Homilia da Semana

XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano A

Mt 22,15-21: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

15Reuniram-se então os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras. 16Enviaram seus discípulos com os herodianos, que lhe disseram: Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens. 17Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César? 18Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: Por que me tentais, hipócritas? 19Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto! Apresentaram-lhe um denário. 20Perguntou Jesus: De quem é esta imagem e esta inscrição? 21De César, responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Fariseus e herodianos se unem para conspirar contra Jesus. Os herodianos eram os partidários da política de Herodes e de sua dinastia: admiravam a dominação romana e, em matéria religiosa, compartilhavam com as idéias materialistas dos saduceus. Os fariseus eram zelosos cumpridores da Lei, anti-romanos e consideravam o regime de Herodes e dos seus sucessores como um poder obtido pela fraude. Havia uma diferença radical entre herodianos e fariseus, mas, nesta ocasião se unem e fazem uma pergunta maliciosa, mostrando como odiavam a Jesus. Se o Senhor respondesse que era lícito pagar o tributo a César, os fariseus estariam depreciando Jesus perante o povo, que pensava com mentalidade nacionalista. Se respondesse que não era lícito, os herodianos podiam denunciá-lo junto às autoridades romanas. Mas, Jesus responde com sabedoria e fidelidade à Sua pregação sobre o Reino de Deus. Fariseus e herodianos não alcançam a profundidade da colocação de Jesus: “Dai, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, onde Jesus confirma os deveres para com César, mas acrescenta que também devem dar a Deus o que lhes corresponde. Jesus apresenta outro lado da moeda, que eles ignoravam. O que corresponde a César? – a tributação necessária para a existência do ordenamento temporal, para a realização do bem comum e a felicidade plena do ser humano. E o que se deve dar a Deus? – Obediência aos Mandamentos, que implica “em Tudo Amar e Servir”, conforme nos diz Santo Inácio de Loyola. A resposta de Jesus está longe do entendimento de seus tentadores, está acima do “sim” e do “não” que queriam que Jesus respondesse. A doutrina de Jesus está acima de qualquer proposta política, e se, como fiéis leigos, no exercício de nossa liberdade, fizermos uma opção, escolhendo uma determinada posição em assuntos temporais, devemos desempenhar fielmente nossas tarefas, nos deixando guiar pelo Espírito do Evangelho… Nós leigos, que participamos ativamente na vida da Igreja, estamos obrigados não somente a impregnar o mundo de espírito cristão, mas também somos chamados a dar testemunho de Cristo em tudo, no meio da comunidade humana (cf. Gaudium et Spes, nº 43). Jesus reconheceu a autoridade civil e seus direitos, mandando dar o tributo a César, mas lembrou claramente que se deviam observar os direitos superiores de Deus (cf. Dignitatis Humanae nº 11). Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

 

Por Mons. Inácio José Schuster

Neste 29° domingo do Tempo Comum, nós encontramos uma perícope no texto de Mateus, que tem como finalidade conter um “logion”, isto é,  uma expressão de Jesus que tornou-se famosa no Cristianismo, e até mesmo fora dele. “Dai a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.” Queriam tentá-Lo: “devemos ou não pagar o tributo ao estrangeiro, ao dominador?” Qualquer que fosse a resposta de Jesus O comprometeria. Se dissesse sim, seria taxado de colaboracionista dos Romanos, e perderia Seu encanto com o povo Judeu que O acompanhava, se dissesse não, poderia ser acusado de rebeldia contra os dominadores. Jesus não se descompôs: “de quem é esta moeda? De quem é esta efígie? Em Seu tempo, provavelmente de Tibério Cesar, o imperador Romano daquela época. Se se comercia com o que é de Cesar, se se compra e se vende através de uma moeda que vem de Cesar, então nada mais justo que se dar a Cesar o que é de Cesar. No entanto, este não é o texto que nos leva, nós Cristãos, a respeitar e, de certa maneira, obedecer as autoridades civis constituídas, ainda que não comunguem de nossa fé. Existem outros textos do Novo Testamento que incutem nos Cristãos um respeito para com essas autoridades legítimas que nos governam neste mundo. Não é este, porém, o texto. Jesus não equipara Cesar a Deus. A frase de Jesus, famosa e célebre, deve ser entendida da seguinte maneira: podem dar a Cesar o que lhe pertence, porque Cesar, de maneira nenhuma, deve fazer ou faz concorrência com Deus. No entanto, se a Cesar o que é de Cesar, a Deus – que é infinitamente superior a Cesar – o que Lhe convém. E o que convém a Cesar? Simplesmente o pagamento dos impostos que são exigidos. Que convém a Deus? Muito mais que respeito; Deus não quer o posto de quem quer que seja, Deus quer o coração, Deus quer a obediência, Deus quer a totalidade, Deus quer a vida, Deus quer toda a energia para Si. Nada disto Cesar reclama para ele. Portanto, Cesar e Deus não estão no mesmo nível e não podem ser equiparados. De resto, o próprio texto insinua que se nós obedecemos a Cesar, se nós o respeitamos, nós não precisamos amá-lo, não precisamos temê-lo e não precisamos reverenciá-lo. E se, no entanto, Cesar exorbitar, se for além de suas prerrogativas, se exigir o que não é lícito, Deus deve ser preferido. E neste caso, Cesar deve ser rebaixado. Isto aconteceu muitas vezes no Cristianismo e, sobretudo, no Cristianismo das origens, quando Cesar queria ser adorado como uma divindade – pensamos, por exemplo, em Domiciano, no final do século primeiro – e os Cristãos não estavam dispostos a este ato cultual, como nos ensina o Livro do Apocalipse.

 

TEMOS DADO A DEUS O QUE É DE DEUS?
Padre Bantu Mendonça

Estamos na última semana da vida de Jesus. Ele atua como mestre no pórtico de Salomão ao oriente da esplanada do Templo. Seus inimigos estão à espreita para ver como apanhá-lo em suas palavras e, por isso, propõem diversas questões – que eram discutidas na época – com o intuito de ver seus conhecimentos e até de poder acusá-lo diante das autoridades por sua discrepância da Lei ou sua oposição às autoridades romanas. Um destes episódios é o de hoje: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências. Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar imposto a César?” É lícito significa se está de acordo com a Lei. Pagar o tributo a César seria, segundo os zelotas e os fariseus, dar dinheiro a um representante de um deus pagão. Seria manter o princípio de propriedade do Estado Romano sobre terras que Javé-Deus tinha dado a Israel a título inalienável. Segundo os juristas romanos, o povo de Israel tinha unicamente o usufruto destas terras. Por isso, a taxação era uma escravidão evidente segundo o povo eleito. Diante deste fato, a resposta se fosse favorável aos romanos atrairia o desprezo do povo sobre Jesus. Mas, se a resposta de Jesus fosse contrária ao pagamento do tributo, poderia ser causa suficiente para tratar Jesus como zelota e os herodianos acusá-lo-iam às autoridades – como realmente o fizeram – de impedir o pagamento do tributo a César (Lc 23,2). Jesus pede a moeda onde estava escrita ao redor da efígie do César: César Tibério, do divino Augusto filho, ele mesmo Augusto Pontifice Máximo. A moeda foi cunhada em Roma – como todas as moedas em ouro ou prata. Todos, tanto fariseus como herodianos, usavam a moeda, o que era de fato aceitar o domínio de César. A tradução mais exata da resposta de Jesus seria: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Sem dúvida, Jesus aponta para uma dívida que temos tanto com as autoridades civis como para com Deus: 1º – Ele estabelece uma clara distinção entre os deveres cívicos e os religiosos, não confundindo as áreas, mas separando-as. 2º – Toda autoridade da qual nos servimos – como se serviam do denário os judeus – tem origem divina, como Ele respondeu a Pilatos: “Nenhuma autoridade terias sobre mim se de cima não te fosse dada”. (Jo 19,11) Deus quer ser representado na autoridade do homem, como diz Paulo, independentemente dessa autoridade ser boa ou má. Em Rm 3,1 afirma: “Não há autoridade que não proceda de Deus e as autoridades que existem foram por Ele instauradas”. No mundo moderno não interrogamos Jesus sobre o tributo a César, mas interrogamos a Igreja sobre o Jesus que está mostrando ao mundo: O homem oprimido tem substituído a mensagem evangélica sobre o verdadeiro Jesus, Filho de Deus, Redentor e Salvador. Do Evangelho tomamos unicamente a mensagem sobre a justiça e igualdade. E a fé, fundamento da vida cristã, fica diluída em termos humanos. O homem substitui o Deus encarnado. Em Jesus queremos ver um revolucionário e, na revolução, um remédio universal, uma redenção necessária embora dolorosa. Portanto, devemos favorecê-la e acompanhá-la com ilusão e até propagá-la como remédio dos males modernos. Da frase eu vim evangelizar os pobres reduzimos o Evangelho a uma simples conclusão de semelhante afirmação. O resto da boa notícia não interessa. É por isso que os milagres de Jesus ou são silenciados ou são negados e, entre eles, a Ressurreição. A vida eterna do Evangelho é traduzida como vida melhor na terra por uma repartição mais justa das riquezas. O sobrenatural é substituído pelo natural. O pão de cada dia desloca o Pão Eucarístico necessário para a verdadeira vida. A política tem tomado o lugar da religião. Damos a César o que é de César. Mas não damos a Deus o que é de Deus, embora esse Deus moderno seja o grande arquiteto que anula o Cristo do qual temos recebido o nome. A fé se reduz a uma ideia mais conforme com a filosofia natural do que com a dos versículos dos Evangelhos. Temos que nos perguntar se damos a Deus o que é de Deus. Porque, embora sabendo que Ele é o verdadeiro Senhor de nossas vidas, muitas vezes O temos relegado a um segundo plano quando nos declaramos independentes ou buscamos nosso próprio bem, no lugar da vontade que é absoluta no céu e que deveria ser também soberana na terra, como rezamos no Pai Nosso.

 

Hoje é o Dia Mundial das Missões. Desde 1926, com o Papa Pio XI, no penúltimo domingo de Outubro a Igreja reza para que a fé chegue a todos os povos e que todos os fiéis tomem consciência da importância das missões. No comentário de entrada e na homilia, esta preocupação deve estar presente. Uma das intenções da Oração Universal dos Fiéis deverá ser dedicada às missões. Poder-se-á utilizar o formulário da Missa pela Evangelização dos Povos (ver Missal Romano. Também somos convidados a auxiliar as missões com a nossa oferta paro o Dia Mundial das Missões. A evangelização é uma dimensão essencial da Igreja. Desde os seus inícios, a Igreja se expandiu, porque os apóstolos não descuidaram o trabalho missionário que nunca foi interrompido através das gerações. “A Igreja, enviada por Deus a todas as gentes para ser “sacramento universal de salvação”, por íntima exigência da própria catolicidade, obedecendo a um mandato do seu fundador, procura incansavelmente anunciar o Evangelho a todos os homens. Já os próprios Apóstolos em que a Igreja se alicerça, seguindo o exemplo de Cristo, “pregaram a palavra da verdade e geraram as igrejas”. Aos seus sucessores compete perpetuar esta obra, para que a “palavra de Deus se propague rapidamente e seja glorificada (2 Tess. 3, 1), e o reino de Deus seja pregado e estabelecido em toda a terra” (Concílio Vaticano II, Ad Gentes, n. 1). Todos somos missionários, apesar de não partirmos para terras longínquas. Podemos colaborar na difusão do reino de Deus no nosso ambiente familiar e social, no nosso trabalho. O exemplo de uma vida em conformidade com o evangelho é o melhor testemunho que podemos dar. Uma vida autenticamente cristã vale mais que mil palavras. Além disto, podemos colaborar com as missões, através das nossas orações e da nossa humilde ajuda econômica. A primeira leitura do Livro de Isaías narra-nos um elogio de Ciro, rei dos Persas. Depois de conquistar Babilônia e com o seu decreto do ano 538 a. C., permitiu aos israelitas e aos outros povos que ali estavam desterrados regressarem às suas terras. Ajudou-os a reconstruir a sua nação e o Templo de Jerusalém. Através deste rei estrangeiro, que não conhecia Deus, cumpre-se a vontade do Senhor. Assim, Ciro é um instrumento escolhido por Deus, um caudal da graça divina, um meio para que prossiga a história da salvação. Na nossa vida, temos, de certeza, conhecimento de pessoas e de acontecimentos, através dos quais sentimos a mão paternal de Deus a intervir. Agradeçamos ao Senhor pelas suas intervenções na nossa vida, para que o anúncio do seu amor e da sua graça prossiga no mundo e em cada um de nós. No evangelho, os fariseus colocam a Jesus um dilema, armando uma cilada: “É lícito ou não pagar tributo a César?” Mas Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Jesus não prega uma separação, mas diz-nos que deve harmonia entre ser bom cidadão e ser bom cristão. Uma coisa não anula a outra, mas quando há oposição entre ambas (moral sexual, respeito pela vida, identidade do matrimônio…), há que optar pela vontade de Deus.

 

29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A
“Clamo por vós, meu Deus, porque me atendestes; inclinai vosso ouvido e escutai-me. Guardai-me como a pupila dos olhos, à sombra das vossas asas abrigai-me.” (Sl 16,6.8)
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG.

Irmãos e irmãs, Refletiremos neste domingo acerca da soberania de Deus e o nosso relacionamento com as coisas do mundo político. Está presente a famosa frase “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”(cf. Mt 22,21). Na primeira leitura desta Santa Missa(cf. Is 46,1.4-6) o rei pagão, Ciro, é instrumento de salvação nas mãos de Javé, o rei verdadeiro.  O rei Crio, o pagão que fez os judeus voltar do Exílio. Embora ele conheça Deus só por ouvir dizer, Deus o conhece, o toma pela mão; o profeta até o chama de “ungido”, o título da dinastia davídica: pois ele atua em favor do povo de Israel. Ciro é um bendito instrumento nas mãos de Javé, para tornar conhecido seu nome, sua fama de ser um Deus que salva. Caros irmãos, Jesus, ao fim de sua pregação, entrou abertamente em conflito com as autoridades do povo judeu. Em vista disso, quiseram armar para Jesus uma cilada, para que as autoridades o pegassem em alguma palavra que pudesse ser o motivo de sua condenação, ou seja, que fosse contra os princípios judaicos. Esse trecho do Evangelho de hoje (Mt 22,15-21) é bem conhecido de todos: O que é de César e o que é de Deus. Inúmeras vezes, durante toda a caminhada pública de Jesus, o Salvador enfrentou os chefes do povo e aqueles que se colocavam contra a sua Pessoa, o seu Reino e a sua Missão. Tudo isso porque Jesus veio pregar a libertação, denunciar o sistema religioso de então, maculado pelos interesses mesquinhos, cheio do rigorismo de prescrições rituais que mais amarravam, do que proporcionavam a salvação. Mateus, portanto, nos ensina neste domingo de quais virtudes os cristãos devem se lembrar na sua caminhada: a sinceridade, a honestidade, a abertura do coração, o espírito do acolhimento, a prática de boas obras, a coerência entre o dizer e o fazer, entre outras diretivas para o bem viver de uma vida voltada para as coisas do Senhor da Vida. Os fariseus não tinham coragem de enfrentar Jesus, por isso eles mudaram de tática, tentando provocar Jesus a cair em tentação. Meus irmãos, Jesus nos pede hoje que tenhamos atenção em dois pecados muito recorrentes e comuns nos dias de hoje: a exploração e a falsidade. O contexto atual é igual ao de dois mil anos atrás. A Palestina era colônia romana, totalmente dependente do poder central. Na colônia, todos deveriam pagar tributos exorbitantes, ou seja, impostos ao Imperador Romano, que era conhecido pelo nome de César – César Augusto. O tributo era pago com uma moeda de prata, chamada denário, que tinha impressa a figura do Imperador. Além de não poder citar o nome de César Augusto, porque “augusto” era um adjetivo reservado somente para Deus e proclamá-lo em vão era uma blasfêmia, os judeus queriam que Jesus entrasse em contradição, até porque eles se sentiam profundamente humilhados no pagamento do imposto, que era exorbitante e pesado. Mais do que isso, um judeu pagar imposto para um rei que não fosse hebreu, era um absurdo, porque teria que reconhecer nele o representante de Deus, o que contradizia as leis, os profetas, costumes e dignidade de raça. Manusear essa moeda para eles também era um sacrifício, uma idolatria, porque no denário estava inscrito “divino” Augusto. Tudo em volta do tributo era repugnante, porque ia contra os sentimentos de dignidade, sobretudo dos fariseus, que eram muito xenóbofos e nacionalistas. Respondendo que os judeus deveriam pagar o tributo poderiam acusá-lo de estar a serviço dos estrangeiros, de ser explorador do povo, de trair sua raça, podendo ser apedrejado por isso. Se respondesse não, seria acusado de subversão e de sonegação, podendo ser levado ao procurador romano para ser condenado. Enfim, tudo foi colocado para que Jesus, respondendo afirmativa ou negativamente, fosse sumariamente condenado e eliminado, porque incomodava ao poder religioso de então, que era medíocre e sem compromisso com a edificação do Reino de Deus. Meus irmãos e irmãs, O homem é, ao mesmo tempo, corpo e espírito, terra e céu. A religião não abrange somente a alma. Ela envolve o homem inteiro, seu ser e seu fazer, seu presente e seu futuro. A lição do Evangelho é que todas as dimensões: religiosa, social, política e econômica se complementam, se necessitam e devem ser igualmente respeitadas, acontecendo – ao mesmo tempo e com a mesma meta – a felicidade escatológica. A pessoa humana é o todo. “Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” significa não negligenciar nem a dimensão para o alto, nem a dimensão social em suas diversas manifestações. Quando dizemos “dar a César o que é de César” nunca podemos deixar Deus de lado. Também nossos compromissos com o país, com a economia, com a política, com a cultura, com o trabalho e com o progresso devem sempre respeitar os mandamentos de Deus que ilumina todos os setores da vida do homem. Em tudo, mas em tudo mesmo, Deus deve estar presente em primeira mão. Tudo isso porque Ele nos criou à sua imagem e semelhança. Em vista disso, todos nós trazemos a marca de Deus. Caríssimos, A segunda leitura (1Tessalonicenses 1,1-5) nos fala da chegada da parusia. O texto nos apresenta um itinerário de vida para esta semana: fé atuante, caridade abundante e esperança perseverante. Paulo, nesta carta, tem bons motivos para dar ação de graças, poucas semanas trabalhou em Tessalônica teve que partir às pressas, mas a fé cresceu, a forca de Deus operou neles: eles são os eleitos. A carta toda é agradecida lembrança e experiência da vinda do Senhor. A missa de hoje nos questiona: a construção da cidade terrestre é uma tarefa importante, mas não será ela caduca? Construindo a cidade dos homens contribui-se ou não para a edificação do Reino de Deus? Não serão dois reinos distintos? Para nós católicos a esperança não se realiza, certamente, em plenitude, senão na vida eterna. Entretanto, a esperança se manifesta e é eficaz aqui e agora: é uma força imensa no mundo, é um fermento poderoso que o faz levedar, é um sal que dá sentido e sabor ao esforço humano de libertação, ao empenho temporal. Não existem duas esperanças: uma terrena e outra celeste. A esperança é uma só: ela está intimamente ligada ao Céu, mas através do empenhamento cristão, a antecipa na realidade terrestre. O cristão deve dizer sim à vida e não à violência que traz o uso das armas de fogo. Os irmãos e irmãs de caminhada devem ter a fé de Deus, que nos fez à sua imagem e semelhança, para iluminar os rumos do Brasil, com caridade e esperança nestes momentos difíceis. Porque de esperança e esperança, dando a César o que lhe pertence e a Deus tudo o que lhe devemos, vamos construir uma grande Nação, sendo a meta o centro da liturgia de hoje: estarmos, todos, à disposição do supremo Senhor, na construção da globalização da solidariedade.

 

“DAI A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR E A DEUS O QUE É DE DEUS”
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
29º Domingo Comum – A
Leituras: Is 45, 1.4 – 6; 1 Ts 1, 1 – 5b; Mt 22, 15 – 21

Em muitas nações está tornando-se muito vivo o debate sobre o sentido e o estilo da presença dos cristãos, e em particular dos católicos, na atividade política. Em alguns dos grandes países de antiga tradição cultural e religiosa própria como, por exemplo, na Índia e na China, os cristãos constituem uma porcentagem muito pequena. Por isso mesmo encontram dificuldade para exprimir uma presença significativa no nível social e político. A única palavra possível é o testemunho da própria vida inspirada pelo evangelho. Em outras nações de antiga tradição cristã, como na Europa, hoje, porém, profundamente influenciadas pela mentalidade secularizada, os cristãos encontram forte oposição para uma presença mais incisiva nas mídias, nas estruturas econômicas, culturais e sociais, assim como no âmbito da política. A mentalidade secularizada pretende reduzir ao âmbito individual e particular toda expressão da dimensão religiosa da existência das pessoas. Às vezes os cristãos chegam a sofrer uma verdadeira marginalização social por parte dos grandes poderes econômicos e culturais, isso quando não são conduzidos até a morte pela violência dos fundamentalistas religiosos, por causa do testemunho fiel ao evangelho e às exigências de justiça que o evangelho leva consigo. Todo mundo conhece as doloridas crônicas dos últimos anos, narrando acontecimentos dramáticos na Ásia, na África, mas também na América Latina e até no Brasil. Em outros países, muitos católicos, depois de experiências bastante problemáticas e negativas, se afastaram do empenho político, e às vezes até social, achando ser mais condizente para eles dedicarem-se exclusivamente à “própria vida espiritual”, dentro das próprias comunidades, limitando a ação à caridade de emergência fornecida aos mais necessitados. Talvez se encontrem outras pessoas e grupos, que sonhem voltar ao “tempo feliz” quando a Igreja, através das conexões diretas da sua hierarquia com as autoridades públicas, conseguia influenciar o comportamento social das pessoas, além das convicções interiores e da coerente prática pessoal. Era o tempo da chamada cristandade. Hoje a situação está radicalmente mudada, já que todas as sociedades apresentam-se profundamente pluralistas em nível social, cultural e religioso.  Como colocar-se neste novo contexto histórico, que é o nosso, para ser luz e sal do mundo, segundo o mandamento de Jesus (cf Mt 5,13)? Homens e mulheres animados pela novidade que vem de Cristo, somos chamados a “partilhar as alegrias, as esperanças e as dores” dos homens e das mulheres do nosso tempo, como se exprime o Concílio Vaticano II, na Constituição “Gaudium et Spes”- “Alegrias e esperanças”. A palavra de Deus deste domingo nos oferece algumas indicações para iluminar e orientar nosso caminho. Somos chamados a viver este nosso tempo com inteligência e discernimento espiritual, e colocando ao serviço dos nossos irmãos e irmãs “as energias que vem da nossa fé e as nossas capacidades humanas, procurando não os interesses particulares mas o bem comum”(papa Bento XVI – 10/10/11). Diante das tentativas de afastar Deus da vida dos homens e das mulheres contemporâneas na pressuposição que ele diminua a sua liberdade e a responsabilidade, o papa Bento XVI, durante sua recente visita apostólica a sua terra natal, a Alemanha, afirmou com renovado vigor: “Onde Deus está presente, há esperança e abrem-se perspectivas novas e, frequentemente, inesperadas que vão para além do hoje e das coisas efêmeras”. Jesus nos abre o caminho que passa através do processo de morte a nós mesmos e ao poder mundano, para libertar as energias criativas que nos habitam e que vem do Espírito de amor. É preciso, porém, aproximar-se a Jesus com o coração simples das crianças, pois é a elas, e aos pequenos, que o Pai revela a profundidade do reino de Deus, e faz compreender a beleza de viver a páscoa transformadora com Jesus, e de pertencer ao Senhor na liberdade dos seus filhos e filhas (cf. Mt 11, 25-27). Esta atitude interior de abertura ao Senhor e de desapego do poder, é um critério fundamental para nos afinar com o coração de Deus e atuar como discípulos de Jesus. Se ela faltar, até os milagres, se tornam incapazes de nos despertar às novidades de Deus, como aconteceu com os concidadãos de Jesus em Nazaré! (cf Mc 6, 5-6). Ao contrário, os fariseus, fazem perguntas “para apanhar Jesus em alguma palavra” (Mt 22,15). Não estão à procura da verdade e da vida, mas espalham armadilhas para enganar. Projetam no diálogo com Jesus a maldade e a divisão que polui o seu coração. Escolhem por este objetivo o terreno mais equivocado, o da política. Como diz o salmista, os ímpios “falam de paz com seu próximo, mas tem a malícia no coração” (Sl 28,3). No tempo de Jesus os romanos ocupavam com as tropas a terra de Israel e o povo era obrigado a pagar pesados tributos. O imperador de Roma, o César, era de fato o seu verdadeiro patrão. A tradição religiosa de Israel, ensinava, ao contrário, que o único dono do povo eleito devia ser considerado o Senhor, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus que tinha libertado seu povo da escravidão do Egito. Este conflito de consciência despertava repetidas rebeliões sociais e militares entre o povo, que os romanos sufocavam com o sangue e, no final, com a destruição de Jerusalém no ano 70. Aceitar pagar a taxa do tributo significava reconhecer e aceitar a dominação dos romanos, estrangeiros e pagãos. Isto significava para Jesus perder o favor do povo. Por outro lado, a recusa do pagamento provocaria a reação violenta dos ocupantes. Qualquer resposta, imaginam os adversários de Jesus, acabaria colocando-o numa situação desfavorável e perigosa. Jesus desmascara a sua malícia. Indica a autêntica relação do homem e da mulher, assim como do poder publico, para com Deus e para com o homem, pois o poder existe para servir as pessoas. Jesus não aceita a contraposição entre Deus e o homem, mas destaca a primazia absoluta de Deus, como a nascente da liberdade do homem e da natureza do poder como serviço. “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Da primazia de Deus brota aquela unidade interior que gera a liberdade da consciência para a orientação da própria vida, e o respeito das obrigações em relação à legitima autoridade pública no nível social, quando suas disposições não violam a consciência das pessoas nem o bem comum. A comum pertença à sociedade gera a obrigação moral e civil de contribuir com o bem comum, pagando impostos justos ao Estado, para que este os invista em serviços de pública utilidade. Assim, a autoridade pública tem o dever de não se aproveitar dos recursos públicos para fins particulares. Ainda mais, da relação com Deus como referência fundamental da própria vida, nasce a exigência e a capacidade de empenhar-se com todas as suas energias ao serviço da sociedade e da promoção da justiça. “A ação política, conduzida com integridade e profissionalismo, dizia Paulo VI, constitui o mais alto exercício da caridade”. Não instrumentalizar a religião para fins políticos, nem pretender fazer do poder político um instrumento impróprio, para dominar sobre os demais, nem para impor a própria visão religiosa, invés de respeitar e promover a liberdade e o crescimento integral das pessoas. Quantos abusos e quantas distorções se podem observar no cenário público! Isto constitui um grande desafio para os cristãos do nosso tempo, conscientes da própria responsabilidade histórica em relação à sociedade.  Já através dos profetas o Senhor tinha afirmado o valor supremo da sua relação conosco, graças à aliança no amor: “Eu serei seu Deus e eles serão meu povo” – “Eu serei Deus para vocês e vocês serão povo para mim” (cf. Jer 31,33).   lei da aliança deixa de ser uma obrigação exterior para tornar-se a inspiração que atinge o coração do homem sob o influxo do Espírito, e orienta sua existência em todas suas manifestações, individuais e públicas. O homem renovado pelo Espírito de Deus acaba com a divisão interior e com as ambiguidades nas suas relações com os demais. Tudo nele, quando vive sob esta influência benéfica e criadora do Espírito, é ao mesmo tempo resposta de amor a Deus e serviço de amor ao próximo. Diante de uma nova pergunta maliciosa de um fariseu sobre qual fosse o maior dos mandamentos, Jesus indica na unidade indivisível do amor sem limites e sem reserva a Deus e ao próximo, o sentido supremo e único de toda a escritura: “Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mt 22, 34-40).  A consciência que Deus guia a história de cada um, e de toda a humanidade com sua providência e sua fidelidade, sobretudo em favor dos mais necessitados, desperta a força interior e a esperança. Esta força interior gerou – e continua gerando – tantos mártires cristãos ontem e hoje.  Esta é a mensagem fundamental que o profeta apresenta ao povo de Israel, no momento em que, depois de quase cinqüenta anos de exílio da própria terra, não tem a coragem nem de esperar mais um futuro diferente. O profeta, ao contrário, iluminado pelo Espírito do Senhor consegue ler na ascensão militar e política do rei Ciro, no ano 535 a.C., a manifestação da providência com a qual Deus dirige a história em favor do seu povo, além da presunção de onipotência que o próprio Ciro talvez tenha de si mesmo. “Por causa de meu servo Jacó e de meu eleito Israel, chamei-te (Ciro) pelo nome; reservei-te e não me reconheceste. Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus” (Is 45, 4-5). Aqui está uma mensagem muito importante e atual para nós também. Às vezes temos a tendência a julgar os acontecimentos turbulentos e as profundas transformações sociais, políticas, econômicas, culturais e religiosas da nossa época, somente como elementos negativos. E ficamos sonhando voltar ao passado, imaginado-o como melhor. Falta-nos às vezes a consciência de ser “amados por Deus” e de ser “do número dos escolhidos”, como lembra o apóstolo Paulo aos Tessalonicenses (segunda leitura). Esta é condição indispensável para manter viva a atuação da nossa fé, o esforço da nossa caridade e a firmeza da nossa esperança em Cristo (1 Ts 1,3). Falta-nos a capacidade de exercitar a leitura profética da situação, para descobrir a eventual função libertadora em nosso favor que ela guarda escondida em si mesma. Quais são as novas oportunidades para crescer em autenticidade, na nossa humanidade e na experiência da nossa fé, da nossa esperança e da nossa caridade? Qual é o “Ciro”, escolhido misteriosamente por Deus, para nos abrir um novo caminho de vida mais autêntica? Seria um exercício muito proveitoso parar um pouco em silêncio e em oração diante de si mesmo e do Senhor; re-ler na luz do Espírito, a própria história, e tentar reconhecer quantas vezes à primeira vista certa situação nos parecia somente negativa e depois se revelou ser um “Ciro libertador”, uma oportunidade oferecida pelo Senhor, em função de um salto de qualidade de nossa própria vida. Tentemos ficar um pouco mais conosco mesmos e com o Senhor neste domingo. Sem dúvida acabará saindo dos nossos lábios, se formos sinceros, o canto de louvor e de admiração do salmista: “Cantai ao Senhor Deus um canto novo… Manifestai a sua glória entre as nações e, entre os povos do universo, seus prodígios!… Adorai-o no esplendor da santidade, terra inteira, estremei diante dele” (Salmo Responsorial).

