Homilia da Semana

III Domingo do Advento (Gaudete) – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

A partir de hoje, terceiro domingo do Advento, até o próximo dia 16 de Dezembro, as leituras todas, direta ou indiretamente, mostram-nos a figura do precursor João Batista por um motivo simples: é que nós também, como ele, nos encontramos em um entremeio, entre duas vindas de Jesus. A primeira na carne, que ele anunciou antecipadamente, e a segunda, a vinda em glória, no final da história, para a qual nós todos tendemos, e nos encaminhamos. A João Batista, que veio para dar testemunho da luz sem ser a luz ele próprio, uma pergunta decisiva foi feita pelas autoridades religiosas: “és tu o Messias, és tu o Cristo?” E ele respondeu não por três vezes. Por ocasião de três perguntas distintas, sua resposta, sempre mais curta, foi um não absoluto e decisivo. Ao contrário de João Batista, que responde três vezes não: “não sou”, nós conhecemos a figura de Jesus que diz: “Eu Sou. Eu Sou O Bom Pastor, Eu Sou A Ressurreição e A Vida, Eu Sou A Porta das ovelhas”. Eu Sou é o nome revelado a Moisés, por Deus, na Sarça Ardente, como se escreve no Livro do Êxodo. Este nome é assumido por Jesus no Novo Testamento. Em antítese a João Batista que não é, Jesus afirma ser; Ele é Deus conosco, Ele é O Emanuel. Nós também, caríssimos irmãos, podemos perguntar-nos quem somos. Normalmente carregamos uma cédula de identidade que nos diz quem somos: nosso nome, nossa data de nascimento e os nomes de nossos pais. Mas nós podemos perguntar a nós mesmos quem somos. Normalmente, do ponto de vista religioso, três respostas são possíveis de serem dadas: A primeira: “eu sou um crente, eu sou um católico praticante, eu creio em Deus”. A segunda resposta: “eu não creio em Deus, eu sou ateu”. A terceira resposta: “eu sou um agnóstico, ou seja, eu não sei se Deus existe ou não”. E esta terceira pode ter duas subdivisões, ou seja, eu não sei, mas eu procuro saber, eu não sei, mas eu indago, eu não sei, mas busco, eu não sei, mas vivo de acordo com os ditames de minha consciência e procuro a verdade. Ou então, eu não sei e não me interessa saber, eu não sei, e não estou interessado em saber, se Deus existe ou não. Esta é a mais perigosa de todas as respostas que podem ser dadas, porque esta pessoa pode correr sério risco: “e se Deus existir, que fará ele, que a vida inteira fez pouco caso e sequer procurou, com afinco e seriedade, saber se existe ou não? João Batista sabia perfeitamente que ele era apenas uma palavra, ou melhor, uma voz portadora da Palavra. E Santo Agostinho faz uma bela reflexão sobre isto: “João era a voz; Jesus, A Palavra desde o início. A voz tem apenas a incumbência de transmitir A Palavra. Uma vez que A Palavra sai, através da voz, de meu interior, e atinge a inteligência do outro, a voz pode cessar, e o trabalho e a missão de João Batista estão cumpridas; e o nosso também. E A Palavra permanece no coração e na inteligência de todos nós. Esta Palavra é Cristo que, neste Advento e Natal, quer nascer em cada um de nós.

 

ABRAMOS A PORTA DO NOSSO CORAÇÃO À LUZ DO REDENTOR
Padre Bantu Mendonça

João Batista é o profeta do Advento e, à semelhança de Isaías, faz ressoar o anúncio de um tempo decisivo que se aproxima. A presença dele é destacada com características semelhantes ao profeta Elias, razão pela qual foi interrogado se era Elias. Depois de um longo silêncio profético em Israel, desponta o Batista anunciando por primeiro a irrupção do Reino de Deus e preparando uma nova aliança: “Eu sou aquele que grita assim no deserto: preparem o caminho para o Senhor passar”. Nesta sequência, João apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados. Acreditava-se que o Messias só se manifestaria quando Israel fosse, de fato, a comunidade santa de Deus. Para tornar-se o povo santo, Israel deveria percorrer o caminho da conversão. João faz ecoar o apelo à conversão, à mudança radical de vida, comportamento e mentalidade. Quem se dispunha a acolher o Messias era convidado para iniciar-se na comunidade messiânica, na vida nova, própria dos que aguardavam a chegada do Messias. A pregação de João Batista, como um último apelo de Deus ao Seu povo, encontrou ampla adesão: “Iam ter com ele toda Judeia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados”. A preparação para a vinda do Messias passa pela mudança radical que se concretiza numa nova atitude de vida e na opção de uma nova escala de valores. Esse grande santo ressalta a força do Messias e define Sua missão como batizar no Espírito: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, diante do qual não sou digno de me prostrar”. O Messias terá a força de Deus e Sua missão será comunicar o Espírito do próprio Deus, que transforma, renova e recria os corações. O batismo com o Espírito (cf. Mc 1,8) revela que o Messias concederá a capacidade de discernimento no que diz respeito às exigências dos caminhos que conduzem a Deus. Alegremente hoje contemplamos a figura de João Batista. É o domingo da alegria: “Alegrai-vos sempre no Senhor. O Senhor está perto!” Este homem, como dissemos, dá o maior testemunho sobre Jesus diante dos emissários das autoridades judaicas. Os israelitas viviam dias difíceis sob o jugo dos romanos, explorados pela classe de dirigentes e escravizados pelo sistema religioso, que era ritual e legalista. Para a felicidade dos israelitas e a inquietude das autoridades, do deserto “apareceu um homem enviado por Deus, que se chamava João”. Na pessoa de João, Deus intervém em favor do povo. O ambiente messiânico vivido pelo povo inquietava a hierarquia religiosa. Uma comissão de sacerdotes e levitas desloca-se de Jerusalém para investigar a ortodoxia de João Batista. Interrogado, o homem enviado por Deus descarta a hipótese de ser o Messias: “Eu não sou o Messias”. Também nega ser Elias ou um profeta. O Batista não se deixa seduzir pelas falsas opiniões que circulavam sobre ele e que deixavam preocupadas as autoridades. Na realidade, ele rejeita tudo o que o coloque no centro das atenções. Sua missão é ser testemunha da luz, para a qual deviam se voltar os olhares. Não satisfeitos, diante das negativas de João, os representantes das autoridades religiosas perguntam: “Quem você é?” Ao que o precursor responde: “Sou uma voz gritando no deserto”. Novamente, ele se esquiva de ocupar o centro das atenções. “Sou uma voz”. Uma voz que pede aos ouvintes que acolham esta mensagem: “Aplainem os caminhos do Senhor”. Desconcertados e inquietos, os membros da comissão tornaram a perguntar: “Por que você batiza?” João evitou responder à objeção dos enviados dos fariseus. Mais que isso, minimizou seu rito batismal e ressaltou que ele não se considerava digno nem mesmo de desatar as correias das sandálias d’Aquele que estava por vir. Apesar de desconhecido, este será a luz que iluminará e libertará o povo da cegueira, da escravidão, da mentira e instaurará um novo tempo. João tinha consciência de que o batismo com água era apenas sinal de conversão e acolhida diante d’Aquele que já estava no meio do povo. Infelizmente, a Boa Nova trazida por Cristo e os novos céus e a nova terra podem passar despercebidos aos olhos dos acomodados e instalados numa vida de privilégios à custa do sofrimento do povo. Mas ontem como hoje, a missão de João Batista é minha e sua. Somos nós que devemos abrir as portas de par em par ao Redentor, Luz das nações e glória de Israel, Seu povo, para que todos possam ver a manifestação da glória de Deus.

 

3º DOMINGO DO ADVENTO – B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)

“Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: Alegrai-vos! O Senhor está perto!” (Fl 4,4-5).  
Irmãos e Irmãs, Deus vem para a alegria dos pobres. Estamos na metade do tempo do Advento, este bonito tempo de espera, de vigilância e de mudança de vida em que a Santa Igreja Católica nos convida a abrir os nossos corações para a vinda iminente do Filho de Deus. O Senhor está no meio de nós, por isso a Liturgia de hoje exulta: “Alegrai-vos, o Senhor está próximo”. Refletimos hodiernamente sobre a figura do precursor, ou seja, de São João Batista. Hoje, a Liturgia nos faz sair da reflexão da penitência e da conversão e exulta em nossos corações a alegria do testemunho. Antigamente, o domingo de hoje era denominado Domingo Gaudete, por causa da antífona de entrada que começa com esse imperativo “Alegrai-vos”. O celebrante reveste-se de vestes róseas, anunciando a alegria e a luz que deve permear toda a nossa vida cristã. A alegria desta Liturgia nos anima a recordar a alegria do povo de Israel que, retornando do exílio no Egito, anseiam por dias melhores, ou seja, esperam pela Boa Nova do Senhor que vem. Caros irmãos, A primeira leitura da celebração(cf. Is 61,1-2a.10-11) nos apresenta palavras animadoras, de uma dessas pessoas que surgiram na vida do povo de Deus. Ela preferiu ficar no anonimato e sua mensagem acabou sendo incorporada ao livro do profeta Isaías. Num momento de desolação, um profeta anônimo vem cantando e falando de coisas novas que Deus fará: onde reinava a tristeza, brilhará a alegria; onde campeava a desolação, virá a paz do Senhor; onde grassava o desânimo, vem o ânimo do próprio Senhor, anunciando a virtude básica da vida cristã: que DEUS PLANTARÁ JUSTIÇA ENTRE OS HOMENS E MULHERES DE BOA VONTADE. Assim, vale a pena recordar Isaías: “Exulto de alegria no Senhor e minh’alma regozija-se em meu Deus; ele me vestiu com as vestes da salvação, envolveu-me com o manto da justiça e adornou-me como um noivo com sua coroa ou uma noiva com suas jóias”. Amados Irmãos, Problemas todos nós temos. A alegria anunciada é aquela que foi proclamada pelo precursor João Batista, que veio aplainar os caminhos do Senhor: “Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis, e que vem depois de mim. Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias”. A primeira frase do Evangelho(cf. Jo 1,6-8.19-28) resume a pessoa e a missão de João Batista: é um homem, diferentemente de Jesus que, desde o início, é chamado de Filho de Deus. É um enviado de Deus, isto é, um profeta, que falará em nome de Deus aos homens. Jesus também se dirá enviado (Jo 3,34), mas falará com autoridade própria e se identificará com o Pai (Jo 10,30). Chama-se João, que quer dizer “Deus usa de misericórdia”. A missão de João é proclamar que a misericórdia divina se encarnou na pessoa de Jesus de Nazaré, que veio “tirar o pecado do mundo” (Jo 1,29). João Batista veio dar uma sacudida no povo de Deus, por isso ele é profeta que anuncia a palavra de Deus e dá a sua vida por este projeto de salvação. João se preocupou com o testemunho do Senhor que virá, abrindo como precursor os seus caminhos. João certamente deu testemunho de uma verdade: “Que Ele cresça e eu diminua”. Aí está, pois, a novidade de ser cristão e de ser católico: que o clero e as lideranças do povo reconheçam a sua miséria e deixem que Cristo encaminhe e guie as comunidades para a vivência da alegria e do gozo do Senhor que vem. João Batista nos deixou um testemunho brilhante de humildade e também de fé absoluta em Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele não se intitulou Messias, mas sim precursor, o que abre os caminhos. João Batista não disse uma palavra a seu respeito, mas somente a respeito do que Vem. O seu papel era apontar o caminho da salvação, proclamando a grandeza daquele que estava por vir, ao mesmo tempo em que se punha no seu lugar, sabendo que sua missão era só de abrir as veredas. João Batista aponta as luzes para o mundo, mas parece que o mundo não quer conhecer a luz que é Jesus, como ele próprio lamentou depois: “A luz veio a este mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que luz” (Jo 3, 19). Caros irmãos, A Segunda Leitura(cf. 1Ts 5,16-24) nos apresenta a alegria e a ação de graças sempre. São Paulo envia uma exortação aos Tessalonisses para que a alegria e a contínua ação de graças sejam a nota determinante desta comunidade eclesial, pois é para ver-nos assim felizes que Deus nos fez participar do Evento de Jesus Cristo. Daí, as orientações práticas para a querida comunidade eclesial: não apagar os dons do Espírito Santo, avaliar tudo e guardar o que serve, eliminar todo o mal. Termina a carta com um voto ou ósculo da paz, o que significa a perfeição escatológica, pois Deus é fiel. Irmãos, Alegrai-vos! Alegrai-vos sempre no Senhor, incessantemente. Todos nós somos convidados a examinar nosso relacionamento com Deus, afastando-nos do espírito do mal e nos aproximando do espírito de Deus, o espírito do bem e da paz, conservando a santidade de vida e de estado, A razão desta alegria está enfeixada na segunda leitura: o que Deus quis, afinal, com Jesus Cristo e sua obra é que sempre possamos estar alegres e agradecidos a Ele. Ser felizes e animados pelo projeto do Evangelho é a nossa missão. Na Igreja, muitos são os carismas, mas todos convergem para Jesus Cristo. O importante de hoje não é somente a conversão, mas é iluminar a sociedade com a fé que vem de JESUS CRISTO LUZ DO MUNDO, DANDO TESTEMUNHO DESTE JESUS, ÚNICO CAMINHO DE SALVAÇÃO, DESEJOSO DE VER AQUELE QUE ESTÁ NO MEIO DE NÓS, COMO SALVADOR E VIVIFICADOR. Que a Festa do Natal que se aproxima nos faça cada vez mais abertos, especialmente ao apelo de nossos Bispos que hoje pedem a nossa generosa participação na campanha da evangelização. Ajudando, desta forma, as necessidades da Igreja no Brasil, estaremos fazendo com que o Natal se realize cada vez mais digno nas Igrejas irmãs, pobres e necessitadas, carregando as sementes da Esperança que se renovam a cada NATAL DO DIVINO INFANTE.

 

Este domingo é conhecido pelo nome de “Gaudete”, palavra latina que inicia a antífona de entrada deste dia: Alegrai-vos. Muitas vezes, estas antífonas dão o mote à celebração comunitária: hoje, é um convite à alegria que nos aparece também na primeira leitura. Hoje, inicia-se a segunda fase deste percurso pedagógico do Advento: o mistério da encarnação aparece mais explícito. Isaías e o evangelho, através do simbolismo usado, ajudam-nos a descobrir o Messias desejado. Para esta descoberta, é-nos pedida a paciência na segunda leitura. No domingo passado, refletimos no estilo de vida, na linguagem e no tema central da pregação de João Baptista. A sua pregação parecia ser ameaçadora, porque dizia para os fariseus e saduceus que não se podia escapar à justiça que estava iminente: “O machado já está posto à raiz das árvores”. A sua pregação tinha como finalidade preparar a humanidade para a justiça de Deus que seria posta em prática por Jesus Cristo. João Baptista foi preso por causa das suas convicções. Enviou a Jesus os seus discípulos com a pergunta: “És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?”. Jesus responde, convidando a observar o que está a acontecer: aqueles que são desprezados pela sociedade são atendidos, ou seja, recuperam a vista, a saúde, a audição, ressuscitam e recuperam a sua dignidade. Esta é a Justiça do Reino. É esta a justiça que os cristãos terão de praticar. Porém, não podemos esquecer que os milagres são sinais de uma realidade espiritual. É preciso, então, contemplar a ação libertadora do Messias numa dupla dimensão: a espiritual e a material. Esta é a nova forma de expressão da presença de Deus no meio dos homens e das mulheres. A missão de João foi preparar a vinda da justiça de Deus. Jesus afirma que João Baptista é o maior dos profetas, mas viver segundo os critérios do Reino é muito mais importante: “Mas o menor do Reino dos Céus é maior do que ele”. Esta é a missão para todos os que desejam viver no Reino: viver a justiça da misericórdia. Para esta missão, é muito importante a paciência. Como é necessário falar dela, quando à nossa volta há tanta falta desta virtude. Na segunda leitura, São Tiago, para nos falar da paciência, apresenta-nos o exemplo do lavrador que “espera pacientemente o precioso fruto da terra, aguardando a chuva temporã e tardia” e ano após ano conforma-se com a colheita, dependendo sempre do clima estável ou instável. A vida espiritual é muito parecida com esta imagem, especialmente no ambiente de comunidade paroquial. A falta de paciência e o desinteresse pelo o outro dificultam viver a esperança. Passa-se de um desejo para a ansiedade (querer o imediato das coisas). A paciência pelo encontro com Deus deve ser serena, tranquila, mesmo com momentos de sofrimento e de insegurança, mas nunca pode ser uma paciência passiva, porque supõe luta, trabalho, firmeza, sem perder a serenidade. As primeiras palavras da leitura de Isaías introduzem os aspectos importantes que o profeta quer salientar: “Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida”. Estas palavras convidam-nos a encarar a realidade de outra maneira. O deserto, o lugar onde reina o mal, pode florescer. O combate contra o mal faz surgir uma nova realidade, aquela com a qual Jesus se identificava quando os discípulos de João lhe perguntavam pela sua identidade. Então, será com esta realidade que todos nos devemos identificar. Teriam que ser os nossos sinais de identidade, concretizados por Deus. A travessia do deserto é um trabalho pessoal, mas também é comunitário, ou seja, de toda a comunidade que caminha. E é muito importante ter a capacidade de, enquanto caminhamos, olhar o bem que surge e que floresce. Nem tudo é um jardim, mas pouco a pouco tudo se pode ir transformando. A alegria surge graças à fé. Não é algo banal, é um desejo de esperar o Amor, porque é com amor que Deus salva. Temos de aprender a maneira de amar de Deus e só assim viveremos com alegria. Há que fazer um exercício pessoal… que rosto temos? Não se trata de olhar os outros, mas de nos olharmos interiormente e ver se a alegria do amor de Deus habita em nós. A alegria existe, quando nos sentimos amados por Deus: “Aí está o vosso Deus”, vem para fazer justiça e dar a recompensa. Ele próprio vem salvar-nos.

 

3º DOMINGO DO ADVENTO
Jo 1,6-8.19-28: “Eu sou a voz que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor”

6Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. 7Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. 8Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz. 19Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar-lhe: Quem és tu? 20Ele fez esta declaração que confirmou sem hesitar: Eu não sou o Cristo. 21Pois, então, quem és?, perguntaram-lhe eles. És tu Elias? Disse ele: Não o sou. És tu o profeta? Ele respondeu: Não. 22Perguntaram-lhe de novo: Dize-nos, afinal, quem és, para que possamos dar uma resposta aos que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo? 23Ele respondeu: Eu sou a voz que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como o disse o profeta Isaías (40,3). 24Alguns dos emissários eram fariseus. 25Continuaram a perguntar-lhe: Como, pois, batizas, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? 26João respondeu: Eu batizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. 27Esse é quem vem depois de mim; e eu não sou digno de lhe desatar a correia do calçado. 28Este diálogo se passou em Betânia[1], além do Jordão, onde João estava batizando.

Todo o Antigo Testamento é uma preparação para a vinda de Cristo. Assim os Patriarcas e os Profetas anunciaram de diversas maneiras a salvação que viria pelo Messias. Mas, João Batista, o maior dos nascidos de mulher (cf. Mt 11,11)[2], pôde indicar com o dedo o próprio Messias (cf. Jo 1,29)[3], sendo o testemunho do Batista o fechamento de todas as profecias anteriores. A missão de João Batista como testemunha de Jesus Cristo é tão importante que os Evangelhos Sinóticos começam a narração do ministério público de Jesus por esse testemunho. Os discursos de São Pedro e de São Paulo, recolhidos nos Atos dos Apóstolos, também aludem ao testemunho de João (At 1,22[4]; 10,37[5]). O quarto Evangelho menciona-o sete vezes (1,6[6].15[7].19[8].29[9].35[10]; 3,27[11]; 5,33[12]). Sabemos, além disso, que o apóstolo/evangelista São João tinha sido discípulo do Batista antes de ser discípulo do Senhor, e que precisamente o Batista foi quem o encaminhou para Cristo (Cf. 1,37ss[13]). O novo Testamento nos ensina a transcendência da missão do Batista, mas, ao mesmo tempo nos mostra que o Batista é o Precursor imediato do Messias, ao qual não é digno de desatar as correias das Suas sandálias (cf. Mc 1,7)[14]; por isso o Batista insiste no seu papel de testemunha de Cristo e na sua missão de preparar o caminho do Senhor (cf. Lc 1,15-17[15]). O testemunho de João Batista permanece através dos tempos, e chega até o hoje da história, convidando cada um de nós, a abraçar a fé em Jesus, a Luz verdadeira. Algo que podemos destacar, neste terceiro domingo do Advento, será o testemunho do Batista. Assim se sublinha a missão que Deus lhe confiou de testemunhar, com a sua vida e com a sua palavra, que Jesus Cristo é o Messias e Filho de Deus. O precursor exorta à penitência vivendo ele próprio esse espírito de austeridade que pregava; indica Jesus como Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, e proclama-O com coragem diante dos judeus. A figura grave do Batista é modelo de fortaleza com que devemos confessar Cristo: “Com efeito, todos os fiéis cristãos, onde quer que vivam, têm obrigação de manifestar, pelo exemplo de vida e pelo testemunho da palavra, o homem novo de que se revestiram pelo Batismo” (Ad Gentes, 11). Num ambiente de intensa expectativa messiânica, o Batista aparece como uma figura rodeada de um prestígio extraordinário; prova disso é que as autoridades judaicas enviam personagens qualificadas (sacerdotes e levitas de Jerusalém) a perguntar-lhe se é o Messias. Chama a atenção à grande humildade de João: adianta-se aos seus interlocutores afirmando: “Não sou o Cristo”. Considera-se tão pequeno diante do Senhor que dirá: “Não sou digno de desatar a correia das Suas sandálias” (v.27). Toda a fama de que desfrutava põe-na ao serviço da sua missão de Precursor do Messias e, com esquecimento total de si mesmo, afirma que “é necessário que Ele cresça e que eu diminua” (Jo 3,30). “Batizar”: Significava originariamente submergir na água, banhar. O rito da imersão exprimia entre os Judeus a purificação legal daqueles que tivessem contraído alguma impureza prevista pela Lei. Existia também o batismo dos prosélitos, que era um dos ritos de incorporação dos gentios ao povo judeu. Nos manuscritos do Mar Morto fala-se de um batismo como rito de iniciação e purificação dos adeptos à seita judaica de Qumran, que existia em tempos de Nosso Senhor. O batismo de João tinha um marcado caráter de conversão interior. As palavras de exortação que pronunciava o Batista e o reconhecimento humilde dos pecados por parte dos que acorriam a ele dispunham para receber a graça de Cristo. O batismo de João constituía, pois, um rito de penitência muito apto para preparar o povo para a vinda do Messias, cumprindo-se com isso as profecias que falavam precisamente de uma purificação pela água perante o advento do Reino de Deus nos tempos messiânicos (Cf. Zc 13,1[16]; Ez 36,25[17];37,23[18]; Jr 4,14[19]). O batismo de João, todavia, não tinha poder de limpar a alma dos pecados, como faz o Batismo cristão (cf. Mt 3,11[20]; Mc 1,4[21]). “Quem vós não conhecei”: Com efeito, Jesus ainda não Se tinha manifestado publicamente como o Messias e Filho de Deus; ainda que alguns O conhecessem enquanto homem, São João Batista pode afirmar que realmente não O conheciam. O Batista declara a primazia de Cristo sobre ele por meio da comparação do escravo que desata a correia das sandálias do seu senhor. Para nos aproximarmos de Cristo, que João anuncia, é preciso imitar o Batista. Como diz Santo Agostinho: “Entenderá estas palavras quem imite a humildade do Precursor… O mérito maior de João é, meus irmãos, este ato de humildade”.

Fonte: Bíblia Sagrada, Santos Evangelhos, Edições Thologica, Braga-Pt, 1994
[1] Refere-se à cidade de Betânia que estava situada na margem oriental do Jordão, em frente de Jericó, diferente da Betânia onde vivia a família de Lázaro, próximo de Jerusalém (cf. Jo 11,18).
[2] Mt 11,11: Em verdade vos digo: entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos céus é maior do que ele.
[3] Jo 1,29: No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
[4] At 1,22: A começar do batismo de João até o dia em que do nosso meio foi arrebatado, um deles se torne conosco testemunha de sua Ressurreição.
[5] At 10,37: Vós sabeis como tudo isso aconteceu na Judéia, depois de ter começado na Galiléia, após o batismo que João pregou.
[6] Jo 1,6: Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João.
[7] Jo 1,15: João dá testemunho dele, e exclama: Eis aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim.
[8] Jo 1,19: Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar-lhe: Quem és tu?
[9] Jo 1,29: No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. [10] Jo 1,35: No dia seguinte, estava lá João outra vez com dois dos seus discípulos.
[11] Jo 3,27: João replicou: Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do céu.
[12] Jo 5,33: Vós enviastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade.
[13] Jo 1,37ss: 37Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. 38Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras? 39Vinde e vede, respondeu-lhes ele. Foram aonde ele morava e ficaram com ele aquele dia. Era cerca da hora décima. 40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido João e que o tinham seguido.
[14] Mc 1,7: Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado.
[15] Lc 1,15-17: 15porque será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem cerveja, e desde o ventre de sua mãe será cheio do Espírito Santo; 16ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus, 17e irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto.
[16] Zc 13,1: Naquele dia jorrará uma fonte para a casa de Deus e para os habitantes de Jerusalém, que apagará os seus pecados e suas impurezas.
[17] Ez 36,25: Derramarei sobre vós águas puras, que vos purificarão de todas as vossas imundícies e de todas as vossas abominações. [18] Ez 37,23: Não mais se mancharão com seus ídolos nem cometerão infames abominações: libertá-los-ei de todas as transgressões de que se tornaram culpados e purificá-los-ei. Eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus.
[19] Jr 4,14: Jerusalém, limpa o coração da maldade, a fim de que consigas a salvação. Até quando abrigarás no coração pensamentos que te são funestos?
[20] Mt 3,11: Eu vos batizo com água, em sinal de penitência, mas aquele que virá depois de mim é mais poderoso do que eu e nem sou digno de carregar seus calçados. Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo.
[21] Mc 1,4: João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados.

