quando você vai a Igreja, você encontra pecadores, pois a Igreja é o lugar dos pecadores, a Igreja é o único lugar onde sabemos que somos pecadores. Qual a diferença entre um cristão que está na igreja e um pagão que não está na igreja? Alguns dizem que o cristão é santo e o pagão peca, não é essa [diferença], o cristão peca, e o pagão também peca, a diferença é que o cristão odeia seu pecado, e o pagão não. A alegria do cristão é a certeza de que eu sou amado por Deus, não importa o que eu fizer, Ele me ama e não me abandona nunca. Uma alegria que não tem ruga, não tem mancha, pois Ele derramou Seu sangue por mim na cruz, esta é a mensagem que o Evangelho nos dá. O que Deus quer nos ensinar, parece contraditório, mas não é, dentro de cada cristão existe uma alegria radical e ao mesmo tempo existe uma tristeza. A alegria de sermos amados, a tristeza de não termos correspondido a esse amor. A minha miséria me entristece e a misericórdia me alegra, eu preciso fazer jejum quando o esposo está longe de mim, e fazer festa quando Ele estiver próximo. O paradoxo é que Deus nunca está longe de mim, mas eu posso estar longe de Deus, parece uma contradição, mas não é, é a grande verdade da nossa fé. Deus não me abandona. No sacramento da ordem, recebemos de Deus um caráter indelével, o que é isso? Os gados recebiam um carimbo, um caráter, que dizia a quem o boi pertencia. Indelével é algo que ninguém pode destruir, caráter indelével, é um carimbo que ninguém pode destruir, ninguém pode tirar. Você pode descer aos infernos para ir longe de Deus, mas Deus não abandonará você, o batismo, a crisma lhe dá um caráter indelével, você é servo d’Ele, e Ele não deixa você. Acontece com o sacerdote essa grande verdade, Ele me escolheu, e apesar de mim Ele não me deixará, eu como padre posso deixar Deus, mas Ele nunca me deixará. Essa não é uma verdade somente para o padre, é uma verdade para todos que são batizados e crismados, e até para quem não é batizado. Deus quer você, os católicos querem você, se você não é católico, eu sou capaz de viajar ao outro lado do planeta para converter alguém ao catolicismo, pois o catolicismo é lindo. A tristeza foi criada por Deus e Ele nos deu a tristeza de presente. Quando Deus criou Adão e Eva, Ele sabia que eles podiam pecar, e deu a eles a tristeza de presente, para que quando eles pecassem, eles se entristecem, e por causa dessa tristeza que é uma graça extraordinária, se decidisse voltar para Deus. Mas também a tristeza pode ser usada pelo diabo, para nos afastar de Deus, Deus nos deu a tristeza para que nos voltemos para Ele, e o diabo usa a tristeza para quando nós perdemos nossos deuses falsos. Toda vez que você fica triste é porque perdeu um deus, pode ser que perdeu o Deus verdadeiro, mas pode ser que você perdeu seu deus falso, quando você perde o dinheiro, seu namorado, namorada, você perder seu deus falso. Num relacionamento amoroso, se diz: “você é minha vida, meu ar que eu respiro, eu te adoro”, coisas que deveriam ser ditas somente a Deus, mas são ditas a pessoas que se tornam nossos deuses. Você é um filho amado de Deus, não ria do sofrimento de Jesus, dê a vida a Aquele que morreu por você. Nós não fomos amados por um amor qualquer, mas sim por um amor sem imperfeições, um amor eterno, um amor divino, mas nós não amamos de volta. São Francisco passava dias a fio dizendo: “O amor não é amado”. Deus nos deu uma tristeza para nos entristecermos de termos nos afastado d’Ele e uma alegria que nós fomos amados, que Ele nunca ficará longe de nós. Cristo já nos alcançou, agora precisamos correr para alcançá-lo, parece contraditório, mas é isso, talvez você tenha vindo no PHN sem saber o porquê, veio para “azarar” uma menininha, para se divertir, para vender drogas, achando que veio servir ao inimigo, mas agora enquanto eu estou falando, Jesus te alcança, você sabe que Jesus já te alcançou, você sabe que estou falando com você, agora você precisa alcançar Jesus, sair da morte em que você vive, nesta morte disfarçada de vida, você não vive, você esperneia, você não é capaz de sentir a alegria de um verdadeiro cristão, a alegria da certeza de sermos amados por Deus, a alegria que entra no seu coração quer tomar conta de você. Se você por acaso está triste e não consegue sair da tristeza, você sabe o que precisa fazer, largue o que você precisa largar, essa idéia que com você nada poderia acontecer, que sua mulher morreu, seu pai morreu. Uma coisa é ficar triste porque alguém morreu, isto é normal, outra coisa é você transformar essa tristeza num projeto de vida, você acha que a morte poderia bater na porta de qualquer pessoa menos na sua. Não importa sua idade, estamos neste mundo de passagem, dá um pulo para Deus, vai para Ele. Enquanto você viver essa vida ambígua, que é de Jesus e não é de Jesus, será um remendo novo, num pano velho. Você que vive nesta luta psíquica, que fica naquela ‘vou, não vou’, não fique nessa, lute com Deus, porque quando você luta com Ele, você perde para Ele, e com isso acontece a vida nova. Você que sente que deve jogar a camisinha fora, não fique nessa luta psíquica com você, jogue-a. Deixe Deus vencer você. Tem pessoas que são retardadas e dizem que a Igreja é contra a camisinha, a Igreja não é contra a camisinha, é contra o sexo fora do casamento, porque a Igreja ama você e quer o seu bem. Pare se maltratar, diga: “Por Hoje Não”.

