Homilia da Semana

Quem Planta Amor, Colhe o Céu!

Não sei se você já fez uma experiência super interessante que é plantar um feijãozinho e acompanhar todas as suas fases de crescimento… se ainda não fez, te convido a plantar um hoje. Toda semente carrega dentro dela uma vida, que se plantada e cuidada produz um fruto… e no caso do feijão, com certeza dará feijão… assim, se plantar maçã, você não terá como colher mamão. Se você olhar dentro da vagem que nasce deste feijãozinho, encontrará vários feijões. Tem um ditado popular muito verdadeiro que diz o seguinte: O QUE VOCÊ PLANTA, VOCÊ COLHE.

Conta uma história que todas as atitudes de amor que temos aqui na Terra, como ajudar as pessoas que precisam de nós, ajudar os nossos pais a cuidar da casa, cuidar das pessoas que são mais velhas e precisam de nós, ajudar nossos amigos na escola, ajudar nossos irmãos, enfim fazermos o bem… é como se fôssemos ajuntando tijolinhos no céu e quando chegar o nosso dia de ir pra lá, com o tanto de tijolos que tivermos mandado, é que será construída a nossa casa no céu, onde moraremos para sempre. Que tamanho será a sua casa, heim???

Portanto, quem planta AMOR, vai colher amor e ainda vai ganhar uma enorme casa no céu. E quanto mais amarmos, mais perto vamos estar de Jesus e também de Nossa Senhora.

Por falar em Nossa Senhora, imagina só como deve ser lindo o palácio de amor em que ela mora, bem no coração de Deus, isto tudo pelo quanto ela amou e nos ensinou a amar.

Para termos uma idéia do tanto que ela plantou amor, quando chegou o dia dela ir pro céu, os anjos vieram buscá-la.

Hoje Deus preparou algo muito especial para nós. Ele quer nos falar um pouco de sua mãe: Maria Santíssima.

Você assistiu o filme “Maria, mãe de Jesus”? Pois ele mostra um pouco do que Maria viveu e como viveu.

Era uma mulher simples, atenciosa, amorosa, gostava de ajudar as pessoas, era boa filha, e o mais importante, era alguém que rezava e conhecia bem a Palavra de Deus.

Foi a escolhida por Deus Pai, para gerar, cuidar e educar seu filho Jesus, juntamente com José. Maria ficou grávida pela ação do Espírito Santo, após nove meses Jesus nasceu num estábulo, pois não havia lugar para abrigá-los naquela cidade de Belém onde estavam.

Que mulher corajosa não!? Ter seu filho junto com os animais (burrinhos, bois, vaquinhas e etc), mas estava feliz, pois seu filhinho nasceu forte e bonito e era aquecido pelo bafo destes animais.

Voltando alguns dias depois para casa em Nazaré, foi cuidando de Jesus, dando banho, papinha e mama. Conversava com o seu filho, brincava com ele, viu seus primeiros passinhos e escutou suas primeiras palavras.

Maria era feliz!

Com o tempo, Jesus foi crescendo, passou pela adolescência e se tornou adulto. José o ensinou o oficio de carpinteiro e sua mãe o ensinou tudo sobre Deus e sua palavra. Rezavam juntos todos os dias e Jesus foi crescendo cheio de graça e sabedoria.

Maria participou dia-a-dia da vida de seu filho, cozinhando para ele, lavando suas roupas, indo a festas juntos, ensinando a ler e escrever, conhecia suas amigos, iam à Sinagoga (templo = Igreja) rezar e ouvir a Palavra de Deus. Ela sempre foi muito presente na vida de Jesus, renunciava muitas coisas para estar junto dele e servi-lo.

Aos 30 anos, Jesus começou a sair para as cidades vizinhas e povoados distantes, para levar o amor de Deus e mostrar a todos como era viver bem, deixando os pecados de lado, mudando de atitude, ensinando-os a rezar e a ter uma vida nova.

Nessa época Maria não ia junto, mas ficava em oração por toda obra evangelizadora realizada por Jesus e seus discípulos.

Sofreu muito quando o seu filho foi perseguido, bateram nele com chicotes, coroaram-no com espinhos e o levaram para ser crucificado.

Caminhou com Ele até o Calvário e viu o seu Jesus morrer na cruz. Seu coração estava esmagado pela dor do sofrimento.

Quando desceram Jesus da cruz, segurou-o em seus braços pela última vez. As lágrimas escorriam no seu rosto vendo seu filho morto e humilhado injustamente. Mas, mesmo assim seu coração estava cheio de esperança, pois sabia que não terminava ali aquela dor.

Depois presenciou Jesus ressuscitado: que alegria!!!

Maria viveu a sua vida toda santamente, sem reclamar, murmurar, acusar ou julgar quem quer que seja.

E você reclama? Murmura? Acusa os outros? Faz julgamentos?

Maria serviu toda a sua vida, rezou o tempo todo, estava sempre atenta em tudo e guardava tudo no seu coração.

Você ajuda a quem precisa, a qualquer hora? Reza sempre? Fica sempre atento a tudo que acontece para saber o que pode fazer? E ao invés de brigar, falar mal, julgar, guarda tudo em seu coração?

Pois bem, foi por tudo o que ela viveu, como aceitou e acolheu tudo, que recebeu uma grande graça, uma grande bênção, um grande presente de Deus: FOI LEVADA AOS CÉUS DE CORPO E ALMA. O que significa isso?

Você já rezou o terço? Nos “Mistérios Gloriosos” contemplamos a “Assunção de Nossa Senhora ao céu”. É justamente isto: Maria não morreu, foi levada ao céu de corpo e alma. Fico imaginando Jesus vindo buscá-la e juntamente com os anjos levando-a para o céu.

É um mistério lindo, que também nós viveremos um dia, quando Jesus vier em glória.

Se já tivermos morrido, ressuscitaremos e se estivermos ainda vivos veremos com nossos olhos o que Nossa Senhora já viu, a glória de Deus e conheceremos o céu. Você quer esse presente?

Ah! Mas vai depender também de você, das suas atitudes, da sua maneira de amar, de ajudar os outros, de rezar e querer cada vez mais conhecer as coisas de Deus.

Se você tiver dificuldade, pense em como foi a vida de Maria e peça que ela te ensine.

Experimente, vale a pena!!!

Que Maria, Mãe de Jesus e nossa interceda por você e por mim.

Amém!!!

Fonte: Denize Simões Ferreira – Diocese de Franca  

 

MANUAL DE PSICOLOGIA DE MARIA MÃE DE JESUS

Há sete manifestações verbais de Maria nas Escrituras.

Inicia-se com sua primeira resposta/pergunta  -“MAS COMO ISTO PODE SER?” Segue-se por – “FAÇA-SE A SUA VONTADE”. Continua com a terceira (implícita) de sua SAUDAÇÃO À ISABEL. Em resposta ela rejubila com o – MAGNIFICAT. Continuamos – “POR QUE NOS FEZ ISTO?” – “ELES NÃO TÊM MAIS VINHO”.

Pontua-se com – “FAÇAM TUDO O QUE ELE VOS DISSER”.

MAS COMO? – Maria nos faz perceber que sempre existem dúvidas, dificuldades, incertezas, não conhecimentos. Em outras palavras, conflitos.  Nessas primeiras palavras, anuvia suas dúvidas sem querer provas, ou sorrindo incrédula. No caso, ela pensou que ela não sabia como, mas Ele saberia. Nas grandes dificuldades que enfrentamos como pais e mães quase nos afogamos exatamente nas dúvidas, incerteza, temores. Hoje em dia nas opções de valores para os filhos quando uma sociedade insiste em mostrar um lado inverso, chefiado por um outro deus qualquer é pergunta constante em todos os dias – “Mas como?”.

Ela não fica quieta, aguardando toda a comunicação do anjo Gabriel de olhos baixos e sem ousar se manifestar. Não, ela não se cala. Ela ousa e se manifesta. Uma característica de personalidade para os participativos que não temem uma atitude de iniciativa. Dá continuidade àquela conversa e a um novo rumo para a humanidade, demonstrando não haver impossibilidades superiores.

O fato psicológico, deste momento de Maria, fica por conta de ela questionar, querer entender, descobrir, saber o que aceitar. Todos estes raciocínios, referentes a atitude crítica, muitas vezes vitais. Podemos invocar por ela, nestes momentos em que senso crítico é necessidade.

Como num diálogo o anjo Gabriel retoma a palavra que agora era dele e a informa que o Espírito Santo estará com ela e que o poder do Altíssimo lhe cobrirá com sua sombra.

Ela é consciente de que GRANDES COISAS se reservam realmente para aqueles que abrem a porta ao Seu chamado. É a segunda manifestação de Maria. – “SOU A SERVA DO SENHOR, FAÇA-SE O QUE ELE DIZ SER PARA MIM”.

Este foi o SIM. Sim para Deus e para todos nós.

Como fator psicológico, desta passagem bíblica, fica o que a psicologia mais gosta – tomar consciência, vivenciar, tornar-se presente no que é preciso e válido.   A terceira manifestação nos vem implícita pela saudação de Maria a sua prima Isabel, que com sua resposta de alegria ouve a continuidade do quarto momento de pronunciamento de Maria. “MINHA ALMA GLORIFICA AO SENHOR, MEU ESPÍRITO EXULTA DE ALEGRIA EM DEUS MEU SALVADOR, PORQUE OLHOU PARA SUA POBRE SERVA”. É muito importante reavivar esta capacidade de auxílio, altruísmo, extroversão em ir alem de si mesma. Muitas famílias são marcadas pelo egoísmo, constante de ser apenas elas, serem ‘centros egocêntricos’ do mundo, não se ensinando a colaboração, a ajuda nas dificuldades de outras pessoas e a abrir espaços necessários. Há todo um fator psicológico em partilhar, cooperar e conviver. Ainda pelo Magnificat ela demonstra uma maravilhosa auto-estima – “O Senhor fez em mim maravilhas…”

Hoje em dia acha-se que as características da auto-estima estão voltadas para se defender do que se acha que é baixa-estima, muito questionável principalmente em relação à educação de filhos. Fica tudo invertido e auto-estima merece outro conceito. Vale analisar toda esta passagem completa, pois toda a maravilha do MAGNIFICAT nos mostra o poder, a bondade a misericórdia de Deus acompanhando um bom princípio de auto-estima.

…E assim Jesus nasce e vai crescendo acompanhado por Maria. Poderíamos dizer que os dois crescem se acompanhando. Mãe também deve estar em constante crescimento para si mesmo e para seus filhos. – Mãe em crescimento. Mulher em crescimento. Crescer positivo, não imitando ou paralisando-se aos filhos mesmos ou querendo fazer suas coisas. Crescer para o mundo, com suas novidades, com suas ameaças, com suas atitudes. Tomar parte do mundo, pois ninguém faz se não é. Mãe não é só para prover recursos materiais e necessários, mas também inserir seu filho com elementos positivos neste mundo que aí está. Maria estava presente nas Bodas de Cana, ela estava presente aos pés da cruz.

No quinto momento o pronunciamento de Maria é a pergunta aflita feita a seu Filho com 12 anos de idade: -“POR QUE VOCÊ FEZ ISTO?”.

Na resposta que Ele estava se ocupando das coisas de seu Pai ela guardou em seu coração, mesmo que não a compreendesse bem.

Esta pergunta é constantemente feita pelos pais, sempre. Sabe-se bem o que é um momento torturante. É momento de apelos, orações, ameaças, temores fortes. Mas temos que corresponder às situações para poder encaminha-las para o lado positivo. Não ter receio de perguntar. Esta atitude é muitas vezes bem difícil. Saber respeitar, reorientar, acompanhar os filhos.

…E Ele e sua mãe continuavam em seus crescimentos.

E foram a uma festa de casamento.

No sexto momento ela fala diretamente com seu Filho, adulto, ao perceber que havia algo faltando. Ela avisa a seu Filho – “ELES NÃO TÊM MAIS VINHO”. Ele respondeu que não era ainda a hora dEle, mas ela insiste, pois ela sabe que sempre Ele lhe atende. E seu sétimo e último pronunciamento firme, seguro – “FAZEI TUDO O QUE ELE VOS DISSER” – parece um legado constante para o que devemos fazer.

Reler os evangelhos e buscar inspiração nos valores que passamos para nossos filhos. Na cruz Jesus apresenta Maria e João como mãe e filho. Jesus também diz, em outro momento, que seriam seus irmãos todos aqueles que ouvissem a palavra do Pai. Mas, pensamos que neste momento das Bodas de Cana é a própria Maria quem assume a maternidade de todos nós.

Este foi o primeiro milagre da vida pública de Jesus. Ele é introduzido na vida pública pelas palavras e, novamente, iniciativa de Maria, a mesma que lhe dá a vida física. Ele até titubeia a respeito de não ser sua hora, mas ela é firme, consciente e clara.

Desde o reencontro aos doze anos, para chegar neste ápice das bodas de Cana que não limitou negativamente seu filho, muitos usariam a palavra castração. Respeitou suas necessidades para Sua missão. Acompanhou seu desenvolvimento intelectual (sabe-se que Ele era conhecedor das Escrituras) e o “lançou” na vida pública.

Não deve ter sido nada fácil, embora sublime, ser mãe do Jesus humano. Mas ela, que desde a Anunciação percebemos não ser cabisbaixa demonstra acreditar na sua positiva autoridade. Autoridade dizendo (à humanidade) para fazermos tudo o que Ele nos dissesse. O que implicitamente era uma afirmação (ordem!) para que Ele fizesse o que era necessário.

Ela sempre pensa no bem dos outros, presta atenção aos que os rodeiam e esse desenvolvimento social é crescente desde o Jesus bebê convivendo com pastores, magos e homens de todas as classes e diferenças.

A maior psicologia de Maria é descobrir que nas fraquezas, nos sofrimentos, nas incertezas há toda a contrapartida da força, da transformação.

De fato Maria é um belo exemplo psicológico a ser refletido.

É Mãe por inteiro, pois sofreu, alegrou-se, desenvolveu-se junto com seu Filho, a ponto de não se intrometer, mas o encaminhando sendo, até, um ponto de referência para sua vida pública, o seu ‘deixar o ninho’.

Um bom lembrete – somos todos irmãos de seu Filho.

Fonte: Maria Lúcia Pedroso Yoshida

Vida Religiosa

Muitos estão sendo vencidos pelo medo de seguir, até o fim, o projeto de Jesus
Dom Pedro José Conti, Bispo de Macapá

“O hábito não faz o monge”, diz o provérbio, mas, sem dúvida, chama um pouco, ou muita, atenção. Talvez uma criança curiosa tenha nos incomodado com perguntas inocentes querendo saber: “Por que aquela pessoa estava vestida daquele jeito?” Claro que podemos sair da pergunta com uma resposta curta e grossa: “É uma freira” ou “É um frei”. E se a criança insistir, querendo saber mais, saberíamos responder à altura e com gosto? Ou nos esconderíamos atrás do banal “deixa pra lá”, equivalente a não saber ou ao não querer responder? Tenho certeza: digam o que quiserem, finjam não ver, ignorem a presença deles e delas, mas os religiosos e as religiosas chamam atenção. Não porque queiram isso. Mas – ou por usarem o hábito ou pelo jeito – obrigam-nos a perguntar por que eles e elas escolheram aquela forma de viver. Por quê? Insisto sobre os questionamentos pelo fato de a vida religiosa também ter mudado. A freira que anda pelas casas do bairro pobre é formada em Pedagogia e está estudando Ciências Sociais. O monge, que abre a porta do convento e acolhe os mendigos é mestre em Letras pela PUC de São Paulo. O frei que anda de bicicleta, evitando os buracos e a lama da periferia, é advogado. A irmãzinha que cuida da creche é enfermeira diplomada e continua estudando Medicina de noite. O irmão que está no acampamento dos sem-terra é doutor em Teologia. E assim poderíamos continuar. Quem tem uma imagem dos irmãos e das irmãs como de “coitadinhos” meio perdidos e fora do tempo está muito enganado. Não somente porque eles e elas, hoje, estudam mais, mas porque continuam sabendo muito bem o que querem. Eles têm um grande projeto de vida. Querem ser felizes vivendo o Evangelho. Querem contribuir com a sociedade de hoje seguindo as pegadas de Jesus Cristo. Se a vida religiosa podia parecer, no passado, um refúgio para ter uma “certa” tranqüilidade, ou uma fuga por medo das coisas perigosas do mundo, hoje é exatamente o contrário. Vida religiosa não é para pessoas fracas. É cada vez mais exigente. Dizem que o celibato para o Reino de Deus e a virgindade consagrada são coisas para sexualmente frustrados. A pobreza é considerada excesso de loucura e inaptidão administrativa. A obediência, uma inútil inibição dos projetos pessoais, uma afronta à liberdade individual. Essas coisas são bobagens, claro, mas só para os acomodados, os que ficam alucinados e iludidos pelas coisas do mundo, para os que adoram encontrar defeitos nos outros e só sabem criticar. Por isso, a vida religiosa sempre será questionada e sempre chamará atenção. O caminho é difícil e a porta estreita. É preciso empurrá-la para entrar, não é para todos. Se não entendemos tudo isso, ou não sabemos responder bem às perguntas acima, tenhamos ao menos o bom senso de não falar à toa e, quem sabe, aprendamos a agradecer a essas pessoas, que pagam com a própria vida as suas escolhas. Se não fosse assim, a Irmã Dorothy Stang não teria morrido. O padre Bossi, do PIME, não teria sido seqüestrado lá nas Filipinas. Os religiosos e as religiosas podem ter muitos defeitos, como todos, mas não são nem bobos nem ingênuos. A chamada crise da vida religiosa pode ser pela quantidade; mas com certeza não o é pela qualidade. Talvez aos jovens, hoje, falte coragem. Estão sendo vencidos pelo medo de seguir, até o fim, o projeto de Jesus. Sentem medo de parecer diferentes ou de incomodar aos outros; de começar a mudar a história, mudando a própria vida. Por isso Jesus repetiu tantas vezes aos discípulos: não tenham medo… E o repete ainda em nossos dias. Para nós todos.

 

A VIDA CONSAGRADA

Na visão do apóstolo São Paulo (1Cor 12, 4-11), a comunidade cristã é constituída com uma riqueza incalculável de dons e ministérios, todos sob a ação do Espírito Santo, em vista do bem comum. É a chamada diversidade na unidade, um corpo com membros diferentes e distintos na sua ação. Assim temos na Igreja a Vida Religiosa, organizada atualmente nos chamados Institutos de Vida Consagrada. São instituições existentes e aprovadas pela Igreja, nas quais as pessoas livremente ligam-se, de forma muito natural, buscando objetivos muito definidos. E isto é fruto da ação do Espírito Santo, enriquecendo e animando a caminhada da Igreja. Uma das características de quem entra para a Vida Religiosa, é fazer os votos dos Conselhos Evangélicos, isto é, voto de castidade, de pobreza e de obediência. Além disto, devem viver a vida fraterna em comunidade, onde tudo é colocado em comum e ninguém é dono de nada. O desprendimento deve ser total, como “sinal” do Reino de Deus. A Vida Religiosa santifica e dá força à Igreja na sua história. É o Espírito de Deus quem vai despertando, nos chamados “fundadores”, um estilo de vida cristã com objetivos específicos. A Vida Religiosa é uma consagração da pessoa a Deus. É como um verdadeiro matrimônio que se estabelece com Deus, numa doação exclusiva e contínua. Os seus membros fazem votos, que podem ser perpétuos ou temporários, ficando estes últimos, sujeitos à renovação de tempo em tempo. Faz também parte da estrutura da Vida Religiosa a fraternidade vivida em comum por todos os seus membros. Após os votos, ou a partir do momento em que um membro passa a pertencer oficialmente ao Instituto, os seus bens são colocados em comum. Ele perde a capacidade de ter bens pessoais, mas no conjunto, é beneficiado por tudo o que é de todos. Na verdade é chamado a viver na pobreza, porém não lhe faltando o necessário para a sua vivência na comunidade. A vida religiosa acontece a partir de uma vocação divina. E um dos primeiros passos, de forma mais oficial, é o noviciado. Ali começa a vida no Instituto (Congregação). O vocacionado tem que ser admitido pelo Superior, mediante algumas condições: idade mínima de dezessete anos, saúde suficiente e comprovada maturidade para assumir tal estado de vida. Um destaque todo especial deve ser dado à liberdade na decisão. Ninguém pode ser forçado ao fazer a própria escolha do estilo de vida na Igreja. O noviciado deve cultivar nos noviços a vivência das virtudes humanas e cristãs, a busca da perfeição pela oração e pela renúncia de si mesmos, a contemplar os mistérios da salvação, a ler e meditar as Sagradas Escrituras, a prestar culto a Deus pela liturgia, a levar uma vida consagrada a Deus e aos homens, mediante os conselhos evangélicos, com os votos da obediência, da castidade e da pobreza, numa visão de amor à Igreja. O noviciado prepara a pessoa para ser admitida na profissão temporária. E é um tempo, não só de formação, mas também de discernimento e de prova. Existe uma grande seriedade no processo que culmina com a profissão religiosa, quando o membro assume publicamente a observância dos votos, consagrando-se a Deus pelo ministério da Igreja. A partir daí ele é incorporado ao Instituto com os direitos e deveres que lhes são próprios. A riqueza da Vida Religiosa enriquece também a Igreja. Os religiosos “puxam” a Igreja. Fazem com que ela reflita e tome posições concretas na sociedade. São quase como uma oposição, que faz com que, quem está na situação, mexa-se e coloque-se a serviço. Mas é a Igreja em movimento, fazendo acontecer a sua missão no mundo, construindo o Reino de Deus.

 

VIDA CONSAGRADA: SEGUIR CRISTO CASTO, POBRE E OBEDIENTE
Mirticeli Medeiros / Da Redação

Em todas as épocas mulheres e homens são chamados a vida consagrada

Durante o mês de agosto, a Igreja no Brasil convida os católicos a refletir sobre a riqueza das mais diversas vocações na Igreja e no domingo, 21, todos foram levados a lançar um olhar especial sobre a vida consagrada. O Vaticano possui a Congregação para os Institutos de vida consagrada e Sociedade de Vida Apostólica, órgão instituído em 29 de junho de 1908, que cuida justamente das mais diversas congregações religiosas e institutos de vida consagrada espalhados pelo mundo. A cada ano, o Papa também dirige uma mensagem especial a todos os religiosos e religiosas em 2 de fevereiro, dia mundial da vida consagrada. “Deste modo, a vida consagrada, na sua vivencia cotidiana sobre as estradas da humanidade, manifesta o Evangelho e o Reino já presente e operante”, disse o Papa emérito Bento XVI, em 2 de fevereiro de 2011. Ao pensar em vida consagrada, para a maioria, vem à mente as grandes mulheres como Madre Tereza de Calcutá, Edith Stein (Santa Tereza Benedita da Cruz) e tantas outras religiosas que ao entenderem o sentido mais profundo da vocação, traduziram o chamado em doação. Mulheres e homens de várias épocas que encarnaram na vida os conselhos evangélicos da pobreza, obediência e da castidade configurando-se a Cristo, pobre, casto e obediente. “A vida religiosa, de fato, conduz a pessoa a assumir de forma consciente e concreta o mistério da paixão de Cristo, sua morte e ressurreição. A partir deste fundamento, se forma o homem novo, o religioso e o apóstolo”, afirmou Irmã Maria Ângela, psicóloga e doutora em Vida Consagrada, da Congregação das Missionárias de Santo Antonio Maria Claret.

A vida consagrada não é uma realidade isolada e marginal, mas diz respeito a toda a Igreja’

A formação na vida religiosa A religiosa, que realiza um estudo aprofundado sobre a formação na vida consagrada, destaca a responsabilidade da Igreja perante esta vocação tão nobre, que expressa sua beleza no rosto dos mais diversos carismas, suscitados pelo Espírito Santo, ao longo dos séculos. A Igreja, enfatiza Irmã Maria, entende a importância deste chamado para cumprir com eficácia sua missão universal e por isto, investe nestas vocações sobretudo no tocante à formação. “Em uma chave de leitura educativa e mística da maturidade à luz do mistério pascal, o documento de Diretrizes sobre a formação nos Institutos religiosos, de 1990, revela o processo de maturidade como um programa formativo que dura toda a vida”, salienta. A exortação pós sinodal Vita Consecrata, escrita pelo Papa São João Paulo II , em 1996, expressa bem o apreço da Igreja por esta vocação, destacando que estes religiosos realizam junto a Igreja, sua grande missão: evangelizar. “A presença universal da vida consagrada e o carácter evangélico do seu testemunho provam, com toda a evidência — caso isso fosse ainda necessário —, que ela não é uma realidade isolada e marginal, mas diz respeito a toda a Igreja”, afirma a Exortação de São João Paulo II.

23º Encontro de Casais com Cristo – 1ª Etapa

Os Princípios da Espiritualidade do ECC
Doação – Pobreza – Simplicidade – Alegria – Oração – Fraternidade, Gratuidade e Missionariedade
Organizado por Pe. Inácio José Schuster

 

Vida com Deus
ESPIRITUALIDADE? O que é isto?
A busca da espiritualidade deve nos ajudar a ser cada vez mais livres e senhores dos nossos instintos
Frei Patrício Sciadini, ocd

Uma das palavras mais usadas nestes últimos tempos é espiritualidade, porque nos faz muita falta para o equilíbrio de nossa vida. Dizem os psicólogos que quando se fala muito de uma coisa é porque não a possuímos e, portanto somos carentes do que falamos. Não sei se esta teoria está certa, não é minha especialidade. O que posso dizer é que a espiritualidade não é uma teoria que preenche o coração de ninguém. Para que a espiritualidade se torne algo de pessoal e de amado deve sair do papel e do campo das ideias e se fazer vida. Somente quem vive olhando para o alto, não se deixando escravizar pelas coisas da terra pode lentamente tornar-se uma pessoa espiritual. Devemos evitar o espiritualismo que nos impede de compreender que a ação é o caminho certo de toda forma de espiritualidade.
Se um dia você tiver a oportunidade de visitar uma livraria do aeroporto ou rodoviária ou qualquer outra livraria você fica espantado em ver tantos livros que são denominados de espiritualidade, mas que na verdade não passam de pequenas e às vezes insignificantes orientações emocionais e psicológicas que não atingem o verdadeiro sentido da vida. No respeito para todos estes autores que fazem um bem imenso aos que leem, discordo de tudo isto porque me parece que não pode existir uma autêntica espiritualidade sem uma referência explícita a determinados valores fundamentais como a defesa da vida, da paz, dos direitos humanos.
A liberdade e o caminho espiritual
A busca da espiritualidade não pode prejudicar a ninguém, mas deve nos ajudar a ser cada vez mais livres da matéria e senhores dos nossos instintos. A verdadeira espiritualidade é fruto de uma luta corajosa, forte, onde ficamos feridos, arranhados e sangrando, mas não desistimos da luta. Um dos textos que mais me ajudam como aprender a verdadeira e autêntica espiritualidade é a carta de São Paulo aos Gálatas. Ele nos recorda a beleza da nossa vocação, deste caminho espiritual que devemos percorrer e que devemos sempre ter presente na vida. “Fostes chamados para a liberdade”. Somente quem busca a autêntica liberdade se aventura no caminho espiritual.
A liberdade não é como normalmente se entende dentro da linguagem das pessoas no dia a dia. Livre é quem faz o que quer e como bem entende. Há muitos autores que dizem: tenho o direito de ser feliz e de buscar a minha felicidade e realização, portanto até que não encontre vou buscando, não importa se isto me faz romper os laços da família, do amor, dos compromissos do matrimônio ou do relacionamento familiar, o que vale é a minha felicidade. Na verdade nunca seremos felizes se nos deixarmos dominar pelo egoísmo que está em nós. A liberdade é um sonho duro a ser conquistado e que vai exigindo muito de nós. Esta liberdade nos leva à verdadeira espiritualidade do amor. Mais reflito sobre o amor e menos sei, e, no entanto me parece que com os anos que vão chegando o compreendo mais. Mesmo quem sabe por que a memória dos fracassos me faz ver em outra perspectiva o mesmo amor que devo conquistar.
Perceber a necessidade do amor para viver uma dimensão de vida que não pode ser “espiritualização” de nada, mas sim somente espiritualidade autêntica e vital. Será o mesmo Paulo que vai apresentando uma lista interminável de frutos da carne. São 15 nomeados e outros que ele não nomeia. E todos são causas de perturbações que nos afastam do valor fundamental da vida. Há quem acha que viver a feitiçaria ou espiritualismo é espiritualidade, ou quem vive até rancores e domínio dos outros… Pensa que para dominar os demais se necessite de uma forte espiritualidade. Não há dúvida que são visões distorcidas da verdadeira e autêntica espiritualidade. Não podemos confundir a espiritualidade no sentido católico do termo, esta não pode ter outro alicerce a não ser Cristo Jesus.
Tipos de espiritualidades
Existem várias espiritualidades: budista, muçulmana, hinduísta, judaica… são janelas pelas quais as pessoas veem a vida. Mas nós queremos ver a vida pela janela do evangelho e do coração de Deus, por isso o único alicerce de toda a espiritualidade é a palavra de Deus que nos alimenta em cada momento.
Paulo diz que os que vivem os frutos da carne não podem entrar no reino de Deus. Não é necessário termos todos os frutos da carne, é suficiente ter um que nos domine, para não termos acesso à mesma vivência do reino. Um fruto influencia toda a nossa vida e nos escraviza. Os frutos do Espírito, que são o sinal do autocontrole e do senhorio de nós mesmos, nos fazem entrar na verdadeira liberdade. Quais são estes frutos do Espírito?
Os frutos do espírito são: caridade, alegria, paz, longanimidade, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, continência. Contra estes não há Lei (Gl 5, 22-23).
Aqueles que vivem estes frutos do espírito não tem mais lei porque são orientados pelo amor e quem ama sabe que jamais poderá fazer o mal nem a si mesmo e nem aos outros. São João da Cruz, na sua visão de liberdade e de plenitude da vida, ensina que quem chega no cimo do monte encontra somente a honra e a glória de Deus, e que para o justo não há lei…O justo tem uma única lei que o orienta, o amor. Este não lhe permite mais ser escravo de nada e de ninguém.
O caminho da verdadeira espiritualidade
O caminho da verdadeira espiritualidade é um processo de libertação interior onde tudo está debaixo do poder da nossa liberdade e que nada mais poderá nos impedir de sermos livres no nosso agir. Na espiritualidade então percebemos que é necessário superar as ideologias mágicas que não realizam nada em nós. Por exemplo, a espiritualidade dos perfumes, das cores, do incenso queimado ou das novenas feitas somente pelo intuito de receber a graça e nada mais. São espiritualidades vazias e sem fundamento. É preciso que o Espírito encontre em nós uma resposta e se faça carne. Deus nos dá um espaço de tempo para viver a nossa espiritualidade e somente neste espaço de vida que somos chamados a realizar o seu projeto de amor. Não há nada de reencarnação e de caminhos de volta para nos purificar e chegar assim à iluminação. É aqui e agora que a nossa vida deve se realizar. Não há outras vidas e nem outra existência a não ser a vida eterna que se conquista no dia a dia duro e difícil do nosso carregar a cruz, e na luta sem trégua contra o mal que está dentro e fora de nós.
Mas afinal o que é espiritualidade? É um estilo de vida pautado pelo evangelho que visa a imitar a pessoa de Jesus. Seremos espirituais quando pudermos dizer com sinceridade com Paulo apóstolo: não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim.