São José Moscati – 16 de Dezembro

MOSCATI – O DOUTOR QUE VIROU SANTO – O AMOR QUE CURA
(Giuseppe Moscati – Doctor to the Poor) 
Itália
2009
Gênero: Drama
Duração: 200 Min.
Produtora: Casablanca Filmes
Direção: Giacomo Campiotti
Elenco: Beppe Fiorelo, Etorre Bassi, Kasia Smutniak

Sinopse: Giuseppe Moscati, um médico ainda muito admirado na Itália pelo trabalho que fez com os pobres no final do século XIX e inicio do século XX, é um dos poucos leigos a ser canonizado pela Igreja Católica, tornando-se assim um santo. Veremos aqui sua trajetória e sua ajuda no tratamento de pessoas necessitadas em plena epidemia da Cólera, das que sofreram da erupção do vulcão Vesúvio e na condução das investigações que levaram a descoberta da insulina como cura para a diabetes.

 

SÃO JOSÉ MOSCATI
Médico e Santo de Nápoles
Antonio Tripodoro s.j. – Egidio Ridolfo s.j.
[Tradução por Alberto Penna Rodrigues – Fabio Boldo]
http://www.gesuiti.it/moscati/Brasil.html

Quem é São José Moscati?
Paulo VI, o Papa que o beatificou: “Quem é este que se nos propõe para que todos o imitemos e veneremos? É um leigo que fez de sua vida uma missão vivida em plena autenticidade evangélica… É um professor universitário que deixou entre seus alunos uma marca de profunda admiração… É um homem de ciência célebre pela sua contribuição científica a nível internacional… Sua existência é simplesmente tudo isto…”
João Paulo II, o Papa que o canonizou: “O homem que a partir de hoje nós invocaremos como um Santo da Igreja universal representa para nós a realização concreta do leigo cristão. José Moscati, Médico diretor de clínica, pesquisador famoso no domínio científico, professor universitário de fisiologia humana e de química fisiológica, tomou suas múltiplas atividades com todo o engajamento que necessita a delicada profissão de leigo. Sob este ponto de vista Moscati é um exemplo não somente a ser admirado, mas a ser seguido, sobretudo pelos representantes sanitários. Ele representa um exemplo até para os que não partilham de sua fé”.

Os Pais
A família Moscati provém de Santa Lucia de Serino, pequena região na província de Avellino.
Em S. Lucia de Serino, em 1836, nasceu Francisco, o pai do futuro Santo, que se diplomou em jurisprudência e percorreu brilhantemente a carreira da magistratura.
Foi juiz do Tribunal de Cassino, Presidente do Tribunal de Benevento, Conselheiro da Corte de Apelo, primeiro em Ancona e depois em Nápoles, onde faleceu em 21 de Dezembro de 1897.
Em Cassino Francisco Moscati conheceu e esposou Rosa de Luca. Do matrimônio nasceram nove filhos: José foi o sétimo.
Assim viveu o pai do Santo, todo ano conduzia a esposa e os filhos a terra natal, para um período de repouso e para estar em contato com a natureza. Se dirigiam juntos à igreja das Clarissas, para participar da Missa, que freqüentemente o próprio Francisco servia.
Em duas cartas S. José Moscati faz referência a terra natal. A primeira é de 20 de Julho de 1923, escrita durante sua viagem à França e Inglaterra:
“Às 14.20 horas partimos para Modane, para a França. […] Atravessamos os vales fechados de montes recobertos de castanheiras (Borgonha). Aqui e lá o nastro prateado dos rios: como é simples esta paisagem como aquela inesquecível de Serino, o único lugar ao mundo, a Irpinia, onde com prazer passarei os meus dias, porque encerra as mais importantes, as mais doces memórias da minha infância, e os restos mortais dos meus queridos!”
A segunda carta foi escrita em 19 de Janeiro de 1924, depois de ter presenciado a morte de um tio seu:
“O fim de tio Carmelo é o abalo de tantas recordações queridas ligadas à sua pessoa. Oh, as doces memórias da infância, dos montes de Serino! Assim como as pessoas da terra de meu pai me estão plantadas no coração indelével; e a desilusão de mais: Precipita a parte romântica da minha personalidade. E mais me sinto só, só e próximo a Deus!”

Benevento, cidade natal do Santo
José Moscati nasceu em Benevento em 25 de Julho de 1880, festa litúrgica de S. Tiago Maior Apóstolo. A família mudou-se para lá de Cassino em 1877, quando Francisco Moscati foi promovido Presidente do Tribunal, tomando moradia na Rua S. Diodato, nos arredores do hospital dos irmãos de caridade.
Poucos meses depois foram morar em um apartamento da Rua Porta Áurea, próximo ao Arco de Trajano, construído em honra do Imperador em 114 d.C. No palácio Andreotti, comprado depois da família Leo, nasceu José, no último quarto à esquerda. Se tem acesso ao apartamento através de um amplo portal que vai a um pátio ao qual parte uma grande escada de pedra. Uma lápide ao lado do portão de entrada recorda o acontecimento.
Na Catedral de Benevento, na capela do SS. Sacramento, se pode admirar a estátua de mármore de S. José Moscati, obra de P. Mazzei de Pietrasanta.

Benevento ao nascimento de Moscati
Em 3 de Setembro de 1860, após cerca de oito séculos de governo pontifício, Benevento era anexada ao Reino da Itália.
O último Delegado Apostólico, Mons. Eduardo Agnelli, ao deixar a cidade havia recebido honra das armas dos soldados do novo regime. A cidade mudava de vida e entrava na ordem territorial da nação italiana.
“Segundo o esquema político piemontês foram desapropriados os conventos, expulsos os religiosos, violados os arquivos, deturpadas ou destruídas as linhas arquitetônicas dos antigos edifícios. Alguns esperavam coisas novas e interessantes. Outros temiam… O clan maçônico, importado da zona limítrofe, então também teve seu tempo favorável.
Á chegada da família Moscati, […] em Benevento os ardores eram em boa parte ás escondidas” (Lauro Maio, S.Giuseppe Moscati e Benevento sua città natale, Benevento 1987, p.13).

Formação humana e cristã
José Moscati nasceu em Benevento no dia 25 de Julho de 1880. Filho de Francisco, Presidente do Tribunal de Benevento e de Rosa de Luca, dos Marqueses de Roseto. José era o sétimo de nove filhos.
Ele foi batizado em casa seis dias após o nascimento, no dia 31 de Julho de 1880, festa de santo Inácio de Loiola, por Dom Inocente Maio.
Em 1881, seu pai foi promovido conselheiro na Corte de Apelação e se transfere para Ancona com sua família. Em 1884, ele se muda para Nápoles como Presidente da Corte de Apelação.
O pequeno José fez seu primeiro encontro com Jesus Eucarístico, no dia 8 de Dezembro de 1888, na igreja das Servas do Sagrado-Coração (Ancelle del Sacro Cuore) de Nápoles, durante uma cerimônia celebrada por Monsenhor Henrique Marano. Não possuímos outras informações sobre este acontecimento, mas podemos dizer que foi neste dia que foram lançadas as bases de sua vida eucarística, que será um dos segredos da santidade do professor Moscati.
Após os estudos primários, José Moscati entra no Liceu Clássico, instituto Vittorio-Emanuele, no qual ele prestará o vestibular em 1897.
Dois meses após ter iniciado seus estudos de Medicina, o jovem Moscati é atingido por um grande luto, que o marcará profundamente: seu pai Francisco, em seguida a uma hemorragia cerebral, morrerá dois dias mais tarde, no dia 21 de Dezembro de 1897, após ter recebido os últimos sacramentos.
No ambiente universitário, Moscati se distinguirá pelo seu cuidado e empenho e no dia 4 de Agosto de 1903, obterá seu Doutorado de Medicina, com uma tese sobre a urogenese hepática, e obterá louvores.

Universidade e Hospital
Após a obtenção do Doutorado em Medicina, a universidade e o hospital se tornarão o campo de atividade do jovem médico. Logo ele passará um concurso de Colaborador Extraordinário no Hospital dos Incuráveis (1903) e um outro de Assistente no Instituto de Química Psicológica (1908), onde ele logo ganhará muitas marcas de admiração e de prestígio no domínio científico.
Um novo luto, no dia 13 de Junho de 1904, atinge Moscati, seu irmão Alberto morre, o qual sofria de epilepsia após uma queda de cavalo durante uma parada militar em 1892.
José tinha o hábito de passar várias horas junto a ele para tratá-lo. É à cabeceira de seu irmão que ele decidirá seguir os estudos de medicina, caso único em sua família e objeto de discussões.
Em 1906, erupção do Vesúvio, Moscati se distinguirá pelos seus trabalhos de socorro. Na Torre del Greco (perto de Nápoles), ele providenciará a evacuação do hospital de onde ele próprio ajudará os doentes a sair antes do desabamento do teto.
Dois dias mais tarde ele mandará uma carta ao diretor geral dos Hospitais Reunidos de Nápoles, propondo gratificar as pessoas que o ajudaram, mas insistirá muito para que não citem o seu nome.
Em 1911, com 31 anos, o doutor Moscati é aprovado no concurso de Colaborador ordinário dos Hospitais Reunidos. Era um concurso muito importante que não era realizado desde 1880 e do qual participam médicos vindos de todas as partes.
No mesmo ano, pela iniciativa de Antônio Cardarelli, a Academia Real de Medicina Cirúrgica o nomeará Membro participante e o Ministério de Educação Pública lhe atribuirá o Doutorado em Química Fisiológica.
«Lembrem-se que, ao optar pela medicina, vocês tomaram a responsabilidade de uma missão sublime. Com Deus no coração, perseverem, praticando os ensinamentos de seus pais, o amor e a compaixão pelos que sofrem e com uma fé e um entusiasmo surdos aos elogios e às críticas» (carta enviada ao doutor Giuseppe Biondi; 1 de Setembro de 1921).
No final do ano de 1914, Rosa, a mãe do professor Moscati, atingida pela diabete, vê a sua doença, ainda incurável por então, se agravar. Moscati foi um dos primeiros médicos em Nápoles, a experimentar a insulina. Sua mãe morre no dia 25 de Novembro de 1914.
Antes de expirar, após ter recebido com muita devoção os últimos sacramentos, ela dirá aos seus filhos que se ajuntam em torno a ela: “Meus filhos, morro contente. Fujam do pecado que é o maior mal da vida”.
No dia 24 de Maio de 1915, a Itália entra no conflito mundial; o professor Moscati apresenta o pedido de alistamento voluntário, entretanto ele não será aceito. As autoridades militares confiarão os feridos aos seus cuidados. Ele visitará e cuidará de aproximadamente 3.000 militares, pelos quais ele redigirá um diário e suas histórias clínicas. Moscati foi para eles não somente o médico, mas também o consolador atencioso e afetuoso.
Nos anos que se seguirão, o professor Moscati renunciará à cadeira de Química Fisiológica da Universidade Frederico II de Nápoles. Será seu amigo e compadre, o professor Quagliarello, designado pelo próprio Moscati como alternativa, a se beneficiar disto.
Mais tarde, o professor Quagliarello se tornará Reitor desta universidade. É ele que, com grande humildade, nos fornecerá estas informações e declarará muito justamente: “Quantos gestos de generosidade deste gênero ele não fez? Só o Bom Deus o sabe, pois muito freqüentemente, os próprios beneficiários não estavam ao par”.

Escolha definitiva pelo trabalho hospitalar
Após esta decisão, tomada conscientemente, o professor Moscati se orienta definitivamente em direção do trabalho hospitalar, onde ele empregará todo seu tempo, sua experiência e seus recursos. As doenças e misérias físicas e espirituais estarão sempre no primeiro lugar de suas preocupações, pois os doentes – ele dirá – «são a imagem de Jesus Cristo, almas imortais, divinas, que temos o dever urgente de amar como a nós mesmos, segundo o Evangelho».
São estas as convicções que Moscati manifesta nos seus escritos, principalmente quando ele se dirige aos seus colegas, lembrando-lhes que «a dor não deve ser tratada como uma vacilação ou uma contração muscular, mas como o grito de uma alma ao qual um outro irmão, o médico, acorre com ardor e caridade»
O renome de Moscati como professor e médico aumentava com a sua fama. Todos falavam de suas aulas, de suas qualidades de discernimento, de seu trabalho com os doentes. O conselho de administração o nomeará Diretor da Sala III dos Homens. Era em 1919.

Médico Diretor do Instituto de Anatomia Patológica
Além de seu intenso trabalho entre a Universidade e o Hospital o professor Moscati assegurava também a direção do Instituto de Anatomia Patológica, anteriormente dirigido por Luciano Armanni, mas em seguida descuidado por falta de atenção.
«Mas a vida não acaba com a morte, ela continua num mundo melhor. Foi a todos prometido, após a redenção do mundo, que chegará o dia que nos reunirá aos nossos seres queridos já falecidos, e que nos levará ao Amor supremo» (carta a Mr Mariconda, de 27 de Fevereiro de 1919).
De acordo com o professor Quagliarello ele se tornará logo “um mestre em autópsias”. O professor Rafael Rossiello, que estudou a fundo e com competência a anatomia patológica de São José Moscati, afirma que após sua morte, nem as revista sanitárias, nem os que se lembravam dele em seus discursos, nem as numerosas biografias revelaram “sua atividade de mestre do setor e diretor do Instituto de Anatomia e Histologia Patológica “Luciano Armanni”.
Por outro lado a descoberta – pelo doutor Renato Guerrieri – médico diretor do hospital dos incuráveis, de um registro de autópsias efetuadas por Moscati no período – indo de 25 de Dezembro de 1925 a 9 de Fevereiro de 1927 – nos mostra de novo o aspecto quase desconhecido da personalidade complexa de José Moscati no domínio médico e científico.
Luciano Armanni fizera gravar esta frase na entrada da sala de anatomia: “Hic est locus ubi mors gaudet succurrere vitae” (“Aqui a morte está contente de ajudar a vida”). “Mas na sala – escreve o professor Nicola Donadio – não havia nenhum traço de religião. O aposento era austero, mas vazio, exatamente como em todos os lugares dominados pelo materialismo.
O professor Moscati teve uma idéia e a realizou, a de colocar muito alto na parede da sala, de modo que pudesse dominar o aposento, um crucifixo com uma inscrição que não poderia ser melhor: «Ero mors tua, o mors» (citação do profeta Oséias, 13. 14: Oh morte, eu serei a tua morte”).
As autópsias realizadas por Moscati eram uma lição de vida.

Relato de um aluno de Moscati: o doutor André Piro, Médico Diretor da Ala III Masculina, no Hospital dos Incuráveis
Um dia, enquanto estávamos visitando os doentes, fomos convidados a ir à sala das autópsias; ficamos surpresos, não podendo entender este convite, pois neste dia não havia nenhuma autópsia a ser feita.
O professor Moscati, que nos tinha convidado, já tinha se dirigido à sala e nos apressamos em segui-lo.
Sobre a mesa anatômica não havia nada e os que nos tinham precedido estavam olhando a parede, no alto da qual podia-se admirar um Crucifixo com uma inscrição “Ero mors tua, o mors” que o Professor fizera dependurar. Tínhamos sidos convidados a prestar homenagem ao Cristo, à Vida que voltava a este lugar de morte após uma ausência bem longa.
Em 1919 ele foi nomeado oficialmente Médico Diretor da Ala Masculina, pela Administração do Hospital. De acordo com as avaliações sobre o trabalho de Moscati e as alusões à sua nova posição constatamos que esta última promoção foi uma grande alegria para todos: seus amigos, seus assistentes e alunos.
A reputação de Moscati como mestre e médico era indiscutível. Todo mundo exaltava suas aulas, seus diagnósticos e seu trabalho entre os doentes.
«O médico está numa posição privilegiada, pois freqüentemente ele se encontra em presença de almas que – apesar de erros cometidos – estão capitulando e voltando aos princípios éticos dos ancestrais e estão ansiosos em serem reconfortados, pois estão arrasados pelas dores. Bem aventurado o médico, que pode compreender o mistério destes corações e inflamá-los de novo» (carta enviada ao doutor Onófrio Nastri de Amalfi (SA), no dia 8 de Março de 1925).
Ninguém mais do que ele podia aspirar a este posto e ninguém era mais qualificado do que ele para recebê-la. Também ele estava contente, mas como sempre para ele, a satisfação humana não estava separada da satisfação espiritual que apenas passava pelos fatos contingentes e tomava raízes por motivações muito mais elevadas e nobres.
No hospital os sucessos não lhe diziam respeito mas concerniam exclusivamente os doentes pelos quais ele se empenhava e trabalhava com afinco. É o que se apreende de uma carta escrita no dia 26 de Julho de 1919 dirigida ao Senador G.D’Andrea – Presidente dos Hospitais Reunidos de Nápoles.
«Agradeço vivamente Vossa Senhoria e o Conselho de Administração pela promoção de Médico diretor de Sala, que acaba de me ser concedida.
Desde minha infância, via com interesse o hospital dos Incuráveis, que meu pai me mostrava com o dedo e este lugar me inspirava sentimentos de compaixão por causa da dor sem nome, aliviada no interior destas paredes.
Levado por profunda emoção eu começava a refletir sobre a renovação periódica do mundo e as ilusões se iam como se fossem as flores das laranjeiras que caíam em volta de mim.
Nesta época, eu me consagrava aos estudos de Letras e não imaginava e nem sonhava que um dia neste edifício branco – onde mal se viam atrás dos vitrais os doentes hospitalizados como se fossem fantasmas brancos – eu subiria ao escalão mais elevado da medicina.
Vou tentar, graças a Deus, e com minhas módicas forças, de responder à confiança que me foi concedida e de colaborar na reconstrução econômica dos velhos hospitais de Nápoles nestes tempos tão miseráveis».

A Morte Repentina
No dia 12 de Abril de 1927, Terça-Feira Santa, o professor Moscati, depois de ter participado da missa, como todos os dias, e de ter recebido a comunhão, passou a manhã no hospital, depois voltou para casa e após uma refeição, como de hábito, ele se ocupou dos pacientes que vinham consultá-lo em casa.
Por volta das 15 horas, ele teve um mal-estar e se sentou no seu sofá, pouco depois ele cruzou os braços e expirou serenamente. Ele tinha 46 anos e 8 meses.
A notícia de sua morte se espalhou imediatamente e a dor foi unânime. Os pobres principalmente o prantearam sinceramente, pois eles tinham perdido o seu benfeitor.

Traslado do corpo para a igreja do “Gesù Nuovo”
O corpo foi enterrado no cemitério de Poggioreale. Mas três anos mais tarde, no dia 16 de Novembro de 1930, por insistência de várias personalidades do clero e de leigos, o arcebispo de Nápoles, cardeal Alessio Ascalesi, permitiu o traslado do corpo do cemitério para a igreja do Gesù Nuovo, entre uma dupla fileira de pessoas.
É Nina Moscati, a irmã do professor, que nesta ocasião será a mais feliz de todos, pois ela sempre esteve perto de seu irmão para encorajá-lo e apoiá-lo na prática de caridade e será ela quem, após a morte, doará à igreja todos os pertences pessoais de Moscati assim como os móveis e objetos.
O corpo foi deposto numa sala atrás do altar de São Francisco Xavier, e hoje uma pedra de mármore, colocada à direita deste altar, lembra-o ainda.

A Beatificação (Paulo VI)
A grande estima e a consideração que já em vida cercavam o professor Moscati cresceram após a sua morte, e logo a dor e as lágrimas dos que o conheceram e amaram se tornaram em alegria, entusiasmo e reza. Rogava-se por ele para tudo.
Enquanto isto, instruiu-se o processo para o exame de dois milagres: duas curas atribuídas ao Servidor de Deus.
Neste dia, na praça de São Pedro, apesar de uma chuva que cairá várias vezes, uma grande multidão de fiéis seguirá com viva emoção até o fim o rito sagrado.
No dia 16 de Novembro de 1975, o papa Paulo VI proclama José Moscati Bem-Aventurado, durante uma celebração solene na basílica de São Pedro em Roma.

A Canonização (João Paulo II)
Em 1977, dois anos após a Beatificação, houve o reconhecimento canônico do corpo: recompôs-se o esqueleto de Moscati e depuseram-no num relicário de bronze feito pelo professor Amadeu Garufi e em seguida colocado sob o altar da Visitação.
A devoção a Moscati vai aumentando cada dia mais. As graças obtidas por sua intercessão são cada dia mais numerosas. Com vistas à canonização, será examinada a cura da leucemia, ou mielóideaguda mielobástica, do jovem José Montefusco, que aconteceu em 1979.
Finalmente, após longos exames, durante o consistório de 28 de Abril de 1987, o Papa João Paulo II fixa a data da canonização para o dia 25 de Outubro do mesmo ano 1987.
De 1 a 30 de Outubro, em Roma, se desenrolava a VII assembléia do Sínodo dos Bispos, cujo tema era: “Vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo, 20 anos após o Concílio Vaticano II”.
No dia 25 de Outubro de 1987, às 10 horas da manhã, na Praça de São Pedro, em Roma, o Papa João Paulo II, em presença de 100.000 pessoas, proclama e admite oficialmente José Moscati no número dos Santos (60 anos após sua morte).
Não poderia haver melhor coincidência: José Moscati era um leigo que tinha cumprido sua missão na Igreja e no mundo. Sua canonização era muito desejada e esperada por todos: estudantes, universitários e médicos, que tinham conhecido o médico Moscati como um homem de grande fé e de grande caridade, que assistia e aliviava os sofrimentos de seus doentes, mas que principalmente, levava-os a Deus.
Sua festa litúrgica será fixada para o dia 16 de Novembro.

Oração a São José Moscati
“Ó São José Moscati, médico e insigne cientista, que no exercício da profissão curavas o corpo e o espírito de teus pacientes, olha também para nós que agora recorremos com fé a tua intercessão.
Dá-nos saúde física e espiritual, intercedendo por nós junto ao Senhor. Alivia as penas dos sofredores, conforta os doentes, consola os aflitos, dá esperança aos desesperançados.
Que os jovens encontrem em ti um modelo, os trabalhadores um exemplo, os idosos um conforto, os moribundos a esperança do prêmio eterno.
Sê para todos nós um guia seguro de laboriosidade, honestidade e caridade, a fim de que cumpramos cristãmente os nossos deveres, dando glória a Deus, nosso Pai. Amém”.

ALGUNS PENSAMENTOS DE SÃO JOSÉ MOSCATI
(Tradução por Clemente Treccani)

“A vida é um piscar de olho: honras, triunfos, riquezas e ciências tombam, diante da realização do grito do Gênesis, do grito lançado por Deus contra o homem culpado: tu morrerás! Mas a vida não acaba com a morte, continua com um jeito melhor. Para todos é prometido, após a redenção do mundo, o dia que nos reunirá a nossos entes falecidos, e que nos reconduzirá ao supremo Amor!” [De carta ao advogado Mariconda, que perdeu a irmã. 27 de fevereiro 1919].

“Mas a vida foi definida um relâmpago no eterno. E nossa humanidade, por mérito da dor que a recheia, e da qual se saciou Aquele que vestiu nossa carne, transcende a matéria e nos leva desejar uma felicidade além do mundo. Bem-aventurados aqueles que seguem essa tendência da consciência, e olham para o além, onde os afetos terrenos, que pareciam precocemente quebrados, serão reunidos” [Da carta à Senhorita Carlotta Petravella, que perdeu a mãe. 20 de janeiro 1920].

“Lembras que, seguindo a medicina, assumiste a responsabilidade de uma sublime missão. Persevera, com Deus no coração, com os ensinamentos de teu pai e de tua mãe sempre na memória, com amor e piedade para os derrelitos, com fé e entusiasmo, surdo aos elogios e críticas, impassível à inveja, disposto só ao bem” [Da carta ao Dr. Giuseppe Biondi, 4 de setembro 1921].

“Seja o que for, lembra duas coisas: Deus não abandona ninguém. Quanto mais te sentires só, ignorado, vilipendiado, incompreendido e quando pensares sucumbir ao peso de uma grave injustiça, terás a sensação de uma força infinita e arcana, que te tornará capaz de propósitos bons e viris, de cuja potência te maravilharás, quando tornares sereno. E esta força é Deus!” [Da carta ao Dr. Cosimo Zacchino, 6 de outubro 1921].

“Os doentes são as imagens de Jesus Cristo. Muitos malvados, delinqüentes, blasfemadores, acabam de chegar ao hospital por disposição da misericórdia de Deus, que os quer salvos! Nos hospitais a missão das irmãs, médicos, enfermeiros, é de colaborar a esta infinita misericórdia, ajudando, perdoando, e se sacrificando” [Folhinha escrita por Moscati, com data de 17 de janeiro de 1922, e encontrada num livro após sua morte].

“Mesmo longe, não deixes de cultivar e rever cada dia teus conhecimentos. O progresso fica numa contínua critica de quanto aprendemos. Uma só ciência é inabalável e imutável, aquela revelada por Deus, a ciência do além! Em todas suas obras, olhe para o Céu e à eternidade da vida e da alma, e teu rumo será bem diferente de como seria sugerido pelas puras considerações humanas, e tua atividade será inspirada ao bem” [Da carta ao Dr. Consoli, aluno de Moscati, que devia deixar Nápoles. 22 de julho 1922].

“Meu Jesus, amor! Teu amor me torna sublime; teu amor me santifica, me leva não a uma criatura só, mas a todas as criaturas, à infinita beleza de todos os seres, criados à tua imagem e semelhança!” [Oração escrita por Moscati, de 5 de junho de 1922, encontrada pela irmã Nina].

“Não a ciência, mas a caridade transformou o mundo, em algumas épocas; somente poucas pessoas passaram à história por causa da ciência; mas todos poderão ficar eternos, símbolo da eternidade da vida, em que a morte é só uma etapa, uma metamorfose para uma ascensão maior, se dedicarem-se ao bem.
Sempre está vivo no meu coração a amargura por saber-te longe; e somente me conforta a esperança que tu tenhas guardado em ti algo de mim; não porque vale nada, mas por aquele conteúdo espiritual que me esforcei de guardar e difundir ao meu redor: tarefa sublime, mas tão inatingível pelas minhas pobres forças! [Da carta ao Dr. Antonio Guerricchio, 22 de julho 1922].

“Ama a verdade; mostra-te qual és, sem ficções, medos e precauções. Se a vida te custar perseguição, aceita-a; e se for o tormento, suporta-o. E se para a verdade precisares sacrificar a ti mesmo e tua vida, seja forte no sacrifício” [Bilhete escrito no 17 de outubro 1922, por Giuseppe Moscati].