 

Jovens, sois fortes
Padre Paulo Ricardo

“Jovens, sê forte e corajoso”. Mas quando é que somos fortes? Quando a Palavra de Deus permanece em nós. Quero que você entenda o que é essa fortaleza dentro de você. Quando falamos de fortaleza, muitas pessoas não a entendem, mas estamos falando de coragem. A coragem é uma virtude que só existe por que existe o mal no mundo. Se só existisse o bem, não precisaríamos de coragem. Nós, seres humanos, temos coragem, porque somos vulneráveis e podemos sair feridos de uma guerra. Quando somos corajosos, significa que podemos lutar e sair ferido, mas sabemos que vale a pena. Coragem é aquilo que diz o Salmo: “O vosso amor vale mais do que a vida e, por isso, os meus lábios vos louvam”. Existe algo que vale mais do que a vida: é o amor de Deus. Ele vale a pena. Acontece que, muitas vezes, não nos damos conta disso e terminamos achando que o nosso maior compromisso é salvar a vida. Como costumamos dizer, “salve-se quem puder”. Anjo não tem coragem, porque não é vulnerável. Mas você é vulnerável e, por isso precisa de coragem, precisa estar disposto a sair ferido, porque sabe que há coisas que valem mais do que a vida. Os jovens dos anos 70, 80 tinham coragem e força, mas usaram-na no lugar errado. Eles destruíram as coisas para construir, neste mundo, um paraíso, um mundo novo. Mas isso não funciona, porque nós fomos feitos para Deus. Essa vida é boa, é bonita, mas é um ensaio da verdadeira vida que virá em Deus. Estamos aqui passando uma temporada; não é aqui o nosso lugar, não é aqui que vamos encontrar repouso e felicidade. Nós fomos criados para o céu, para a felicidade perfeita, para a vida eterna. Nada neste mundo vai preencher nosso coração plenamente. O que é um namorado? É um companheiro de viagem na sua travessia por este mundo para chegarem, juntos, ao porto seguro que é Deus. Mas se você transformar o seu relacionamento de namoro, de casamento, numa cobrança de felicidade aqui neste mundo, a única coisa que você vai conseguir fazer é destruir a sua vida, os seus relacionamentos. Quem está errado não é seu esposo, seu pai ou seu namorado, mas a sua expectativa. Você está esperando de uma pessoa aquilo que ela não pode lhe dar. A Palavra de Deus nos diz que somos feitos para o céu, mas se você não quer voar alto como uma águia, vai ser, simplesmente, uma galinha que voa cada vez mais para o chão. Meus irmãos, coragem. Os santos nos recordam que a coragem é a virtude do bem árduo. Se você ficar sentado, esperando o tempo passar, não vai encontrar a felicidade de Deus na sua vida. Se não combater o bom combate, será destruído. Você não pode abraçar pessoas doentes espiritualmente e pensar que vai sair ileso. Assim, você está tentando a Deus. Típico da fortaleza é resistir ao mal, criar uma espécie de muralha para se defender. Mas como fazer isso? Sabendo identificar quem é amigo e quem é inimigo. Para que você, pessoalmente, combata a maldade, é preciso entender que existe maldade dentro de você. Não adianta nada você ficar lutando conta os outros para acabar com a maldade no mundo, se existe um mundo dentro de você que ainda não está convertido. Você também precisa se dar conta de que dentro de você existem doenças espirituais. Você não pode ser uma alma aidética espiritualmente, não pode abraçar o pecado. Você precisa identificar o mal e resistir a ele. É dentro de você que começa a conversão, a mudança espiritual.

Transfiguração do Senhor – 06 de Agosto – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