Espiritualidade Missionária

Por Mons. Inácio José Schuster

I. TENTANDO ENTENDER O QUE É ESPIRITUALIDADE

Não são poucos os agentes de pastoral que costumam reclamar: falta espiritualidade em nosso grupo! Quando os cristãos manifestam essa inquietação, o que na verdade, estão demandando? Creio estarem denunciando o fato de se sentirem meros executores de obras meritórias. Sentem-se meros “tarefeiros”. Cumprem tarefas, promovem e participam de muitas reuniões, visitam doentes, sobem em favelas e descem em vilas, organizam encontros e assembléias. Trabalham, evangelizam e sentem-se vazios, desmotivados. E alguns, diante das primeiras dificuldades na convivência, no relacionamento com os outros irmãos de caminhada, desistem e deixam o trabalho no meio do caminho. Sim, talvez tenha faltado espiritualidade, porque a Igreja não é uma empresa a que prestamos serviço… Sentimos falta de espiritualidade. Mas o que significa exatamente essa palavra? Evidentemente, ela vem de “espírito”.

Pedimos socorro ao Aurélio e lá encontramos algumas definições para a palavra espírito:
• A parte imaterial do ser humano, a alma.
• Entidade sobrenatural ou imaginária como os anjos, o diabo, os duendes.
• Pessoa dotada de inteligência ou bondade acima do comum: é um grande espírito!
• ânimo, índole.
• Líquido obtido pela destilação, álcool.
Perdemos tempo. Aurélio não nos ajudou, deixou-nos na mão. Mas não nos precipitemos. Aproveitemos alguma coisa.

Talvez nos sirvam os conceitos “ânimo, índole”. Espírito seria aquilo que anima a nossa ‘ânima’, a nossa alma. Seria o nosso entusiasmo, seria a nossa motivação maior, seria o nosso cerne, aquilo que sobra quando tudo acaba. No AT, o termo que traduz espírito é ruah, que significa hálito. O respiro que pode ser concebido como um princípio ou como um sinal de vida. Lá no Gênesis, o espírito da vida é o hálito. A respiração é o hálito de Deus, o sopro comunicado ao homem por insuflação divina (Gn 2,7). O espírito no AT, originalmente vento e sopro, é concebido como uma entidade divina dinâmica, pela qual Deus-Iahweh realiza seus objetivos.
No NT, o termo que traduz espírito é PNEUMA. Muito semelhante ao sentido e ao uso da palavra ruah: é o movimento do ar, principalmente sopro ou vento. A novidade do NT: espírito como força de Deus, presente em Jesus Cristo e posteriormente nos apóstolos. O Espírito é dado, antes de tudo, ao próprio Jesus no batismo. Em Jo aparece como o Paráclito, o espírito de verdade que o mundo não conhece. Dessa forma, Espiritualidade seria viver uma vida segundo o Espírito, uma vida no Espírito, aí se contrapondo à vida segundo a carne, à vida na carne. Essas duas situações fundamentais que caracterizam o ser humano são desafios que exigem uma definição e uma opção fundamental.

1. Uma pessoa pode viver segundo a carne e seus imperativos:
•Organiza sua vida segundo as diretrizes do mundo débil, caduco e mortal;
•Considera sua vida no mundo como a única realidade e obedece aos mecanismos da mortalidade. “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos”.
•Fecha-se sobre si mesmo, goza egoisticamente dos bens terrenos e atende indistintamente às exigências das paixões humanas.
•Não vislumbra nada para além do nascimento e da morte.
•Tudo se reduz em construir este mundo, assegurá-lo o mais possível preservado da morte, embora jamais o consiga.
•Para o homem do projeto-carne, a ganância de acumular é inteligência, a rapina é esperteza, a trapaça é habilidade, a corrupção é sagacidade nos negócios, exploração do outro é sabedoria de um trabalho lucrativo.
•Conseqüências da vida segundo a carne: impureza, ódios, discórdias, ciúmes, invejas, divisões (cf. Gl 5, 19-21). As Escrituras entendem como sinônimo: andar no pecado. Carne é a debilidade moral, a infidelidade na obediência a Deus.

2. Viver segundo o espírito é outra opção fundamental para a existência humana. Quem vive nessa dimensão não está livre do peso da vida, das tribulações, da dor e da angústia.
• Quem assim vive assume sem lamúrias a condição humana.
• Acolhe a mortalidade e a pequenez como vindas de Deus.
• Para tal pessoa, o mundo não fornece o sentido derradeiro das buscas do coração. Somente Deus pode ser o descanso do inquieto coração.
• A pessoa espiritual vê este mundo com os olhos da eternidade. Esta vida não é tudo. Viver segundo o espírito é viver filialmente face a Deus na devota obediência de sua vontade. Fraternalmente com os irmãos e senhorilmente frente ao mundo como um livre Senhor e responsável pela reta ordem das realidades do mundo.
À luz desta compreensão, Jesus podia dizer: “O Espírito é quem dá a vida. A carne não serve para nada” (Jo 6, 33). E São Paulo redizia: “As tendências da carne são a morte, mas as do espírito são a vida e a paz” (Rm 8, 6). Quem vive o projeto do espírito lentamente vai vivificando a carne. Não é possível jogar a carne fora. A vida segundo o espírito não consiste em recalcar ou negar a própria realidade da criação. Pelo contrário, exige um acolhimento e aceitação humilde. Esta atitude tem como conseqüência o triunfo da vida. Espiritualidade é viver segundo o Espírito do Senhor, tentando fazer novas todas as coisas. É uma resposta pessoal à presença de Deus, uma experiência interior, um encontro pessoal e profundo com o Pai misericordioso. Faz-se como uma oração silenciosa… A vivência de uma espiritualidade provoca um certo esquecimento de si, generosidade, desapego das coisas, relatividade dos acontecimentos. Qualquer realidade, mesmo as realidades mais concretas e materiais, quando tocadas por Deus, ficam espirituais. Assim, alguém que dá comida a um faminto movido por Deus, faz um ato espiritual. Viver uma espiritualidade é cultivar a presença de Deus em nós. Presença que envolve todo nosso ser: corpo, sexualidade, afetividade, inteligência, vontade, liberdade, relação com os outros, com as coisas, com o mundo, com Deus. Qualquer espiritualidade supõe uma experiência de Deus.

Condições para a experiência de Deus:
1. Acreditar que Ele existe, está vivo.
2. Fazer silêncio dentro de si para escutá-lo.
3. Prestar atenção nessa Presença.
4. Responder, acolher ativamente sua Presença na práxis.

II. A ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA

Missão sempre evoca uma ação, uma atividade. Quando pensamos num missionário, sempre o imaginamos envolvido em mil atividades. Caminhando, subindo e descendo vilas, batendo de porta em porta, atendendo uma fila de centenas de pessoas doentes. O missionário é o homem e a mulher incansáveis. Deixaram tudo: família, amigos, país natal e partiram para um desafio que exige, antes de tudo, esforço físico. O missionário, nessa concepção, é um atleta, um ginasta, que precisa ter, antes de tudo, preparo físico. Ser missionário é quase uma malhação. Dessa forma, ficam imediatamente excluídos da possibilidade de ser missionários: os idosos, os enfermos, as crianças, os monges, as monjas. Fica difícil entender que Santa Teresinha do Menino Jesus seja apresentada como modelo de missionária, aliás, Padroeira Universal das Missões da Igreja. Dessa caricatura podemos deduzir que o missionário, nessa perspectiva, transforma-se num “tarefeiro”. Cumpre tarefas. Se o missionário não cultivar uma espiritualidade própria, uma mística, bem cedo ele vai pedir aposentadoria. Cansado, extenuado, suado, vai desistir de sua missão, caso não cultive o que podemos chamar de vida interior.
“A Espiritualidade missionária exprime-se, antes de tudo, no viver em plena docilidade ao Espírito, e em deixar-se plasmar interiormente por Ele, para se tornar cada vez mais semelhante a Cristo” (João Paulo II, A Missão do Redentor, n. 87). O Papa nos lembra que os apóstolos eram muito limitados. Amavam o mestre, eram generosos na resposta a seus apelos, mas mostravam-se incapazes de compreender suas palavras e eram renitentes em segui-lo pelo caminho da cruz. O Espírito cuidará de transformá-los em testemunhas corajosas e anunciadores esclarecidos de sua Palavra: será o Espírito quem os conduzirá pelos caminhos árduos e novos da missão. Continua o Papa a afirmar que a nota essencial da espiritualidade missionária é a comunhão íntima com Cristo. Não é possível compreender e viver a missão, sem a referência a Cristo. Como “enviado”, o missionário experimenta a presença reconfortante de Cristo que o acompanha em todos os momentos da vida: “Não tenhas medo… porque Eu estou contigo” (At 18, 9-10). O chamado à missão deriva, por sua natureza, da vocação à santidade. Todo cristão só é autêntico missionário se empenhar no caminho da santidade. A vocação universal à santidade está estritamente ligada à vocação universal à missão. Por isso, o Papa nos exorta a que tenhamos um novo “ardor de santidade”, a sermos “contemplativos na ação”. Sem o Espírito, o Evangelho é morto e a evangelização é uma simples propaganda. Com o Espírito, entretanto, o Evangelho é força de Deus e a evangelização é um Pentecostes. As técnicas de evangelização são boas, mas mesmo as mais aperfeiçoadas não poderiam substituir a ação do Espírito Santo.

Já podemos falar em SANTIDADE MISSIONÁRIA, cujos elementos são os seguintes:
1. A centralidade de Cristo na vida do missionário e a abertura ao seu Espírito, que chama e envia gratuitamente à missão. Cristo oferece clarividência, paciência e perseverança, força e audácia nas decisões, criatividade na busca de soluções sempre novas. É imprescindível uma assimilação progressiva das motivações da fé em Cristo que nos libertam das ilusões.
2. A pobreza como condição e estilo de vida, que traz um êxodo constante de si mesmo, das seguranças, do desejo de poder. É convite ao desapego, ao desprendimento de certos modelos caducos. Saber mergulhar na ambigüidade da história, sem se escandalizar e sem se perder.
3. Amor eclesial: uma espiritualidade inspirada na missão cultiva uma relação de amor com a Igreja. Apesar das dificuldades e conflitos, o missionário não pode fechar-se num mundo reduzido. Sintonia com a Igreja Particular, afinidade e afabilidade para com o Pastor diocesano, engajamento nos planos pastorais diocesanos. Cuidar para não ser “livre atirador”, solista. Um missionário nunca está sozinho, deve buscar a comunhão e a participação. A eclesialidade supõe sujeição à caminhada eclesial. Mesmo que eu discorde de alguns pontos, não posso me excluir e buscar caminhos pessoais como criança emburrada.
4. Atitude de realismo: é necessária uma espiritualidade impregnada pela realidade. O idealismo do evangelizador não deve distanciá-lo do cotidiano da comunidade humana e cristã. Ver, julgar, agir. Não se esquecer do primeiro passo: VER. Ter senso crítico, não ser ingênuo, estar bem informado. A santidade missionária parte da vida para buscar na missão o sentido pleno da realização dessa mesma vida, tentando alcançar a libertação integral.
5. Abertura sem fronteiras: O amor de Jesus não tem fronteiras, muros, cercas, áreas privadas. “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos”? Ter uma espiritualidade sem fronteiras é considerar-se ponte entre a comunidade cristã e os povos de outras religiões. A missão torna-se uma visita respeitosa aos amigos, sem que se invada a casa alheia… O missionário é uma pessoa do diálogo, o que criará condições para a inculturação do Evangelho.
6. Atitude de provisoriedade: a vocação missionária é vocação de movimento, deslocamento. A dinâmica do provisório exige despojamento das ambições e projetos pessoais. Ninguém é insubstituível (o cemitério está cheio de insubstituíveis…). Saber dar lugar, saber a hora certa de partir para outros campos… “não grudar na peroba”… Não temos aqui morada permanente…

A espiritualidade missionária exige confronto com algumas tentações:
A) A tentação do protagonismo: não querer ser estrela. Evitar aparecer muito. Ser fermento na massa, ser “fogo de monturo”. Ex. Irmãzinhas de Jesus, de Charles de Foucauld. Criticar, sem aceitar as críticas, não saber escutar e colaborar… Lembrar-se que a Igreja é de Cristo. Sou mero instrumento. Evitar personalismo…
B) A tentação do fatalismo: Conformismo, desânimo diante da rotina ou da falta de resultados visíveis. Jesus pode fazer também das crises e dos fracassos ocasiões de crescimento. Vontade de largar tudo, jogar o arado para o lado. Lembrar que um planta e outro colhe… Os resultados não se vêem a curto prazo. Lançar sementes.
C) A tentação do narcisismo: Eu faço e aconteço… Sei que falo bem e transformo-me num sedutor pela palavra e não pelo testemunho. D) A tentação do ativismo: Agir sem motivações de fé e sem impregnar a ação com a contemplação. Passar de um projeto a outro sem uma adequada reflexão e sem um sério discernimento no Espírito. Descuidar da oração. Transformar-se numa “lata vazia” que só faz barulho. Dar “show”. Sem conteúdo, sem sentido, sem conversão, sem reconhecimento das próprias fraquezas.

 

ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA
É a espiritualidade nata do ser Igreja. A expressão “espiritualidade missionária” aparece, pela primeira vez, no Decreto Conciliar Ad Gentes (1965): “promover a vocação e a espiritualidade missionária, o zelo e a oração pelas missões” (AG 29). A Espiritualidade missionária também é vida segundo o Espírito, que “unifica a Igreja na comunhão e no ministério, dotando-a com vários dons hierárquicos e carismáticos. Vivifica as instituições eclesiásticas como se fosse a alma. Introduz nos corações dos fiéis o mesmo espírito missionário pelo qual era movido Jesus Cristo” (AG 4). Pelo batismo, o Espírito leva os batizados a participar de forma responsável na missão de Jesus. Todo o cristão é chamado a viver a vocação missionária, em nível pessoal e comunitário, na perspectiva da evangelização universal. A raiz da espiritualidade missionária é a incorporação na Igreja missionária que se origina da missão do Filho e da missão do Espírito, segundo a caridade, o “amor fontal” de Deus Pai. A espiritualidade missionária não é algo opcional, que está acima da realidade eclesial. Ela origina-se da natureza, da essência do ser Igreja. É a marca dos seguidores e seguidoras de Jesus que assumem as opções concretas da Igreja na sua caminhada, hoje, e até o final dos tempos. O missionário caracteriza-se pela caridade apostólica de Cristo, que veio “também para congregar na unidade os filhos de Deus dispersos” (Jo 11, 52), do Bom Pastor, que conhece as suas ovelhas, procura-as e oferece sua vida por elas (Jo 10). Quem tem espírito missionário sente o ardor de Cristo pelas almas e ama a Igreja como Cristo a amou. O missionário é impelido pelo zelo das almas, que se inspira na própria caridade de Cristo, feita de atenção, ternura, compaixão, acolhimento, disponibilidade e empenho pelos problemas dos filhos de Deus. É alguém que caminha pelas estradas do povo, que escuta, vê, sente as alegrias e dores, os sonhos e derrotas, abrindo sempre caminhos de esperança. Ser missionário é amar a Igreja. A Igreja que serve o Reino com o anúncio que chama à conversão, fundando comunidades, difundindo os valores evangélicos com seu testemunho e atividade, no diálogo, na promoção humana, no compromisso pela paz e pela justiça, na educação, no cuidado dos doentes, na assistência aos pobres e pequenos, mantendo sempre firme a prioridade das realidades transcendentes e espirituais, premissas da salvação escatológica. Por fim, por sua oração de intercessão (Redemptoris Missio 20). O missionário vive em função do Reino de Deus, sabendo que o seu serviço não é cargo vitalício, nem profissão. Exerce seu serviço de acordo com suas possibilidades e consentimento da comunidade; ele dá tudo de si, com a maior gratuidade e fidelidade, e crê na palavra de Jesus, que diz: “Quando tiverem cumprido tudo o que lhes mandarem fazer, digam: somos empregados inúteis: fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17, 10). “Isso que vimos e ouvimos nós agora o anunciamos a vocês, para que vocês estejam em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1, 3).

 

ESPIRITUALIDADE? O QUE É ISTO?
Frei Patrício Sciadini, ocd – 13/08/2003

Uma das palavras mais usadas nestes últimos tempos é espiritualidade, porque nos faz muita falta para o equilíbrio de nossa vida. Dizem os psicólogos que quando se fala muito de uma coisa é porque não a possuímos e, portanto somos carentes do que falamos. Não sei se esta teoria está certa, não é minha especialidade. O que posso dizer é que a espiritualidade não é uma teoria que preenche o coração de ninguém. Para que a espiritualidade se torne algo de pessoal e de amado deve sair do papel e do campo das idéias e se fazer vida. Somente quem vive olhando para o alto, não se deixando escravizar pelas coisas da terra pode lentamente tornar-se uma pessoa espiritual. Devemos evitar o espiritualismo que nos impede de compreender que a ação é o caminho certo de toda forma de espiritualidade. Se um dia você tiver a oportunidade de visitar uma livraria do aeroporto ou rodoviária ou qualquer outra livraria você fica espantado em ver tantos livros que são denominados de espiritualidade, mas que na verdade não passam de pequenas e às vezes insignificantes orientações emocionais e psicológicas que não atingem o verdadeiro sentido da vida. No respeito para todos estes autores que fazem um bem imenso aos que lêem, discordo de tudo isto porque me parece que não pode existir uma autêntica espiritualidade sem uma referência explícita a determinados valores fundamentais como a defesa da vida, da paz, dos direitos humanos. A busca da espiritualidade não pode prejudicar a ninguém, mas deve nos ajudar a ser cada vez mais livres da matéria e senhores dos nossos instintos. Verdadeira espiritualidade é fruto de uma luta corajosa, forte, onde ficamos feridos, arranhados e sangrando, mas não desistimos da luta. Um dos textos que mais me ajudam como aprender a verdadeira e autêntica espiritualidade é a carta de São Paulo aos gálatas. Ele nos recorda a beleza da nossa vocação, deste caminho espiritual que devemos percorrer e que devemos sempre ter presente na vida. “Fostes chamados para a liberdade”. Somente quem busca a autêntica liberdade se aventura no caminho espiritual. A liberdade não é como normalmente se entende dentro da linguagem das pessoas no dia a dia. Livre é quem faz o que quer e como bem entende. Há muitos autores que dizem: “tenho o direito de ser feliz e de buscar a minha felicidade e realização, portanto até que não encontre vou buscando, não importa se isto me faz romper os laços da família, do amor, dos compromissos do matrimônio ou do relacionamento familiar, o que vale é a minha felicidade”. Na verdade nunca seremos felizes se nos deixarmos dominar pelo egoísmo que está em nós. A liberdade é um sonho duro a ser conquistado e que vai exigindo muito de nós. Esta liberdade nos leva à verdadeira espiritualidade do amor. Mais reflito sobre o amor e menos sei, e, no entanto me parece que com os anos que vão chegando o compreendo mais. Mesmo quem sabe por que a memória dos fracassos me faz ver em outra perspectiva o mesmo amor que devo conquistar. Perceber a necessidade do amor para viver uma dimensão de vida que não pode ser “espiritualização” de nada, mas sim somente espiritualidade autêntica e vital. Será o mesmo São Paulo que vai apresentando uma lista interminável de frutos da carne. São 15 nomeados e outros que ele não nomeia. E todos são causas de perturbações que nos afastam do valor fundamental da vida. Há quem acha que viver a feitiçaria ou espiritualismo é espiritualidade, ou quem vive até rancores e domínio dos outros… Pensa que para dominar os demais se necessite de uma forte espiritualidade. Não há dúvida que são visões distorcidas da verdadeira e autêntica espiritualidade. Não podemos confundir a espiritualidade no sentido católico do termo, esta não pode Ter outro alicerce a não ser Cristo Jesus. Existem várias espiritualidades: budista, muçulmana, hinduísta, judaica… são janelas pelas quais as pessoas vêem a vida. Mas nós queremos ver a vida pela janela do Evangelho e do coração de Deus, por isso o único alicerce de toda a espiritualidade é a Palavra de Deus que nos alimenta em cada momento. Paulo diz que os que vivem os frutos da carne não podem entrar no reino de Deus. Não é necessário termos todos os frutos da carne, é suficiente ter um que nos domine, para não termos acesso à mesma vivência do reino. Um fruto influencia toda a nossa vida e nos escraviza. Os frutos do Espírito, que são o sinal do autocontrole e do senhorio de nós mesmos, nos fazem entrar na verdadeira liberdade. Quais são estes frutos do Espírito? Os frutos do Espírito são: caridade, alegria, paz, longanimidade, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, continência. Contra estes não há Lei (Gl 5, 22-23). Aqueles que vivem estes frutos do espírito não têm mais lei porque são orientados pelo amor e quem ama sabe que jamais poderá fazer o mal nem a si mesmo e nem aos outros. São João da Cruz, na sua visão de liberdade e de plenitude da vida, ensina que quem chega no cimo do monte encontra somente a honra e a glória de Deus, e que para o justo não há lei…O justo tem uma única lei que o orienta, o amor. Este não lhe permite mais ser escravo de nada e de ninguém. O caminho da verdadeira espiritualidade é um processo de libertação interior onde tudo está debaixo do poder da nossa liberdade e que nada mais poderá nos impedir de sermos livres no nosso agir. Na espiritualidade então percebemos que é necessário superar as ideologias mágicas que não realizam nada em nós. Por exemplo, a espiritualidade dos perfumes, das cores, do incenso queimado ou das novenas feitas somente pelo intuito de receber a graça e nada mais. São espiritualidades vazias e sem fundamento. É preciso que o Espírito encontre em nós uma resposta e se faça carne. Deus nos dá um espaço de tempo para viver a nossa espiritualidade e somente neste espaço de vida que somos chamados a realizar o seu projeto de amor. Não há nada de reencarnação e de caminhos de volta para nos purificar e chegar assim “à iluminação”. É aqui e agora que a nossa vida deve se realizar. Não há outras vidas e nem outra existência a não ser a vida eterna que se conquista no dia a dia duro e difícil do nosso carregar a cruz, e na luta sem trégua contra o mal que está dentro e fora de nós. Mas afinal o que é espiritualidade? É um estilo de vida pautado pelo Evangelho que visa a imitar a pessoa de Jesus. Seremos espirituais quando pudermos dizer com sinceridade com São Paulo apóstolo: “já não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”.