Lembra que viver é missão, é dever, é dor! Cada um de nós deve ter seu lugar de combate…
Lembra de te preocupar não só do corpo, mas também das almas que gemem, que te procuram. Quantas dores saberás aliviar mais facilmente com o conselho, e descendo ao espírito, mais do que as frias receitas a ser entregues para o farmacêutico! Se alegre, porque grande será sua recompensa; mas precisa dar exemplo de tua elevação a Deus para aqueles que te rodeiam” [Da carta ao Dr. Cosimo Zacchino. Ascensão 1923].

“Acreditei que todos os jovens merecedores, encaminhados entre as esperanças, sacrifícios, anseios de suas famílias, à via da medicina nobilíssima, tivessem o direito a se aperfeiçoarem, lendo um livro que não foi imprimido preto no branco, mas que por capa tem as camas hospitalares e as salas de laboratório, e por conteúdo a dolorida carne dos homens e o material científico, livro que precisa ser lido com infinito amor e grande sacrifício ao próximo. Pensei que fosse uma dívida de consciência instruir os jovens, aborrecendo o costume de guardar com mistério ciumento o fruto da própria experiência, mas revelá-lo a eles…” [Da carta ao Prof. Francesco Pentimalli. 11 de setembro 1929].

“Todos os jovens deveriam compreender que na prática da continência está o melhor modo de se prevenir da maior doença transmissível… Tendo seu espírito e seu coração longe da imoralidade, com um exercício de renúncia e de sacrifício, deveriam jurar de conceder sua maturidade e sanidade sexual somente ao ser unicamente amado” [Do prefácio de G. Moscati a um livro de Giuseppe De Giovanni s.j. e do Prof. Mario Mazzeo, com o título: L’eugenica. 1925].

“Tenho aqui na mesinha, entre as primeiras flores da primavera, o retrato de tua filha, e paro, enquanto escrevo, a meditar sobre a caducidade das coisas humanas. Beldade, todo encanto da vida passa… Fica eterno só o amor, causa de toda obra boa, que sobrevive a nós, que é esperança e religião, porque o amor é Deus. Satanás tentou poluir também o amor terreno, mas Deus o purificou pela morte. Grandiosa morte que não é fim, mas princípio do sublime e do divino, diante dele estas flores e beleza são nada! Teu anjo, tirado em seus verdes anos, como sua dileta amiga, encontrada nos últimos dias, a bem-aventurada Teresa, do céu protege a ti e a sua mãe…” [Da carta ao Escrivão De Magistris, cuja jovem filha faleceu. 7 de março 1924. *José Moscati era muito devoto à então bem aventurada Teresa do Menino Jesus (S. Teresa de Lisieux). Fale dela em algumas suas cartas e tinha em seu quarto uma sua imagem. Sobre isso pode-se ler o artigo de Giuseppe Samà s.j.: S. Teresa de Lisieux e S. José Moscati, dois grandes santos de nosso tempo].

“Esta noite li a sua tese. Foi um grande sucesso… A comissão toda aplaudiu. Veja que quem não abandona Deus, terá sempre um guia na vida, segura e reta. Não prevalecerão desvios, paixões contra aquele que do trabalho e da ciência – dos quais Initium est timor Domini – fez seu ideal” [Da carta ao Dr. Francesco Pansini. 10 de março 1926].

“Que a matéria seja animada por muitíssimas e profundas energias que a envolvem em suas atividades e na progressiva complexidade de suas formas, nada se opõe a acolher, mas precisa também lembrar que este princípio de espiritualidade… esta ordem maravilhosa, que se organiza na matéria até alcançar os mais altos topos de sua elaborada organização, não seja outra coisa que o atestado de um Deus absconditus que regula com suprema inteligência este soberbo edifício sobre o qual se eleva a vida, vida que acontece por causa das leis da Alta Sabedoria que tudo move; ainda mais maravilhosas quando elas governam não somente os cosmos colossais, mas também a mais delicada trama do mais microscópico elemento” [Pensamento de Moscati referido pelo Prof. Pietro Castellino após a morte do Santo].

“A necessidade de eternizar no mármore e no bronze as grandes figuras falecidas, e celebrar sua obra, demonstra que o pensamento e o espírito humano são eternos. Abaixo de cada cruz e cada haste deste cemitério, onde parece que haja só ossos inermes e pó, há a lembrança de um coração que viveu do amor infinito e sofreu uma imensa dor; tem a sede de um espírito que não pode ficar extinguido” [Palavras de Moscati para a dedicação de um busto a Giovanni Paladino, no cemitério de Poggioreale].

“Amamos a Deus sem medida, quer dizer, sem medida na dor e sem medida no amor… Coloquemos todo nosso afeto, não somente nas coisas que Deus quer, mas na vontade do mesmo Deus que as determina” [Do depoimento da Senhorita Emma Picchillo].

“Exercitemo-nos quotidianamente na caridade. Deus é caridade: quem está na caridade está em Deus e Deus está nele. Não esqueçamos de fazer cada dia, aliás, cada instante, oferenda de nossas ações a Deus, cumprindo tudo por amor a ele” [Do depoimento da Senhorita Emma Picchillo].

Vaticano apresenta mensagem do Papa para Dia Mundial do Enfermo 2018

Segunda-feira, 11 de dezembro de 2017, Da Redação, com Boletim da Santa Sé

Papa enfatiza serviço da Igreja aos doentes e pede a intercessão de Maria por todos os enfermos

O Vaticano publicou nesta segunda-feira, 11, a mensagem do Papa Francisco para o próximo Dia Mundial do Enfermo, que será celebrado em 11 de fevereiro de 2018. No texto, Francisco reafirma o serviço da Igreja aos doentes e destaca o exemplo de Maria no cuidado para com essas pessoas.

A mensagem traz como tema as palavras que Jesus, do alto da cruz, dirige a Maria e a João: «“Eis o teu filho! (…) Eis a tua mãe!” E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-A como sua» (Jo 19, 26-27). São Palavras que deram origem à vocação materna de Maria em relação a toda a humanidade, explica Francisco na mensagem.

Segundo o Papa, a vocação materna da Igreja para com os necessitados e doentes concretizou-se em uma série de iniciativas em favor dos enfermos e constitui uma história de dedicação que não deve ser esquecida.

“A imagem da Igreja como ‘hospital de campo’, acolhedora de todos os que são feridos pela vida, é uma realidade muito concreta, porque, nalgumas partes do mundo, os hospitais dos missionários e das dioceses são os únicos que fornecem os cuidados necessários à população”.

O Santo Padre destaca ainda no texto o trabalho da Pastoral da Saúde como necessário e essencial e recorda a ternura e perseverança de tantas famílias ao acompanhar seus doentes. Segundo o Papa, os cuidados por parte da família são testemunho de amor pela pessoa humana e devem ser apoiados.

“Portanto, médicos e enfermeiros, sacerdotes, consagrados e voluntários, familiares e todos aqueles que se empenham no cuidado dos doentes, participam nesta missão eclesial. É uma responsabilidade compartilhada, que enriquece o valor do serviço diário de cada um”.

Francisco concluiu a mensagem confiando a Maria todos os doentes no corpo e no espírito, para que os sustente na esperança. “A Virgem Maria interceda por este XXVI Dia Mundial do Doente, ajude as pessoas doentes a viverem o seu sofrimento em comunhão com o Senhor Jesus, e ampare aqueles que cuidam delas”.

 

Mensagem do Papa Francisco para o 26º Dia Mundial do Enfermo (11 de fevereiro de 2018)

Mater Ecclesiae: «“Eis o teu filho! (…) Eis a tua mãe!”
E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua»
(Jo 19, 26-27)

Queridos irmãos e irmãs!

O serviço da Igreja aos doentes e a quantos cuidam deles deve continuar, com vigor sempre renovado, por fidelidade ao mandato do Senhor (cf. Lc 9, 2-6, Mt 10, 1-8; Mc 6, 7-13) e seguindo o exemplo muito eloquente do seu Fundador e Mestre.

Este ano, o tema do Dia do Doente é tomado das palavras que Jesus, do alto da cruz, dirige a Maria, sua mãe, e a João: «“Eis o teu filho! (…) Eis a tua mãe!” E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-A como sua» (Jo 19, 26-27).

1. Estas palavras do Senhor iluminam profundamente o mistério da Cruz. Esta não representa uma tragédia sem esperança, mas o lugar onde Jesus mostra a sua glória e deixa amorosamente as suas últimas vontades, que se tornam regras constitutivas da comunidade cristã e da vida de cada discípulo.

Em primeiro lugar, as palavras de Jesus dão origem à vocação materna de Maria em relação a toda a humanidade. Será, de uma forma particular, a mãe dos discípulos do seu Filho e cuidará deles e do seu caminho. E, como sabemos, o cuidado materno dum filho ou duma filha engloba tanto os aspetos materiais como os espirituais da sua educação.

O sofrimento indescritível da cruz trespassa a alma de Maria (cf. Lc 2, 35), mas não a paralisa. Pelo contrário, lá começa para Ela um novo caminho de doação, como Mãe do Senhor. Na cruz, Jesus preocupa-Se com a Igreja e toda a humanidade, e Maria é chamada a partilhar esta mesma preocupação. Os Atos dos Apóstolos, ao descrever a grande efusão do Espírito Santo no Pentecostes, mostram-nos que Maria começou a desempenhar a sua tarefa na primeira comunidade da Igreja. Uma tarefa que não mais terá fim.

2. O discípulo João, o amado, representa a Igreja, povo messiânico. Ele deve reconhecer Maria como sua própria mãe. E, neste reconhecimento, é chamado a recebê-La, contemplar n’Ela o modelo do discipulado e também a vocação materna que Jesus Lhe confiou incluindo as preocupações e os projetos que isso implica: a Mãe que ama e gera filhos capazes de amar segundo o mandamento de Jesus. Por isso a vocação materna de Maria, a vocação de cuidar dos seus filhos, passa para João e toda a Igreja. Toda a comunidade dos discípulos fica envolvida na vocação materna de Maria.

3. João, como discípulo que partilhou tudo com Jesus, sabe que o Mestre quer conduzir todos os homens ao encontro do Pai. Pode testemunhar que Jesus encontrou muitas pessoas doentes no espírito, porque cheias de orgulho (cf. Jo 8, 31-39), e doentes no corpo (cf. Jo 5, 6). A todos, concedeu misericórdia e perdão e, aos doentes, também a cura física, sinal da vida abundante do Reino, onde se enxugam todas as lágrimas. Como Maria, os discípulos são chamados a cuidar uns dos outros; mas não só: eles sabem que o Coração de Jesus está aberto a todos, sem exclusão. A todos deve ser anunciado o Evangelho do Reino, e a caridade dos cristãos deve estender-se a todos quantos passam necessidade, simplesmente porque são pessoas, filhos de Deus.

4. Esta vocação materna da Igreja para com as pessoas necessitadas e os doentes concretizou-se, ao longo da sua história bimilenária, numa série riquíssima de iniciativas a favor dos enfermos. Esta história de dedicação não deve ser esquecida. Continua ainda hoje, em todo o mundo. Nos países onde existem sistemas de saúde pública suficientes, o trabalho das congregações católicas, das dioceses e dos seus hospitais, além de fornecer cuidados médicos de qualidade, procura colocar a pessoa humana no centro do processo terapêutico e desenvolve a pesquisa científica no respeito da vida e dos valores morais cristãos. Nos países onde os sistemas de saúde são insuficientes ou inexistentes, a Igreja esforça-se por oferecer às pessoas o máximo possível de cuidados da saúde, por eliminar a mortalidade infantil e debelar algumas pandemias. Em todo o lado, ela procura cuidar, mesmo quando não é capaz de curar. A imagem da Igreja como «hospital de campo», acolhedora de todos os que são feridos pela vida, é uma realidade muito concreta, porque, nalgumas partes do mundo, os hospitais dos missionários e das dioceses são os únicos que fornecem os cuidados necessários à população.

5. A memória da longa história de serviço aos doentes é motivo de alegria para a comunidade cristã e, de modo particular, para aqueles que atualmente desempenham esse serviço. Mas é preciso olhar o passado sobretudo para com ele nos enriquecermos. Dele devemos aprender: a generosidade até ao sacrifício total de muitos fundadores de institutos ao serviço dos enfermos; a criatividade, sugerida pela caridade, de muitas iniciativas empreendidas ao longo dos séculos; o empenho na pesquisa científica, para oferecer aos doentes cuidados inovadores e fiáveis. Esta herança do passado ajuda a projetar bem o futuro. Por exemplo, a preservar os hospitais católicos do risco duma mentalidade empresarial, que em todo o mundo quer colocar o tratamento da saúde no contexto do mercado, acabando por descartar os pobres. Ao contrário, a inteligência organizativa e a caridade exigem que a pessoa do doente seja respeitada na sua dignidade e sempre colocada no centro do processo de tratamento. Estas orientações devem ser assumidas também pelos cristãos que trabalham nas estruturas públicas, onde são chamados a dar, através do seu serviço, bom testemunho do Evangelho.

6. Jesus deixou, como dom à Igreja, o seu poder de curar: «Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: (…) hão de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados» (Mc 16, 17.18). Nos Atos dos Apóstolos, lemos a descrição das curas realizadas por Pedro (cf. At 3, 4-8) e por Paulo (cf. At 14, 8-11). Ao dom de Jesus corresponde o dever da Igreja, bem ciente de que deve pousar, sobre os doentes, o mesmo olhar rico de ternura e compaixão do seu Senhor. A pastoral da saúde permanece e sempre permanecerá um dever necessário e essencial, que se há de viver com um ímpeto renovado começando pelas comunidades paroquiais até aos centros de tratamento de excelência. Não podemos esquecer aqui a ternura e a perseverança com que muitas famílias acompanham os seus filhos, pais e parentes, doentes crónicos ou gravemente incapacitados. Os cuidados prestados em família são um testemunho extraordinário de amor pela pessoa humana e devem ser apoiados com o reconhecimento devido e políticas adequadas. Portanto, médicos e enfermeiros, sacerdotes, consagrados e voluntários, familiares e todos aqueles que se empenham no cuidado dos doentes, participam nesta missão eclesial. É uma responsabilidade compartilhada, que enriquece o valor do serviço diário de cada um.

7. A Maria, Mãe da ternura, queremos confiar todos os doentes no corpo e no espírito, para que os sustente na esperança. A Ela pedimos também que nos ajude a ser acolhedores para com os irmãos enfermos. A Igreja sabe que precisa duma graça especial para conseguir fazer frente ao seu serviço evangélico de cuidar dos doentes. Por isso, unamo-nos todos numa súplica insistente elevada à Mãe do Senhor, para que cada membro da Igreja viva com amor a vocação ao serviço da vida e da saúde. A Virgem Maria interceda por este XXVI Dia Mundial do Doente, ajude as pessoas doentes a viverem o seu sofrimento em comunhão com o Senhor Jesus, e ampare aqueles que cuidam delas. A todos, doentes, agentes de saúde e voluntários, concedo de coração a Bênção Apostólica.

Vaticano, 26 de novembro –
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo – de 2017.

FRANCISCO

 

São João da Cruz – 14 de Dezembro

Por Mons. Inácio José Schuster

Hoje, 14 de Dezembro, a Igreja celebra a memória de São João da Cruz. Ele juntamente com Santa Tereza de Jesus, foi um dos reformadores da Ordem Carmelitana no Século XVI. Sofreu muito por causa da reforma de sua própria ordem, porque desejava reconquistar o primitivo fervor perdido com o relaxamento. Desejava viver como os primitivos eremitas carmelitas, que se colocavam no maior número de horas possíveis do dia, na presença de Deus, na leitura meditada da Sagrada Escritura, para depois poderem com capacidade e amor dividir este Pão espiritual com os irmãos na fé. Esta celebração é oportuna no tempo do Advento. São João da Cruz, fala de noites escuras que precedem os dias luminosos que estão por vir no futuro, e isto para nós é advento. “Agora aceitamos as trevas, a penumbra e a escuridão em direção e em marcha para a luz. A noite será mais luminosa do que o dia”. São João da Cruz traz-nos um exemplo admirável que pode ser bem usado neste tempo de advento: “A madeira – diz ele – antes de se incandescer com o fogo se contorce toda inteira, deixa sair todo caldo que possuía, torna-se inteiramente preta e somente aos poucos ela vai se incandescendo para tornar brasa, uma só coisa com o fogo”. Não é bem a imagem de cada um de nós neste período e tempo do advento? Não somos uma madeira seca que gostaríamos de ser uma só coisa ou realidade como o fogo consumador de Deus? “Quem é capaz – diz Isaias – de permanecer junto a um fogo devorador?” Pois este fogo já realiza o seu serviço de purificação dentro de nós, através das noites escuras que nós com São João da Cruz, aceitamos com resignação, e não só com alegria e na esperança de nos tornar um dia, no final do advento da nossa existência, uma só coisa, como um braseiro, uma só coisa como o amor de Deus, cantando com Ele para sempre as misericórdias do Senhor. Agora se deixe trabalhar, ainda que dolorosamente, os frutos serão desproporcionais ao trabalho agora realizado.

 

SÃO JOÃO DA CRUZ
Perto de Ávila, na Espanha, encontra-se Fontiveros. Lá nasceu João de Yepes, no ano de 1542. Os pais, Gonçalo e Catarina, eram pobres tecelões. Gonçalo morreu cedo e a viúva teve de passar por dificuldades enormes para sustentar os três filhos: Francisco, Luís e João. Mas Luís morreu de poucos anos. Catarina pediu ajuda aos parentes do seu defunto marido, por terras toledanas. Mudou para Arévalo e depois para Medina deI Campo. Medina era então o centro comercial de Castela. Feiras e mercados, artesanato e movimento. Lá experimentará João numerosos ofícios manuais, que não lhe agradam, embora não seja inútil para eles. A sua inclinação é para os estudos. A mãe envia-o para o Colégio da Doutrina; como acontece em quase todas as cidades castelhanas, existe também em Medina. E ele faz de acólito no convento das agostinhas. Em 1551 fundaram em Medina um colégio os padres da Companhia de Jesus. Nele estudará Humanidades. Nos estudos mostra-se João muito «agudo» e a sua aplicação é admirável. Mas todo esse esforço não vai terminar no estado clerical. Sente-se chamado à vida religiosa e escolhe a Ordem do Carmo, a Ordem de Maria, na qual pede o hábito em 1563. Chamar-se-á para o futuro João de Santa Maria. Devido ao talento e à virtude, depressa foi destinado para o colégio de Santo André, que a Ordem possui em Salamanca, ao lado da famosa Universidade. Lá estudará Artes e Teologia. Salamanca vive então todo o seu esplendor magisterial: entre outros professores célebres, tem Luís de Leão. Frei João foi no colégio dele «prefeito dos estudantes», o que indica o seu aproveitamento e a estima em que era tido. Em 1567 recebe a ordenação sacerdotal e vem a Medina celebrar a Missa nova junto da sua pobre mãe e do irmão Francisco. E dá-se então um encontro providencial e inesperado. Em Medina acaba de criar o seu segundo «pombalzinho da Virgem» a Madre Teresa de Jesus. Esta tem «patentes» do Geral da Ordem para fundar dois mosteiros de frades reformados. E pôs-se em contacto com o prior dos carmelitas de Medina. Ele está decidido a começar a reforma; e por ele lhe vem o conhecimento de Fr. João. Mas este deseja passar para a Cartuxa, sedento de penitência e solidão. Foi lá, na casa onde habitava momentaneamente a mãe, que se realizou a entrevista, transcendental para sempre na história da espiritualidade. A Madre Teresa convence Fr. João a que se una à reforma dos frades, para salvar o espírito do Carmo, ameaçado pelos homens e pelos tempos; é a empresa espiritual que ela fomenta por encargo do céu. Naquele dia, no recreio das religiosas, a madre comentou alvoroçada: «Já tenho frade e meio para começar!»… O meio frade aludia à pequena estatura de frei João. Depois do seu curso de Teologia em Salamanca, tudo se precipita. Estamos em 1568. Em Duruelo inaugura-se a vida descalça entre os carmelitas. Durante ano e meio, João (desde agora da Cruz) viverá austeridade, alegria, silêncio… Tudo é, diz, «música silenciosa», «solidão sonora». Tudo é paz… Mas dura pouco: não mais de ano e meio. Em seguida, a expansão da reforma carmelita arrasta-o no seu impulso. E proporcionou ao Santo contemplativo uma série de sofiimentos e trabalhos que tomaram bem verdadeiro o seu apelido monacal. O frade de Fontiveros dá começo a três casas de formação, pois na obra teresiana é ele providencialmente quem vai semeando o ideal de perfeição carmelita que traz na alma, e que em parte recebeu de Santa Teresa. Desde 1572 a 1577, frei João é confessor da Encarnação de Ávila. O visitador apostólico, Pedro Fernández, O padre levou como prioresa, para aquele mosteiro importante de religiosas carmelitas, a Madre Teresa, e esta consegue do visitador que ponha lá confessores descalços que a ajudem a tonificar o mosteiro. Numa casita junto do convento passará o nosso Santo, com um companheiro, quase cinco anos, confessando, dirigindo religiosas e gente de Ávila. Foi campo de experiências esplêndido. Sobretudo porque, durante longas temporadas, a primeira penitente e dirigida foi Santa Teresa de Jesus. Lá vão adquirindo maturidade a alma e o magistério do futuro doutor. O germe de muitas das suas doutrinas e das suas obras foi lá incubado. Mas a obra teresiana é obra de Deus, e, portanto há de ser obra selada pela cruz. A perseguição, por parte dos padres calçados, tinha de estalar. E foi cair sobre os representantes mais destacados da reforma, como era natural. Já em 1576 foi tirado violentamente Fr. João da casita da Encarnação; contudo, devolve-o a ela uma ordem do Núncio. Todavia, na noite de 02 de Dezembro de 1577 foi preso definitivamente. Em seguida, levam-no para o convento carmelita de Toledo. Foram nove meses de cárcere penoso: meses de cruz, de Getsémani, de noite… Mas são duma fecundidade maravilhosa. E aquela vida chamejante traduz-se em versos, em planos de escritos, em experiência saborosa e sábia da obra de Deus nas almas que a Ele se entregam. Nos meados de Agosto de 1578 consegue escapar-se do seu cárcere. Foi gesto dramático, em que interveio Deus e a audácia e confiança de Fr. João. Desde tal aventura até à morte, a vida de Fr. João será afinal sempre a mesma. Por uma parte, dentro da reforma, sempre ocupado em tarefas de formação e direção de frades e religiosas. Adiante percorreremos esses encargos que teve. Por outra parte, ocupará postos de governo, num plano secundário sempre, uma vez que os primeiros cargos os manterão sempre Gracián e Dória; estes nomes e esta atividade enchem dolorosamente os lustros iniciais da reforma teresiana. João não recebeu do céu a missão da luta externa em primeiro lugar. Será o homem escondido que mantém a brasa pura e que, nas contendas de família, dá a nota de elevação e de equilíbrio, que tantas vezes faltou nos outros. A mesma Santa, tão penetrante e intuitiva, deu-se perfeitamente conta desse papel que tocava ao seu «pequeno Sêneca», iluminado conselheiro. Mas para a obra secreta e misteriosa da formação espiritual das suas filhas, tem plena confiança no seu Padre João, naquele «santico de Frei João», cujos «ossinhos farão milagres», «homem celestial e divino…, (que) não encontrei em toda a Castela outro como ele, nem que tanto afervore no caminho do céu…». E não é que a psicologia sobrenatural da Madre coincida em tudo com a de Fr. João? Completam-se um ao outro, embora Santa Teresa não tenha conhecido em toda a profundidade a riqueza doutrinal de são João da Cruz e a influência que ia ter, através dos séculos, na espiritualidade cristã universal. Pelo menos, não temos indício de tal visão profética teresiana. De Toledo, frei João foi enviado como superior ao convento do Cal vário, na serra de Jaén. Tiveram os descalços uma espécie de capítulo em Almodóvar do Campo, a que ele assistiu. E lá foi nomeado para aquela solidão da Serra Morena. Foram meses felizes, de paz recolhida e calada, de oração e cultivo de almas seletas, de contemplação e êxtase. Revivem os dias de Duruelo. Do Calvário, atende às carmelitas de Beas de Seguras. Vai com freqüência confessá-las, fornece-lhes os seus primeiros escritos espirituais. Entre elas está como prioresa Ana de Jesus, que ficará por toda a vida ligadíssima às transformações sanjoanistas. Magnífico campo de experiências foi ela para o santo doutor! A 13 de Junho de 1579 partiu para Baeza, a fundar um colégio para os seus frades. Como reitor de Baeza, assiste o Santo ao capítulo de separação da reforma, que se realiza em Alcalá, no princípio de Março de 1581. Foi eleito terceiro definidor, continuando no reitorado. Em seguida, vai como prior para o convento dos Mártires, em Granada, onde permanecerá até fins de 1588. Anos fecundos, na sua tarefa de escritor sobretudo. Aquele lugar incomparável facilitava a produção da sua pena tomada chama. Durante este período da sua vida, as viagens foram-se multiplicando cada vez mais. Viagens a Caravaca e a Á vila, para ultimar com a Madre Teresa a fundação de religiosas em Granada, viagens aos capítulos. Em 1585, foi nomeado vigário provincial da Andaluzia. Assim aumentaram as suas atividades externas. Tudo isso violentaria, sem dúvida, as suas aspirações mais profundas, mas a cruz de Cristo era o apelido que selava a sua vida. Em 1586, fundação de descalços em Córdova; trasladação da casa das descalças de Sevilha, reunião de definição em Madrid e fundação na Corte das descalças, com Ana de Jesus à frente, dos descalços em Mancha Real, preparação da de Bujalance, etc., etc. No capítulo de Valhadolide de 1587 deixa de ser vigário provincial e volta a prior de Granada. Foi outro breve espaço de tempo para gozar o retiro. Pôde assim continuar os afazeres de diretor de almas e as atividades literárias. Em 1588, realizou-se em Madrid o capítulo geral para executar um breve de Sisto V, que organizava de maneira nova a reforma do Carmo. Ficou ele sendo um dos seis conselheiros do vigário geral, com residência em Segóvia, onde habitou quase três anos, sendo ao mesmo tempo prior da casa. Também dirigiu almas (as carmelitas, sacerdotes, leigos). Nas covas naturais da horta conventual, Fr. João vive, intensa, a sua vida interior, feita de «nadas» e de união com o «Tudo». Um dia, a imagem dolorosa de Jesus perguntou-lhe o que desejava em paga do seu amor puro e exclusivo. João da Cruz respondeu generosamente: «Padecer, Senhor, e ser desprezado por causa de Vós». A sua oração ia ser ouvida abundantemente. Em 1591, o capítulo deixa-o posto a um canto, como «trapo velho da cozinha». É que está sendo pessoa pouco aceite para o vigário, Dória. Obedece fidelissimamente, mas diz com toda a franqueza o seu parecer, quando o caso é disso. E sobrevém um choque forte entre as religiosas e os frades, por causa da organização do governo destas. Suspeita-se que João está por elas. Mas é eliminado com toda a facilidade e sangue frio. Mais, começa-se um processo contra ele, o qual, na intenção do executor, deve terminar com a expulsão para fora da Ordem. Fr. João pede para retirar-se ao conventinho de La Pefiuela. E ofereceu-se a ir para as Índías; deixaria de ser estorvo. Em La Pefiuela está poucos meses. A reforma padece. Nos conventinhos teresianos andaluzes, o processo contra João decorre, perturbando as almas. Ele reza, sofre e cala-se. Escrevia: «Do que a mim me toca, filha, não lhe dê pena, que nenhuma me dá a mim». E a 21 de Setembro de 1591, faltando-lhe já poucos dias para entrar na eternidade, acrescentava: «Amanhã vou a Úbeda para curar umas febrezinhas, que, como há mais de oito dias me dão cada dia e não me passam, parece-me que precisarei da ajuda da medicina: mas com a intenção de voltar logo para aqui, pois com certeza que nesta solidão me encontro muito bem». Escolhe o convento de Úbeda porque no de Baeza é mais conhecido e estimado. No caminho – um penoso caminhar enfermo! – vai acompanhado por um irmão leigo. E um episódio simples dá-nos essa nota humana que dorme sempre escondida na alma dos santos. O seu fastio leva-o a desejar espargos. Não é tempo deles. Mas, providencialmente, encontram-nos os viajantes, como resposta celestial à debilidade humilde do fradinho. Em Úbeda, uns dias longos, de mais de dois meses, para acabar de consumar-se a união na cruz, uma erisipela numa perna, que pouco a pouco foi intoxicando todo o corpo. A septicemia foi-se apoderando de todo ele e manifestando-se em tumores cada vez mais impressionantes. O prior da casa trata-o com frieza e falta de consideração. Tudo é sofrimento. «Estou-me consumindo em dores!»; «Mais paciente, mais amor e mais dor!», exclamará outras vezes. Assim até 13 de Dezembro. Nessa noite agonizou santamente, docemente… Ao tocar a meia-noite, partindo do «esterqueiro do desprezo» foi cantar matinas ao céu, como ele mesmo repetira no dia último. Apesar da chuva abundante e de ele ser pouquíssimo conhecido em Úbeda, depressa se enche o convento com os que desejam venerar o cadáver. E o prior manda abrir todas as portas. Abertas ficaram sempre. A interminável procissão dos devotos, dos discípulos, dos admiradores continua a aproximar-se das suas relíquias; relíquias da sua vida e da sua pena, relíquias vivas da sua eterna lição. Recordemos brevemente as suas obras literárias. Valeram-lhe, em 1926, o título de doutor da Igreja. (Tinha sido canonizado em 1726). As obras maiores são vários poemas, maravilhosos poemas, que o levantaram ao cume do lirismo em geral: poesia pura, simbólica e ardente, cujo mistério se mantém inexplicável, apesar da sua simplicidade humana e dos antecedentes literários, bíblicos e extrabíblicos, que pretendamos encontrar-lhes. As obras que em prosa interpretam aqueles poemas são bem conhecidas: Subida do Monte Carmelo, Noite escura da alma (estas duas formam parte dum todo, que ficou afinal por terminar), Cântico espiritual e Chama viva de amor. No decurso delas, o itinerário que a alma percorre é claro e certeiro. Negação e purificação das suas desordens debaixo de todos os aspectos. «Nada, nada, nada… Nem isto nem aquilo…» Para se entregar ao Senhor através dos atos das virtudes teologais – fé, esperança e caridade – que vão cristificando mais a alma e apertando assim a mística união. União em que o Deus-amor se apodera mais e mais da alma, que fica em Deus perdida, endeusada no seu Deus. Alguns outros poemas, uns poucos avisos: «ditos de luz e amor; um punhado de cartas – restam-nos também como migalhas abençoadas, caídas da sua mesa. Tudo riquíssimo e sublime. Tudo serviu de manjar, desde há três séculos, aos espíritos melhores. A sua glória e magistério alargam-se com o tempo, cada vez mais. João da Cruz é o doutor místico por antonomásia, da Igreja, o representante principal da sua mística no mundo, a figura mais egrégia da cultura espanhola e uma das principais da cultura universal. Foi tomado como patrono da rádio, pois, quando pregava, a sua voz chegava até muito longe.