A cruz não é o termo. A dor não é o último destino do homem. É um caminho e nada mais, um meio para chegar ao gozo do Senhor. E Jesus quer dar uma amostra desse gozo aos três discípulos que hão-de presenciar, mais de perto, os tormentos da sua Paixão. Ao regressar de Cesárea, chegou, com os Doze, em uma tarde de Agosto, ao sopé do Tabor, montanha graciosa, símbolo da felicidade sobrenatural, do amor beatífico, do abraço de Deus. Deixou nove discípulos na falda do monte e, levando consigo Pedro, João e Tiago, subiu ao cume, para orar. Dizem que Pedro representa os constantes na fé, Tiago os firmes na esperança, João os ardentes no amor. Pedro é o Vigário de Jesus Cristo; João, o discípulo virgem; Tiago, o primeiro Apóstolo mártir. Chegando a um lugar tranqüilo, começaram a orar. Jesus prolongou a sua oração, mas os discípulos estavam rendidos de sono. Adormeceram. «Enquanto Jesus orava transfigurou-se diante deles e o seu rosto resplandecia como o sol e as suas vestes tomaram-se brilhantes e duma alvura extrema, como a da neve. Neste instante apareceram Moisés e Elias em forma gloriosa, falando com Ele; e falavam da sua saída (deste mundo), que havia de cumprir-se em Jerusalém. Os discípulos, ao despertar. viram a glória de Jesus e os dois varões que estavam com Ele». Que impressão para os três! Ver o seu amado Mestre, cheio de graça, formosura e majestade, a conversar com aqueles dois santíssimos varões: Moisés, o libertador do povo judeu, e Elias, o grande profeta mártir, que durante a vida haviam ansiado pela vinda do Ungido do Senhor e agora eram chamados do outro mundo para O ver, ouvir e Lhe falar… A Transfiguração é a vitória da Luz: Elias foi arrebatado ao Céu em carro luminoso de fogo; Moisés desceu do monte com feixes de luz na fronte. Jesus é a Luz eterna, é Luz da Luz que ilumina a todo o homem que vem a este mundo. Desde que nasceu, a beleza divina da sua alma não cessou de crescer aos olhos dos homens. Agora brilhava deslumbrante. Transparecia através do corpo e do vestido. Erguia o seu corpo acima da terra, e se Jesus não tivera atendido senão às exigências da sua natureza divinizada, ter-se-ia realizado ali a ascensão. Mas renunciava a ela e falava com os dois Aparecidos a respeito de como havia de sair da vida mortal. Elias saíra sem morrer. Moisés saíra morrendo, mas de morte tão suave que a Escritura afirma que expirou no ósculo de Deus. Ambos conheceram, sobre este monte, uma ciência mais alta. A ciência de preferir a morte: a ciência de morrer de maneira infame em uma cruz, nu, desprezado, escarnecido pela multidão, abandonado do próprio Deus, para realizar assim a redenção dos homens. Eis do que se falava sobre o Tabor. Moisés e Elias contemplavam extáticos, mudos de assombro e de admiração, aquela maneira de sair da vida, única, maravilhosa, digna de Jesus. Nem Pedro nem Tiago nem João compreendiam aquilo. Só viam a glória. E como amavam ternamente o seu Mestre, assistiam radiantes à sua glorificação. A Pedro que, como os grandes corações, tinha o segredo das frases belas, ocorreu uma, admirável: «Senhor, como se está bem aqui: façamos três tendas, uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». Para si não pedia nada, porque tinha a certeza de participar da glória do seu bom Mestre. Mas o Evangelista adverte que, falando assim, «Pedro não sabia o que dizia». «Estando Ele ainda a falar. veio uma nuvem luminosa que os envolveu e ao entrarem na mesma tiveram medo. E eis que saiu da nuvem uma voz que dizia: – Este é o meu Filho amado em quem pus toda a minha complacência. Ouvi-O.  Ouvindo aquela voz, os discípulos caíram de bruços e tiveram muito medo. Porém, Jesus aproximou-Se deles. tocou-lhes e disse: – Erguei-vos e não temais. Eles então, erguendo os olhos e olhando à volta, não viram ninguém senão Jesus». Tudo voltara ao estado normal. O rosto de Jesus perdera o seu fulgor, a túnica era como todos os dias e Ele voltava a ser o Amigo carinhoso de cada hora. Nessa noite, porém, três homens tinham assistido à glória do Nazareno e escutado a voz de Deus: – Este é o meu Filho muito amado: escutai-O. E um deles, Pedro, poderá um dia escrever nas suas cartas: «Nós escutamos esta voz descida do Céu, quando estávamos com Ele no monte santo». E para defender a verdade do seu testemunho, viria a morrer mártir. Antigamente, Deus falou aos Patriarcas por meio dos Profetas. Agora fala-nos por meio do seu Filho. Com Ele dá-nos tudo, por Ele nos diz tudo: escutemo-Lo. Quando desciam do monte, Jesus interrompeu o silêncio em que vinham, meditando no que acabavam de ver, e disse-lhes: «A ninguém direis o que vistes, até que o Filho do Homem ressuscite de entre os mortos». E eles calaram-se durante aqueles dias e não disseram a ninguém o que tinham visto; mas, de si para si, cogitavam o que significaria quando ressuscite de entre os mortos. Parecia-lhes impossível que o seu Mestre pudesse morrer e estar entre os mortos e por isso desconfiavam que aquela frase tivesse qualquer sentido misterioso. Apagadas as luzes do Tabor, tinham de descer às misérias da vida diária, às rivalidades dos fariseus, aos ataques do Tentador. Já não viam as claridades do monte nem escutavam a voz do Pai. Não é possível permanecer sempre no gozo das alturas. É preciso descer. Mas continuaram eles e continuamos nós escutando a voz do Filho nas palavras do seu Evangelho «que fazeis muito bem em atender, como a luz que brilha no meio das trevas, até que nasça o dia e se acenda a luz nos vossos corações». Assim nos diz, aconselhando-nos a ouvir a palavra de Deus escrita, o próprio são Pedro, aquele ditoso apóstolo que escutou a sua palavra falada. Fazeis muito bem atendendo-a, que a sua palavra é luz e esta vida é uma passagem tenebrosa. Esperai algum tempo: também para vós brilhará o dia de uma transfiguração maravilhosa e nascerá em vossos corações uma torrente de luz e ficareis convertidos em claridade e. sereis semelhantes a Deus, porque O vereis tal como é: não brilhante como o Sol, não branco como a neve, mas como é… E cantareis eternamente o hino de gratidão e de amor: – Senhor! Como estamos bem aqui!