 

DOAÇÃO
No Evangelho está escrito: “O Filho do homem não veio ao mundo para ser servido, mas para servir”. E ainda: “também vós deveis lavar os pés uns dos outros”. Estas duas passagens das escrituras nos remetem a um profundo exame de consciência, quanto a tudo aquilo que temos feito em relação aos nossos irmãos. Na verdade a nossa vida deveria ser toda um só ato de servir aos outros, anulando-se cada um nos seus próprios sentimentos e desejos, para viver no outro a alegria que existe em doar-se.
Vejam bem: servir, não é ser servil! Uma pessoa servil pode nem sempre ser sinônima de alguém que serve desinteressadamente – tal como pede o evangelho – mas sim o pode fazer com segundas intenções. Aqui se anula diante dos outros, mas adiante pretende a obtenção de alguma vantagem maior. Este é um comportamento farisaico e deplorável, em especial quando se faz muito mais em palavras, que em ações concretas. A pessoa então, se humilha fingidamente diante da outra, mas seu sentido não é servir de verdade e sim buscar explorá-la no momento oportuno.
Novamente o ato de servir – e servir sempre e sem reservas – exige de nós uma outra dose brutal de humildade. Aliás, exige humildade total! Neste particular temos como maior exemplo a humilde Maria, a serva dos servos de Deus, insuperável em todas as suas atitudes. Nem mesmo ao também humilde José ela deixou de se submeter, tornando-se assim, com esta virtude, a mais incrível das criaturas de Deus. Uma centelha da humildade de Maria – tivéssemos nós a iluminar nossos caminhos – e o mundo já teria sido literalmente transformado. Ela, de fato, desceu – na verdade subiu – a extremos tais, que ela nunca será superada por pessoa alguma na atitude de servir. De doar-se, de se entregar ao serviço dos outros.
Como uma das virgens do templo, onde entrou aos três anos e meio, Maria já de imediato se tornou a maior e a mais solícita serviçal. Eram dela os trabalhos mais simples e humildes, eram dela as funções mais estafantes. Muitas perseguições, inclusive, teve ela que enfrentar de suas superioras, ou das virgens mais velhas, tendo em vista que o comportamento humilde de nossa pequena Serva, acusava continuamente os procedimentos arrogantes das outras. Então ela sofreu muitas humilhações, mas jamais se revoltou contra quem quer que fosse, jamais elevou sua voz em defesa própria, jamais respondeu com rispidez à arrogância alguma. Onde buscar tamanha força para exercer este assombroso ministério do servir? De humilhar-se a tal ponto?
Ela deve ser buscada no exemplo de Jesus, que – sendo Ele Deus – veio para servir e não para ser servido como o merecia. Deve ser buscado no amor incondicional a Deus – eis aí a fonte inesgotável onde Maria bebeu – amor que se reflete no irmão necessitado, e até naquele que não precisa de coisa alguma. Se todos nós seguíssemos os preciosos exemplos de Jesus, Maria e José, com toda a certeza a terra já seria um paraíso, onde não faltaria coisa alguma para quem quer que fosse. Na verdade, todos seríamos ricos – falo em virtudes – que nos levariam também a uma grande fartura material, pois o próprio Deus proveria tudo para todos.
Nesta altura, o leitor poderá perguntar para mim, se consigo viver desta forma proposta por Jesus? E devo dizer que infelizmente ainda não consegui avançar muito neste sentido. Na verdade, todos nós somos um pouco egoístas e gostamos demais de ser servidos, não de servir. São muitíssimo poucos aqueles que têm, como que no sangue, esta vontade de servir aos outros, embora em certos momentos de nossa vida, possamos presenciar muitas provas de solidariedade. São, porém, provas momentâneas e de ímpeto, que acabam naquele momento, não sendo aquelas ações continuadas que o Evangelho nos pede e que devem palmilhar toda a nossa vida.
Ajudar alguém quanto ao carro que quebra na beira da estrada, muitos até fazem isto, mas com certeza a cada dia menos. Isso acontece ainda no interior, onde ainda é forte este sentimento de ajuda, mas nas cidades já está quase morto. Até porque o medo dos assaltos e de ser prejudicado é muito grande, pois o banditismo é tão intenso que até para quem é solicitado a apenas ajudar, muitas vezes sobram dissabores quando não a morte. Isso, aliás, é prova de um mundo que apodreceu, justamente porque a ganância, o querer tudo para si a qualquer custo, tem se tornado a tônica e a quase lei.
Vou dar um exemplo de servir, que levou a imensos dissabores, e aconteceu com um primo meu, já falecido e no céu. Ele sempre foi uma pessoa serviçal, que ajudou os outros o quanto podia. Foi sempre enganado nos negócios por causa de sua bondade e muitas vezes esteve em dificuldades financeiras por causa disto. E aconteceu que num dia, já de madrugada, veio a sua casa um vizinho, a pedir que ele fosse levá-lo de carro a uma localidade distante, para ver sua esposa que estava internada. Ele ponderou ao homem que naquele horário – duas horas da manhã – ele não conseguiria entrar no hospital, mas não teve nada no mundo que o fizesse desistir.
Pois aconteceu o pior! Talvez por estar meio estremunhado pelo sono, talvez por um pouco de pressa – pessoalmente acho que foi por ser um carro velho e mal cuidado – aconteceu um acidente e este homem que ia ver a esposa morreu. E o carro não tinha seguro obrigatório, e começou a confusão. Durante mais de cinco anos a família da esposa e ela própria, pressionaram para arrancar dinheiro, levaram processos à justiça, tomaram terras, e nada os parecia contentar. Enfim, depois de tudo e de uma grande indenização, finalmente eles pararam de exigir. E tudo isso porque foi servir a um homem que, na verdade, queria mesmo é ver a esposa para transar com ele, nada mais que isto.
Sim, alguns homens são serviçais, mas com certeza, as mulheres são mais solícitas e serviçais. As mães de um modo geral têm no servir aos filhos e aos esposos, um caminho fértil que tem dado o céu a muitas delas. Mas vejam, o simples servir aos seus, não é ainda prova deste amor que se doa, porque isso pode ser até intrínseco da nossa natureza animal. Também os animais das florestas, também as aves do céu, servem aos seus até limites extremos. Mas fazem isto como instinto de preservação, não como prova de amor. E assim, dos homens, ditos inteligentes, que receberam uma alma – dom superior de Deus – é esperado algo muito maior e mais nobre.
Na verdade, a doação que se espera dos filhos de Deus, é algo que ultrapassa todos os limites e vai até as últimas consequências. Se as mães servissem aos filhos como prova de amor, sem reclamar jamais – Maria nunca reclamou de coisa alguma – esta solicitude e esta entrega operariam verdadeiros milagres no seio das famílias. Na verdade, porém, as reclamações constantes, tornam a vida familiar estressante, até porque, grande parte das mães não consegue educar também os filhos para servir. De fato, uma mãe que não sabe instruir seus filhos quanto as suas obrigações para com os outros, acaba por se tornar uma escrava do lar, pois seus filhos, e mesmo o marido a escravizam!
Ora, a verdadeira caridade do servir, somente se consuma na reciprocidade mútua, na gentileza permanente de ambas as partes, esposas e maridos, pais e filhos e vice e versa. Quando uma das partes interrompe o ciclo, imediatamente sobram ônus demais para uns e vantagens demais para outros. Então, dificilmente encontraremos mães que são capazes de suportar tudo isso, durante a vida inteira, sem externarem de alguma forma o seu desagrado, ou sem explodirem mais tarde em doenças somáticas, ou no tal stress moderno, quem sabe até em depressão profunda e que pode até levar à morte.
Desta forma, uma mãe, um pai, jamais poderão pensar que é fazendo todas as vontades de seus filhos, que lhes estarão dando uma prova de amor. Isso antes é uma fábrica de tiranos, quando não de bandidos. Justo por isso o mundo não é solidário total, porque a imensa maioria das pessoas se acostumou a ser servido, servindo o mínimo ou nada. E tal atitude, não se verifica somente em relação aos ricos, que têm posses, que podem pagar empregados, mas também aos menos favorecidos e pobres. É do berço que se deve educar para o servir e para a solidariedade.
Vejam, é já no colo da mãe que a criança começa a delimitar seu campo e a sentir até onde ela pode exigir, sem dar nada em troca. É, então, também desde o berço que as mães devem começar a “torcer o pepino”, para evitar, de todas as formas, que a criança cresça sem a noção de servir, somente de querer para si, de ser atendida em tudo. E muitas vezes é com choro e lágrimas, birras e manhas, que eles conseguem ir muito além do desejável, tornando-se verdadeiros tiranos do lar. O mundo está cheio deles e justo por isso está tão mal.
Da mesma forma as relações entre marido e mulher, já desde os primeiros dias do casamento e até antes – o que seria bem melhor e correto – devem ser estabelecidos limites claros entre a ação de cada um e a ação conjunta para benefício de todos. Na verdade, já desde o namoro é que se formam os vícios, porque dificilmente os pares e casais se formam em cima do amor cristão e do servir mútuo, e sim no maior ou menor poder de coerção exercido por um deles, tanto homens quanto mulheres. Quase sempre é a mulher quem se rebaixa, até porque coagida pela força, quando na verdade Deus os fez “homem e mulher” para o amor, para a entrega total, e para o mútuo servir.
Na verdade, milhões de lares se desfizeram depois do processo liberalizante da mulher, que se julgava escrava da cozinha, quando na verdade era rainha do lar, foi assim que Deus a constituiu. Esta foi, com certeza, a maior erva daninha que o diabo conseguiu introduzir dentro das famílias, transtornando as relações familiares, pondo os filhos ao abandono e deixando os maridos mais livres para as relações extraconjugais. Em que número percentual aumentaram as traições mútuas depois disto?
Ora, uma moça que luta muito para conseguir um homem, fácil se torna escrava dele e este não um bom marido, um esposo santo, mas um patrão irascível, o que é algo indigno! Da mesma forma o homem, se luta demais para ficar com a mulher “dos seus sonhos”, pode facilmente cair em concessões excessivas durante o namoro, e vir a se tornar capacho na vida familiar, escravo da mulher, o que é aviltante! Isso tudo acontece porque cada um tende a achar demasiado o que faz para o outro e mínimo o que recebe em troca. Na verdade nós não conseguimos pesar bem o valor das nossas ações e por isso é comum as pessoas se sentirem injustiçadas. Aliás, quando medimos o valor de cada concessão nossa, estamos dando uma prova de não servir, mas de cobrança e exigência.
Servir, ajudar, participar da vida comunitária! Estes são caminhos a serem seguidos pelos filhos e filhas de Deus. A participação na comunidade é algo que nos exige muita doação e entrega, notadamente quando a função é exercida sem remuneração e quando exige da pessoa o dispêndio de muito tempo. No início da minha vida de casado, assumi uma série de funções na comunidade, em secretarias, em presidência, em direção e durante algum tempo preenchi todos os meus espaços. E tudo chegou a um tal ponto, em que me vi obrigado a dar um basta, e aos poucos me desvinculei de tudo.
Na verdade, neste sentido comunitário, até mesmo o servir tem limites, porque eu não posso dedicar minha vida a servir na comunidade, se deixo com isso de servir a meus filhos e milha família. Eu não posso jamais passar minhas noites em reuniões de clubes, de partidos políticos, de associações, de fundações e outras entidades sem fins lucrativos, quando deixo de me reunir com meus filhos, minha esposa, minha família. Para tudo tem um limite, e a família é mais importante.
Também no serviço da Igreja, é necessário que nos empenhemos bastante. Existe uma grande diversidade de ministérios e TODOS são convidados a servir em pelo menos um destes ministérios. NINGUÉM pode se considerar católico de verdade, quando se furta a participar de pelo menos uma atividade na sua Igreja. Se não existe o ministério, ou a vaga, deve no mínimo existir no coração a abertura, o desprendimento e a vontade de ajudar, nas festas, nas promoções, nas pastorais, em tudo que diz respeito à vida eclesial.
Mas o que acontece? Acontece que alguns ficam sempre sobrecarregados de muitos fardos, porque centenas de outros não se dispõem a carregar fardo algum. Sim, é sabido que existem aqueles centralizadores, que se adonam de tudo, e não confiam nos outros. Esta gente é de fato perniciosa, porque não faz seu trabalho por amor, por caridade cristã nem porque faz de sua vida um humilde serviço, mas fazem para aparecer, para receber as loas e louvações do povo, e até como inveja, para evitar o sucesso de outros. Estas pessoas são na verdade malignas e são prejudiciais à Igreja e à coletividade.
No entanto, o que se verifica na maioria dos lugares é justamente o contrário: muitas pessoas se furtam decididamente de prestar qualquer serviço ao bem comum, porque são egoístas ao extremo ou são preguiçosos demais. São pessoas que querem os serviços, sabem que todos precisam deles, mas jamais se prestam a ajudar, deixando tudo nas costas de uns poucos abnegados. Claro que muitas vezes falta um convite. Claro que outras tantas vezes falta a liderança que divide responsabilidades. Mas é a falta absoluta de caridade, o elemento pernicioso que coíbe a ação de servir, de doar-se pelos outros.
Jesus, que é Deus, quando na terra nos deu inumeráveis exemplos de servir. Falo em servir, também fisicamente, e são exemplos a multiplicação dos pães, as pescas milagrosas e tantos outros que não estão relatados nos Evangelhos. Mas Ele não precisava fazer isto. Entretanto, vejam, até no futuro Novo Reino está dito que “Ele estará na nossa presença e nos servirá”. Que “estando eles ainda pensando e já serão atendidos” o que prova a continuidade do servir pelo sempre e eterno afora. Então, se na eternidade continuaremos a servir, por qual motivo não começar agora, para tornar o mundo mais humano, mais fraterno e mais irmão?
Na eternidade serviremos a Deus. Os anjos servem a Deus! E Deus é tão perfeito e tão justo, que permitirá a todos, um crescer em alegria e graça, mesmo na eternidade, tudo dependendo de nosso desejo, ardente, forte, inquebrantável de amar e servir a Ele. De fato, na eternidade não viveremos o estático, a mesmice e a inoperância, mas deveremos e poderemos participar com Deus da renovação do Universo em mutação constante e até da criação de outros mundos, de acordo com o Plano e a Vontade criadora de Deus.
Mas tudo isso somente acontecerá, na medida de nosso desejo ardente de servi-Lo desde já – servindo também aos irmãos – jamais sendo apenas concessão de Deus sem a nossa vontade expressa e nossa ação efetiva. Então, por qual motivo não começamos já este exercício de servir incondicional, centrado no amor profundo, na humildade, força que se obtém somente pela oração? Se não começarmos já aqui, nesta vida, a exercitar esta humilde entrega a serviço dos outros, JAMAIS conseguiremos na eternidade galgar os passos necessários para termos a força de servir a Deus, num crescendo constante.
De fato, nenhum grau em virtude cresceremos na eternidade, se não dermos agora o passo decisivo neste sentido. Como já dissemos, Maria foi a serviçal por excelência. E tanto ela cresceu nesta virtude em vida, que continua na eternidade a ser a maior e a mais efetiva serviçal de Deus. Mais que os próprios anjos mais resplandecentes, mais que Miguel o Príncipe das Milícias Celestes, mais que todos aqueles que servem diante do Trono do Altíssimo e Onipotente, a todos Maria suplantou e suplanta, eis que foi a ela que a Trindade encarregou da missão assombrosa de esmagar a cabeça da serpente.
Quem não serve, é orgulhoso, e é, pois, a antítese de Maria Santíssima. O dragão infernal, Lúcifer, é o orgulho personificado, e foi por deixar de servir a Deus e se rebelar contra Ele, que se transformou em demônio. Ele não serve a ninguém, nem a si mesmo. Penso que Lúcifer é tão orgulhoso, que se não tivesse subalternos, outros demônios de poder como Belzebu, satanás, e outros, ele não atenderia nem os pedidos daqueles que lhe pedem o mal para as outras pessoas. De fato, ele é tão desejoso de não servir, que muitas vezes se compraz em devolver o “feitiço ao feiticeiro”, para ridicularizar de quem se humilha e pede, para gozar da cara daqueles que o servem.
A humildade e o servir são sinônimos e inseparáveis. Quem não é humilde não serve, quem não serve dificilmente consegue ganhar o céu. E se o ganha, é somente depois de um duríssimo purgatório, depois de muitos sofrimentos e dores, para que repare por seu orgulho, por sua inoperância, por sua falta de caridade, por sua falta de amor. E hoje, nos dias em que vivemos, não existe maior caridade nem maior servir, que procurar levar os outros à salvação; em buscar as almas para Deus; em procurar as ovelhas desgarradas e insensatas que andam por abismos de orgulho, em busca do ser, do ter e do poder.
Quem, assim, se preocupa com a salvação dos outros, que lhes leva livros, bons textos e bons conselhos, acaba por exercer a maior das caridades e executar o maior dos serviços, eis que assim serve ao próprio Deus. De fato, agora, sabendo das coisas que estão para acontecer, não comporta mais corremos atrás daquilo que passa, entre um egoísmo e outro, porque o importante é cuidar da nossa alma e da alma dos outros. “Não existe maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus irmãos”, disse Jesus. Mas a grande e verdadeira vida que se pode dar a alguém é a vida eterna. Quem consegue uma conversão, consegue junto o Céu.
O tempo de servir é agora!

A AVAREZA, A TENTATIVA ILUSÓRIA DE POSSUIR A VIDA
Aprender a doar o que se recebeu gratuitamente é a única maneira de superar a solidão causada pela ânsia por posses que caracteriza a avareza.
Os aspectos essencialmente espirituais deste vício, conduz a atribuir ao dinheiro e coisas semelhantes um valor simbólico exagerado, transformando-os em sinônimos de estima, paz, segurança e poder.
A avareza, portanto, se identifica com a cobiça e a ânsia por posses, que endurecem o coração e conduzem à presunção de autossuficiência, de se bastar a si mesmo e de nada mais precisar.
Daí se compreende o aspecto religioso da avareza, pois o dinheiro oferece a ilusão de onipotência: o dinheiro, por sua natureza, confere uma autossuficiência que nenhum outro objeto pode fornecer. Para Péguy, constitui a única alternativa verdadeiramente ateia a Deus, porque dá a ilusão de que se pode obter tudo, de forma que qualquer realidade pode ser convertida em dinheiro, que por sua vez possibilita possuir qualquer coisa.
Também Marx, ao analisar a mentalidade capitalista, salientou o caráter de consagração de todo o próprio ser a uma realidade considerada absoluta, superior a qualquer outra.
A avareza, uma vez que não se refere a nenhuma necessidade do corpo nem a nenhum prazer corporal, busca uma satisfação de tipo afetivo, mas ao mesmo tempo intangível, ligada à imaginação.
Dessa forma se configura como uma forma mundana de consagração a um ídolo, algo para o qual se está disposto a oferecer a própria vida, sacrificando para isso a própria liberdade e dignidade.
De fato, o dinheiro, longe de pacificar, ao se tornar um fim em si mesmo gera sempre novos temores, ansiedades e inseguranças: o medo de perder o que foi conquistado, medo de que um rival consiga um bem cobiçado, ou de ainda de ser superado na escala social, tornando vãos todos os esforços de uma vida.
Outro sentimento típico do avarento é a tristeza, ligada à frustração de não poder nunca encontrar algo que o satisfaça, fazendo-o sentir-se cada vez mais indigente. De modo que o “estranho masoquismo” que caracteriza este vício está em pensar que a única fonte de felicidade é na verdade aquilo que está por arruinar a própria vida.
Além disso, há uma estreita ligação entre a avareza e a solidão: o avarento se encontra somente em companhia de coisas, a única realidade na qual pode confiar.
Assim, o melhor tratamento para o vício da avareza é a prática de abrir mão do que se recebeu para o bem-estar dos outros.
Esta disposição promove o desejo de viver bem a própria vida, tornando a pessoa capaz de sacrifícios notáveis, uma vez que seu coração se torna sensível ao sofrimento e às necessidades dos demais.
Paradoxalmente, talvez no fundo da avareza se encontre este esforço sobre-humano de querer dar valor à própria existência, a merecer viver; uma forma doentia de auto-estima.
Ao contrário, porém, é no encontro com o outro, na relação, que o homem encontra a verdade de si mesmo.
A verdadeira riqueza, que de fato nos pertence, é aquele que se recebe ao se oferecer o melhor de si, tornando-nos assim participantes da generosidade abundante de Deus.
Somente doando é possível superar a solidão infernal na qual se aprisiona o avarento.

 

POBREZA
Esta virtude foi iluminada pelo nascimento de Cristo, o qual sendo rico Se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2Cor 8, 9). Se Jesus era rico até ao ponto de ser o Criador de todas as coisas (cf. Jo 1, 3) e quis nascer pobre, nós devemos também pretender a pobreza.
De fato, o nascimento do Senhor numa manjedoura, num curral, talvez destinado a ovelhas, e não no conforto de uma casa ou de uma estalagem, faz pensar não no acaso, numa má sorte, mas num desígnio do Alto, sobre o qual Maria e José terão meditado muitas vezes no seu coração (cf. Lc 2, 19). Nós podemos fazer outro tanto nesta quadra.
A pobreza cristã é uma atitude voluntária, de desprendimento dos bens, com a qual se alcança a liberdade interior que permite uma dedicação mais frutuosa a Deus e aos outros, e o alívio das necessidades dos mais carenciados. «Não esqueças: tem mais aquele que precisa de menos. – Não cries necessidades» (São Josemaria Escrivá, Caminho 630).
A pobreza não consiste em andar desmazelados ou sujos, nem era assim que andavam Maria e José. A nossa deve ser uma pobreza envergonhada, que não tem voz para dizer «sou pobre», mesmo que o sejamos realmente. É algo que temos por dentro e se traduz na generosidade com as nossas coisas, com os nossos talentos, com o nosso dinheiro e com o nosso tempo. Ao mesmo tempo, nunca podemos esquecer o conselho dado pelo Mestre: «que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita para que a tua esmola seja escondida, e o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa» (Mt 6, 3-4).
Manifestações práticas deste espírito de pobreza são considerar as nossas coisas como emprestadas e não como próprias, não nos queixarmos se vierem a faltar, e não ter coisas a mais, coisas que se podem considerar desnecessárias ou supérfluas. Mas, ao mesmo tempo, procurar andar elegantes, sorridentes, limpos e serenos.

POBREZA EVANGÉLICA
Dom Boaventura Kloppenburg, OFM
A pobreza evangélica une a atitude de abertura confiante em Deus e solidária com os homens, a uma vida simples, sóbria e austera, que aparta a tentação da avidez, da cobiça, da inveja e do orgulho.
A palavra “pobreza” é ambígua. Geralmente é entendida como falta do necessário à vida, sinônimo de penúria e escassez. Assim entendida, é uma realidade escandalosa que condenamos como antievangélica. E neste sentido certamente não se pode falar em virtude da pobreza. Ao mesmo tempo a longa tradição da vida cristã conheceu também a virtude da pobreza ou até um voto de pobreza. Para fugir da ambivalência do termo, os documentos da Igreja, principalmente os da América Latina, preferem agora falar da pobreza espiritual, cristã ou evangélica. Com o Concílio Vaticano II (LG 42) e os documentos das Conferências Gerais do Episcopado Latino-americano de Medellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992) preferimos a expressão “pobreza evangélica”, que nos indica uma excelente e necessária virtude cristã, muito atual para um continente que se afirma cristão como a América Latina e para uma sociedade dia a dia mais consumista.

1. Os pobres de Yhwh
São os humildes que temem a Deus e põem sua confiança em Yhwh
No sentido cristão nossa palavra “pobre” é tradução do vocábulo hebraico veterotestamentário anaw, trasladado para o grego como ptochós e que no latim da vulgata foi vertido para pauper. Daí nosso português pobre. No hebraico, o plural era anawim (os pobres) e o substantivo anawah (a pobreza).
Estas palavras tinham no ambiente hebreu do Antigo Testamento, depois do desterro babilônico, um sentido prevalentemente moral e religioso. Os anawim dos Salmos, dos Livros sapienciais e dos Profetas são os humildes que temem a Deus, que recorrem a Deus, que procuram a Deus, que põem sua confiança em Deus e por isso se consideram o verdadeiro “Israel”, o Povo de Deus, os herdeiros das promessas: são os santos, os justos, os que em sua vida são alcançados tantas vezes por toda sorte de provações, sem deixar de ser servidores de Deus. Sua espiritualidade se resume nestas palavras do Salmo 36,7: “Conserva-te em silêncio diante de Deus e espera nele”. A atitude contrária está nos orgulhosos, nos ímpios, nos que confiam em si mesmos, na pessoa altiva, vaidosa e impertinente, sem noção da humildade cristã.
No Antigo Testamento os anawim de Yhwh não formavam um partido religioso, como os hasidim da época macabéia, ou uma classe profissional, como os saduceus no tempo de Jesus, nem se identificavam com o povo de Israel, mas com um Israel qualificado como “resto de Israel”, ou aqueles que, ao viver as esperanças divinas da Aliança, esperavam a salvação de Deus, no meio das crises de sua nação. Sua nota era a humildade, que o profeta Sofonias pedia a seu povo, e que caracterizava Moisés e Davi, e se perpetua em Jeremias e no Servo de Yhwh. Este é o Messias dos anawim, que levava a noção de aliança, de justiça, de pobreza e de humildade a seu ponto culminante. A segunda parte do livro de Isaías o descreve duas vezes com os termos de pobreza. Temos aqui o autêntico clima espiritual dos anawim, o novo ideal de piedade, da confiança divina que se submete resignada e alegremente ao sofrimento, o ideal da humildade evangélica, que Jesus realizará, oferecendo-se como vítima expiatória pelos pecados de seu povo.

2. Bem-aventurados os pobres no espírito
O pobre, só pelo fato de ser indigente, não tem nenhuma vantagem sobre o remediado para entrar no Reinado de Deus
No Evangelho segundo Mateus (5, 3) Jesus proclama: “Bem-aventurados os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus!” (Mt 5, 3). Em grego: makárioi hoí ptochoì too pnéumati… O dativo too pnéumati é uma construção gramatical relativa ao espírito, isto é: à interna disposição da alma.
Aqui em Mateus 5, 3 Jesus assume a palavra “pobres” (é bem provável que tenha dito anawim) com o matiz moral perceptível já no profeta Sofonias 2, 3: “Buscai a Yhwh vós todos, anawim [assim está no original hebraico] da terra, que cumpris suas normas, buscai a justiça, buscai a humildade”. Estes pobres são para Sofonias os submissos à vontade de Deus, os piedosos. Neles se apoia a promessa do resto de Israel. “Eu deixarei no meio de ti um povo humilde e pobre e no nome de Yhwh se protegerá o resto de Israel” (Sf 3, 12). Neste contexto religioso os pobres ou os humildes são os que temem a Deus e, atentos à sua vontade, cumprem suas promessas. A eles se refere Isaías 61, 1 quando diz: “O espírito de Yhwh está sobre mim, porque me ungiu e me enviou para anunciar a boa nova aos anawim” (é a palavra no original hebraico).
Observa-se também que a versão de Mateus atenua a formulação mais radical (e por isso mais arcaica) de Lucas para não dar pé ao ressentimento social da comunidade religiosa, na qual havia confronto entre ricos e pobres (cf. Tg 1, 10-11; 2, 5-13; 4, 13). Esta atenuação, feita, não esqueçamos, pelo próprio texto inspirado do Evangelho, está mais de acordo com a idéia geral do Evangelho, que exclui todo rancor e luta de classes.
Os escritos Qumran, contemporâneos de Jesus, usam a expressão anawim ruah, literalmente “pobres no espírito”, em contextos que já não permitem dúvidas sobre seu verdadeiro sentido. São realmente os humildes. A atitude da alma expressada pela expressão usada em Mateus é a da humildade interior. Por isso é biblicamente correto falar de “pobreza espiritual” ou evangélica.
Na perspectiva evangélica, o pobre, só pelo fato de ser indigente, não tem nenhuma vantagem sobre o remediado para entrar no Reino de Deus. A versão de Mateus parece inspirar-se no ideal dos pobres de Yhwh segundo a expressão do Salmo 34: “Este pobre clamou e Yhwh o escutou” (v. 8); o pobre é descrito como quem teme a Yhwh (v. 8), aquele que o recebe (v. 9), o procura (v. 11), de coração contrito (v. 19) e confia em Yhwh (v. 23). Pois eles estão mais preparados para no Reino, que exige sacrifícios e renúncias (cf. At 14, 22). As dificuldades dos ricos são muito bem caracterizadas na parábola do semeador: “as preocupações do mundo e a sedução das riquezas afogam a Palavra e fica sem fruto” (Mt 12, 22).

3. “Pobreza” na perspectiva evangélica
A reforma social deve ter seu início no coração do homem
O que na bem-aventurança se exalta é a disposição da alma de abertura ao Reino de Deus, como se canta no Magnificat de Maria Santíssima: “Deus exaltou os humildes” (Lc 1, 52). Estes se sentem permanentemente mendigos de Deus e dele tudo esperam. O Reinado de Deus se fecha a todo aquele que se faz escravo do dinheiro, apegado a ele quase como valor supremo, transformando-o em ídolo. O rico se encontra sempre em maior perigo para entregar-se a uma vida mole, contra as exigências fundamentais da mensagem evangélica. Quem tem a atitude espiritual da abnegação, tão claramente exigida pelo Evangelho, pode até chegar a aceitar voluntariamente sua situação de pobre real e viver sem apego às riquezas possíveis ou efetivas.
Estes “pobres” se encontram então em princípio numa situação mais vantajosa para aceitar as renúncias do Reino de Deus, como o fizeram os apóstolos, que abandonaram o que tinham, em contraste com o jovem rico, que, diante do convite de Jesus, não teve ânimo para renunciar às riquezas e então seguir ao divino Mestre (cf. Mt 19, 22-23).
Não se pode negar que Jesus Cristo de fato não deu tanta importância às falsas esperanças de um messianismo temporalista com uma imediata promoção econômico-social. Jesus deixa bem claro que não veio em primeiro lugar para mudar estruturas sociais injustas, que não faltavam em seu ambiente e tempo, mas sobretudo para sanar o coração humano de sua propensão à avareza, ao hedonismo e à violência. Segundo Jesus a reforma social deve ter seu início no coração do homem: “Pois é de dentro, do coração humano, que saem as más intenções: pecados sexuais, roubos, homicídios, adultérios, ambições desmedidas, perversidades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho e insensatez. Todas essas coisas saem de dentro, e são elas que tornam alguém impuro” (Mc 7, 21-23).
Os exegetas observam também que o Senhor fala freqüentemente do perigo das riquezas (cf. Mt 6, 19-20; 16, 25-26; Lc 16, 13; Mc 8, 35-36), mas nunca as rejeita de modo absoluto. Ele condena o homem rico avarento e explorador do pobre. Mas o próprio Jesus teve amigos da alta sociedade judia, como Nicodemos e José de Arimatéia, dos quais não exigia que se desfizessem de seus bens para entrar no círculo de seus seguidores.
Por tudo isso, nossa palavra “pobre” não traduz com fidelidade o anaw hebraico, nem é capaz de insinuar a riqueza do conceito bíblico. Maria Santíssima que não era pobre-explorada, era no entanto anaw, a serva do Senhor. O Concílio Vaticano II sublinha que Maria “sobressai entre os humildes e pobres do Senhor que dele esperam e recebem com fé a salvação” (LG 55). “Salvação”, aqui, certamente não no sentido de libertação da pobreza material ou opressão social. Deus olhou para a anawah, humildade, de sua serva.
Em Mt 11, 25 Jesus louva o Pai “porque ocultaste estas coisas [sobre o Reinado de Deus] aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos. Estes infantes (em grego está nepíois = os que ainda não falam; infantes em latim) que recebem a revelação sobre os mistérios do Reino e a entendem (cf. Mt 13, 11) são precisamente os que, como Cristo, são ”mansos e humildes de coração” (Mt 11, 29). A pobreza material, a opressão ou o cativeiro não são os fatores determinantes. Lázaro e suas irmãs Marta e Maria não eram materialmente pobres, mas amigos de Jesus. Assim também as mulheres que, segundo Lc 8, 3, ajudavam a Jesus “com seus bens”. Nem deixa de ser significativo que Jesus mandou preparar sua última páscoa e fez questão de instituir a Eucaristia não num rancho de pobre mas “numa grande sala arrumada com almofadas” (Mc 24, 15).
Até mesmo um oficial romano, do exército de ocupação da Palestina, recebe de Jesus um louvor especial (cf. Mt 8, 10). E é significativo que Deus tenha escolhido a um militar, centurião da coorte itálica, nem pobre nem oprimido, como primeiro não-judeu para abrir oficialmente os caminhos do anúncio da redenção ao mundo pagão (cf. At 10).
Tudo isso é perfeitamente compatível com a virtude da pobreza evangélica. São Francisco, o poverello de Assis, falecido em 1226, é o grande modelo cristão para a pobreza evangélica. Ele queria que seus discípulos se chamassem não “irmãos pobres” porém “irmãos menores”. A pobreza voluntária não era um fim, mas um meio para chegar à menoridade. Esta, por sua vez, era o modo por ele privilegiado para ser discípulo de Jesus, “manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). Como membro da Ordo Fratrum Minorum (O.F.M.), da Ordem dos Frades Menores, não fiz um voto de miséria, mas de voluntária pobreza evangélica para conseguir viver como “menor” entre os cristãos, um anaw da Nova Aliança.