 

ARIDEZ ESPIRITUAL
Quanto mais a noite fica escura, mais perto está a aurora
Prof. Felipe Aquino / [email protected]

Muitas vezes, podemos passar por algum período de aridez espiritual, isto é, não temos vontade de rezar, torna-se difícil participar da Santa Missa, a reza do terço fica pesada, entre outros. Até mesmo a Sagrada Comunhão se torna um sacrifício diante das dúvidas que podem atingir a nossa alma. Parece que o céu sumiu. Como vencer esse estado de espírito no qual parece que Deus está longe e que nos falta a fé? Primeiro, é preciso verificar se esta situação não é tibieza, ou seja, causada por nossa culpa em não perseverar no cuidado da vida espiritual, e, sobretudo, verificar se não há pecados graves em nossa alma, que possam estar afugentando dela a graça de Deus. Se não houver pecados na alma, então, é preciso antes de tudo, calma, paciência e perseverança nos exercícios espirituais: oração, vida sacramental, caridade, penitência, entre outros. Mesmo sem vontade ou sem gosto, continuar, sem jamais parar, os exercícios espirituais. O Senhor, às vezes, permite essas provações para que aprendamos a “buscar mais o Deus das consolações do que as consolações de Deus”, como ensinou um santo. São João da Cruz, místico que tanto experimentou o que chamou de “noite escura da fé”, afirmou que “o progresso da pessoa é maior quando ela caminha às escuras e sem saber.” Muitas vezes, nos deleitamos nas orações gostosas, cheias de fervor sensível, como crianças quando comem doces. Mas quando vem a luta deixamos a oração. Veja o que nos diz a Palavra de Deus: “Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes, quando repreendido por ele; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhece por seu filho (Pr 3,11s). Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige?… Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos… Aliás, temos na terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o qual nos dará a vida? Os primeiros nos educaram para pouco tempo, segundo a sua própria conveniência, ao passo que este o faz para nosso bem, para nos comunicar sua santidade” (Hb 12,5-10). Deus nos quer santos, e é também algumas vezes pela provação e pela aridez espiritual que Ele arranca as ervas daninhas do jardim de nossas almas. Coragem, alma querida de Deus! Jesus disse que Ele é a videira verdadeira, e Seu Pai o bom agricultor, que podará todo ramo bom que der fruto, para que produza mais fruto (cf. Jo 15,1-2). Não podemos querer apenas o açúcar do pão e renegar o pão do sacrifício. Às vezes, a meditação é difícil, a oração é penosa, distraída, surgem as noites e as trevas… Nessas horas é preciso silêncio, abandono, paciência. O Esposo há de voltar logo… Em breve vai raiar a aurora e os fantasmas vão sumir. Quanto mais a noite fica escura, tanto mais perto nos aproximamos da aurora. Deus sabe pelo que estamos passando, louvado seja o Seu santo Nome! É hora de abandono em Suas mãos paternas. Em meio às trevas alguns sentem o coração como se fosse de gelo, não sentem mais amor a Jesus, perdem a piedade, se sentem condenados. Que desoladora confusão espiritual! Nessas horas a única saída é fechar os olhos e dar as mãos a Jesus para ser guiado por Ele na fé; confiança e abandono, irmão! Só o Senhor sabe o caminho para sairmos deste matagal fechado e escuro. Deus nos prepara para a contemplação pelas provas passivas, ensinam os santos. Ele as produz e a alma apenas tem que aceitar. É o duro caminho dos que querem a perfeição. Ele está purificando a alma; o Cirurgião Celeste está nos operando a alma. São João da Cruz fala da famosa “noite dos sentidos” cheia de aridez e de provação, um verdadeiro martírio para a alma. Segundo o santo doutor, é Jesus que chama a alma a caminhar com Ele no deserto, mesmo queimando os pés e sendo queimado pelo sol, para se santificar. Calma, alma querida de Deus, Ele faz isso porque o ama muito! O fogo bom não é aquele “fogo de palha”, alto e bonito, mas rápido, que logo se apaga; mas é o fogo baixo que pega na lenha grossa e permanece por muito tempo. O fogo de palha é só para começar… É isso que está acontecendo; não se assuste; não se preocupe porque o gosto de rezar sumiu e se tornou agora um sacrifício penoso… Fé não é sentimento e muito menos sentimentalismo; fé é adesão, com a mente, a Deus, às Suas verdades e às Suas determinações. Não se preocupe em estar ou não “sentindo” fé ou devoção; apenas viva-a; vá à Missa, ao grupo de oração, ao terço, com ou sem vontade, com ou sem gosto, com ou sem sentimento. Assim, temos mais méritos ainda diante de Deus. Nessa situação talvez você precise de um diretor espiritual, especialmente na Confissão, para uma boa orientação.

Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira da América Latina – 12 de Dezembro

A importância das aparições

Em 1531, os missionários espanhóis franciscanos e dominicanos evangelizavam os índios maias e astecas no México, e tinham muita dificuldade nessa missão porque esses índios eram idólatras e ofereciam aos seus muitos deuses sacrifícios humanos de milhares de rapazes e de virgens, nos altos das muitas pirâmides que podem ser visitadas ainda hoje no México. Um sacerdote cortava fora o coração de vítima, com uma faca de pedra pouco afiada e o oferecia aos deuses. Nesse ano a Virgem Mãe de Deus apareceu ao piedoso índio São João Diego, na colina de Tepeyac, perto da capital do México. Com muito carinho ela pediu que ele fosse ao bispo pedir-lhe que nesse lugar construísse um Santuário em sua honra. D.João de Zumárraga, primeiro bispo do México, franciscano, vindo da Espanha, retardou a resposta a fim de averiguar cuidadosamente o ocorrido. Quando o índio, movido por uma segunda aparição e nova insistência da Virgem, renovou suas súplicas entre lágrimas, ordenou-lhe o bispo que pedisse a Nossa Senhora um sinal de que a ordem vinha realmente da grande Mãe de Deus. Então Nossa Senhora enviou ao Bispo o conhecido sinla milagroso das rosas. Ela disse ao índio: “Filho querido, essas rosas são o sinal que você vai levar ao bispo. Diga-lhe em meu nome que, nessas rosas, ele verá minha vontade e a cumprirá. Você é o meu embaixador e merece a minha confiança… Quando chegar diante do Bispo, desdobre a sua tilma” (manto) e mostre-lhe o que carrega, porém só na presença do bispo. Diga-lhe tudo o que viu e ouviu, nada omitindo…” Essas rosas só davam em Castela na Espanha, de onde era procedente o bispo. João Diego obedeceu e, ao despejar as flores perante o bispo, eis que surge no seu manto a linda pintura milagrosa de Nossa Senhora tal como ela lhe apareceu. O bispo acompanhou João ao local designado por Nossa Senhora. O ícone de Nossa Senhora de Guadalupe é repleto de sinais milagrosos. Até hoje os cientistas não conseguem explicá-lo. Não sabem que produto tingiu o manto; não é deste mundo. A fama do milagre espalhou-se rapidamente por todo o território. Os cidadãos, profundamente impressionados por tão grande prodígio, procuraram guardar respeitosamente a santa Imagem na capela do paço episcopal. Mais tarde, após várias construções e ampliações, chegou-se ao templo atual. Em 1754, escrevia o papa Bento XIV: “Nela tudo é milagroso: uma Imagem que provém de flores colhidas num terreno totalmente estéril, no qual só podem crescer espinheiros; uma Imagem estampada numa tela tão rala que, através dela, pode-se enxergar o povo e a nave da Igreja tão facilmente como através de um filó; uma Imagem em nada deteriorada, nem no seu supremo encanto, nem no brilho de suas cores, pelas emanações do lago vizinho que, todavia, corroem a prata, o ouro e o bronze… Deus não agiu assim com nenhuma outra nação.” A partir das aparições de Nossa Senhora de Guadalupe os missionários passaram a evangelizar os índios em massa; mais de sete milhões foram batizados em poucos anos e o México é hoje o país que mais católicos têm (94% da população). Em 1910 o Papa S. Pio X proclamou Nossa Senhora de Guadalupe “Padroeira da América Latina”, e em 1945, o Papa Pio XII a proclamou “Imperatriz da América Latina”. Há hoje, infelizmente, uma mentalidade muito errada em nossos meios acadêmicos que quer ver na civilização asteca algo melhor que nossa atual civilização cristã; nada mais triste. A turma do “politicamente correto”, inclusive os adeptos da perigosa teologia da libertação, quer desprezar os missionários espanhóis, que “impuseram uma religião estrangeira sobre os inocentes nativos que encontraram.” Inocentes nativos? As grandes sociedades asteca e maia foram construídas com base na conquista de povos não-astecas e não-maias, com a mão-de-obra escrava e o assassinato ritual daqueles escravos. Seus elogiados canais e magníficos templos foram construídos por escravos. Estas culturas se man¬tiveram baseadas no medo. Quem se indispusesse com os sacerdotes, pagos pelo Estado; tinha seu coração arrancado fora. Numa única cerimônia os astecas cortaram fora os corações de 10 mil virgens obtidas com o seqüestro de moças e meninas dos povoados vizinhos. Esses corações eram oferecidos aos deuses. (cf. “Astecas eram escravocratas e genocidas”, William A. Hamilton, escritor e colunista, artigo para a “USA Today”). Nelson Ascher, jornalista Integrado à equipe de articulistas da “Folha de São Paulo”, no seu artigo Canibalismo dos Astecas”, diz entre outras coisas que: “Sabe-se que o centro da religião asteca era a sacrifício humano, mas a escala em que era realizado aponta para urna realidade ainda mais sinistra. Segundo palavras do padre espanhol Sahgun, o mais minucioso historiador de então da civilização indígena do México, pode-se ver a descrição do sacrifício humano no topo das pirâmides: a vítima, segura por quatro sacerdotes, tinha o peito aberto por um quinto com uma faca de obsidiana, e seu coração pulsante arrancado -, após ser o cadáver arrojado escada abaixo culminava com um singelo: “Después, lo cocian Y lo comian’ (Depois cozinhavam-no e comiam)”. “Carne humana era muito apreciada com tomate nativo da região, e provavelmente temperada com chili. Num festival de quatro dias, em finais do século 15, os astecas te¬riam “abatido” vinte mil prisioneiros. Parece que este era também o consumo anual médio só na capital.” “Os astecas inclusive promoviam suas numerosas guerras com a única finalidade de capturar prisioneiros para seus rituais sofisticados que incluíam, em um de seus meses, o esfolamento após a qual os sacerdotes se vestiam com as peles das vítimas.” Podemos chamar isso de civilização? Infelizmente essas cruentas práticas dos maias e astecas são acoberta¬das, enquanto as práticas dos espanhóis são anunciadas aos quatro ventos. Mostram-se em planetários os feitos dos astecas e maias no campo da astronomia, mas as o assassi¬nato ritual e rotineiro de milhões de pessoas é maliciosamente encoberto. Como pode uma “civilização” desta ser melhor do que o Cristianismo, que prega amor até aos inimigos? É um contra senso; uma grande incoerência. Por isso a chegada de Fernando Cortez em 1521 no México e os esforços para converter os povos indígenas ao cristianismo são tratados com desdém. O Papa Bento XVI no seu discurso de abertura do V CELAM, em Aparecida, falou da importância da evangelização da América Latina que começou com Cristóvão Colombo em 12 de outubro de 1492. Ele disse: “O anúncio de Jesus e de seu Evangelho não supôs, em nenhum momento, uma alienação das culturas pré-colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura estranha”. “Para os povos pré-colombianos, a evangelização significou conhecer e acolher a Cristo, o Deus desconhecido que seus antepassados, sem sabê-lo, procuravam em suas ricas tradições religiosas. Cristo era o Salvador que desejavam silenciosamente”. “Significou também ter recebido, com as águas do batismo, a vida divina que os fez filhos de Deus por adoção; ter recebido, além disso, o Espírito Santo que veio a fecundar suas culturas, as purificando e desenvolvendo os numerosos germens e sementes que o Verbo encarnado tinha posto nelas, as orientando assim pelos caminhos do Evangelho”. “A utopia de voltar a dar vida às religiões pré-colombianas, separando as de Cristo e da Igreja universal, não seria um progresso, a não ser um retrocesso. Em realidade seria uma involução para um momento histórico ancorado no passado”. É verdade que houve muitos erros e abusos por parte dos espanhóis que para cá vieram; muitos saíram das prisões na Espanha; mas o Evangelho livrou o México da barbárie asteca e maia. E isso graças a Nossa Senhora de Guadalupe, Aquela que “esmaga a cabeça da serpente”, e aos valorosos franciscanos e dominicanos.

Felipe Aquino / [email protected]

 

Por que o Nome “de Guadalupe”?

“Então o tio manifestou que era verdade e que naquela ocasião ele havia melhorado e que A tinha visto da mesma maneira como Ela havia aparecido ao seu sobrinho, sabendo por Ela que o enviou ao México para ver o Bispo. Também, a Senhora o disse que quando ele fosse ao Bispo, lhe revelaria o que viu e de que maneira milagrosa Ela o havia curado, e como seria chamada, assim como Sua Santíssima Imagem, a sempre Virgem Santa Maria de Guadalupe” (Nican Mopohua). Por que haveria a Virgem Maria, de aparecer a um índio em um recentemente conquistado México e falando-lhe em seu idioma nativo, Nahuatl, e querer chamar-se “de Guadalupe”, um nome espanhol? Quis Ela em todo caso, ser chamada de Guadalupe por causa da estátua de Nossa Senhora de Guadalupe em Estremadura, Espanha? Em todas as suas aparições, a Santíssima Virgem Maria, identificou-se como Virgem Maria e títulos como Mãe de Deus entre outros, e geralmente logo conhecida com o nome de lugares ou regiões onde Ela havia aparecido (Lourdes, Fátima, etc.). Então, por que a Virgem, aparecendo a um índio em um México recém invadido e falando-lhe em seu idioma nativo, querer ser chamada com um nome espanhol de Guadalupe? Estava Ela querendo referir-se a milagrosa estátua de Nossa Senhora de Guadalupe, que foi outorgada pelo Papa Gregório Magno, ao Arcebispo de Sevilla, que estava perdida por 600 anos e foi encontrada por Gil Cordero em 1326, guiado por uma aparição de Nossa Senhora? A milagrosa e veneradíssima estátua foi chamada de Guadalupe porque assim chamava-se o povoado situado ao redor do descobrimento. A origem do nome Guadalupe sempre foi motivo de controvérsias, e muitas possíveis explicações tem sido dadas. Entretanto, acredita-se como a mais provável que o nome é o resultado do nahuatl para o espanhol, das palavras usadas pela Virgem durante Sua aparição a Juan Bernardino, o tio enfermo de Juan Diego. Acredita-se que Nossa Senhora usou a palavra Azteca Nahuatl de coatlaxopeuh o qual é pronunciado “quatlasupe” e soa extremamente parecido com a palavra em espanhol Guadalupe. Coa significando serpente, tla o artigo “a”, enquanto xopeuh significa esmagar. Assim, Nossa Senhora deve ter chamado a si mesma como “Aquela que esmaga a serpente”. Devemos lembrar que os Aztecas ofereciam anualmente mais de 20.000 homens, mulheres e crianças como sacrifícios a seus deuses, sempre sedentos de sangue, ritos que em muitos casos incluíam canibalismo dos corpos das vítimas. Em 1487, devido a dedicação de um novo templo em tenochtilan, uns 80.000 cativos foram imolados em sacrifícios humanos em uma só cerimônia que durou quatro dias. Certamente, neste caso Ela esmagou a serpente, e milhões de nativos foram convertidos ao Cristianismo.

 

A IMAGEM DE GUADALUPE MUDOU A HISTÓRIA DO OCIDENTE
Conclusões de um livro publicado por um jornalista do jornal alemão «Die Welt»
ROMA, domingo, 11 de dezembro de 2005

A imagem da Virgem de Guadalupe mudou a história do Ocidente, conclui um livro publicado em espanhol pelo correspondente em Roma do jornal diário alemão «Die Welt». Paul Badde, no volume «A Moreninha – Como a aparição da Virgem configurou a história universal», recém-editado no México por «Boa Imprensa» (271 páginas), mostra como a religião e a cultura da América, e particularmente do México, são impossíveis de compreender sem conhecer a história das aparições de Maria ao indígena São Juan Diego. «Sem este enigmático evento não se pode explicar por que os habitantes da América Central e do Sul, em um lapso mínimo, incorporaram-se ao cristianismo», explica o jornalista e historiador, depois de ter reconstruído os primeiros fracassos dos evangelizadores após a conquista do império asteca. «Foi Maria de Guadalupe quem integrou todo um continente à cultura ocidental», explica depois de ter penetrado nos numerosos mistérios que rodeiam a Virgem do Tepeyac. O livro aprofunda em alguns deles, como por exemplo, o fato de que não foi pintada com nenhum tipo de corante nem pigmento (como o Santo Sudário de Turim) ou o que ainda hoje se conserve o tecido de fibras de agave que deveria ter se apodrecido em vinte anos. A investigação mostra também as figuras contidas nas pupilas dos olhos da Virgem que podem ser percebidas quando se ampliam com 25.000 pixels por milímetro quadrado, respeitando as leis ópticas que na época das aparições eram totalmente desconhecidas. Outro capítulo está dedicado aos símbolos apresentados nas vestes da Moreninha, impossíveis de decifrar para um ocidental e que, contudo, eram um livro aberto para os índios: entre outras coisas, representa o firmamento estelar em dezembro de 1531, seguindo os códigos astecas da época. Badde vai oferecendo estas e outras surpresas ao leitor, capítulo por capítulo, mas, ao ir descobrindo-as, a vida do jornalista alemão se transforma. Ao final, ao contemplar a imagem da Virgem na Villa de Guadalupe, a vida do escritor ficaria totalmente estremecida: «Ai, minha menina! Desculpe-me que cheguei tão tarde. Mas já sabes que tive muitos afazeres. Moreninha minha!», afirma no último capítulo, convertido sem se dar conta em uma oração. Badde deu a conhecer pela primeira vez ao grande público alemão o que aconteceu em dezembro de 1531 no Monte Tepeyac. Agora permite ao grande público de língua espanhola, e em particular ao mexicano, surpreender-se ante aqueles fatos com os olhos de um alemão.

 

HISTÓRIA DE NOSSA SENHORA DE GUADALUPE É «APAIXONANTE»
Entrevista com o padre Alexandre Paciolli, L.C.

BRASÍLIA, quarta-feira, 10 de dezembro de 2008 (ZENIT.org).- «Sem dúvida a história de Nossa Senhora de Guadalupe é apaixonante, assim como todos os estudos realizados na imagem dela», afirma o sacerdote responsável pelo apostolado da Virgem Peregrina da Família. Às vésperas do dia da padroeira da América, 12 de dezembro, Zenit entrevistou o Pe. Alexandre Paciolli, L.C., pároco da paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, em Brasília. O sacerdote Legionário de Cristo falará sobre o milagre de Guadalupe durante o Encontro Juventude e Família, que se celebra de 12 a 14 de dezembro na capital brasileira.

Como surgiu o apostolado da Virgem Peregrina de Guadalupe? Quando eu era diácono, no ano 2000, tive a graça de exercer meu ministério no Rio de Janeiro. Lá, depois de palpar o fervor das famílias, mas ao mesmo tempo, de ver também tantas situações delicadas, senti a necessidade de levar uma capela de Nossa Senhora de Guadalupe aos lares católicos para que a Padroeira da América abençoasse aquelas situações. Comecei, portanto, com a ajuda da Canção Nova, a divulgar a devoção a Virgem de Guadalupe e a propagar os últimos estudos científicos na tilma de São Juan Diego. Foi uma bênção. No primeiro evento na Canção Nova saíram 1500 capelinhas peregrinas. Depois fui ao Hallel de Franca para pregar, e lá também Nossa Senhora de Guadalupe entrou em muitos lares. Hoje está em mais de 20 países!

Fale-nos dos objetivos e dos frutos do apostolado. Os objetivos desse apostolado são, por meio da Padroeira da América, a Virgem de Guadalupe: rezar o terço em família, convidar mais famílias a que rezem o terço, acolher a vida humana, promover as vocações à vida consagrada e sacerdotal e de dar testemunho do amor cristão. Os frutos são: muitas conversões, curas materiais e espirituais, famílias renovadas… Sugiro que possam ver o site: www.virgemperegrina.com.br para que leiam mais testemunhos.

A história da Virgem de Guadalupe continua a seduzir corações e a despertar interesse ainda hoje, não? Sem dúvida a história de Nossa Senhora de Guadalupe é apaixonante, assim como todos os estudos realizados na imagem dela. Este fato, para o qual a ciência, depois de 500 anos, ainda não pode encontrar explicação certa, é um dos mistérios mais surpreendentes de todos os tempos. Um mistério que representa desde então, um dos maiores pontos de união entre todos nós católicos. Dizia o Dr. Homero Hernández Illescas, Investigador e científico guadalupano: “É um fato que não se pode explicar simplesmente por argumentos meramente humanos”. E sem dúvida é assim! A Santíssima Virgem de Guadalupe está ligada de modo especial ao nascimento da Igreja na História dos povos da América que através dela chegaram a encontrar a Cristo. A aparição da Santíssima Virgem ao índio Juan Diego na colina do Tepeyac teve uma repercussão decisiva na evangelização. Tal influxo supera amplamente os limites da nação mexicana, alcançando o continente inteiro. A América reconheceu no rosto mestiço da Virgem de Guadalupe o grande exemplo de evangelização perfeitamente inculturada. Não somente no Centro e no Sul, mas também no norte do continente a Virgem de Guadalupe é venerada como Rainha de toda a América. De fato, Pio X proclamou Nossa Senhora de Guadalupe “Padroeira de toda a América Latina”; Pio XI de “Padroeira de todas as Américas”; em 1945 o Papa Pio XII a proclama “Imperatriz de toda a América”, João XIII “Missionária Celeste do novo mundo” e “Mãe das Américas”; finalmente João Paulo II pediu que seja celebrado o dia 12 de dezembro, em todo continente Americano, a Virgem de Guadalupe, “Mãe e Evangelizadora da América”! Não são várias Américas, mas uma só América sob o manto de Nossa Senhora de Guadalupe.