 

No dia da Transfiguração do Senhor, ouvimos o Evangelho segundo Mateus, que nos ensina a contemplar Jesus transfigurado no alto do monte. Naquela ocasião, segundo o Evangelista, Jesus tomou três dos seus discípulos e seguiu em direção à montanha. Afastados do convívio de todos, em lugar ermo e silencioso, a primeira condição para se contemplar a face de Deus no rosto de Cristo, que é a suprema vocação Cristã. Deus não está no barulho, na algazarra. Quem vive da manhã à noite extrovertidamente, não é capaz de ouvir a Palavra de Deus. Naquele momento os três estavam em condições. Esta se deu num relance. Eles puderam contemplar com seus próprios olhos, Jesus transfigurado. Naquele momento algo da Glória Pascal se antecipou na vida de Jesus. Aqueles discípulos que estavam destinados a serem testemunhas do desfiguramento de Jesus, por ocasião da sua Paixão, agora o viam Transfigurado e assim alimentavam sua fé para os dias de crise que estavam por vir. O cristianismo não é neste mundo a religião da visão. De fato o texto da transfiguração se termina, relatando que depois do êxtase, levantando os olhos não viram mais ninguém, a não ser Jesus. Se o cristianismo, neste mundo não é a religião da visão, é com certeza a religião da escuta, pois a última vez que o Pai falou no Novo Testamento, foi exatamente neste dia: “Este é o Meu Filho. Escutai-O o que Ele diz”. Jesus havia dito imediatamente antes que tinha que sofrer muito pela salvação de todos nós. Esta era a Palavra de Deus que os discípulos haviam de escutar, sobretudo contemplar, por ocasião da Paixão. Foram fracos naquela circunstância, mas depois se recuperaram e se tornaram arautos do cristianismo, pregadores do Evangelho. A visão está destinada para o outro mundo, a outra vida. Aqui resta-nos a escuta obediente que realizamos através da fé. Somente aqueles que tiverem obedecido a Deus diariamente em Suas Palavras, se purificam interiormente e vão se tornando capazes de O contemplar um dia, no Reino dos Céus.

 

«A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR, NOSSA TRANSFIGURAÇÃO»
Pe. José Artulino  Besen

“Ó Cristo Deus, tu te transfiguraste sobre a montanha, mostrando aos discípulos tua glória, à medida que lhes era possível contemplá-la. Também sobre nós, pecadores, deixa brilhar tua luz eterna, pelas orações da Mãe de Deus. Ó Doador da luz, glória a ti!”
Os Evangelhos sinóticos (Mt 17, 1-13; Mc 9, 6-8; Lc 9, 28-36) relatam a revelação ocorrida no Monte Tabor: Pedro, Tiago e João contemplam Jesus, mais brilhante do que o sol, conversando com Moisés e Elias. E, como no dia do Batismo, a voz do Pai declara “Este é o meu Filho muito amado; escutai-o”. No século VI a festa da Transfiguração, 6 de agosto, difundiu-se por todo o Oriente e em 1457 o papa Calixto III introduziu-a no Ocidente, em agradecimento pela vitória conseguida contra os turcos. Quando Pedro pediu ao Senhor para construir tendas e residirem no monte, estava equivocado: a Transfiguração não é uma emoção para ser degustada, mas um caminho que passa pela paixão e morte; também se equivocou Calixto III, pois não foi um triunfo terreno. A Transfiguração foi um lampejo, um resplendor do reino que é Jesus: é a Luz da Páscoa, do Pentecostes, da Parusia. É o Senhor da Luz. Naquela hora, conversando com Moisés e Elias, a Lei e os Profetas, Jesus ilumina todo o Antigo Testamento, revela o novo Êxodo (sua Paixão e Morte) e é revelado como a Luz das Nações. Pedro, Tiago e João são as testemunhas da Nova Aliança: contemplam o Cristo transfigurado e o contemplarão ressuscitado. O Cristo do Tabor é o mesmo Jesus que peregrinava pela Palestina, o Deus feito homem, o Homem-Deus. Todos os olhos conseguiam somente contemplar o homem, mas, na Transfiguração, o Espírito transfigurou os olhos dos discípulos e eles contemplaram o Homem-Deus. Tendo seus olhos lavados pela graça, foram tomados pela energia divina. A antiga e a nova Aliança Conversando com Moisés e Elias, Jesus insere a antiga Aliança na nova: ele é o Mediador e a realização dos dois Testamentos. O Pai de Jesus é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó e é o Pai do Colégio apostólico. Freqüentemente a história nos coloca frente a contradições: o mesmo dia 6 de agosto, quando a Igreja da Nova Aliança celebra a Transfiguração é, para o povo da Antiga Aliança o dia 9 do mês de Av, quando faz memória da destruição do Templo em 586aC e em 70pC. Nossas igrejas estão iluminadas para celebrar a Luz do Tabor e as Sinagogas, ao contrário, ficam em semi-escuridão, com apenas uma vela acesa para a leitura das Lamentações. Nós nos alegramos pela Luz que nos invade, que nos transfigura, e o povo judeu chora a ausência de seu Templo e chora também todas as perseguições que sofreram por causa do ódio humano e cristão. Enquanto Cristo conversa com Moisés e Elias, nós cristãos blasfemamos contra o povo judeu, chegando à Shoah, ao Holocausto desse povo sob o nazismo. O Cristo transfigurado é filho de Abraão segundo a carne e nós, pela Transfiguração, somos filhos de Abraão segundo o Espírito. Toda oposição e ódio negam a verdade que emana da pessoa que é a Luz dos Povos, o Senhor.