São Lucas, Evangelista – 18 de Outubro

Dia dos Médicos e das Médicas

São Lucas é uma das figuras mais simpáticas do Cristianismo primitivo. Homem de posição e qualidades, de formação literária, de profundo sentido artístico e divino, entrega-se plenamente ao Cristianismo logo que toma conhecimento dele na sua cidade, Antioquia, a grande metrópole romana do Oriente; subjuga-o a grandeza de São Paulo e converte-se no mais fiel e incondicional dos seus discípulos. Toda a sua ciência médica e literária põe-na à disposição do grande Apóstolo, entrega-lhe a sua pessoa e segue-o para toda a parte, como a sombra ao sol. Humilde e devoto, pode dizer-se dele que foi um desses homens admiráveis que brilham como estrelas de segunda ordem, ou melhor, que renunciam a brilhar por si mesmos para se entregarem a outros de mais altura, oferecendo assim o mérito da modéstia e uma ação mais fecunda, ainda que menos pessoal.
Assim é São Lucas. Teve a sorte invejável de encontrar-se no caminho da sua vida com um mestre espiritual incomparável. Entregou-se a ele sem reservas e com fé cega, na prosperidade e na adversidade. São Lucas deixou-nos como escritor duas obras divinas: o terceiro Evangelho canônico e a história dos primeiros dias cristãos e das missões de São Paulo. Em ambos os livros se mostra São Lucas o discípulo e admirador incondicional de São Paulo. Olha para Cristo com os olhos de São Paulo, “o seu iluminador”, como lhe chama Tertuliano. A história primeira do Cristianismo centra-a na figura de São Paulo. São Lucas identificou-se com a alma do seu mestre. Por isso o seu Evangelho pode chamar-se “o Evangelho de São Paulo”.
A mensagem divina de Jesus, vê-a São Lucas através do prisma de São Paulo, que lhe dá à inteligência profunda do mistério de Cristo. A filantropia (amizade para com os homens) de Deus resplandece de maneira extraordinária em São Lucas: a bondade misericordiosa, a benignidade que se inclina sobre todas as misérias. Jesus é o Salvador de todos os homens, de todos os povos, de todas as raças. A parábola da ovelha perdida, do filho pródigo, do bom samaritano, realçam em forma concreta o espírito universalista e misericordioso do Evangelho, que profundamente sentiu São Paulo. São Lucas é «o escritor da mansidão de Cristo».
Notou-se com razão o papel importante que desempenham as mulheres no Evangelho de São Lucas. O paganismo tinha rebaixado a nobre condição delas como companheiras do homem. São Paulo fez sobressair a igualdade de todos em Cristo, onde não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem ou mulher. São Lucas recolhe, da vida e ensinamento de Jesus, tudo o que pode realçar o valor e estima que teve pela mulher. Como médico, São Lucas tinha coração compassivo, conhecedor das misérias da humanidade, e estava preparadíssimo para assimilar o espírito filantrópico e essencialmente humano do Evangelho.
Onde nasceu São Lucas? A opinião mais provável diz-nos que foi natural de Antioquia da Síria. De origem pagã, deve lá ter conhecido muito cedo o Cristianismo e deve tê-lo abraçado com todas as veras do seu coração, como homem reto, bem disposto e desapaixonado. A tradição diz-nos que desde a juventude guardou perfeita castidade. Foi como açucena a brotar dentre águas corrompidas. Cumpriu-se nele a máxima de Jesus: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus». São Lucas viu e sentiu profundamente a formosura do Cristianismo. Num mundo que desconhecia, odiava ou punha a ridículo o nome de cristão, ele sentiu-lhe a formosura e diz-nos, cheio de santo orgulho, que foi a sua cidade, Antioquia, a primeira terra onde se começaram a distinguir os discípulos de Jesus com o nome glorioso de «cristãos».
Pelo ano de 50, durante a segunda missão de São Paulo, aparece pela primeira vez ao lado do Apóstolo. Acompanha-o pela Macedônia e a seguir aparta-se dele, em Filipos, até à terceira missão, pelo espaço de quase seis anos. Por 58 sobe com Paulo a Jerusalém, onde conheceu muitos discípulos imediatos de Jesus e se informou minuciosamente de tudo o que se referia à infância do Senhor, ao seu ministério público e à sua paixão e morte. Assim recolheu, com carinho de enamorado, os dados da Anunciação, Encarnação, Nascimento e crescimento de Jesus. Que cenas tão cheias de colorido, de luz, de paz e gozo espiritual! Quanto temos de agradecer, nós cristãos, à diligente e adorável pena de São Lucas!
Uma tradição – que recolheu no século XIV Nicéforo Calisto, inspirado numa frase de Teodoro, escritor do século VI – diz-nos que São Lucas foi pintor e fala-nos duma imagem de Nossa Senhora saída do seu pincel. Santo Agostinho, no século IV diz-nos pela sua parte que não conhecemos o retrato de Maria; e Santo Ambrósio, com sentido espiritual, diz-nos que era figura de bondade. Este é o retrato que nos transmitiu São Lucas da Virgem Maria: o seu retrato moral, a bondade da sua alma. O Evangelho de boa parte das Missas de Maria Santíssima é tomado de São Lucas, porque foi ele quem mais longamente nos contou a sua vida e nos descobriu o seu Coração. Duas vezes esteve preso São Paulo em Roma e nos dois cativeiros teve consigo São Lucas, “médico queridíssimo”. Ajudava-o no seu aposto lado, consolava-o nos seus trabalhos e atendia-o e curava-o com solicitude nos seus padecimentos corporais. No segundo cativeiro, do ano 67, pouco antes do martírio, escreve a Timóteo que “Lucas é o único companheiro” na sua prisão. Os outros tinham-no abandonado.
Não podemos explicitar onde esteve São Lucas no intervalo que separa os dois cativeiros de São Paulo, dos anos 64 a 67. Neste período, consta-nos que veio São Paulo à Hispânia; não se pode excluir a hipótese, para os peninsulares tão honrosa, de também São Lucas nos ter visitado.
Com a morte de São Paulo, eclipa-se na história São Lucas. Um escrito do século III diz-nos que morreu virgem na Bitínia, na idade de 74 anos, cheio do Espírito Santo. Santo Epifânio, no século IV, acrescenta que pregou o Evangelho na Itália, França, Dalmácia e Macedônia.
Sobre a sua morte não temos dados concretos nenhuns, mas uma tradição autorizada, que vem do século IV, assegura-nos que derramou o sangue por Cristo. Assim rubricou a verdade que tinha escrito para toda a Igreja e para o mundo inteiro, com a carta magna do seu Evangelho e com a história dos atos apostólicos. Podemos repetir a sentença de Pascal, falando de todos os Evangelistas: Creio fielmente na história dos que se deixam matar para dar testemunho da verdade do que escreveram. São Lucas é médico bondoso e serviçal, é literato, mas sobretudo é santo e mártir, que morreu pela fé que pregou de palavra e exarou nos seus livros.
É considerado o Padroeiro dos médicos, por também ele ter exercido esse oficio, conforme diz São Paulo aos Colossences (4, 14): “Saúda-vos Lucas, nosso querido médico”.

 

Papa a médicos católicos: reconhecer a face de Deus nos mais frágeis 
Valor da vida

Sexta-feira, 20 de setembro  de 2013, Jéssica Marçal, com Rádio Vaticano em italiano, Da Redação

Reunido com médicos católicos, Papa destacou o valor da vida humana

A vida humana é sagrada. Assim dirigiu-se o Papa Francisco nesta sexta-feira, 20, aos médicos ginecologistas da Federação Internacional das Associações Médicas Católicas, reunidas em Roma desde 22 de setembro. O Santo Padre destacou a necessidade de atenção principalmente para com os mais frágeis, como os idosos, de forma a não promover a cultura do descartável. Francisco refletiu sobre a mentalidade generalizada do útil, a chamada cultura do descartável, que hoje escraviza tantos corações e tem um alto custo: eliminar seres humanos se física ou socialmente mais frágeis. Ele destacou a resposta diante dessa mentalidade é um “sim” decidido e sem hesitação à vida. “Cada criança não nascida, mas condenada injustamente a ser abortada, tem a face do Senhor, que mesmo antes de nascer, e depois apenas nascido experimentou a rejeição do mundo. E cada idoso… mesmo se enfermo ou no fim de seus dias, leva em si a face de Cristo. Não se pode descartar, como nos propõe a cultura do descartável! Não se pode descartar!”, enfatizou. Francisco concentrou-se então sobre o valor da vida humana, que ao contrário das coisas materiais, não tem um preço, pois as pessoas têm uma dignidade, valem mais que estas coisas. Porém, ele lembrou que em muitas situações a vida acaba sendo o que vale menos. “Por isto a atenção à vida humana em sua totalidade transformou-se nos últimos tempos uma verdadeira prioridade do Magistério da Igreja, particularmente àquela majoritariamente indefesa, isso é, as pessoas com deficiência, doentes, o nascituro, a criança, o idoso, que é a vida mais indefesa”. Outro ponto abordado pelo Papa foi a atual situação paradoxal em que se encontra a medicina. Por um lado, há progressos graças ao trabalho de cientistas que se dedicam à procura de novos tratamentos. Por outro, porém, há o perigo do médico perder a própria identidade de servo da vida. “Mesmo estando por sua natureza ao serviço da vida, as profissões de saúde são conduzidas, às vezes, a não respeitar a própria vida”. Os médicos reunidos no Vaticano participam desde o último dia 22 da 10º Conferência Internacional sobre o tema “A nova evangelização, as práticas obstétricas e cuidado com as mães”.

 

DISCURSO do Papa a médicos católicos – 20/09/2013
Audiência com os participantes do encontro de ginecologistas católicos
Sala Clementina do Palácio Apostólico
Sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Peço-vos desculpa pelo atraso… Esta é uma manhã um pouco complicada para audiências… Peço-vos desculpa. 1. A primeira reflexão que gostaria de partilhar com vocês é esta: nós assistimos hoje a uma situação paradoxal, que diz respeito à profissão médica. Por um lado constatamos – e agradecemos a Deus – os progressos da medicina, graças ao trabalho de cientistas que, com paixão e sem economizar, se dedicam à procura de novos tratamentos.  Por outro, porém, encontramos também o perigo de que o médico perca a própria identidade de servo da vida. A desorientação cultural tem afetado também aquilo que parecia um âmbito intocável: o vosso, a medicina! Mesmo estando por natureza a serviço da vida, as profissões de saúde são induzidas às vezes a não respeitar a própria vida. Em vez disso, como nos recorda a Encíclica Caritas in veritate, “a abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento”. Não há verdadeiro desenvolvimento sem esta abertura à vida. Se se perde a sensibilidade pessoal e social para com o acolhimento de uma nova vida, também outras formas de acolhimento úteis à vida secam. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna capaz de ajuda recíproca” (n. 28). A situação paradoxal está no fato de que, enquanto se atribuem à pessoa novos direitos, às vezes mesmo direitos presumidos, nem sempre se protege a vida como valor primário e direito primordial de cada homem. O fim último do agir médico permanece sempre a defesa e a promoção da vida. 2. O segundo ponto: neste contexto contraditório, a Igreja faz apelo às consciências, ás consciências de todos os profissionais e voluntários de saúde, de maneira particular de vocês ginecologistas, chamados a colaborar no nascimento de novas vidas humanas. A vossa é uma singular vocação e missão, que necessita de estudo, de consciência e de humanidade. Um tempo, as mulheres que ajudavam no parto eram chamadas “comadre”: é como uma mãe com a outra, com a verdadeira mãe. Também vocês são “comadres” e “compadres”, também vocês. Uma generalizada mentalidade do útil, a “cultura do descartável”, que hoje escraviza os corações e as inteligências de tantos, tem um altíssimo custo: requer eliminar seres humanos, sobretudo se fisicamente ou socialmente mais frágeis. A nossa resposta a esta mentalidade é um “sim” decidido e sem hesitação à vida. “O primeiro direito de uma pessoa humana é a sua vida. Essa tem outros bens e alguns desses são mais preciosos: mas é aquele o bem fundamental, condição para todos os outros” (Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração sobre aborto provocado, 18 de novembro de 1974, 11). As coisas têm um preço e são ventáveis, mas as pessoas têm uma dignidade, valem mais que as coisas e não têm preço. Tantas vezes, encontramo-nos em situações onde vemos que aquilo que custa menos é a vida. Por isto a atenção à vida humana em sua totalidade transformou-se nos últimos tempos uma verdadeira prioridade do Magistério da Igreja, particularmente àquela majoritariamente indefesa, isso é, as pessoas com deficiência, doentes, o nascituro, a criança, o idoso, que é a vida mais indefesa. No ser humano frágil cada um de nós é convidado a reconhecer a face do Senhor, que na sua carne humana experimentou a indiferença e a solidão à qual às vezes condenamos os mais pobres, seja nos Países em via de desenvolvimento, seja nas sociedades afluentes. Cada criança não nascida, mas condenada injustamente a ser abortada, tem a face de Jesus Cristo, tem a face do Senhor, que mesmo antes de nascer, e depois apenas nascido experimentou a rejeição do mundo. E cada idoso, e – falei da criança: vamos aos idosos, outro ponto! E cada idoso, mesmo se enfermo ou no fim de seus dias, leva em si a face de Cristo. Não se pode descartar, como nos propõe a “cultura do descartável”! Não se pode descartar! 3. O terceiro aspecto é um mandato: sejam testemunhas e difusores desta “cultura da vida”. O vosso ser católico comporta uma maior responsabilidade: antes de tudo para com vocês mesmos, para com o compromisso de coerência com a vocação cristã; e depois para com a cultura contemporânea, para contribuir a reconhecer na vida humana a dimensão transcendente, a marca da obra criadora de Deus, desde o primeiro instante de sua concepção. Este é um compromisso de nova evangelização que requer às vezes ir contracorrente, pagando pessoalmente. O Senhor conta também com vocês para difundir o “evangelho da vida”. Nesta perspectiva, as enfermarias dos hospitais de ginecologia são lugares privilegiados de testemunho e de evangelização, porque lá onde a Igreja se faz “veículo da presença de Deus” vivo, transforma ao mesmo tempo “instrumento de uma verdadeira humanização do homem e do mundo” (Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização, 9). Amadurecendo a consciência de que no centro da atividade médica e assistencial está a pessoa humana na condição de fragilidade, a estrutura de saúde transforma-se em “lugar no qual a relação de cuidado não é trabalho – a vossa relação de cuidado não é trabalho – mas missão; onde a caridade do Bom Samaritano é a primeira cátedra e a face do homem sofredor, a Face própria de Cristo” (Bento XVI, Discurso à Universidade Católica do Sagrado Coração de Roma, 3 de maio de 2012). Queridos amigos médicos, vocês são chamados a ocuparem-se da vida humana na sua fase inicial, recordem todos, com os fatos e com as palavras, que esta é sempre, em todas as suas fases e em toda idade, sagrada e é sempre de qualidade. E não por um discurso de fé – não, não, – mas de razão, por um discurso de ciência! Não existe uma vida mais sagrada que a outra, como não existe uma vida humana qualitativamente mais significativa que a outra. A credibilidade de um sistema de saúde não se mede somente pela eficiência, mas, sobretudo, pela atenção e amor para com as pessoas, cuja vida sempre é sagrada e inviolável. Não deixem nunca de rezar ao Senhor e à Virgem Maria, para ter a força de cumprir bem o vosso trabalho e testemunhar com coragem – com coragem! Hoje é necessário coragem – testemunhar com coragem o “evangelho da vida”! Muito obrigado!

Surto religioso atual: As Revelações Particulares em Nossos Dias

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 345 – fevereiro 1991
http://www.pr.gonet.biz/index-read.php?num=557

Em síntese: O Grupo “Pastorais et Sectes” filiado ao Episcopado Francês publicou um estudo sobre as revelações particulares apregoadas em nossos dias tanto dentro como fora da Igreja Católica. Esse documento, após enunciar as modalidades de tais visões e revelações, propõe critérios para discernir a autenticidade das mesmas:
1) critérios subjetivos (saúde psíquica do vidente, honestidade moral e, no caso de vidente católico, fidelidade ao magistério da Igreja);
2) critérios objetivos (mensagem consentânea com a doutrina católica, mensagem sóbria ou isenta de pormenores fantasiosos).

A respeito de Medjugorje em particular, a Igreja ainda não se pronunciou oficialmente: as opiniões diferem entre si, enquanto uma Comissão de teólogos nomeada pelos Bispos estuda o caso. Na verdade, os frutos espirituais colhidos pelos devotos em Medjugorje são muito positivos, mas não se pode dizer que as mensagens respectivas sejam de importância indispensável à fé católica, como nota o Cardeal Joseph Ratzinger.

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Os novos Movimentos religiosos têm chamado continuamente a atenção do público pelo seu caráter proselitista, apoiado, às vezes, em “revelações” e “milagres”. O Brasil tem grande experiência de tais fenômenos. . .

Existe na França um Grupo designado pelo Episcopado Francês para estudar sistematicamente as expressões e as causas de tais correntes religiosas. O Grupo (“Pastorale et Sectes”) realizou seu primeiro encontro em 28/05/1990 na Secretaria Geral do Episcopado em Paris, estando presentes os PP. Jean Vernette, Pierre Le Cabellec, Norbert Gauderon, Yvon Le Mince, Damien Sicard, Claude Cesbron et a Sra. Yvonne Vitré. O Grupo elaborou e publicou um relatório sobre as Revelações particulares, ocorrentes tanto dentro como fora do Catolicismo. Visto que o texto pode ser útil ao público brasileiro, vai, a seguir, traduzido para o português a partir do Boletim SNOP (órgão do Episcopado Francês) datado de 22/06/1990.

1. O TEXTO

“As revelações particulares mobilizam de novo a atenção…

Para começar, falaremos indiferenciadamente de todas as revelações atualmente ocorrentes dentro e fora da Igreja, reconhecidas oficialmente por alguma instancia ou não. São uma das formas de expressão mais típicas da nova religiosidade. Interessam ao público por diversos motivos: mensagens tidas como provenientes do Alto; manifestações de contato com habitantes do Além; descrição estupenda de fenômenos maravilhosos; levitação; movimentação do sol; odores suaves; suor de óleo; insistência dos mensageiros sobre os perigos iminentes que o mundo corre se não se converter; atração espiritual e aliciamento coletivo, em conseqüência dos quais há peregrinações de devotos aos lugares ditos das aparições; fatos portentosos, em especial curas, tidos como sinais que autenticam a revelação; surto de grupos religiosos férvidos em torno do personagem ou do lugar ‘agraciado’.

Ligadas a esses sinais portentosos, há manifestações populares de fé ou de credulidade, de religião ou de religiosidade. Com efeito; encontram-se as mais diversas atitudes religiosas suscitadas pela crença no portentoso.

Para permanecer apenas no quadro da França e dos países vizinhos e da época atual, podem-se apontar os seguintes fenômenos maravilhosos:

Aparições da Virgem SS., devidamente reconhecidas pela Igreja;

Aparições de Jesus Cristo acompanhadas de revelações feitas, por exemplo, a Michel Potay, o profeta da ‘Revelação de Ares’ (atualmente em grande voga);

Locuções interiores, levando as mamães a redigir, por escrita automática, numerosas mensagens provenientes de seus filhos falecidos;

Contatos com indivíduos extra-terrestres nas religiões dependentes de OVNIs, (1) tais como ocorrem com os grupos Appert e os Raelianos;

(1) OVNIs = Objetos Voadores Não Identificados.

Relacionamento com entidades do Além por meio de canais próprios, como os descreve a atriz Shirley Mac Laine em seu livro best-seller, publicado em milhões de exemplares;

Visões de cenas do Evangelho relatadas em numerosas narrações por Maria Vàltorta;

‘Leitura no Astral’ de episódios da Vida de Cristo em diversos grupos esotéricos;

Revelações não reconhecidas, mas ligadas a lugares aos quais se dirigem peregrinações constantes, como San Damiano, Garabandal, Kerizineo, Espis, Dozulé;

Grupos de New Age (Nova Era), como Vida Universal, oriunda da profetisa Gabriela Witeck;

Comunicações com os habitantes do céu, tais como os Diálogos com o Anjo de Gitta Mallasz, traduzidos para as principais línguas.

Entre os numerosos grupos, organizados ou não, que se formam em torno do maravilhoso, alguns dizem derivar-se do catolicismo; seriam, entre outros, o IVI, de Yvonne Trubert, e El de Joanna. Alguns desses grupos dão origem a igrejas paralelas, como Le Frechou e Palmar de Troya. Há cristãos que querem ambiguamente pertencer tanto à Igreja Católica quanto à comunidade paralela.

Algumas mensagens têm provocado conversões, como as mensagens de Marta Robin e de Medjugorje. Outras, porém, desencadeiam violentos ataques contra a Igreja, como as de Michel Potay em Ares, ou querem transmitir lições à Igreja, como o Petit Caillou e Bayside.

Somos assim chamados a procurar discernir em cada nova ‘revelação’ o admirável e o inaceitável.

A multiplicação desses casos corresponde a uma necessidade, existente no público, de portentos e também de luz para guiar os passos dos homens. Por conseguinte, importa sempre analisar caso por caso (impressos, atividades, mensagem. . .).

Os elementos característicos das revelações particulares

Distinguem-se diversos parâmetros ou traços típicos nas revelações particulares:

—    Os videntes são de todas as idades, mas freqüentemente citam-se crianças e mulheres nas aparições em ambientes católicos. São discretos ou tagarelas, simples ou reivindicativos.

—    Nos mesmos ambientes, a pessoa que transmite a mensagem é geralmente a Virgem SS., às vezes um anjo (de preferência, São Miguel), ocasionalmente Jesus. Esses traços são convencionais ou prendem-se ao contexto sócio-cultural do vidente.

— Os ritmos e os lugares são os mais variados. Acompanham-nos símbolos extraordinários: um grande véu azul em Le Frechou; uma imensa cruz em Dozulé.

As mensagens têm seus pontos constantes (embora em dosagens diferentes): apelo à conversão, pregações, pedido de fundação de um santuário, um templo, profecias de sabor milenarista, ([1]) ameaças de castigo, pedidos de práticas rituais precisas.

Por conseguinte, quando alguém começa a estudar uma revelação particular, encontra-se diante de elementos um tanto genéricos: manifestações físicas, luzes e cores; manifestações psicológicas (êxtases, visões, mensagens). . . Mas esses elementos são dispostos em sínteses bem diferentes umas das outras. Há, por exemplo, aparições que a Igreja reconhece porque as tem como humanamente sadias e espiritualmente aceitáveis, além de coerentes com a Grande Tradição cristã. Há também revelações duvidosas, se se leva em conta a saúde psíquica e espiritual dos videntes e as suas incoerências com os Livros Sagrados.

Critérios de discernimento

As pessoas agraciadas realmente com revelações ou vozes são geralmente sinceras e convictas. Alegam: ‘Tendo visto o que vi e ouvido o que ouvi, eu não posso não falar’. Elas se sentem investidas de uma missão. Mas o sentimento subjetivo de certeza não garante por si a autenticidade de uma mensagem, assim como a sinceridade não é o equivalente de verdade. É necessário que pratiquemos o discernimento dos espíritos. Distingamos, pois, ulteriores critérios tanto no plano meramente humano e natural como no plano da fé:

— No plano humano: o equilíbrio e o bom senso do indivíduo, o apagamento do mensageiro diante da mensagem, a estrutura do grupo criado: A quem toca a autoridade? Como é esta exercida? Qual o funcionamento financeiro? Que margem de liberdade interior é deixada aos membros do grupo?

— No plano cristão: quais são os frutos de tal revelação particular? A mensagem é coerente com a Tradição cristã? Que traz de novo ao mundo e à Igreja? Qual o aspecto da Revelação cristã mais focalizado pela mensagem do vidente?

— Que controle a comunidade é capaz de exercer sobre si mesma? Tal carisma está voltado para servir ao bem comum?

Nesta época de florescimento de mensagens inspiradas, de novas religiões proselitistas e de fenômenos milagrosos, é importante fornecermos aos cristãos esses critérios de discernimento”.

2. COMENTÁRIO

1. Vê-se que a multiplicidade de expressões religiosas de nossos dias atribuídas a intervenções do Além exige, da parte do estudioso, cautela para discernir, do fantasioso e talvez mórbido, o que possa ser autenticamente inspirado por Deus. Em vista disto, apontam-se critérios subjetivos e objetivos:

a) Critérios subjetivos:

— requer-se saúde psíquica da parte dos videntes ou mensageiros. Esta implica equilíbrio mental, capacidade de resistir a sugestionamentos e condicionamentos superficiais;

— honestidade ou retidão de vida, comportamento irrepreensível;

— fidelidade ou docilidade à Igreja e ao seu Magistério (no caso de visões ocorrentes dentro do Catolicismo).

b) Critérios objetivos:

—    a mensagem deve ter um conteúdo ortodoxo, isto é, consentâneo com as verdades da fé católica;

—    a mensagem seja sóbria, isto é, isenta de pormenores fantasiosos, mais aptos a satisfazer à curiosidade do que a edificar a fé. Tal é a diferença entre os Evangelhos canônicos e os apócrifos: enquanto aqueles são geralmente sóbrios e simples em seu estilo, os apócrifos são exuberantes e dados ao fantástico.

2. A respeito de Medjugorje em particular, a Igreja ainda não se pronunciou definitivamente. Em 1986, o episcopado iugoslavo constituiu uma segunda Comissão destinada a averiguar os fatos; desde 24 de junho de 1981 crê-se que a Virgem SS. aparece a alguns jovens. O grande número de “aparições” e a sua duração até 1990/1 são dados insólitos, que deixam alguns estudiosos um tanto perplexos. O Bispo de Mostar (Herzegovínia, Iugoslávia), Mons. Pavão Zanic, é cético em relação às aparições de Medjugorje, paróquia de sua diocese; ao contrário, Mons. Frane Franic, Arcebispo emérito de Split, é-lhes francamente favorável.

Na verdade, são muito numerosos os frutos produzidos pela notícia das “aparições” em Medjugorje: conversões, grandes graças de índole espiritual e física têm sido obtidas por multidões de peregrinos que afluem a Medjugorje. A ponderação dos fatos ainda não permite um juízo seguro sobre a autenticidade ou não dos mesmos.

O Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em entrevista concedida a Vittorio Messori em 1985, pronunciou-se sobre Medjugorje em termos que até hoje são válidos:

“Neste terreno, mais do que em qualquer outro, a paciência é um elemento fundamental da nossa Congregação. Nenhuma aparição é indispensável à fé; a Revelação chegou à sua plenitude em Jesus Cristo; Ele mesmo é a Revelação. Mas é certo que não podemos impedir que Deus fale ao nosso tempo através de pessoas simples e valendo-se de sinais extraordinários. . . As aparições que a Igreja aprovou oficialmente — Lourdes, antes do mais, e, posteriormente, Fátima —(1) ocupam um lugar preciso na história da Igreja do último século. Mostram, entre outras coisas, que a Revelação — mesmo sendo única, plena e, por conseguinte, irreformável — não é algo de morto; é viva e vital. Doutro lado, à margem do caso de Medjugorje, sobre o qual não posso exprimir juízo algum, pois está sujeito a exame na minha Congregação, um dos sinais dos nossos tempos é que as notícias de ‘aparições’ marianas se estão multiplicando no mundo”.