Qual o significado dos apostolados marianos na América, continente de grande devoção à Virgem? Para mim esses apostolados têm a função de unir nosso continente americano sob o manto de Nossa Senhora; um continente marcado por tantas diferenças sociais, situações de conflito, em certos lugares de opressão, invasão das seitas… Nossa Senhora vem nos dizer que deseja que a nossa fé católica siga sempre forte, que não desistamos ou diminuamos o ritmo da evangelização, pois Ela está passando adiante de todas nossas necessidades. De fato gosto muito dessa oração a Nossa Senhora de Guadalupe escrita por João Paulo II que reflete o que falei acima: “Concedei que sejamos fiéis testemunhas da vossa Ressurreição aos olhos das novas gerações da América, para que, conhecendo-Vos, Vos sigam e encontrem em Vós a sua paz e a sua alegria… Dai-nos força para anunciar corajosamente a vossa Palavra ao serviço da nova evangelização, para consolidar no mundo a esperança… Nossa Senhora de Guadalupe, Mãe da América, rogai por nós!” (Ecclesia in America, 76).

Qual a importância de cultivar o amor por Maria, de forma especial sob o título da Virgem de Guadalupe? De entregar a Nossa Senhora de Guadalupe o nosso continente, para que nele reine sempre o fervor evangelizador, na fidelidade a Cristo e à Igreja. Vemos em Maria de Guadalupe a “Estrela da primeira e da nova evangelização”. Ela deu forças para que nossos predecessores fossem fiéis a Cristo. Nós também seremos fiéis, sob o manto Dela! Porém não podemos esquecer-nos que toda devoção mariana essencialmente é imitação de Maria! Portanto a Santíssima Virgem Maria deve ser para cada um de nós o modelo mais acabado da nova criatura surgida do poder redentor de Cristo, e o testemunho mais eloqüente da novidade de vida trazida ao mundo pela ressurreição do Senhor. Devemos sempre cultivar a verdadeira devoção à Santíssima Virgem, Mãe amantíssima da Igreja, que consiste muito especialmente na imitação de suas virtudes, sobretudo de sua fé, esperança e caridade, de sua obediência, de sua humildade e de sua colaboração no plano redentor de Cristo.
(José Caetano / Alexandre Ribeiro)

 

VIAGEM APOSTÓLICA DO PAPA JOÃO PAULO II À REPÚBLICA DOMINICANA, MÉXICO E BAHAMAS
ORAÇÃO DO SANTO PADRE À NOSSA SENHORA DE GUADALUPE

Ó Virgem Imaculada, Mãe do verdadeiro Deus e Mãe da Igreja! Vós, que, deste lugar, manifestais a vossa clemência e a vossa compaixão por todos os que imploram o vosso amparo: ouvi a oração que com filial confiança Vos dirigimos e apresentai-a ao vosso Filho Jesus, único Redentor nosso. Mãe de misericórdia, Mestra do sacrifício escondido e silencioso, a Vós, que vindes ao encontro de nós todos, pecadores, consagramos, neste dia, todo o nosso ser e todo o nosso amor. Consagramo-Vos também a nossa vida, os nossos trabalhos, as nossas alegrias, as nossas doenças e os nossos sofrimentos. Dai a paz, a justiça e a prosperidade aos nossos povos, já que tudo o que nós temos e o que somos o deixamos ao vosso cuidado, Mãe e Senhora nossa. Queremos ser totalmente vossos e convosco desejamos percorrer o caminho de uma fidelidade plena a Jesus Cristo na sua Igreja: não nos deixeis desprender da vossa mão amorosa. Virgem de Guadalupe, Mãe das Américas, pedimo-Vos por todos os Bispos, a fim de que eles conduzam os fiéis por veredas de intensa vida cristã, de amor e de humilde serviço a Deus e às almas. Contemplai esta seara imensa e intercedei por que o Senhor infunda fome de santidade em todo o Povo de Deus e conceda abundantes vocações de sacerdotes e religiosos fortes na fé e zelosos dispensadores dos mistérios de Deus. Concedei aos nossos lares a graça de amarem e respeitarem a vida nascente, com o mesmo amor com que Vós em vosso seio concebestes a vida do Filho de Deus. Virgem Santa Maria, Mãe do Amor Formoso, protegei as nossas famílias, para que elas estejam sempre muito unidas, e abençoai a educação dos nossos filhos. Esperança nossa, olhai-nos com compaixão ensinai-nos a ir continuamente para Jesus e, se cairmos, ajudai-nos a levantarmo-nos e a voltarmos para Ele, mediante a confissão das nossas culpas e dos nossos pecados no sacramento da Penitência que traz sossego à alma. Suplicamo-Vos que nos concedais um amor muito grande a todos os santos Sacramentos que são como que as marcas que o vosso Filho nos deixou na terra. Assim, nossa Mãe Santíssima, com a paz de Deus na consciência, com os nossos corações livres do mal e de ódios, poderemos levar a todos a alegria verdadeira e a verdadeira paz, as quais vêm do Vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo que, com Deus Pai e com o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos. Amém.

IOANNES PAULUS PP. II México, Janeiro de 1979

Espiritualidade do Advento

Toda a liturgia do Advento é apelo para se viver alguns comportamentos essenciais do cristão: a expectativa vigilante e alegre, a esperança, a conversão, a pobreza. Somente na vivência profunda destes elementos, o nascimento de Cristo terá um sentido profundo em nossa vida e não uma simples lembrança histórica.

1) A expectativa vigilante e alegre caracteriza sempre o cristão e a Igreja, porque o Deus da revelação e o Deus da promessa, que manifestou em Cristo toda sua fidelidade ao homem. Em toda a liturgia do Advento ressoam as promessas de Deus, principalmente pela voz de Isaías, que reaviva a esperança de Israel.

A esperança da Igreja, portanto a nossa esperança, é a mesma de Israel, mas já realizada em Cristo. O olhar da comunidade, fixa-se com esperança mais segura no comprimento final, a vinda gloriosa do Senhor: “Maranatha: vem, Senhor Jesus”. É o grito e o suspiro de toda Igreja e de cada um de nós, em seu peregrinar terreno ao encontro definitivo do Senhor.

A expectativa vigilante é acompanhada sempre pelo convite à alegria. O Advento é tempo de expectativa alegre porque aquilo que se espera certamente acontecerá. Deus é fiel. A vinda do Salvador cria um clima de alegria que a liturgia não só relembra, mas quer que seja vivida por cada um de nós.

2) No Advento, toda a Igreja vive sua grande esperança. O Deus da revelação de Jesus tem um nome: “Deus da esperança” (Rm 15,13). Não é o único nome do Deus vivo, mas um nome que o identifica como “Deus para nós e conosco”. Este tempo deve ser para nós, e todos precisamos,um tempo de grande educação à esperança: uma esperança forte e paciente; uma esperança que aceita a hora da provação, da perseguição e da lentidão no desenvolvimento do reino; uma esperança que confia no Senhor e nos liberta das nossas muitas impaciências.

Esse empenho da Igreja torna-se mais forte e urgente diante das grandes áreas vazias de esperança, que se registram no mundo contemporâneo, inclusive no nosso Brasil. A geografia do desespero é maior e mais terrível do que a geografia da fome e é expressão aterradora do avanço de anti-humanismos destruidores, como a droga e a violência.

3) Advento, tempo de conversão. Não existe possibilidade de esperança e de alegria sem retornar ao Senhor de todo o coração, na expectativa da sua volta. A vigilância requer luta contra o torpor e a negligência; requer prontidão, e portanto, desapego dos prazeres e bens terrenos (cf. Lc 21,34 ss).

Os comportamentos fundamentais do cristão exigidos pelo espírito do Advento, estão intimamente unidos entre si, de modo que não é possível viver a expectativa, a esperança e a alegria pela vinda do Senhor, sem uma profunda conversão. Por outro lado,como as tentações da vida presente antecipam a tribulação escatológica, a vigilância cristã exige um treinamento diário na luta contra o maligno; exige sobriedade e oração contínua: “sejam sóbrios e fiquem de prontidão” (1 Pd 5,8-9).

4) Enfim, um comportamento que caracteriza a espiritualidade do Advento é o do pobre. Não tanto o pobre em sentido econômico, mas o pobre entendido em sentido bíblico: aquele que confia em Deus e apóia-se totalmente nele. Estes anawîm, como os chama a bíblia, são os mansos e humildes, porque as suas disposições fundamentais são a humildade, o temor de Deus, a fé.

Jesus proclamará felizes os pobres e neles reconhecerá os herdeiros do Reino,e ele mesmo será um pobre. Maria, a mulher do advento, emerge como modelo dos pobres do Senhor, que esperam as promessas de Deus, confiam nele e estão disponíveis à atuação do plano de Deus. Não nos esqueçamos que a pobreza do coração, essencial para entrar no Reino, não exclui, mas exige a pobreza efetiva, a renúncia em colocar a própria confiança nos bens terrenos.

Vivendo assim este “tempo de graça” que a Igreja nos oferece, o Natal do Senhor de 2012 terá um novo sentido em nossa vida espiritual.

Padre Gian Luigi Morgano

 

ADVENTO – TEMPO DE ESPERA
Pe. Marcelo Rezende Guimarães

As primeiras comunidades, como testemunha o Apocalipse, tinham uma oração muito curta que expressa bem o desejo do seu coração: Maranatha! Vem, Senhor Jesus! (Ap 22, 20). Infelizmente, depois, foi se perdendo e esvaziando este desejo de espera. Seríamos muito pobres se reduzíssemos o Advento, simplesmente, a um tempo de preparação para a festa do Natal. O Advento é baseado na espera da vinda do Reino e a nossa atitude básica é acender e renovar em nós este desejo e este ânimo. Num tempo marcado pelo consumo, é preciso que afirmemos profeticamente a esperança. No âmbito pessoal, intensificando o desejo do coração e retomando o sentido da vida. Mas as esperanças são também coletivas: é o sonho do povo por justiça e paz – “as espadas transformadas em arado e as lanças em podadeiras” (Is 2, 4). E são também cósmicas: “a criação geme e sofre em dores de parto até agora e nós também gememos em nosso íntimo esperando a libertação” (Rm 8, 18-23). Cantar como resposta das preces “Vem, Senhor Jesus” pode ajudar a animar a esperança de nossas comunidades. Igualmente, depois da acolhida de quem preside, a comunidade poderia lembrar fatos e acontecimentos (não ainda preces ou intenções) que são para ela sinais de esperança e da vinda de Deus entre nós. Podem ser trazidos símbolos que evoquem tal luta ou acontecimento. Algum refrão, como “eu quero ver, eu quero ver acontecer”, certamente contribuiria para renovar a esperança. “O melhor da festa é esperar por ela”, diz um ditado popular. A espera e a preparação de um acontecimento é, do ponto de vista humano, tão importante quanto este evento. Daí a necessidade de fazermos uma avaliação do que significa e de como vivenciamos o tempo do Advento em nossas comunidades. Seria oportuno se as equipes de liturgia, ao prepararem as celebrações deste tempo, pudessem se colocar a seguinte questão: que importância damos ao tempo do Advento? Vale aqui também lembrar o que escreve o liturgista Frei José Ariovaldo da Silva, na revista “Mundo e Missão”, dezembro de 2004: “Atualmente, muitas comunidades eclesiais, influenciadas pela onda consumista por ocasião das festas natalinas e de final de ano, estão assumindo o costume de enfeitar suas igrejas já bem antes de o Natal chegar. Em pleno tempo de Advento, que é um ‘tempo de piedosa e alegre expectativa’, já ornamentam suas igrejas com flores, pisca-piscas, árvores de Natal e outros motivos natalinos, como se já fosse Natal. Posso dar uma sugestão? Não sejam tão apressadas. Não entrem na onda dos símbolos consumistas da nossa sociedade. Evitem enfeitar a igreja com motivos natalinos durante o Advento. Deixem o Advento ser Advento e o Natal ser Natal. Enfeites natalinos dentro da igreja, só quando Natal chegar. Então, a festa com certeza será melhor. Sobretudo se houver na comunidade uma boa preparação espiritual”. É preciso tomar o cuidado de não abortar o Advento ou de celebrá-lo superficialmente. Este cuidado nos levará a não antecipar o Natal, seja fazendo celebrações natalinas antes do previsto, seja usando ritos próprios da festa. Se cantamos “Noite Feliz” no dia 15 de dezembro, o que iremos cantar na noite do dia 24 para 25? Mas, também não podemos celebrar o advento como se Cristo ainda não tivesse nascido. A longa noite da espera terminou. O mundo já foi redimido, embora a história da salvação continue…

Perguntas para reflexão pessoal e em grupos
1. Quais são as práticas religiosas mais comuns no tempo do Advento?
2. Como viver e celebrar o Advento em nossa comunidade eclesial?
3. Qual a característica que marca a liturgia do tempo do Advento?

 

O QUE É O TEMPO DE ADVENTO?
O que significa para os católicos o tempo de Advento? Para que existe?

É a época do ciclo litúrgico em que nos preparamos para a vinda de Jesus Cristo. A vinda de Cristo à terra é um acontecimento tão imenso que Deus quis prepará-lo durante séculos, com um Advento que durou quatro mil anos, completado com o anelo de todas as almas santas do Antigo Testamento que não cessavam de pedir pela vinda do Messias o Salvador.

Esta vinda é tripla: CRISTO VEIO NA CARNE E NA DEBILIDADE -VEM NO ESPÍRITO E NO AMOR- E VIRÁ NA GLÓRIA E NO PODER.

A PRIMEIRA VINDA SE REALIZOU QUANDO O VERBO DIVINO SE FEZ HOMEM NO SEIO PURÍSSIMO DE MARIA e nasceu – menino débil e pobre – no presépio de Belém, a noite de Natal faz vinte séculos.

A SEGUNDA VINDA É CONSTANTE, feito de perene atualidade na história da Igreja e na vida íntima das almas. Pela ação misteriosa do Espírito de Amor, Jesus está nascendo constantemente nas almas, seu nascimento místico é um fato presente, ou melhor dito é de ontem, e de hoje, e de todos os séculos.

A TERCEIRA VINDA DE CRISTO -QUE SERÁ NA GLÓRIA, NO PODER E NO TRIUNFO- é a que clausurará os tempos e inaugurará a eternidade. Jesus virá, não a redimir, como na primeira vinda, nem a santificar, como na segunda; senão a julgar, para fazer reinar a verdade e a justiça, para que prevaleça a santidade, para que se estabeleça a paz, para que reine o amor.

Falemos do tempo de ADVENTO em especial. O ano eclesiástico se abre com o Advento. A Igreja nos alerta com quatro semanas de antecipação para que nos preparemos a celebrar o Natal, o nascimento de Jesus e, por sua vez, para que, com a recordação da primeira vinda de Deus feito homem ao mundo estejamos muito atentos a estas outras vindas do Senhor.

O Advento é tempo de preparação e esperança.

“Vem Senhor e não tardes”. Este é um tempo para fazer com ESPECIAL FINEZA O EXAME DE NOSSA CONSCIÊNCIA E DE MELHORAR NOSSA PUREZA INTERIOR PARA RECEBER A DEUS. É o momento para ver quais são as coisas que nos separam do Senhor e tirar-nos tudo aquilo que nos afasta DELE. É por isso importante ir as raízes mesmas de nossos atos, aos motivos que inspiram nossas ações e depois aproximar-nos ao SACRAMENTO DA PENITÊNCIA OU RECONCILIAÇÃO, para que se nos perdoem nossos pecados.

Assim quando chegue o dia de Natal, nossa alma estará disposta para receber a Jesus. É necessário manter-nos em estado de vigília para lutar contra o inimigo que sempre estará tentando-nos para afastar-nos do bem. CUIDEMOS COM ESMERO NOSSA ORAÇÃO PESSOAL, evitemos a tibieza e mantenhamos vivo o desejo de santidade. ESTEJAMOS VIGILANTES COM MORTIFICAÇÕES PEQUENAS, que nos mantenham despertos para tudo o que é de Deus, e atentos a evitar tudo o que nos desvie do caminho para Ele. PEÇAMOS PERDÃO AO SENHOR SE LHE OFENDEMOS E APROFUNDEMOS NO SENTIDO DO ADVENTO.

Tem presente “QUEM É O QUE VEM, DE ONDE VEM E PORQUE VEM”. Com o coração limpo saiamos a receber a Nosso Rei, que está por vir. Maria será nossa ajuda e nos ensinará o caminho para chegar a Jesus.

 

Esquema do Advento

Começa com as vésperas do domingo mais próximo ao 30 de novembro e termina antes das vésperas do Natal. Os domingos deste tempo se chamam 1º, 2º, 3º, e 4º do Advento. Os dias 16 a 24 de dezembro (Novena de Natal) tendem a preparar mais especificamente as festas do Natal. O tempo do Advento tem uma duração de quatro semanas. Este ano, começa no domingo 01 de dezembro, e se prolonga até a tarde do dia 24 de dezembro, em que começa propriamente o Tempo de Natal. Podemos distinguir dois períodos.
No primeiro deles, que se estende desde o primeiro domingo do Advento até o dia 16 de dezembro, aparece com maior relevo o aspecto escatológico e nos é orientado à espera da vinda gloriosa de Cristo. As leituras da Missa convidam a viver a esperança na vinda do Senhor em todos os seus aspectos: sua vinda ao fim dos tempos, sua vinda agora, cada dia, e sua vinda há dois mil anos.
No segundo período, que abarca desde 17 até 24 de dezembro, inclusive, se orienta mais diretamente à preparação do Natal. Somos convidados a viver com mais alegria, porque estamos próximos do cumprimento do que Deus prometera. Os evangelhos destes dias nos preparam diretamente para o nascimento de Jesus. Com a intenção de fazer sensível esta dupla preparação de espera, a liturgia suprime durante o Advento uma série de elementos festivos. Desta forma, na Missa já não rezamos o Glória. Se reduz a música com instrumentos, os enfeites festivos, as vestes são de cor roxa, o decorado da Igreja é mais sóbrio, etc. Todas estas coisas são uma maneira de expressar tangivelmente que, enquanto dura nosso peregrinar, nos falta alo para que nosso gozo seja completo. E quem espera, é porque lhe falta algo. Quando o Senhor se fizer presente no meio do seu povo, haverá chegado a Igreja à sua festa completa, significada pela Solenidade do Natal.
Temos quatro semanas nas quais de domingo a domingo vamos nos preparando para a vinda do Senhor.
A primeira das semanas do Advento está centralizada na vinda do Senhor ao final dos tempos. A liturgia nos convida a estar em vela, mantendo uma especial atitude de conversão.
A segunda semana nos convida, por meio do Batista a “preparar os caminhos do Senhor”; isso é, a manter uma atitude de permanente conversão. Jesus segue chamando-nos, pois a conversão é um caminho que se percorre durante toda a vida.
A terceira semana preanuncia já a alegria messiânica, pois já está cada vez mais próximo o dia da vinda do Senhor.
Finalmente, a quarta semana nos fala do advento do Filho de Deus ao mundo. Maria é figura central, e sua espera é modelo e estímulo da nossa espera. Quanto às leituras das Missas dominicais, as primeiras leituras são tomadas de Isaías e dos demais profetas que anunciam a Reconciliação de Deus e, a vinda do Messias.
Nos três primeiros domingos se recolhem as grandes esperanças de Israel e no quarto, as promessas mais diretas do nascimento de Deus. Os salmos responsoriais cantam a salvação de Deus que vem; são orações pedindo sua vinda e sua graça. As segundas leituras são textos de São Paulo ou das demais cartas apostólicas, que exortam a viver em espera da vinda do Senhor.
A cor dos paramentos do altar e as vestes do sacerdote é o roxo, igual à da Quaresma, que simboliza austeridade e penitencia.
São quatro os temas que se apresentam durante o Advento:

I Domingo
A vigilância na espera da vinda do Senhor. Durante esta primeira semana as leituras bíblicas e a prédica são um convite com as palavras do Evangelho: “Velem e estejam preparados, pois não sabem quando chegará o momento”. É importante que, como uma família, tenhamos um propósito que nos permita avançar no caminho ao Natal; por exemplo, revisando nossas relações familiares. Como resultado deveremos buscar o perdão de quem ofendemos e dá-lo a quem nos tem ofendido para começar o Advento vivendo em um ambiente de harmonia e amor familiar. Desde então, isto deverá ser extensivo também aos demais grupos de pessoas com as quais nos relacionamos diariamente, como o colégio, o trabalho, os vizinhos, etc. Esta semana, em família da mesma forma que em cada comunidade paroquial.

II Domingo
A conversão, nota predominante da predica de João Batista. Durante a segunda semana, a liturgia nos convida a refletir com a exortação do profeta João Batista: “Preparem o caminho, Jesus chega”. Qual poderia ser a melhor maneira de preparar esse caminho que busca a reconciliação com Deus? Na semana anterior nos reconciliamos com as pessoas que nos rodeiam; como seguinte passo, a Igreja nos convida a acudir ao Sacramento da Reconciliação (Confissão) que nos devolve a amizade com Deus que havíamos perdido pelo pecado. Durante esta semana poderíamos buscar nas diferentes igrejas mais próximas, os horários de confissões disponíveis, para quando chegar o Natal, estejamos bem preparados interiormente, unindo-nos a Jesus e aos irmãos na Eucaristia.

III Domingo
O testemunho, que Maria, a Mãe do Senhor, vive, servindo e ajudando ao próximo. Na sexta-feira anterior a esse Domingo é a Festa da Virgem de Guadalupe, e precisamente a liturgia do Advento nos convida a recordar a figura de Maria, que se prepara para ser a Mãe de Jesus e que além disso está disposta a ajudar e a servir a todos os que necessitam. O evangelho nos relata a visita da Virgem à sua prima Isabel e nos convida a repetir como ela: “quem sou eu para que a mãe do meu Senhor venha a visitar-me? Sabemos que Maria está sempre acompanhando os seus filhos na Igreja, pelo que nos dispomos a viver esta terceira semana do Advento, meditando sobre o papel que a Virgem Maria desempenhou. Propomos que fomentar a devoção à Maria, rezando o Terço em família.

IV Domingo
O anúncio do nascimento de Jesus feito a José e a Maria. As leituras bíblicas e a prédica, dirigem seu olhar à disposição da Virgem Maria, diante do anúncio do nascimento do Filho dela e nos convidam a “aprender de Maria e aceitar a Cristo que é a Luz do Mundo”. Como já está tão próximo o Natal, nos reconciliamos com Deus e com nossos irmãos; agora nos resta somente esperar a grande festa. Como família devemos viver a harmonia, a fraternidade e a alegria que esta próxima celebração representa. Todos os preparativos para a festa deverão viver-se neste ambiente, com o firme propósito de aceitar a Jesus nos corações, as famílias e as comunidades.

II Domingo do Advento – Ano B

Por Mons. Inácio José Schuster

Neste segundo domingo do Advento, eu me aterei à segunda leitura tirada da Segunda Carta atribuída a Pedro. Trata-se do último texto do Novo Testamento a ser escrito: foi redigida, provavelmente, nos primeiros anos do segundo século de nossa era. “Caríssimos – diz-nos ele – deveis saber que mil anos diante do Senhor são como um dia, e um dia como mil anos.” O autor deveria, naquela época, combater o erro daqueles cristãos que, cansados de esperar, imaginavam que a Parusia não viria mais, que O Senhor Jesus não mais se manifestaria e que o Cristianismo, conseqüentemente, dissolver-se-ia na História. Bem, devemos dizer, desde já, que nenhum desses autores imaginou que a História pudesse ainda caminhar dois mil anos; e nenhum de nós espera o fim do mundo para seus próprios dias, ou para muito em breve, antes mesmo de consumar a vida neste mundo. É possível, embora não tenhamos nenhuma certeza, que este fim do mundo ainda demore centenas ou milhares de anos. Mas isto não importa. Importa o seguinte: nós só vivemos uma vida; não existe reencarnação para quem tem fé cristã. Jamais repetiremos esta vida. Existe uma única encarnação, e esta se deu quando fomos concebidos no seio materno. A nossa existência limita-se a setenta, oitenta ou noventa anos, mas, cedo ou tarde, ela termina. Se o final do mundo se prolonga – e nenhum de nós saberá dizer como e quando, se com o fogo ou com o frio – nós podemos dizer que, no dia em que deixarmos de viver para este mundo aqui, encontraremos o nosso fim. Aquele será o meu fim do mundo, aquele será o seu fim do mundo. Nós não nos encaminhamos, no entanto, para o nada ou para o vazio. Nós nos encaminhamos para uma grande plenitude. Deus manifesta-Se e revela-Se a nós, como Aquele que será o nosso futuro, para sempre, e este mundo, embora possa passar por uma grande metamorfose e transformação, pelo fogo ou pelo calor – como diz o texto – ou pelo frio gélido, como falam os cientistas, não interessa muito, isto não modificaria substancialmente a situação; Deus não nos criou para aniquilação. Novos céus e novas terras existirão, qualitativamente diversas deste que nós conhecemos agora e onde reinará a Justiça. E por isso mesmo, acalentados com essa esperança, nós caminhamos apressados em direção a esse fim, iluminados, porém, pela Palavra de Deus.