 

LIÇÃO DA TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS
A oração, «questão de vida ou morte», afirma no Ângelus

CIDADE DO VATICANO, domingo, 4 de março de 2007 (ZENIT.org). Publicamos as palavras que Bento XVI pronunciou neste domingo, ao rezar a oração mariana do Ângelus junto a milhares de peregrinos congregados na Praça de São Pedro, no Vaticano.

Queridos irmãos e irmãs: Neste segundo domingo da Quaresma, o evangelista Lucas sublinha que Jesus Subiu ao monte «para orar» (9, 28) junto com os apóstolos Pedro, Tiago e João e, «enquanto orava» (9, 29), aconteceu o luminoso mistério de sua transfiguração. Subir ao monte, para os três apóstolos, implicou envolver-se na oração de Jesus, que se retirava com freqüência para orar, especialmente na aurora ou após o entardecer, e às vezes durante toda a noite. Pois bem, somente nessa ocasião, no monte, Ele quis manifestar aos seus amigos a luz interior que o invadia quando rezava: seu rosto — lemos no Evangelho — iluminou-se, e suas vestes deixaram transluzir o esplendor da Pessoa divina do Verbo encarnado (cf. Lucas 9, 29).

Na narração de São Lucas, há outro detalhe que é digno de ser destacado: ele indica o objeto da conversa de Jesus com Moisés e Elias, aparecidos junto a Ele transfigurado. Estes, narra o evangelista, «falavam de sua partida (em grego ‘éxodos’), que se cumpriria em Jerusalém» (9, 31).

Portanto, Jesus escutava a Lei e os profetas que falam de sua morte e ressurreição. Em seu diálogo íntimo com o Pai, Ele não sai da história, não foge da missão para a qual veio ao mundo, apesar de saber que, para chegar à glória, terá de passar através da cruz. Mais ainda, Cristo entra mais profundamente nesta missão, aderindo, com todo o seu ser, à vontade do Pai, e nos demonstra que a verdadeira oração consiste precisamente em unir nossa vontade à vontade de Deus.

Para um cristão, portanto, rezar não é evadir-se da realidade e das responsabilidades que esta comporta, mas assumi-las até o fundo, confiando no amor fiel e inesgotável do Senhor. Por este motivo, a comprovação da transfiguração é, paradoxalmente, a agonia em Getsêmani (cf. Lucas 22, 39-46). Ante a iminência da paixão, Jesus experimentará a angústia mortal e se encomendará à vontade divina; nesse momento, sua oração será penhor de salvação para todos nós. Cristo, de fato, suplicará ao Pai celestial que «o livre da morte» e, como escreve o autor da Carta aos hebreus, Ele «foi escutado por sua atitude reverente» (5, 7). A prova dessa escuta é a ressurreição.

Queridos irmãos e irmãs: a oração não é algo acessório ou opcional, mas uma questão de vida ou morte. Somente quem reza, isto é, quem se confia a Deus com amor filial, pode entrar na vida eterna, que é o próprio Deus. Durante este tempo de Quaresma, peçamos a Maria, Mãe do Verbo encarnado e Mestra de vida espiritual, que nos ensine a rezar como seu Filho o fazia, para que nossa existência se transforme pela luz de sua presença.
[Tradução realizada por Zenit. © Copyright 2006 – Libreria Editrice Vaticana]

 

ORAÇÃO, «QUESTÃO DE VIDA OU MORTE», assegura bento XVI
Ao meditar sobre a Transfiguração no Ângelus dominical
CIDADE DO VATICANO, domingo, 4 de março de 2007 (ZENIT.org). A oração é «uma questão de vida ou morte», pois dela depende nossa relação de amor com Deus, porta para entrar na vida eterna, explicou Bento XVI neste domingo.