4. Uma divisão evangélica da humanidade
Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado
Se, do ponto de vista do Evangelho ou de Jesus, queremos fazer uma divisão da humanidade em dois grupos ou classes, teríamos por um lado os “pequenos” ou humildes anawim (os materialmente pobres têm evidentemente mais disposições para pertencer a esta classe, mas não são absolutamente os únicos, pois há ricos humildes) e por outro lado os orgulhosos (e os materialmente ricos, os chefes ou poderosos e letrados têm evidentemente mais disposições subjetivas para pertencer a esta classe, mas não são absolutamente os únicos, pois há pobres orgulhosos).
Parece ser esta a lei das intervenções divinas na história da salvação: ”Deus resiste aos soberbos e dá sua graça aos humildes” (1Pd 5, 5); ou também: “Todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 14, 11). Daí a regra de ouro dada por Jesus aos apóstolos: “O maior entre vós seja como menor e o que governa como aquele que serve” (Lc 22, 26). Neste ponto o divino Mestre é incisivo: “Em verdade vos digo que, se não mudardes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3).
Estes, e não simplesmente os pobres, são o sujeito verdadeiro da autêntica e cristã Igreja popular. Estes são na verdade os prediletos de Deus. Deles é o Reinado de Deus. Eles entendem Sua Palavra.
Não há dúvida que temos o grave dever de escutar com grande sensibilidade o grito dos materialmente oprimidos, mas o ouvido especificamente cristão deve ser ainda mais sensível ao desesperado clamor dos pecadores que andam por um “espaçoso caminho que conduz à perdição” (Mt 7, 13). Esta pergunta se dirige também a nós: “Que é mais fácil dizer: os teus pecados te são perdoados, ou dizer: levanta-te e anda!” (Mt 9, 5). É evidente que a missão salvadora, redentora ou libertadora de Cristo – e em consequência também da Igreja – se põe em primeiro lugar e principalmente neste setor mais difícil e exclusivamente divino de perdoar os pecados, de restabelecer a perdida harmonia e amizade entre o homem pecador e Deus. Ora, pobres ou ricos, escravos ou livres, fracos ou poderosos, dependentes ou independentes, capitalistas ou coletivistas, enfermos ou sãos, jovens ou velhos, tristes ou alegres, pouco importa: diante de Deus “todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus” (Rm 3, 23). No “pecado do mundo”, todos somos igualmente pecadores e este pecado do mundo unicamente o tira o Cordeiro de Deus (cf. Jo 1, 29). “Ninguém por si só e com as próprias forças se liberta do pecado e se eleva acima de si próprio. Ninguém se desprende em definitivo de sua fraqueza, solidão o servidão. Mas todos necessitam de Cristo exemplar, mestre, libertador, salvador, vivificador”, ensinou o Concílio em AG 8.
Neste campo está sem dúvida a obra mais urgente e insubstituível da Igreja. Aí está sua razão de ser. Tudo o mais será secundário. Como cristãos e continuadores da obra de Cristo, nossa opção primeira será pelos pecadores. “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10).
Jesus não trouxe diretamente nenhum revolução política, nem um novo regime de justiça social. Mas a libertação interior de seus discípulos deve produzir consequências no comportamento humano, fundamentando novas relações que transformam os costumes políticos e a situação social. A libertação da vontade de dominação e de açambarcamento de privilégios terá necessariamente repercussões no campo econômico e político. E a libertação do egoísmo modifica o relacionamento social. A fim de ser sincero e coerente, o amor cristão deve contribui para a implantação da justiça social. O caso do publicano Zaqueu é exemplar: sua libertação espiritual se traduz em resoluções relativas ao comportamento social: “Senhor, eis que eu dou a metade de meus bens aos pobres e se defraudei a alguém, restituo-lhe o quádruplo” (Lc 19, 8). Não era uma resolução de estrita justiça, mas de um amor mais generoso.

5. A pobreza cristã
O Criador não se compraz em suas criaturas irrealizadas
Durante o Concílio Vaticano II, entre 1962 e 1965, o próprio Papa João XXIII e um bom numero de Bispos haviam falado com certo entusiasmo da “Igreja dos pobres”. A Comissão Doutrinal, encarregada de elaborar o projeto de documento sobre a Igreja, constituiu então um grupo de trabalho especial para redigir um possível texto. O resultado foi a atual alínea terceira do n. 8 da Lumen gentium. Por causa da sua ambigüidade, o Concílio evitou a expressão Ecclesia pauperum (Igreja dos pobres). Mas o pensamento oficial do Concílio está no mencionado texto. Este conceito é desenvolvido nestas três comparações entre a atitude de Jesus e a tarefa da Igreja:
a) Como Jesus realizou a obra da redenção em pobreza e perseguição, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho a fim de comunicar os frutos da redenção.
b) Como Cristo Jesus, “existindo na forma de Deus, despojou-se a si mesmo tomando a condição de servo” (Fp 2, 6-9), e por nossa causa “fez-se pobre embora fosse rico” (2Cr 8.9), assim também a Igreja, ainda que necessite de meios humanos para cumprir sua missão, não foi instituída para buscar a glória terrestre, mas para proclamar a humildade e a abnegação, também com seu exemplo.
c) Como Cristo foi enviado pelo Pai para “evangelizar os pobres, sanar os contritos de coração” (Lc 4, 18), “procurar e salvar o que tinha perecido” (Lc 19, 10), assim também a Igreja abraça com seu amor a todos os afligidos pela debilidade humana, reconhecendo mesmo nos pobres e sofredores a imagem de seu Fundador pobre e sofredor, fazendo o possível para mitigar-lhes a pobreza e neles procurar servir a Cristo.
Deus não se alegra em suas criaturas irrealizadas; ele as quer na alegria e não na tristeza, no centro e não na periferia, na saúde e não na enfermidade. O que importa é crescer no “ser mais” e não no “ter mais” (GS 35). E o que impede este “crescimento em humanidade” se opõe não apenas à criatura humana, mas também ao mesmo Criador. Assim se entende a solene afirmação de Puebla no n. 306: “Toda violação da dignidade humana é injúria ao próprio Deus, cuja imagem é o homem”. Quando alguém é impedido por outro ou por um sistema ou uma instituição em seu “crescer em humanidade”, temos o pobre no sentido de oprimido: é então aquilo que Puebla denuncia fortemente como “imagem de Deus obscurecida e escarnecida“. E conclui no n. 1142 “Por isso Deus toma sua defesa e os ama. É por isso que os pobres são os primeiros destinatários da missão e sua evangelização é o sinal e a prova da excelência da missão de Jesus”.
Os pobres, só pelo ato de serem pobre, não são sem mais cristãos nem tampouco “cristãos anônimos”: também eles devem ser convertidos e evangelizados. Puebla dedica os nn. 348-361 ao conceito de evangelização e descreve nos nn. 356-360 o rico processo por ele gerado. Todo aquele que conjunto deve ser aplicado também ao trabalho pastoral com os pobres, com a necessária distinção entre aquilo que na tarefa evangelizadora constitui seu “conteúdo essencial” (n. 351) e o que é sua “parte integrante” (n. 355).
Falando no n. 1145 do serviço ao irmão pobre, Puebla lembra três efeitos, de valor desigual, mas justapostos: disposição para realizar-se como filhos de Deus, libertação das injustiças e promoção humana integral. O primeiro efeito designa indiscutivelmente o campo direto, próprio e imenso da ação pastoral eclesial, com tudo o que está implicado nesta “realização como filhos de Deus”. Os outros dois efeitos não indicam um campo exclusivo da Igreja, nem devem ser demagogicamente anunciados ou projetados em direção de um mundo utópico irrealizável.
Assim, pois, entendemos que para o cristão o termo “pobreza” não é somente expressão de privação e marginalização de que nos precisamos libertar. Designa também um modelo de vida que, como vimos, já desponta no Antigo Testamento e é vivido e proclamado por Jesus como bem-aventurança. São Paulo resumiu este ensinamento dizendo que a atitude do cristão deve ser de usar os bens deste mundo, cujas estruturas são transitórias, sem absolutizá-los, pois são apenas meios para se chegar ao Reino de Deus (cf. 1Cr 7, 29-31). Este modelo de vida pobre é exigido pelo Evangelho de todos os que crêem em Cristo e por isso podemos chamá-lo “pobreza evangélica”. Não só os Religiosos, que fizeram o voto de pobreza, mas, afirma o Concílio na LG n. 42, todos os fiéis de Cristo “devem dirigir retamente seus afetos para que, por causa do uso das coisas deste mundo, por causa do apego às riquezas contra o espírito da pobreza evangélica, não sejam impedidos de tender à perfeição da caridade”.
No n. 1149 o documento de Puebla nos dá então esta definição: “A pobreza evangélica une a atitude de abertura confiante em Deus com uma vida simples, sóbria e austera, que aparta a tentação da cobiça e do orgulho”.
No mundo de hoje, tal tipo de pobreza é um desafio ao materialismo e abre as portas para soluções alternativas da sociedade de consumo.
A pobreza evangélica põe-se em prática também pela comunicação e participação dos bens materiais e espirituais; não por imposição, mas por amor, para que a abundância de uns remedeie a necessidade dos outros. Dito isso, a documento pueblano afirma no n. 1152: ”A Igreja se alegra por ver em muitos filhos seus, sobretudo na classe média mais modesta, a vivência concreta desta pobreza cristã”.

6. A Igreja dos pobres
Aberta a Deus e suas maravilhas e aos homens
No dia 02 de julho de 1980 o Papa João Paulo II pronunciou na favela de Vidigal, Rio de Janeiro, um admirável discurso sobre a “Igreja dos pobres”. Sobre este documento darei aqui apenas algumas indicações em forma esquemática:
1. Seu ponto de partida é esta declaração que Mateus atribui a Jesus “Bem-aventurados os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5, 3).
2. Os “pobres no espírito” se caracterizam por duas aberturas:
a) Abertos a Deus e às maravilhas de Deus. São “pobres” porque estão prontos a aceitar sempre o dom divino; “no espírito”, porque vivem na consciência de ter recebido tudo das mãos de Deus, como um dom gratuito e vivem constantemente agradecidos.
b) Abertos aos homens. É uma derivação da abertura a Deus: “Os corações abertos a Deus são, por isso mesmo, mais abertos para os homens”. Dispostos a ajudar desinteressadamente, a compartir o que têm.
3, Quem não é pobre no espírito, está fora do Reino de Deus. Por isso todos devem esforçar-se para ser pobres no espírito, isto é: abertos a Deus e aos homens. Este convite é dirigido particularmente:
a) Aos que vivem na miséria: já estão mais próximos de Deus e de seu Reino, mas devem esforçar-se para abrir-se a Deus e aos irmãos. Só assim conservarão a dignidade humana.
b) Aos que vivem no bem-estar: devem animar-se para não se fechar em si mesmos. Para eles é mais difícil abrir-se a Deus. Devem partilhar seus bens com os outros.
c) Aos que vivem na abundância e têm de sobra: devem recordar que o valor do homem não é medido segundo aquilo que tem, mas segundo aquilo que é. Seu perigo maior é fechar-se em si mesmos. Seria a cegueira espiritual. Quem tem muito deve muito. “São pobres no espírito também os ricos que, à medida da própria riqueza, não cessam de dar-se a si mesmos e de servir os outros”. São então, também eles, membros vivos da Igreja dos pobres.
4. A Igreja de todo o mundo quer ser a Igreja dos pobres.
5. A Igreja dos pobres se dirige a todos os homens. É a Igreja universal. “Não é a Igreja de uma classe ou de um só casta”. Ela não quer servir àquilo que causa tensões e faz explodir a luta entre os homens. Em sua ação evangélica “a Igreja dos pobres não quer servir a fins imediatos políticos, às lutas pelo poder, e ao mesmo tempo procura com grande diligência que suas palavras e ações não sejam usadas para tal fim, ou que sejam instrumentalizadas”.
6. A Igreja dos pobres se dirige também às sociedades: “às sociedades em sua globalidade e às diversas camadas sociais, aos grupos e profissões diversas. Fala igualmente aos sistemas e às estruturas sociais, socio-econômicas e sociopolíticas. Prega na língua do Evangelho, explicando-o também à luz do progresso da ciência humana, mas sem introduzir elementos estranhos, heterodoxos, contrários ao seu espírito”.

 

SIMPLICIDADE
“Cuida que seu comportamento habitual no falar, no vestir, no atuar, esteja em concordância com suas intenções intimas, de tal modo que os demais possam conhecê-lo claramente, tal como é”.
A virtude da simplicidade é uma manifestação da atitude autêntica da pessoa. E é autêntico aquele que tem o devido valor humano. Isto é, a simplicidade requer clareza de inteligência e retidão da vontade.

A MANEIRA PESSOAL DE VIVER A SIMPLICIDADE
1. Tento atuar com clareza e transparência nas atividades íntimas frente aos demais e frente a Deus.
(Há dois problemas principais para viver a simplicidade. Em primeiro lugar se trata de ter claro o que se busca na vida, mas também se trata de evitar que haja uma coisa no coração e exteriorizar outra).
2. Reflito sobre os fins de minha vida e os tenho claros.
(A simplicidade será impossível no comportamento se não existe ordem no pensamento).
3. Entendo que a simplicidade é necessária para conhecer a verdade, para viver umas relações autênticas com os demais, e inclusive para não passar ridículo.
(Tentar ser o que não se é, simular ou atuar com hipocrisia são maneiras seguras de despertar lástima ou, inclusive, o deboche dos demais).
4. Tento que com minha atuação habitual seja congruente o que digo com o que penso.
(A atuação congruente constante não é fácil, mas produz um estilo pessoal reconhecido pelos demais como tal. Desta maneira poderão confiar mais na pessoa e desfrutar da relação).
5. Tento que minha maneira de vestir seja elegante, que retrate minha maneira de ser, e nunca produza um efeito nos demais que faz com que pensem que sou outro tipo de pessoa da qual realmente sou.
(Alguém disse que a elegância é fazer combinar a roupa ao corpo e os dois à circunstância. Não queremos dizer que uma pessoa não deve arrumar-se para uma ocasião especial, por exemplo. Mas evitar qualquer tipo de excesso sim).
6. Me expresso em uma linguagem adequada ao tema e às pessoas com as quais estou falando.
(A ironia, o convencimento e a hipocrisia são todas maneiras de faltar à simplicidade. Mas também usar uma linguagem que não se conforma com os próprios princípios, ou simular, pela linguagem usada, que somos diferentes do que somos na realidade).
7. Tento deixar-me conhecer intimamente em minha família e ainda mais em minhas relações com Deus. Em troca, compartilho minha intimidade de uma maneira prudente com os demais.
(Converter a própria intimidade em domínio público não é parte da simplicidade. Isto seria,no melhor dos casos, ingenuidade).
8. Nas relações com os demais tento interessar-me de verdade pelos temas que interessam a eles, de tal maneira que não caio em uma tática de interesse simulado.
(Se nota rapidamente quando as pessoas simulam interesse. “Que interessante”! é uma frase típica que utilizam. Também perguntam pela família quando se sabe que não lhes interessa. Ou, quando alguém está respondendo, interrompem para dirigir a palavra à outra pessoa ou para dar alguma indicação).
9. Nota-se minha simplicidade em algumas das seguintes manifestações: o trato delicado; a expressão manifesta de alegria ao encontrar um conhecido pela rua; a paciência mostrada em uma situação difícil; o modo de buscar o positivo nos demais e evitar as discussões rebuscadas; o elogiar cordialmente sem exagerar; o agradecimento com entusiasmo, o saber retificar, o vestir elegante, o trato confiado e respeitoso com Deus.
(Não são todas as maneiras de viver a simplicidade, mas servem como pontos concretos de reflexão).
10. Habitualmente mostro confiança e carinho com os demais.
(As pessoas desconfiadas ou egoístas não podem ser simples. O que lhes é próprio é o engano e a hipocrisia).

A EDUCAÇÃO DA SIMPLICIDADE
11. Preocupo-me de criar e aproveitar situações, com o fim de que os pequenos possam captar e viver o genuíno e chegar a impregnar-se de valores positivos.
(A simplicidade se relaciona com a naturalidade e a experiência de haver vivido manifestações da bondade, da beleza, da verdade, da ordem. Ajudará a criança a interiorizar os valores de uma maneira natural. Isto pode acontecer em excursões ao campo, ao visitar uma exposição, ao acompanhar a um doente, com o ambiente alegre de convivência na família, etc.).
12. Ensino aos pequenos a cumprir com determinadas normas que estão inspiradas nestes valores.
(Outra vez o que buscamos é a experiência de haver vivido ações relacionadas com os valores. Mas esta vez é porque algumas normas estão previstas para isso).
13. Consigo um ambiente de espontaneidade e naturalidade com as crianças apesar de que vou lhes exigindo para que controlem suas tendências básicas com sua vontade.
(A espontaneidade descontrolada não tem valor algum. É necessário que seja controlada. As crianças muito pequenas terão dificuldade em superar-se neste sentido, mas pouco a pouco convém que vão descobrindo quais são as ações adequadas em diferentes circunstâncias).
14. Ajudo aos filhos/alunos um pouco maiores a refletir sobre o que fazem para que vejam se está relacionado com algum dos valores familiares ou do colégio.
(A exigência no fazer passa a uma exigência no pensar. A simplicidade não exclui o uso da razão. Pelo contrário, o necessita).
15. Tento conseguir que vivam a simplicidade em suas relações com a família e com Deus para que possam ouvir a voz do Senhor.
(Pessoas com idéias confusas, com preocupações interiores ou que não querem ser quem são rarissimamente vão viver sua vida de cristão honestamente).
16. Ajudo aos adolescentes a descobrir qualquer tendência que podem ter de querer parecer mais ricos ou mais pobres do que são, ou de ter mais idade ou menos idade que o que têm, ou de querer imitar a seus colegas em vez de ser eles próprios.
(É frequente ver as meninas de treze ou quatorze anos vestindo-se ou maquiando-se como as de dezoito. Ou querendo vestir-se como membros do grupo, mas não porque é seu estilo, ou contando histórias fictícias para aparecer “mais” do que realmente são).
17. Ajudo aos adolescentes a não simular no que se refere a sua inteligência, ou a sua competência.
(São outras maneiras de viver com hipocrisia, que podem seguir durante toda a vida. Por exemplo, citar livros que não leram, usar um tom de voz que não é o próprio, atribuir-se todo tipo de excelências que não correspondem à realidade, ou atuar com uma ingenuidade absurda quando não é o caso).
18. Ajudo aos jovens a refletir sobre o conjunto de suas atividades com o fim de que distingam entre o que é essencial, o que é importante, o que é secundário e o que não é necessário ou o que é negativo em si. Isto é, tento conseguir que suas vidas não sejam tão complexas, resultado de um acúmulo de atividades de diferentes valores.
(Alguns jovens lêem de tudo com o pretexto de estar em dia, vêem tudo no cinema para não ficar “por baixo” seus colegas, gastam esforços e tempo excessivos em escutar música, ou em falar ao telefone, saem por sair ou dormem muito mais do que o corpo necessita).
19. Ajudo aos jovens a auto-conhecer-se com o fim de estabelecer pequenos pontos de luta.
(Com certo tipo de jovem haverá que ter cuidado, já que alguns são muito sensíveis e podem criar escrúpulos).
20. Ponho aos jovens em situações adequadas para que possam refletir sobre a relação entre suas atuações habituais e suas intenções íntimas.
(É fácil enganar-se. E não apenas são os jovens que o fazem. Necessitamos dos demais: do cônjuge, do pai, da mãe, do filho, do colega, do amigo, do professor ou do sacerdote para colaborar no processo de melhora pessoal).

A OPÇÃO DA SIMPLICIDADE
Muitas pessoas reclamam da correria de suas vidas.
Acham que têm compromissos demais e culpam a complexidade do mundo moderno.
Entretanto, inúmeras delas multiplicam suas tarefas sem real necessidade.
Viver com simplicidade é uma opção que se faz.
Muitas das coisas consideradas imprescindíveis à vida, na realidade, são supérfluas.
A rigor, enquanto buscam coisas, as criaturas se esquecem da vida em si.
Angustiadas por múltiplos compromissos, não refletem sobre sua realidade íntima.
Olvidam do que gostam, não pensam no que lhes traz paz, enquanto sufocam em buscas vãs.
De que adianta ganhar o mundo e perder-se a si próprio?
Se a criatura não tomar cuidado, ter e parecer podem tomar o lugar do ser.
Ninguém necessita trocar de carro constantemente, ter incontáveis sapatos, sair todo final de semana.
É possível reduzir a própria agitação, conter o consumismo e redescobrir a simplicidade.
O simples é aquele que não simula ser o que não é, que não dá demasiada importância a sua imagem, ao que os outros dizem ou pensam dele.
A pessoa simples não calcula os resultados de cada gesto, não tem artimanhas e nem segundas intenções.
Ela experiência a alegria de ser, apenas.
Não se trata de levar uma vida inconsciente, mas de reencontrar a própria infância.
Mas uma infância como virtude, não como estágio da vida.
Uma infância que não se angustia com as dúvidas de quem ainda tem tudo por fazer e conhecer.
A simplicidade não ignora, apenas aprendeu a valorizar o essencial.
Os pequenos prazeres da vida, uma conversa interessante, olhar as estrelas, andar de mãos dadas, tomar sorvete…
Tudo isso compõe a simplicidade do existir.
Não é necessário ter muito dinheiro ou ser importante para ser feliz.
Mas é difícil ter felicidade sem tempo para fazer o que se gosta.
Não há nada de errado com o dinheiro ou o sucesso.
É bom e importante trabalhar, estudar e aperfeiçoar-se.
Progredir sempre é uma necessidade humana.
Mas isso não implica viver angustiado, enquanto se tenta dar cabo de infinitas atividades.
Se o preço do sucesso for ausência de paz, talvez ele não valha a pena.
As coisas sempre ficam para trás, mais cedo ou mais tarde.
Mas há tesouros imateriais que jamais se esgotam.
As amizades genuínas, um amor cultivado, a serenidade e a paz de espírito são alguns deles.
Preste atenção em como você gasta seu tempo.
Analise as coisas que valoriza e veja se muitas delas não são apenas um peso desnecessário em sua existência.
Experimente desapegar-se dos excessos.
Ao optar pela simplicidade, talvez redescubra a alegria de viver.

 

ALEGRIA
Para você o que significa ser alegre? O que é alegria para você? Precisamos verbalizar o que acreditamos para compreendermos melhor o que está em nosso interior. Todos estamos buscando a verdadeira alegria. Precisamos nos questionar: “O que é alegria para mim? O que eu pautei como valor e princípio para alegrar a minha vida?” Pode ser que a nossa noção de alegria seja tão superficial e rasa que a gente não conseguirá ser feliz.
A alegria é uma coisa que vem de dentro e só Deus pode dar. Você só recebe a alegria de verdade quando você descobre uma realidade e toma posse dela. “Eu sou amado por Deus e ninguém vai roubar esse amor de mim!” O contentamento, às vezes, você perde, mas a alegria não.
“Se Deus é por nós quem será contra nós?” Para nos ajudar a refletir sobre a alegria cristã vou usar a reflexão que o papa Francisco fez sobre a alegria. “O coração do homem deseja alegria, todos nós aspiramos a alegria, cada família, cada povo aspira à felicidade. Mas, qual é a alegria que o cristão está chamado a viver e testemunhar? É aquela que vem da proximidade com Deus, da Sua presença na nossa vida. Uma vez que Jesus entrou na história com seu nascimento em Belém, a humanidade recebeu a semente do Reino de Deus como uma terra que recebe a semente, promessa de colheita futura. Não há necessidade de procurar em outro lugar! Jesus veio para trazer alegria para todos e para sempre. Não é só uma alegria esperada ou deslocada para o paraíso, ‘aqui na terra estamos tristes, mas no paraíso estaremos alegres’, não, não é isso. Mas, de uma alegria já real e que já é possível sentir agora, porque o mesmo Jesus é nossa alegria, é nossa casa”.

CINCO PONTOS PARA REFLETIR SOBRE A ALEGRIA CRISTÃ
1º) “O coração humano deseja alegria”. Todo mundo tem o desejo nato de felicidade. Até os grandes pecadores da história estão procurando a alegria.
2º) “Mas qual é a alegria que o cristão é chamado a viver”? Se o papa está perguntando qual, é porque existem outras alegrias. Qual é a alegria que você está procurando? Uma pedra de crack ou uma verdadeira alegria que brota do coração? Pode ser que você esteja pouco contente com as circunstâncias da sua vida, mas a alegria brota do coração. Percebo que, infelizmente, muitas pessoas tropeçam nessa pergunta do papa Francisco porque confundem alegria com prazer.
3º) “É aquela que vem da proximidade com Deus, da Sua presença na nossa vida”. A resposta da pergunta que o papa Francisco fez está nesse ponto, é a alegria que vem da proximidade de Deus. Se você quer ser alegre de verdade saiba que a fonte da alegria é a amizade com Deus. Amizade é, antes de tudo, um relacionamento. Gastar tempo com Deus na adoração, sacramentos, oração e Missa. Jovem, essa carência que tem dentro de você só Deus pode preencher e você não tem que mendigar o amor das pessoas. Você tem tantos dons lindos dentro de você!
4º) “Não há necessidade de procurar em outro lugar”. Não procure em cosméticos, festas, baladas aquilo que só Deus pode preencher e lhe dar.
5º) “Não é só uma alegria esperada ou deslocada para o paraíso, ‘aqui na terra estamos tristes, mas no paraíso estaremos alegres’, não, não é isso. Mas, de uma alegria já real e que já é possível sentir agora.” Deus te criou para viver a alegria já aqui nesta terra. A alegria não é a ausência de problemas e sofrimentos. Você precisa aprender de Deus uma sabedoria prática para saber ser alegre mesmo em meio aos desafios do dia.

SAIBA COMO DESENVOLVER A ALEGRIA
Primeiro: É preciso reconhecer o que há de bom em nossa vida. Cuidado com a tristeza, porque ela pode se tornar um vício! Você aponta a lua no alto do céu, alta e brilhante, e a pessoa triste fica olhando a ponta do seu dedo, mas não olha para a lua.
Segundo: Ajudar a quem precisa é fonte de alegria. É provado cientificamente que quando você ajuda uma outra pessoa, você sente uma alegria.
Terceiro: Compartilhar é fonte de alegria. Quando você compartilha algo ou você mesmo, aquilo que você é, é fonte de alegria. Quando você para e escuta alguém. Quando você não tem condições de ajudar, Deus manda pessoas. “Quando há menos de nós há mais de Deus” (Santa Teresa D’Ávila).
Quarto: Cultivar o bom humor e ser otimista. A pessoa que é otimista não para no negativo, mas ela sabe conversar. É tão bom conviver com pessoas bem humoradas. Papa Francisco exortou os cristãos dizendo: “o cristão não pode ser pessimista e ter cara de velório”.
Quinto: Desenvolver a capacidade de conquistar, ter metas na vida. Quando você se propõe a uma meta e trabalha com afinco para conquistá-la isso é fonte de alegria profunda para o seu coração.
Sexto: Cultivar a amizade com Deus por meio da oração. “Que alegria quando ouvi que me disseram vamos à casa do Senhor” (Salmo 122). Quanto tempo você separa para rezar? Ninguém pode ter a verdadeira alegria se não cultiva uma vida de oração.
Encerro com o Evangelho de São João: “Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis, para que o vosso gozo se cumpra” (Jo 16, 24).

A NOSSA ALEGRIA TEM AS RAÍZES EM FORMA DE CRUZ
Por quê?
Porque da cruz brotou toda a alegria: o júbilo exultante da Ressurreição, a certeza da nossa felicidade eterna; porque se o grão de trigo não morre, fica infecundo; mas se morre, dá muito fruto (Jo 12, 24-25). Quem conseguir tirar da morte, vida, e fazer da dor uma fonte de alegria, é sem dúvida um ser superior. E assim é o verdadeiro cristão: já começou aqui na terra a viver a permanente felicidade do céu, onde não haverá nem lágrimas nem despedidas.
E o Senhor vai-nos ensinando: esta humilhação deve servir-te para “podar” o teu orgulho, que tanto machuca os outros; essa frustração é para que comeces a perceber que a tua autossuficiência é infantil e tola; a perda dessa pessoa querida serve para que penses mais que estamos aqui de passagem; essa dor profunda, para que acabes por compreender que foi precisamente a Cruz o instrumento que Eu escolhi para redimir o mundo…
Contava-me o capelão do Hospital do Câncer de São Paulo, Pe. Humberto, uma história comovente. Ficou internado ali um garotinho de uns sete anos, Marcelo, com um câncer incurável e dolorosíssimo. E ele só sabia dizer a todos: – “Por que eu, por que eu… Que mal fiz eu para sofrer tanto?” Todos ficavam impressionados, extremamente sentidos, mas nada sabiam responder-lhe, até que um dia o Pe. Humberto foi visitá-lo. Sentou-se à beira da sua cama e começou a conversar com ele…
– Marcelo, você sofre muito?
– Muito, padre, muito… Por que eu?; Por que eu?…
O Pe. Humberto disse-lhe:
– Marcelo, olhe para o crucifixo: por que Ele, por que Ele?… Que mal fez Ele para sofrer tanto?
O menino ficou calado, perplexo, chocado… E perguntou mansamente, quase chorando:
– Porquê, Pe. Humberto, por quê?
– Porque padeceu na cruz pelos nossos pecados; porque, fazendo-se homem, quis satisfazer pelos delitos cometidos pelos homens. Deus, Pai, desejava essa satisfação. Você não gostaria de unir-se à Cruz de Jesus, ser tão bom como Ele e sofrer para redimir com Ele todos os homens?
– Sim, claro, mas como posso fazer isso?
– Olhe, você sabe que a Olívia, aquela moça nissei, que está tão grave, vai morrer, mas não quer
confessar-se. Por que você não oferece as suas dores para que ela se confesse?
– Sim, vou oferecê-las, sim. Mas escreva num papel o nome dela para eu não o esquecer…
A partir desse momento, a atitude de Marcelo mudou completamente. O protesto converteu-se em paz e sorriso. A enfermeira estava impressionada.
Marcelo entrou em agonia e perdeu os sentidos. A enfermeira observou que tinha o punho direito
sempre fechado e que pronunciava uma frase que ela não conseguia entender. Quando faleceu, abriu-lhe a mãozinha e dela tirou um papel amarrotado onde estava escrito: “OIívia”. Foi então que entendeu as palavras que Marcelo murmurava: – “Por OIívia …, por Olívia…” Mas o mais admirável foi que, exatamente à hora em que Marcelo falecia, Olivia, espontaneamente, sem nada saber do fato, dizia ao Pe. Humberto que queria confessar-se.
Os dois, Marcelo e Olívia, encontrar-se-iam lá em cima para rejubilar-se mutuamente ao entenderem, em toda a sua profundidade, que a dor unida ao sacrifício de Jesus desabrocha numa eterna alegria.
A dor leva-nos à decepção e à tristeza quando não sabemos encontrar o seu sentido sobrenatural. Quando, porém, sabemos que, através dela, nos estamos santificando e santificando os outros – que estamos sendo corredentores –, essa dor adquire tal valor aos nossos olhos que acabamos por sentir-nos felizes sacrificando-nos para que a vontade de Deus se realize. A Dor, entendemos, vai ao encontro do Amor.
Pensando nisto, poderíamos perguntar-nos: Procuramos encontrar sentido em nossas dores? Pedimos luzes para entrever o significado que Deus quer dar a todos os acontecimentos desagradáveis? Pedimos ao Senhor que nos ajude a fazer um ato de esperança dizendo: tudo será para meu bem! (cfr. Rm 8, 28). Sabemos olhar com frequência o crucifixo para oferecer os contratempos com espírito reparador? Pedimos ao Senhor a paciência necessária para carregar a cruz de cada dia com alegria cristã?
E então vamos adquirindo esse estado superior em que dos espinhos nascem rosas, em que do grão que morre brota a espiga fecunda, em que do Calvário emerge o exultante júbilo da Ressurreição, e da contrariedade o sorriso.