 

NASCEMOS PORQUE DEUS NÃO PERDEU A ESPERANÇA NA HUMANIDADE
Padre Bantu Mendonça

São Marcos nos apresenta uma novidade como ponto central na história da humanidade e na vida individual de todos os homens: a proclamação de Jesus de Nazaré como o Ungido e Messias por ser Ele o Filho do Deus único e verdadeiro. Essa proclamação é necessária nos dias de hoje até para muitos batizados que vivem de costas a essa realidade. O Antigo Testamento está ligado ao Novo Testamento porque o primeiro é a palavra da esperança e o segundo é o cumprimento dela. Ambos escritos – sob a inspiração divina – se complementam como uma história única em que Deus Todo-Poderoso intervém de modo pessoal. Deus não é somente o providente e diretor, mas Ele também intervém com Sua presença para impedir que tudo acabe em tragédia pelo triunfo do mal. João, no deserto, é uma figura que representa a atualização dos desejos da humanidade: a proximidade de Deus na vida de todos os que não conseguem sair da miséria vivida, quer seja na ordem material, quer na ordem espiritual. O Deus de João Batista é um Deus próximo, amigo e protetor. É o Deus que os profetas anunciaram e que João Batista recorda como eterno aliado para quem optou pelo bem. São Marcos inicia seu Evangelho com as narrativas sobre João Batista e o batismo de Jesus, e o encerra com a narrativa do encontro do túmulo vazio pelas mulheres (o que vem a seguir, em Mc 16,9-20 é consensualmente um acréscimo posterior ao texto original). Marcos segue a trajetória delineada por Pedro, registrada por Lucas em Atos dos Apóstolos, segunda a qual o testemunho de Jesus abrange o período que vai “desde o batismo de Jesus até o dia em que foi arrancado dentre nós” (cf. At 1,22). Posteriormente, Mateus e Lucas elaborarão as narrativas da infância de Cristo, que serão inseridas antes das narrativas sobre João Batista e sobre o batismo do Senhor. Por último, João escreverá seu Evangelho iniciando-o com o Prólogo do Verbo encarnado para, em seguida, narrar os fatos relativos a João Batista. João Batista e Jesus têm íntima relação em seus ministérios. Lucas, de modo especial, destaca essa relação no seu Evangelho, fazendo um expressivo paralelismo nas suas narrativas de infância de João Batista e de Jesus. João Batista era filho de sacerdote, porém, rompe com a tradição sacerdotal e com o Templo de Jerusalém, indo para a periferia (“deserto”) às margens do rio Jordão, pregando a conversão à prática da justiça, por meio da qual os pecados são perdoados. Para o sistema religioso-sacerdotal da época, os pecados só poderiam ser perdoados diante dos sacerdotes no Templo de Jerusalém e diante de ofertas e sacrifícios. João descarta essa doutrina, anunciando que é pela prática da justiça que se supera o pecado. Com a sua pregação ele é visto como o cumprimento da profecia de Isaías, por preparar o caminho de Jesus Cristo. A Igreja toma como modelo de sua pregação neste Advento a mudança de mentalidade, como a que se dá naquele que se arrepende de um desígnio ou plano anterior como também de uma determinação errada ou ainda de uma atuação desastrosa. E as palavras dos antigos profetas indicam o novo caminho a empreender: “Deixai de praticar o mal e aprendei a fazer o bem”. Somente com este propósito poderemos entender no seu verdadeiro significado a visita de Jesus e Seu modelo como homem. Convido-lhe a ser como um menino que, diante do presépio, teve um colóquio com Jesus: – Que gostaria Jesus que eu te desse como presente de aniversário? – Três coisas – disse-lhe Jesus: Dá-me o desenho que fizeste hoje de manhã. – Mas ninguém gostou dele… – Por isso mesmo! Quero que sempre me dês aquilo que os outros não gostam de ti ou que tu mesmo olhas como frustração. Como segundo presente dá-me teu prato. – Mas eu quebrei o prato… – Por isso mesmo! Eu quero tudo que na tua vida está roto e fragmentado. Eu te ajudarei a recompô-lo. E a terceira coisa? Quero, pois, a resposta que deste aos teus pais quando te perguntaram pela quebra do prato. – Mas foi uma mentira! – Por isso mesmo! Eu te mostrarei como a verdade é mais proveitosa do que qualquer mentira, mesmo que nesta última encontres a desculpa que te parece necessária, para evitar que o fizeste por raiva, por pirraça. Gostaria de lembrá-lo de que para Deus nada é impossível. O que o Todo-Poderoso não é capaz de fazer é deixar de amá-lo. A sua vida para Ele tem conserto. Cada criatura, ao nascer, traz a mensagem de que Deus Pai ainda não perdeu a esperança no homem.

 

ESTEJA PREPARADO PARA A VINDA DO SENHOR
Homilia do Cardeal Dom Odilo Scherer no Hosana Brasil 2011

Estamos celebrando o Advento do Senhor, tempo que, na liturgia, é muito breve, mas muito intenso. Ele tem duas dimensões, uma que recordamos com facilidade, pois o Advento nos prepara para o Natal. De fato, neste tempo, nos preparamos para celebrar a solenidade do Natal do Senhor, recordando as promessas de salvação e do envio do Salvador ao mundo. Recordamos a fidelidade de Deus às suas promessas. O Senhor promete e cumpre; Ele já cumpriu a promessa de nos enviar o Salvador e, em cada momento da história a humanidade, somos chamados a acolher novamente o Salvador que veio e vem. Jesus veio para toda a humanidade e nós somos chamados a acolhê-Lo, a “abrir as portas ao Redentor” para que Ele entre em nossa vida. Que Seu Evangelho possa ser a luz que direciona toda a humanidade a viver bem. Assim como ouvimos o convite de Isaías: “Casa de Jacó, vinde todos caminhemos à luz do nosso Deus ”. Casa de Jacó significa o povo de Deus, toda a Igreja. Deixemo-nos guiar por Ele se quisermos que a salvação se realize. A outra dimensão do Advento é a próxima vinda do Salvador. Nós professamos no ‘Creio em Deus Pai’ a vinda gloriosa de Jesus crucificado que vem para julgar os vivos e mortos.  O tempo do Advento nos faz olhar para frente, para que o vai acontecer e nos lembra que vivemos em contínuo advento, ou seja, um tempo constante à espera do Deus que vem. De fato, Deus vem sempre, todos os dias, ao nosso encontro, mas nós precisamos também ir ao encontro d’Ele até o dia de Sua volta. Que nossa vida toda seja uma preparação de caminho ao encontro com o Senhor. Não percamos tempo com comilanças nem bebedeira, que são as ocupações do dia a dia, como se isso fosse o nosso tudo. Neste segundo domingo do Advento, a Palavra de Deus é muito bonita. Na segunda leitura da Carta de São Pedro, o autor responde ao questionamento: “Mas quando Ele virá?”. Já os apóstolos tinham essa preocupação, pois quando sabemos quando será, tudo se arranja. E Jesus respondeu a eles: “Só o Pai do Céu sabe quando vai ser”. Jesus diz que o importante é estarmos sempre preparados. E se alguém pergunta por que Deus não vem logo, Ele nos diz que “não vem logo porque quer que todos se salvem”. Deus tem paciência com todos os pecadores, dando tempo ao tempo. O Senhor dá tempo para que todos nós tenhamos a oportunidade de nos convertermos. É preciso estarmos sempre preparados, sempre no caminho certo. Nós vivemos no tempo do provisório. Tudo passa, porém do Senhor esperamos céus novos e nova terra onde reinará a justiça. No novo céu e na nova terra, onde realmente reina a justiça, é para lá que nós vamos. O Evangelho mostra a pregação de João Batista, que batiza o povo no Rio Jordão.  Uma voz que clama no deserto “Preparai o caminho do Senhor”. O deserto é lugar de prova, de acolher ou não a voz de Deus. João Batista fala ao deserto, onde muitos não querem ouvir. A Igreja, muitas vezes, fala ao deserto, mas fala com fé, sabendo que a Palavra de Deus tem sua força. A palavra do Senhor é consolo tão importante para nós! O Evangelho é uma palavra da misericórdia de Deus. “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna” (João 3,16). Como é importante dizer, repetir isso para que ninguém se desespere, mesmo quando estão no fundo do poço, caídos e prostrados, a fim de que tenham coragem de estender sua mão, pois a mão de Deus já está estendida! O Advento é um tempo de reavivar a esperança em Deus, mas também momento de conversão, de voltar-se para o Pai; tempo de nos convertermos, de confirmarmos nossa fé no Senhor. A segunda leitura nos adverte: “ninguém se distraia, que estejamos sempre prontos”. Que este tempo nos faça olhar para a vida toda com muita esperança e confiança em Deus. Nunca percamos de vista a meta de irmos ao encontro do Senhor quando Ele vier. Nossa vida é estarmos sempre prontos, com nossa fé acesa para irmos ao encontro do Senhor quando Ele vier.

 

Neste domingo aparece em grande destaque à figura de São João Batista, apelando à conversão e anunciando a vinda do Senhor: “Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus”. Quem é João Batista? É um homem de Deus, ou seja, é um homem escolhido por Deus e consagrado a Deus e, como todos os profetas, não fala de si próprio, mas anuncia a mensagem divina: na sua vida, o seu trabalho pessoal dá credibilidade à sua missão. São Mateus diz-nos que João pregava no deserto. As primeiras comunidades cristãs consideravam que o deserto era o local onde vivia o diabo. Viver no deserto era sinal de desejar enfrentar o mal e vencê-lo. Jesus Cristo foi tentado no deserto. A descrição do vestuário de João deixa bem claro que é alguém que vive na miséria e que se alimenta somente daquilo que vai encontrando (gafanhotos e mel silvestre). João é um homem despojado de tudo aquilo que possa dar à vida certo conforto. A sua pregação dirige-se a todos. “Acorria a ele gente de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região do Jordão”. Duas classes sociais são destacadas no evangelho: os fariseus e os saduceus. Os fariseus representam aquelas pessoas espiritualmente rígidas e conservadoras que impedem qualquer mudança; os saduceus representam aquelas pessoas que vivem preocupadas em preservar a sua condição social, os seus interesses e o seu prestígio. Também os fariseus e os saduceus “vinham ao seu (João) batismo”, mas João sabe bem que tudo é hipocrisia: “Raças de víboras… o machado já está posto à raiz das árvores. Por isso toda a árvore que não dá fruto será cortada e lançada ao fogo”. Neste domingo, o termo e o tema que aparecem nas leituras bíblicas é a conversão. Muitas vezes, considera-se conversão uma mudança de conduta moral individual com a finalidade de serenar a consciência pessoal, minimizando a transcendência social dos comportamentos. A conversão que João Batista prega é uma insistência na proximidade do Reino de Deus: trata-se de abrir um caminho para o Senhor. Converter-se é tornar possível que Deus seja o centro da minha vida. Mais ainda: João Batista fala da conversão da comunidade: é a comunidade que deve “abrir-se” à vontade de Deus, a encontrar-se em Deus: aqui, a responsabilidade é de todos. Trata-se de recuperar os sentimentos que tinha o povo de Israel: “a fé é uma religião histórica que privilegia o acontecimento da aliança como o lugar de encontro entre Deus e os homens”. Para o povo de Israel, conversão é deixar-se conduzir por Deus. Para ele e para nós, conversão é também saber viver comunitariamente, conscientes de que é Deus quem dá o verdadeiro sentido à nossa vida. João Batista anuncia o encontro definitivo de Deus com os homens. Hoje, a grande questão sobre a conversão é esta: como é que sentimos, aumentamos e vivemos o desejo de nos encontrar com Deus? Mas, que devemos esperar do encontro com Deus? O texto de Isaías ajuda-nos a purificar o significado do encontro com Deus. O profeta diz que o Espírito do Senhor é sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, conhecimento e temor de Deus, ou seja, tudo aquilo que nos faz compreender a realidade a partir da verdade de Deus. Cada um destes carismas ajuda o homem a ver a verdade como o Espírito de Deus a vê. É importante deixar claro que somente a experiência espiritual do homem (adorar, rezar, contemplar o mistério de Deus), lhe dá alegria e uma capacidade mística. O Espírito do Senhor dá uma nova dimensão ao conceito de justiça, porque esta se converte em instrumento de defesa do mais fraco e de extermínio dos ímpios. O Espírito do Senhor torna possível o impossível: a harmonia entre o lobo e o cordeiro, a pantera e o cabrito, o bezerro e o leãozinho. Cada conjunto de animais apresentados na primeira leitura representa comportamentos e interesses que aparentemente são incompatíveis: o mais forte e o poderoso renuncia ao seu domínio sobre o mais fraco e coloca-se num plano de igualdade.

 

2º Domingo do Advento Mc 1, 1-8: “Apareceu João no deserto, batizando e pregando um batismo de conversão”
1Princípio da boa nova de Jesus Cristo, Filho de Deus. Conforme está escrito no profeta Isaías: 2Eis que envio o meu anjo diante de ti: ele preparará o teu caminho. 3Uma voz clama no deserto: Traçai o caminho do Senhor, aplanai as suas veredas (Mal 3,1; Is 40,3). 4João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados. 5E saíam para ir ter com ele toda a Judéia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. 6João andava vestido de pêlo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. 7Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado. 8Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo.”

O Evangelista Marcos põe em relevo que Jesus é o Messias anunciado pelos Profetas e o Filho único do Pai por natureza. Em resumo, podemos dizer que o conteúdo do Evangelho de Marcos será anunciar que Jesus Cristo, é Deus e Homem verdadeiro. A palavra “Evangelho” significa boa nova, que Deus comunica aos homens por meio do Seu Filho. O conteúdo dessa boa nova é em primeiro lugar o próprio Jesus Cristo, as Suas palavras e as Suas obras. Os Apóstolos, escolhidos pelo Senhor para serem fundamento da Sua Igreja, cumpriram o mandato de apresentar a judeus e gentios, por meio da pregação oral, o testemunho do que tinham visto e ouvido: o cumprimento em Jesus Cristo das profecias do Antigo Testamento, a remissão dos pecados, a filiação adotiva e a herança do Céu oferecidas a todos os homens. Por isto, também a pregação apostólica pode chamar-se “evangelho”. Finalmente os evangelistas, movidos pelo Espírito Santo, puseram por escrito parte desta pregação oral. Deste modo, pela Sagrada Escritura e pela Tradição Apostólica, a voz de Cristo perpetua-se por todos os séculos e faz-se ouvir em todas as gerações e em todos os povos. A Igreja, continuadora da missão apostólica, tem a tarefa de dar a conhecer o “evangelho”, e faz muito bem através da Catequese: “O objeto essencial e primordial da catequese é, ‘o Mistério de Cristo’ (…). Trata-se, portanto de descobrir na Pessoa de Cristo o desígnio eterno de Deus que se realiza n’Ele. Trata-se de procurar compreender o significado dos gestos e das palavras de Cristo, os sinais realizados por Ele próprio, pois eles encerram e manifestam ao mesmo tempo o Seu Mistério. Neste sentido, o fim último da catequese é por cada um não só em contato mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo: só Ele pode conduzir-nos ao amor do Pai no Espírito e tornar-nos participantes da vida da Santíssima Trindade” (Catechesi Tradendae, 5). O Evangelho de São Marcos destaca Isaías, por ser o profeta mais importante no anúncio dos tempos messiânicos. Por esta causa São Jerônimo (†420) chamou a Isaías o Evangelista do Antigo Testamento. Após falarmos da propagação da boa nova, chegamos a figura de São João Batista, que se apresenta diante do povo depois de vários anos passados no deserto. Convida os israelitas a prepararem-se com a penitência para a vinda do Messias. A figura de João assinala a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento: é o último dos Profetas e a primeira das testemunhas de Jesus. A sua dignidade particular consiste em que, enquanto os outros profetas tinham anunciado Cristo desde longe, João Batista indica-O já com o dedo (cf. Jo 1, 29: “No dia seguinte, João viu Jesus que vinha a ele e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”). O batismo do Precursor não era ainda o Batismo cristão, mas um rito de penitência; prefigurava, porém, as disposições para receber o Batismo cristão: fé em Cristo, o Messias, fonte de toda a graça, e afastamento voluntário do pecado. E, todos iam ao encontro de João e “Confessavam os seus pecados”: As pessoas daquela época ao aproximarem-se de João, para serem batizadas, supunham reconhecer a própria condição de pecador, visto que tal rito significava o que o Batista anunciava: o perdão dos pecados pela conversão do coração, e facilitava a remoção dos obstáculos de cada um diante do advento do Reino (Lc 3, 10-14). Esta confissão dos pecados que faziam a João Batista, é diferente do sacramento cristão da Penitência. Não obstante, era agradável a Deus como sinal do arrependimento interior, acompanhado de frutos dignos de penitência (Mt 3,7-10; Lc 3,7-9). No sacramento da penitência, a confissão oral dos pecados será um requisito essencial para receber o perdão de Deus. E concluía o Batista: “Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo”. Refere-se ao Batismo que Cristo vai instituir, e marca a sua diferença com o de João. No Batismo de João só era significada a graça, como nos outros ritos do Antigo Testamento. “Pelo Batismo da Nova Lei os homens são batizados interiormente pelo Espírito Santo, coisa que só Deus faz. Pelo contrário, pelo Batismo de João só era lavado com água o corpo” (Suma Teológica,III, q.38,a.2 ad 1). No Batismo cristão, instituído por Nosso Senhor, o rito batismal não só significa a graça, mas causa-a eficazmente, isto é, confere-a. “O Sacramento do Batismo confere a primeira graça santificante, pela qual é perdoado o pecado original, e também os atuais, se os há; apaga toda a pena por eles devida; imprime o caráter de cristãos; faz-nos filhos de Deus, membros da Igreja e herdeiros da glória, e habilita-nos para receber os outros sacramentos” (Catecismo da Igreja Católica, 1263). Como todas as realidades pertencentes à santificação das almas, os efeitos do Batismo cristão são atribuídos ao Espírito Santo, o “Santificador”. Mas, a Santíssima Trindade dá ao batizado a graça santificante, a graça da justificação, a qual: a) Torna-o capaz de crer em Deus, de esperar nele e de amá-lo através das virtudes teologais; b) Concede-lhe o poder de viver e agir sob a moção do Espírito Santo pelos seus dons; c) Permite-lhe crescer no bem pelas virtudes morais. Assim, todo o organismo da vida sobrenatural do cristão tem a sua raiz no santo batismo (Catecismo da Igreja Católica, 1266).

 

2º DOMINGO DO ADVENTO – ANO B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha – MG

“Povo de Sião, o Senhor vem para salvar as nações! E, na alegria do vosso coração, soará majestosa a sua voz!” (Is 30,19.30)

Irmãos e irmãs, Caminhamos, na meditação da Sagrada Liturgia, em busca da contemplação, na esperança da salvação. A partir deste segundo domingo do Advento, a perspectiva escatológica de nossa existência é iluminada desde a sua “fonte”, ou seja, a primeira vinda de Cristo. Enquanto no primeiro domingo meditávamos acerca da segunda vinda de Cristo, após um esboço apresentado pelo escritor sagrado de uma visão escatológica do dia de hoje à luz da segunda vinda, nas demais semanas do Advento recordamos e contemplamos o acontecimento definitivo da primeira vinda. Na primeira vinda do Cristo está arraigado o sentido definitivo de nosso existir: é o momento fundador. Jesus Cristo é o início e o fim de toda a existência humana. Jesus Cristo é o alfa e o ômega (Ap 22,13). A chegada deste momento fundador é a grande notícia da História, a boa-nova por excelência. O Evangelho Marcos, cognominado o querigmático, vê como início desta boa-nova o apelo à conversão, lançado por João no Evangelho, realizando plenamente o que Isaías prefigurou quando, pelo fim do exílio babilônico (ano de 535 a.C.), conclamou o povo para preparar um caminho para Deus, que reconduziria os cativos. Era, pois, um apelo à conversão, pois deviam preparar a volta, “voltando” (= convertendo-se) para Deus, quando determinara o fim do castigo (Is 40,2), como ouvimos na primeira leitura. Deus reconduz os cativos. Ele mesmo vai com eles. Como um imperador na entrada gloriosa (parusia), ele se faz preceder pelos frutos de suas conquista: o povo resgatado (40,10). Como um pastor, reúne suas ovelhas. E, com que ternura, Leva os cordeirinhos nos braços e conduz devagarzinho as ovelhas que amamentam! (40,11) Meus irmãos, São Marcos inicia o seu Evangelho(Mc 1,1-8) com a figura da pregação de João Batista, o precursor. Marcos é o único Evangelista que começa a sua pregação já com o tema que se tornará central na pregação de Jesus e dos Apóstolos: a conversão. E uma conversão que está ligada a “Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). Tudo se inicia, se desenvolve e tem um fim em Jesus Cristo, o Alfa e o Ômega, o início e o fim de toda a humanidade. São Marcos, em duas palavras, anuncia a origem do Messias: é da terra e tem um nome, Jesus; e é o enviado, o escolhido do Senhor (Cristo) e é mais do que alguém que fala em nome de Deus (=profeta): é o próprio Filho de Deus. Pouco mais à frente, ainda no primeiro capítulo (Mc 1,15), São Marcos diz o porquê devemos nos converter. Devemos nos converter porque é chegado o Reino de Deus, o novo modo de viver, que abrange a criatura humana em toda a sua plenitude e Deus na pessoa de Jesus de Nazaré. Lembramos que Marcos é o primeiro evangelista, é de sua autoria o texto mais antigo acerca da vida, da obra e do mandato de Cristo. O seu Evangelho foi escrito, provavelmente, entre os anos de 65 a 70 da era cristã. Portanto, as mais remotas aspirações do cristianismo nele podemos absorver: a conversão, a caridade, a confiança na Palavra de Deus. Queridos irmãos, A mesma palavra que abre o Evangelho de João é a mesma palavra que abre o Livro de Gênesis: o princípio, o alfa, ou seja, a criação. Nos primeiros versículos do Gênesis, o escritor inspirado relata a criação do mundo; nos primeiros versículos do Evangelho de São Marcos, Jesus Cristo, aquele que veio resgatar a humanidade decaída, desde o Gênesis, é apresentado como a fonte da criação. E ao longo do livro, o querigmático anuncia que Jesus não só está no princípio, mas é também o centro da nova Família de Deus e permanecerá para sempre com ela. Mesmo depois da Ascensão, ele se conservará no meio da comunidade, vivo e atuante. Três vezes o Apocalipse põe na boca de Jesus: “Eu sou o primeiro e o último, sou o princípio e o fim” (cf. 1, 8; 21,6; 22,13). São Marcos nos dá a finalidade da obra de Jesus: Evangelho – palavra que significa a boa-nova, a boa notícia. Jesus – nome hebraico que significa “Deus salva”. Cristo – outra palavra grega, que significa “ungido para ser rei”. Portanto, Filho de Deus é a verdade central do Evangelho, que é, assim digamos, a boa-nova que Jesus trouxe à humanidade e as boas-novas sobre a pessoa e os ensinamentos do Filho de Deus, Salvador e Rei. São Marcos nos ensina que é Deus quem toma a iniciativa da salvação. É Deus quem manda o seu filho Jesus a este mundo. Deus quem manda o mensageiro para anunciar a chegada do Messias. Isso, Deus quer nos mandar um recado especial neste advento: devemos voltar o nosso coração e a nossa mente para Ele, isto é, converter-nos, fazer coincidir os caminhos de Deus com os nossos caminhos; fazer coincidir o coração de Deus com o nosso coração. Que nós tenhamos os nossos sentimentos voltados aos sentimentos da Trindade Santíssima. Caríssimos irmãos, João Batista nos é apresentado hoje como deve ser cada um dos batizados. João Batista está atento aos acontecimentos, abrindo caminhos, endireitando estradas, falando de penitência e conversão, purificando o povo. João Batista é o Símbolo do homem vigilante, é o exemplo de pessoa pronta para receber a boa-nova do Messias. No último profeta encontramos as qualidades de quem está preparado para abraçar os novos tempos, a nova realidade dentro da história da salvação. Antes de tudo, o desprendimento, manifestado na sobriedade do comer e do vestir (Mc 1,6). Em segundo lugar, a humildade diante da pessoa e do mistério de Jesus, manifestada na afirmação de não ser digno de ser seu escravo (Mc 1,7). Desprendimento que é transformado em oferta humilde de entusiasmo pela causa de Jesus (Mt 1,4-5). Assim, o verdadeiro profeta é alguém cheio de Deus e que fala de Deus. João Batista é o último profeta do Antigo Testamento, o primeiro a anunciar a plenitude dos tempos (Gl 4,4) com a chegada do Messias. Ora, João Batista se vestia com pele de camelo, como Elias se vestira (2Rs 1,7). João Batista andava com um cinto de couro à cintura, para demonstrar a sua sobriedade, pureza, sempre aberto à voz do Senhor, pronto para aonde Deus quisesse (Lc 12,35). João comia gafanhotos e mel do campo para significar que se alimentava de alimentos fortes, obtendo saúde necessária para ser o arauto do Salvador. João anunciou: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas” (Mc 1,3).  Revestido de autoridade, ou seja, agindo em nome de Deus, o Batista anuncia a derrota do mal e do pecado. O mel, encontrável em abundância no deserto, é o símbolo reluzente da palavra de Deus (Sl 19,11). Ao alimentar-se, portanto, da palavra de Deus, com a força deste alimento, transmite-se ao povo a chegada daquele que é a Palavra de Deus encarnada, a Palavra Eterna, o Cristo. Queridos irmãos, Para aderir, para seguir, para ser discípulo, para ser arauto de Cristo é preciso, primeiro, a confissão dos pecados, a conversão do coração e da vida (Mc 1,4).  Conversão significa mudar por inteiro de direção, mudar o modo de pensar, voltar-se para Deus. A criatura humana saiu pura do sopro de Deus e somente pura pode voltar a ele. Precisamos, com grande entusiasmo, ter coragem e ardor para mudar o comportamento, mudar o modo de pensar e de agir, para dar testemunho do modo de pensar, de comportar-se e de agir de Jesus. Devemos dar uma guinada em nossa vida para que a sua meta seja Jesus Cristo. O batismo para João foi de água, mas ele anunciava que “um batizará com o Espírito Santo” (Mc 1,8). Ele acenava para Jesus, para quem o Espírito Santo, descido em forma visível e perene no dia de Pentecostes, anunciou sua divindade. É o Espírito Santo quem dá a vida sobrenatural a seus fiéis. O batismo, conforme nos ensina o Direito da Igreja, “porta dos sacramentos, em realidade ou ao menos em desejo necessário para a salvação, pelo qual os homens se libertam dos pecados, são de novo gerados como filhos de Deus e incorporados à Igreja, configurados com Cristo por caráter indelével, só se administra validamente pela ablução com água verdadeira, juntamente com a devida forma verbal” (Cânon 849 do Codex Iuris Canonici). Caros irmãos, A Primeira Leitura deste domingo(Is 40,1-5.9-11) aduz que aplainar o caminho para Deus, que reconduzirá o seu povo. Este trecho, chamado de livro da Consolação, simultaneamente com vigor e ternura, o profeta anuncia o perdão do povo – deportado por causa do pecado – e a sua volta do Exílio. A segunda leitura de hoje(2Pd 3,8-14) nos anuncia que os cristãos da primeira geração esperavam uma segunda vinda de cristo para breve. Entretanto, o atraso tornava-se sempre mais notável e o escárnio do mundo sempre mais agressivo. Diante da impaciência e, quem sabe, do desespero e da desistência, que isso gerava, Pedro responde: “Deus tem tempo – ele quer que todos se convertam, para que todos possam participar”. Mas, mesmo assim, ele não desiste de seu projeto, pois ele deseja que tudo esteja em harmonia consigo. Só que ele não quer expurgar os “elementos nocivos” da criação, antes que todos tenham a oportunidade de se converter, isto é, de se tornar participantes da vida em Deus. Mas ele realizará, sem que saibamos o dia e a hora, seu “novo céu e nova terra” (2Pd 3,13) e, então, será bom estarmos de acordo com a nova realidade, pois Deus se volta para nós. Por conseguinte, na esperança da salvação, contribuindo com o projeto de evangelização neste mundo, salvando almas para Nosso Senhor, voltemos para Ele!