Ao dirigir-se aos milhares de peregrinos congregados na Praça de São Pedro, no Vaticano, por ocasião da oração mariana do Ângelus, o Papa tirou essa lição da passagem evangélica da liturgia deste dia, em que se revive o mistério da Transfiguração de Jesus.

«A oração não é algo acessório ou opcional, mas uma questão de vida ou morte», afirmou, falando desde a janela de seus aposentos, em uma bela manhã ensolarada.

«Somente quem reza, isto é, quem se confia a Deus com amor filial, pode entrar na vida eterna, que é o próprio Deus», acrescentou.

O bispo de Roma reviveu os momentos em que Jesus subiu ao monte «para orar» junto com os apóstolos Pedro, Tiago e João e, «enquanto orava», aconteceu o luminoso mistério de sua transfiguração.

«Subir ao monte, para os três apóstolos, implicou envolver-se na oração de Jesus, que se retirava com freqüência para orar, especialmente na aurora ou após o entardecer, e às vezes durante toda a noite», recordou.

«Nessa ocasião, no monte, Ele quis manifestar aos seus amigos a luz interior que o invadia quando rezava, acrescentou, explicando o sentido do fenômeno narrado pelo evangelista: seu rosto — lemos no Evangelho — iluminou-se, e suas vestes deixaram transluzir o esplendor da Pessoa divina do Verbo encarnado.»

Segundo o Evangelho explica, nesse momento Jesus conversou com Moisés (em representação da Lei) e com Elias (um dos profetas) sobre sua paixão, morte e ressurreição em Jerusalém.

«Em seu diálogo íntimo com o Pai, Ele não sai da história, não foge da missão para a qual veio ao mundo, apesar de saber que, para chegar à glória, terá de passar através da cruz.»

«Mais ainda — afirmou –, Cristo entra mais profundamente nesta missão, aderindo, com todo o seu ser, à vontade do Pai, e nos demonstra que a verdadeira oração consiste precisamente em unir nossa vontade à vontade de Deus.»

«Para um cristão, portanto, rezar não é evadir-se da realidade e das responsabilidades que esta comporta, mas assumi-las até o fundo, confiando no amor fiel e inesgotável do Senhor», indicou o Santo Padre.

Ele concluiu convidando os fiéis «neste tempo de Quaresma», a pedir a Maria, «Mestra de vida espiritual», que «nos ensine a rezar como seu Filho o fazia, para que nossa existência se transforme pela luz de sua presença».

Como descobrir a própria vocação

Segunda-feira, 4 de dezembro de 2017, Da redação, com Boletim da Santa Sé

Em mensagem para Dia Mundial de Oração pelas Vocações, Papa diz que cada vida é fruto de uma vocação divina e indica caminhos para discerni-la

Papa explicou que cada pessoa recebe um chamado, seja para a vida laical no matrimônio, à vida sacerdotal ou à vida consagrada, para tornar-se testemunha do Senhor, aqui e agora / Foto: L’Osservatore Romano

O Vaticano publicou nesta segunda-feira, 4, a Mensagem do Papa Francisco para o 55º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que será celebrado em 22 de abril de 2018, IV Domingo da Páscoa.

“Não estamos submersos no acaso, nem à mercê duma série de eventos caóticos; pelo contrário, a nossa vida e a nossa presença no mundo são fruto duma vocação divina”, destacou o Papa na mensagem.

O Pontífice afirmou que Deus não cessa de vir ao encontro do homem e o acompanha ao longo das estradas “poeirentas” da vida. E destacou três aspectos ligados à vocação pessoal e eclesial de cada pessoa: escuta, discernimento e vida.

Escutar

Francisco explicou que o chamado do Senhor não possui a evidência própria das muitas coisas que pode-se ouvir, ver ou tocar na experiência diária de cada um, mas acontece de forma silenciosa e discreta.

“Assim pode acontecer que a sua voz fique sufocada pelas muitas inquietações e solicitações que ocupam a nossa mente e o nosso coração. Por isso, é preciso preparar-se para uma escuta profunda da sua Palavra e da vida, prestar atenção aos próprios detalhes do nosso dia-a-dia, aprender a ler os acontecimentos com os olhos da fé e manter-se aberto às surpresas do Espírito”, alertou.

O Papa destacou que não será possível descobrir o chamado especial e pessoal que Deus pensou para cada pessoa, se ela permanecer fechada em si mesma, nos próprios hábitos e na apatia de quem desperdiça a vida com si mesma. Pois, perde a oportunidade de sonhar grande e tornar-se protagonista da história única e original que Deus quer escrever com cada ser humano.

Diante disso, apontou a necessidade do recolhimento interior, no silêncio. Um comportamento, que segundo o Santo Padre, está cada vez mais difícil, devido à sociedade rumorosa em que se vive. “À barafunda exterior, que às vezes domina as nossas cidades e bairros, corresponde frequentemente uma dispersão e confusão interior, que não nos permite parar, provar o gosto da contemplação, refletir com serenidade sobre os acontecimentos da nossa vida e realizar um profícuo discernimento, confiados no desígnio amoroso de Deus a nosso respeito”.