(1) A aprovação oficial, no caso, quer dizer reconhecimento da legitimidade do culto a Nossa Senhora em Lourdes, Fátima, com festa própria no calendário litúrgico. Não significa, porém, que a Igreja professe as aparições de Nossa Senhora como artigo de fé. — De resto, a mensagem de tais revelações coincide com a do Evangelho e sintetiza-se na fórmula: “Oração e Penitencia!” (Nota do Tradutor).

3. CONCLUSÃO

A leitura do relatório do Grupo “Pastorale et Sectes” leva a crer que:

1) no mundo atual pode, sem dúvida, haver autênticas manifestações do Senhor Deus, especialmente através de Maria SS. Esta é a Estrela da Manhã e a Porta do Céu, pela qual Deus se digna de consolar os homens. Para averiguar a genuinidade das ditas aparições marianas, apliquem-se os critérios atrás recenseados.

2) Ao lado dessas possíveis manifestações autênticas, há também, e sem dúvida, muitas ditas “revelações” que não são a expressão senão do estado de ânimo ansioso e angustiado de parte da humanidade contemporânea; a procura emocional, quase irracional, de uma resposta para a problemática contemporânea leva muitos a imaginar seres extra-terrestres (corpóreos, luminosos, belos, ou meramente espirituais) transmitindo aos homens mensagens de reconforto, estímulo e orientação. O pulular de fenômenos ditos “sobrenaturais” em nossos dias se reduz, em boa parte, ao mecanismo da psique humana, que procura num falso Além a garantia e a segurança que o aquém (inclemente como é) não lhe fornece.

Na verdade, também o cristão sente a ingratidão dos tempos presentes, mas na fé (que o leva à oração, à leitura das Escrituras e aos Sacramentos dentro da Igreja) encontra paz e força, cheia de esperança para atravessar os tempos atuais. A exuberância do “extraordinário” de nossa época, oriunda do psiquismo humano desorientado, deveria ceder a um fortalecimento da fé cristã, remédio para tanto desatino contemporâneo. “O justo vive da fé”, diz três vezes o Apóstolo (Rm 1,17; Gl 3,11; Hb 10,38), parafraseando o Profeta Habacuc (2,4).

Dom Estêvão Bettencourt
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[1] O Milenarismo é a doutrina que professa a vinda de Jesus Cristo para reinar visivelmente durante mil anos sobre a terra em bonança e paz.

 

O FIM DO MUNDO OU A RENOVAÇÃO DO MUNDO? EB
Categoria: Perguntas e Respostas / Publicado em 3 de fevereiro de 2011

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 411 – Ano: 1996 – p. 337  

Pululam profecias relativas a catástrofes e flagelos que devem assolar o mundo nos próximos anos em preparação do ano 2000, que deverá ser uma data de fim da era atual da história. Essas previsões apavoram a quem lhes dá crédito. A multiplicidade das mesmas parece ser a expressão de certo desânimo da sociedade contemporânea, que não encontra nos recursos convencionais a solução para os problemas que a afligem.
Bem diverso é o pensamento oficial da Igreja. O Santo Padre João Paulo II, em sua Carta Apostólica sobre o Terceiro Milênio, considera com certo otimismo este fim de século, que coincide com o Jubileu do nascimento de Cristo.
O Papa propõe a renovação da vida dos fiéis mediante convicta e generosa resposta aos apelos do Senhor: conversão mais coerente e radical, oração mais intensa hão de ser os exercícios marcantes destes anos, Jesus iniciou sua pregação precisamente com as palavras: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15).
João Paulo II deseja que o ano de 1997 seja dedicado a Cristo; será o ano em que reavivaremos nossa consciência de batizados e fortaleceremos nossa fidelidade ao Senhor, aprofundando a fé que a Igreja nos transmite. O ano de 1998 será dedicado ao Espírito Santo e ao sacramento da Crisma, que nos faz adultos em Cristo. O ano de 1999 focalizará o Pai e promoverá a redescoberta do sacramento da Penitência, via de retorno Àquele que é o Alfa e o Ômega de toda a história. O ano de 2000 será o ano da Eucaristia, o sacramento da unidade: João Paulo II espera que naquela data, entre outros dons do Céu, se verifique maior aproximação dos cristãos separados.
– Tal é a atitude oficial da Igreja diante da perspectiva do Jubileu do nascimento de Jesus, nos escritos do Santo Padre não se encontra uma palavra sobre profecias, calamidades, reino milenar de Cristo (…). Ora convém aos fiéis católicos “sentir com a Igreja”, caminhar fielmente com a Igreja. O Senhor Jesus recusou-se a revelar o dia e a hora do fim dos tempos; cf. At 1,7. Muito sabiamente o fez, pois, para o cristão, mais importante do que a data da consumação dos séculos é a do seu encontro com Cristo no fim desta caminhada terrestre. É urgente a preparação desse momento através de uma conduta de vida pura e santa.
O Evangelho insiste nessa preparação, como se depreende das palavras de Cristo: “Vigiai, porque não sabeis nem o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir” (Mt 25,13).
João Paulo II faz eco a esta exortação: “É necessário suscitar em cada fiel um verdadeiro anseio de santidade, um forte desejo de conversão e renovação pessoal, num clima de oração cada vez mais intensa e de solidário acolhimento do próximo, especialmente do mais necessitado” (Tertio Millennio Adveniente nº 42).

 

O MUNDO VAI ACABAR EM 21 DE DEZEMBRO DE 2012?
Categoria: Artigos / Publicado em 18 de dezembro de 2012

“Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém os conhece, nem mesmo os anjos do céu, nem mesmo o Filho, mas, sim, o Pai só” (Mc 13, 32). Recebo vários emails de pessoas católicas apavoradas e que ainda perguntam sobre a “Profecia” sobre o “fim do mundo” em 21/12/2012, o que gera um alarmismo danoso e um verdadeiro terrorismo espiritual. Será que estaríamos nas vésperas do fim do mundo? São muitas “profecias” falsas, que tentam até misturar argumentos pseudocientíficos com superstições, Nova Era e ficção científica.
Até mesmo o Terceiro Segredo de Fátima, que nada tem a ver com o fim do mundo, e que o Papa João Paulo II já revelou em 2000 em Fátima; é citado abusivamente. Os divulgadores desse fim do mundo para o dia 21/12/2012 usam “argumentos científicos”, falam de Profecias maias que até a NASA já desmentiu.
Ninguém sabe a época e a data do fim do mundo, ou melhor, da renovação do mundo. Jesus fala em fim do mundo como “renovação do mundo”: Mt 19, 28 – “No dia da renovação do mundo, quando o Filho do homem estiver sentado no trono da glória…”
Com relação à data em que acontecerá a renovação do mundo e a inauguração definitiva do Reino de Deus, ninguém sabe e não deve especular a respeito. Muitos já se enganaram sobre isto e levaram muitos outros ao engano e ao desespero. Até grandes santos da Igreja erraram neste ponto.
Podemos citar alguns exemplos: Dom Estevão Bettencourt, em um de seus livros (Curso de Escatologia – págs. 123 – 124), afirma que: São Hipólito de Roma (†235) – chegou a afirmar que o final do mundo seria no ano 500… Santo Irineu (†202) – confirmava a tese do Pseudo Barnabé, de que o final seria no ano 6000 após a criação do mundo… Santo Ambrósio (†397) e Santo Hilário de Poitres (†367) – apoiaram a mesma tese anterior. São Gaudêncio de Bréscia (†405) – indicava o ano 7000 após a criação. No século V, com a queda de Roma (476), São Jeronimo (†420), São João Crisóstomo (†407), São Leão Magno (†461), defendiam que face à queda de Roma, o fim do mundo estava próximo…
No século VI e VII, São Gregório Magno (†604) afirmava como próxima a vinda de Cristo… Muitas vezes as profecias sobre a vinda de Cristo iminente são sugeridas pela necessidade que temos de encontrar uma “saída” para os tempos difíceis em que se vive. Por isso, a Igreja é muito cautelosa nesse ponto, e sempre nos lembra: At 1, 7 – “Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e momentos que o Pai fixou por sua própria autoridade”. Mc 13, 32 – “Quanto àquele dia e àquela hora, ninguém os conhece, nem mesmo os anjos do céu, nem mesmo o Filho, mas, sim, o Pai só”.
Santo Agostinho interpreta essa passagem dizendo que Jesus diz não saber esta data, porque está fora do depósito das verdades que Ele veio revelar aos homens; não pertence à sua missão de Salvador revelar essa data (In Ps 36 Migne 36, 355). O Magistério da Igreja quer que se respeite essa vontade de Deus de deixar oculta aos homens essa data.
No Concílio Universal de Latrão V, em 1516, foi decretado: “Mandamos a todos os que estão, ou futuramente estarão incumbidos da pregação, que de modo nenhum presumam afirmar ou apregoar determinada época para os males vindouros para a vinda do Anticristo ou para o dia do juízo. Com efeito a Verdade diz: “Não toca a vós ter conhecimento dos tempos e momentos que o Pai fixou por Sua própria autoridade. Consta que os que até hoje ousaram afirmar tais coisas mentiram, e, por causa deles, não pouco sofreu a autoridade daqueles que pregam com retidão. Ninguém ouse predizer o futuro apelando para a Sagrada Escritura, nem afirmar o que quer que seja, como se o tivesse recebido do Espírito Santo ou de revelação particular, nem ouse apoiar-se sobre conjecturas vãs ou despropositadas. Cada qual deve, segundo o preceito divino, pregar o Evangelho a toda a criatura, aprender a detestar o vício, recomendar e ensinar a prática das virtudes, a paz e a caridade mútuas, tão recomendadas por nosso Redentor”.
Em 1318, o Papa João XXII, condenando os erros dos chamados Fraticelli disse: “Há muitas outras coisas que esses homens presunçosos descrevem como que em sonho a respeito do curso dos tempos e do fim do mundo, muitas coisas a respeito da vinda do Anticristo, que lhes parece estar às portas, e que eles anunciam com vaidade lamentável. Declaramos que tais coisas são, em parte, frenéticas, em parte doentias, em parte fabulosas. Por isso nós os condenamos com os seus autores em vez de divulgá-las ou refutar” (idem).
O que a Igreja sabe é o que está no Catecismo:
§ 670. “Desde a Ascensão, o desígnio de Deus entrou em sua consumação. Já estamos na “última hora” (1Jo 2, 18)”. “Portanto, a era final do mundo já chegou para nós, e a renovação do mundo está irrevogavelmente realizada e, de certo modo, já está antecipada nesta terra”.
§ 673. “A partir da Ascensão, o advento de Cristo na glória é iminente, embora não nos “caiba conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade” (At 1, 7). Este acontecimento escatológico pode ocorrer a qualquer momento, ainda que estejam “retidos” tanto ele como a provação final que há de precedê-lo”.
Prof. Felipe Aquino

Santo Inácio de Antioquia – 17 de Outubro

Se pudesse falar de campeões no martírio, como símbolo do testemunho máximo do cristão, eu proporia, para ocupar esse lugar, Santo Inácio de Antioquia. A sua amável figura, amassada com doçura, mística e valentia, desconhecendo o medo à dor e à morte, resplandece, desde os tempos apostólicos, como farol e convite para todos os que têm de sofrer para se mostrarem fiéis a Jesus Cristo. O seu retrato está envolto em luz celestial, não pelo extraordinário dos milagres ou de qualquer forma de prodígios, mas pela sobrenatural simplicidade do seu proceder, movendo-se unicamente no mundo da fé, a partir do qual adquire lógica indomável aquilo que, aos nossos olhos humanos, parece encerrar aterradoras perspectivas de dor. Além disso, Santo Inácio é, sem pretendê-lo, o cantor do seu próprio martírio.

As suas cartas apaixonadas, de estilo único, continuam a ser vivas, agitando o leitor, que descobre nelas o rugido das feras, o bater das garras que tiram sangue, o ranger dos ossos triturados e todo o horror do circo romano, em que pereciam as primícias do Cristianismo, convertidas em semente de sangue, cuja esplêndida colheita recolheu a história. Mas estes horrores perdem em Santo Inácio os seus tons repulsivos, para se transformarem em canto de glória. Não é a morte cruel, mas o martírio por Jesus Cristo; não é o sofrimento, mas a oferta duma hóstia pacífica – aquilo que ali se retrata.

A crueldade fica sepultada na caridade, a morte é entrada triunfal na vida eterna e a ignomínia da condenação fica convertida em apoteose de imortalidade. As cartas do santo bispo de Antioquia, que hoje nos comovem, certamente constituiriam, para os cristãos dos séculos de perseguição, para aqueles que sabiam estar destinados para morte violenta, uma incitação ao combate, uma fonte pura de fortaleza e de esperança, porque nelas estava presente a eternidade, iluminando a passagem tenebrosa desta vida para a outra. Inácio é cognominado de Theophóros, portador de Deus.

O Martyrium, que relata a sua vida, atribuiu ao santo bispo – ao apresentar-se voluntariamente em Antioquia a Trajano, orgulhoso este pelo seu triunfo militar contra os dácios – o seguinte diálogo que, se historicamente não parece genuíno, reflete a verdade da sua vida. Trajano pergunta-lhe: – Quem és tu, demônio mísero, que tanto empenho pões em transgredir as minhas ordens e persuades outros a transgredi-Ias, para que miseriamente pereçam? Responde Inácio: – Ninguém pode chamar demônio mísero ao portador de Deus, sendo que os demônios fogem dos servos de Deus. Mais, se por ser eu objeto de aborrecimentos para os demônios, me chamas mau contra eles, estou conforme contigo, pois, tendo Cristo, rei celestial, comigo, desfaço todas as ciladas dos demônios. Disse Trajano: – Quem é Theophóros ou portador de Deus? Respondeu Inácio: – O que tem a Cristo no seu peito…

Nada sabemos com certeza dos primeiros anos de Inácio. A lenda, todavia, aureolando a sua figura, viu nele aquele menino de que São Mateus conta: «Naquele momento, os discípulos aproximaram-se de Jesus, e perguntaram-Lhe: “Quem é o maior no reino dos Céus?” Ele chamou um menino, colocou-o no meio deles e disse: “Em verdade vos digo: Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no reino dos Céus. Quem, pois, se fizer humilde como este menino será o maior no reino dos céus. Quem receber um menino como este em meu nome, é a Mim que recebe. Mas se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem em Mim seria preferível que lhe suspendessem em volta do pescoço uma mó de moinho, das movidas pelos jumentos, e o lançassem nas profundezas do mar”» (Mt 18, 1-6).

A fé em Santo Inácio é completa, com formulações dum credo que prelúdio já o símbolo de Niceia: «Assim, pois, fechai os vossos ouvidos, escreve aos Tralenses, onde quer que se vos fale fora de Jesus Cristo, que é da linhagem de David e filho de Maria; que nasceu verdadeiramente e comeu e bebeu; foi verdadeiramente perseguido sob Pôncio Pilatos e verdadeiramente crucificado e morto, à vista dos moradores do céu e da terra e do inferno. O qual em verdade também ressuscitou dentre os mortos por virtude do seu Pai, que, à semelhança sua, nos ressuscitará também a nós, crentes n’Ele. Sim, o seu Pai nos ressuscitará em Jesus Cristo, fora de quem não teremos a vida verdadeira» (Trall. IX). As cartas de Inácio podem considerar-se como a «segunda formulação doutrina I cristã»; nelas reflete-se o que pensavam os cristãos da segunda geração, a imediatamente posterior aos apóstolos.

Está nelas toda a doutrina evangélica e paulina, elaborada, profundamente compartilhada e aceite, matizada diante dos ataques dos primeiros desvios heréticos, desejosos de romper a unidade, tanto hierárquica como doutrinal. A semelhança de doutrina não é tanto repetição de textos quanto princípio idêntico, do qual brotam as fórmulas sem citações, mas com a coincidência exata de quem vive na alma a mesma fé e as mesmas verdades, todas emanadas da mesma fonte, Jesus Cristo. Por isso, o pensamento de Santo Inácio está centrado na união com Cristo dentro da Igreja: «Como o amor não consente calar-se a respeito de vós, daí veio determinar-me a exortar-vos a correr à uma para o pensamento de Deus. Com efeito, ao modo de Jesus Cristo, vida nossa inseparável, é o pensamento do Pai; assim os bispos, estabelecidos pelos confins da terra, estão no pensamento de Jesus Cristo» (Eph. TIl, 3).

É o inventor da palavra católica aplicada à Igreja. «Nas cartas de Inácio – escreve L. de Grandmaison – enlaça-se pela primeira vez o epíteto glorioso de católica ao nome da Igreja: “Onde aparecer o bispo, aí está também a multidão, de maneira que, onde estiver Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica” (Smyrn. VIII, 2). Desta maneira, o bispo encarna a sua Igreja particular, exatamente como a grande Igreja é a encarnação continuada do Filho de Deus. Não julgaríamos estar a ler um dos campeões da unidade eclesiástica do nosso tempo, um Adan Moehle, um Jaime Balmes, um Eduardo Pie?» Mostra-nos deste modo Santo Inácio que no seu tempo, fins do século I, a estrutura e o pensamento sobre a Igreja estão completos e amadurecidos. Bispos, presbíteros e diáconos constituem a hierarquia tripartida, sobre a qual se apóia toda a realidade do Cristianismo.

É necessário permanecermos unidos a esta hierarquia para viver dentro do espírito de Cristo. «Por conseguinte, da maneira que o Senhor nada fez sem contar com o seu Pai, feito como estava uma coisa com Ele – nada, digo, nem por Si mesmo nem pelos seus apóstolos -; assim vós nada façais também sem contar com o vosso bispo e com os anciãos; nem trateis de colorir, como louvável, nada que façais por vós somente, mas sim reunidos em comum; haja uma só oração, uma só esperança na caridade, na alegria sem mancha, que é Jesus Cristo; melhor que Ele nada existe» (Mag. VII, 1). Sem esta hierarquia não existe a Igreja: «Por vossa parte, escreve aos Tralenses, todos haveis também de respeitar os diáconos como a Jesus Cristo. O mesmo digo do bispo, que é figura do Pai, e dos anciãos (presbíteros), que representam o senado de Deus e a aliança ou colégio dos Apóstolos. Tirados estes, não há nome de Igreja» (Trai/. m, 1).

Santo Inácio foi detido e condenado a ser devorado pelas feras em Roma. Ouvida a sentença, o Santo responde: «Dou-te graças, Senhor, porque Te dignaste honrar-me com perfeita caridade para contigo, prendendo-me juntamente com o apóstolo Paulo, em cadeias de ferro…» (Mart. 11, 8). Não há nesta atitude nada que se pareça com o orgulho do revolucionário ou com a rigidez do rebelde. Não existe a menor partícula de protesto contra os poderes temporais, nem sequer contra as leis. A disposição do mártir cristão é coisa inédita e única na história. A serenidade e o valor são mantidos por uma visão sobrenatural interna, na consciência de cumprir uma missão: a de ser testemunha – isso significa mártir – de Jesus Cristo, fazendo-se semelhante a Ele no seu sacrifício. Assim o afirma o nosso bispo, escrevendo aos fiéis de Éfeso: «Logo que ficastes informados que vinha eu, da Síria – carregado de cadeias, pelo nome comum e nossa comum esperança, confiando que, pelas vossas orações, conseguirei lutar em Roma contra as feras para poder desse modo ser discípulo – apressastes-vos a sair para me ver» (Eph. I, 1).

Desde o momento da sua detenção, podemos seguir passo a passo os de Santo Inácio, devido à preciosa coleção das suas sete cartas autênticas, escritas durante a peregrinação que fez como preso. Com Zósimo e Rufo, outros dois cristãos condenados como ele, e guardados por um pelotão de soldados, embarcam em Selêucia, porto de Antioquia, para arribarem às costas da Cilícia ou Panfília, continuando desde aí outra parte da viagem por terra. Estes ásperos caminhos da Ásia Menor – poucos anos antes percorridos por S. Paulo, fazendo sementeira de cristandades – seriam para Santo Inácio novas provas da sua ansiada semelhança com o grande Apóstolo. As fervorosas comunidades daquelas terras transformam a viagem em ronda triunfal de admiração e caridade. Ao chegar a Esmirna, toda a comunidade cristã, presidida pelo seu bispo S. Policarpo, discípulo pessoal de São João Evangelista, sai a recebê-lo e prestar-lhe homenagem como se fosse Jesus Cristo em pessoa.

Devido a esta recepção, escrever-lhes-amais tarde: «Eu glorifico a Jesus Cristo, Deus, que é quem até esse ponto vos fez sábios; pois muito bem me dei conta de quão preparados estais com fé indestrutível, bem assim como se estivésseis pregados, em carne e em espírito, sobre a cruz de Jesus Cristo, e estivésseis assegurados na caridade pelo sangue do mesmo Cristo. É que vos vi cheios de certeza no que diz respeito a nosso Senhor» (Esm. 1). Outras comunidades vêm saudá-lo e ajudá-lo com a maior caridade. Algumas delas ficam enriquecidas com as suas cartas: Éfeso, Trales e Magnésia. Escreve-as de Esmirna, como também a enviada aos fiéis de Roma. Esta carta, documento único e impressionante da literatura universal, merece menção à parte.

Teve Santo Inácio conhecimento de que os romanos tratavam de interpor toda a sua influência para salvar-lhe a vida; e alarma-se profundamente, porque essa caridade é o mesmo que apartá-lo do martírio, da sua anelada meta. Para evitar esta possibilidade, escreve a famosa carta. O próprio Renan viu-se obrigado a comentá-la assim:

«A mais viva fé e a sede ardente da morte não inspiraram nunca traços tão apaixonados. O entusiasmo dos mártires, que foi durante 200 anos o espírito dominante de todo o Cristianismo, recebeu do autor desta peça extraordinária a sua expressão mais exaltada». Seria necessário copiar a carta inteira, mas, não sendo possível, uns parágrafos darão a idéia da sua altura celestial. Depois de saudar a Igreja de Roma, dando testemunho do seu lugar na hierarquia – ao dizer que «preside na capital do território dos romanos» e está «posta na cabeça da caridade», títulos preciosos para provar que a Igreja de Roma era considerada já como cabeça da cristandade – escreve:

«Por fim, à força de orações a Deus, consegui ver os vossos rostos divinos, e de tal maneira o alcancei que me é concedido mais do que pedia. Com efeito, encadeado por Jesus Cristo, tenho esperança de ir-vos saudar, se for vontade do Senhor fazer-me a graça de chegar até ao fim. Porque os começos, sem dúvida, bem postos estão, contanto que obtenha graça para alcançar sem impedimento a herança que me toca. E é que temo com razão a vossa caridade, não seja ela quem me prejudique. Porque para vós, na verdade, coisa fácil é fazerdes o que pretendeis; para mim, pelo contrário, se vós não tendes consideração comigo, vai ser-me difícil alcançar a Deus… O fato é que nem eu terei nunca ocasião de alcançar a Deus, nem vós, só com vos calardes, podeis pôr a vossa assinatura em obra mais bela. Porque, se vós vos calardes quanto a mim, eu converter-me-ei em palavra de Deus; mas, se vos deixardes levar pelo amor à minha carne, ficará tudo outra vez em mera voz humana. Não me procureis outra coisa senão permitir que me imole a Deus, enquanto há ainda um altar preparado, a fim de, formando um coro pela caridade, cantardes ao Pai por meio de Jesus Cristo, por ter Deus feito a graça, ao bispo da Síria, de chegar até ao Ocidente depois de o ter mandado chamar do Oriente. Como é belo que o sol da minha vida, ao sair do mundo, se transponha para Deus, a fim de n’Ele eu amanhecer!

«Pelo que a mim toca, escrevo a todas as igrejas, e diante de todas encareço que estou pronto a morrer de boa vontade por Deus, contanto que vós não mo impeçais. Eu vo-lo suplico: não mostreis para comigo uma benevolência inoportuna. Permiti-me ser pasto das feras, por meio das quais me é dado alcançar Deus. Trigo sou de Deus, e pelos dentes das feras hei-de ser moído, a fim de ser apresentado como limpo pão de Cristo. Afagai, pelo contrário, as feras, para se converterem em sepulcro meu e não deixarem sinal do meu corpo; assim, depois da minha morte, não serei molesto a ninguém. Quando o mundo já não vir nem sequer o meu corpo, então serei verdadeiro discípulo de Jesus Cristo. Pedi a Cristo por mim, para que por esses instrumentos consiga ser sacrifício para Deus. Não vos dou ordens como Pedro e Paulo. Eles foram apóstolos, eu não sou senão um condenado à morte; eles foram livres, eu, até ao presente, sou escravo. Mas, se conseguir sofrer o martírio, ficarei sendo liberto de Jesus Cristo e ressuscitarei livre n’Ele. E é agora que aprendo, encadeado como estou, a não ter desejo algum.

«Desde a Síria até Roma estou já a lutar com as feras, por terra e por mar, de noite e de dia, atado como estou a dez leopardos, quer dizer, a um pelotão de soldados que, mesmo com benefícios que lhes são feitos, se tomam piores. Agora sim, com os seus maus tratos, aprendo eu a ser melhor discípulo do Senhor, embora nem por isto me tenha por justificado.

«Oxalá goze eu das feras que estão para mim destinadas e que faço votos se mostrem velozes para comigo! Eu mesmo as atiçarei para que me devorem rapidamente, e não seja eu como alguns, a quem, cheias de medo, elas não se atrevem a tocar. E se elas não quiserem aquilo que de boa vontade se lhes oferece, eu mesmo as obrigarei. Perdoai-me, eu sei o que me convém. Agora começo a ser discípulo. Nenhuma coisa, visível nem invisível, seja posta diante de mim por má vontade, impedindo-me alcançar Jesus Cristo. Fogo e cruz, e manadas de feras, quebras dos meus ossos, desconjunta mentos de membros, triturações de todo o meu corpo, tormentos atrozes do diabo, tudo venha sobre mim, unicamente sob a condição de eu alcançar Jesus Cristo.

«Porque vos escrevo agora com ânsias de morte. O meu amor está crucificado e já não há em mim fogo que busque alimentar-se de matéria; mas sim, em troca, há uma água viva que murmura dentro de mim e do íntimo me está dizendo: “Vem para o Pai”. Não sinto prazer pela comida corruptível nem me atraem os deleites desta vida. Quero o pão de Deus, que é a carne de Jesus Cristo, da linhagem de David; o seu sangue quero por bebida, que é amor incorruptível».