ALEGRIA NOS FILHOS
“…Vendo isso, Jesus se aborreceu e disse: Deixai as crianças virem a mim. Não as impeçais, porque a pessoas assim é que pertence o Reino de Deus. Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele. E abraçava as crianças e, impondo as mãos sobres elas, as abençoava” (Marcos 10, 14-16).
É comum conhecermos pessoas que optam por ter animais domésticos no lugar de filhos, pois, de acordo com seu ponto de vista, os bichos não dão tanto trabalho, não dão tantas despesas e exigem menos atenção que uma criança. Tornou-se comum, também, muitas pessoas acabarem tendo filhos mais por aderirem a uma convenção social que por convicção e, depois, acabam “terceirizando” a função de pai e mãe.
Todos nós sabemos que precisamos dar atenção aos filhos se quisermos conquistá-los, que precisamos destinar tempo a eles se quisermos que eles nos amem para que, assim, futuramente, não se tornem delinquentes ou sejam conquistados por um traficante. Contudo, não podemos enxergar o papel de pai e mãe apenas pelo lado da obrigação que temos, mas, também, pela alegria que isso nos proporciona. É muito bom ter crianças! Elas nos enchem de alegria, trazem-nos lembranças da infância, fazem-nos esquecer dos problemas deste mundo e nos ensinam muitas coisas por meio de sua pureza. É estranho como as pessoas investem em entretenimento enquanto que, a maior de todas as diversões, que é ficar com os filhos, não tem custo algum. Se o Reino dos Céus é amor e alegria, então, viver com crianças é uma amostra deste Paraíso.
Que possamos descobrir que o tempo de dedicamos para ficar com nossos filhos é muito bom não apenas para eles, mas, também para nós.

A ALEGRIA NO LAR
Cada lar tem de ser um santuário de paz e de alegria, uma autêntica “Igreja doméstica” (Rm 16, 5), um reflexo do lar de Nazaré, no qual se vive em trato íntimo com o Senhor.
A alegria e a paz não vêm de fora, brotam de dentro, ainda que se viva no último barracão da última favela. Por isso, se um lar não é alegre, não é por faltarem meios econômicos e sobrarem doenças. É simplesmente porque falta espírito cristão. Quando se vive de fé, a alegria transborda no meio da abundância e da carência, da saúde e da doença, do prazer e da dor.
É graças a essa fé que ganhamos forças para, por um lado, eliminar a tristeza e o pessimismo, e, por outro, incentivar o otimismo e o bom humor.
É graças a essa fé que conseguimos, em primeiro lugar, arrancar do lar as ervas daninhas da tristeza, e arrancá-las pela raiz, para que não se reproduzam. “Não compreendes – diz um dos primeiros escritos cristãos, o Pastor de Hermas – que a tristeza é o pior e o mais temível de todos os estados de espírito?” Não há nada pior para corromper um lar e estragar os filhos. Que os pais pensem nisso para superar, se necessário, essa tendência frequente à irritação, à dramatização, à zanga, ao mau gênio, à insegurança, à apreensão agourenta e ao pessimismo; que pensem também, com espírito de responsabilidade, que os angustiados e neuróticos são geralmente filhos de pais tristes e pessimistas.
E depois, é indispensável semear paz, bom humor e otimismo. Sim, é necessário no ambiente do lar saber rir, e fazer os outros rirem; aprender a contar uma boa piada; tirar importância aos pequenos incidentes da vida diária – o carro que enguiçou, o espelho que se quebrou, a sopeira cheia que caiu em cima do tapete, as gripes mensais, as enxaquecas diárias, as reprovações escolares e as brigas fraternas… –; saber olhar todas essas coisas pelo lado positivo, descontraído, amável e… divertido.
Por outro lado, é preciso cuidar dos detalhes: festejar os aniversários com carinho, não dispensar os presentes de Natal e especialmente celebrar com alegria as grandes festas da Igreja… Custa tão pouco fazer um bolo enfeitado com creme no dia da Páscoa, e também no ignorado dia de Pentecostes, e em tantos outros… Assim se conseguirá essa atmosfera do Lar de Nazaré.

A ALEGRIA É O SENTIDO DA ETERNIDADE
Se abra para a Sagrada Escritura para saber como deve se manifestar a verdadeira alegria. Se nos apegamos a tantos valores que não brotam da fonte que é a Palavra de Deus, nós mergulhamos naquilo que não é dom de Deus e que de alguma forma são referências de alegria para nós, que haja uma conversão de suas referências, mudança de coração. A Sagrada Escritura traz de forma profunda e densa a verdadeira referência.
Talvez você esteja caminhando, mas você não apresenta essa alegria porque suas motivações não são autênticas, estão corrompidas por coisas que não fazem parte da verdade de Deus.
Na Sagrada Escritura, a alegria vai transcendendo o sentido daquilo que é terrestre, e vai se tornando a marca da salvação que se aproxima. No Antigo Testamento vamos olhando que de forma crescente, a Palavra vai mostrando essa alegria verdadeira.
A Sagrada Escritura demonstra o limite e a brevidade dos bens terrestres que não sanam o desejo do coração do homem de fazer essa experiência com Deus. Será que sua alegria está estabelecida nos bens terrestres? E aqui você irá parar nos limites dos bens terrestres, e quando essa brevidade se aproxima a pessoa fica sem base. Depende de Deus a sua alegria.
Mesmo no sorrir, o coração pode estar triste. A experiência precisa ser interna de depender de Deus. A alegria é fruto da dependência de Deus, aquele que depende de Deus traz o júbilo de Deus.
A alegria é o sentido da eternidade, uma alegria que depende somente de Deus. Eu dependo em todas as coisas de Deus. Se você não depende, você não vai sair da tristeza que tem reinado em seu coração, você vai permanecer nas cadeias de mortes que foram construídas ao longo de sua história na busca vazia de si mesmo; seja na vocação ou em qualquer realidade. Muitos perdem a vocação por não fazerem a experiência de depender de Deus.
A dependência de Deus nos faz ver além, nos amadurece de tal forma que nos sentimos livres. Você só respira porque a graça de Deus lhe permite isso, é o dom da vida, sopro de vida que nos move.
O que é externo não pode matar o que é de Deus em nós. As dificuldades e sofrimentos são pobres diante da alegria divina. Dê um passo diante do Deus maior. Não há como fazer a experiência da alegria divina se não permanecemos no amor.
Tudo aquilo que não é amor e você tem dado espaço em seu coração não faz parte da alegria Divina, então não pode ser mais a motivação para você. Eis que o que era velho passou e tudo se faz novo.
Ao enfrentar as situações difíceis da vida se a pessoa centraliza na situação em si, não tem força para dar uma reposta diferente diante do fato. Quanto mais ela sofre, mais atualiza a dor, mergulha na dor, e vai ficando sem força para enfrentar a situação. Só enfrentamos essa realidade quando em nosso coração é atualizado a presença Divina. As pessoas esquecem-se disso e caem na ingratidão com Deus, esquecem do que Deus é e do que Deus fez.
A que você tem dado importância? Para coisas breves? Se assim for sua alegria será passageira, nunca será eterna, porque falta sentido de eternidade. Eternidade é para quem quer viver o presente com amor, pois quem não ama a vida presente não quer a vida para sempre; é uma existência que vai apodrecer no túmulo.
A nossa existência não é vazia, tem sentido, tem raiz em Jesus Cristo, pois Ele disse: “onde Eu estiver vós também estareis”. Esse lugar já foi alcançado, viva com seu olhar para eternidade, e não como alguém perdido. É em Deus que o homem deve por sua alegria acima de qualquer outro bem.
“Ao ouvir esse tumulto, minhas entranhas comoveram-se; ao seu ruído meus lábios tremeram; a cárie penetra nos meus ossos, e meus passos vacilam debaixo de mim. Esperarei em silêncio o dia da aflição, que se há de levantar sobre o povo que nos oprime, porque então a figueira não brotará, nulo será o produto das vinhas, faltará o fruto da oliveira, e os campos não darão de comer. Não haverá mais ovelhas no aprisco, nem gado nos estábulos. Eu, porém, regozijar-me-ei no Senhor. Encontrarei minha alegria no Deus de minha salvação. O Senhor é minha força; ele torna meus pés ágeis como os da corça, e me faz andar sobre os cimos. Ao mestre do canto. Para instrumentos de corda” (Habacuc 3, 16-19).
Quem tem a alegria presa nas coisas que passam, não suporta as angústias da vida terrestre. Você acha que uma pessoa que não depende de Deus fará uma oração como essa?
Não perca tempo de amar, valorize o que Deus te deu, não espere perder para valorizar o que Deus lhe deu. Deus nos perdoa sempre, mas a vida não nos perdoa, porque colhemos as consequências de nossas escolhas. Deus é amor, Ele não nos castiga, mas nós nos castigamos quando não vivemos o amor. Se nós não permanecemos no amor não encontramos a verdadeira alegria.
“Somos julgados tristes, nós que estamos sempre contentes; indigentes, porém enriquecendo a muitos; sem posses, nós que tudo possuímos!” (2 Coríntios 6, 10). É assim que nós enfrentamos as tribulações. Nada é maior que a alegria em Cristo. Identifique o que tem estado no ponto mais alto de sua vida. Você tem adorado a Deus?
“Tenho grande confiança em vós. Grande é o motivo de me gloriar de vós. Estou cheio de consolação, transbordo de gozo em todas as nossas tribulações” (2 Coríntios 7, 40). Parece utopia, como alguém pode transbordar de dor na tribulação? Porque a tribulação não é maior que a alegria em Deus. Essa alegria baseia-se na expectativa da salvação, mas é preciso ter uma profunda união com Cristo no amor.
Qual a qualidade de seu presente? De suas ações? De suas palavras? De seus relacionamentos? É um relacionamento que tem qualidade de eternidade? Você dá qualidade as suas palavras? As pessoas têm júbilo interior de estarem na sua presença?
Não espere eternidade para depois da morte, pois ela só terá sentido se você deu qualidade para a vida hoje. É hoje que sua vida tem que cantar o canto mais belo. É preciso crer na vida antes da morte, para esperar a vida depois da morte. Deus cria para a vida, porque Deus cria por amor. Se a lógica do amor não nos governa não experimentamos alegria e sim corrupção.
A visão de Deus transforma o homem, nos elava a qualidade verdadeira de nossa vida. O olhar de Deus nos penetra concede-nos uma visão perfeita da nossa condição de filho. A vida é o próprio Deus com amor. Dê uma resposta de eternidade a sua vida, para que quando as pessoas te olharem elas digam: “ali vem um filho do céu”, e não um filho do inferno.
A comunhão eterna se faz na dimensão fraterna. A eternidade valoriza o tempo, faz com que nossas ocupações humanas não sejam banais, na dimensão da eternidade todas as coisas são acompanhadas de esperança. A vida não permite ensaio, é única, quando a cortina se fechar, ou seja, a morte chegar, o espetáculo da vida terrena acabou. Viver é uma questão de urgência, não tem como ir ensaiando uma vida de sacerdócio, o tempo passa e não volta. Eu preciso ser inteiro naquilo que eu vivo e acredito. Aquilo que celebro determina aquilo que eu sou, é ali que eu construo. Eu preciso renunciar ao hábito de dar peso de pessimismo na minha vida.
Ganhe tempo amando, consuma tempo no amor, nada é perca de tempo no coração que ama.
“Contudo, não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos de que os vossos nomes estejam escritos nos céus” (Lucas 10, 20).
Seja alguém que não tem uma alegria que dependa das situações da vida para ser alegre, dependa de Deus. A felicidade não depende daquilo que falta, depende do bom uso daquilo que se tem.
A mãe de Madre Teresa de Calcutá disse para ela: “Segure a mão de Jesus e caminhe sozinha com Ele, pois se olhares para trás irás voltar”. Siga em frente com Jesus para a eternidade sem olhar para trás.

ALEGRIA OU TRISTEZA?
“Não se deixe dominar pela tristeza, nem se aflija com preocupações. Alegria do coração é vida para o homem e a satisfação lhe prolonga a vida” (Eclesiástico 30, 21-22).
Todos nós enfrentamos dificuldades e tristezas ao longo de nossas vidas. Algumas pessoas podem até ter provações maiores do que outras, mas todos enfrentam momentos turbulentos. Frente a estas dificuldades, o fraco reclamará e afirmará que o mundo se volta contra ele, que todos o perseguem e que as coisas ruins só acontecem com ele. Com suas lamentações, fará com que o problema se torne maior do que realmente é. Por fim, usará como justificativa de seus fracassos pessoais, familiares e profissionais o fato de ter sido uma vítima do mundo. O forte enfrentará a dificuldade sabendo que o sofrimento é inevitável e fará o máximo possível para resolver a situação. Com confiança em Deus, enxergará nos problemas da vida uma oportunidade para seu crescimento humano. E certo de conseguirá superá-los, os tornará menores sendo mais fáceis de serem vencidos. Cabe-nos optar em agir como o perfil que encara tudo na vida com tristeza ou como o perfil que, apesar das dificuldades, encara as coisas com alegria.

A VIRTUDE DA ALEGRIA
Realmente somos felizes. Deus nos deu a vida, o dom maior, a liberdade e muitos talentos. Reflita comigo:
“Pusestes em meu coração mais alegria do que quando seu trigo e seu vinho transbordam” (Sl 4, 8).
E isso não se trata de querer tapar o sol com a peneira, o que seria falta de honestidade conosco mesmos. Nem de fazer-se de “coitadinho”, de vítima pedindo carícias de lástima dos conhecidos. Trata-se, sim, de aceitar a realidade tal como se apresenta, e procurar tirar o melhor partido das dificuldades. Como diz o provérbio, “se a vida lhe oferece um limão amargo, faça com ele uma limonada”.
“Eu vos digo isso para que a minha alegria esteja em vós, e vossa alegria seja plena” (Jo 15, 11).
É bastante fácil ser alegre quando a vida desliza como uma canção, mas o homem verdadeiro é aquele que sorri ainda quando tudo vai terrivelmente mal. Pois o teste do coração são as dificuldades, e elas vêm com os anos, e o sorriso que merece os louvores da terra é aquele que brilha através das lágrimas.
“Vós vos entristeceis, mas a vossa tristeza se transformará em alegria” (Jo 16, 20).
Lembre-se: “um só ramo de flor tem mais futuro do que toda uma floresta seca. E numa só semente de trigo há mais vida do que num montão de feno“. É claro, a floresta seca interessa ao lenhador que anda em busca de madeira para queimar. Uma vez posta ao fogo, a lenha deixa de existir. Enquanto, um ramo de flor e uma semente de trigo trazem dentro de si a força da vida, a promessa de abundantes colheitas e de novos frutos. Trazem esperança, virtude alegre baseada na fé. Uma das alegrias mais fantásticas da vida será deixarmos este mundo diferente, porque passamos por ele e aí deixamos a marca da nossa criatividade, do nosso sorriso, da nossa alegria!!!.
“Ainda há esperança para quem está ligado a todos os vivos, e um cão vivo vale mais do que um leão morto” (Ecl 9, 4).
Realmente a alegria é essencial para as nossas vidas, mesmo em meio a essas dificuldades do dia a dia, não me deixo vencer pela tristeza, ao contrário sempre lembro que, o coração é nosso, mas o rosto é dos outros, então sigo em frente com fé.
É possível transformar dificuldades em momentos de “alegria”.
Deus transforma momentos difíceis em bênçãos.
A felicidade é um susto. Chega na calada da noite, na fala do dia, no improviso das horas. Chega sem chegar, insinua mais que propõe… Felicidade é animal arisco. Tem que ser admirada à distância porque não aceita a jaula que preparamos para ela. Vê-la solta e livre no campo, correndo com sua velocidade tão elegante é uma sublime forma de possuí-la.

SÃO FRANCISCO E A ALEGRIA – Francisco declara bem-aventurados os frades que vivem situações àquelas às quais o Evangelho qualifica de bem-aventuranças. Em geral são declarações dele a respeito de quem procede evangelicamente, como nas suas Admoestações diz: “bem-aventurado aquele que nada retém para si”.
Neste sentido encontrei – só nos escritos atribuídos a Francisco – 12 vezes a expressão bem-aventurado(s) e uma vez “felizes” como sinônimo de bem-aventurados. Na verdade são promessas de felicidade se os frades conseguirem realizar determinadas propostas evangélicas.
Quando Francisco lida com o dia-a-dia de seus irmãos e refere-se às qualidades e virtudes para a boa vivência da fraternidade, para o sucesso na luta contra Satanás e a eficiência da evangelização, ele fala 19 vezes em alegria.
Alegria como virtude – Não é muito fácil transformar a alegria em virtude, pois alegria parece constituir-se apenas de uma emoção primária agradável, fruto da posse de coisas desejadas. O problema está naquilo que se deseja. A alegria do Tio Patinhas por encontrar mais uma mina de ouro não é virtuosa, pois é fruto de sua desmedida cobiça e poderá incentivar outros a se entregarem ao materialismo.
Francisco, por sua vez, acabara de romper com o pai ganancioso e com a riqueza de que podia usufruir na família. Procurava em seu íntimo uma forma de viver mais de perto o ideal do Evangelho e do modo de ser do próprio Cristo.
Numa Missa ouve aquela passagem na qual Jesus envia seus discípulos a pregar. Depois pede ao sacerdote que lhe explique a leitura. Diante do quadro dos enviados “sem bastão”, sem dinheiro, sem reserva de pão, sem calçados”, ocupados unicamente em pregar o Reino de Deus e a penitência, Francisco tem uma iluminação. Segundo Tomás de Celano, ele exclama: “É isso que eu quero, isso que procuro, é isso que DESEJO DE TODO CORAÇÃO”. Ora, quem consegue conquistar “aquilo que deseja” de todo o coração, só pode experimentar uma alegria correspondente. É o que Jesus afirma ao comparar o Reino a um tesouro. Quem o encontrar abre mão de TUDO o que possui e, “cheio de alegria compra aquele campo” (Mt 13, 44). Para chegar ao TESOURO, Francisco teve que perder tudo. Enquanto ia perdendo, já sentia o coração enchendo-se de alegria. A conclusão disso foi claríssima para ele: a alegria é o certificado de qualidade da evangelização. Só é bom discípulo e bom anunciador do Reino quem não conseguir esconder aos demais – por causa da alegria irreprimível – que ele encontrou algo realmente extraordinário.
Desdobramentos da alegria – São Francisco está a uns cinco meses de sua morte.
Seu corpo reduziu-se a uma ruína humana. Não consegue mais escrever. O sofrimento físico é atroz e torturante. Dita assim mesmo um testamento com suas últimas recomendações. Depois pede que Frei Leão escreva o que ele tem a dizer sobre aquilo que considera ser a ALEGRIA PERFEITA. Francisco imagina duas situações. Na primeira chegam mensageiros anunciando sucessos inimagináveis de sua Ordem nos mais diversos recantos da Terra. “Digo-te – afirma ele – que em tudo isso não está a verdadeira alegria”. Na segunda Francisco imagina-se numa emergência hipotética. Ele próprio, o fundador da Ordem, volta para o conventinho da Porciúncula, “sua” casa-mãe, todo machucado, esgotado pela fadiga e quase morto pela mais violenta nevasca.
Bate muitas vezes na porta. Por três vezes, o porteiro abre, xinga Francisco de todas as formas. Conclui o santo: “Pois bem, se eu tive tido paciência e permanecer imperturbável, digo-te que aí está a verdadeira alegria, a verdadeira virtude e salvação da alma”.Por muito tempo, por mais que isso impressionasse, eu imaginava que era o tranvasar da expressividade dramática da alma latina, italiana, de Francisco.
Mas, eis que em um de seus biógrafos encontrei a explicação. Francisco não se ligava no conteúdo da ofensa de quem o agredia. Concentrava-se na desordem do coração e pecado do ofensor.
Em vez de ficar ofendido, enchia-se de cuidados e compaixão pelo irmão agressivo.
Deus e Jesus Cristo tornam-se cada vez mais a única e avassaladora paixão de São Francisco. No altar desta paixão, ele sacrifica tudo, inclusive todos os outros possíveis projetos e desejos. É isso que ele entende por POBREZA.
Sobra só um desejo irresistível: imitar em tudo seu Cristo-Paixão, sem sofrer menos que Ele “pela salvação de todos”. Assim, Francisco desenvolveu uma blindagem protetora contra todas as adversidades, todas as injustiças, toda forma de sofrimento. Todo sofrimento é sempre invadido pela luz e significado que brotam de seu CRISTO-MODELO. Ocorre uma verdadeira transubstanciação da dor e do sofrimento. Adquirem uma nova natureza. Aí fica difícil saber onde termina Francisco e onde começa Cristo.
Nesta comunhão, os contornos e as figuras de ambos se embaralham nossos olhos. Então toda sorte de sofrimentos simplesmente o fazem sentir-se mais perto, mais identificado com seu divino mestre e modelo, sua única paixão. Isso realimenta e purifica sua indefectível alegria. Por isso seus contemporâneos afirmavam que Francisco era outro Cristo.

A PERFEITA ALEGRIA
Neste mundo moderno de valores dúbios e altamente competitivos, nos deparamos, a cada momento com situações embaraçosas, constrangedoras e muitas vezes injustas.
Qual a postura correta a ser adotada?
Talvez a resposta esteja na pessoa de São Francisco, uma das criaturas mais perfeitas que Deus nos enviou para dar seu testemunho de humildade, simplicidade e amor ao próximo.
São Francisco abdicou de todos os bens materiais que possuía, fez voto de pobreza, castidade e obediência e dizia que sua maior virtude era a perfeita alegria. A felicidade de Francisco era mais do que o simples contentamento ou satisfação. Ele encontrou a sua própria plenitude em toda a natureza.
Com grande simplicidade respeitava a obra e o plano de Deus em sua concepção verdadeira e não se abalava com as agruras da vida. A perfeita alegria era um estado pleno e inabalável de felicidade que não podia ser dissipado nem mesmo pela provação mais feroz ou pelo momento mais difícil, era um encantamento infinito pela existência que nada podia abalar.
Para explicar a sua perfeita alegria ele narrava uma estória interessante.
Era um dia daqueles de estação barrenta e fria de um inverno rigoroso, onde as gotículas de água congelavam nas extremidades de sua túnica e continuamente feriam suas pernas, chegando a sangrar.
Todo coberto de lama, frio e gelo, na calada da noite, ao retornar de Perusa, chegando a uma das casas de seus confrades e após ter batido e chamado por muito tempo, vem alguém e pergunta:
– Quem é?
E ele responde:
– Sou eu, Francisco.
E a voz quem vem de dentro responde de forma rude:
– Vá embora, não é hora decente de chegar, aqui você não entra.
Com o corpo quase paralisado pelo frio Francisco insiste para abrir a porta, mas a resposta vem de forma mais rude ainda:
– Vai embora, você é um simplório e idiota: não existe a menor possibilidade de eu abrir a porta. Somos tantos aqui que não precisamos de você.
Ele insiste mais uma vez e mais uma vez a resposta é negativa:
– Já disse, não vou abrir, vai pedir hospedagem em outro lugar.
Ao invés de ficar furioso, o grande Francisco ensina.
Nesta situação se tiver paciência, tolerância e não ficar abalado, aí está a verdadeira alegria e a verdadeira virtude.
A mensagem maior de Francisco é sermos tão felizes e plenos em Deus que nossa alegria transcende qualquer barreira.
Este ensinamento de São Francisquinho vale para o mundo corporativo?
Eu diria que sim.
Quantas vezes nos deparamos com gestores mal humorados que descarregam toda a sua insegurança em seus colaboradores.
Quantas vezes nos sentimos injustiçados por aquela promoção que estava certa e no último momento nos é negada sem uma explicação plausível ou mesmo por motivo injusto.
Não estou dizendo que devemos ser passivos às provocações e injustiças e não lutar por aquilo que julgamos correto. Estou propondo que devemos ser tolerantes e inteligentes para nos impor, como seres humanos nos momentos certos.
Eu sei que não é fácil, é mesmo difícil diante de tantos obstáculos, diante de tantas provocações que a vida nos impõe.
Se você faz as coisas bem, faça-as melhor. Não seja ganancioso, mas seja audacioso, procure ser o primeiro sempre, seja diferente, mas acima de tudo seja justo e tudo isso faça com alegria, buscando a cada dia, a perfeita alegria, como fazia São Francisco de Assis, segundo ele a maior de todas as virtudes.

CULTIVE A ALEGRIA
Se ninguém o aplaudiu, não fique frustrado
“A alegria é um farol luminoso, em cujas lentes esbarram todos os pássaros da noite” (M. De Backer).
É preciso vencer a tristeza para ser feliz; ela é fonte de muitos sofrimentos; muitas vezes, ela vem acompanhada do mau humor. Jamais dê guarida à tristeza e ao mau humor se você quiser ser feliz. Rejeite e expulse esses sentimentos do seu coração com um ato de vontade e de fé. A tristeza nos adoece e nos mata.
A Bíblia diz que “A alegria do coração é a vida do homem, e um inesgotável tesouro de santidade. A alegria do homem torna mais longa a sua vida” (Eclo 30, 22-26). Lance fora a tristeza; ela não é uma boa companhia. Não guarde mágoas, ira, inveja, rancores e ressentimentos, pois esses sentimentos envenenam o coração. Faça como o sol:
“Se algum dia você se sentir desprezado pelas pessoas, não se aborreça. Se algum dia você perceber que não valorizam os seus esforços para melhorar, não fique aborrecido, isto só lhe faria mal. Se algum dia você se sentir rejeitado e esquecido, colocado em segundo lugar, não se aborreça, não será menor por causa disso.
Se algum dia as pessoas não notarem a beleza de sua inteligência e a grandeza da sua alma, também não fique com raiva delas, você não perderá nada por causa disso.
Se você se levantar todos os dias para fazer o bem aos outros, e mesmo assim ninguém lhe agradecer por isso, não fique aborrecido, você não perdeu o mérito de suas boas obras.
Se você fez um belo trabalho e ninguém o parabenizou e aplaudiu, não fique frustrado, a sua obra continuará grande.
Se você renova todos os dias, incansável e gratuitamente, o seu amor às pessoas, e elas não são gratas a isso, não fique triste, pois também o sol nasce todos os dias, gratuitamente, e a maioria não repara nisso. Todos os dias ele dá um grande espetáculo ao nascer, mas a maioria da platéia está dormindo e não pode aplaudi-lo”.
Precisamos criar em torno de nós um ambiente feliz e alegre, expulsando dele, decididamente, o mau humor, a lamentação, a acusação dos outros, etc. Especialmente o lar deve ser um lugar onde os filhos respirem um “oxigênio” puro, e gostem dele.
Os psicólogos hoje advertem que muitos jovens são levados às drogas porque fogem de suas casas por não suportarem o ambiente de brigas, confusões e tristezas.
Alguém me contou esta história:
“Um homem chegou em casa, naquela noite, trazendo o mau humor que o caracterizava há alguns meses. Afinal, eram tantos os problemas e as dificuldades, que ele se transformara em um ser amargo, triste, mal-humorado. Colocou a mão na maçaneta da porta e a abriu. Deteve o passo e pôde ouvir a voz do filho de seus quatro anos de idade:
– Mamãe, por que papai está sempre triste?
– Não sei, amor, respondeu a mãe, com paciência. Ele deve estar preocupado com seus negócios.
O homem parou, sem coragem de entrar e continuou ouvindo:
– Que são negócios, mamãe?
– São as lutas da vida, filho. Houve uma pequena pausa e depois, a voz infantil se fez ouvir outra vez:
– Papai fica alegre nos negócios?
– Fica, sim, respondeu a mãe.
– Mas, então, por que fica triste em casa?
Sensibilizado, o pai pôde ouvir a esposa explicar ao pequenino:
– Nas lutas de cada dia, meu filho, seu pai deve sempre demonstrar contentamento. Deve ser alegre para agradar ao chefe da repartição e aos clientes. É importante para o trabalho dele. Mas, quando ele volta para casa, ele traz muitas preocupações. Se fora de casa, precisa cuidar para não ferir os outros, e mostrar alegria, gentileza, não acontece o mesmo em casa.
– Aqui é o lar, meu filho, onde ele está com o direito de não esconder o seu cansaço, as suas preocupações. A criança pareceu escutar atenta e depois, suspirando, como se tivesse pensado por longo tempo, desabafou:
– Que pena, hein, mãe? Eu gostaria tanto de ter um pai feliz, ao menos de vez em quando. Gostaria que ele chegasse em casa e me pegasse no colo, brincasse comigo. Sorrisse para mim. Eu gostaria tanto…
Naquele momento, o homem pareceu sentir as pernas bambearem. Um líquido estranho lhe escorreu dos olhos e ele se descobriu chorando.
– Meu Deus, pensou, como estou maltratando minha família. E, ainda emocionado, irrompeu pela cozinha, abriu os braços, correu para o menino, abraçou-o com força e o convidou:
– Filho, vamos brincar?”
Todos nós temos problemas e os teremos a vida toda. O importante é não deixá-los nos sufocar. Deus nos manda buscar e cultivar a alegria, mesmo nas horas difíceis: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos! O Senhor está próximo. Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a oração, as súplicas e a ação de graças. E a paz de Deus, que excede toda a inteligência, haverá de guardar vossos corações e vossos pensamentos, em Cristo Jesus” (Fil 4, 4-7).