Discernir

O Papa destacou que cada pessoa só pode descobrir a própria vocação através do discernimento espiritual. “Um ‘processo pelo qual a pessoa, em diálogo com o Senhor e na escuta da voz do Espírito, chega a fazer as opções fundamentais, a começar pela do seu estado da vida’”.

Ele explicou que a vocação cristã sempre tem uma dimensão profética, como aponta a Sagrada Escritura, que conta sobre os profetas, enviados ao povo para lhes comunicar em nome de Deus palavras de conversão, esperança e consolação.

Francisco apontou que também hoje há grande necessidade do discernimento e da profecia, de superar as tentações da ideologia e do fatalismo e de descobrir, no relacionamento com o Senhor, os lugares, instrumentos e situações através dos quais Ele chama a cada um. “Todo o cristão deveria poder desenvolver a capacidade de ‘ler por dentro’ a vida e individuar onde e para quê o está a chamar o Senhor a fim de ser continuador da sua missão”.

Viver

O Santo Padre destacou que a missão cristã é para o momento presente e afirmou que a ” alegria do Evangelho” não pode esperar pelas lentidões e preguiças de cada um. “Não nos toca, se ficarmos debruçados à janela, com a desculpa de continuar à espera dum tempo favorável; nem se cumpre para nós, se hoje mesmo não abraçarmos o risco duma escolha. A vocação é hoje!”.

E explicou que cada pessoa recebe um chamado, seja para a vida laical no matrimônio, à vida sacerdotal ou à vida consagrada, para tornar-se testemunha do Senhor, aqui e agora.

“Realmente este ‘hoje’ proclamado por Jesus assegura-nos que Deus continua a ‘descer’ para salvar esta nossa humanidade e fazer-nos participantes da sua missão (…) Não temos de esperar que sejamos perfeitos para dar como resposta o nosso generoso ‘eis-me aqui’, nem assustar-nos com as nossas limitações e pecados, mas acolher a voz do Senhor com coração aberto”, concluiu o Pontífice.

 

Mensagem do Papa Francisco para o 55º Dia Mundial de Oração pelas Vocações (22 de abril de 2018)

Escutar, discernir, viver a chamada do Senhor

Queridos irmãos e irmãs!

No próximo mês de outubro, vai realizar-se a XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que será dedicada aos jovens, particularmente à relação entre jovens, fé e vocação. Nessa ocasião, teremos oportunidade de aprofundar como, no centro da nossa vida, está a chamada à alegria que Deus nos dirige, constituindo isso mesmo «o projeto de Deus para os homens e mulheres de todos os tempos» (Sínodo dos Bispos – XV Assembleia Geral Ordinária, Os jovens, a fé e o discernimento vocacional, Introdução).

Trata-se duma boa notícia, cujo anúncio volta a ressoar com vigor no 55.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações: não estamos submersos no acaso, nem à mercê duma série de eventos caóticos; pelo contrário, a nossa vida e a nossa presença no mundo são fruto duma vocação divina.

Também nestes nossos agitados tempos, o mistério da Encarnação lembra-nos que Deus não cessa jamais de vir ao nosso encontro: é Deus connosco, acompanha-nos ao longo das estradas por vezes poeirentas da nossa vida e, sabendo da nossa pungente nostalgia de amor e felicidade, chama-nos à alegria. Na diversidade e especificidade de cada vocação, pessoal e eclesial, trata-se de escutar, discernir e viver esta Palavra que nos chama do Alto e, ao mesmo tempo que nos permite pôr a render os nossos talentos, faz de nós também instrumentos de salvação no mundo e orienta-nos para a plenitude da felicidade.

Estes três aspetos – escuta, discernimento e vida – servem de moldura também ao início da missão de Jesus: passados os quarenta dias de oração e luta no deserto, visita a sua sinagoga de Nazaré e, aqui, põe-Se à escuta da Palavra, discerne o conteúdo da missão que o Pai Lhe confia e anuncia que veio realizá-la «hoje» (cf. Lc 4, 16-21).

Escutar

A chamada do Senhor – fique claro desde já – não possui a evidência própria de uma das muitas coisas que podemos ouvir, ver ou tocar na nossa experiência diária. Deus vem de forma silenciosa e discreta, sem Se impor à nossa liberdade. Assim pode acontecer que a sua voz fique sufocada pelas muitas inquietações e solicitações que ocupam a nossa mente e o nosso coração.

Por isso, é preciso preparar-se para uma escuta profunda da sua Palavra e da vida, prestar atenção aos próprios detalhes do nosso dia-a-dia, aprender a ler os acontecimentos com os olhos da fé e manter-se aberto às surpresas do Espírito.

Não poderemos descobrir a chamada especial e pessoal que Deus pensou para nós, se ficarmos fechados em nós mesmos, nos nossos hábitos e na apatia de quem desperdiça a sua vida no círculo restrito do próprio eu, perdendo a oportunidade de sonhar em grande e tornar-se protagonista daquela história única e original que Deus quer escrever conosco.