Partindo de Esmirna, toca em Alexandria de Troas, donde escreve aos fila delfins, aos esmirniotas e a Policarpo, bispo destes últimos. Seguem viagem, parando também em Filipos; atravessam a Macedônia. Tomam a embarcar em Dirráquio, rodeiam o Sul da Itália, desembarcando em Óstia. Em Roma estavam no fim umas festas nunca vistas, para comemorar o triunfo de Trajano, conseguido dos dácios no ano 106. Duraram cento e vinte e três dias, e nelas morreram dez mil gladiadores e doze mil feras. A 18 de Dezembro do ano seguinte, 107, foram lançados às feras Zósimo e Rufo, os dois companheiros de Santo Inácio, e dois dias mais tarde, o santo bispo de Antioquia.

As suas poucas relíquias corporais foram enviadas para Antioquia. Mas as verdadeiras relíquias imortais foram as suas cartas; sobre elas escreveu o Padre J. Huby: «Inácio, entregue às feras no tempo de Trajano, é o exemplar do pontífice entusiasta e o modelo de mártir. É a realização viva das palavras apostólicas: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim… Desejo ser desfeito e estar em Cristo. As suas insistências não comoveram menos a Igreja que as de São Paulo, e em certas frases, mil vezes citadas, parece estar concentrado todo o espírito dos mártires».

Dia dos Professores – 15 de Outubro

CARTA VATICANA SOBRE O ENSINO DA RELIGIÃO NA ESCOLA
Da Congregação para a Educação Católica aos presidentes de conferências episcopais

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 8 de setembro de 2009 (ZENIT.org).- Publicamos a carta circular que a Congregação vaticana para a Educação Católica enviou aos presidentes das conferências episcopais sobre o ensino da religião católica na escola.

* * *
Roma, 05 de Maio de 2009

Eminência/Excelência Reverendíssima, a natureza e o papel do ensino da religião na escola tornou-se objeto de debate e, nalguns casos, de novas legislações civis, que tendem a substituí-lo por um ensino do fato religioso de natureza multiconfessional ou de ética e cultura religiosa, mesmo contra as escolhas e direção educativa que os pais e a Igreja procuram dar à formação das novas gerações. Por isso, com a presente Carta Circular, destinada aos Presidentes das Conferências Episcopais, esta Congregação para a Educação Católica retém necessário recordar alguns princípios, que são aprofundados no ensinamento da Igreja, a clarificação e a norma acerca do papel da escola na formação católica das novas gerações; a natureza e a identidade da escola católica; o ensino da religião na escola; a liberdade de escolha da escola e do ensino religiosa confessional.

I. O papel da escola na formação católica das novas gerações
1. A educação apresenta-se hoje como uma tarefa complexa, desafiada pelas rápidas mudanças sociais, econômicas e culturais. A sua missão específica permanece a formação integral da pessoa humana. Às crianças e aos jovens deve ser garantida a possibilidade de desenvolver harmoniosamente as próprias qualidades físicas, morais, intelectuais e espirituais. Os mesmos devem ser ajudados a adquirir um sentido mais perfeito da responsabilidade, a apreender o reto uso da liberdade e a participar ativamente na vida social (cfr. c. 795 Código de Direito Canônico [CIC]; c. 629 Código dos Cânones das Igrejas Orientais [CCEO]). Um ensino que desconhecesse ou marginalizasse a dimensão moral e religiosa da pessoa constituiria um obstáculo para uma educação completa, porque as “crianças e os adolescentes têm direito de serem estimulados a estimar retamente os valores morais e a abraçá-los pessoalmente, bem como a conhecer e a amar Deus mais perfeitamente”. Por isso, o Concílio Vaticano II pediu e recomendou “a todos os que governam os povos ou orientam a educação, para que providenciem que a juventude nunca seja privada deste sagrado direito” (Declaração Gravissimum educationis [GE ],1).
2. Uma tal educação requer o contributo de vários sujeitos educativos. Os pais, porque transmitiram a vida aos filhos, são os primeiros e principais educadores (cfr. GE 3;  João Paulo II, Exortação apostólica Familiaris consortio [FC], 22 de Novembro de 1981, 36; c. 793 CIC; c. 627 CCEO). Com a mesma razão, compete aos pais católicos cuidar da educação cristã dos seus filhos (c. 226 CIC; c. 627 CCEO). Nesta primordial tarefa os pais têm necessidade da ajuda subsidiária da sociedade civil e de outras instituições. Na verdade, “a família é a primeira, mas não a única e exclusiva comunidade educativa” (FC 40; cfr GE 3).
3. “Entre todos os meios de educação, tem especial importância a escola” (GE 5), que constitui o “principal auxílio aos pais para o desempenho do seu múnus de educar” (c. 796 §1 CIC), particularmente para favorecer a transmissão da cultura e a educação à vida com os outros. Nestes âmbitos, em concordância também com a legislação internacional e dos direitos do homem, “deve ser absolutamente assegurado o direito dos pais à escolha de uma educação conforme à sua fé religiosa” (FC 40). Os pais católicos “confiem os filhos às escolas em que se ministre educação católica; se não o puderem fazer, têm obrigação de procurar que fora das escolas se proveja à devida educação católica dos mesmos” (c. 798 CIC).
4. O Concílio Vaticano II recorda aos pais “o grave dever que lhes incumbe de tudo disporem, ou até exigirem”, para que os seus filhos possam receber uma educação moral e religiosa e “progredir harmonicamente na formação cristã e profana. Por isso, a Igreja louva aquelas autoridades e sociedades civis que, tendo em conta o pluralismo da sociedade atual e atendendo à justa liberdade religiosa, ajudam as famílias para que a educação dos filhos possa ser dada em todas as escolas segundo os princípios morais e religiosos das mesmas famílias” (GE 7).
Em síntese:
– A educação apresenta-se hoje como uma tarefa complexa, vasta e urgente. A complexidade atual arrisca-se a perder o essencial: a formação da pessoa humana na sua integralidade, em particular relativamente à dimensão religiosa e espiritual.
– A ação educativa, mesmo sendo realizada por vários sujeitos, tem nos pais os primeiros responsáveis da educação.
– Tal responsabilidade exerce-se também no direito de escolher a escola que garanta uma educação segundo os próprios princípios religiosos e morais.

II. Natureza e identidade da escola católica: direito a uma educação católica para as famílias e para os alunos. Subsidiariedade e colaboração educativa.
5. A escola tem um papel particular na educação e na formação. No serviço educativo escolar distinguiram-se e continuam a dedicar-se louvavelmente muitas comunidades e congregações religiosas. Todavia é toda a comunidade cristã e, em particular, o Ordinário diocesano que têm a responsabilidade de “tudo dispor para que todos os fiéis desfrutem da educação católica” (c. 794 §2 CIC) e, mais concretamente, “se não houver escolas onde se ministre educação imbuída de espírito cristão, compete ao Bispo diocesano procurar que se fundem” (c. 802 CIC; cfr. c. 635 CCEO).
6. Uma escola católica caracteriza-se pelo vínculo institucional que mantém com a hierarquia da Igreja, a qual garante que o ensino e a educação sejam fundados sobre princípios da fé católica e ensinados por professores que se distinguem pela reta doutrina e pela probidade de vida (cfr. c. 803 CIC; cc. 632 e 639 CCEO). Nestes centros educativos, abertos a todos aqueles que partilhem e respeitem o projeto educativo, deve-se viver um ambiente escolar imbuído do espírito evangélico de liberdade e caridade, que favoreça um desenvolvimento harmônico da personalidade de cada um. Neste ambiente é ordenada toda da cultura humana à mensagem da salvação, de modo que o conhecimento do mundo, da vida e do homem, que os alunos gradualmente adquirem, seja iluminado pelo Evangelho (cfr. GE 8; c. 634 §1 CCEO).
7. Deste modo, está assegurado o direito das famílias e dos alunos a uma educação autenticamente católica e, ao mesmo tempo, se atinja os outros fins culturais e de formação humana e acadêmica dos jovens, que são próprios de qualquer escola (cfr. c. 634 §3 CCEO; c. 806 §2 CIC).
8. Mesmo sabendo o quanto seja hoje problemático, é desejável que, para a formação da pessoa, exista uma grande sintonia educativa entre a escola e a família, a fim de evitar tensões ou fraturas no projeto educativo. É então necessário que exista uma estreita e ativa colaboração entre os pais, professores e diretores das escolas, e é oportuno favorecer os instrumentos de participação dos pais na vida escolar através de associações, reuniões, etc. (cfr. c. 796 §2 CIC; c. 639 CCEO).
9. A liberdade dos pais, das associações e instituições intermédias e da própria hierarquia da Igreja em promover escolas com identidade católica constituem um exercício do princípio de subsidiariedade. Este princípio exclui “o monopólio do ensino, que vai contra os direitos inatos da pessoa humana, contra o progresso e divulgação da própria cultura, contra o convívio pacífico dos cidadãos e contra o pluralismo que vigora em muitíssimas sociedades de hoje” (GE 6).
Em síntese:
– A escola católica é verdadeiro e próprio sujeito eclesial em razão da sua ação escolar em que se baseiam harmonicamente a fé, a cultura e a vida.
– Essa está aberta a todos aqueles que desejam partilhar o projeto educativo inspirado dos princípios cristãos.
– A escola católica é expressão da comunidade eclesial e a sua catolicidade é garantida pelas competentes autoridades (o Ordinário do lugar).
– Assegura a liberdade de escolha dos pais e é expressão do pluralismo escolar.
– O princípio de subsidiariedade regula a colaboração entre a família e as várias instituições dedicadas à educação.

III. O ensino da religião nas escolas
a) Natureza e finalidade
10. O ensino da religião na escola constitui uma exigência da concepção antropológica aberta à dimensão transcendental do ser humano: é um aspecto do direito à educação (cfr. c. 799 CIC). Sem esta disciplina, os alunos estariam privados de um elemento essencial para a sua formação e desenvolvimento pessoal, que os ajuda a atingir uma harmonia vital entre a fé e a cultura. A formação moral e a educação religiosa favorecem também o desenvolvimento da responsabilidade pessoal e social e demais virtudes cívicas, e constituem então um relevante contributo para o bem comum da sociedade.
11. Neste setor, numa sociedade pluralista, o direito à liberdade religiosa exige a garantia da presença do ensino da religião na escola e a garantia que tal ensino seja conforme às convicções dos pais. O Concílio Vaticano II recorda: “[Aos pais] cabe o direito de determinar o método de formação religiosa a dar aos filhos, segundo as próprias convicções religiosas. (…) Violam-se os direitos dos pais quando os filhos são obrigados a freqüentar aulas que não correspondem às convicções religiosas dos pais, ou quando se impõe um tipo único de educação, do qual se exclui totalmente a formação religiosa” (Declaração Dignitatis humanae [DH] 5; cfr. c. 799 CIC; Santa Sé, Carta dos direitos da família, 24 de Novembro de 1983, art. 5, c-d). Esta afirmação encontra correspondência na Declaração universal dos direitos do homem (art. 26) e em tantas outras declarações e convenções da comunidade internacional.
12. A marginalização do ensino da religião na escola equivale, pelo menos em prática, a assumir uma posição ideológica que pode induzir ao erro ou produzir um prejuízo para os alunos. Além disso, poder-se-ia também criar confusão ou gerar um relativismo ou indiferentismo religioso se o ensino da religião estivesse limitado a uma exposição das várias religiões de modo comparativo e “neutro”. A propósito, João Paulo II explicava: “A questão da educação católica compreende (…) o ensino religioso no âmbito mais alargado da escola, seja ela católica ou do estado. A tal ensino têm direito as famílias dos crentes, que devem ter a garantia que a escola pública – exatamente porque aberta a todos – não só não ponha em perigo a fé dos seus filhos, mas antes complete, com adequado ensino religioso, a sua formação integral. Este princípio está enquadrado no conceito de liberdade religiosa e do Estado verdadeiramente democrático que, enquanto tal, isto é no respeito da sua profunda e verdadeira natureza, se coloca ao serviço dos cidadãos, de todos os cidadãos, no respeito dos seus direitos e da suas convicções religiosas” (Discurso aos Cardeais e aos colaboradores da Cúria Romana, 28 de Junho de 1984).
13. Com estes pressupostos, compreende-se que o ensino da religião católica tem a sua especificidade na relação com as outras matérias escolares. Na verdade, como explica o Concílio Vaticano II: “a autoridade civil, que tem como fim próprio olhar pelo bem comum temporal, deve, sim, reconhecer e favorecer a vida religiosa dos cidadãos, mas excede os seus limites quando presume dirigir ou impedir os atos religiosos” (DH 3). Por estes motivos compete à Igreja estabelecer os conteúdos autênticos do ensino da religião católica na escola, que garanta diante dos pais e dos próprios alunos a autenticidade do ensino que se transmite como católico.
14. A Igreja reconhece esta tarefa como o seu ratione materiae e reivindica-o como sua própria competência, independentemente da natureza da escola (estatal ou não estatal, católica ou não católica) em que é ensinada. Por isso, “está sujeita à autoridade da Igreja (…) a instrução e a educação religiosa católica que se ministra em quaisquer escolas (…); compete à Conferência episcopal estabelecer normas gerais de ação nesta matéria, e ao Bispo diocesano regulamentá-la e vigiar sobre ela” (c. 804 §1 CIC; cfr. também, c. 636 CCEO).

b) O ensino da religião na escola católica
15. O ensino da religião na escola católica identifica o seu projeto educativo: De fato, “o caráter próprio e a profunda razão de ser das escolas católicas, aquilo por que os pais católicos as devem preferir é precisamente a qualidade de o ensino religioso ser integrado na educação dos alunos” (João Paulo II, Exortação apostólica Catechesi tradendae, 16 de Outubro de 1979, 69).
16. Nas escolas católicas também deve ser respeitada, como noutros lugares, a liberdade religiosa dos alunos não católicos e dos seus pais. Evidentemente, isso não impede o direito-dever da Igreja “de ensinar e testemunhar publicamente, por palavra e por escrito a sua fé”, tendo em conta que “na difusão da fé religiosa e na introdução de novas práticas, deve sempre evitar-se todo o modo de agir que tenha visos de coação, persuasão desonesta ou simplesmente menos leal” (DH 4).

c) Ensino da religião católica sob o perfil cultural e relação com a catequese
17. O ensino escolar da religião enquadra-se na missão evangelizadora da Igreja. É diferente e complementar da catequese na paróquia e de outras atividades, tais como a educação cristã familiar ou as iniciativas de formação permanente dos fiéis. Além do âmbito em que cada uma é ensinada, são diferentes as finalidades que se estabelecem: a catequese propõe-se promover a adesão pessoal a Cristo e o amadurecimento da vida cristã nos seus vários aspectos (Cfr. Congregação para o Clero, Diretório geral para a catequese [DGC], 15 de Agosto 1997, nn 80-87); o ensino escolar da religião transmite aos alunos os conhecimentos sobre a identidade do cristianismo e da vida cristã. Além disso, o Papa Bento XVI, falando aos professores de religião, indicou a exigência de “ampliar os espaços da nossa racionalidade, reabri-la às grandes questões da verdade e do bem, unir entre si a teologia, a filosofia e as ciências, no pleno respeito pelos seus próprios métodos e pela sua autonomia recíproca, mas também na consciência da unidade intrínseca que as conserva unidas. A dimensão religiosa, com efeito, é intrínseca ao fato cultural, contribui para a formação global da pessoa e permite transformar o conhecimento em sabedoria de vida”. Para tal fim contribui o ensinamento da religião católica, com o qual “a escola e a sociedade se enriquecem de verdadeiros laboratórios de cultura e de humanidade, nos quais, decifrando a contribuição do cristianismo, habilita-se a pessoa a descobrir o bem e a crescer na responsabilidade, a procurar o confronto e a apurar o sentido crítico, a inspirar-se nos dons do passado para compreender melhor o presente e projetar-se conscientemente para o futuro” (Discurso aos professores de religião, 25 de Abril de 2009).
18. A especificidade deste ensinamento não diminui a sua própria natureza de disciplina escolar; antes pelo contrário, a manutenção daquele status é uma condição de eficácia: “É necessário, portanto, que o ensino religioso escolar se mostre como uma disciplina escolar, com a mesma exigência de sistema e rigor que requerem as demais disciplinas. Deve apresentar a mensagem e o evento cristão com a mesma seriedade e profundidade com a qual as demais disciplinas apresentam seus ensinamentos. Junto a estas, todavia, o ensino religioso escolar não se situa como algo acessório, mas sim no âmbito de um necessário diálogo interdisciplinar” (DGC 73).
Em síntese:
– A liberdade religiosa é o fundamento e a garantia da presença do ensino da religião no espaço público escolar.
– Uma concepção antropológica aberta à dimensão transcendental é a sua condição cultural.
– Na escola católica o ensino da religião é característica irrenunciável do projeto educativo.
– O ensino da religião é diferente e complementar da catequese; por ser ensino escolar não requer a adesão de fé, mas transmite os conhecimentos sobre a identidade do cristianismo e da vida cristã. Além disso, ele enriquece a Igreja e a humanidade com laboratórios de cultura e humanidade.

IV. A liberdade educativa, liberdade religiosa e educação católica
19. Concluindo, o direito à educação e a liberdade religiosa dos pais e dos alunos exercem-se concretamente através de:
a) a liberdade de escolha da escola. “Os pais, cujo primeiro e inalienável dever e direito é educar os filhos, devem gozar de verdadeira liberdade na escolha da escola. Por isso, o poder público, a quem pertence proteger e defender as liberdades dos cidadãos, deve cuidar, segundo a justiça distributiva, que sejam concedidos subsídios públicos de tal modo que os pais possam escolher, segundo a própria consciência, com toda a liberdade, as escolas para os seus filhos” (GE 6; cfr. DH 5; c. 797 CIC; c. 627 §3 CCEO).
b) A liberdade de receber, nos centros escolares, um ensino religioso confessional que integre a própria tradição religiosa na formação cultural e acadêmica própria da escola. “Os fiéis esforcem-se por que na sociedade civil as leis orientadoras da formação da juventude provejam também à educação religiosa e moral nas próprias escolas, de acordo com a consciência dos pais” (c. 799 CIC; cfr. GE 7, DH 5). De fato, está sujeita à autoridade da Igreja a instrução e educação religiosa católica que vem ensinada em qualquer escola (cfr. c. 804 §1 CIC; c. 636 CCEO).
20. A Igreja está consciente que em muitos lugares, agora como em tempos passados, a liberdade religiosa não é totalmente realizada, nas leis e na prática (cfr. DH13). Nestas condições, a Igreja faz o possível para oferecer aos fiéis a formação de que precisam (cfr. GE 7; c. 798 CIC; c. 637 CCEO). Ao mesmo tempo, de acordo com a própria missão (cfr. Concílio Vaticano II, Constituição pastoral Gaudium et spes, 76), não deixa de denunciar a injustiça que acontece quando os alunos católicos e as suas famílias são privados dos próprios direitos educativos e é ferida a sua liberdade religiosa, e exorta todos os fiéis a empenhar-se para que tais direitos sejam realizados (cfr. c. 799 CIC).
Esta Congregação para a Educação Católica está convencida que os princípios acima recordados podem contribuir para encontrar uma cada vez maior consonância entre a tarefa educativa, que é parte integrante da missão da Igreja, e a aspiração das Nações no desenvolvimento de uma sociedade justa e respeitosa da dignidade de cada homem. Da sua parte a Igreja, exercendo a diakonia da verdade no meio da humanidade, oferece a cada geração a revelação de Deus da qual se pode apreender a verdade última sobre a vida e sobre o fim da história. Esta tarefa que não é fácil num mundo secularizado, habitado pela fragmentação do conhecimento e pela confusão moral, compromete toda a comunidade cristã e constitui um desafio para os educadores. Sustenta-nos, no entanto, a certeza – como afirma Bento XVI– que “as nobres finalidades […] da educação, fundadas sobre a unidade da verdade e sobre o serviço à pessoa e à comunidade, tornam-se um instrumento de esperança poderoso e especial” (Discurso aos educadores católicos, 17 de Abril de 2008).
Pedimos a Vossa Eminência /Excelência de dar a conhecer a quantos estão interessados no serviço e missão educativa da Igreja os conteúdos da presente Carta Circular.
Agradecendo-Lhe pela cordial atenção e na comunhão de oração a Maria, Mãe e Mestra dos educadores, aproveitamos a ocasião para apresentar os nossos sinceros e cordiais cumprimentos e despedirmo-nos com sentimentos de particular veneração de Vossa Eminência/Excelência Reverendíssima devotamente no Senhor
Zenon Card. GROCHOLEWSKI, Prefeito
Jean-Louis BRUGUÈS, O.P., Secretário

 

Nem Cristo agüentaria ser um professor nos dias de hoje…

O Sermão da montanha  
(*versão para educadores*)

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Ele os preparava para serem os educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens. Tomando a palavra, disse-lhes:

– “Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque  deles é o reino dos céus. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque  serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque eles…”

Pedro o interrompeu: – Mestre, vamos ter que saber isso de cor?

André perguntou: – É pra copiar?

Filipe lamentou-se: – Esqueci meu papiro!

Bartolomeu quis saber: – Vai cair na prova?

João levantou a mão: – Posso ir ao banheiro?

Judas Iscariotes resmungou: – O que é que a gente vai ganhar com isso?

Judas Tadeu defendeu-se: – Foi o outro Judas que perguntou!

Tomé questionou: – Tem uma fórmula pra provar que isso tá certo?

Tiago Maior indagou: – Vai valer nota?

Tiago Menor reclamou: – Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.

Simão Zelote gritou, nervoso: – Mas por que é que não dá logo a resposta e pronto!?

Mateus queixou-se: – Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!

Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado  nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo: – Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?

Caifás emendou: – Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?

Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus: – Quero ver as avaliações da primeira, segunda e terceira etapas e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto. E vê lá se não vai reprovar alguém! Lembre-se que você ainda não é professor titular…

“Dai-nos forças, Senhor, para aceitar com serenidade tudo o que não possa ser mudado. Dai-nos coragem para mudar o que pode e deve ser mudado. E dai-nos sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”

 

O PROFESSOR ESTÁ SEMPRE ERRADO
Jô Soares

O material escolar mais barato que existe na praça é o professor! É jovem, não tem experiência. É velho, está superado. Não tem automóvel, é um pobre coitado. Tem automóvel, chora de “barriga cheia’. Fala em voz alta, vive gritando. Fala em tom normal, ninguém escuta. Não falta ao colégio, é um ‘caxias’. Precisa faltar, é um ‘turista’. Conversa com os outros professores, está ‘malhando’ os alunos. Não conversa, é um desligado. Dá muita matéria, não tem dó do aluno. Dá pouca matéria, não prepara os alunos. Brinca com a turma, é metido a engraçado. Não brinca com a turma, é um chato. Chama a atenção, é um grosso. Não chama a atenção, não sabe se impor. A prova é longa, não dá tempo. A prova é curta, tira as chances do aluno. Escreve muito, não explica. Explica muito, o caderno não tem nada. Fala corretamente, ninguém entende. Fala a ‘língua’ do aluno, não tem vocabulário. Exige, é rude. Elogia, é debochado. O aluno é reprovado, é perseguição. O aluno é aprovado, deu ‘mole’. É, o professor está sempre errado, mas, se conseguiu ler até aqui, agradeça a ele!

Santa Teresa de Jesus – 15 de Outubro

Santa Teresa de Ávila
Dom Eurico dos Santos Veloso

Teresa Sanchez Cepeda Davila y Ahumada nasceu em Ávila, Castela, em 28 de março de 1515. Era a terceira do casal Alonso Sanchez Cepeda e Beatriz Davila y Ahumada. Ela faleceu a 4 de outubro de 1542, mas por causa das reformas no calendário litúrgico, considera-se a data de sua morte 15 de outubro. Foi beatificada em 1614 pelo Papa Paulo V e canonizada em 1622 por Gregório XV, com comemoração em 15 de outubro. Em 27 de setembro de 1970, foi proclamada Doutora da Igreja pelo Papa Paulo VI. Bem, o grande legado à Igreja dessa Santa mística foi a reforma do Carmelo e sua contribuição para a experiência metódica da oração pessoal na busca de uma intimidade maior com Deus. Santa Teresa parte da oração vocal, que havia praticado com as irmãs agostinianas, mas tece-lhe críticas, pois no seu entendimento deve-se pensar no que se diz e não recitar muitas fórmulas e mexer com os lábios. Segundo ela, o espírito deve esvaziar-se, a imaginação e o entendimento calar-se. É a oração de recolhimento, na qual a alma deve aprender a amar. Ela se fixa nos mistérios da humanidade de Cristo, no seu sofrimento e pouco a pouco abandona o ser e o espírito, desinteressando-se de si mesmo. A alma vive e vê, numa palavra, contempla. É uma oração ativa, laboriosa, voluntária e perseverante. Falando as irmãs do Carmelo diz: “Não sabeis o que é oração mental. Nem como se faz a vocal. Nem o que é contemplação… Comecemos por nos perguntar a quem vamos falar, e quem somos. Não podemos dirigir a um príncipe de modo tão informal quanto a um trabalhador ou a pobres criaturas como nós, a que se pode falar de qualquer jeito, e sempre está muito bem!”. “Dirige a Deus cada um dos teus atos, oferece-os e pede-lhe que seja com grande fervor e desejo de Deus. Em todas as coisas, observa a providência de Deus e sua sabedoria. Em tudo, envia-lhe o teu louvor. Em tempo de tristeza e de inquietação, não abandones nem as boas obras de oração, nem a penitência a que estás habituada. Antes as intensifica. E verás com que prontidão o Senhor te sustenta”. “Que teu desejo seja ver Deus. Teu temor, perdê-lo. Tua dor, não te comprazeres na sua presença. Tua satisfação, o que pode conduzir-te a ele. E viverás numa grande paz”. “Quem verdadeiramente ama a Deus, ama tudo o que é bom, quer tudo o que é bom, favorece tudo o que é bom; louva todo o bem, com os bons se junta sempre, para apoiá-los e defendê-los. Em uma palavra, só ama a verdade e o que é digno de ser amado”. “Quando recito o pai-nosso, será um sinal de amor lembrar quem é esse Pai e também quem é o Mestre que nos ensinou essa oração”. “Ó meu Senhor, como vos mostrais Pai de tal Filho, e como vosso Filho revela que veio de tal Pai. Bendito seja para sempre. Pai nosso, que estais no céu… Com quanta razão a alma estaria em si; poderia então elevar-se acima de si mesma e escutar o que lhe ensinaria o Filho bendito sobre o lugar em que – afirma ela – está o Pai. Deixemos a terra, minhas filhas; não é justo que apreciemos tão mal um favor como esse, e que, depois de ter compreendido sua grandeza, continuemos sobre a terra” (cf. Orações e recomendações de Santa Teresa, extraídas do livro: “Orar com Santa Teresa de Ávila” – Edições Loyola – 1987). Assim, orar com os métodos de Santa Teresa de Ávila, nos leva ao encontro pessoal com nosso Deus e Pai, uma vez que a oração segundo nos ensina essa grande mística é um trato de amizade entre a alma e Deus. A oração vem as ser, assim, um caminho que nos leva à fonte de todo bem, Deus, e com a oração aprendemos a relação de dependência que nos faz viver as entranhas maternais desse Deus que vela por todos nós.
Termino com a consagrada prece de entrega a Deus de nossas preocupações e inquietudes, pois, para quem encontra Deus nada lhe falta. Só Deus é que preenche todo o nosso ser:
“Nada te inquiete,
nada te amedronte,
Tudo passa,
Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
A quem tem Deus, nada falta,
SÓ DEUS BASTA”.  