Papa dá dicas sobre como descobrir a própria vocação

Segunda-feira, 4 de dezembro de 2017, Da redação, com Boletim da Santa Sé

Em mensagem para Dia Mundial de Oração pelas Vocações, Papa diz que cada vida é fruto de uma vocação divina e indica caminhos para discerni-la

Papa explicou que cada pessoa recebe um chamado, seja para a vida laical no matrimônio, à vida sacerdotal ou à vida consagrada, para tornar-se testemunha do Senhor, aqui e agora / Foto: L’Osservatore Romano

O Vaticano publicou nesta segunda-feira, 4, a Mensagem do Papa Francisco para o 55º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que será celebrado em 22 de abril de 2018, IV Domingo da Páscoa.

“Não estamos submersos no acaso, nem à mercê duma série de eventos caóticos; pelo contrário, a nossa vida e a nossa presença no mundo são fruto duma vocação divina”, destacou o Papa na mensagem.

O Pontífice afirmou que Deus não cessa de vir ao encontro do homem e o acompanha ao longo das estradas “poeirentas” da vida. E destacou três aspectos ligados à vocação pessoal e eclesial de cada pessoa: escuta, discernimento e vida.

Escutar

Francisco explicou que o chamado do Senhor não possui a evidência própria das muitas coisas que pode-se ouvir, ver ou tocar na experiência diária de cada um, mas acontece de forma silenciosa e discreta.

“Assim pode acontecer que a sua voz fique sufocada pelas muitas inquietações e solicitações que ocupam a nossa mente e o nosso coração. Por isso, é preciso preparar-se para uma escuta profunda da sua Palavra e da vida, prestar atenção aos próprios detalhes do nosso dia-a-dia, aprender a ler os acontecimentos com os olhos da fé e manter-se aberto às surpresas do Espírito”, alertou.

O Papa destacou que não será possível descobrir o chamado especial e pessoal que Deus pensou para cada pessoa, se ela permanecer fechada em si mesma, nos próprios hábitos e na apatia de quem desperdiça a vida com si mesma. Pois, perde a oportunidade de sonhar grande e tornar-se protagonista da história única e original que Deus quer escrever com cada ser humano.

Diante disso, apontou a necessidade do recolhimento interior, no silêncio. Um comportamento, que segundo o Santo Padre, está cada vez mais difícil, devido à sociedade rumorosa em que se vive. “À barafunda exterior, que às vezes domina as nossas cidades e bairros, corresponde frequentemente uma dispersão e confusão interior, que não nos permite parar, provar o gosto da contemplação, refletir com serenidade sobre os acontecimentos da nossa vida e realizar um profícuo discernimento, confiados no desígnio amoroso de Deus a nosso respeito”.

Discernir

O Papa destacou que cada pessoa só pode descobrir a própria vocação através do discernimento espiritual. “Um ‘processo pelo qual a pessoa, em diálogo com o Senhor e na escuta da voz do Espírito, chega a fazer as opções fundamentais, a começar pela do seu estado da vida’”.

Ele explicou que a vocação cristã sempre tem uma dimensão profética, como aponta a Sagrada Escritura, que conta sobre os profetas, enviados ao povo para lhes comunicar em nome de Deus palavras de conversão, esperança e consolação.

Francisco apontou que também hoje há grande necessidade do discernimento e da profecia, de superar as tentações da ideologia e do fatalismo e de descobrir, no relacionamento com o Senhor, os lugares, instrumentos e situações através dos quais Ele chama a cada um. “Todo o cristão deveria poder desenvolver a capacidade de ‘ler por dentro’ a vida e individuar onde e para quê o está a chamar o Senhor a fim de ser continuador da sua missão”.

Viver

O Santo Padre destacou que a missão cristã é para o momento presente e afirmou que a ” alegria do Evangelho” não pode esperar pelas lentidões e preguiças de cada um. “Não nos toca, se ficarmos debruçados à janela, com a desculpa de continuar à espera dum tempo favorável; nem se cumpre para nós, se hoje mesmo não abraçarmos o risco duma escolha. A vocação é hoje!”.

E explicou que cada pessoa recebe um chamado, seja para a vida laical no matrimônio, à vida sacerdotal ou à vida consagrada, para tornar-se testemunha do Senhor, aqui e agora.

“Realmente este ‘hoje’ proclamado por Jesus assegura-nos que Deus continua a ‘descer’ para salvar esta nossa humanidade e fazer-nos participantes da sua missão (…) Não temos de esperar que sejamos perfeitos para dar como resposta o nosso generoso ‘eis-me aqui’, nem assustar-nos com as nossas limitações e pecados, mas acolher a voz do Senhor com coração aberto”, concluiu o Pontífice.

 

Mensagem do Papa Francisco para o 55º Dia Mundial de Oração pelas Vocações (22 de abril de 2018)

Escutar, discernir, viver a chamada do Senhor

Queridos irmãos e irmãs!

No próximo mês de outubro, vai realizar-se a XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que será dedicada aos jovens, particularmente à relação entre jovens, fé e vocação. Nessa ocasião, teremos oportunidade de aprofundar como, no centro da nossa vida, está a chamada à alegria que Deus nos dirige, constituindo isso mesmo «o projeto de Deus para os homens e mulheres de todos os tempos» (Sínodo dos Bispos – XV Assembleia Geral Ordinária, Os jovens, a fé e o discernimento vocacional, Introdução).

Trata-se duma boa notícia, cujo anúncio volta a ressoar com vigor no 55.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações: não estamos submersos no acaso, nem à mercê duma série de eventos caóticos; pelo contrário, a nossa vida e a nossa presença no mundo são fruto duma vocação divina.

Também nestes nossos agitados tempos, o mistério da Encarnação lembra-nos que Deus não cessa jamais de vir ao nosso encontro: é Deus connosco, acompanha-nos ao longo das estradas por vezes poeirentas da nossa vida e, sabendo da nossa pungente nostalgia de amor e felicidade, chama-nos à alegria. Na diversidade e especificidade de cada vocação, pessoal e eclesial, trata-se de escutar, discernir e viver esta Palavra que nos chama do Alto e, ao mesmo tempo que nos permite pôr a render os nossos talentos, faz de nós também instrumentos de salvação no mundo e orienta-nos para a plenitude da felicidade.

Estes três aspetos – escuta, discernimento e vida – servem de moldura também ao início da missão de Jesus: passados os quarenta dias de oração e luta no deserto, visita a sua sinagoga de Nazaré e, aqui, põe-Se à escuta da Palavra, discerne o conteúdo da missão que o Pai Lhe confia e anuncia que veio realizá-la «hoje» (cf. Lc 4, 16-21).

Escutar

A chamada do Senhor – fique claro desde já – não possui a evidência própria de uma das muitas coisas que podemos ouvir, ver ou tocar na nossa experiência diária. Deus vem de forma silenciosa e discreta, sem Se impor à nossa liberdade. Assim pode acontecer que a sua voz fique sufocada pelas muitas inquietações e solicitações que ocupam a nossa mente e o nosso coração.

Por isso, é preciso preparar-se para uma escuta profunda da sua Palavra e da vida, prestar atenção aos próprios detalhes do nosso dia-a-dia, aprender a ler os acontecimentos com os olhos da fé e manter-se aberto às surpresas do Espírito.

Não poderemos descobrir a chamada especial e pessoal que Deus pensou para nós, se ficarmos fechados em nós mesmos, nos nossos hábitos e na apatia de quem desperdiça a sua vida no círculo restrito do próprio eu, perdendo a oportunidade de sonhar em grande e tornar-se protagonista daquela história única e original que Deus quer escrever conosco.

Também Jesus foi chamado e enviado; por isso, precisou de Se recolher no silêncio, escutou e leu a Palavra na Sinagoga e, com a luz e a força do Espírito Santo, desvendou em plenitude o seu significado relativamente à sua própria pessoa e à história do povo de Israel.

Hoje este comportamento vai-se tornando cada vez mais difícil, imersos como estamos numa sociedade rumorosa, na abundância frenética de estímulos e informações que enchem a nossa jornada. À barafunda exterior, que às vezes domina as nossas cidades e bairros, corresponde frequentemente uma dispersão e confusão interior, que não nos permite parar, provar o gosto da contemplação, refletir com serenidade sobre os acontecimentos da nossa vida e realizar um profícuo discernimento, confiados no desígnio amoroso de Deus a nosso respeito.

Mas, como sabemos, o Reino de Deus vem sem fazer rumor nem chamar a atenção (cf. Lc 17, 21), e só é possível individuar os seus germes quando sabemos, como o profeta Elias, entrar nas profundezas do nosso espírito, deixando que este se abra ao sopro impercetível da brisa divina (cf. 1 Re 19, 11-13).

Discernir

Na sinagoga de Nazaré, ao ler a passagem do profeta Isaías, Jesus discerne o conteúdo da missão para a qual foi enviado e apresenta-o aos que esperavam o Messias: «O Espírito do Senhor está sobre Mim; porque Me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-Me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar o ano favorável da parte do Senhor» (Lc 4, 18-19).

De igual modo, cada um de nós só pode descobrir a sua própria vocação através do discernimento espiritual, um «processo pelo qual a pessoa, em diálogo com o Senhor e na escuta da voz do Espírito, chega a fazer as opções fundamentais, a começar pela do seu estado da vida» (Sínodo dos Bispos – XV Assembleia Geral Ordinária, Os jovens, a fé e o discernimento vocacional, II.2).

Em particular, descobrimos que a vocação cristã tem sempre uma dimensão profética. Como nos atesta a Escritura, os profetas são enviados ao povo, em situações de grande precariedade material e de crise espiritual e moral, para lhe comunicar em nome de Deus palavras de conversão, esperança e consolação. Como um vento que levanta o pó, o profeta perturba a falsa tranquilidade da consciência que esqueceu a Palavra do Senhor, discerne os acontecimentos à luz da promessa de Deus e ajuda o povo a vislumbrar, nas trevas da história, os sinais duma aurora.

Também hoje temos grande necessidade do discernimento e da profecia, de superar as tentações da ideologia e do fatalismo e de descobrir, no relacionamento com o Senhor, os lugares, instrumentos e situações através dos quais Ele nos chama. Todo o cristão deveria poder desenvolver a capacidade de «ler por dentro» a vida e individuar onde e para quê o está a chamar o Senhor a fim de ser continuador da sua missão.

Viver

Por último, Jesus anuncia a novidade da hora presente, que entusiasmará a muitos e endurecerá a outros: cumpriu-se o tempo, sendo Ele o Messias anunciado por Isaías, ungido para libertar os cativos, devolver a vista aos cegos e proclamar o amor misericordioso de Deus a toda a criatura. Precisamente «cumpriu-se hoje – afirma Jesus – esta passagem da Escritura que acabais de ouvir» (Lc 4, 20).

A alegria do Evangelho, que nos abre ao encontro com Deus e os irmãos, não pode esperar pelas nossas lentidões e preguiças; não nos toca, se ficarmos debruçados à janela, com a desculpa de continuar à espera dum tempo favorável; nem se cumpre para nós, se hoje mesmo não abraçarmos o risco duma escolha. A vocação é hoje! A missão cristã é para o momento presente! E cada um de nós é chamado – à vida laical no matrimónio, à vida sacerdotal no ministério ordenado, ou à vida de especial consagração – para se tornar testemunha do Senhor, aqui e agora.

Realmente este «hoje» proclamado por Jesus assegura-nos que Deus continua a «descer» para salvar esta nossa humanidade e fazer-nos participantes da sua missão. O Senhor continua ainda a chamar para viver com Ele e segui-Lo numa particular relação de proximidade ao seu serviço direto. E, se fizer intuir que nos chama a consagrar-nos totalmente ao seu Reino, não devemos ter medo. É belo – e uma graça grande – estar inteiramente e para sempre consagrados a Deus e ao serviço dos irmãos!

O Senhor continua hoje a chamar para O seguir. Não temos de esperar que sejamos perfeitos para dar como resposta o nosso generoso «eis-me aqui», nem assustar-nos com as nossas limitações e pecados, mas acolher a voz do Senhor com coração aberto. Escutá-la, discernir a nossa missão pessoal na Igreja e no mundo e, finalmente, vivê-la no «hoje» que Deus nos concede.

Maria Santíssima, a jovem menina de periferia que escutou, acolheu e viveu a Palavra de Deus feita carne, nos guarde e sempre acompanhe no nosso caminho.

Vaticano, 3 de dezembro – I domingo do Advento – de 2017.

FRANCISCO

Solenidade da Imaculada Conceição – 08 de Dezembro

Por Mons. Inácio José Schuster

Evangelho segundo São Lucas 1, 26-38
Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.» Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus.» Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

Hoje, no coração do Advento aos 8 dias de dezembro, celebramos a solenidade da Imaculada Conceição. Na segunda leitura da Liturgia, o autor da carta aos Efésios afirma-nos que Deus nos predestinou, desde toda a eternidade, a sermos santos e imaculados em Sua presença. E quando o livro do Genesis nos diz que criou Adão e de sua costela a companheira Eva, Deus os colocou no Jardim do Éden. Os padres da Igreja interpretaram muito bem este Jardim do Éden; colocou-os no Paraíso, isto é, em Cristo. Adão e Eva foram já pensados por Deus em vista de Cristo para que se realizassem plenamente como homem e mulher em Jesus Cristo e, dessa forma, todos nós somos pensados por Deus em Cristo a sermos santos e imaculados em Sua presença. Mas o que aconteceu com Adão e com Eva, melhor, o que continua a acontecer com todos os seres humanos? Degradaram-se através da tentação e da queda, buscaram outra realização à margem de Cristo. Ocorre que, contudo, não existe tal realização. Ou bem nós nos realizamos em Cristo, isto é, ou nós encetamos o caminho da vida, que é o caminho de Cristo, ou bem nós entramos para desvio e começamos a marchar na direção da morte, isto é, da morte eterna. Eis o drama de toda a humanidade. Hoje, aos 8 dias de dezembro, nós celebramos Aquela que, por graça especial de Deus e em previsão dos méritos de Cristo, pensada ela também desde toda eternidade em Cristo e em vista de Cristo, jamais se separou do Cristo, do qual seria mãe biológica neste mundo. Todos nós, em Adão e Eva, tivemos o pecado aninhado fundo em nossos corações. E temos ambos que fugir, envergonhados um do outro, da presença de Deus. Maria, na sua Imaculada Conceição, não teve jamais que fugir de Deus. Mas o que se contempla hoje em Nossa Senhora?  Sua pureza ilibada, Sua Conceição Imaculada, é o projeto. E Deus continua a tê-lo para com os degradados filhos de Eva, que somos todos nós. Deus não abandonou o Seu projeto e, ainda que nos veja desfigurados pelo pecado, Maria, em sua Imaculada Conceição, é hoje o espelho e ao mesmo tempo o futuro que nos espera, se nós deixarmos Deus trabalhar em nosso coração durante o longo tempo do Advento, que é o tempo de nossa vida que nos separa do encontro definitivo e transformante com Ele.

 

«Salve, ó cheia de graça»
Santo Epifânio de Salamina (? – 403), bispo
Homilia n°5; PG 43, 491.494.502 (a partir da trad. cf Solesmes, Lectionnaire, t. 1, p. 1003)

Que dizer? Que elogio se há-de fazer à Virgem gloriosa e santa? Ela ultrapassa todos os seres, à excepção apenas de Deus; por natureza, é mais bela que os querubins, os serafins e todo o exército dos anjos. Nem as línguas do céu nem as da terra, nem as línguas dos anjos bastam para louvá-la. Virgem bendita, pomba pura, esposa celeste […], templo e trono da divindade! Cristo, sol esplendoroso do céu e da terra, pertence-te. Tu és a nuvem luminosa que fez descer Cristo, Ele o brilho resplandecente que ilumina o mundo. Rejubila, ó cheia de graça, porta do céu; é de ti que fala o autor do Cântico dos Cânticos […] quando exclama: «És horto cerrado, minha irmã, minha esposa, horto cerrado, fonte selada» (4, 12). […] Santa Mãe de Deus, ovelha imaculada, tu trouxeste ao mundo o Cordeiro, Cristo, o Verbo encarnado em ti. […] Que maravilha espantosa nos céus: uma mulher vestida de sol (Ap 12, 1), trazendo nos braços a luz! […] Que maravilha espantosa nos céus: o Senhor dos anjos que Se torna filho da Virgem. Os anjos acusavam Eva; agora, cumulam Maria de glória, porque Ela levantou Eva da queda e abriu as portas do céu a Adão, outrora expulso do Paraíso. […] Imensa é a graça concedida a esta Virgem santa. É por isso que Gabriel a cumprimenta dizendo-lhe: «Rejubila, cheia de graça», resplandecente como o céu. «Rejubila, cheia de graça», Virgem ornada de virtudes sem número. […] «Rejubila, cheia de graça», tu que sacias os sedentos com as doçuras da fonte eterna. Rejubila, Santa Mãe Imaculada, tu que geraste Cristo, que te precede. Rejubila, púrpura real, tu que revestiste o Rei do céu e da terra. Rejubila, livro selado, tu que deste a ler ao mundo o Verbo, o Filho do Pai.

 

A Imaculada Conceição
Padre Pacheco

Hoje, dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, queremos lembrar a sua assunção. Sim, pois depois de assunta aos Céus, a Virgem Maria é esta que está junto do Filho, na glória do Pai, intercedendo por cada um de nós. O Papa Pio XII, em 1950, proclama o ‘Dogma da Assunção da Santíssima Virgem Maria’, que consiste no seguinte: “Cumprido o curso de sua vida terrena, Maria foi assunta ao Céu em corpo e alma”. Para dizer que:
1º) Maria tem especial participação na ressurreição do Filho – Ela está unida à glória do Filho;
2º) Ela é a antecipação da sorte dos eleitos – primícias e exemplo da Igreja.
Segundo a Tradição da Igreja, logo após a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, João a teria levado para morar com ele, assumindo-a como mãe, numa cidade chamada Éfeso. Todavia, antes de Maria vir a morrer – entenda-se esta morte não como consequência do pecado, pois Maria não pecou, o termo “dormição” é para dizer de uma morte diferenciada, não como qualquer morte fruto de pecado; a verdade é esta: Maria morreu – João a teria trazido para Jerusalém. Maria morre e é assunta em Jerusalém; pode-se dizer que ela tenha sido velada no Monte Sião, em Jerusalém, e levada para ser sepultada ao lado do Monte das Oliveiras, túmulo este que se encontra vazio – obviamente – e que pode ser visitado e visto até hoje. A Santíssima Virgem Maria participa da Glória do Filho e é a antecipação da sorte dos eleitos; isso significa que já existe uma criatura ressuscitada no Céu em corpo e alma: Maria. Mas tudo isso devido ao fato de Deus tê-La preparado para esta missão tão linda e particular: ser a Mãe do Filho d’Ele. Todavia, houve uma colaboração e uma correspondência da parte de Nossa Senhora. Para dizer que ela é modelo de como ser Igreja. Queremos, hoje, nos ater à festa que estamos celebrando: a Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria. O dogma da Imaculada Conceição foi instituído pelo Papa Pio IX no dia 8 de dezembro de 1854, que declara: “Desde a sua concepção, Maria foi preservada do pecado original e de suas conseqüências pelos méritos de Cristo, que se chama redenção preventiva”. O devoto da Virgem Maria é aquele que toma a decisão de viver as virtudes dela. A saber:
Mulher do silêncio: Precisamos aprender com Nossa Senhora a silenciar o nosso coração de todas as agitações do mundo e de todo barulho, fruto das realidades que são contrárias à vontade de Deus na nossa vida. Silenciar é muito mais que não fazer barulho, é ter a coragem de retirar-se constantemente para encontrar-se com o Senhor, e aí escutar o Seu Coração.
Mulher da Palavra: A Santíssima Virgem rezava os salmos; era íntima da Palavra de Deus; prova disso é ela repetir o Cântico de Ana ao se encontrar com Isabel, cântico este lá do Antigo Testamento. Muito mais que o fato de narrar esse cântico, a prova de que a Virgem Maria é a mulher da Palavra é a sua total confiança na misericórdia e na providência de Deus, que regia toda a sua vida e a vida do mundo.
Mulher do serviço: Maria sobe a montanha para visitar a sua parenta Isabel; ela vai à casa da prima não tendo como prioridade tratar de serviços domésticos, mas para levar o mistério até a vida daquela que, com certeza, muitos traumas trazia pelo fato de ter sido estéril por muitos anos – fato tido como sinal de maldição para o povo daquela época e lugar. O mistério em Maria, que é o próprio Deus, a leva até a prima, para que esta possa ser curada. Isso nos diz que devemos ser, efetivamente, portadores e condutores do mistério, que é Deus, para as pessoas, pois Ele se encontra em nós, dentro de nós, desde o momento do nosso batismo.
Mulher da obediência: Maria só tinha olhos para a vontade de Deus, para obedecer ao Todo-Poderoso nas circunstâncias ordinárias da vida; é ela quem diz a cada um de nós – única frase de Maria na Sagrada Escritura, de forma direta: “Fazei tudo o que Ele vos disser.” A Santíssima Virgem Maria é aquela que pode, verdadeiramente, nos ajudar a encher as talhas da nossa vida. Esta água viva é o Espírito Santo, o Esposo de Nossa Senhora. Quando o Espírito Santo percebe uma alma tomada de amor e da presença de Maria – a Sua esposa – o Ele vem e realiza maravilhas nessa alma, pois Ele não pode ficar separado da Sua esposa. As maravilhas que o Espírito realiza em nós nada mais são do que encher as talhas da nossa vida para que Cristo nos transforme neste vinho novo. Viver esta festa de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, ser devoto de Maria por excelência,  é obedecer a Deus e fazer com que Ele seja o Senhor, verdadeiramente, da nossa vida.

 

Lucas, capítulo 1, versículos de 26 a 38.
No coração do Advento, hoje 8 de dezembro, celebramos a Solenidade da Imaculada Conceição. No Brasil é festa de preceito. Esta celebração se solenizou após a proclamação do dogma da Imaculada Conceição, pelo Papa Pio IX, no dia 08 de dezembro de 1854. Na verdade o texto da definição dogmática nos diz que Maria foi concebida sem a mancha do pecado de natureza, o pecado hereditário, o pecado de Adão. Mas nós celebramos muito mais do que uma simples Imaculada Conceição. Nós celebramos hoje toda a pureza de coração da Virgem Maria, que desde a sua mais tenra idade soube agradar a Deus. E agradou a Deus durante toda a sua vida. Nós desconhecemos a vida de Nossa Senhora. Nós desconhecemos sua infância, adolescência, juventude, seu casamento e vida de casada e até sua viuvez. Desconhecemos tudo. Mas uma coisa nos diz hoje a igreja: do primeiro ao último instante Maria outra coisa não fez a não ser agradar imensamente a Deus, seu Criador. Ao celebrarmos a Imaculada Conceição, a Solenidade da pureza de coração, da Virgem Maria, nós hoje, olhamos para aquela que deseja ser nosso modelo e nossa advogada. Sim, porque como ela, nós também, embora manchados pelo pecado, mas, porém lavados e purificados, gostaríamos de viver o resto da nossa existência, numa vida de agrado a Deus. Vida de busca incessante de Sua face, numa vida de ausência do pecado que Lhe ofende a vista. Nós fomos pecadores e podemos ser atualmente pecadores, mas não é esta uma necessidade ontológica do nosso ser; não necessitamos ser pecadores até o final de nossas existências. O sangue de Jesus nos diz o evangelista João, purifica-nos de todo pecado, e uma vida nova nos é proposta. Deus simplesmente fez com que se dissolvessem no Sangue do Cristo os nossos pecados. Doravante nos é restituída a inocência, e nós podemos caminhar e progredir na santidade.  Podemos nos tornar impecáveis. Sim, a Sagrada Escritura fala de cristãos que, com o tempo, tornaram-se praticamente impecáveis. De qualquer modo a impecabilidade é uma graça que já se pode obter ao menos parcialmente neste mundo. Eis o nosso sonho, neste advento: deixar de lado, abandonar definitivamente o pecado, e já viver na terra como os bem-aventurados de Céu.

 

O anjo Gabriel foi enviado não ao santuário de Jerusalém ou Ain-Karem, situados nos impressionantes montes da Judéia, onde nasceu João Batista, mas à simples cidade de Nazaré. Aí ele fala à Virgem Maria, comprometida com José, o que é destacado por Santo Ambrósio (397), ao dizer que “a Escritura tem razão de especificar estas duas coisas: que Maria era comprometida e virgem: Virgem, para que se saiba que não teve relações com um homem; comprometida, a fim de que ela não fosse censurada por ter perdido a sua virgindade… O Senhor preferiu que se duvidasse de seu nascimento, antes que da honra de sua Mãe (…). Ela é o tipo da Igreja, que é imaculada, e, no entanto esposa”. O anjo Gabriel foi enviado por Deus, mostrando pela forma do verbo: foi enviado que a iniciativa vem do mais alto, do Deus altíssimo. Por Ele foi enviado para anunciar a concepção virginal daquele que ama se dizer “enviado do Pai”. O anjo a saúda: Ave, fórmula corrente de saudação, que em seu sentido original expressa um desejo de alegria. E acrescenta: “cheia de graça”, por benevolência divina, pois o sujeito desta ação é Deus e a sua ternura suprema para com a humilde Virgem.  É a eficácia do amor de Deus, do poder transformante do olhar divino, do seu gesto criador. Daí reconhecermos na saudação a verdade: “Tu que eras e permaneces objeto da graça de Deus”.   Maria, concebida sem pecado, a Imaculada Conceição é glorificada junto a seu Filho, Rei e Senhor de todo o Universo. “Convinha que a Mãe virgem, escreve São Amadeus de Lausana (1159), pela honra devida a seu Filho, reinasse primeira na terra e, assim, penetrasse logo gloriosa no céu; convinha que fosse engrandecida aqui, para penetrar logo, cheia de santidade, nas mansões celestiais, indo de virtude em virtude e de glória em glória por obra do Espírito Santo”. Ela é a cheia de graça, em quem não há pecado, toda acolhida do dom de Deus. “Senhor, deixai vossa luz brilhar em meu coração para que eu conheça a alegria e a liberdade de vosso Reino. Enchei-me com vosso Santo Espírito e fortalecei-me para testemunhar a verdade de vosso Evangelho de Jesus Cristo”.