 

ORAÇÃO
De modo geral costuma-se definir a oração como um diálogo entre a criatura e o criador e, neste sentido, parece que o mais importante nesse diálogo é aquele que reza.
Todavia esse conceito não exprime a verdade, uma vez que o mais importante na oração não é o eu, a criatura, mas o Tu, Deus.
Na oração o agente mais importante, assim é o próprio Deus que vem em auxilio da criatura para libertá-la da escravidão da corrupção e conduzi-la à libertação e à felicidade.
O Catecismo da Igreja Católica nos diz: “A oração é a vida do coração novo e ela deve nos animar a cada momento. Nós, porém, esquecemo-nos daquele que é nossa Vida e nosso Tudo. Por isso os Padres espirituais, na tradição do Deuteronômio e dos profetas, insistem na oração como “recordação de Deus”, despertar frequente da “memória do coração”: É preciso se lembrar de Deus com mais frequência do que se respira” (2697).
Embora pareça que somos nós que temos o impulso de orar, na verdade, esse impulso vem de Deus, por isso São Paulo na Epístola aos Romanos diz: “Também o Espírito vem em auxílio de nossa fraqueza, porque não sabemos pedir o que nos convém. O próprio Espírito é que advoga por nós com gemidos inefáveis”.
O inesquecível Papa São João Paulo II afirma: “O homem atinge a plenitude da oração não quando nela exprime com intensidade o seu próprio eu, mas quando permite que nela se torne plenamente presente o próprio Deus”.
Na tradição católica temos três tipos de oração: oração vocal, a meditação e a oração mental.
Na oração vocal Deus fala ao homem por sua palavra, mas o mais importante é presença do coração àquele a quem falamos na oração.
Aos discípulos encantados com a oração silenciosa do Mestre, ele lhes ensinou a oração do PAI NOSSO.
A oração vocal, por ser exterior é a mais proclamada pelas multidões, mas essa oração se torna interior, na medida em que tomamos consciência daquele a quem nos dirigimos. Isso é o mais importante.
A meditação, na verdade é uma procura, na qual o cristão busca compreender a palavra de Deus, se apropria do conteúdo lido, confronta-o com a própria vida e tira critérios para agir segundo a mentalidade de Deus.
Importante neste tipo de oração é substituir o nome referido no texto pelo próprio nome e escutar o que Deus me fala por aquela palavra.
“A oração cristã procura de preferência a meditar “os mistérios de Cristo”, como na “lectio divina” ou no Rosário. Esta forma de reflexão orante é de grande valor, mas a oração cristã deve ir mais longe: ao conhecimento de amor do Senhor Jesus, à união com Ele” (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2708).
Finalmente temos a oração mental, que segundo o pensamento de Santa Teresa de Ávila “… é apenas um comércio de amizade em que conversamos muitas vezes a sós com esse Deus por quem nos sabemos amados”.
Assim, o primeiro mandamento, não consiste em amar a Deus, mas em deixar-se amar por Ele, daí, ainda afirmar Santa Teresa de Ávila, na oração ela busca “aquele que meu coração ama”.
“A oração mental é também um tempo forte por excelência da prece. Na oração, o Pai nos “arma de poder por seu Espírito para que se fortifique em nós o homem interior, para que Cristo habite em nossos corações pela fé e sejamos arraigados e fundados no amor” (Ef 3, 16-17 / Catecismo da Igreja Católica, 2714).
A oração é, assim, o olhar de fé fito em Jesus: “Eu olho para ele e ele olha para mim” dizia um camponês ao Santo Cura de Ars em oração diante do tabernáculo.
Vista a oração desta maneira, parece simples orar, mas não é. Nossa mente é como uma borboleta errante a esvoaçar, pois vive sempre inquieta e quando nos pomos a orar, nos lembramos de coisas e mais coisas e, desta forma, não ficamos com Deus, como aquele extasiado camponês.
A oração é uma arte e como arte necessitamos aprender a orar, subjugando nossa mente, para nos fixarmos no Deus único, que nos ama e a quem devemos reverencia e gratidão.
A oração é uma convergência entre a natureza e a graça.
A graça é dom de Deus e como tal, Ele pode por si sem qualquer auxílio conceder a qualquer pessoa o dom da oração, sem o auxílio de qualquer método.
Mas, no comum da vida, a natureza necessita ser educada para entrar em contato com o Deus único e, por isso, os métodos de pacificar nossa mente são não só úteis, mas necessários, para podermos entrar em colóquio com nosso Deus e Pai.
São João Paulo II faz um apelo na Carta Encíclica “Novo Millennio Ineunte”: “As nossas comunidades, amados irmãos e irmãs, devem torna-se autênticas “escolas” de oração, onde o encontro com Cristo não se exprima apenas em pedidos de ajuda, mas também em ação de graças, louvor, adoração, contemplação, escuta de alma, até se chegar a um coração verdadeiramente apaixonado”.
“Uma oração intensa, mas sem afastar do compromisso na história: ao abrir o coração ao amor de Deus, aquela abre-o também ao amor dos irmãos, tornando-nos capazes de construir a história segundo o desígnio de Deus” (cf. item 33, capitulo III).

‘ORAI E VIGIAI PARA NÃO CAIRDES EM TENTAÇÃO’ (Mateus 26, 41).
Deus criou todos os seus filhos para a comunhão com Ele, fomos criados para participar da vida divina em comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
São Paulo, na Carta aos Efésios, fala da importância da união de Deus com a Igreja. A coisa mais importante em nossa vida é a união com Jesus! Essa união passa pela fé, pelos Sacramentos e oração.
Sem a oração, nossa união com Deus se enfraquece; e a intenção do demônio é justamente essa: fazer-nos perder a graça de Deus. O demônio tem um ódio sem explicação contra Deus, mas ele não consegue nada de Deus.
O demônio concentra sua raiva naquilo que Deus mais ama, em nós, filhos do Senhor. Não podendo destruir o Pai, toda a sua fúria é voltada para destruir os filhos. Isso acontece muito na realidade humana, quando algumas pessoas odeiam as outras e canalizam a fúria em tudo que pertence a ela.
O que rompe a nossa união com Deus?
O maior mal em nossa vida é o pecado, todo resto é menos importante; para crescermos na união com o Senhor existem os meios, que são os sacramentos.
Como cresce a nossa união com o Pai?
Por meio da Eucaristia, que fortalece a nossa união com Cristo. Todos os sacramentos e nossas boas obras fazem com que nossa união cresça ainda mais.
O demônio se alegra muito mais quando uma alma comete pecado do que quando está amaldiçoada. Aquilo que parecia um grande mal, na realidade é uma grande bênção! Deus consegue reciclar todo mal em bênção, por isso o único mal é o pecado.
Em geral, rezamos pouco e, muitas vezes, não sabemos rezar muito bem. Existem tantas formas de oração e todas são importantes, até mesmo a oração na hora da refeição.
Jesus, no momento em que foi preso, viu todos os Seus discípulos sumirem. Pedro, Tiago, João… eles amavam Jesus, mas lhes faltava a oração. Apesar do grande amor por Cristo, caíram em tentação. Isso também acontece conosco.
À medida que os anos vão se passando, torna-se cada vez mais difícil ser de Jesus; é cada vez mais heróico ser de Deus, porque existe um mundo que O odeia.
Só é possível aguentar as provas se a nossa união com Jesus for forte! Para isso precisamos rezar muito!
Sempre tem de haver um “tu a Tu” com Jesus. É como uma amizade, se você não comparece, não chama, a amizade esfria.
O que acontece na oração?
Quando rezamos, chegamos de um jeito e saímos de outro. Se percebêssemos o jeito da nossa alma antes e após a oração, veríamos a diferença. A coisa mais importante é a presença de Deus em nossa alma, que se torna maior após a oração!
Jesus é o nosso modelo para tudo; sobretudo, deu-nos grandes exemplos. Imaginem o Filho do Homem rezando, cheio de graça e verdade. Jesus, que tantas vezes conta a Sagrada Escritura, levanta-se ainda cedo, vai para um lugar isolado e reza com o Pai.
Não comece o seu dia sem rezar. Leve o seu coração a Deus!
É cada vez mais difícil encontrar-se Jesus no silêncio, mais ainda fazer silêncio interior. Jesus não quer que fujamos das coisas que há dentro de nós, mas que as entreguemos a Ele. Essas coisas podem ser o ponto de partida para a conversa com Cristo.
Na oração, não somos só nós que falamos, a parte mais importante é o que Ele irá nos dizer. Entretanto, o nosso coração demora a compreender o que Jesus fala.
Como distinguir o que Deus nos pede?
Deus conta o que espera de nós por meio da oração. Muitas vezes, é como uma libertação, porque carregamos fardos pesados, mas, no encontro com Cristo, quando nos abrimos para Ele, a libertação acontece.
Nossa Senhora, em uma de suas aparições, pediu a três crianças que orassem. Ela poderia ter pedido tantas coisas, mas escolheu a melhor parte: a oração.
Jesus nos mostra onde está o nosso coração. Desse modo, a oração é sempre um momento de conversão e mudança de vida. Há uma frase muito bonita de Santo Afonso Maria de Ligório que diz: “Quem deixa, pois, a oração, deixará de amar Jesus”.

O PÁSSARO E A ORAÇÃO
Você já viu um passarinho dormindo num galho ou num fio, sem cair? Como é que ele consegue isso?
Se nós tentássemos dormir assim, iríamos cair e quebrar o pescoço.
O segredo está nos tendões das pernas do passarinho.
Eles são construídos de forma que, quando o joelho está dobrado, o pezinho segura firmemente qualquer coisa.
Os pés não irão soltar o galho até que ele desdobre o joelho para voar.
O joelho dobrado é o que dá ao passarinho a força para segurar qualquer coisa. É uma maravilha, não é?
Que desenho incrível que o Criador fez para segurar o passarinho. Mas, não é tão diferente em nós. Quando nosso “galho” na vida fica precário, quando tudo está ameaçado de cair, a maior segurança, a maior estabilidade nos vem de um joelho dobrado – dobrado em oração.
Se você algumas vezes, se vê num emaranhado de problemas que te fazem perder a fé, desanimar de caminhar; não caminhe mais sozinho, Jesus quer te fortalecer e caminhar contigo por toda sua vida!
É Ele quem renova suas forças e sua fé, e se cuida de um passarinho, imagina o que não fará por você Seu filho amado, basta você CRER!

 

FRATERNIDADE
UM ANTÍDOTO PARA A ALIENAÇÃO, PARA A CRISE E PARA O TERROR
A fraternidade é um nobre princípio que afirma que todo ser humano, imagem do Criador, deve ser solidário, procurar compreender e ajudar o seu semelhante
A sociedade contemporânea é marcada por uma série de graves problemas, entre eles é possível citar: os diversos níveis de alienação individual e social, as diversas crises que se abatem sobre os indivíduos e as instituições (crise ética, crise política, crise financeira, etc) e as diversas ondas de terror (terror religioso, terror no cotidiano, terror oriundo das políticas do Estado, etc) que, a cada dia, tornam a vida das pessoas mais ameaçadas.
Em muitos aspectos, as primeiras décadas do século XXI foram uma repetição de políticas autoritárias, do desejo de conquista e de vingança, de ideologias políticas alienadas (nazismo, socialismo, marxismo, etc) que marcaram o final do século XIX e a primeira metade do século XX. Parece que o ser humano não aprendeu com todo o horror vivido no século XX e, por isso, no século XXI ele está repetindo, em níveis e escalas diferentes, os mesmos erros e as mesmas políticas autoritárias desse século.
Não se deseja apresentar uma solução mágica, fácil e rápida para esse complexo sistema de crises, erros e de problemas. No entanto, apresenta-se a fraternidade como uma real possibilidade de ser um antídoto para o amplo conjunto formado pela alienação, pela crise e pelo terror. Um conjunto que, como uma sombra negra e maligna, assombra o século XXI.
A fraternidade é um nobre princípio que afirma que todo ser humano, imagem do Criador, deve ser solidário, procurar compreender e ajudar o seu semelhante. Essa ajuda vai desde as tarefas do cotidiano, passando por problemas (doença, prisão, loucura, viúves, criação dos filhos, aconselhamento matrimonial, etc) até chegar aos níveis mais distantes do cotidiano, como, por exemplo, os refugiados das guerras do Oriente Médio, a fome na África, a juventude drogada e alienada na Europa e nos EUA e outros. Trata-se de um princípio, o ser fraterno, que está estabelecido desde os gregos antigos, com a noção de ajuda mútua dentro da Pólis, passando pela pregação de Jesus Cristo e pelo cristianismo, até chegar à modernidade com a revolução francesa (1789-1799), a qual tinha como lema a celebre frase: “Liberdade, igualdade, fraternidade”.
Como demonstra o jurista Lafayette Pozzoli “Liberdade, igualdade, fraternidade” foram princípios interpretados pela revolução francesa politicamente, marcando a história do Ocidente moderno. Enquanto a liberdade e a igualdade foram assumidas como categorias políticas, a fraternidade teve outro destino. Enquanto a liberdade foi o tema político do século XIX, a igualdade foi o tema central das preocupações das políticas e das ideologias do século XX, a fraternidade foi reduzida a um segundo ou terceiro plano, não sendo central nos debates políticos, filosóficos e jurídicos do mundo moderno. É por isso que o pensador Antonio Maria Baggio afirma que a fraternidade é o princípio esquecido dentro do mundo moderno.
Por si só a fraternidade não poderá resolver os graves problemas e crises vividos pelo homem e pela sociedade moderna. No entanto, é necessário que a fraternidade deixe de ser o princípio esquecido. O mundo moderno só irá superar a alienação, a crise e o terror se tiver a coragem de voltar a pensar, a refletir e, acima de tudo, experimentar novamente a fraternidade. O clamor do Apóstolo Paulo, quando afirma que o ser humano deve ter e estar cheio de “misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade. Suportai-vos uns aos outros” (Colossenses 3, 12), deve novamente ecoar dentro do coração do ser humano. Sem a experiência da fraternidade será difícil construir um mundo melhor, melhor do que foi as duas grandes guerras mundiais e todo horror vivido ao longo do século XX.

REPOR A FRATERNIDADE NO CENTRO DA SOCIEDADE
«Hoje é mais necessário do que nunca repor a fraternidade no centro da nossa sociedade tecnocrática e burocrática: assim, também a liberdade e a igualdade tomarão a sua correta modulação», declara o Papa Francisco na audiência geral da manhã desta Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2015.
Depois de ter meditado nos encontros anteriores sobre as figuras do pai e da mãe, o Papa dedicou a sua catequese à «beleza do vínculo fraterno»: «Ter um irmão ou uma irmã que nos ama é uma experiência forte, inestimável, insubstituível».
«A bênção que Deus, em Jesus Cristo, derrama sobre este vínculo de fraternidade dilata-o de modo inimaginável, tornando-o capaz de ultrapassar todas as diferenças de nação, de língua, de cultura e até de religião», afirmou.
O Papa advertiu: «Sem a fraternidade, até a liberdade e a igualdade podem encher-se de individualismo e de conformismo, também de interesse pessoal».
A fraternidade «resplandece de modo especial na atenção aos mais fracos», sublinhou o Papa: «Os mais pequeninos, frágeis e pobres devem enternecer-nos: eles têm o “direito” de arrebatar a nossa alma, o nosso coração. Sim, eles são nossos irmãos, e, como tal, devemos amá-los e tratá-los.
Catequese do Papa Francisco: A família – 5. Os irmãos
Prezados irmãos e irmãs, bom dia!
No nosso caminho de catequeses sobre a família, depois de ter meditado sobre o papel da mãe, do pai e dos filhos, agora é a vez dos irmãos. «Irmão» e «irmã» são palavras que o cristianismo aprecia muito. E, graças à experiência familiar, são palavras que todas as culturas e épocas compreendem.
O laço fraternal ocupa um lugar especial na história do povo de Deus, que recebe a sua revelação na essência da experiência humana. O salmista canta a beleza do vínculo fraterno: «Como é bom e agradável viverem os irmãos em harmonia!» (Sl 133 [132],1). E é verdade, a fraternidade é bonita! Jesus Cristo levou à sua plenitude também esta experiência humana de ser irmãos e irmãs, assumindo-a no amor trinitário e fortalecendo-a para que vá muito além dos vínculos de parentela e possa superar todos os muros de alienação.
Sabemos que quando a relação fraternal se corrompe, quando se desvirtua o relacionamento entre os irmãos, abre-se o caminho para dolorosas experiências de conflito, traição e ódio. A narração bíblica de Caim e Abel constitui o exemplo deste resultado negativo. Após o assassínio de Abel, Deus pergunta a Caim: «Onde está o teu irmão Abel?» (Gn 4, 9a). É uma pergunta que o Senhor continua a repetir a cada geração. E infelizmente, em cada geração, não cessa de se repetir também a dramática resposta de Caim: «Não sei. Sou porventura eu o guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9b). A ruptura do vínculo entre irmãos é algo desagradável e negativo para a humanidade. Também em família, quantos irmãos discutem por causa de coisas insignificantes, ou de uma herança, e depois deixam de se falar, de se saudar uns aos outros. Isto é grave! A fraternidade é algo grandioso, quando se pensa que todos os irmãos habitaram no ventre da mesma mãe durante nove meses e vêm da carne da mesma mãe! E não se pode destruir a fraternidade. Pensemos um pouco: todos nós conhecemos famílias com irmãos divididos, que discutiram; peçamos ao Senhor por estas famílias — talvez na nossa família haja alguns casos — que as ajude a reunir os irmãos, a reconstruir a família. A fraternidade não se deve destruir, porque quando se destrói, verifica-se o que aconteceu com Caim e Abel. Quando o Senhor pergunta a Caim onde está o seu irmão, ele responde: «Não sei, não me interesso pelo meu irmão!». Isto é grave, é algo muito doloroso de ouvir. Nas nossas orações rezemos sempre pelos irmãos que se dividiram.
O laço de fraternidade que se forma em família, entre os filhos, quando se verifica num clima de educação para a abertura ao próximo, é uma grande escola de liberdade e de paz. Em família, entre irmãos, aprendemos a convivência humana, como devemos conviver com os outros em sociedade. Talvez nem sempre estejamos conscientes disto, mas é precisamente a família que introduz a fraternidade no mundo! A partir desta primeira experiência de fraternidade, alimentada pelos afetos e pela educação familiar, o estilo da fraternidade irradia como uma promessa sobre a sociedade inteira e sobre as relações entre os povos.
A bênção que Deus, em Jesus Cristo, derrama sobre este vínculo de fraternidade dilata-o de modo inimaginável, tornando-o capaz de ultrapassar todas as diferenças de nação, língua, cultura e até de religião.
Pensai no que se torna o vínculo entre os homens, mesmo que sejam muito diferentes entre si, quando podem dizer uns aos outros: «Para mim, ele é como um irmão, ela é como uma irmã!». Isto é bonito! De resto, a história demonstrou suficientemente que, sem a fraternidade, até a liberdade e a igualdade podem encher-se de individualismo e de conformismo, também de interesse pessoal.
A fraternidade em família resplandece de modo especial quando vemos o esmero, a paciência e o carinho com que é rodeado o irmãozinho ou a irmãzinha mais frágil, doente ou deficiente. Os irmãos e as irmãs que agem assim são muitíssimos, no mundo inteiro, e talvez não apreciemos de modo suficiente a sua generosidade. E quando numa família os irmãos são numerosos — hoje saudei uma família com nove filhos — o mais velho ou a mais velha ajuda o pai, a mãe, a cuidar dos mais pequeninos. Como é bonito este trabalho de entre ajuda dos irmãos!
Ter um irmão, uma irmã que nos ama é uma experiência forte, inestimável, insubstituível. Acontece o mesmo com a fraternidade cristã. Os mais pequeninos, frágeis e pobres devem enternecer-nos: eles têm o «direito» de arrebatar a nossa alma, o nosso coração. Sim, eles são nossos irmãos, e, como tal, devemos amá-los e tratá-los. Quando isto acontece, quando os pobres vivem como em casa, a nossa fraternidade cristã retoma vida. Com efeito, os cristãos vão ao encontro dos mais pobres e frágeis, não para seguir um programa ideológico, mas porque a palavra e o exemplo do Senhor nos dizem que somos todos irmãos. Este é o princípio do amor de Deus e de toda a justiça entre os homens. Sugiro-vos uma coisa: antes de concluir — só me faltam poucas linhas — cada um de nós pense nos seus irmãos e nas suas irmãs e, no silêncio do coração, reze por eles. Um momento de silêncio!
Eis que com esta prece os trouxemos todos, os nossos irmãos e as nossas irmãs, com o pensamento, com o coração, aqui à praça para receber a bênção.
Hoje é mais necessário do que nunca repor a fraternidade no centro da nossa sociedade tecnocrática e burocrática: assim, também a liberdade e a igualdade tomarão a sua correta modulação. Por isso, não privemos com leviandade as nossas famílias, por sujeição ou medo, da beleza de uma ampla experiência fraternal de filhos e filhas. E não percamos a nossa confiança na vastidão de horizonte que a fé é capaz de obter desta experiência, iluminada pela bênção de Deus.

 

GRATUIDADE
Jesus pede que nós sejamos gratuitos, ou que ao menos conheçamos a gratuidade.
Nós conhecemos e admiramos pessoas que são generosas, pessoas que são delicadas, pessoas que são capazes de perder tempo, e até mesmo dinheiro, com outros necessitados; pessoas que correm em ajuda de atribulados e pessoas que são as primeiras a perguntar em que posso ajudar, ou em que posso ser útil.
Quando nós encontramos pessoas assim, é preciso que nós toquemos os ombros dessas pessoas, e lhes peçamos um pouco de companhia para aprendermos, com elas, a sermos também nós generosos e gratuitos.
O fato é este: “nós escutamos uma pregação, a sentimos perfeitamente, conhecemos a gratuidade, aceitamos a sua necessidade, mostramo-nos abertos a isto, porém, imediatamente encerrada a pregação, nós nos esquecemos do que ouvimos, e a vida nossa se passa sempre na troca e na busca direta ou indireta de vantagens pessoais”.
“Eu sou generoso, a quem me é generoso; eu dou para receber a mesma coisa, ou até mais”. Mas é exatamente contra esta tendência a comercializar tudo, até mesmo os nossos sentimentos mais nobres, que Jesus fala.
De resto, que seria de nós se Deus nos tratasse da mesma maneira como tratamos? Se Deus nos desse na mesma proporção com que Lhe oferecemos ou damos alguma coisa? Deus é muito mais generoso conosco, a começar pelo ser que não nos pertence, mas nos foi dado, gratuitamente, por Ele.
Não tenhamos a mentalidade celetista. Saibamos fazer o bem, mesmo que, de quando em quando, ele não nos traga vantagens pessoais.

 

MISSIONARIEDADE
MISSIONÁRIOS DA TERNURA DE DEUS
No dia 05 de maio de 2014, o Papa Francisco não precisou nem mesmo utilizar os 140 caracteres, com espaço, permitidos pelo Twitter, para definir o significado essencial do ser missionário para todo discípulo de Jesus:
“Cada cristão é missionário na medida em que testemunha o amor de Deus. Sede missionários da ternura de Deus!”
Houve um tempo em que o missionário era uma pessoa que vinha de longe para ensinar verdades fundamentais da fé. Não se podia imaginar que todo cristão fosse um missionário. Esta consciência veio aos poucos e se tornou definitiva quando os bispos da América Latina, reunidos na Conferência de Aparecida, em 2007, colocaram “missionário” como adjetivo de “discípulo”. No início ainda se falava de “discípulo e missionário”. Em seguida passou-se a falar de “discípulo-missionário”, como um substantivo composto. Mas logo a expressão “discípulo missionário” se popularizou e tornou-se vocabulário comum na Igreja. Se alguém não é missionário não pode se considerar nem mesmo discípulo de Jesus. É uma propriedade fundamental do “ser cristão”.
Francisco, na época Dom Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, era da comissão de redação da Conferência de Aparecida. Ele utilizou muito esta expressão “discípulo missionário” e garantiu que fosse uma marca distintiva do texto final. Agora, como Papa, ele não se cansa de motivar os cristãos a que sejam de fato missionários. Mas o que é isso? Certamente é mais do que sair de uma terra e ir para outra mais distante. É importante. Mas o núcleo fundamental da missionariedade cristã é dar testemunho. Isto aparece claramente nesta mensagem do Papa no twitter: o cristão é missionário “na medida em que testemunha o amor de Deus”. Mais do que testemunhar a fé ou as convicções religiosas, mais do que ensinar verdades, o missionário evangeliza pelo testemunho do amor misericordioso de Deus.
Verificamos isso na vida de Maria que disse: Eis aqui a serva do Senhor… e não foi para a igreja rezar. Partiu às pressas para ajudar sua prima que precisava. Ser serva do Senhor significa servir o irmão. Este testemunho surtiu um efeito maravilhoso. Quando ela saudou Isabel o menino estremeceu de alegria no ventre de sua prima, ela ficou cheia do Espírito Santo e começou a rezar. Maria foi um canal da ternura de Deus por meio do seu serviço disponível e discreto.
Vivemos em um mundo onde se propaga a missão do barulho, da fama, do espetáculo. Espetacularizamos a fé. Há quem pense que missionários são apenas os que estão na TV ou no palco. Isto pode ser um ótimo fator motivacional e um canal eficiente para divulgar bons testemunhos. Mas todo cristão que se põe a serviço de alguém está vivendo a dimensão missionária de sua fé. O pai e a mãe que dão testemunho de ternura, honestidade, oração, simplicidade para seus filhos, estão sendo missionários sem precisar sair de casa.
Existem ainda os missionários da raiva. São pessoas que falam de Deus e até defendem a igreja. Mas no tom de suas palavras notamos algo de raivoso e beligerante. Parece que sempre estão com a razão e que existem pessoas muito erradas, verdadeiros hereges, a ser combatidos. Radicalizando este tipo de missionários da raiva, temos religiões que ainda matam em nome de Deus, em pleno século 21. Neste exato momento, existem cristãos sendo perseguidos e mortos em algum lugar do mundo. Diante deste quadro, o Papa nos provoca: “Sejam missionários da ternura de Deus”.

A MISSIONARIEDADE CRISTÃ
O que caracteriza a Igreja é sua missionariedade (cf. LG 1; 17; AG 1) tendo como fundamento o mandato do Senhor de evangelizar a todos os povos, tornando sua mensagem conhecida (cf. Mc 16, 15) Jesus diz: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”. Portanto a missão da Igreja é evangelizar (DA 1.3 – 30).
A história da humanidade, história que Deus nunca abandona, transcorre sob seu olhar compassivo. Deus amou tanto nosso mundo que nos deu o seu filho. Ele anuncia a boa nova do reino aos pobres e aos pecadores. Por isso, nós, como discípulos e missionários de Jesus, queremos e devemos proclamar o evangelho, que é o próprio cristo. Anunciamos a nossos povos que Deus nos ama, que sua existência não é ameaça para o homem, que Ele está perto com o poder salvador e libertador de seu Reino, que Ele nos acompanha na tribulação, que alenta incessantemente nossa esperança em meio a todas as provas. Nós os cristãos somos portadores de boas novas para a humanidade e não profetas de desventuras (DA 30).
O DA, em continuidade com as conferencias anteriores faz uso do método, ver, julgar e agir (base de nossa missionariedade). Este método consiste em contemplar a Deus com os olhos da fé através de sua palavra revelada e o contato vivificador dos sacramentos, a fim de que na vida cotidiana, vejamos a realidade que nos circunda a luz de sua providência e a julguemos segundo Jesus Cristo, caminho, verdade e vida e atuemos a partir da Igreja Corpo Místico de Cristo e sacramento universal de salvação, na propagação do reino de Deus, que se semeia nesta terra e que frutifica plenamente no céu (DA 19).
Assim então, podemos entender que, nós cristãos, membros vivos do Corpo místico de Cristo precisamos aprender a ver, julgar e agir diante da realidade que o mundo nos insere hoje, sempre com os olhos de Deus, e esse é nosso desafio, levarmos o Cristo que conhecemos aos que não o conhece ou então o esqueceram.
Sabemos que hoje os povos vivem uma realidade marcada por grandes mudanças que afetam profundamente suas vidas. Como discípulos e missionários de Jesus Cristo, sentimo-nos desafiados a discernir os “sinais dos tempos”, à luz do Espírito Santo, para nos colocar a serviço do Reino, anunciado por Jesus, que veio para que todos tenham vida e “para que a tenham em plenitude” (Jo 10, 10; DA 33).
Nos anais de nossa história descobrimos que a vinda de Jesus cria um divisor de águas na história dos homens. De um lado encontramos os que são dele e, de outro, os que são do mundo. A partir dessa divisão se estabelece o conflito, que é caracterizado principalmente pela diferença de valores, e exige de todos os que abraçam a fé a consciência de suas consequências, entre elas a de ser odiado pelo mundo. Como cristãos, devemos enfrentar o conflito com o mundo, mas não com as mesmas armas do mundo, uma vez que estas levam à morte que é o grande valor do mundo. Devemos enfrentar o mundo com a fé, a espiritualidade, a entrega, a partilha, a doação, a fraternidade, o testemunho, o profetismo, que são valores do Reino e levam à vida.

JESUS, EXEMPLO DE MISSIONÁRIO
A Trindade, numa comunicação íntima entre as três pessoas divinas, decidiu que era necessário enviar sobre a terra alguém da mesma Trindade para ser “missionário”, para poder comunicar a plenitude da vida e tornar a todos nós participantes desta mesma vida. Jesus é o grande missionário do Pai, enviado pelo Espírito Santo. O Pai enviou o seu filho unigênito não para que ele revelasse a si mesmo, mas revelasse todo o mistério da Santíssima Trindade e comunicasse a plenitude da vida.
Como nos toca profundamente contemplar Jesus que, vindo entre nós, assume com clareza a sua missionariedade. Ele sabe que não pode enviar a si mesmo, que não tem mensagem própria e nem palavras próprias, mas a sua missão é anunciar tudo o que Ele ouve do Pai.
O Evangelista Lucas se detém nesta missionariedade de Jesus e nos diz: Jesus chegou a Nazaré onde se tinha criado. Segundo seu costume, entrou num sábado na sinagoga e se levantou para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, deu com a passagem onde se lia: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar aos aprisionados a libertação, aos cegos a recuperação da vista, para pôr em liberdade os oprimidos, e para anunciar um ano da graça do Senhor. Jesus fechou o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se (Lc 4, 16-20).
O que nós percebemos neste texto é que Jesus não tem uma mensagem própria, como nenhum missionário pode ter a sua mensagem, que ele espera a verdadeira e autêntica mensagem que é a Palavra de Deus. Jesus, na medida em que caminha para o fim da sua missão terrena, sente a necessidade de esperar a outros que possam continuar esta missão recebida pelo Pai, por isso faz surgir do seu amor os apóstolos e discípulos que, fortalecidos no Espírito Santo, abandonando todo o medo, com coragem vão enfrentando todos os perigos para comunicar não mais uma mensagem, mas sim ao Cristo ressuscitado.