Santa Tereza de Ávila, rogai por nós.

 

Papa propõe Santa Teresa de Jesus como “mestra espiritual”
Começa uma breve série sobre os Doutores da Igreja

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – O Papa Bento XVI quis propor hoje a santa espanhola Teresa de Ávila como exemplo de vida “fascinante” e como “mestra espiritual” para os cristãos de hoje. Começou assim um percurso – como ele mesmo anunciou aos peregrinos reunidos na Sala Paulo VI para a audiência das quartas-feiras – pela vida dos Doutores da Igreja, sobre alguns dos quais já falou durante seu ciclo de teólogos medievais. Teresa de Ávila, afirmou o Papa, “representa um dos cumes da espiritualidade cristã de todos os tempos”.
Citando a autobiografia da santa espanhola – “O livro da vida” -, Bento XVI percorreu sua vida desde os desejos de martírio em sua infância, sua adolescência e juventude cheias de distrações, seu conflito interior em meio às doenças e, finalmente, sua conversão e suas experiências místicas. “Paralelamente ao amadurecimento da sua própria interioridade, a santa começa a desenvolver, de forma concreta, o ideal de reforma da Ordem Carmelita”, explicou o Papa, aludindo à importante reforma do Carmelo, levada a cabo por Teresa. A existência de Teresa de Ávila, ainda que tenha transcorrido na Espanha, sublinhou, esteve “empenhada por toda a Igreja”, fato pelo qual foi proclamada Doutora da Igreja por Paulo VI, em 1970. “Teresa de Jesus não tinha formação acadêmica, mas sempre entesourou ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve ao que tinha experimentado pessoalmente ou visto na experiência de outros”, explicou o Papa.
Da mesma forma, aludiu à sua “amizade espiritual com muitos santos, especialmente com São João da Cruz”, assim como sua estima pelos “Padres da Igreja, São Jerônimo, São Gregório Magno, Santo Agostinho”. Além da autobiografia, o Santo Padre destacou o “Caminho de perfeição”, no qual a santa “propõe um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração”, e sua obra mística mais conhecida, “Castelo interior”. Nesta última, Teresa “refere-se à estrutura de um castelo com sete ‘moradas’, como imagens da interioridade do homem”, inspirando-se “na Sagrada Escritura, especialmente no ‘Cântico dos Cânticos'”.
Entre os ensinamentos da santa, o Papa destaca “o desapego dos bens ou a pobreza evangélica (e isso diz respeito a todos nós); o amor de uns aos outros como elemento essencial da vida comunitária e social; a humildade e o amor à verdade; a determinação como resultado da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva”. Nos ensinamentos de Teresa estão também “as virtudes humanas: afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria, cultura”. “Em segundo lugar, Santa Teresa propõe uma profunda sintonia com os grandes personagens bíblicos e a escuta viva da Palavra de Deus”, assim como a oração como algo “essencial”: para a santa, rezar significa “tratar de amizade com Deus, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama”. “Outro tema caro à santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Para Teresa, na verdade, a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus que culmina na união com Ele pela graça, por amor e por imitação”, assim como “a perfeição, como aspiração de toda vida cristã e sua meta final”. Por isso, afirmou o Papa aos presentes, “Santa Teresa de Jesus é uma verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Em nossa sociedade, muitas vezes desprovida de valores espirituais, Santa Teresa nos ensina a ser incansáveis testemunhas de Deus, da sua presença e da sua ação”.

 

Catequese do Papa: perfeição cristã segundo Santa Teresa de Ávila
Intervenção na audiência geral de hoje

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral.

Queridos irmãos e irmãs: Ao longo das catequeses que eu quis dedicar aos Padres da Igreja e a grandes figuras de teólogos e mulheres da Idade Média, pude falar sobre alguns santos e santas que foram proclamados Doutores da Igreja por sua eminente doutrina. Hoje, eu gostaria de começar com uma breve série de encontros para completar a apresentação dos Doutores da Igreja. E iniciamos com uma santa que representa um dos cumes da espiritualidade cristã de todos os tempos: Santa Teresa de Jesus. Ela nasceu em Ávila, Espanha, em 1515, com o nome de Teresa de Ahumada. Em sua autobiografia, ela menciona alguns detalhes da sua infância: o nascimento “de pais virtuosos e tementes a Deus”, em uma grande família, com nove irmãos e três irmãs. Ainda jovem, com pelo menos 9 anos, leu a vida dos mártires, que inspiram nela o desejo de martírio, tanto que chegou a improvisar uma breve fuga de casa para morrer como mártir e ir para o céu (cf. Vida 1, 4): “Eu quero ver Deus”, disse a pequena aos seus pais. Alguns anos mais tarde, Teresa falou de suas leituras da infância e afirmou ter descoberto a verdade, que se resume em dois princípios fundamentais: por um lado, que “tudo o que pertence a este mundo passa”; por outro, que só Deus é para “sempre, sempre, sempre”, tema que recupera em seu famoso poema: “Nada te perturbe, nada te espante; tudo passa, só Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem tem a Deus, nada lhe falta. Só Deus basta!”. Ficando órfã aos 12 anos, pediu à Virgem Santíssima que fosse sua mãe (cf. Vida 1,7). Se, na adolescência, a leitura de livros profanos a levou às distrações da vida mundana, a experiência como aluna das freiras agostinianas de Santa Maria das Graças, de Ávila, e a leitura de livros espirituais, em sua maioria clássicos da espiritualidade franciscana, ensinaram-lhe o recolhimento e a oração. Aos 20 anos de idade, entrou para o convento carmelita da Encarnação, sempre em Ávila. Três anos depois, ela ficou gravemente doente, tanto que permaneceu por quatro dias em coma, aparentemente morta (cf. Vida 5, 9). Também na luta contra suas próprias doenças, a santa vê o combate contra as fraquezas e resistências ao chamado de Deus. Escreve: “Eu desejava viver porque compreendia bem que não estava vivendo, mas estava lutando com uma sombra de morte, e não tinha ninguém para me dar vida, e nem eu poderia tomá-la, e Aquele que podia dá-la a mim, estava certo em não me socorrer, dado que tantas vezes me voltei contra Ele, e eu o havia abandonado” (Vida 8, 2). Em 1543, ela perdeu a proximidade da sua família: o pai morre e todos os seus irmãos, um após o outro, migram para a América. Na Quaresma de 1554, aos 39 anos, Teresa chega o topo de sua luta contra suas próprias fraquezas. A descoberta fortuita de “um Cristo muito ferido” marcou profundamente a sua vida (cf. Vida 9). A santa, que naquele momento sente profunda consonância com o Santo Agostinho das “Confissões”, descreve assim a jornada decisiva da sua experiência mística: “Aconteceu que…de repente, experimentei um sentimento da presença de Deus, que não havia como duvidar de que estivesse dentro de mim ou de que eu estivesse toda absorvida n’Ele” (Vida 10, 1). Paralelamente ao amadurecimento da sua própria interioridade, a santa começa a desenvolver, de forma concreta, o ideal de reforma da Ordem Carmelita: em 1562, funda, em Ávila, com o apoio do bispo da cidade, Dom Álvaro de Mendoza, o primeiro Carmelo reformado, e logo depois recebe também a aprovação do superior geral da Ordem, Giovanni Battista Rossi. Nos anos seguintes, continuou a fundação de novos Carmelos, um total de dezessete. Foi fundamental seu encontro com São João da Cruz, com quem, em 1568, constituiu, em Duruelo, perto de Ávila, o primeiro convento das Carmelitas Descalças. Em 1580, recebe de Roma a ereção a Província Autônoma para seus Carmelos reformados, ponto de partida da Ordem Religiosa dos Carmelitas Descalços. Teresa termina sua vida terrena justamente enquanto está se ocupando com a fundação. Em 1582, de fato, tendo criado o Carmelo de Burgos e enquanto fazia a viagem de volta a Ávila, ela morreu, na noite de 15 de outubro, em Alba de Tormes, repetindo humildemente duas frases: “No final, morro como filha da Igreja” e “Chegou a hora, Esposo meu, de nos encontrarmos”. Uma existência consumada dentro da Espanha, mas empenhada por toda a Igreja. Beatificada pelo Papa Paulo V, em 1614, e canonizada por Gregório XV, em 1622, foi proclamada “Doutora da Igreja” pelo Servo de Deus Paulo VI, em 1970. Teresa de Jesus não tinha formação acadêmica, mas sempre entesourou ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve ao que tinha experimentado pessoalmente ou visto na experiência de outros (cf. Prefácio do “Caminho de Perfeição”), ou seja, a partir da experiência. Teresa consegue tecer relações de amizade espiritual com muitos santos, especialmente com São João da Cruz. Ao mesmo tempo, é alimentada com a leitura dos Padres da Igreja, São Jerônimo, São Gregório Magno, Santo Agostinho. Entre suas principais obras, deve ser lembrada, acima de tudo, sua autobiografia, intitulada “Livro da Vida”, que ela chama de “Livro das Misericórdias do Senhor”. Escrito no Carmelo de Ávila, em 1565, conta o percurso biográfico e espiritual, por escrito, como diz a própria Teresa, para submeter a sua alma ao discernimento do “Mestre dos espirituais”, São João de Ávila. O objetivo é manifestar a presença e a ação de um Deus misericordioso em sua vida: Para isso, a obra muitas vezes inclui o diálogo de oração com o Senhor. É uma leitura fascinante, porque a santa não apenas narra, mas mostra reviver a profunda experiência do seu amor com Deus. Em 1566, Teresa escreveu o “Caminho da perfeição”, chamado por ela de “Admoestações e conselhos” que dava às suas religiosas. As destinatárias são as doze noviças do Carmelo de São José, em Ávila. Teresa lhes propõe um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração. Entre os trechos mais importantes, destaca-se o comentário sobre o Pai Nosso, modelo de oração. A obra mística mais famosa de Santa Teresa é o “Castelo Interior”, escrito em 1577, em plena maturidade. É uma releitura do seu próprio caminho de vida espiritual e, ao mesmo tempo, uma codificação do possível desenvolvimento da vida cristã rumo à sua plenitude, a santidade, sob a ação do Espírito Santo. Teresa refere-se à estrutura de um castelo com sete “moradas”, como imagens da interioridade do homem, introduzindo, ao mesmo tempo, o símbolo do bicho da seda que renasce em uma borboleta, para expressar a passagem do natural ao sobrenatural. A santa se inspira na Sagrada Escritura, especialmente no “Cântico dos Cânticos”, para o símbolo final dos “dois esposos”, que permite descrever, na sétima “morada”, o ápice da vida cristã em seus quatro aspectos: trinitário, cristológico, antropológico e eclesial. À sua atividade fundadora dos Carmelos reformados, Teresa dedica o “Livro das fundações”, escrito entre 1573 e 1582, no qual fala da vida do nascente grupo religioso. Como na autobiografia, a história é dedicada principalmente a evidenciar a ação de Deus na fundação dos novos mosteiros. Não é fácil resumir em poucas palavras a profunda e complexa espiritualidade teresiana. Podemos citar alguns pontos-chave. Em primeiro lugar, Santa Teresa propõe as virtudes evangélicas como base da vida cristã e humana: em particular, o desapego dos bens ou a pobreza evangélica (e isso diz respeito a todos nós); o amor de uns aos outros como elemento essencial da vida comunitária e social; a humildade e o amor à verdade; a determinação como resultado da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva. Sem esquecer das virtudes humanas: afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria, cultura. Em segundo lugar, Santa Teresa propõe uma profunda sintonia com os grandes personagens bíblicos e a escuta viva da Palavra de Deus. Ela se sente em consonância sobretudo com a esposa do “Cântico dos Cânticos”, com o apóstolo Paulo, além de com o Cristo da Paixão e com Jesus Eucarístico. A santa enfatiza, depois, quão essencial é a oração: rezar significa “tratar de amizade com Deus, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama” (Vida 8, 5). A ideia de Santa Teresa coincide com a definição que São Tomás Aquino dá da caridade teologal, como amicitia quaedam hominis ad Deum, uma espécie de amizade entre o homem e Deus, quem primeiro ofereceu sua amizade ao homem (Summa Theologiae II-ΙI, 23, 1). A iniciativa vem de Deus. A oração é vida e se desenvolve gradualmente, em sintonia com o crescimento da vida cristã: começa com a oração vocal, passa pela interiorização, através da meditação e do recolhimento, até chegar à união de amor com Cristo e com a Santíssima Trindade. Obviamente, este não é um desenvolvimento no qual subir degraus significa abandonar o tipo de oração anterior, mas um gradual aprofundamento da relação com Deus, que envolve toda a vida. Mais que uma pedagogia da oração, a de Teresa é uma verdadeira “mistagogia”: ela ensina o leitor de suas obras a rezar, rezando ela mesma com ele; frequentemente, de fato, interrompe o relato ou a exposição para fazer uma oração. Outro tema caro à santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Para Teresa, na verdade, a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus que culmina na união com Ele pela graça, por amor e por imitação. Daí a importância que ela atribui à meditação da Paixão e à Eucaristia, como presença de Cristo na Igreja, para a vida de cada crente e como coração da liturgia. Santa Teresa vive um amor incondicional à Igreja: ela manifesta um vivo sensus Ecclesiae frente a episódios de divisão e conflito na Igreja do seu tempo. Reforma a Ordem Carmelita com a intenção de servir e defender melhor a “Santa Igreja Católica Romana” e está disposta a dar sua vida por ela (cf. Vida 33, 5). Um último aspecto fundamental da doutrina de Teresa que eu gostaria de sublinhar é a perfeição, como aspiração de toda vida cristã e sua meta final. A Santa tem uma ideia muito clara da “plenitude” de Cristo, revivida pelo cristão. No final do percurso do “Castelo Interior”, na última “morada”, Teresa descreve a plenitude, realizada na inabitação da Trindade, na união com Cristo mediante o mistério da sua humanidade. Queridos irmãos e irmãs, Santa Teresa de Jesus é uma verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Em nossa sociedade, muitas vezes desprovida de valores espirituais, Santa Teresa nos ensina a ser incansáveis testemunhas de Deus, da sua presença e da sua ação; ensina-nos a sentir realmente essa sede de Deus que existe em nosso coração, esse desejo de ver Deus, de buscá-lo, de ter uma conversa com Ele e de ser seus amigos. Esta é a amizade necessária para todos e que devemos buscar, dia após dia, novamente. Que o exemplo desta santa, profundamente contemplativa e eficazmente laboriosa, também nos encoraje a dedicar a cada dia o tempo adequado à oração, a esta abertura a Deus, a este caminho de busca de Deus, para vê-lo, para encontrar a sua amizade e, por conseguinte, a vida verdadeira; porque muitos de nós deveríamos dizer: “Eu não vivo, não vivo realmente, porque não vivo a essência da minha vida”. Porque este tempo de oração não é um tempo perdido, é um tempo no qual se abre o caminho da vida; abre-se o caminho para aprender de Deus um amor ardente a Ele e à sua Igreja; e uma caridade concreta com nossos irmãos. Obrigado. [No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:] Queridos irmãos e irmãs, Santa Teresa de Jesus, nascida no século XVI, é um dos vértices da espiritualidade cristã de todos os tempos, e deu início, junto com São João da Cruz, à Ordem dos Carmelitas descalços. Apesar de não possuir uma formação acadêmica, sempre soube se alimentar dos ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Suas principais obras são: “O livro da Vida”; “Caminho da perfeição”; “Castelo Interior” e “O Livro das Fundações”. Entre os elementos essenciais da sua espiritualidade, podemos destacar, em primeiro lugar, as virtudes evangélicas, base de toda a vida cristã e humana. Depois, Santa Teresa insiste na importância da oração, entendida como relação de amizade com Aquele que se ama. A centralidade da humanidade de Cristo, outro tema que lhe era muito caro, ensina que a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus, a qual culmina na união com Ele pela graça, pelo amor e pela imitação. Por fim, está a perfeição, aspiração e meta de toda vida cristã, realizada na inabitação da Santíssima Trindade, na união com Cristo através do mistério da Sua humanidade. Dou as boas-vindas a todos os peregrinos de língua portuguesa, presentes nesta audiência! Que o exemplo e a intercessão de Santa Teresa de Jesus vos ajudem a ser, através da oração e da caridade aos irmãos, testemunhas incansáveis de Deus em uma sociedade carente de valores espirituais. Com estes votos, de bom grado, a todos abençoo.
[Tradução: Aline Banchieri.© Libreria Editrice Vaticana]

 

SANTA TERESA PROPÕE ANTÍDOTOS CONTRA NOVA ERA
Segundo Dom Berzosa no 2º Congresso Internacional Teresiano

ÁVILA, quinta-feira, 8 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – A mística carmelita possui um aspecto que, “por si só, acaba com a pseudo-mística da Nova Era: o nexo intrínseco entre a Trindade e todos os demais mistérios humanos”. Quem afirmou isso foi o bispo de Ciudad Rodrigo, Dom Raúl Berzosa, em sua intervenção de 4 de setembro, no 2º Congresso Internacional Teresiano. “No cristianismo, na mística carmelita, não se pode aplicar o termo ‘autorrealização’, porque nem sequer o homem e a mulher mais desenvolvidos em sua existência podem alcançar por si mesmos a plenitude. Tudo é dom e tarefa, graça e liberdade”, disse. Dom Berzosa, autor do livro “Nova Era e cristianismo. Entre o diálogo e a ruptura”, indicou que, “no livro ‘Caminho de Perfeição’, de Santa Teresa, podemos encontrar algumas chaves ou antídotos para enfrentar os enganos místicos da Nova Era”. Ele propôs um texto do capítulo 16 da grande obra para rebater o panteísmo da Nova Era: “Ó Senhor! Que todo o dano nos vem de não ter os olhos postos em Vós, que, se não olhássemos a outra coisa senão o caminho, depressa chegaríamos; mas damos mil quedas e tropeçamos e erramos o caminho por não pôr os olhos, como digo, no verdadeiro caminho”. E, diante da pretensão de salvar-se sozinho, recolheu um fragmento do capítulo 17 de “Caminho de Perfeição”: “Deixai o Senhor da casa fazer o que quiser: sábio é Ele e poderoso e entende o que nos convém e o que lhe convém a Ele também”. Para o bispo de Ciudad Rodrigo, não podem se sustentar as teses repetidas na Nova Era, segundo as quais o homem e mulher de hoje já têm dentro de si todo o seu potencial.

Mística
O prelado destacou que o termo “mística” equivale à “busca apaixonada do Deus vivo, descoberta do Deus vivo, encontro com o Deus vivo, abraço com o Deus vivo, já neste mundo e na nova humanidade”. E propôs também um texto de São João da Cruz sobre a presença de Deus na sua criação: “Deus em todas as pessoas mora secreto e encoberto na mesma substância delas, porque, se não fosse assim, não poderiam durar”, escreveu o santo. O bispo continuou citando-o: “Mas há diferença neste morar, e muita: porque em umas, mora sozinho e, em outras, não mora sozinho (trinitariamente); em umas,, mora com agrado e, em outras, com desagrado; em umas, mora como em sua casa, mandando e regendo tudo e, em outras, mora como estranho em casa alheia, onde não o deixam mandar nem fazer nada (…)”. “Uns têm Deus por graça em si somente e outros, por união. É tanta a diferença, como a que há entre desposório e matrimônio. Porque no desposório só há uma vontade de ambas as partes e presentes de joias e ornatos, mas no matrimônio há também comunicação de pessoas e união”, concluiu sua citação do livro “Chama viva de amor”. Dom Berzosa destacou que “somente sob a ação do Espírito Santo o homem se encontrará em profundidade consigo mesmo e se realizará o processo de verdadeiro amadurecimento da humanidade, de forma individual e comunitária”. E afirmou que, “em tudo isso, pulsa um transfundo clássico ascético-místico muito carmelita: a afirmação de que a presença da Trindade em nós é tripla: por criação, por graça e por união”.

Religiões superadas?
O prelado detalhou os traços espirituais e os elementos teológicos da Nova Era e sublinhou alguns dos seus pontos divergentes do cristianismo. Advertiu que a Nova Era “não está contra as religiões, pois procura superá-las desde dentro”. Neste sentido, resumiu o processo: “Anos 60: Cristo, sim; Igreja, não. Anos 70: Deus, sim; Cristo, não. Anos 80: religião, sim; Deus, não. Anos 90: espiritualidade, sim; religião, não”. Em outras palavras, referiu-se aos que viram a “passagem de uma religiosidade confessional a outra da experiência, de uma religiosidade institucionalizada a outra personalizada, de uma religiosidade formal a outra mais interiorizada”.

Mentiras da Nova Era
E comentou as “quatro mentiras ou tentações” espirituais da Nova Era, já mencionadas em Gênesis 3, 1-5, e cuja autoria seria do tentador: “sereis como deuses” (panteísmo), “não morrereis jamais” (reencarnação), ‘conhecereis o bem e o mal” (relativismo e subjetivismo moral) e “seus olhos se abrirão” (esoterismo iluminista). “A fé cristã não é uma iniciação esotérica nem um caminho de iluminação da consciência – explicou. E a salvação não consiste em uma experiência de plenitude cósmica através de um processo de reencarnação.” Também destacou o grande alcance dessa espiritualidade e estilo de vida, chegando a afirmar que a Nova Era é como “a alma ou espírito da globalização econômica neoliberal”. “Se, há algumas décadas (I1960-1970), se falava de transformação social, compromisso social, mudança de estruturas (marxismo), hoje se fala de consciência superior, de boas vibrações, de qualidade de vida, de harmonia profunda, de meditação transcendental, de energia, de agir no planetário, de nova ordem mundial e globalização”, disse. Com relação ao perfil de pessoas mais influenciadas por este novo paradigma, destacou: “Ele se arraiga entre as pessoas do primeiro mundo, de classe média-alta, entre 25-50 anos – que têm o estômago cheio, mas a cabeça e o coração vazios e que são os grandes ausentes das nossas comunidades cristãs”. No entanto, Dom Berzosa afirmou que “a moda da Nova Era se esfumará, mas as perguntas levantadas por ela permanecerão (…), perguntas que o cristianismo soube e saberá responder a partir do mistério profundo e integral de Jesus Cristo”.

Congresso
O 2º Congresso Internacional Teresiano, em preparação para o quinto centenário do nascimento de Santa Teresa, foi realizado na universidade da Mística de Ávila, de 29 de agosto a 4 de setembro. Participaram mais de 100 pessoas, de 20 nacionalidades, e os organizadores calculam que mais de 6 mil pessoas acompanharam em algum momento as atividades pela internet. O congresso permitiu aprofundar na sabedoria desta doutora da Igreja a partir da sua obra “Caminho de Perfeição”. Precisamente o manuscrito original desta grande obra, que habitualmente se conserva no mosteiro das carmelitas descalças de Valladolid, esteve exposto no recinto da Universidade da Mística por ocasião do congresso.

 

Dia do Professor: “Formar homens novos para um mundo novo”
Por Padre Luizinho

Hoje é dia do Professor e de uma grande mestra de vida cristã, Santa Teresa de Ávila. Quero começar agradecendo aos professores que eu tive em minha casa, a minha família, meus pais, tios e irmãos, pois os melhores professores estão dentro de nossa família. Na escola a gente aprende a ler, escrever a despertar a nossa inteligência e capacidade intelectual, mas em casa aprendemos a ser gente, aprendemos a falar, andar, a ter fé a agir para o bem. Na escola aprendemos as letras, em casa adquirimos o caráter, aprendemos a ser humano. “Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes” Paulo Freire. Para conquistar o sonho e a vocação ser sacerdote eu deveria estudar muito, aqui começam as dificuldades, pois quando criança tinha um pequeno desvio no cérebro que me impedia de aprender a ler e escrever, eu não conseguia juntar as letras e isso me deixava muito nervoso. Passei por algumas escolas e não conseguia progredir, isso também causava fortes dores de cabeça, hoje tenho consciência que tinha uma forte dislexia, tomei gardenal até os doze anos. Neste tempo no meu bairro, uma professora chamada Aglair, é importante lembrarmos das pessoas que nos fizeram experimentar vitórias, com muita paciência dava-me aulas de reforço em sua casa, neste ambiente de misericórdia e acolhimento aprendi a ler e escrever, daí em diante não tive mais dificuldade. Na verdade professor passa muito mais do que conhecimento, do que teoria, o verdadeiro professor passa vida, amor, para formar o homem todo e essa pedagogia tem a capacidade de curar o corpo e a alma. A todos os verdadeiros professores que passaram em minha vida, muito obrigado, vocês formaram um homem de Deus, essa é a essência da vocação do Professor: “Formar homens e mulheres novos para um mundo novo”.

“Professor é o sal da terra e a luz do mundo. Sem vós tudo seria baço, e a terra escura. Professor, faz de tua cadeira a cátedra de um mestre. Se souberes elevar teu magistério, ele te elevará à magnificência… … Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. Melhor professor nem sempre é o de mais saber e, sim, aquele que, modesto, tem a faculdade de manter o respeito e a disciplina da classe”. Cora Coralina

Verdades da Profissão de Professor
Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho. A data é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos. Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda (Paulo Freire).

Santa Tereza mestra e professora rogai por nós!

XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

28° domingo do Tempo Comum. A alegoria que nos apresenta o Evangelista Mateus, hoje, é um condensado da história de Israel e da primeira história do Cristianismo. Um rei resolve celebrar as núpcias de seu filho, e manda emissários que digam aos convidados que tudo está preparado. Podem se aproximar e podem tomar assento na sala do banquete. De maneira surpreendente, estes emissários são pessimamente recebidos por esses convidados. A uns maltratam, a outros ferem, e chegam até a matar um terceiro grupo.
O rei indigna-se e resolve liquidá-los, juntamente com a cidade, entregando-a a chamas. O leitor avisado da comunidade Mateana lê aqui, não apenas a história do Antigo Testamento e os profetas de Deus sistematicamente enviados e sistematicamente perseguidos, desde Elias, às voltas com Acab e Jezabel, até João Batista, degolado por Herodes Antipas, mas lê nas entrelinhas o que sucedeu com esta cidade que assim se comportou. Ela foi literalmente entregue às chamas, e isto aconteceu quando os Romanos a tomaram de assalto, e a destruíram completamente, não restando lá pedra sobre pedra, de acordo com a predição de Jesus no Ano 70 de nossa era.
E o texto ainda continua, mas desta vez saindo de Israel e entrando para o Cristianismo. O rei envia outros emissários que convidem outras pessoas. Na verdade, todos aqueles que encontrarem pelos caminhos ou pelas estradas. É uma alusão à chamada dos infiéis, dos pagãos, de nós, em lugar dos convidados da primeira hora: o povo Judeu.
A parábola poderia terminar aqui, e teria um belo término. Surpreendentemente, de novo, de maneira muito curiosa e intrigante, ela se continua. Quando a sala estava repleta de convidados da segunda hora, entrou o rei não para se banquetear com eles, não para tomar parte da festa, mas para inspecioná-los. E seus olhos caem imediatamente sobre alguém que lá estava de maneira imprópria, sem a veste nupcial.
Mas como? Foram convidados de última hora, não tiveram tempo para se preparar, quem sabe até para tomar um banho e purificarem-se. Mas aqui Jesus deixa o bom senso natural e pensa no transcendente. Os pagãos foram sim convidados, e nós tomamos na Igreja hoje, o lugar dos primeiros convidados. Mas isto não significa que a nossa salvação esteja assegurada.
A pertença à Igreja Católica, hoje, não garante a salvação de ninguém. Mais ainda, a comunidade é um “corpus permixum” onde existem bons e maus, mas a separação definitiva dar-se-á no último dia, e de maneira clara e irretratável.
A qual dos dois lados cada um de nós pertencerá naquele dia? De que lado estaremos nós? “Do lado dos benditos de Meu Pai” – diz Jesus – ou do lado dos malditos, que devem ir para o fogo eterno?

 

VENHA LOGO PARA O BANQUETE DE JESUS!
Padre Paulo Ricardo

Jesus aqui nos conta uma parábola um pouco enigmática: um rei tem uma festa de casamento preparada para as núpcias do seu filho. Então, envia seus servos para convidar as pessoas para o casamento. No entanto, aqueles que foram convidados não aceitam o convite e matam os servos do rei. Acontece, assim, uma grande chacina, pois o rei – vingativo – ordena que aqueles ingratos sejam executados.
Finalmente, abre-se esta visão das pessoas que são trazidas das encruzilhadas para encher a sala do banquete.
Como interpretar esta parábola tão enigmática? Em primeiro lugar, devemos compreender que este noivo é Jesus. E quem é a noiva? O Evangelho não nos diz, mas sabemos que somos nós. A noiva é a Igreja. A noiva, na verdade, são esses que foram convidados.
Neste sentido, a parábola não “fecha” perfeitamente em termos de comparação. Por quê? Porque, na realidade, temos ali um banquete nupcial no qual todos nós ocupamos o lugar da noiva. Mas isso permanece no silêncio, no “não dito” daquilo que está no Evangelho. Este seria o sentido profundo e teológico da Palavra de hoje.
Algumas coisas que podemos observar a respeito deste Evangelho:
Em primeiro lugar, a urgência escatológica. Interessante que o rei já tem tudo preparado para a festa de casamento. E de forma bastante inverossímil, ele ordena – quando a mesa já está posta – que os convidados sejam chamados. Estes mesmos convidados que antes não sabiam de nada!
Mas, aqui, o fato da mesa “estar posta” é simplesmente uma forma simbólica de falarmos da urgência escatológica. Deus quer que nós venhamos para o banquete de Seu Filho. E venhamos logo! Ele tem pressa. A mesa já está posta e a comida está “esfriando”.
Claro que o desenvolver da parábola é um pouco inverossímil, ou seja, acontece o chamado feito aos convidados, depois uma guerra e, após tudo isso acontecer, a mesa ainda está posta.
Na verdade, temos aqui uma alusão a todo o conflito que houve com o povo de Israel e a queda de Jerusalém no ano 70. Ou seja, aquela cidade cujos habitantes são mortos e o lugar depois destruído é a cidade de Jerusalém.
O evangelista Mateus está “relendo” o fato histórico da destruição de Jerusalém e dizendo para os fiéis – que ouvem a esta parábola – que, embora Jerusalém tenha sido destruída, o convite para o banquete nupcial, para esta união entre Deus e a humanidade, continua em pé.
Com essa parábola das núpcias do Filho de Deus, o que podemos extrair de ensinamento para nossas vidas?
Veja: Deus nos chama para uma íntima união com Ele. Precisamos nos preparar para isto. Simbolizando esta preparação, vemos a veste nupcial que cada um de nós precisamos ter. Precisamos nos revestir desta veste, precisamos mudar de atitude. Mudar de vida para nos prepararmos ante esta união íntima com o Esposo, que é Cristo.
A Igreja inteira, todos nós – membros do Corpo de Cristo – iremos nos unir a Jesus. E será neste momento que acontecerá a festa. Acontecerá a realidade prometida por Deus desde toda a eternidade.
Somos chamados a esta união. Em Jesus, a união entre Deus e a humanidade já aconteceu de forma perfeita, porque Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Em Jesus acontece este matrimônio.
Mas é necessário que recebamos o Espírito Santo e sejamos unidos ao Corpo de Cristo. Como membros deste Corpo, que é a Igreja, então estaremos também neste matrimônio, nesta realidade de união com o Cristo cabeça.
Este é o nosso desejo e o desejo de Deus para nós. A urgência escatológica, a respeito da qual nos fala esta parábola – essa urgência de Deus – deveria dizer um pouco daquela urgência que deve habitar também no nosso coração.
Também nós deveríamos ter pressa em estar prontos para essa união com Deus. Também deveríamos ter pressa em convidar tantas e tantas pessoas para que venham participar deste banquete aberto a todos. É preciso convidar a todos. E descobrir, ali – nesta união – a grande alegria de ser católico, ser filho de Deus. Descobrir esta missionariedade de quem sabe: “Estou unido ao Esposo Jesus. Quero que outros também se unam a Ele”.
Isto é o que podemos extrair de ensinamento para a nossa vida no Evangelho de hoje.

 

O SENHOR NOS CONVIDA PARA UM BANQUETE
Padre Alberto

A partir da Palavra que nos convoca neste domingo eu gostaria de partilhar três afirmações, que busca alimentar nosso coração e nos ajudar a nos aproximar cada vez mais do Senhor.
Em Isaías se encontra uma figura literária do dia do Senhor. É verdade que o Senhor não cabe na nossa cabeça, ou seja a verdade de Deus não pode ser expressada de maneira exata na nossa linguagem, por isso os homens de Deus usam de imagens, figuras para expressar essa verdade na nossa vida.
Hoje no dia da plenitude, dia de encontro com o Senhor, a liturgia nos apresenta uma imagem de festa, de banquete. Eu acredito que isso foi pouco trabalhado nas nossas pregações, e as vezes não parece um banquete, parece um funeral. Mas isso não é o que o profeta anuncia, ele fala de um banquete, de uma festa. Na Colômbia, uma festa é uma festa, não sei se aqui (Brasil) é igual, mas lá uma festa é estar alegres e não tristes.
O Senhor anuncia um banquete e quando você se encontrar com Ele, você estará feliz. O profeta Isaías diz: “O Senhor dos exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos.” O monte é o lugar do encontro, aqui é o lugar do encontro, porque na sua forma de ver o mundo, Deus está no céu e o mais perto do céu é a monte. Aqui é o monte, o lugar do encontro com Deus.
O dia do Senhor, é o dia do banquete cheio de plenitude. Eu não tenho medo de morrer, pois na Palavra diz que iremos para um banquete, eu irei me encontrar com Jesus. Não sinto medo de me encontrar com o Senhor, não que eu seja santo, mas porque ele me convida para um banquete. E este banquete deve ser extraordinário. E o profeta sublinha ainda mais e diz: “O Senhor Deus eliminará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra do seu povo em toda a terra; o Senhor o disse”.
Não me diga que você não deseja isso, porque eu desejo isso, que Ele acabe com a morte, que ele seque as minhas lágrimas. É isto que você está tentando viver, por isso tanta renuncias. Você quer o banquete que Ele tem te oferecido?
Se nós pregássemos sobre isso as pessoas entenderiam melhor, mas parece que a gente está renunciando muito por pouca coisa. E muitos dizem que isso de ser cristão é o pior negócio, mas quando você fala que eles estão sendo convidados para um banquete, e que qualquer coisa que eles renunciam é por um banquete, então parece que o que trocamos é pouco por causa de muito.
Estamos trocando pouco pelo tudo de Deus. No meu país (Colômbia) eles me convidam para programas de TV e me perguntam de tudo e eu falo de tudo, nunca falta perguntas, eles me perguntam se eu sou celibatário e me olham como se eu fosse um coitado e eu judio deles, porque os pobrezinhos são eles que não sabem que eu deixei pouco pela plenitude de Deus.
Quando compreendemos que o banquete é uma festa queremos renunciar tudo, que parece pouco diante do muito de Deus. Se entendemos isso não será difícil ser cristão, agora se não entendermos será muito difícil.
Você está sendo convidado para um banquete, quando eu peço para você ser fiel a sua esposa é porque sua recompensa será um banquete. Quando peço para você ser um jovem sadio é porque sua recompensa será a plenitude de Deus. Nada do que você deixe será muito comparado a sua recompensa.
O banquete que Isaías anunciou, Mateus identifica como o Reino, não como qualquer reino, mas como Reino de Deus. E ele coloca três características:
É um convite de graça, não paga nada, Ele disse: “Venha”, e você não precisa pagar nada. O Reino dos céus é pura de graça de Deus, presente de Deus, não importa como você está, você está convidado. É um presente de Deus, isso que nos faz diferentes dos fariseus, que acreditavam que podiam comprar o Reino. Mas se Deus levasse em conta nossos pecados, quem resistiria? Ninguém. Nem os bispos, nem o santo padre, ninguém. O convite é de graça mesmo que você seja pecador. É você que decidi se vai ou não vai para o banquete. Não é uma obrigação. Deus te convida e se você não vai Ele continua te convidando. Ninguém me obriga, eu livremente aceito.
Mas se você diz que sim, você precisa ir com a roupa apropriada, para um festa elegante eu não vou de shorts, eles me mandarão embora, eu não vou de terno para praia. Se você aceitar, você precisa assumir as características do discípulo, se aceita ir para o banquete precisa viver como discípulo. Se quiseres entrar no banquete nupcial você precisa viver como um discípulo, caso contrário você será jogado fora. O homem do evangelho foi mandado embora porque ele não tinham as características de um discípulo.
Eu vou e vivo como um discípulo. Mas se você não vive como discípulo será mandado embora. É um convite e exige resposta, porém precisa ser discípulo para entrar.
Paulo em Filipenses repete “eu posso tudo naquele que me fortalece”, por isso que ele fala que pode viver na abundância ou na pobreza, porque Deus lhe dá forças. Não me digas que não é possível ser cristão, viver a palavra, é possível viver com a força de Deus, aquele que quer o Senhor dá as suas forças para que consiga viver.
Só com as nossas forças não é possível. Mas com as forças de Deus é possível, por isso peça as forcas de Deus e poderá testemunhar para a América Latina que é possível ser cristão.
A primeira afirmação que a Liturgia nos fala é de um banquete, você foi convidado uma festa. A segunda, o banquete é de graça e a terceira você é livre para escolher ir para o banquete ou não. Mas se aceitar ir é preciso viver como um discípulo. Isso não é muito difícil, você consegue porque Deus lhe dá forças para viver assim.

 

As leituras deste domingo, especialmente a primeira e o evangelho, convida-nos a refletir sobre a Eucaristia. A partir delas, poderemos refletir neste sacramento como um banquete. Esta perspectiva eucarística foi redescoberta pelo Concílio Vaticano II e, em diversas ocasiões, colidiu com o aspecto sacrificial da missa. Não são dois aspectos que se contradigam ou que sejam opostos, mas completam-se. A Eucaristia é um sacrifício que acontece num contexto de banquete.
A Eucaristia é o banquete que Deus nos oferece. Na primeira leitura, Isaías fala-nos profeticamente da eucaristia. Anuncia uma futura intervenção salvadora de Deus para todos os povos, utilizando a imagem do banquete. Jesus, no evangelho, compara o convite a participar no reino com Deus com o convite para um banquete nupcial. Assim, ambos os textos fazem referência a uma refeição festiva para falar da salvação que Deus nos concede. O banquete é um momento muito importante para as relações humanas. Quando queremos comemorar algo com a família, com os amigos… sentamo-nos à mesa. Tomar uma refeição é sinal de comunhão, de alegria, de solidariedade e de união. No evangelho, assíduas vezes, vemos Jesus sentado à mesa (com os discípulos, com os pecadores…). E foi numa ceia, a ceia pascal, onde Jesus instituiu a Eucaristia para que a relação entre Deus e a humanidade fosse à volta de uma mesa.
O banquete de Deus tem elementos muito importantes para compreender e viver melhor este sacramento: 1) Universalidade da salvação: a exclusividade salvífica do Antigo Testamento, ou seja, que somente o povo judeu era o destinatário da salvação divina, desaparece na Nova Aliança. “Sobre este monte, o Senhor do Universo preparará para todos os povos um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos deliciosos” (1ª leitura). Na parábola do evangelho, pelo fato de os convidados terem rejeitado o convite para o banquete, este foi aberto a todas as pessoas; 2) A Abundância. Deus dá-se sem medida. O profeta Isaías faz referência à qualidade e à abundância da comida no banquete: “manjares suculentos, vinhos deliciosos… comida de boa gordura, vinhos puríssimos”. No salmo responsorial, encontramos esta frase: “o meu cálice transborda”. O amor que Deus nos oferece, a salvação que nos dá, a vida divina que nos transmite ultrapassa qualquer sentimento humano, ou seja, supera os nossos desejos e as nossas esperanças; 3) Vitória sobre a morte. A salvação de Deus vence a morte. A visão profética de Isaías (“destruirá a morte para sempre”) torna-se realidade na Páscoa de Cristo. Cristo venceu a morte e faz-nos participar da sua vitória. O banquete eucarístico é a expressão, por excelência, desta vitória, porque nele atualizamos a Páscoa, ou seja, torna-se presente a morte e a ressurreição de Jesus.
Mas, Deus não impõe a salvação. Deus não nos obriga a aceitar nada. Deus respeita a liberdade humana. Na parábola do evangelho, os convidados não aceitaram o convite para o banquete nupcial. Será que também nós andamos tão atarefados com as coisas deste mundo que não damos valor ao que é mais importante? De que serve ganhar o mundo se perder a minha vida? Então, se aceitarmos o convite, deveremos vestir o “traje nupcial”, ou seja, ser cristão não só de palavras, mas também de obras. Não basta ser batizado; é preciso viver como filhos de Deus.

 

Homilia do Padre Françoá Costa
XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano A
O banquete do Cordeiro

Ultimamente tenho indicado muito um livro de Scott Hahn, “O Banquete do Cordeiro – a Missa por um convertido” (Loyola, 2002), no qual o autor explica de maneira bastante envolvente vários aspectos do mistério da santa missa desde uma perspectiva apocalíptica. O livro é muito interessante e descortina várias realidades veladas aos nossos olhos acostumados a ver somente o que se nos mostra patentemente. Entre outras coisas, afirma o autor logo na “introdução”: “insisto que vamos realmente ao céu quando vamos à missa, e isso é verdade a respeito de toda missa de que participamos, independentemente da qualidade da música ou do fervor da homilia. Não é questão de aprender a “ver o lado brilhante” de liturgias desleixadas. Não se trata de adotar uma atitude mais caridosa para com vocalistas desafinados. Trata-se de algo que é objetivamente verdade, algo tão real quando o coração que bate dentro de você. A missa – e quero dizer toda missa – é o céu na terra”.
“Dizei aos convidados que já está preparado o meu banquete (…). Vinde às bodas!” (Mt 22, 4). Jesus deixou-nos esse prodígio de amor, que é a eucaristia, para que participemos de suas alegrias eternas. Ele instituiu o sacramento do seu corpo e do seu sangue no contexto de uma ceia e se deu em alimento para que nós, fortalecidos, pudéssemos chegar à glória celestial. Mas a eucaristia não é somente um banquete, nem é um simples banquete. Trata-se de um banquete sacrificial. O Catecismo da Igreja Católica faz essa conexão – eucaristia-ceia – já que o Novo Testamento também o faz: “Jesus expressou de modo supremo a oferta livre de si mesmo na refeição que tomou com os Doze Apóstolos na “noite em que foi entregue” (1Cor 11, 23). Na véspera de sua Paixão, quando ainda estava em liberdade, Jesus fez desta Última Ceia com seus apóstolos o memorial de sua oferta voluntária ao Pai, pela salvação dos homens: “Isto é o meu corpo que é dado por vós” (Lc 22, 19). “Isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados” (Mt 26, 28)” (Cat. 610).
Fomos convidados para participar do banquete nupcial do Cordeiro. Quem é esse Cordeiro com letra maiúscula? Explica-nos o evangelista João: “Eu vi no meio do trono, dos quatro Animais e no meio dos Anciãos um Cordeiro de pé, como que imolado” (Ap 5,6). Tinha-se anunciado que o Leão abriria o livro selado (cfr. Ap 5, 5), mas aparece um Cordeiro que, efetivamente, pode abrir os sete selos (cfr. Ap 6, 1). Aparente contradição! O que tem a ver um leão com um cordeiro? Jesus tem a fortaleza de um leão e a mansidão de um cordeiro. O Cordeiro de Deus, Jesus, aparece “de pé, como que imolado”. Outra aparente contradição! Quem está de pé não está imolado, que está imolado não está de pé; mas, explica-nos a Bíblia de Jerusalém, trata-se do “cordeiro que foi imolado para a salvação do povo eleito (cf. Jo 1,29+; Is 53,7). Ele traz as marcas de seu suplício, mas está de pé, triunfante (cf. At 7,55), vencedor da morte (1,18) e por esta razão (…) senhor de toda a humanidade” (Bíblia de Jerusalém, Ap 5,6, nota z).
O sacrifício do Cordeiro foi oferecido ao Pai, mas também foi oferecido a nós. Pelo poder desse Cordeiro salvador, Jesus, e pela ação do Espírito Santo, atualiza-se em cada missa o mistério da sua Páscoa. Em cada missa nos encontramos com o mistério do Cristo morto e ressuscitado, e, ao encontrar-nos com esses fatos diante de nós, somos transportados à eternidade. Explico-me: o sacrifício de Cristo oferecido ao Pai foi aceito eternamente pelo Pai que o tem sempre diante dos seus olhos. Pois bem, esse mesmo sacrifício que o Pai tem diante de si se nos torna presente em cada santa missa: o céu desce à terra e a terra entra em contato com o céu. Mais ainda, para que a nossa participação seja mais intensa, Deus ofereceu-se em comida, isto é, Jesus na comunhão nos faz participar do banquete que ele mesmo preparou para nós.
Que triste seria se desprezássemos tanto amor de Deus! Como eu participo da santa missa? Desejo, de verdade, que chegue o momento de participar da próxima missa? Procuro ir bem preparado para participar do banquete que o Senhor fez para mim, para a minha salvação e para o fortalecimento do meu apostolado? Encontro na santa missa o centro da minha vida espiritual?

 

A bondade de Deus não tem confins, não discrimina ninguém
As palavras pronunciadas pelo Papa no Angelus
Por Redacao, ROMA, 12 de Outubro de 2014 (Zenit.org) 
Queridos irmãos e irmãs, bom dia
No Evangelho deste domingo, Jesus nos fala sobre a resposta que é dada ao convite de Deus – representado por um rei – para participar de um banquete de núpcias (cf. Mt 22,1-14). O convite tem três características: a gratuidade, a extensão e a universalidade. Os convidados são muitos, mas algo surpreendente acontece: nenhum dos escolhidos concorda em participar da festa, dizem que têm mais o que fazer; na verdade, alguns demonstram indiferença, estranheza, até mesmo incomodo. Deus é bom para conosco, nos oferece gratuitamente sua amizade, nos oferece gratuitamente a sua alegria, a salvação, mas muitas vezes não acolhemos seus dons, colocamos nossas preocupações materiais em primeiro plano, os nossos interesses e também quando o Senhor nos chama, muitas vezes, parece nos incomodar.
Alguns convidados até maltratam e matam os servos que foram mandados para fazer convite. Mas, apesar da falta de adesão dos que foram convidados, o plano de Deus não é interrompido. Diante da recusa dos primeiros convidados, Ele não desanima, não suspende a festa, mas propõe novamente o convite estendendo-o indistintamente e envia seus servos para as praças e esquinas para reunir todos aqueles que encontram. São pessoas comuns, pobres, abandonados e carentes, bons e maus- mesmo os maus são convidados – sem distinção. E a sala se enche de “excluídos”. O Evangelho rejeitado por alguns é inesperadamente acolhido em tantos outros corações.
A bondade de Deus não tem confins, não discrimina ninguém: por isso o banquete dos dons do Senhor são universais, são para todos. A todos é dado a possibilidade de responder ao seu convite, ao seu chamado; ninguém tem o direito de se sentir-se privilegiado ou pedir exclusividade. Tudo isso nos leva a superar o hábito de nos posicionar confortavelmente ao centro, como faziam os chefes dos sacerdotes e os fariseus. Isso não deve ser feito; devemos nos abrir às periferias, reconhecendo que mesmo aqueles que estão às margens, aqueles desprezados e rejeitados pela sociedade são objetos da generosidade de Deus. Todos nós somos chamados a não reduzir o Reino de Deus aos confins da “igrejinhas” – a nossa “igrejinha pequenina”- mas dilatar a Igreja à dimensão do reino de Deus. Mas há uma condição: vestir o habito nupcial, ou seja, testemunhar a caridade para com Deus e para com o próximo.
Confiemos à intercessão de Maria Santíssima os dramas e as esperanças de tantos irmãos e irmãs, excluídos, vulneráveis, fracos, rejeitados, desprezados, também aqueles que são perseguidos por causa da fé.

 

28º DOMINGO DO TEMPO COMUM.
“Senhor, se levardes em conta as nossas faltas, quem poderá subsistir? Mas em vós encontra-se o perdão, Deus de Israel”(cf. Sl 129,3-4).
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG.

Irmãos e Irmãs,
Vamos caminhando para o término do ano litúrgico. Assim nesta caminhada cotidiano do tempo comum sempre se abre mais a perspectiva final. Deus nos aguarda para o banquete escatológico, com o qual já sonhava o profeta Isaías sete séculos antes de Cristo. Exultemos com um festim para todos os povos. Para um povo que conheceu a fome, como o povo eleito, bem como para a maioria do povo de Deus nos dias de hoje, comida e bebida com fartura é uma imagem capaz de evocar o bem estar pleno e total, embora sempre fique uma imagem… a nossa imaginação não consegue conceber o que Deus prepara para seus amigos, seus filhos. Por isso a leitura exclama: “O Senhor todo-poderoso preparará na montanha santa, para todos os povos, um banquete de vinhos escolhidos e alimentos suculentos”(cf. Is 25,6). A Primeira Leitura(cf. Is 25,6-10a), portanto, nos apresenta o banquete messiânico. Este trecho é um “apocalipse”, de data mais recente do que o restante do livro. Depois do juízo sobre as forças celestes e terrestres(cf. Is 24,21), Deus revela a sua glória para os eleitos e reúne todos os povos para o banquete de sua tomada de posse. Elimina-se a cegueira espiritual; a morte é vencida. Não o julgamento, mas a alegria é a última palavra de Deus sobre o mundo.
Meus irmãos em Cristo Senhor,
O Evangelho de hoje(cf. Mt 22,1-14 ou 22,1-10) nos leva a refletir sobre o banquete do Senhor. Felizes os convidados para o banquete do Senhor. Jesus retoma na parábola deste domingo à figura do banquete nupcial. A figura é conhecida também nos escritos laicos. Comer à mesa do rei expressava o auge da felicidade. Os profetas fizeram o povo sonhar com o dia em que todos se assentariam à mesa do rei.
Jesus compara o Reino de Deus a um banquete nupcial do filho do rei. As núpcias são outro símbolo. Todo o Antigo Testamento fala da Aliança de Deus com a humanidade. Em Cristo essa aliança se torna tão forte e íntima, que é comparada ao matrimônio.
A parábola do Evangelho de hoje faz referência aos finais dos tempos, à escatologia. O povo de Deus são os graus escolhidos no celeiro se viverem em conformidade com a vontade do Senhor. Se não viverem conforme esta salvadora vontade estarão fadados ao fogo do inferno.
Jesus faz uma referência escatológica para afirmar que também está se exaurindo o seu tempo entre nós porque “Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todo nome” (cf. Fl 2,9). Jesus é para os homens de todos os tempos e de todas as épocas o modelo perfeito de participante do Reino e dele se tornou cabeça e plenitude.
Todos nós somos convidados ao banquete, ou seja, ao próprio Reino de Deus. O velho sonho do homem se assentar à mesa de Deus é a prefiguração da participação do Reino das Bem-Aventuranças. Ouvir a voz e cumprir os mandamentos de Deus é aceitar o convite para o banquete, é fazer tudo para merecer assentar-se à mesa do rei. A parábola nos ensina que a comunhão da criatura humana com Deus é possível, desde que tenhamos fé e corramos a este encontro, com Deus que nos quer à sua mesa. É Deus que quer a comunhão conosco.
Meus irmãos,
Todos nós somos convidados a amar a Deus sobre todas as coisas. Deus nos dá o livre arbítrio de se assentar ou não assentar na mesa com Ele. Deus respeita a liberdade de suas criaturas em escolher entre a graça e o pecado. Entretanto esta liberdade não dá ao homem o direito de querer ocupar o lugar de Deus. Nós não devemos ser iguais aos primeiros convidados que se fecharam em si mesmo, com auto-suficiência.
Depois Deus convidou outras pessoas: aqueles que não tiveram tempo e foram trabalhar no campo, atrás dos negócios e interesses pessoais, se esquecendo da salvação. Todos nós temos que trabalhar, levar alimento e bem estar para a nossa família, mas quando o trabalho é combinado com a vida de oração e de engajamento pastoral e evangelizador, as coisas na vida dos homens melhoram, porque contam com a proteção de Deus, produzindo frutos mil por um.
O ter e o poder cega, cassando do homem uma das maiores virtudes da vida cristã: o amor sem limites, que provém somente da vivência da vontade do Senhor Deus: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus”.
Irmãos e Irmãs,
A veste nupcial é a vivência dos valores evangélicos. Hoje é um dia de valorizarmos os mártires da Santa Igreja de Jesus Cristo. Num contexto de mundo globalizado e cada vez mais secularizado a esperança da Igreja são os homens e as mulheres que, de porta em porta, batem anunciando o Evangelho, a vivência pastoral, a rede de comunidades, o anúncio da pastoral de conjunto e da pastoral social, nunca se esquecendo, se muitos batem às portas pedindo votos, todos nós temos compromisso de pedir voto para o único candidato que nos proporciona a salvação: JESUS CRISTO.
Os primeiros e os segundos convidados se auto-excluíram do banquete. Os terceiros convidados entraram. Quem entrou foram os pobres, os pecadores, os marginalizados socialmente. A parábola nos ensina de que há uma seqüência temporal. Mas o convite é feito para todos os homens, para todos os homens e mulheres de boa vontade, ricos e pobres precisam da veste nupcial. O batismo nos incorpora à Igreja, mas é necessário vivenciar esse batismo com uma inserção pastoral e evangelizadora: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas quem fizer a vontade de meu Pai”.
Irmãos e Irmãs,
A segunda leitura(cf. Fl 4,12-14.19-20) contém as frases mais características do agradecimento final da Carta aos Filipenses. Agradecimento a esta Igreja, porque cuidaram tão bem de Paulo embora ele tivesse suportado também a carência, se fosse o caso. Ele não exigiu nada, mas foi muito bom eles terem feito tudo isso por ele, como gratuidade da bondade fraterna.
Com Deus, tudo posso! São Paulo, que fazia questão de se sustentar com o seu próprio trabalho, aceitou, na prisão, dádivas dos fiéis de Filipos; mas não perde, por isso, sua liberdade: ele sabe que tudo por Deus e com Deus. Nas dádivas, ele acolheu os filipenses como participantes de seu sofrimento. Agora, reparte com eles o ministério que na verdade o sustenta: o meu Deus. É um agradecimento a Deus por causa destes fiéis tão dedicados e delicados.
É um exemplo para se levar para casa, no fim desta missa, porque a grande lição da liturgia do banquete e o traje é alimentando-se com Cristo todos participaremos da vida de Deus no já-ainda não da escatologia que começa aqui e agora com a Igreja peregrina rumo à Igreja Triunfante no Céu. Amém!