 

Não raro somos ao mesmo tempo “sim” e “não”. Somos “não” quando deixamos o mal dominar nossa existência e somos “sim” quando nos transformamos em instrumentos do bem e do amor! Que possamos sempre repetir com Maria: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Meditar e viver este compromisso nos ajudaria a crescer em muito na fidelidade a Palavra de Deus e aos valores do Evangelho. Mesmo que nos custe sacrifícios devemos nos esforçar em viver este compromisso de entrega total a Vontade de Deus. É claro que para saber qual é concretamente a vontade divina precisamos de muito discernimento, e para isto nos ajudará a oração, a meditação e o conselho do irmão mais experiente no caminho do Senhor. Que a Imaculada no ajude a dar nosso “sim” nos momentos mais desafiantes da vida. Quando sentimos desânimo, ou somos oprimidos pela doença, injustiça e perseguição, nos momentos de desencanto, nas horas de incerteza. Na dor da traição ou do abandono dos amigos! Que nossa mãe nos ajude nestas difíceis situações da existência a reafirmarmos na fé, que vale mais seguir a Palavra de Deus. E nos livre da tentação de responder o mal com o mal! Que a Imaculada nos auxilie a cada dia no esforço de sermos uma verdadeira imagem e semelhança de Deus! Homens e mulheres novos, amigos de Deus, fraternos entre nós e construtores de um mundo melhor. Que a Imaculada nos ajude a viver na graça divina, a buscarmos sempre o bem, ela que é a plena da graça, e nos acompanhe na nossa luta contra o pecado em todas as suas formas. Repitamos, pois com Maria muitíssimas vezes: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. E revalorizemos a importância da atitude de serviço. Ela foi Serva de Deus e dos irmãos, e nós também devemos ser. Aliás, o próprio Jesus disse que veio para servir e dar sua vida, e nos convidou a seguir o seu exemplo. Que nesta semana nos esforcemos por ser o que Deus deseja de nós, buscando sinceramente em nossa vida uma maior comunhão com Ele, abrindo-nos cada vez mais solidariamente aos irmãos e fugindo do pecado que desfigura em nós a imagem de Deus, e que causa tantos transtornos a nossa vivência comunitária. Seria bom que pudéssemos manifestar alguma atitude concreta de serviço aos irmãos”.

Ó Maria Concebida sem Pecado, rogai por nós que recorremos a vós!

 

IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA
São João Paulo II
Alocução de 27.11.1983
“Rejubila, cheia de graça!”

A alegria é uma componente fundamental do tempo sagrado que começa. O Advento é um tempo de vigilância, de oração, de conversão, para além de uma espera fervorosa e alegre. O motivo é claro: «O Senhor está próximo» (Fl 4, 5).
A primeira palavra dirigida a Maria no Novo Testamento é um convite jubiloso: «Exulta, rejubila!» (Lc 1,28 grego). Tal saudação está ligada à vinda do Salvador. Maria é a primeira a quem é anunciada uma alegria que, em seguida, será proclamada a todo o povo; Maria participa nela de uma forma e numa medida extraordinária. Em Maria, a alegria do antigo Israel concentra-se e encontra a sua plenitude; nela, a felicidade dos tempos messiânicos manifesta-se irrevogavelmente. A alegria da Virgem Maria é, de modo particular, a do «pequeno resto» de Israel (Is 10, 20 sg), dos pobres que esperam a salvação de Deus e que experimentam a sua fidelidade.
Para participarmos também nesta festa, é necessário esperarmos com humildade e acolhermos o Salvador com confiança. «Todos os fiéis que, pela liturgia, vivem o espírito do Advento, considerando o amor inefável com que a Virgem Maria esperava o Filho, serão levados a tomá-la como modelo e a preparar-se para ir ao encontro do Senhor que vem, ‘vigilantes na oração e cheios de alegria’» (Paulo VI, Marialis cultus,4; Missal Romano).

 

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO –  Ano A
Pe. Antonio Luiz Heggendorn, CP.

No primeiro domingo do advento fomos convidados a reviver a experiência do Povo de Israel em sua longa espera pela vinda do Messias. A palavra de ordem era, vigilância! Assim, procurando crescer numa esperança verdadeiramente ativa, e estando atentos as vindas constantes do Senhor, trabalhar pelo progresso do Reino de Deus. No segundo domingo do advento éramos convidados à conversão de nossa mente e de nossas atitudes. Hoje, ainda neste tempo de espera e preparação ao Natal, celebramos a festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.  Trata-se de olhar para o papel único e insubstituível de Maria na História da salvação. Ela que nasceu sem a mancha do pecado original e que colaborou plenamente com o projeto de Deus. As leituras de hoje nos ajudam a entender o significado do que estamos a comemorar. A primeira leitura (Gn 3, 9-15.20) está situada logo após o pecado da origem. O livro do Gênesis não é um livro de ciência, mas da revelação de Deus e sua mensagem é, portanto religiosa. Logo na primeira narrativa da criação encontramos a igualdade fundamental entre o homem e a mulher quando se diz que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança (Gn 1, 27). Na segunda narrativa da criação é destacada a complementaridade entre o homem e a mulher, existem diferenças, mas não para dividir se não para unir (Gn 2, 21 ss). Assim o homem foi criado em comunhão com Deus, em abertura aos demais e como senhor das coisas materiais. Este era o projeto divino. Portanto o ser humano foi criado “imaculado”, isto é sem pecado! Mas o homem preferiu declarar independência diante de Deus, na sua arrogância quis ser igual a Deus. Numa palavra não aceitou a soberania divina e quis ser ele mesmo o senhor de sua vida. Desobedecendo a Deus, acabou rompendo a amizade com Ele. Poeticamente diz o texto que Deus passeava com o homem no Éden, e mesmo depois da ruptura realizada pelo pecado voltou a procurar o homem. Mas agora Adão estava escondido e com medo. Aqui já percebemos algo bem claro, quando pecamos não é Deus que se afasta de nós, mas somos nós que nos escondemos de Deus! E o medo diante de Deus nunca é bom sinal, pois não podemos ter medo de um amigo e muito menos daquele que nos ama como o melhor dos pais. Ao ser interrogado sobre seu ato Adão empurra a culpa para Eva, e de modo indireto para Deus: “A mulher que tu me deste” (Gn 3, 12), pois seria como se quisesse dizer: a culpa foi de Deus por ter lhe dado Eva. Ainda hoje esta atitude de Adão repete se em todos aqueles que colocam em Deus a culpa pelos males que existem no mundo. Quantos culpam Deus pelo nascimento de uma criança defeituosa, pelas doenças, pela violência, etc. Por sua vez a mulher empurra a culpa para a serpente! Isto nos leva a perceber que o pecado não é só uma ruptura com Deus, mas atinge também o relacionamento com os irmãos. O não assumir a responsabilidade do próprio erro, o jogar nos outros a culpa dos próprios defeitos leva freqüentemente a divisões, ódios e agressões. O ser humano ficaria para sempre neste estado de inimizade com Deus e de divisão com os demais? Aí nosso texto apresenta a grande promessa, a boa notícia o que se chama de “Proto-Evangelho” – Deus providenciará a salvação! (Gn 3, 15) A descendência da mulher, isto é seu Filho, vencerá o mal e esmagará a serpente! Como vemos Deus promete que como por um homem e uma mulher, Adão e Eva, entrou no mundo o pecado, no futuro por um novo homem e uma nova mulher (Jesus e Maria) virá a vitória definitiva do bem e a restauração de seu projeto original. Na segunda leitura (Ef 1, 3-6.11-12) o Apóstolo aponta que fomos criados para participar da família de Deus. Diz que somos escolhidos desde a fundação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis. Assim devemos nos alegrar porque desde antes da criação do mundo Deus já havia pensado em nós. E o ser humano não é destinado a ruína, mas a vida plena! No fundo Paulo agradece ao Pai, pois por Jesus tivemos a possibilidade de sermos filhos de Deus. A redenção realizada pelo Senhor foi a vitória sobre o mal e a restauração do plano divino sobre o homem.  O ser humano agora pode viver como “imagem e semelhança de Deus” e mais ainda, pode ser seu filho e deve relacionar-se com os demais como irmãos. Bendito seja Deus por esta maravilha proclama Paulo neste texto. É verdade que ainda vemos em nosso mundo muita maldade, fatos tristes e até trágicos, mas somos chamados a “bendizer a Deus” a todo o momento, pois cremos que mesmo do mal produzido pelo homem, e não querido pela vontade de Deus, o Senhor é capaz de tirar um bem!  Mais uma vez somos convidados, a crescer na virtude da esperança colocando nossa confiança nas mãos amorosas de Deus nosso Pai. O Evangelho (Lc 1, 26- 38) de hoje é um texto muito conhecido por todos nós e nos apresenta o convite do Senhor a Virgem Maria. O relato segue um esquema parecido com os anúncios do Velho Testamento do nascimento de grandes líderes que nasceram de mães velhas, ou de pais que não tinham mais fertilidade. Mas existe agora uma enorme diferença, não é uma casada estéril que dá a luz, como a mãe de João Batista, mas uma Virgem. Isto é algo totalmente novo na Escritura Sagrada e não encontramos nada semelhante!   Os caminhos de Deus são mesmo diferentes dos nossos notemos alguns detalhes: O anjo é enviado a Nazaré na Galiléia, um lugar que era mal visto pelos judeus. Naquela época os galileus eram considerados ignorantes e impuros, pois estavam numa proximidade maior com os pagãos. Pode vir algo bom de Nazaré, perguntavam (Jo 1, 46). Ainda hoje encontramos estes preconceitos regionais e muito fortes por vezes. Não é o que acontece quando alguns falam de nosso bom povo nordestino? Quem é chamado? Um homem forte e valente? Não, uma virgem. Naquela época tinha mais valor a mulher casada e mãe de muitos filhos. Era uma vergonha a mulher que não conseguisse casar, e era desprezava a casada estéril.  Na Escritura Jerusalém é chamada de Virgem justamente nos momentos mais terríveis de sua história, quando estava derrotada, destruída ou sem esperança (Jr 31, 4). Pois bem é nesta lógica diferente que Deus inicia o cumprimento daquela promessa feita após a queda original, que meditávamos na primeira leitura de hoje. Ele através do anjo vai convidar Maria para uma missão especialíssima, ser a mãe do Redentor. Ela não é para Deus apenas um instrumento para que o Verbo possa encarnar-se, ela não é como uma mãe de aluguel, mas é uma eleita de Deus! Por isto o anjo a saúda como “cheia de graça”. A Virgem de Nazaré é convocada a uma colaboração consciente e ativa na obra da salvação. É certo que quem traz a salvação é Jesus, mas também é certo que quem nos dá Jesus é Maria! A mensagem central deste texto é sem dúvida a apresentação de Jesus como Filho do Pai, como aquele prometido que veio para nos salvar. Ele reinará para sempre e terá o trono de Davi! Podemos perceber a diferente lógica de Deus, pois naquela época a família de Davi não era nem grande, nem poderosa, mas totalmente decadente! Maria dialoga com o anjo procurando discernir as coisas, pois sabe muito bem que não pode dar a luz um filho se nunca teve relações com algum homem, como aponta a expressão “não conheço homem algum” (Lc 1, 34). O anjo explica a Maria que tudo ocorrerá pelo poder divino. A “sombra” de que fala o texto recorda-nos a “nuvem” que acompanhava o povo de Israel no deserto, e que posteriormente estava sobre a Arca da Aliança. Esta nuvem indica a presença de Deus. Assim Maria é a Nova Arca da Aliança, a antiga continha as tábuas da Lei, a nova traz em si o próprio Filho de Deus. Termina nosso texto apontando que para Deus tudo é possível, é esta sem dúvida para nós mais uma Boa Notícia! Pois mesmo apesar da nudez de nosso ser criatural, de nossas fraquezas e pecados, Deus pode fazer maravilhas se nos abrirmos ao seu amor. Maria então aceita o chamado e se colocada a disposição como a serva do Senhor!  Ofereceu sua pobreza a Deus e sua virgindade tornou-se fecunda.  Na vida de Maria tudo decorre da escolha divina para que ela fosse a mãe do salvador. Esta vocação é só dela e de ninguém mais. Assim o que celebramos hoje é uma conseqüência lógica da chamada “Maternidade Divina”. Ela foi concebida sem o pecado original, é a plena de graça desde o seu nascimento em vista dos méritos da Redenção de Jesus. Ela nasce Imaculada, sem a mancha do pecado da mesma forma que Adão e Eva foram criados imaculados. Mas existe uma enorme diferença: enquanto nossos primeiros pais pecaram e perderam a inocência, Maria não pecou e sempre foi em sua vida um pleno “sim” aos apelos e a vontade de Deus. O “SIM” dado por Maria na anunciação repetiu-se muitas vezes, e consumou-se aos pés da Cruz na entrega de seu Filho pela salvação da humanidade. Maria é desde a sua concepção o que Deus queria que todos os seres humanos fossem: “santos e irrepreensíveis”. Numa palavra, Maria não é deusa, mas a perfeita “imagem e semelhança de Deus”. Pois bem ao contemplarmos Maria, na festa de hoje, primeiramente busquemos em nossa vida viver como ela viveu. Oferecer nossa pobreza a Deus para que dela brote uma grande riqueza. Precisamos ser capazes de assumir nossos compromissos, e responder aos convites que o Senhor nos faz, como verdadeiros servos Dele como nossa mãe o foi. E que possamos dizer sempre “sim” à vontade de Deus em nossa vida. Não raro somos ao mesmo tempo “sim” e “não”. Somos “não” quando deixamos o mal dominar nossa existência e somos “sim” quando nos transformamos em instrumentos do bem e do amor! Que possamos sempre repetir com Maria: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Meditar e viver este compromisso nos ajudaria a crescer em muito na fidelidade a Palavra de Deus e aos valores do Evangelho. Mesmo que nos custe sacrifícios devemos nos esforçar em viver este compromisso de entrega total a Vontade de Deus. É claro que para saber qual é concretamente a vontade divina precisamos de muito discernimento, e para isto nos ajudará a oração, a meditação e o conselho do irmão mais experiente no caminho do Senhor. Que a Imaculada no ajude a dar nosso “sim” nos momentos mais desafiantes da vida. Quando sentimos desânimo, ou somos oprimidos pela doença, injustiça e perseguição, nos momentos de desencanto, nas horas de incerteza. Na dor da traição ou do abandono dos amigos! Que nossa mãe nos ajude nestas difíceis situações da existência a reafirmarmos na fé, que vale mais seguir a Palavra de Deus. E nos livre da tentação de responder o mal com o mal! Que a Imaculada nos auxilie a cada dia no esforço de sermos uma verdadeira imagem e semelhança de Deus! Homens e mulheres novos, amigos de Deus, fraternos entre nós e construtores de um mundo melhor. Que a Imaculada nos ajude a viver na graça divina, a buscarmos sempre o bem, ela que é a plena da graça, e nos acompanhe na nossa luta contra o pecado em todas as suas formas. Que nesta semana nos esforcemos por ser o que Deus deseja de nós, buscando sinceramente em nossa vida uma maior comunhão com Ele, abrindo-nos cada vez mais solidariamente aos irmãos e fugindo do pecado que desfigura em nós a imagem de Deus, e que causa tantos transtornos a nossa vivência comunitária. Repitamos, pois com Maria muitíssimas vezes: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. E revalorizemos a importância da atitude de serviço. Ela foi Serva de Deus e dos irmãos, e nós também devemos ser. Aliás, o próprio Jesus disse que veio para servir e dar sua vida, e nos convidou a seguir o seu exemplo. Seria bom que nesta semana pudéssemos manifestar alguma atitude concreta de serviço aos irmãos. Não nos esqueçamos de que “quem não vive para servir não serve para viver”.

São Nicolau – 06 de Dezembro

O verdadeiro e único “papai-noel” de toda a História

A metamorfose do Papai Noel
http://pastoralteologica.blogspot.com.br/2011/12/metamorfose-do-papai-noel.html
Tradução: Alexandre de Hollanda Cavalcanti

O personagem gordo, alegre, vestido de vermelho e branco, com suas barbas longas a descer simpaticamente em contraste com o cetim do traje, que todos os anos faz sua aparição na publicidade comercial no período que antecede o natal, é conhecido com vários nomes. No Brasil é o simpático e de origem desconhecida, Papai Noel, na Europa é São Nicolau, nos Estados Unidos e outros Países Santa Claus. Este Papai Noel que está sempre nas portas das lojas, aumentando o faturamento natalino tem sua origem não em um escritório de marketing, mas em uma história bem real e verdadeira: São Nicolau, Bispo de Mira na Turquia e conhecido no Ocidente como São Nicolau de Bari.

São Nicolau de Mira

Este grande santo nasceu em Lícia, uma antiga província da Ásia Menor (Turquia). Ainda muito jovem perdeu seus pais, tornando-se um órfão saudoso e rico, pois herdara uma imensa fortuna que repartiu entre os pobres. Jovem, Nicolau disse «sim» ao chamado de Deus e foi viver em um mosteiro, sendo ordenado por seu próprio tio, que era Bispo.

Depois de visitar a Terra Santa, chegou à cidade de Mira, capital de Lícia, na Turquia, onde os bispos e sacerdotes, de acordo com o costume da época, estavam reunidos na Igreja deliberando para eleger um novo Bispo para a cidade, depois da morte do antigo Bispo diocesano. Depois de vários escrutínios, os reunidos haviam decidido, em comum acordo, nomear como bispo o primeiro sacerdote que no dia seguinte entrasse na igreja. Caiu serena a noite e quando o galo cantou saudando a aurora do dia seguinte, já os Bispos e sacerdotes estavam postos no coro da Igreja, espreitando, curiosos, quem seria o enviado de Deus. Cada vez que se abria a porta da Igreja, os olhares corriam para ver quem entrava… Junto com os raios dourados do amanhecer, uma velha senhora entrava para rezar, depois uma jovem, em seguida um menino… Seria este? Perguntaram-se alguns… Um dos mais anciãos recordou: combinamos que seria o primeiro sacerdote que entrasse…

Enquanto isso, cansado pela longa viagem, sacudia a poeira e limpava um pouco a roupa para entrar no templo sagrado o sacerdote Nicolau, a fim de rezar suas orações matutinas. A porta abriu-se, o sol antecedeu novamente o visitante e todos se levantaram com um estrondoso e súbito aplauso: o Espírito Santo havia enviado o novo Bispo para Mira. Nicolau não entendeu nada do que estava acontecendo, ajoelhou-se para rezar e viu-se rodeado por todo o clero que se aproximava reverente, como diante de uma aparição divina. O decano dos Bispos dirigiu-lhe a palavra e comunicou-lhe o acontecido. Nicolau hesitou. Mas percebendo que era o próprio Deus que lhe traçara o caminho, não seria esta a primeira vez que diria «não» para Deus. Seu «sim» era como o «fiat» de Maria: perpétuo e fiel. Poucos dias depois deu-se a solene cerimônia de sagração episcopal e o báculo de Pastor era posto nas mãos puras de Nicolau.

Nesta época já haviam cessado as perseguições aos cristãos e Constantino havia outorgado plena liberdade à Igreja mediante o Edito de Milão, do ano 313 d.C.. Sem embargo, Licínio, um dos que assinou o tratado, não foi fiel ao que decreto e iniciou uma perseguição contra os cristãos na região governada por ele. Os soldados chegaram ao palácio episcopal e prenderam Nicolau, levando-o para o cárcere central, em meio a ladrões e bandidos de toda ordem. A notícia chegou ao Imperador Constantino e depois de uma acirrada guerra, Licínio foi vencido e libertou todos os cristãos prisioneiros.

O primeiro milagre que se conheceu de São Nicolau foi sua intervenção para libertar a três jovens, o que ocorreu quando o governador Eustácio foi subornado para condenar a três inocentes. Nicolau se apresentou no momento da execução, deteve o carrasco, pôs em liberdade os prisioneiros e repreendeu publicamente a Eustácio, até que este reconheceu seu crime e se arrependeu.

Nessa ocasião estavam presentes três oficiais que mais tarde, ao ver-se eles mesmos em perigo de morte, se encomendaram a Nicolau através da oração. Essa mesma noite Nicolau apareceu em sonhos ao Imperador Constantino e lhe ordenou que pusesse em liberdade aos três oficiais.

Constantino interrogou aos três e ao conhecer que haviam invocado a Nicolau, lhes enviou livres ao santo Bispo com uma carta na qual rogava que orasse pela paz do mundo. Durante muito tempo este foi o milagre mais famoso de São Nicolau e praticamente o único que se sabia dele na época de São Metódio, que havia escrito sobre a vida de São Nicolau.

Depois de sua morte, em 06 de dezembro de 345, cresceu a devoção a São Nicolau aumentando as notícias de seus milagres. Converteu-se em patrono das crianças e dos marinheiros. O Imperador Justiniano construiu uma igreja em Constantinopla em sua honra. Foi nomeado patrono da Rússia e as igrejas dedicadas a seu nome eram mais que as de qualquer outro santo. No oriente o santo é conhecido como São Nicolau de Mira, pela cidade onde esteve como Bispo, porém no ocidente se chama São Nicolau de Bari, porque quando os muçulmanos invadiram a Turquia, os cristãos levaram as relíquias do santo à cidade de Bari, na Itália, onde repousam até nossos dias.

As três donzelas

Tratando-se de um santo muito popular não faltaram as maravilhosas histórias que se acumularam através dos séculos. Entre elas está a das três donzelas. Conta-se que na Diocese de Mira, um vizinho de São Nicolau se encontrava em tal pobreza que decidiu expor suas três filhas virgens à prostituição para encontrar o sustento para ele e para elas, já que não tinha dineiro para pagar o dote, exigido naquele tempo, para casar uma moça. Para evitar esta catástrofe ao pobre homem e às suas virtuosas filhas, São Nicolau tomou uma bolsa com moedas e ouro e, sob a escuridão da noite, a lançou pela chaminé da casa daquele aflito pai de família, que com isso pôde casar sua filha maior.

Dias depois, o bondoso Bispo repetiu a façanha, possibilitando o casamento das outras duas donzelas. Porém, na segunda ocasião, depois de lançar a bolsa sobre a parede do pátio da casa do pobre, esta se enredou na roupa que estava pendurada para secar. O pai correu para a janela e viu seu benfeitor que se afastava, agradecendo-lhe carinhosamente sua caridade.

A transformação de São Nicolau em «Santa Claus»

As antigas lendas das crianças e dos presentes pela chaminé e as meias deram lugar na Alemanha, Suíça e nos Países Baixos à lenda do «Menino Bispo» e sobretudo ao costume de que São Nicolau trazia secretamente presentes para as crianças.

Corria o ano de 1624, quando os imigrantes holandeses fundaram a cidade de Nova Amsterdan, hoje Nova York, e levaram consigo a tradição de Sinterklass, seu patrono, cuja festividade se celebra na Holanda entre 5 e 6 de dezembro.

Em 1809 o escritor Washington Irving, escreveu uma sátira, História de Nova York, na qual deformou o nome do santo holandês, Sinterklaas, com a pronúncia anglo-saxã Santa Claus. Mais tarde o poeta Clement C. Moore, em 1823, publicou um poema onde, baseando-se no personagem de Washington Irving, deu corpo ao atual mito de Santa Claus.

Posteriormente, por volta de 1863, adquiriu a fisionomia do gordo barbudo e bonachão, com a qual é conhecido atualmente. Nisto teve grande influência o desenhista sueco Thomas Nast, que tomou este personagem para suas ilustrações de Natal em Harper¡s Weekly. Ali adquiriu sua vestimenta vermelha, com altas botas e o gorro característico.

A meados do século XIX, o Santa Claus americano passou à Inglaterra e dali à França, onde se fundiu com o Bonhomme Noël, dando origem ao nosso Papai Noel. Em 1931, a empresa Coca-Cola encarregou ao pintor Habdon Sundblom que remodelasse a figura de Santa Claus-Papai Noel para fazê-lo mais humano e crível.

O mito atual

A princípios do século XX se difundiu a ideia de que Santa Claus vive no Pólo Norte; ainda que existem também outros lugares assinalados como possíveis para sua vivenda, como a Lapônia sueca, a Lapônia filandesa e a Groelandia. Desta maneira, o mito atual sustenta que Santa Calus vive no Pólo Norte junto com a Senhora Claus e uma grande quantidade de anões, chamados bendegums, que lhes ajudam na fabricação de brinquedos e outros presentes que as crianças lhes pedem em suas cartas.

Para poder transportar os presentes, Santa Claus os guarda em um saco mágico e os reparte na noite do 24 para 25 de dezembro, em um trenó mágico voador, puxado por míticas renas. Santa Claus pode entrar nas casas das crianças pela chaminé, transformando-se em uma espécie de fumaça mágica. Para saber se as crianças merecem os presentes, Santa Claus dispõe de um telescópio capaz de ver a todas as crianças do mundo, ajudados por outros seres mágicos que vigiam a conduta das crianças. Assim, se uma criança se comportou mal, como castigo não vira visitá-lo Papai Noel e o presente recebido será um saco de carvão.

Hoje em dia a imagem de Papai Noel é utilizado como estratégia de marketing para vender toda classe de coisas e quase ninguém conhece a história original de São Nicolau de Bari, Bispo de Mira. A publicidade comercial conseguiu impôr um mito pagão a um personagem real, cuja santidade serviu de inspiração a crianças e adultos por seu grande amor aos pobres e sobretudo às crianças.

Ensinemos às nossas crianças, fundamentos da sociedade de amanhã, que a santidade é o verdadeiro caminho para a vida. Contemos a história verdadeira de São Nicolau, que do alto dos céus abençoa as crianças para que cumpram seus deveres e inspirem seus pais a tratá-los com amor, responsabilidade e carinho, ensinando-lhes sempre os caminhos do bem e da caridade.

Um feliz e santo Natal para você e toda sua família!

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