“MISSÃO”, LEGADO QUE O PRÓPRIO JESUS DELEGOU AOS SEUS
Antes de se despedir dos seus discípulos Jesus levou os mais íntimos até a montanha das Oliveiras onde ele sobe ao céu e antes de subir ao céu dá uma ordem a todos: “IDE!” Ninguém mais poderá esquecer estas palavras de envio. O envio não é para os que estão perto e que pensam da mesma forma, mas sim o “ir a todas as nações e a todos os povos”, para que os seguidores de Jesus aumentem e para que o evangelho deixe os estreitos confins da Galiléia e se espalhe para o mundo inteiro. Todos foram… e onde passavam criavam novas missionariedades e novos missionários eram enviados, e o evangelho se fazia cada vez mais conhecido.
Ainda no Evangelho segundo São Mateus 9, 35-38.10, 1.6-8. podemos constatar o envio à missionariedade: Jesus percorria as cidades e as aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. Disse, então, aos seus discípulos: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe». Jesus chamou doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos malignos e de curar todas as enfermidades e doenças. Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel. Pelo caminho, proclamai que o Reino do Céu está perto. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, dai de graça.
Hoje a Igreja está preocupada com a pouca missionariedade. Os cristãos não se sentem comprometidos no anúncio. No máximo se esforçam para viver o evangelho no castelo do próprio coração, tentando evangelizar a própria família e, quando muito, o próprio ambiente de trabalho. Mas ir para outras terras, ultrapassar o estreito campo do próprio egoísmo, não entra na consciência evangelizadora de muitos cristãos. É necessário então repensar a “missionariedade” dentro da Igreja, fazer compreender que ser missionário não é uma tarefa restrita a um pequeno grupo: sacerdotes, diáconos, consagrados… mas sim é a missão de todos os batizados.
O trabalho é muito e os trabalhadores são poucos. Desde aquela época existiam dificuldades na missão dos cristãos. Infelizmente as pessoas não querem se comprometer, porque todo comprometimento exige dedicação, entrega, renúncia. Com certeza, evangelizar não é um trabalho fácil, existem muitos obstáculos no caminho e poucas pessoas dispostas a ouvirem e vir caminhar conosco. E Jesus nunca disse que ia ser diferente.
Neste Evangelho, Jesus antes de mandar os 72 em missão, já os previne de que nem em todos os lugares eles serão aceitos, mostra que serão rejeitados mesmo, mas é preciso continuar, mesmo que isto aconteça não se pode parar.
As dificuldades virão, principalmente nos locais que mais amamos, como nossas casas e até mesmo na Igreja. Evangelizar os que não conhecem nem sempre é o mais difícil, pior é fazer os que já conhecem converter-se diariamente, porque infelizmente muitos se acomodam. O importante é ser perseverante, é ir à busca desses corações e principalmente, levar a paz às essas pessoas e locais. Sem essa paz nunca poderemos cumprir nossa missão, pois em todos momentos seríamos levados a desistir, todavia, a certeza que nossa recompensa virá e que nossa voz poderá ajudar a tantos que necessitam, nos fortalece e nos faz cada vez mais missionários.
Vejamos no Evangelho de Jesus segundo Lucas (Lucas 10, 1-9): Naquele tempo, o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. E dizia-lhes: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita. Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho! Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós. Permanecei naquela mesma casa, comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário. Não passeis de casa em casa. Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós’ ”. Palavra da Salvação!
Precisamos para o momento reassumir as palavras programáticas do apóstolo Paulo: “Ai de mim se eu não evangelizar! Não evangelizamos porque nos sentimos bem ou porque não existem dificuldades, mas porque é uma exigência íntima e profunda do nosso ser cristão. Quem sabe é o momento de ir de porta em porta anunciando a todos a nossa fé, não ter medo de sermos rejeitados ou incompreendidos, de não esconder a nossa adesão ao Cristo e às nossas convicções no nosso dia a dia.
Não se pode mais ficar fechado no mundo interior, é necessário retomar o caminho das ruas e gritar a todos e de todos os lugares a nossa fé. Ser missionário é algo de fascinante. Não conservar o pequeno rebanho, mas deixar as 99 ovelhas no redil e ir ao encontro da ovelha perdida e das ovelhas que estão longe do redil de Cristo porque nunca ouviram falar de Cristo. O ser missionário é cada um de nós lutar com a palavra e especialmente com o nosso testemunho de vida para reconquistar os que, se esqueceram de Cristo. Sentir a dor de Jesus por toda pessoa que não o reconhece e não o ama por falta de anunciadores (Frei Patrício Sciadini, OCD).
Nos deixemos então ser guiados pela Graça de Deus que conhece todas as nossas limitações e potenciais, mas nos empenhemos ao máximo para deixarmos um pouco de Deus por onde formos. Assim nós conseguiremos cumprir a missão deixada a todos nós por Jesus Cristo: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a todas as criaturas”.

 

Síntese da Exortação “A alegria do amor”
08/04/2016 Cidade do Vaticano (RV) – “Amoris laetitia” (AL – “A alegria do amor”), a Exortação apostólica pós-sinodal “sobre o amor na família”, datada não por acaso de 19 de março, Solenidade de S. José, recolhe os resultados de dois Sínodos sobre a família convocados pelo Papa Francisco em 2014 e 2015, cujas Relações conclusivas são abundantemente citadas, juntamente com documentos e ensinamentos dos seus Predecessores e as numerosas catequeses sobre a família do próprio Papa Francisco. Contudo, como já sucedeu noutros documentos magisteriais, o Papa recorre também a contributos de diversas Conferências episcopais de todo o mundo (Quênia, Austrália, Argentina…) e a citações de personalidades de relevo, como Martin Luther King ou Erich Fromm. Ressalta em particular uma citação do filme “A Festa de Babette”, que o Papa recorda para explicar o conceito de gratuidade.

Premissa
A Exortação apostólica chama a atenção pela sua amplitude e articulação. Está dividida em nove capítulos e mais de 300 parágrafos. Tem início com sete parágrafos introdutórios que evidenciam a plena consciência da complexidade do tema, que requer ser aprofundado. Afirma-se que as intervenções dos Padres no Sínodo constituíram um «precioso poliedro» (AL 4) que deve ser preservado. Neste sentido, o Papa escreve que «nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais». Por conseguinte, para algumas questões «em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais. De fato, “as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (…), se quiser ser observado e aplicado, precisa de ser inculturado”» (AL 3). Este princípio de inculturação revela-se como muito importante até no modo de articular e compreender os problemas, modo esse que, sem entrar nas questões dogmáticas bem definidas pelo Magistério da Igreja, não pode ser «globalizado».
Mas, sobretudo o Papa afirma de imediato e com clareza que é necessário sair da estéril contraposição entre a ânsia de mudança e a aplicação pura e simples de normas abstratas. Escreve: «Os debates, que têm lugar nos meios de comunicação ou em publicações e mesmo entre ministros da Igreja, estendem-se desde o desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão ou fundamentação até à atitude que pretende resolver tudo através da aplicação de normas gerais ou deduzindo conclusões excessivas de algumas reflexões teológicas» (AL 2).

Capítulo primeiro: “À luz da Palavra”
Enunciadas estas premissas, o Papa articula a sua reflexão a partir das Sagradas Escrituras no primeiro capítulo, que se desenvolve como uma meditação acerca do Salmo 128, característico da liturgia nupcial hebraica, assim como da cristã. A Bíblia «aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares» (AL 8) e a partir deste dado pode meditar-se como a família não é um ideal abstrato, mas uma «tarefa “artesanal”» (AL 16) que se exprime com ternura (AL 28), mas que se viu confrontada desde o início também pelo pecado, quando a relação de amor se transformou em domínio (cf. AL 19). Então, a Palavra de Deus «não se apresenta como uma sequência de teses abstratas, mas como uma companheira de viagem, mesmo para as famílias que estão em crise ou imersas nalguma tribulação, mostrando-lhes a meta do caminho» (AL 22).

Capítulo segundo: “A realidade e os desafios das famílias”
Partindo do terreno bíblico, o Papa considera no segundo capítulo a situação atual das famílias, mantendo «os pés assentes na terra» (AL 6), bebendo com abundância das Relações conclusivas dos dois Sínodo se enfrentando numerosos desafios, desde o fenômeno migratório à negação ideológica da diferença de sexo («ideologia de gênero»); da cultura do provisório à mentalidade anti-natalidade e ao impacto das biotecnologias no campo da procriação; da falta de habitação e de trabalho à pornografia e ao abuso de menores; da atenção às pessoas com deficiência ao respeito pelos idosos; da desconstrução jurídica da família à violência para com as mulheres. O Papa insiste no caráter concreto, que é um elemento fundamental da Exortação. E é este caráter concreto e realista que estabelece uma diferença substancial entre «teorias» de interpretação da realidade e «ideologias».
Citando a Familiaris consortio, Francisco afirma que «é salutar prestar atenção à realidade concreta, porque “os pedidos e os apelos do Espírito ressoam também nos acontecimentos da história” através dos quais “a Igreja pode ser guiada para uma compreensão mais profundado inexaurível mistério do matrimônio e da família”» (AL 31). Sem escutar a realidade não é possível compreender nem as exigências do presente nem os apelos do Espírito. O Papa nota que o individualismo exacerbado torna hoje difícil a doação a uma outra pessoa de uma maneira generosa (cf. AL 33). Eis um interessante retrato da situação: «Teme-se a solidão, deseja-se um espaço de proteção e fidelidade mas, ao mesmo tempo, cresce o medo de ficar encurralado numa relação que possa adiar a satisfação das aspirações pessoais» (AL 34).
A humildade do realismo ajuda a não apresentar «um ideal teológico do matrimônio demasiado abstrato, construído quase artificialmente, distante da situação concreta e das possibilidades efetivas das famílias tais como são» (AL 36). O idealismo não permite considerar o matrimônio assim como é, ou seja, «um caminho dinâmico de crescimento e realização». Por isso, também não se pode julgar que se possa apoiar as famílias «com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça» (AL 37). Convidando a uma certa “autocrítica” de uma apresentação não adequada da realidade matrimonial e familiar, o Papa insiste na necessidade de dar espaço à formação da consciência dos fiéis: «Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las» (AL37). Jesus propunha um ideal exigente, mas «não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera» (AL 38).

Capítulo terceiro: “O olhar fixo em Jesus: a vocação da família”
O terceiro capítulo é dedicado a alguns elementos essenciais do ensinamento da Igreja acerca do matrimônio e da família. É importante a presença deste capítulo, porque ilustra de uma maneira sintética em 30 parágrafos a vocação à família de acordo com o Evangelho, assim como ela foi recebida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo quanto ao tema da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimônio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. Fazem-se inúmeras citações da Gaudium et spes do Vaticano II, da Humanae vitae de Paulo VI, da Familiaris consortio de João Paulo II.
O olhar é amplo e inclui também as «situações imperfeitas». Com efeito, lemos: «“O discernimento da presença das semina Verbi nas outras culturas (cf. Ad gentes, 11) pode-se aplicar também à realidade matrimonial e familiar. Para além do verdadeiro matrimônio natural, há elementos positivos também nas formas matrimoniais doutras tradições religiosas”, embora não faltem também as sombras» (AL 77). A reflexão inclui ainda as «famílias feridas», a propósito das quais o Papa afirma – citando a Relatio finalis do Sínodo de 2015 —«é preciso lembrar sempre um princípio geral: “Saibam os pastores que, por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações” (Familiaris consortio, 84). O grau de responsabilidade não é igual em todos os casos, e podem existir fatores que limitem a capacidade de decisão. Por isso, ao mesmo tempo que se exprime com clareza a doutrina, há que evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diferentes situações,e é preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 79).

Capítulo quarto: “O amor no matrimônio”
O quarto capítulo trata do amor no matrimônio e ilustra-o a partir do “hino ao amor” de São Paulo de 1 Cor 13, 4-7. O capítulo é uma verdadeira e autêntica exegese cuidadosa, precisa, inspirada e poética do texto paulino. Poderemos dizer que se trata de uma coleção de fragmentos de um discurso amoroso que cuida de descrever o amor humano em termos absolutamente concretos. Surpreende-nos a capacidade de introspecção psicológica evidenciada por esta exegese. O aprofundamento psicológico chega ao mundo das emoções dos cônjuges – positivas e negativas – e à dimensão erótica do amor. Este é um contributo extremamente rico e precioso para a vida cristã dos cônjuges, que não tinha até agora paralelo em anteriores documentos papais.
À sua maneira, este capítulo constitui um pequeno tratado no conjunto de um desenvolvimento mais amplo, plenamente consciente do caráter quotidiano do amor que se opõe a todos os idealismos: «não se deve atirar para cima de duas pessoas limitadas o peso tremendo de ter que reproduzir perfeitamente a união que existe entre Cristo e a sua Igreja, porque o matrimônio como sinal implica “um processo dinâmico, que avança gradualmente com a progressiva integração dos dons de Deus”» (AL 122). Mas, por outro lado, o Papa insiste de modo enérgico e firme no fato de que «na própria natureza do amor conjugal, existe a abertura ao definitivo» (AL 123) precisamente no íntimo daquela «combinação necessária de alegrias e fadigas, de tensões e repouso, de sofrimentos e libertações, de satisfações e buscas, de aborrecimentos e prazeres» (Al 126) que é de fato o matrimônio.
O capítulo conclui-se com uma reflexão muito importante acerca da «transformação do amor» uma vez que «o alongamento da vida provocou algo que não era comum noutros tempos: a relação íntima e a mútua pertença devem ser mantidas durante quatro, cinco ou seis décadas, e isto gera a necessidade de renovar repetidas vezes a recíproca escolha» (AL 163). A aparência física transforma-se e a atração amorosa não desaparece, mas muda: com o tempo, o desejo sexual pode transformar-se em desejo de intimidade e «cumplicidade». «Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade» (AL 163).

Capítulo quinto: “O amor que se torna fecundo”
O quinto capítulo centra-se por completo na fecundidade e no caráter gerador do amor. Fala-se de uma maneira espiritualmente e psicologicamente profunda do acolher uma nova vida, da espera própria da gravidez, do amor de mãe e de pai. Mas também da fecundidade alargada, da adoção, do acolhimento do contributo das famílias para a promoção de uma “cultura do encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios, primos, parentes dos parentes, amigos. A Amoris laetitia não toma em consideração a família «mononuclear», mas está bem consciente da família como rede de relações alargadas. A própria mística do sacramento do matrimônio tem um profundo caráter social (cf. AL 186). E no âmbito desta dimensão social, o Papa sublinha em particular tanto o papel específico da relação entre jovens e idosos, como a relação entre irmãos como aprendizagem de crescimento na relação com os outros.

Capítulo sexto: “Algumas perspectivas pastorais”
No sexto capítulo, o Papa aborda algumas vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas e fecundas de acordo com o plano de Deus. Nesta parte, a Exortação recorre às Relações conclusivas dos dois Sínodos e às catequeses do Papa Francisco e de João Paulo II. Volta-se a sublinhar que as famílias são sujeito e não apenas objeto de evangelização. O Papa observa que «os ministros ordenados carecem, habitualmente, de formação adequada para tratar dos complexos problemas atuais das famílias» (AL 202). Se, por um lado, é necessário melhorar a formação psicoafetiva dos seminaristas e envolver mais a família na formação para o ministério (cf. AL 203), por outro «pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados» (AL 202).
Em seguida, o Papa desenvolve o tema da orientação dos noivos no caminho de preparação para o matrimônio, do acompanhamento dos esposos nos primeiros anos da vida matrimonial (incluindo o tema da paternidade responsável), mas também em algumas situações complexas e, em particular, nas crises, sabendo que «cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração» (AL 232). São analisadas algumas causas de crise, entre elas uma maturação afetiva retardada (cf. AL 239).
Além disso, fala-se também do acompanhamento das pessoas abandonadas, separadas ou divorciadas e sublinha-se a importância da recente reforma dos procedimentos para o reconhecimento dos casos de nulidade matrimonial. Coloca-se em relevo o sofrimento dos filhos nas situações de conflito e conclui-se: «O divórcio é um mal, e é muito preocupante o aumento do número de divórcios. Por isso, sem dúvida, a nossa tarefa pastoral mais importante relativamente às famílias é reforçar o amor e ajudar a curar as feridas, para podermos impedir o avanço deste drama do nosso tempo» (AL 246). Referem-se de seguida as situações dos matrimônios mistos e daqueles com disparidade de culto, e a situação das famílias que têm dentro de si pessoas com tendência homossexual, insistindo no respeito para com elas e na recusa de qualquer discriminação injusta e de todas das formas de agressão e violência. A parte final do capítulo, «quando a morte crava o seu aguilhão», é de grande valor pastoral, tocando o tema da perda das pessoas queridas e da viuvez.

Capítulo sétimo: “Reforçar a educação dos filhos”
O sétimo capítulo é totalmente dedicado à educação dos filhos: a sua formação ética, o valor da sanção como estímulo, o realismo paciente, a educação sexual, a transmissão da fé e, mais em geral, a vida familiar como contexto educativo. É interessante a sabedoria prática que transparece em cada parágrafo e, sobretudo a atenção à gradualidade e aos pequenos passos que «possam ser compreendidos, aceites e apreciados» (AL 271).
Há um parágrafo particularmente significativo e de um valor pedagógico fundamental em que Francisco afirma com clareza que «a obsessão (…) não é educativa; e também não é possível ter o controle de todas as situações onde um filho poderá chegar a encontrar-se (…). Se um progenitor está obcecado com saber onde está o seu filho e controlar todos os seus movimentos, procurará apenas dominar o seu espaço. Mas, desta forma, não o educará, não o reforçará, não o preparará para enfrentar os desafios. O que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia» (AL 261).
A secção dedicada à educação sexual é notável, e intitula-se muito expressivamente: «Sim à educação sexual». Sustenta-se a sua necessidade e formula-se a interrogação de saber «se as nossas instituições educativas assumiram este desafio (…) num tempo em que se tende a banalizar e empobrecer a sexualidade». A educação sexual deve ser realizada «no contexto duma educação para o amor, para a doação mútua» (AL 280). É feita uma advertência em relação à expressão «sexo seguro», pois transmite «uma atitude negativa a respeito da finalidade procriadora natural da sexualidade, como se um possível filho fosse um inimigo de que é preciso proteger-se. Deste modo promove-se a agressividade narcisista, em vez do acolhimento» (AL 283).

Capítulo oitavo: “Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”
O capítulo oitavo representa um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não correspondem plenamente ao que o Senhor propõe. O Papa usa aqui três verbos muito importantes: «acompanhar, discernir e integrar», os quais são fundamentais para responder a situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Em seguida, apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é por ele definida como a «lógica da misericórdia pastoral».
O oitavo capítulo é muito delicado. Na sua leitura deve recordar-se que «muitas vezes, o trabalho da Igreja é semelhante ao de um hospital de campanha» (AL 291). O Pontífice assume aqui aquilo que foi fruto da reflexão do Sínodo acerca de temáticas controversas. Reforça-se o que é o matrimônio cristão e acrescenta-se que «algumas formas de união contradizem radicalmente este ideal, enquanto outras o realizam pelo menos de forma parcial e analógica». Por conseguinte, «a Igreja não deixa de valorizar os elementos construtivos nas situações que ainda não correspondem ou já não correspondem à sua doutrina sobre o matrimônio» (AL 292).
No que respeita ao «discernimento» acerca das situações «irregulares», o Papa observa: «temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição» (AL 296). E continua: «Trata-se de integrar a todos, deve-se ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial, para que se sinta objeto duma misericórdia “imerecida, incondicional e gratuita”»(AL 297). E ainda: «Os divorciados que vivem numa nova união, por exemplo, podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral» (AL 298).
Nesta linha, acolhendo as observações de muitos Padres sinodais , o Papa afirma que «os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo». «A sua participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais (…).Não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e maturar como membros vivos da Igreja (…). Esta integração é necessária também para o cuidado e a educação cristã dos seus filhos» (AL 299).
Mais em geral, o Papa profere uma afirmação extremamente importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação: «Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas (…) é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos”, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos» (AL 300). O Papa desenvolve em profundidade as exigências e características do caminho de acompanhamento e discernimento em diálogo profundo entre fiéis e pastores. A este propósito, faz apelo à reflexão da Igreja «sobre os condicionamentos e as circunstâncias atenuantes» no que respeita à imputabilidade das ações e, apoiando-se em S. Tomás de Aquino, detém-se na relação entre «as normas e o discernimento», afirmando: «É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem transcurar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma» (AL 304).
Na última secção do capítulo, «A lógica da misericórdia pastoral», o Papa Francisco, para evitar equívocos, reafirma com vigor: «A compreensão pelas situações excepcionais não implica jamais esconder a luz do ideal mais pleno, nem propor menos de quanto Jesus oferece ao ser humano. Hoje, mais importante do que uma pastoral dos falimentos é o esforço pastoral para consolidar os matrimônio se assim evitar as rupturas» (AL 307). Mas o sentido abrangente do capítulo e do espírito que o Papa Francisco pretende imprimir à pastoral da Igreja encontra um resumo adequado nas palavras finais: «Convido os fiéis, que vivem situações complexas, a aproximar-se com confiança para falar com os seus pastores ou com leigos que vivem entregues ao Senhor. Nem sempre encontrarão neles uma confirmação das próprias ideias ou desejos, mas seguramente receberão uma luz que lhes permita compreender melhor o que está a acontecer e poderão descobrir um caminho de amadurecimento pessoal. E convido os pastores a escutar, com carinho e serenidade, com o desejo sincero de entrar no coração do drama das pessoas e compreender o seu ponto de vista, para ajudá-las a viver melhor e reconhecer o seu lugar na Igreja» (AL 312). Acerca da «lógica da misericórdia pastoral», o Papa Francisco afirma com força: «Às vezes custa-nos muito dar lugar, na pastoral, ao amor incondicional de Deus. Pomos tantas condições à misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e real significado, e esta é a pior maneira de aguar o Evangelho» (AL 311).

Capítulo nono: “Espiritualidade conjugal e familiar”
O nono capítulo é dedicado à espiritualidade conjugal e familiar, «feita de milhares de gestos reais e concretos» (AL 315). Diz-se com clareza que «aqueles que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do Espírito, mas é um percurso de que o Senhor Se serve para os levar às alturas da união mística» (AL 316). Tudo, «os momentos de alegria, o descanso ou a festa, e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação na vida plena da sua Ressurreição» (AL 317). Fala-se de seguida da oração à luz da Páscoa, da espiritualidade do amor exclusivo e livre diante do desafio e do desejo de envelhecer e gastar-se juntos, refletindo a fidelidade de Deus (cf. AL 319). E, por fim, a espiritualidade «da solicitude, da consolação e do estímulo». «Toda a vida da família é um “pastoreio” misericordioso. Cada um, cuidadosamente, desenha e escreve na vida do outro» (AL 322), escreve o Papa. «É uma experiência espiritual profunda contemplar cada ente querido com os olhos de Deus e reconhecer Cristo nele» (AL 323).
No parágrafo conclusivo,o Papa afirma: «Nenhuma família é uma realidade perfeita e confeccionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. (…). Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! (…). Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida» (AL 325).
A Exortação apostólica conclui-se com uma Oração à Sagrada Família (AL 325).
* * *
Como já se pode depreender a partir de um rápido exame dos seus conteúdos, a Exortação apostólica Amoris laetitia pretende reafirmar com força não o «ideal» da família, mas a sua realidade rica e complexa. Há nas suas páginas um olhar aberto, profundamente positivo, que se nutre não de abstrações ou projeções ideais, mas de uma atenção pastoral à realidade. O documento é uma leitura densa de motivos espirituais e de sabedoria prática útil a cada casal ou a pessoas que desejam construir uma família. Nota-se sobretudo que foi fruto de uma experiência concreta com pessoas que sabem a partir da experiência o que é a família e o viver juntos durante muitos anos. A Exortação fala de fato a linguagem da experiência e da esperança.

 

A alegria do amor: misericórdia e integração para todas as famílias
08/04/2016 Cidade do Vaticano (RV) – “A alegria do amor” (Amoris Laetitia) é o título da Exortação Apostólica pós-sinodal que o Papa Francisco assinou em 19 de março passado, Solenidade de São José, e que foi apresentada nesta sexta-feira, 8 de abril, no Vaticano.

A Exortação tem nove capítulos e a oração final à Santa Família. O documento reúne os resultados dos dois Sínodos sobre a família convocados pelo Papa Francisco em 2014 e 2015.

“À luz da Palavra”
No primeiro capítulo, o Papa indica a Palavra de Deus como uma “companheira de viagem para as famílias que estão em crise ou imersas em alguma tribulação, mostrando-lhes a meta do caminho”.

“A realidade e os desafios das famílias”
Partindo do terreno bíblico, no segundo capítulo, o Papa insiste no caráter concreto, que estabelece uma diferença substancial entre teorias de interpretação da realidade e ideologias. “Sem escutar a realidade não é possível compreender nem as exigências do presente nem os apelos do Espírito”, aponta. “Jesus propunha um ideal exigente, mas não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis”.

“O olhar fixo em Jesus: a vocação da família”
O terceiro capítulo é dedicado a alguns elementos essenciais do ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e a família. Ilustra a vocação à família assim como ela foi recebida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo quanto ao tema da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimônio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. A reflexão inclui ainda as famílias feridas e o Papa recorda aos pastores que, “por amor à verdade, estão obrigados a discernir bem as situações”, já que o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos: “É preciso estar atentos ao modo como as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição”.

“O amor no matrimônio”
O quarto capítulo trata do amor no matrimônio. O Papa faz uma reflexão acerca da «transformação do amor» ao longo do casamento. A aparência física transforma-se e a atração amorosa não desaparece, mas muda. «Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável».

“O amor que se torna fecundo”
O quinto capítulo centra-se por completo na fecundidade e no caráter gerador do amor. Fala-se de gestação e adoção. A Amoris laetitia não toma em consideração a família «mononuclear», mas está consciente da família como rede de relações alargadas.

“Algumas perspectivas pastorais”
No sexto capítulo, o Papa aborda algumas vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas. Fala-se também do acompanhamento das pessoas separadas ou divorciadas e sublinha-se a importância da recente reforma dos procedimentos para o reconhecimento dos casos de nulidade matrimonial. Coloca-se em relevo o sofrimento dos filhos nas situações de conflito e conclui-se: “O divórcio é um mal”. Fala-se da situação das famílias com pessoas com tendência homossexual, insistindo na recusa de qualquer discriminação.

“Reforçar a educação dos filhos”
O sétimo capítulo é totalmente dedicado à educação dos filhos, em todos os âmbitos, inclusive sexual. É feita uma advertência em relação à expressão «sexo seguro», pois transmite «uma atitude negativa a respeito da finalidade procriadora natural da sexualidade».

“Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade”
O capítulo oitavo é muito delicado, representa um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral. O Papa usa aqui três verbos muito importantes: «acompanhar, discernir e integrar». O Papa escreve: «Os divorciados que vivem numa nova união, por exemplo, podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral».
O Papa afirma que «os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo». «A sua participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais».
Francisco profere uma afirmação extremamente importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação: «Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas (…) é compreensível que se não devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares».

“Espiritualidade conjugal e familiar”
O nono capítulo é dedicado à espiritualidade conjugal e familiar. O Papa afirma: «Nenhuma família é uma realidade perfeita, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar».

Nota
Como já se pode depreender a partir de um rápido exame dos seus conteúdos, a Exortação apostólica não pretende reafirmar com força o «ideal» da família, mas a sua realidade rica e complexa. Há nas suas páginas um olhar aberto, profundamente positivo, que não se nutre de abstrações ou projeções ideais, mas de uma atenção pastoral à realidade. O documento é uma leitura densa de motivos espirituais e de sabedoria prática útil a cada casal ou a pessoas que desejam construir uma família. Nota-se, sobretudo que foi fruto de uma experiência concreta com pessoas que sabem a partir da experiência o que é a família e o viver juntos durante muitos anos. A Exortação fala a linguagem da experiência e da esperança.

Quirógrafo
A cópia da Exortação enviada aos bispos do mundo foi acompanhada por um quirógrafo do Papa: “Caro irmão, invocando a proteção da Sagrada Família de Nazaré, tenho a alegria de te enviar a minha Exortação “Amoris laetitia” para o bem de todas as famílias e de todas as pessoas, jovens e idosas, confiadas ao teu ministério pastoral. Unidos no Senhor Jesus, com Maria e José, peço-te que não te esqueças de rezar por mim”. (CM/BF)

 

«A Alegria do Amor»: Papa defende maior abertura, acompanhamento e «discernimento» das situações dos católicos divorciados
Agência Ecclesia, 08 de Abril de 2016
Nova exortação pastoral rejeita soluções únicas, sem abordar diretamente a possibilidade de acesso à Comunhão ou alterar doutrina
Cidade do Vaticano, 08 abr 2016 (Ecclesia) – O Papa propõe na sua nova exortação apostólica sobre a família um caminho de “discernimento” para os católicos divorciados que voltaram a casar civilmente, sublinhando que não existe uma solução única para estas situações.
“Não se devia esperar do Sínodo ou desta exortação uma nova normativa geral de tipo canônico, aplicável a todos os casos”, sublinha Francisco, no documento divulgado hoje, com o título ‘Amoris laetitia’ (A Alegria do Amor).
Tal como aconteceu com o relatório final da assembleia de outubro de 2015, a exortação apostólica pós-sinodal não aborda diretamente a possibilidade de acesso à Comunhão pelos divorciados recasados, que é negada pela Igreja Católica, mas numa das notas do texto, o Papa observa que “o discernimento pode reconhecer que, numa situação particular, não há culpa grave”.
“Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho”, escreve Francisco.
O Papa apresenta critérios de reflexão, recordando que há “condicionamentos” e “circunstâncias atenuantes” que podem anular ou diminuir a responsabilidade de uma ação.
“Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal”, precisa.
Estas pessoas, reforça, precisam da “ajuda da Igreja”, procurando os “caminhos possíveis de resposta a Deus”, e “em certos casos, poderia haver também a ajuda dos sacramentos”.
O texto apela a um “responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares”, reconhecendo que há situações em que “a separação é inevitável” e, por vezes, “até moralmente necessária”.
“Acompanhar”, “discernir” e “integrar” são as indicações centrais do Papa nesta matéria, integradas numa “lógica da misericórdia pastoral”.
“Temos de evitar juízos que não tenham em conta a complexidade das diversas situações e é necessário estar atentos ao modo em que as pessoas vivem e sofrem por causa da sua condição”, assinala Francisco.
A exortação apostólica com as conclusões do Sínodo da Família, que decorreu em duas sessões (2014 e 2015), fala na necessidade de um “adequado discernimento pessoal e pastoral”, recordando que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos”.
“Um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas”, adverte o Papa.
Francisco considera mesmo que seria “mesquinho” limitar-se a considerar “se o agir de uma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral”.
O Papa rejeita a ideia de que este “discernimento prático” coloque em causa a doutrina da Igreja e recorda que a reflexão sobre uma situação particular “não pode ser elevada à categoria de norma”.
O texto refere que é missão dos padres “acompanhar as pessoas no caminho do discernimento segundo o ensinamento da Igreja e as orientações do bispo”, apelando a um “exame de consciência” das pessoas em causa sobre a forma como trataram os seus filhos ou como viveram a “crise conjugal”.
Francisco sublinha ainda a importância da recente reforma dos procedimentos para o reconhecimento dos casos de nulidade matrimonial.
O pontífice observa que os divorciados que vivem numa nova união se podem encontrar em situações “muito diferentes”, que não devem ser “catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas”.
“Não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e amadurecer como membros vivos da Igreja”, realça.
Para o Papa, mais importante do que uma “pastoral dos falhanços” é o esforço de “consolidar os matrimônios e assim evitar as rupturas”.
A exortação pós-sinodal coloca os filhos como “primeira preocupação” para quem se separou, com atenção ao seu sofrimento.
“O divórcio é um mal, e é muito preocupante o aumento do número de divórcios”, lamenta o Papa.
Os temas da família estiveram no centro de duas assembleias do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2014 e 2015, por decisão do Papa Francisco, antecedidas por inquéritos enviados às dioceses católicas de todo o mundo. OC

 

A alegria do amor pela família
Paulo Rocha, 08 de Abril de 2016

O Papa Francisco revela na exortação apostólica pós-sinodal “Amoris Laetitia” uma declarada alegria do seu amor pela família e a determinação em fazer da Igreja, com as suas normas, sacramentos, comunidades, grupos, líderes e instâncias de diálogo ou de decisão o ambiente propício para a experiência familiar, configurada num ideal afirmado neste documento em termos semelhantes aos dos últimos 50 anos, sem dar como adquirido, no entanto, o percurso que é necessário fazer para o atingir.
Feita esta consideração, tudo o mais deve seguir uma das primeiras indicações do Papa Francisco, logo no início do documento, que não aconselha uma “leitura geral apressada” do longo texto, porque considera “ser de maior proveito, tanto para as famílias como para os agentes de pastoral familiar, aprofundar pacientemente uma parte de cada vez ou procurar nela aquilo de que precisam em cada circunstância concreta”. Na atual, nos momentos seguintes à divulgação do texto, uma anotação metodológica e uma referência à questão que concentrou debates nas assembleias sinodais e nos meses que se seguiram.
Seguindo de perto as várias sugestões que resultaram de duas assembleias sinodais, assim como indicações de várias conferências episcopais, o Papa Francisco não se fixa na norma geral e na sua aplicação indiferenciada nem muda tudo a partir de um novo corpo normativo, ditado como todos a partir de um centro, sem atender a todas as periferias. Neste caso, a pastoral familiar na Igreja Católica tem no documento “A Alegria do Amor” uma referência que, por um lado, foge ao “desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão ou fundamentação” e, por outro, “não pretende resolver tudo através da aplicação de normas gerais ou deduzindo conclusões excessivas de algumas reflexões teológicas”. A partir da relevante auscultação que precedeu cada reunião dos bispos de todo o mundo reunidos em Sínodo, dos debates que aí decorreram e da síntese feita pelo Papa na exortação pós-sinodal, resulta uma porta aberta a “uma pastoral positiva” a respeito da família, que “torna possível um aprofundamento gradual das exigências do Evangelho”.
Particularmente significativa é esta atitude a respeito de designadas “situações irregulares”. Seguindo essa metodologia, o Papa não equipara uniões de fato ou entre pessoas do mesmo sexo ao matrimônio; nem diz que o primeiro é igual ao segundo casamento e afirma o ideal da “união entre um homem e uma mulher, que se doam reciprocamente com um amor exclusivo e livre fidelidade, se pertencem até à morte e abrem à transmissão da vida, consagrados pelo sacramento que lhes confere a graça para se constituírem como igreja doméstica e serem fermento de vida nova para a sociedade”.
Assumindo que algumas formas de união “contradizem radicalmente este ideal” e outras “o realizam pelo menos de forma parcial e analógica”, o documento afirma, como as conclusões do Sínodo, que “não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada ‘irregular’ vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante”, declarando também que “um pastor não pode sentir-se satisfeito apenas aplicando leis morais àqueles que vivem em situações ‘irregulares’, como se fossem pedras que se atiram contra a vida das pessoas.
Assim, o Papa propõe três ações, acompanhar, discernir e integrar a fragilidade, admitindo que a História da Igreja foi-se construindo umas vezes a partir da lógica da marginalização e outras da integração, numa opção clara pela segunda, mesmo que seja um grande desafio com contornos pouco definidos.
A Alegria do amor do Papa Francisco pela família não se alarga a um relativismo generalizado nem esconde o realismo familiar da atualidade. É, aliás, a partir de famílias reais e que o Papa sugere o caminho de amor como o que oferece felicidade a famílias reais.