 

Jesus Cristo nesta Parábola destaca a contínua Vontade de Deus que chama a todos para a salvação. Fica nítido que o banquete é o Reino dos Céus em contraste com a rejeição do convite por aqueles que são convidados. Esta rejeição é tão grave, que merece um castigo definitivo. Deus faz a proposta e espera nossa resposta, nossa conversão. Devemos mudar nosso modo de agir. Mas, se optarmos pelas coisas do mundo, colocando nossos interesses acima da proposta de Deus, não estaremos demonstrando o devido cuidado ao convite e podemos ficar fora do banquete.
Na parábola, os primeiros convidados foram o povo judaico, depois os gentios (cf. At 13,46). Na História da Salvação, não como judeus, nem como gentios, mas como cristãos, também somos convidados a participar do banquete. Então perguntamos: Como estamos nos preparando para esta festa? Com indiferença, hostilidade ou com fidelidade a escuta da Palavra?
As bodas, diz São Gregório Magno (†604), “são as bodas de Cristo com a Sua Igreja, e o traje é a virtude da caridade: entra portanto nas bodas, mas sem a veste nupcial, quem tem fé na Igreja, mas não possui a caridade” (In Evangelia homiliae).
O traje de bodas indica, em geral, as disposições com que buscamos as coisas do alto. O núcleo da perfeição é o amor, que se pratica de maneira mais intensiva pelo sacrifício (consagração total) da vida a Deus. Se alguém não cultiva este amor, para com Deus, para com o próximo e para consigo mesmo, não está em comunhão. Mesmo pertencendo à Igreja, se não cultivarmos o amor em nossas vidas, seremos julgados, tal qual, o homem sem a veste nupcial. Então, vamos nos abrir à Graça de Deus?
O Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Lumen Gentium, nº 48 reafirma as colocações da Parábola “… Mas, como desconhecemos o dia e a hora, conforme a advertência do Senhor, vigiemos constantemente, a fim de que, terminado o único curso de nossa vida terrestre (cf. Hb 9,27), possamos entrar com Ele para as bodas e mereçamos ser contados com os benditos (cf. Mt 25,31-46), e não sejamos mandados, como servos maus e preguiçosos (cf. Mt 25,26), apartar-nos para o fogo eterno (cf. Mt 25,41), para as trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mt 22,13 e 25,30).
A Parábola conclui-se com a expressão: “muitos são os chamados, e poucos os escolhidos”, que não contradiz com a vontade salvífica de Deus (cf 1Tm 2,4). Cristo, no Seu Amor por cada ser humano, busca a conversão da alma com infinita paciência, até o extremo de morrer na cruz. Da mesma forma, cada um pode afirmar com o Apóstolo Paulo: “… Cristo, que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim” (Gl 2,20). Contudo, Deus, na Sua infinita sabedoria, respeita a liberdade do ser humano, que faz a sua opção de vida.
Bendito seja Deus para sempre!

Homilia do Papa Francisco em Aparecida

Viagem Apostólica ao Brasil
Homilia do Papa Francisco
Santuário Nacional de Aparecida
Quarta-feira, 24 de julho de 2013

“Também eu venho hoje bater à porta da casa de Maria”, afirma Papa Francisco

Venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs!

Quanta alegria me dá vir à casa da Mãe de cada brasileiro, o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. No dia seguinte à minha eleição como Bispo de Roma fui visitar a Basílica de Santa Maria Maior, para confiar a Nossa Senhora o meu ministério de Sucessor de Pedro. Hoje, eu quis vir aqui para suplicar à Maria, nossa Mãe, o bom êxito da Jornada Mundial da Juventude e colocar aos seus pés a vida do povo latinoamericano.

Queria dizer-lhes, primeiramente, uma coisa. Neste Santuário, seis anos atrás, quando aqui se realizou a V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, pude dar-me conta pessoalmente de um fato belíssimo: ver como os Bispos – que trabalharam sobre o tema do encontro com Cristo, discipulado e missão – eram animados, acompanhados e, em certo sentido, inspirados pelos milhares de peregrinos que vinham diariamente confiar a sua vida a Nossa Senhora: aquela Conferência foi um grande momento de vida de Igreja. E, de fato, pode-se dizer que o Documento de Aparecida nasceu justamente deste encontro entre os trabalhos dos Pastores e a fé simples dos romeiros, sob a proteção maternal de Maria. A Igreja, quando busca Cristo, bate sempre à casa da Mãe e pede: “Mostrai-nos Jesus”. É de Maria que se aprende o verdadeiro discipulado. E, por isso, a Igreja sai em missão sempre na esteira de Maria.

Assim, de cara à Jornada Mundial da Juventude que me trouxe até o Brasil, também eu venho hoje bater à porta da casa de Maria, que amou e educou Jesus, para que ajude a todos nós, os Pastores do Povo de Deus, aos pais e aos educadores, a transmitir aos nossos jovens os valores que farão deles construtores de um País e de um mundo mais justo, solidário e fraterno. Para tal, gostaria de chamar à atenção para três simples posturas: Conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus; viver na alegria.

1. Conservar a esperança. A segunda leitura da Missa apresenta uma cena dramática: uma mulher – figura de Maria e da Igreja – sendo perseguida por um Dragão – o diabo – que quer lhe devorar o filho. A cena, porém, não é de morte, mas de vida, porque Deus intervém e coloca o filho a salvo (cfr. Ap 12,13a.15-16a). Quantas dificuldades na vida de cada um, no nosso povo, nas nossas comunidades, mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos. Frente ao desânimo que poderia aparecer na vida, em quem trabalha na evangelização ou em quem se esforça por viver a fé como pai e mãe de família, quero dizer com força: Tenham sempre no coração esta certeza! Deus caminha a seu lado, nunca lhes deixa desamparados! Nunca percamos a esperança! Nunca deixemos que ela se apague nos nossos corações! O “dragão”, o mal, faz-se presente na nossa história, mas ele não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança! É verdade que hoje, mais ou menos todas as pessoas, e também os nossos jovens, experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer. Frequentemente, uma sensação de solidão e de vazio entra no coração de muitos e conduz à busca de compensações, destes ídolos passageiros. Queridos irmãos e irmãs, sejamos luzeiros de esperança! Tenhamos uma visão positiva sobre a realidade. Encorajemos a generosidade que caracteriza os jovens, acompanhando-lhes no processo de se tornarem protagonistas da construção de um mundo melhor: eles são um motor potente para a Igreja e para a sociedade. Eles não precisam só de coisas, precisam sobretudo que lhes sejam propostos aqueles valores imateriais que são o coração espiritual de um povo, a memória de um povo. Neste Santuário, que faz parte da memória do Brasil, podemos quase que apalpá-los: espiritualidade, generosidade, solidariedade, perseverança, fraternidade, alegria; trata-se de valores que encontram a sua raiz mais profunda na fé cristã.

2. A segunda postura: Deixar-se surpreender por Deus. Quem é homem e mulher de esperança – a grande esperança que a fé nos dá – sabe que, mesmo em meio às dificuldades, Deus atua e nos surpreende. A história deste Santuário serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir apanhar peixes, nas águas do Rio Parnaíba, encontram algo inesperado: uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende, como o vinho novo, no Evangelho que ouvimos. Deus sempre nos reserva o melhor. Mas pede que nos deixemos surpreender pelo seu amor, que acolhamos as suas surpresas. Confiemos em Deus! Longe d’Ele, o vinho da alegria, o vinho da esperança, se esgota. Se nos aproximamos d’Ele, se permanecemos com Ele, aquilo que parece água fria, aquilo que é dificuldade, aquilo que é pecado, se transforma em vinho novo de amizade com Ele.

3. A terceira postura: Viver na alegria. Queridos amigos, se caminhamos na esperança, deixando-nos surpreender pelo vinho novo que Jesus nos oferece, há alegria no nosso coração e não podemos deixar de ser testemunhas dessa alegria. O cristão é alegre, nunca está triste. Deus nos acompanha. Temos uma Mãe que sempre intercede pela vida dos seus filhos, por nós, como a rainha Ester na primeira leitura (cf. Est 5, 3). Jesus nos mostrou que a face de Deus é a de um Pai que nos ama. O pecado e a morte foram derrotados. O cristão não pode ser pessimista! Não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto. Se estivermos verdadeiramente enamorados de Cristo e sentirmos o quanto Ele nos ama, o nosso coração se “incendiará” de tal alegria que contagiará quem estiver ao nosso lado. Como dizia Bento XVI: «O discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro” (Discurso inaugural da Conferência de Aparecida [13 de maio de 2007]: Insegnamenti III/1 [2007], 861).

Queridos amigos, viemos bater à porta da casa de Maria. Ela abriu-nos, fez-nos entrar e nos aponta o seu Filho. Agora Ela nos pede: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2,5). Sim, Mãe nossa, nos comprometemos a fazer o que Jesus nos disser! E o faremos com esperança, confiantes nas surpresas de Deus e cheios de alegria. Assim seja.

Fonte: Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé

Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida – 12 de Outubro

PADROEIRA E RAINHA DO BRASIL

A intercessora do povo
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha(MG)

“Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias”

O Brasil está unido, de norte a sul, de leste a oeste, para a grande festa de nossa excelsa padroeira: a Virgem da Conceição, Aparecida das águas do Rio Paraíba, no vale do mesmo nome, no ano de 1717. A devoção a Virgem Maria que nos abre o caminho mais rápido para contemplarmos a Santíssima Trindade. No majestoso Santuário Nacional de Nossa Senhora, na paulista Aparecida, ou nas Catedrais, Igrejas Matrizes, Igrejas Filiais e Capelanias de todo o imenso território nacional os fiéis precedidos de seus Pastores, louvam a Deus, por intermédio de sua Mãe que nos legou o mais simples e profundo modo de seguir a Jesus Cristo, o Redentor: “Fazei tudo o que Ele vos disser!” (cf. Jo 2, 5). Maria deve ser colocada, dentro de um bom entendimento da liturgia de hoje, como a intercessora do povo, como principal padroeira do povo Brasileiro. A Virgem Aparecida nos traz recordações importantes na vida cristã: como a ternura maternal da Virgem, sua dedicação a Jesus como mulher de fé, seu serviço prestado a toda a humanidade. Em Maria temos o mais perfeito exemplo do discípulo e da discípula de Jesus, que sabe cumprir os mandamentos e fazer realizar a única vontade do Pai, que se concretiza na salvação do povo de Deus. A Virgem Maria deve ser apresentada como o Modelo acabado de fidelidade do ser humano a Deus. Maria da fraternidade. Maria da acolhida. Maria da graça. Maria da partilha. Maria da misericórdia. Maria da graça santificante. Maria da generosidade. Maria do serviço! Relembramos assim, a visita do Conde de Assumar, em 1717, em Guaratinguetá, quando os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso foram escalados para pescar peixes para a refeição da visita ilustre, sendo este dia uma sexta-feira, dia de abstinência de carne. Os homens simples do Vale do Paraíba nada pescaram. Quando já estavam quase desanimando jogaram a rede e retiram uma imagem pequena de Nossa Senhora da Conceição, um pouco enegreada pela água, sem a cabeça. Outro arremesso. Veio a cabeça da imagem. Assim prosseguiu mais um arremesso e veio a pesca abundante. Deus abençoava, naquele momento, os três pescadores. A imagem da Virgem da Conceição, feita de barro cozido, enegrecida pelas águas e pelo tempo, medindo 36 cm, foi levada para o culto divino. Em 1745 foi construída uma Capela no alto do Morro dos Coqueiros. Nascia, assim, a devoção a Virgem Aparecida, Mãe do Povo Brasileiro. Em 1888 foi substituída a primitiva capela por uma Igreja. Em 1894 a Igreja e a devoção a Nossa Senhora foi enriquecida pela presença dos Missionários Redentoristas que passaram a gerir o Santuário Nacional. Desde 1953, a festa de Nossa Senhora Aparecida, tem como dia de celebração o dia 12 de outubro. Desde 1930 Nossa Senhora Aparecida abençoa o povo brasileiro como sua Padroeira Nacional. Em 4 de Julho de 1980 o Sumo Pontífice João Paulo II, de venerável memória, consagrou o novo Santuário Nacional. Em 13 de maio de 2007, o Sumo Pontífice Reinante, Papa Bento XVI, abriu a V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e caribenho nos fazendo o doce convite para “sermos discípulos e missionários de Jesus Cristo para que todos tenham vida e vida plenamente”. Na véspera deste memorável encontro, no interior da majestosa Basílica, o Santo Padre rezara o terço com os ministros sagrados e o povo de Deus, na mais cândida homenagem a Maria que abençoa o povo brasileiro. A história ensina que Maria é a verdadeira salvaguarda da fé; em cada crise, a Igreja reúne-se à volta d’Ela. Só assim os discípulos do Senhor poderão ser para os outros sal da terra a luz do mundo (cf. Mt 5, 13.14). “Feliz do povo, cujo Senhor é Deus, cuja Rainha é a Mãe de Deus!” Assim proclamava o Papa Pio XII e assim poderá exclamar essa dileta arquidiocese de Aparecida, se devidamente souber voltar os olhos para Aquela que gerou, por obra do Espírito Santo, o Verbo feito carne. É que a missão essencial da Igreja consiste precisamente em fazer nascer Cristo no coração dos fiéis (cf. Lumen gentium, 65) pela ação do mesmo Espírito Santo, através da evangelização. Salvos das águas pela fé e pelo Batismo, os cristãos podem atingir algo daquilo que contemplam na Virgem Aparecida, a Imaculada, se seguirem o seu conselho: “Fazei tudo o que Ele vos disser!”. Esta parte fica como a nossa missão na festa da Virgem Maria Aparecida. Amém!

 

APARECIDA E SUA MENSAGEM
Deus se encantou com esta mulher e a fez sua Mãe
Pe. Rinaldo Roberto de Rezende, Cura da Catedral de São Dimas

Bem escreveu Dom Helder Câmara, saudoso arcebispo de Recife e Olinda: “Não nos basta tua sombra, ó Mãe, comove-nos tua imagem!” É assim que nos sentimos diante da pequenina imagem da Senhora Aparecida. Como aconteceu esta “aparição”? A história é muito comentada, mas podemos nos perder nos detalhes e, por isso, arrisco contá-la numa pequena síntese. Em 1717, iria passar pelo nosso Vale do Paraíba o Conde de Assumar, uma visita ilustre para os pobres moradores da região ribeirinha. Fazia parte da viagem passar pelo Porto de Itaguaçu, hoje cidade de Aparecida. Conta-se que iriam servir uma refeição para o Conde. O que tinham de melhor? Os peixes do Rio Paraíba. Mas o rio não estava para peixe. Com receio de não terem o que servir, pediram ajuda aos céus. Lançaram as redes, e nada. Até que pescaram o corpo de uma pequena imagem e, em seguida, veio para a rede a cabeça, da mesma imagem. Que imagem era essa? Uma imagem barroca, de terracota, da Imaculada Conceição. Acredita-se que esta imagem tenha sido lançada no Rio Paraíba na altura da cidade de Jacareí. Por sinal, bem junto à ponte que liga a Praça dos Três Poderes ao bairro São João, existe uma antiga capela dedicada a Nossa Senhora Aparecida. Mais um detalhe, a padroeira da Matriz de Jacareí é a Imaculada Conceição. A partir daí a pequenina imagem de cor morena, devido ao lodo do fundo do rio, passou a ter como casa a casa dos pescadores. Tempos depois improvisaram uma pequena capela. A fama da imagem foi crescendo. Qual imagem? Aquela “aparecida” nas águas do rio. Daí vem o nome, que se tornou nome de tantos e tantas: Aparecida. Alguém poderia se perguntar: qual a mensagem deixada? Como tantos outros já disseram, aqui registro o seguinte: a mensagem de Aparecida está ligada ao modo como apareceu e ao contexto histórico. A imagem da Imaculada Conceição traz Maria grávida de Jesus. É de uma mulher grávida. Maria vem para nos apresentar Jesus, para nos apresentar a Jesus. Isto é o que importa. A imagem está de mãos postas, como que rezando. A nós ela pede que façamos o que Jesus nos disser, a Ele ela intercede por nós: “Eles não têm mais vinho”, como no Evangelho de João, no capítulo segundo. A cabeça e o corpo precisam ser unidos, como a Igreja Corpo Místico de Cristo precisa estar unida a “Cristo Cabeça”. Sem Ele, cabeça deste corpo, nada somos e nada podemos. Ainda, a imagem vem para a barca dos pescadores. A barca é símbolo da Igreja nos Evangelhos. Maria entra na história do nosso povo, da Igreja no Brasil. A imagem brota das águas, como nós brotamos para a Igreja pelas águas purificadoras do Batismo. A imagem vem para os pequenos, para os pobres, e num período em que os negros viviam no regime da escravatura. Aí vem uma outra “coincidência”: só em 1888 a imagem recebe uma “casa digna”, que hoje chamamos de Basílica Velha. Parece-nos que ela esperou seus pobres filhos serem libertos para aceitar um presente melhor. A casa só veio quando seus filhos foram libertos. Ela é a Mãe Morena do povo brasileiro. Também quero sublinhar os presentes que o povo deu à imagenzinha: uma coroa, uma capa. Assim ela foi ornamentada. Deus se encantou com esta mulher e a fez sua Mãe. Ela, por sua vez, também nos encantou. Contemplando a pequenina imagem, vemos um esboço de sorriso em seus lábios. Ela é, sem dúvida alguma, o sorriso de Deus para a nossa gente, para todos nós!

 

BRASIL, NASCIDO NOS BRAÇOS DA SANTÍSSIMA VIRGEM

O Brasil é o maior país católico do mundo, como disse o Papa São João Paulo II, por ocasião do centenário da coroação de Nossa Senhora de Aparecida, em 2004. Foi o Papa São Pio X quem solenemente coroou a Virgem Maria como “Rainha do Brasil”, em 1904. Todavia, a história da devoção mariana neste país surge no início do século XVI, quando a frota do navegador português, Pedro Álvares Cabral (1467-1520), em abril de 1500, desembarca nas costas de uma terra ainda desconhecida, e que será chamada, inicialmente, Ilha de Vera Cruz e, em seguida, Terra de Santa Cruz, antes de receber o nome atual, Brasil (da palavra brasa em referência aos tons avermelhados dos troncos de uma espécie de árvore conhecida como pau-brasil).

“O Brasil nasceu nos braços de Maria”
E foi, na verdade, no início de 1500, após ter-se colocado sob a maternal proteção de Maria e ter assistido à Santa Missa numa capela dedicada a Nossa Senhora de Belém, que a frota portuguesa, comandada por Pedro Álvares Cabral partiu, visando a descobrir novas e longínquas terras, além do Atlântico. A Virgem Maria, sob o vocábulo de Nossa Senhora da Esperança, foi, também, a primeira a colocar os pés em terras brasileiras, graças a Pedro Álvares Cabral que, assim que chegou, fez rezar a primeira Missa neste novo solo, em presença da estátua da Virgem que viajara com ele. Eis o motivo pelo qual os brasileiros gostam de dizer que “o Brasil nasceu nos braços de Maria”. Em conseqüência disso, todos os portos e aldeias do novo país surgiam com uma pequena igreja, devotada, durante um bom  tempo, à Maria. Além disso, todo o litoral brasileiro é consagrado à Virgem! Em 1584 a Paraíba era chamada de Nossa Senhora dos Mares; ainda hoje, um sem-número de vestígios datando desta época pioneira, pode nos revelar a existência de outras igrejas dedicadas a Maria. O primeiro grande santuário Mariano de que se tem notícia no Brasil é o de Nossa Senhora das Graças, na Bahia, que lhe foi erigido, por volta de 1530, após a aparição da Mãe de Deus a uma jovem índia casada com um português.

“A Rainha bem-amada do povo brasileiro”
Assinalamos, igualmente, o santuário de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Itanhaém (perto de São Paulo), sem dúvida, o primeiro dedicado à Maria com este vocábulo, naquela região. Já no  Espírito Santo, o santuário é devotado à Nossa Senhora das Vitórias e, em Porto Seguro, à Nossa Senhora do Socorro. Na província do Pará se encontra o importante santuário de Nossa Senhora de Nazaré, sua importante Basílica e a imensa sala dos ex-votos, oferecidos para agradecer a Nossa Senhora tantos milagres e graças recebidos mediante a sua intervenção. Entretanto, o maior testemunho, no Brasil, da devoção a Maria, em sua Imaculada Conceição, certamente é o santuário construído em honra à Virgem Imaculada em Aparecida, sobre as margens do rio Paraíba, no estado de São Paulo. Foi neste local, diante da Virgem Aparecida que, em 1946, o Brasil renovou a consagração do povo brasileiro ao coração Imaculado de Maria. Vale assinalar, também, que, a partir de 1940, de forma particular, o Brasil sempre esteve na vanguarda do movimento Mariano em relação ao mundo inteiro. Neste país, as Congregações marianas não cessam de florescer; contamos, hoje, com aproximadamente três mil delas, que agrupam grande quantidade de jovens, (os “Marianos”)! Pois Maria é, verdadeiramente, “a Rainha bem-amada do povo brasileiro”.

Fonte: MDN

 

Um modelo de docilidade
Maria simples criatura escolhida como mestra do amor
Marina Adamo / [email protected]

A alegria e a emoção invadem o meu coração neste momento que escrevo sobre Maria, a mulher que se abandonou inteiramente nas mãos do Criador. A mestra do amor que gera o Mestre do amor, pois só quem ama e capaz de submeter-se ao amor e assumir todas as suas conseqüências. Maria, uma mulher que teve a coragem de renunciar ao seu lindo plano de amor, que era casar-se com Jose, por causa de um Bem Maior: ser a Mãe do Salvador. Muitas vezes em nossa vida, nos não conseguimos viver a vontade de Deus, porque temos dificuldades de fazer a troca de um Bem por um Bem Maior. Mas, quando amamos a Deus sobre todas as coisas, os nossos desejos e interesses são considerados mesquinhos e pequenos diante da grandeza, bondade, sabedoria e amor do Pai. Maria fez da sua felicidade a realização do projeto de Deus. Nós também somente conquistamos a felicidade autêntica imitando-a na realização de uma total entrega a Deus. E todo aquele que ama Jesus prefere a vontade e os desejos do Pai. Entre inúmeras virtudes de Maria, saliento a sua docilidade e obediência a Palavra de Deus, que capacitou Maria para gerar o próprio Deus. Os discípulos de Jesus são aqueles que acolhem a Palavra e permitem que as suas vidas sejam transformadas e conduzidas por ela. Jesus reconhece todas as pessoas que seguem o exemplo da sua mãe. “Felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11, 28). Se todos ouvissem a Deus como Maria, teríamos pessoas mais felizes e uma convivência humana bem mais fácil. Maria, simples criatura de Deus, foi escolhida como modelo de abertura total à ação do Criador. Ele olhou para a humildade da Sua serva; e ela, apesar de uma escolha de destaque, continuou sendo simples e humilde. Torna-se verdadeira discípula e assume a missão de apresentar o filho de Deus para o mundo. Para entendermos a missão de Maria é preciso nos abrirmos ao projeto de Deus, que visa o bem humano, a nossa união, a convivência fraterna de todos, tendo em vista a conquista ao Premio Celeste: o Céu. Toda a humanidade deveria reconhecer a escolha de Deus: Maria, a Mãe de Deus, como esta no evangelho de Lucas: “Todas as gerações me chamarão Bem-Aventurada” (Lc 1, 48). Ela deseja que todos os seus filhos brasileiros a acolham como a anfitriã do nosso País, a nossa mãe. O mundo atual tem levado as pessoas a serem egoístas e competitivas, mas nos brasileiros não podemos deixar que esta maneira de ser nos contagie, porque somos um povo que acolhe o estrangeiro e tem gestos de amor para com o outro. Neste dia da Virgem Aparecida, a Rainha e Padroeira do Brasil, vamos pedir ao Pai que Ele una os nossos corações, para que cada vez mais possamos nos render ao amor daquela que e a mestra do amor e que gerou o Mestre do Amor. O amor não divide, o amor se multiplica. Aprendamos com ela a amar a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a nos mesmos. Se você ainda não se relaciona com Maria como uma mãe, comece hoje a dar os primeiros passos, e deixe que ela entre em sua casa, em seu coração e seja a sua educadora e mestra, a sua amiga, conselheira, consoladora, auxilio e companheira rumo ao Céu!

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