Também Jesus foi chamado e enviado; por isso, precisou de Se recolher no silêncio, escutou e leu a Palavra na Sinagoga e, com a luz e a força do Espírito Santo, desvendou em plenitude o seu significado relativamente à sua própria pessoa e à história do povo de Israel.

Hoje este comportamento vai-se tornando cada vez mais difícil, imersos como estamos numa sociedade rumorosa, na abundância frenética de estímulos e informações que enchem a nossa jornada. À barafunda exterior, que às vezes domina as nossas cidades e bairros, corresponde frequentemente uma dispersão e confusão interior, que não nos permite parar, provar o gosto da contemplação, refletir com serenidade sobre os acontecimentos da nossa vida e realizar um profícuo discernimento, confiados no desígnio amoroso de Deus a nosso respeito.

Mas, como sabemos, o Reino de Deus vem sem fazer rumor nem chamar a atenção (cf. Lc 17, 21), e só é possível individuar os seus germes quando sabemos, como o profeta Elias, entrar nas profundezas do nosso espírito, deixando que este se abra ao sopro impercetível da brisa divina (cf. 1 Re 19, 11-13).

Discernir

Na sinagoga de Nazaré, ao ler a passagem do profeta Isaías, Jesus discerne o conteúdo da missão para a qual foi enviado e apresenta-o aos que esperavam o Messias: «O Espírito do Senhor está sobre Mim; porque Me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-Me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar o ano favorável da parte do Senhor» (Lc 4, 18-19).

De igual modo, cada um de nós só pode descobrir a sua própria vocação através do discernimento espiritual, um «processo pelo qual a pessoa, em diálogo com o Senhor e na escuta da voz do Espírito, chega a fazer as opções fundamentais, a começar pela do seu estado da vida» (Sínodo dos Bispos – XV Assembleia Geral Ordinária, Os jovens, a fé e o discernimento vocacional, II.2).

Em particular, descobrimos que a vocação cristã tem sempre uma dimensão profética. Como nos atesta a Escritura, os profetas são enviados ao povo, em situações de grande precariedade material e de crise espiritual e moral, para lhe comunicar em nome de Deus palavras de conversão, esperança e consolação. Como um vento que levanta o pó, o profeta perturba a falsa tranquilidade da consciência que esqueceu a Palavra do Senhor, discerne os acontecimentos à luz da promessa de Deus e ajuda o povo a vislumbrar, nas trevas da história, os sinais duma aurora.

Também hoje temos grande necessidade do discernimento e da profecia, de superar as tentações da ideologia e do fatalismo e de descobrir, no relacionamento com o Senhor, os lugares, instrumentos e situações através dos quais Ele nos chama. Todo o cristão deveria poder desenvolver a capacidade de «ler por dentro» a vida e individuar onde e para quê o está a chamar o Senhor a fim de ser continuador da sua missão.

Viver

Por último, Jesus anuncia a novidade da hora presente, que entusiasmará a muitos e endurecerá a outros: cumpriu-se o tempo, sendo Ele o Messias anunciado por Isaías, ungido para libertar os cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar o amor misericordioso de Deus a toda a criatura. Precisamente «cumpriu-se hoje – afirma Jesus – esta passagem da Escritura que acabais de ouvir» (Lc 4, 20).

A alegria do Evangelho, que nos abre ao encontro com Deus e os irmãos, não pode esperar pelas nossas lentidões e preguiças; não nos toca, se ficarmos debruçados à janela, com a desculpa de continuar à espera dum tempo favorável; nem se cumpre para nós, se hoje mesmo não abraçarmos o risco duma escolha. A vocação é hoje! A missão cristã é para o momento presente! E cada um de nós é chamado – à vida laical no matrimónio, à vida sacerdotal no ministério ordenado, ou à vida de especial consagração – para se tornar testemunha do Senhor, aqui e agora.

Realmente este «hoje» proclamado por Jesus assegura-nos que Deus continua a «descer» para salvar esta nossa humanidade e fazer-nos participantes da sua missão. O Senhor continua ainda a chamar para viver com Ele e segui-Lo numa particular relação de proximidade ao seu serviço direto. E, se fizer intuir que nos chama a consagrar-nos totalmente ao seu Reino, não devemos ter medo. É belo – e uma graça grande – estar inteiramente e para sempre consagrados a Deus e ao serviço dos irmãos!

O Senhor continua hoje a chamar para O seguir. Não temos de esperar que sejamos perfeitos para dar como resposta o nosso generoso «eis-me aqui», nem assustar-nos com as nossas limitações e pecados, mas acolher a voz do Senhor com coração aberto. Escutá-la, discernir a nossa missão pessoal na Igreja e no mundo e, finalmente, vivê-la no «hoje» que Deus nos concede.

Maria Santíssima, a jovem menina de periferia que escutou, acolheu e viveu a Palavra de Deus feita carne, nos guarde e sempre acompanhe no nosso caminho.

Vaticano, 3 de dezembro – I domingo do Advento – de 2017.

FRANCISCO

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