 

«A Alegria do Amor»: Exortação pós-sinodal propõe valorização da «dimensão erótica»
Agência Ecclesia, 08 de Abril de 2016
Papa adverte para discurso com atenção «quase exclusiva» na procriação
Cidade do Vaticano, 08 abr 2016 (Ecclesia) – A exortação apostólica do Papa Francisco com as conclusões do Sínodo da Família, divulgada hoje, propõe uma valorização da “dimensão erótica” do amor conjugal na reflexão da Igreja.
“Não podemos, de maneira alguma, entender a dimensão erótica do amor como um mal permitido ou como um peso tolerável para o bem da família, mas como dom de Deus que embeleza o encontro dos esposos”, refere, no documento que tem como título ‘Amoris laetitia’ (A Alegria do Amor).
Francisco assinala que a “união sexual”, no Matrimônio, é vista pela como “caminho de crescimento na vida da graça para os esposos”.
Nesse sentido, questiona a apresentação que é feita pelos responsáveis católicos, com “uma ênfase quase exclusiva no dever da procriação” que acaba por ofuscar “o convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua”.
A exortação pós-sinodal deixa uma rejeição de qualquer forma de submissão sexual e questiona um “ideal de matrimônio” apenas como “doação generosa e sacrificada, onde cada um renuncia a qualquer necessidade pessoal e se preocupa apenas por fazer o bem ao outro, sem satisfação alguma”.
O Papa rejeita ainda “correntes espirituais que “insistem em eliminar o desejo para se libertar da dor”.
“A sexualidade não é um recurso para compensar ou entreter, mas trata-se de uma linguagem interpessoal onde o outro é tomado a sério, com o seu valor sagrado e inviolável”, escreve.
Francisco convida os casais a “cuidar a alegria do amor”, o que permite “encontrar prazer em realidades variadas” e nas várias fases da vida, dando “real importância ao outro”.
“A ternura é uma manifestação deste amor que se liberta do desejo da posse egoísta”, pode ler-se.
O texto apresenta uma reflexão acerca da “transformação do amor”, sublinhando que o aumento da esperança média de vida leva a que “a relação íntima e a mútua pertença” sejam mantidas “durante quatro, cinco ou seis décadas”, o que “gera a necessidade de renovar repetidas vezes a recíproca escolha”.
“A aparência física transforma-se e a atração amorosa não desaparece, mas muda: com o tempo, o desejo sexual pode transformar-se em desejo de intimidade e ‘cumplicidade’”, assinala Francisco.
O Papa admite que não é possível prometer “os mesmos sentimentos durante a vida inteira”, mas defende ser viável ter “um projeto comum estável”.
“Na própria natureza do amor conjugal, existe a abertura ao definitivo”, realça.
O documento adverte para as consequências do afastamento dos membros do casal: “Pouco a pouco, aquela que era ‘a pessoa que amo’ passa a ser ‘aquele que me acompanha sempre na vida’, a seguir apenas ‘o pai ou a mãe dos meus filhos’, e por fim um estranho”.
Os temas da família estiveram no centro de duas assembleias do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2014 e 2015, por decisão do Papa Francisco, antecedidas por inquéritos enviados às dioceses católicas de todo o mundo. OC

 

Divulgada «A Alegria do Amor», exortação de Francisco após Sínodo sobre a Família
Documento com 325 pontos retrata «complexidade» dos temas e aponta a soluções atentas à realidade de cada local
Cidade do Vaticano, 08 abr 2016 (Ecclesia) – O Papa Francisco publicou hoje a exortação apostólica com as conclusões do Sínodo da Família, sublinhando a “complexidade” dos temas abordados, para os quais são necessárias soluções atentas à realidade de cada local.
“Na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspetos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela”, escreve, num documento que tem como título ‘Amoris laetitia’ (A Alegria do Amor).
O Papa observa que a intenção deste texto não é encerrar o debate, sublinhando que “nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais”.
“Além disso, em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais”, acrescenta.
Os temas da família estiveram no centro de duas assembleias do Sínodo dos Bispos, em outubro de 2014 e 2015, por decisão de Francisco, antecedidas por inquéritos enviados às dioceses católicas de todo o mundo.
“A complexidade dos temas tratados mostrou-nos a necessidade de continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais”, refere agora o Papa.
Nesse sentido, o pontífice argentino sustenta que as diferentes comunidades “deverão elaborar propostas mais práticas e eficazes, que tenham em conta tanto a doutrina da Igreja como as necessidades e desafios locais”.
A exortação apostólica pós-sinodal, “sobre o amor na família”, recolhe os resultados das duas assembleias de bispos, citando os seus relatórios, juntamente com documentos e ensinamentos dos Papas precedentes e as numerosas catequeses sobre a família do próprio Francisco.
À imagem do que fez noutros documentos magisteriais, o Papa recorre também a contributos de diversas Conferências episcopais de todo o mundo e a citações de personalidades como Martin Luther King ou Erich Fromm.
O texto está dividido em nove capítulos, num total de 325 pontos.
Sem entrar nas questões dogmáticas definidas pelo magistério da Igreja, o Papa afirma que é necessário sair da contraposição entre o desejo de mudar por mudar e a aplicação pura e simples de regras abstratas.
“Os debates, que têm lugar nos meios de comunicação ou em publicações – e mesmo entre ministros da Igreja – estendem-se desde o desejo desenfreado de mudar tudo sem suficiente reflexão ou fundamentação até à atitude que pretende resolver tudo através da aplicação de normas gerais”, adverte.

 

Papa pede acolhida a divorciados em segunda união, mas restrições à comunhão são mantidas
Documento chamado de Amoris Laetitia (A alegria do amor) deixa temas polêmicos em segundo plano e reforça valores familiares tradicionais
http://www.semprefamilia.com.br/papa-pede-acolhimento-a-divorciados-em-segunda-uniao-mas-restricoes-a-comunhao-sao-mantidas/

Foi publicado hoje o aguardado documento do Papa Francisco sobre a família, que apresenta as conclusões do pontífice após as intensas discussões ocorridas no Vaticano em 2014 e 2015, no Sínodo sobre a Família. Temas considerados polêmicos, como a questão das uniões homossexuais e a comunhão para divorciados recasados constam no texto, mas de forma secundária no extenso documento de 260 páginas, nove capítulos e 325 parágrafos. Como cardeais e analistas haviam previsto, o pontífice não tornou livre o acesso à comunhão eucarística por parte de divorciados em segunda união, mas insistiu no acolhimento pastoral dos católicos que se encontram nesta situação e pediu aos sacerdotes que tenham discernimento para analisar caso a caso.
Intitulada de Amoris Laetitia, “A alegria do amor”, a exortação apostólica parece não se preocupar em ser uma resposta a questões espinhosas, mas sim uma espécie de tratado sobre o casamento e a família na Igreja e no mundo de hoje.

Divorciados em segunda união
Tendo em vista que mudanças doutrinais não são possíveis na Igreja Católica, o pontífice opta por manter o tom pastoral em seu texto. “Nem todas as discussões doutrinárias devem ser resolvidas com intervenções magisteriais”, diz Francisco. Alguns analistas, contudo, afirmam que a exortação é mais flexível no que diz respeito à situação dos católicos que contraem um segundo casamento civil do que documentos anteriores da Igreja.
“Apesar de não citar explicitamente a admissão à eucaristia no texto, em uma nota se faz referência aos sacramentos. Francisco explica que não é possível fixar regras canônicas gerais, válidas para todos, então o caminho é o do discernimento caso por caso”, explicou o vaticanista Andrea Tornielli no site Vatican Insider.
“Não existem receitas simples”, reconhece Francisco em seu texto. O pontífice argentino, que cita os grandes escritores latino-americanos Jorge Luis Borges, Octavio Paz e Mario Benedetti, além do psicanalista Erich Fromm, pede que se evite julgamentos que “não levem em consideração a complexidade” das situações.
“Não é possível dizer que todos os que se encontram em alguma situação chamada ‘irregular’ vivem em uma situação de pecado mortal”, afirma o pontífice, que também reforça o fato de que divorciados em segunda união não estão excomungados.
Para a vaticanista Mirticeli Medeiros, Francisco não aderiu integralmente a nenhuma das duas alas da Igreja que defendiam posturas conflitantes durante o Sínodo, simbolizadas principalmente pelos cardeais alemães Kasper (defensor da liberação completa da comunhão aos recasados) e Muller (contrário às mudanças). “Não houve mudanças do ponto de vista canônico, como o papa bem sublinhou. Segundo ele, uma norma canônica não poderia ser promulgada, uma vez que cada caso é um caso e não se pode tratá-los da mesma forma”, disse a jornalista, que acompanhou a conferência em Roma. Mirticeli destaca que o texto é bem diferente do que foi proposto pelo cardeal Kasper, que propunha um possível “caminho penitencial” que, na prática, daria acesso indiscriminado a todos os divorciados em segunda união à comunhão eucarística. “O papa não foi nem pró-Kasper, nem pró-Muller. Ele indicou um caminho a partir daquilo que ele considera uma pastoral viva e concreta com os casais em segunda união”.

Homossexuais
No capítulo em que aborda as relações homossexuais, o papa reitera que toda pessoa, independente de sua tendência sexual, deve ser “respeitada em sua dignidade”, procurando evitar “qualquer discriminação injusta”.
No entanto, considera “inaceitável” equiparar as uniões entre pessoas do mesmo sexo com o matrimônio entre um homem e uma mulher. O texto destaca que “não existe fundamento para assimilar ou estabelecer analogias, nem sequer remotas”, entre ambas realidades.

Síntese
Segundo o cardeal austríaco Christoph Schönborn, que participou da conferência de imprensa que apresentou o documento nesta manhã, o texto representa um “verdadeiro desenvolvimento orgânico” da doutrina da Igreja, apresentando “verdadeiras novidades, mas não ruptura” com o ensinamento dos predecessores de Francisco.
A Santa Sé apresentou uma síntese do documento durante a conferência. No primeiro capítulo, o papa apresenta a base bíblica da sua reflexão, enquanto no segundo analisa a realidade das famílias hoje e as circunstâncias que a fragilizam, sem deixar de sublinhar atitudes positivas da mentalidade atual, como o apreço que muitos experimentam quando se deparam com a história de um casamento longo e afetuoso.
O terceiro capítulo compreende o ensinamento da Igreja sobre o tema, fazendo referência sobretudo ao Concílio Vaticano II e aos papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. O capítulo seguinte, talvez o mais original do documento, por sua abordagem e por suprir uma lacuna que havia nos relatórios dos sínodos, é uma reflexão sobre o amor no matrimônio, a partir da Primeira Carta aos Coríntios.
O quinto capítulo trata da abertura à vida no matrimônio, reafirmando o ensinamento da Igreja sobre a contracepção, mas alargando a perspectiva e falando da abertura a todos na família, enquanto rede de relações.
O sexto capítulo apresenta propostas pastorais, sugerindo atitudes de acolhimento e compaixão que o clero deve ter no acompanhamento das famílias, perpassando diversas situações, como o divórcio, a homossexualidade e o luto. O papa ressalta que deve haver maior preparação dos seminaristas para isso e acena para a experiência dos padres casados na tradição oriental da Igreja.
O capítulo seguinte trata da educação dos filhos, dando indicações para que os pais preparem os filhos para uma saudável autonomia. O papa cita ainda a importância da educação sexual, advertindo contra o uso da expressão “sexo seguro”, que denota uma atitude negativa frente à geração de filhos.
O oitavo capítulo é o mais delicado e trata da questão das segundas uniões. O papa resume as suas indicações nos verbos “acompanhar, discernir e integrar”. Afirma que não é possível esperar do documento normativas do tipo canônico, devido à variedade dos casos existentes, e encoraja a um discernimento pessoal e pastoral de cada caso. O papa insiste que o grau de responsabilidade não é sempre igual e por isso os efeitos de uma norma não devem ser sempre os mesmos. Com isso, acena para a possibilidade de que, juntos, pastores e fiéis possam discernir a participação do casal de segunda união na comunhão eucarística, segundo cada situação específica.
“É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem transcurar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares”, escreve Francisco. “Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma”.
O último capítulo oferece indicações para que os casais vivam uma espiritualidade específica de sua vocação matrimonial, vendo no casamento um caminho de comunhão com Deus e de vivência da santidade.
Colaborou: Felipe Koller

 

Papa defende Igreja menos rígida com divorciados
http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2016/04/08/papa-defende-igreja-menos-rigida-com-divorciados.htm

Francisco estabelece novas orientações sobre a família e casamento, num dos pronunciamentos mais importantes de seu pontificado. “Ninguém pode ser condenado para sempre”, afirma.
Em um dos pronunciamentos mais aguardados de seu pontificado, o papa Francisco pediu nesta sexta-feira (08/04) uma Igreja menos rígida e mais compassiva com os católicos “imperfeitos” – uma mensagem entendida como uma abertura para aqueles que se divorciam e voltam a se casar.
No documento de 260 páginas chamado Amoris Laetitia (“a alegria do amor”), elaborado durante dois anos de consultas com bispos de todo o mundo, Francisco estabelece novas orientações sobre a família e o casamento.
Ao apresentá-lo, Francisco citou o pastor e ativista americano Martin Luther King, o escritor e conterrâneo argentino Jorge Luis Borges e até o filme cult dinamarquês A festa de Babette para defender seu clamor por uma Igreja mais misericordiosa e amorosa.
O papa pediu a readmissão dos divorciados nos sacramentos, através de um processo de acompanhamento. Francisco indica um “caminho do discernimento” para que os padres analisem caso a caso as situações, permitindo a readmissão dos católicos “imperfeitos”.
“É importante que os divorciados que vivem uma nova união sintam que fazem parte da Igreja, que não estão excomungados, e não são tratados como tal, porque sempre integram a comunhão eclesiástica”, afirma o texto.

Comunhão
O documento não menciona ao acesso dos divorciados à comunhão, uma das principais reivindicações dos que voltaram a casar através dos registros civis.
Conforme os ensinamentos atuais da Igreja, divorciados não podem receber a comunhão a menos que se abstenham de sexo com o novo cônjuge, porque seu primeiro casamento ainda é válido aos olhos da Igreja e se considera que eles vivem em adultério, portanto em estado pecaminoso.
A única maneira de tais católicos poderem se casar novamente é receberem uma anulação, um veredicto religioso segundo o qual seu primeiro casamento jamais existiu por causa da falta de certos pré-requisitos, como maturidade psicológica ou livre arbítrio.
“Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho! Aqui eu estou falando não só dos que se divorciaram e voltaram a se casar, mas de todos, em qualquer situação em que se encontrem”, disse o papa.
Segundo o texto, as uniões livres de heterossexuais ou aqueles que casaram apenas pelo civil podem também ser “sinais de amor” quando atingem uma “estabilidade consistente através de um laço público”, ou quando a união é “caracterizada por uma afeição profunda”.

Homossexuais
Francisco defendeu o respeito e a não discriminação aos homossexuais, mas ressaltou que as uniões de casais do mesmo sexo não podem ser consideradas casamentos.
“Todas as pessoas, independentemente da orientação sexual, devem ser respeitadas em sua dignidade e acolhidas com respeito, procurando evitar qualquer sinal de discriminação injusta e, particularmente, qualquer forma de agressão e violência”, disse o papa.
Francisco, porém, condenou as pressões por parte de entidades que defendem a legalização do casamento gay. “É inaceitável que as igrejas locais sofram pressões e que organismos internacionais condicionem a ajuda financeira aos países pobres à introdução de leis para instituir o casamento entre pessoas do mesmo sexo”, disse. “Apenas a união exclusiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher cumpre uma função social plena.”
O texto diz ainda que as crianças devem ser ensinadas a dizer sempre “por favor”, “obrigado” e a pedir desculpas. Elas devem ser punidas por mau comportamento e curadas do vício de “querer tudo já”.
Além disso, o papa diz que os pais devem evitar que as crianças assistam programas de televisão que possam prejudicar os valores familiares.
RC/lusa/rtr/afp

 

Amoris Laetitia: sete causas da desvalorização do casamento, segundo o Papa
http://www.semprefamilia.com.br/amoris-laetitia-sete-causas-da-desvalorizacao-do-casamento-segundo-o-papa/

Mais do que uma resposta a questões espinhosas, o documento é um grande tratado sobre o casamento e a família na Igreja e no mundo de hoje.
Na exortação apostólica Amoris Laetitia, “A alegria do amor”, publicada nesta sexta-feira, o papa dedica o segundo capítulo a analisar a situação da família na atualidade, porque pretende refletir “com os pés no chão” e atingir as famílias concretas, e não um ideal. Francisco constata ali os diversos problemas que levam à desvalorização do casamento.
O elenco de desafios é um bom exemplo do olhar global que caracteriza a exortação. Confira sete dos principais problemas, segundo o papa, que levam os jovens de hoje a não querer se casar, a adiar o casamento ou a construir um casamento frágil:

1. A instabilidade própria do ritmo de vida atual. Segundo o Papa, hoje se confunde a liberdade com a ideia de que cada um julga como lhe parece, como se “não houvesse verdades, valores, princípios”. Um vínculo definitivo, como o casamento, parece algo impensável nesse contexto. “Teme-se a solidão, deseja-se um espaço de proteção e fidelidade, mas, ao mesmo tempo, cresce o medo de ficar encurralado numa relação que possa adiar a satisfação das aspirações pessoais” (n. 34), constata Francisco.

2. Maneiras inadequadas de apresentar o ensinamento cristão sobre o casamento. O papa convida a Igreja a uma autocrítica: tem-se ensinado sobre o matrimônio de forma fiel? Percebe-se claramente a relação entre a mensagem da Igreja sobre a família e a pregação de Jesus? Ou enfatizam-se as exigências, sem se preocupar em despertar a abertura à graça? O papa chega a questionar até mesmo se a Igreja tem oferecido horários adequados para o acompanhamento dos jovens casais (n. 36-38).

3. A cultura do descarte. O papa denuncia a mentalidade atual que pensa os relacionamentos em termos de custo-benefício. “Transpõe-se para as relações afetivas o que acontece com os objetos e o meio ambiente: tudo é descartável, cada um usa e joga fora, gasta e rompe, aproveita e espreme enquanto serve; depois… adeus” (n. 39), diz ele. O foco nos próprios interesses adoenta a capacidade de se doar e impede a construção de um projeto comum.

4. Imaturidade emocional e sexual. Francisco fala que muitas pessoas tendem a ficar “nos estágios primários da vida emocional e sexual”, devido a uma afetividade narcisista, ao uso de pornografia, à própria desvalorização ideológica do matrimônio e a uma concepção exclusivamente romântica do amor (n. 40-41).

5. A mentalidade antinatalista. Às vezes o puro desejo de manter certa “liberdade e estilo de vida” leva ao temor de se ter filhos. Vários fatores somados, como os problemas econômicos e a revolução sexual, geraram uma mentalidade segundo a qual o filho é visto antes de tudo como um fardo. Segundo o papa, isso leva a uma “perda de esperança no futuro” (n. 42). Um Estado que intervenha de forma coercitiva a favor da contracepção age de forma contraditória e negligencia o próprio dever.

6. Carência de políticas para a família. “Quem casa quer casa”, diz o ditado. Muitas vezes adia-se o casamento indefinidamente por falta de uma habitação adequada. Francisco aponta que devemos insistir nos direitos da família, e não apenas nos individuais, e recorda um trecho de um documento de 1983 do Pontifício Conselho para a Família, a Carta dos direitos da família: “A família tem direito a uma habitação condigna, apropriada para a vida familiar e proporcional ao número dos seus membros” (n. 44). Como o bem que é para a sociedade, a família deve ser protegida, e isso inclui repensar diversas questões sociais, incluindo as relações de trabalho. A longa jornada de trabalho, por exemplo, muitas vezes agravada pelo deslocamento, impede a convivência familiar.

7. A desconstrução jurídica da família. Francisco alerta para os danos de se alargar a concepção de família. “As uniões de fato ou entre pessoas do mesmo sexo não podem ser simplistamente equiparadas ao matrimônio. Nenhuma união precária ou fechada à transmissão da vida garante o futuro da sociedade”, escreve o papa. Segundo ele, só “a união exclusiva e indissolúvel entre um homem e uma mulher realiza uma função social plena”, devido à sua estabilidade e fecundidade (n. 52-53).

A restauração da família em Cristo

A restauração das famílias atuais em Jesus Cristo

O Papa São João Paulo II chamou a família de “Santuário da vida”  (Carta às Famílias, 11). Santuário quer dizer “lugar sagrado”. É ali que a vida humana surge como de uma nascente sagrada, e é cultivada e formada. É missão sagrada da família, guardar, revelar e comunicar ao mundo o amor e a vida. É a “a Igreja doméstica” (LG, 11) onde Deus reside, é reconhecido, amado, adorado e servido. Disse o Concílio Vaticano II que: “A salvação da pessoa e da sociedade humana estão intimamente ligadas à condição feliz da comunidade conjugal e familiar” (Gaudium et Spes, 47) e “constitui o fundamento da sociedade” (GS, 52).

Desde que Deus desejou criar o homem e a mulher “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26), Ele os quis “em família”.  Se a família for destruída, a sociedade também o será. O Catecismo da Igreja Católica (CIC), diz que ela é “vestígio e imagem da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sua atividade procriadora e educadora é o reflexo da obra criadora do Pai” (§ 2205). Jesus nasceu e viveu numa família; fez seu primeiro milagre nas Bodas de Caná onde nascia uma família.

Mais do que nunca hoje a família é ameaçada e atingida, como diz o  Papa João Paulo II, pela praga do divórcio, das “uniões livres”, do aborto, da eutanásia, do chamado “amor livre”, do “sexo seguro”, da “produção independente”, dos “casamentos” de homossexuais, dos preservativos, etc., frutos de uma sociedade mergulhada no consumismo e no utilitarismo, e que fez uma opção pela “cultura do prazer”.

O Papa disse na Carta às Famílias que: “Nos nossos dias, infelizmente, vários programas sustentados por meios muito poderosos parecem apostados na desagregação da família” (CF, 5). “No contexto da civilização do desfrutamento, a  mulher pode tornar-se para o homem um objeto, o filho um obstáculo para os pais, a família uma instituição embaraçante para a liberdade dos membros que a compõem” (CF,13).

Quando, em 1994, o Parlamento Europeu, reconheceu a validade jurídica dos matrimônios entre homossexuais, até admitindo a adoção de crianças por eles, o Papa João Paulo II, reagiu de maneira forte e imediata: “Não é moralmente admissível a aprovação jurídica da prática homossexual. Ser compreensivos para com quem peca, e para com quem não é capaz de libertar-se desta tendência, não significa abdicar das exigências da norma moral… Não há dúvida de que estamos diante de uma grande e terrível tentação” (20/02/94).

Quando se cria “famílias” falsas, que não estão de acordo com a vontade de Deus, se destrói a família verdadeira e se põe em risco a sociedade.

Hoje estamos vendo, como disse o Papa João Paulo II no Brasil, em 1997, milhares de “filhos órfãos de pais vivos”, por causa do “sexo livre” e irresponsável. São milhares de crianças sendo criadas sem o calor do pai. E as mães tendo de lutar bravamente e sozinhas para que não falte o pão dos filhos. Por que? Porque destruiu-se a família, o “Santuário da vida”; então, quem sofre são as próprias pessoas, especialmente os mais inocentes. A criança não pediu para vir ao mundo; não pediu para nascer; então, quem lhes dá a vida deve cuidar para que elas tenham um pai, uma mãe, um lar…

Por isso, as famílias precisam “ressuscitar” para uma vida nova em Jesus Cristo; isto é, viver segundo a lei de Deus: não pecar contra a castidade, não viver a vida sexual fora do casamento e nem antes dele; casar apenas um homem com uma mulher unidos pelo sacramento do matrimônio. Nada de divórcio, amor e fidelidade até a morte. Está é a lei de Deus; este é o caminho da felicidade, da paz e da vida eterna em Deus. Como disse  o Pe. Zezinho: “Que nenhuma família comece em qualquer de repente, que nenhuma família termine por falta de amor… que marido e mulher não se traiam e não traiam os seus filhos… que o homem carregue nos ombros a graça de um pai… seja a firme esperança de um céu aqui mesmo e depois”.

Prof. Felipe Aquino

 

“O CRISTO DISFARÇADO EM MINHA CASA”
Como salvar minha família
Pe. Léo, SCJ

Irmão Bento era um monge muito santo. Além de santo, tinha a fama de ser excelente conselheiro matrimonial. Sua fama se espalhava por toda a região. Segundo diziam, este santo monge tinha o dom da palavra de ciência e da palavra de sabedoria, e esses dons sempre se manifestavam em forma de visões.

Sr. Alfredo, numa duvidosa tarde, foi procurá-lo e descreveu o grande drama que estava vivendo:

– Irmão Bento, eu estou vivendo mergulhado em grandes problemas. Estamos passando por uma séria crise financeira. Tudo em nossa casa dá errado. De uns tempos pra cá, nada dá certo em nossa vida. Minha família vive um pequeno inferno. Minha mulher está sempre doente. Ela só sabe reclamar da vida e dos problemas. Eu, de vez em quando, acabo exagerando na bebida. Meu filho mais velho cheira cocaína, fuma maconha, tem o corpo todo cheio de tatuagens, não faz a barba, toca saxofone e flauta nos botecos por aí. Bebe que é uma coisa medonha e tem um cabelo tão longo que mais parece uma moça. Minha filha é terrível. Cada dia ela aparece com um namorado diferente. E, o pior, usa umas roupas que o senhor nem pode imaginar. Meu filho caçula, de 12 anos, já foi expulso de três colégios. Só quer saber de andar de bicicleta e ver televisão. E, o pior, hoje faz seis meses, três dias e quatro horas que minha sogra esta morando lá em casa. Para o senhor ver, tudo esta errado em minha vida e eu preciso de sua ajuda. O que devo fazer? Porque tudo está dando errado em nossa família? Nós já fizemos de tudo que nos ensinaram. Fomos até a uma benzedeira e ela pediu que levássemos umas velas, uma galinha, uma garrafa de cachaça e ainda cobrou mais duzentos reais. Mas parece que até ficou pior do que estava. Já queimamos incenso, compramos uma pirâmide, fizemos mapa astral e nada mudou. Então eu resolvi procurar o senhor. Já que o senhor é um homem tão santo e tem visões, será que o senhor não poderia me dizer a causa de todos estes problemas? Eu já não estou mais agüentando esta vida. Por favor, me ensine uma reza, ou faça uma oração por nós. Pelo amor de Deus, nos ajude.

O santo homem de Deus colocou a mão sobre a cabeça do senhor Alfredo e fez uma silenciosa oração. Depois lhe disse:

– Sr. Alfredo. Estou tendo uma visão. O Senhor está me mostrando uma coisa muito grave! Deus está me revelando que dentro de sua casa tudo vai mal, e tudo vai mal porque vocês estão cometendo um dos mais medonhos pecados da face da terra. É algo muito sério. Mas, não sei se posso revelá-lo ao senhor.

O homem arregalou os olhos e falou:

– Por favor, Irmão Bento! Foi para isso que eu vim até aqui. O que está acontecendo?

– Sabe, meu senhor, o problema é que dentro de sua casa vocês estão cometendo o pior pecado do mundo. Nem tenho coragem de falar sobre isso…

– Mas, homem de Deus – interrompeu seu Alfredo -, por favor. O senhor pode falar sem medo. Quem está cometendo este pecado? Eu já estava mesmo desconfiado de minha mulher! O senhor pode me contar que eu acabo com a vida do sujeito.

Por favor… – Não é nada disso Alfredo! – O pecado que vocês estão cometendo é o pior de todos, disse o Irmão Bento.

– Mas que pecado tão terrível é este? Pelo amor de Deus, seu monge, pode falar que estou preparado para ouvir.

– Bem, meu filho. O senhor sabe que Deus é amor. E que Deus amou tanto o mundo que mandou seu Filho único para que todos que nele cressem fossem salvos. Jesus veio e nós o matamos. Então Deus o mandou novamente para a Terra, só que Ele não poderia vir com o mesmo rosto de antes, senão o mundo o mataria mais rápido ainda, e diante das câmeras de televisão. Então Jesus voltou, só que Ele veio disfarçado. E a verdade é que um dos membros de sua família é o próprio Cristo, disfarçado.

– O senhor está falando que lá em casa mora o próprio Senhor Jesus Cristo, disfarçado? É melhor o senhor conferir aí na sua Bíblia, porque acho isso impossível. Se o senhor conhecesse minha família jamais falaria uma barbaridade dessas… É que o senhor não faz idéia de como é a nossa família…

– É isto mesmo! Não é nenhum engano! Jesus está disfarçado em um dos membros de sua família e, como vocês não o reconhecem, tudo vai mal. Afinal de contas, sem saber quem é o Cristo disfarçado, vocês ficam tratando mal um ao outro. E, como vocês estão se tratando muito mal, estão ofendendo a Jesus Cristo dentro de sua casa. E é este o grande pecado de vocês. Aliás, esse é o maior pecado que alguém pode cometer. Enquanto vocês não descobrirem quem é o Cristo, nada irá mudar na vida de vocês.

– Sério mesmo? Ah, mas eu vou resolver isso, ou não me chamo Alfredo.

Sr. Alfredo saiu daquele encontro cheio de preocupação. Quem em sua casa poderia ser o Cristo disfarçado? Antes de chegar em casa, para não perder o costume, passou no barzinho e tomou logo umas três doses da “branquinha”. Ele gostava tanto disso, que ao dar um gole, sempre tapava o nariz, pois, gostava dela bem pura, só em sentir o cheiro já ficava com a boca cheia d’água. Logo para não estragar o sabor, tapava o nariz para não correr o risco de salivar. Tomou seus tragos e foi rapidamente para casa, onde reuniu toda a família. Diante de todos falou com seu encontro particular com Irmão Bento, o homem de Deus já conhecido por todos. Disse-lhes claramente, sem rodeios, que ali vivia o Cristo disfarçado e que era preciso descobri-lo imediatamente, já que enquanto não se detectasse quem era o Cristo disfarçado, nada melhoraria naquela casa.

Sem muita cerimônia perguntou:

– Quem de vocês é o Cristo disfarçado? Que se apresente, agora!

Todos se entreolharam admirados. Será que o Sr. Alfredo tinha bebido além da medida? Que história é essa mais sem cabimento. Os filhos chegaram a esboçar um riso disfarçado.

Mas Sr. Alfredo insistiu:

– Quem é o Cristo disfarçado?

Como ninguém se apresentou, Sr. Alfredo voltou a falar com o Irmão Bento.

Olha aqui é o Alfredo, eu estive aí ontem à tarde. O senhor me disse que o Cristo disfarçado estava morando em minha casa. Queria pedir que o senhor conferisse melhor o endereço, pois fiz uma ampla pesquisa em minha casa e chegamos à conclusão que lá ele não mora mesmo. O monge continuou irredutível.

– Pois, lhe digo com certeza Sr. Alfredo, um deles é o Cristo disfarçado!

Outra reunião com a família, e agora, com mais veemência ainda, disse Sr. Alfredo:

– Olha gente, o monge é um homem santo. Tudo que ele falou até hoje deu certo. Ele não iria inventar uma história dessas. Uma aqui nesta casa é mesmo o Cristo disfarçado, e é melhor que se mostre logo.

Juninho, o mais novo, arriscou um palpite:

– Pai, quem sabe seja a vovó!

– Sr. Alfredo ficou enfurecido:

– Meu filho, não fale uma bobagem dessas, nem por brincadeira. Cale essa boca. Onde já se viu você falar uma coisa destas! Oh, meu Deus, perdoa meu filho por esta blasfêmia. Filho, olhe bem para sua avó. Como é que Cristo poderia se disfarçar num trambolho desses? Meu filho, eu quero que você aprenda uma coisa, desde pequeno, para nunca mais esquecer: sogra a gente deve gostar, igualzinho eu gosto de cerveja, ou seja, geladinha em cima da mesa.

– Então deve ser o papai – disse a filha Juliana, fofa e linda, como sempre!

– Aí foi a vez da sogra externar seu direito de opinar, cheia de uma fúria que ela guardava há anos:

– Ah, deve ser mesmo! Eu fico olhando para a cara desse homem e imaginando Cristo disfarçado de anta bêbada. Você já ouviu falar que Cristo era um alcoólatra, mal-educado, bruto e sem escrúpulos? Agora é que estamos pecando mesmo de verdade. Este homem é um jumento em forma humana. Nunca vi uma pessoa mais ignorante. Como é que pode ele ser o Cristo?

D. Matilde, a esposa, até então em completo silêncio, completou:

– Alfredo ser o Cristo disfarçado? Isso seria uma grande piada. Ele é um homem da pior espécie possível. Vive deixando roupa espalhada pelo chão do banheiro. Quando falo com ele, está sempre bocejando. Fuma no quarto. Assiste a TV sempre com o controle remoto na mão. Chega suado da rua e com os pés sujos do jogo de futebol e vai direto para a cama. Bebe feito um condenado. Não corta e nem limpa as unhas dos pés. Chega a esquecer o nome dos próprios filhos e fica perguntando baixinho, como se chama aquele menorzinho? E você Juliana vem me dizer que ele poderia ser o Cristo disfarçado? Tenha dó, minha filha.

Caíque o filho mais velho, que até então estava só observando o furdunço, deu o seu palpite:

– Talvez então seja a mamãe!

Sr. Alfredo mais uma vez se enfureceu:

– Meu filho, isto seria uma outra bobagem sem tamanho. Sua mãe só sabe reclamar da vida. Basta a gente pegar um jornal para ler e ela já vem puxando conversa fiada, e quando a gente esta morrendo de sono ela vem querendo ter uma conversa séria. Enche a casa de plantas e ainda coloca uma samambaia bem em cima do DVD. Quando eu quero ir a uma festa, ela faz cara feia, mostra desânimo e faz tudo para que eu desista. Erra sempre quando me compra uma roupa de presente, sempre fica pequeno. Quando lhe dou um presente, logo ela repassa para a empregada. Vive falando mal da minha mãe. Chorou a gravidez inteira e tudo que vocês fazem de errado ela logo diz que a culpa é minha. Basta um erro e ela já diz que puxou o pai. Meu filho, como ela poderia ser o Cristo? Olha, a Bíblia diz que Jesus curava todas as doenças. A sua mãe tem todas as doenças. Ela é absolutamente o contrário de Jesus! Depois, se sua mãe fosse o Cristo disfarçado, a cruz de Jesus deveria ser de aço ou ferro fundido. Que outra cruz suportaria tanto peso assim? Sua mãe só sabe comer e reclamar…

Juliana então disse:

– Talvez seja o Caíque!

Foi então a vez do Juninho reclamar:

– Como o Caíque? Jesus por acaso fumava maconha? Olhe bem para a cara do Caíque: um cabelo horroroso. Ele lava os cabelos. E aquela caveira que ele tem tatuada nas costas? Como pode ser o Cristo?

D. Matilde exclamou:

– Pode ser o Juninho: ele é o mais novo da casa!

Foi a vez de Juliana retrucar:

– Mamãe, que absurdo! Jesus era um menino muito inteligente. A Bíblia diz que aos doze anos Ele se perdeu e quando sua mãe o encontrou estava no meio de doutores, explicando-lhes as Escrituras. O Juninho é um burrinho em forma de gente. Já foi expulso de três escolas, e este ano, pelo jeito que está, vai ser reprovado de novo!

– E se for a Juliana? – Perguntou a avó com os olhos cheios de ternura.

Caíque não se conteve:

– O que? A Juliana ser Jesus? Isto sim é que é uma blasfêmia! Olhe bem, para as roupas que ela usa. E os namorados esquisitos? A senhora sabia que ela é chamada a vassourinha da nossa rua? Já varreu todos os rapazes. Namorou e ficou com a maioria deles. A única coisa em que a Juliana é parecida com Jesus é a roupa. Ela se veste igualzinho o Cristo quando foi pregado na cruz. Nunca poderia ser o Cristo disfarçado!

A discussão continuou por longo tempo. Cada um só se recordava dos defeitos do outro. Sr. Alfredo voltou a procurar o Irmão Bento, dizendo-lhe que talvez tivesse se enganado. No entanto o monge continuava afirmando que um deles era o Cristo disfarçado! Alfredo voltou desanimado para casa. Disse para todos que o monge continuava afirmando que Jesus estava disfarçado em um deles ali. Cansado sentou-se, como sempre, diante da TV. No entanto, os filhos continuaram pensando na idéia.

Juninho então falou:

– Talvez seja mesmo a vovó. Ela até que gosta muito de rezar. E depois é a mais velha da família! Acho que precisamos tratá-la um pouco melhor! Os irmãos concordaram com a idéia. E até o Sr. Alfredo ficou pensando na possibilidade. Por mais triste e terrível, a possibilidade, segundo a palavra firme e certa do monge, era real. E se a sogra fosse, de fato, o Cristo disfarçado? Mudaram o tratamento com a velha. Passaram a dialogar com ela, fazer-lhe um carinho, tratá-la com mais respeito e atenção.

Alfredo, tentando superar todos os conflitos que tinha com a sogra, resolveu até lhe fazer um agrado, levando uma xícara de café na cama. Quando bateu na porta, já sentiu que a acolhida não seria das melhores:

– Quem é? – Sou eu, minha sogrinha querida.

– Entre. – Bom dia… vim trazer um cafezinho quentinho para a senhora.

– Para mim? Tem certeza? Bebe um gole primeiro…

A sogra chegou a pensar que tinha veneno no café. Mas acabou aceitando o agrado do genro e passou a tratá-lo melhor também. Mas, como ninguém tinha certeza acerca de que quem pudesse ser o Cristo disfarçado, a dúvida então persistia. Poderia muito bem ser qualquer um. E se fosse o Pai? Talvez a mãe? Ou um dos filhos? Como o monge havia falado, cada um ali era um possível candidato. Acabaram melhorando o tratamento em relação aos outros membros da família.

D. Matilde parecia muito mais feliz. Já não reclamava tanto de doenças, e Sr. Alfredo já não parava mais no barzinho para tomar seu trago de sempre. Cada um começou a tratar o outro com a possibilidade de ser o Cristo disfarçado.

Marido e mulher se olhavam com mais carinho e respeito. Os filhos começaram a perceber os valores dos pais. Os pais passaram a reservar um tempo para o diálogo, para o carinho entre si e para com os filhos. Genro e sogra já não se estranhavam. E as coisas começaram a mudar naquela casa.

Algum tempo depois, tudo havia mudado. As coisas se acertaram como que por um milagre. Juninho conseguiu melhorar muito seu rendimento na escola. Caíque chegou a ajudá-lo em muitas lições, e Juliana já não saía tanto pelas lanchonetes e boates. O clima daquela casa parecia outro! Aquela família, que dizia viver num pequeno inferno, agora começou a experimentar algumas mudanças consideráveis. Já não tinha tanta dívida, porque se uniram para pagar o que deviam. O pai, pela vontade de chegar logo em casa, já não parava mais nos botecos do caminho. Era tão bom quando Juliana vinha deitar-se no colo do Sr. Alfredo!

A família foi também descobrindo o valor da oração. E foi com grande alegria que o Irmão Bento viu todos eles na Missa das dez horas daquele domingo. Na terceira fila de bancos do lado esquerdo, toda a família, um do lado do outro, participando da Santa Missa.

Ele ficou tão emocionado que ao final da celebração foi procurá-los para um abraço muito sincero, e disse-lhes:

– Que bom! Vocês descobriram o segredo! Na medida em que começaram a tratar o outro como se fosse o próprio Cristo, vocês aprenderam a ver Jesus um no outro. Com isso, descobriram algo maravilhoso: vocês estão enxergando um ao outro com os olhos do próprio Cristo. Vocês descobriram o grande segredo. Tentando ver Cristo disfarçado, descobriram o Cristo que existe, de fato, no coração e na vida do outro, e em cada um. E este segredo foi Jesus mesmo quem nos ensinou: “todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 40).

É isto mesmo meus irmãos. Quem não for capaz de ver Jesus na pessoa do outro, jamais vai ser capaz de ver a pessoa do próprio Jesus. Esse é o grande segredo para a vida familiar! Esse é o grande segredo para a restauração de nossas famílias. Talvez você também se encontre, hoje, como o Sr. Alfredo, naquela tarde em que foi ao encontro de Irmão Bento. E porque as coisas não vão bem em sua casa? Jesus deve também estar disfarçado em algum dos membros de sua família… enquanto não se conseguir enxergar cada um com os olhos do próprio Cristo, nada melhorará na vida familiar.

A maior graça que um casal precisa para si e para seus filhos é enxergar cada um com os olhos de Jesus. Quando isso acontece, passam a enxergar Jesus em cada um. Não tenhas medo de transformar suas necessidades familiares numa oração sincera e verdadeira: Senhor, dá-nos a graça de enxergar com Teus olhos, do jeito que Tu Senhor, enxergas. Sonda-nos hoje e Tem compaixão de cada um de nós. Tu, Senhor, que nos teceste no seio materno, dá-nos a graça de perceber-nos segundo Teu amor misericordioso.

Parábola transcrita do livro “Famílias Restauradas” (Padre Léo, scj). Este texto é abertura do Livro, que tratará das questões que foram apresentadas nesta pequena estória de uma família que não por acaso pode ser um retrato de uma família que conhecemos muito bem. A sua família também poderá se encontrar com este Cristo, que na verdade não está disfarçado como na estória, mas está vivo e presente em sua casa podendo ser encontrado facilmente a qualquer momento, porque Ele se deixa encontrar. 

A Assunção de Maria Santíssima ao Céu

Fundador dos Franciscanos da Imaculada explica como ganhar o Céu
Padre Stefano M. Manelli, F.I.

ROMA, segunda-feira, 13 de agosto de 2012 (ZENIT.org) – Ao contemplar a assunção de Maria ao céu em corpo e alma, contemplamos o nosso destino final de acordo com o plano de Deus: o paraíso. Para merecer o paraíso, no entanto, precisamos nos esforçar para viver como Maria viveu, praticando as virtudes no sacrifício diário da nossa vida. “Só será recompensado quem tiver legitimamente lutado”, diz o apóstolo Paulo (2 Tim 2, 5). A assunção da Virgem Maria ao céu nos lembra as suas virtudes santas, brilhantes como estrelas no firmamento da sua vida. Toda a vida de Maria foi uma constelação de virtudes, um Éden de graça na terra, depois transportado para o Éden infinito e eterno dos céus. E nós, contemplando Maria, temos que aprender a viver como ela para ser um dia acolhidos no paraíso. É por esta razão que a Igreja diz que sobre a terra os homens “voltam os olhos para Maria, que refulge como o modelo da virtude perante toda a comunidade dos eleitos” (Lumen Gentium). O papa Paulo VI afirma que as virtudes de Maria são o modelo para todos, e que “dessas virtudes da Mãe também se adornarão os filhos, que, com tenaz propósito, se espelham nos seus exemplos para reproduzi-los na própria vida” (Marialis cultus). Mas quais são as virtudes de Maria que mais devemos imitar? O grande apóstolo de Maria, São Luis Grignion de Montfort, nos ensina que “a verdadeira devoção à Santíssima Virgem leva a alma a evitar o pecado e a imitar as virtudes de Maria, em particular a sua humildade profunda, a sua fé viva, a sua obediência cega, a sua contínua oração, a sua mortificação universal, a sua pureza divina, a sua caridade ardente, a sua paciência heroica e a sua sabedoria divina”. Que tesouro imenso de virtudes sublimes é Maria! Se o caminho da virtude foi o caminho de Maria para o céu, então ele deve ser também o nosso caminho. Não há outra maneira de ir da terra ao céu sem passar pelo purgatório, que é um lugar de purificação dolorosa, diante do qual empalidecem até mesmo os sofrimentos mais atrozes da terra. Todos os santos são santos porque praticaram as virtudes de modo perfeito, brilhando mais por alguma virtude que os caracteriza em particular: assim, São Francisco de Assis brilha em especial pela pobreza; Santa Clara de Assis pelo amor à Eucaristia; São Luís Gonzaga pela pureza; Santa Teresa de Jesus pela oração; São Francisco Xavier pelo amor às almas nas missões; Santa Gemma Galgani pelo amor ao Cristo crucificado e à Virgem das Dores; São Maximiliano Kolbe pelo amor à Imaculada Conceição; São Pio de Pietrelcina pelo amor ao rosário. Nossa Senhora de Fátima também nos fala do purgatório, e em termos nada reconfortantes. Para a pequena Lúcia, que perguntava onde estava a alma de uma companheira falecida recentemente, Maria respondeu: “Ela está no purgatório e lá permanecerá até o fim do mundo”. É terrível. Mas por que não pensamos que poderia ser assim para nós também? No céu se entra perfeito, com todas as virtudes. Os três pastorzinhos compreenderam isto muito bem e se aplicaram com todo o ardor na busca da virtude. Jacinta, por exemplo, nos encanta pela candura e pela mortificação, pela oração e pela paciência nos sofrimentos terríveis que padeceu ao passar por uma cirurgia sem anestesia. Fascina especialmente pela sua caridade heroica para com os pobres pecadores, que eram a paixão do seu coração inocente. O pequeno Francisco de Fátima, igualmente, nos encanta pelo seu recolhimento, pela sua reserva e capacidade de contemplação e de adoração. São coisas incríveis em um menino de dez anos, idade em que eles são apaixonados pelo esporte e por correr despreocupadamente. Quanta maturidade, no entanto, e que paixão amorosa ele demonstra ao querer sempre “consolar Jesus”, passando horas a fio perto do tabernáculo, onde Jesus fica escondido! É assim que se entra no céu. Só assim. Contemplando Maria assunta ao céu, descobrimos o verdadeiro caminho da vida cristã, na esteira esplendorosa e sublime da Mãe Celestial: um caminho de virtudes que nos levam para cima. Virtude a praticar: a imitação de Maria.
(Tradução:ZENIT)

 

Assunção: a mulher e o menino vencem o dragão
Festa da Assunção de Nossa Senhora
Padre Angelo del Favero

Irmãos, Cristo ressuscitou dos mortos, primícias daqueles estão mortos. Como de fato em Adão todos morrem, assim em Cristo todos recebem a vida…: primeiro Cristo, as primícias; depois, na sua vinda, aqueles que são de Cristo”.  AP 11, 19a; 12,1- 6a.10ab “O templo de Deus que está no céu se abriu, e apareceu no templo a arca da sua aliança. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e uma grande tempestade de granizo. Um sinal grandioso apareceu no céu: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas;estava grávida e gritava, entre as dores do parto, atormentada para dar à luz. Apareceu então outro sinal no céu: um grande Dragão… O Dragão colocou-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho, tão logo nascesse. Ela deu à luz um filho, um varão, que irá reger todas as nações com um cetro de ferro. Seu filho, porém, foi arrebatado para junto de Deus e de seu trono… e a Mulher fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar … Ouvi então uma voz forte no céu, proclamando: “Agora realizou-se a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus, e a autoridade do seu Cristo”. Lc 1,39-56 Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho para a região montanhosa, dirigindo-se apressadamente a uma cidade de Judá. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel.41.Ora, quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre e Isabel ficou repleta do Espírito Santo.Com um grande grito, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre!Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite? (…)Maria, então, disse: “Minha alma engrandece o Senhor…” “A  imaculada Mãe de Deus, a sempre virem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” : estes são os termos concisos da proclamação dogmática da Assunção de Maria Santíssima ao céu (Pio XII, “MunificentissimusDominum”, 1950). E assim anunciado pela Igreja ao mundo inteiro que, junta a “Cristo ressuscitado dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1 Cor 15,20), no paraíso atualmente já está presente em alma e corpo sua Mãe Maria, ainda que a hora da segunda vinda de Jesus não tenha ainda chegado (1 Cor 15,23).  Ao definir o dogma da Assunção, deliberadamente Pio XII não responde às perguntas relativas ao desaparecimento de Maria: onde, como, quando Ela morreu? Do ponto de vista histórico, podemos dizer apenas que ignoramos quase tudo, mas o beato João Paulo II ensinou que o fato constitutivo humano do morrer é afirmado também pela Mãe de Jesus: “A experiência da morte enriqueceu a pessoa da Virgem: passando pela sorte comum dos homens, Ela é capaz de exercitar com mais eficácia a sua maternidade espiritual para com aqueles que estão na hora suprema de suas vidas” ( Audiência Geral, 25 de junho de 1997) Na encíclica Redemptoris Mater, João Paulo II escreveu que a maternidade amorosa de Maria abraça e defende toda a humanidade, como se fosse um filho único. “Maria, presente na Igreja como Mãe do Redentor, participa maternalmente na luta contra o poder das trevas que acontece em toda a história humana” (nº 47). À luz da Palavra de Deus, o papa enfatiza a luta dramática e ímpar entre a arrogância diabólica do mal e a fragilidade do bem, que está todos os dias diante dos nossos olhos. São João a descreve no Apocalipse, referindo-se historicamente às perseguições contra os cristãos no Império Romano. Bento XVI faz o seguinte comentário sobre os dois grandes sinais que ele viu: “Primeiro, o dragão vermelho, fortíssimo, com uma manifestação impressionante e inquietante do poder sem a graça, sem o amor, do egoísmo absoluto, do terror, da violência… O poder militar, político, propagandístico do Império Romano diante do qual a fé, a Igreja, aparecia como uma mulher indefesa, sem nenhuma chance de sobreviver, muito menos de vencer. E, no entanto, sabemos que no fim quem venceu foi a mulher indefesa; não foi o egoísmo nem o ódio que venceu; foi o amor de Deus. E o Império Romano se abriu à fé cristã. As palavras da escritura sempre transcendem o momento histórico” (Homilia da Assunção, 2007). Esta última afirmação de Bento XVI sobre o valor meta-histórico das Escrituras não significa a ausência de um vínculo profundo e significativo entre a Palavra e a vida presente. Ele logo acrescenta: “Nós vemos que ainda hoje o dragão quer devorar o Deus que se fez menino”. Aqui, o dragão que ameaça a mulher e a criança, que ameaça a Igreja, ameaça o próprio Deus. Ameaça Deus porque ameaça o homem. Sim, porque desde que Deus se fez um de nós, o destino de cada um de nós é também o destino de Deus. A encíclica Evangelium Vitae (25 de março de 1995) o ensina explicitamente: “Na carne de cada pessoa, Cristo continua a revelar-se e a entrar em comunhão conosco, de modo que a rejeição da vida humana, nas suas várias formas, é realmente uma rejeição de Cristo” (nº 104). O símbolo do dragão infernal faz pensar nas muitas formas de violência brutal do homem contra o homem. Entre elas, é emblemático o que acontece na China há décadas, com a imposição de abortos criminosos, aos quais milhões de mulheres são obrigadas. Imagens terríveis deste furor mostraram recentemente o cadáver de um filho assassinado colocado ao lado da mãe: uma monstruosidade que a mídia mundial denuncia, ainda que timidamente, há anos, e que traz o nome estratégico de “política do filho único”. Mas esta denúncia, para não ser parcial e enganosa, não pode deixar de reconhecer também que o “grande dragão vermelho” continua a devorar milhões de crianças na maioria das nações do mundo, graças à indiferença quase geral dos meios de comunicação e daqueles que estão no poder político. Na Itália, em particular, não existe oficialmente a “política do filho único”, mas há uma cultura perversa, inevitavelmente acompanhada pela “política” da liberdade de escolha de matar as crianças concebidas e indesejadas: seja diretamente (Lei 194, Normas para a proteção social da maternidade e da interrupção voluntária da gravidez), seja indiretamente (Lei 40: Normas sobre a procriação medicamente assistida). Há quem pense que, quando escolhido voluntariamente, o aborto não é uma violência contra a mulher. Falso! É justamente quando é voluntário que o aborto destrói, além do filho, também a pessoa da mãe, moralmente. Pelo simples fato de querer suprimir o fruto do próprio ventre, a mãe nega a si mesma, nega a sua consciência e o seu ser materno, como bem indica e sempre indicará em todo o mundo a conhecida “síndrome pós-aborto”. Se considerarmos o lado oposto, do pretenso direito de ter um filho, veremos que a mulher que apela para a fertilização in vitro, quando dá o aval à matança “técnica” de uma dúzia de seus pequenos filhos no afã de conseguir “ter um nos braços”, se deixa envolver objetivamente por um contexto moral ainda mais horrível do que o da China. O que dizer, então, como conclusão de tudo isto e à luz do sinal luminoso de Maria Assunta? Com a palavra, Bento XVI: “Não temam por esse Deus aparentemente fraco. A luta já foi vencida. Este Deus frágil é forte: é a verdadeira força. E, assim, a festa da Assunção é um convite a confiarmos em Deus. Olhemos para Maria, que foi assunta. Deixemo-nos encorajar à fé e à festa da alegria: Deus vence! A fé aparentemente frágil é a verdadeira força do mundo. O amor é mais forte do que o ódio” (Homilia da Assunção).
(Tradução:ZENIT)

 

Seguindo o exemplo da Virgem Maria
Tudo está submetido ao poder de Deus

Não sabemos para onde apontam os sinais da realidade brasileira em momentos de campanhas eleitorais e do cenário de julgamento do mensalão. Será que, em tudo isso, está a vitória do povo brasileiro? Quem sairá ganhando? Quem vai perder? É a grande incógnita de um país que não prima pela justiça.

A Festa da Assunção de Maria contempla a vitória de Jesus Cristo sobre todos os poderes que tentam impedir a construção do reino de Deus. Maria é sinal da Igreja, cuja missão é conduzir o povo para a condição de liberdade e de vida feliz. Isto acontece na prática da fraternidade e da partilha em gesto de justiça.

A fé e o compromisso com o reino da vida são fundamentais. Isto é condição para que a pessoa seja sinal e aponte para o bem de forma correta. A fé na Palavra de Deus gera compromisso e faz das pessoas discípulas e missionárias de uma cultura de paz. Isto supõe dizer nas palavras de Maria: “Eis a serva do Senhor” (Lc 1, 38).

Quando vamos ao encontro do outro, como fez Maria em relação a Isabel, algo de revelador acontece. A generosidade, o serviço, o querer ajudar os mais necessitados acaba sendo sinal da presença de Deus, fazendo a pessoa superar todo tipo de atitude egocêntrica, egoísta e alheia às carências dos marginalizados da comunidade.

Tudo na natureza e na história está submetido ao poder de Deus, mas é uma realidade também sujeita à ação do mal. O Apocalipse apresenta a figura do “dragão” que está, a todo momento, desarticulando os planos do Criador. É o retrato de quem sinaliza o poder destruidor, seja de autoridades ou de pessoas comuns.

Não podemos viver esperanças vãs nem uma fé inútil, porque deixamos de ser sinal de vida para o mundo. Maria, com muitos títulos, foi sinal de uma nova realidade. Ela é sinal da Igreja com a missão de levar Cristo para as pessoas.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba
15/08/2012

 

Um grande sinal
Reflexões espirituais de Dom Alberto Taveira Corrêa, arcebispo de Belém do Pará

Deus fala sempre e é necessário apurar os ouvidos diante de suas palavras. Muitas vezes o silêncio é a sua voz (Cf. Is 30,15; Sl 64,2), outras muitas vezes manifesta-se através de pessoas por ele enviadas, cujos gestos e respostas aos apelos do Senhor são altamente eloquentes. Grita bem forte diante da história o sinal que é a Igreja, esposa de Cristo, cuidada com amor por aquele que se entregou para fazê-la santa e imaculada. Sinal de Deus é o fato de ser esta mesma Igreja constituída por homens e mulheres marcados pela fragilidade comum a toda a natureza humana, mas tocados pela graça de Deus, que os conduz progressivamente à estatura de Cristo (Cf. Ef 4,13-16). O mistério de Cristo, luz do Mundo, há de resplandecer na face da Igreja. Tudo o que se diz da Igreja em geral pode ser aplicado em particular àquela que foi escolhida e preparada pelo Pai do Céu para ser Mãe de seu Filho amado, a Virgem Maria, Imaculada, Assunta ao Céu, sinal de Deus para o mundo. Por outro lado, tudo o que se diz de Maria pode ser aplicado à Igreja no seu conjunto, como graça e vocação (Cf. Ap 11,19; 12,1-10). Ao celebrarmos com a Igreja a Festa da Assunção de Nossa Senhora, deparamo-nos com uma torrente de ensinamentos a serem colhidos com sabedoria, ainda que não sejamos capazes de absorver toda a riqueza dos mistérios de Deus, realizados em santa cumplicidade com a humanidade, nos quais nos envolvemos, com Maria e do modo de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. O fato de Deus ter preservado da corrupção a Virgem Maria, elevando-a em corpo e alma, “assumindo-a” na “Assunção”, traz consigo a lição do grande valor dado por Deus a tudo o que é humano. Não nos é lícito desprezar o corpo humano, as realidades terrestres destinadas a contribuírem à realização das pessoas, a beleza da natureza, o relacionamento entre as pessoas. Tudo tem um destino de felicidade e de eternidade, tanto que buscamos um novo Céu e uma nova Terra, onde Deus será tudo em todos! É inclusive condição para a realização humana nesta terra o olhar otimista dos cristãos em relação a toda a criação. Cabe-lhes passar pelas estradas do mundo plantando e colhendo o bem, recuperando a realidade e o sonho oferecidos por Deus no Livro do Gênesis, pois ele nos quer felizes no Paraíso. Nossa vida na terra é ao mesmo tempo saudade e esperança do Paraíso. Em Cristo, Salvador e Redentor, tudo é recapitulado, ganha um novo e definitivo sentido. Olhar para o grande sinal aparecido do no Céu e dar-lhe um nome – Maria! – traz ainda a grande certeza de termos uma Mãe no Céu, criatura como todos nós, mas escolhida, preservada do mal e elevada à comunhão plena com a Trindade. Um privilégio e uma graça, que a tornou missionária! Ela chegou na frente para mostrar-nos a estrada. Bendita entre todas as mulheres (Lc 1,39-45) para nos mostrar o caminho da benção. Ela é Nossa Senhora da Esperança, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora do Presente e do Futuro! Junto de Deus está a nossa humanidade. Estabeleceu-se um laço definitivo, pelo que nos podemos renunciar a olhar para o Céu e caminhar para lá. Olhando para aquela que foi assunta ao Céu, parece-me encontrá-la realizada aqui na terra em muitas outras pessoas que trazem os traços de Maria. Dentre tantas, no mês dedicado às diversas vocações na Igreja, volto meu olhar para os homens e as mulheres que descobriram um chamado semelhante ao de Maria, tornando-se sinais da plenitude do Reino de Deus, na vida religiosa. Quando muitos põem toda a esperança nos bens da terra, a vida religiosa proclama a plenitude de Deus, com a bem-aventurança da pobreza, transformada em voto, entrega total de vida, e diz a todos que Deus eleva os humildes, despede os ricos de mãos vazias e sacia de bens os famintos. Com a virgindade e a castidade vividas e testemunhadas, os religiosos e as religiosas reconhecem que Deus olhou para a pequenez de seus servos e servas, e o proclamam senhor de todos os seus afetos, dispostos a construir a fraternidade, não constituindo para si uma família própria, mas suscitando a ternura da família dos filhos de Deus. Ao mundo que luta pelo poder e o domínio de uns sobre os outros, a vida religiosa proclama, com o desafiador voto de obediência – “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” – que Deus derruba do trono os poderosos. Nos religiosos e nas religiosas o Senhor Jesus quer continuar a se fazer servo, obediente até à morte, e morte de Cruz (Cf. Fl 2,1-11). São pessoas que podem ser parecidas com Nossa Senhora, são homens e mulheres “apressados”, desejosos de viver, desde já, os valores da eternidade. Sintam-se reconhecidos e valorizados pela sociedade, pela Igreja e por todas as pessoas que têm sede de Deus e muitos jovens experimentem o chamado a seguir Jesus de perto nesta forma de entrega à Igreja e ao Reino de Deus. Com Nossa Senhora, com a Igreja e com as pessoas consagradas na Castidade, na Pobreza e na Obediência, pedimos ao Pai, Deus e eterno e todo-poderoso, aquele que elevou à glória do Céu, em corpo e alma a Virgem Maria, que nos faça viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória.

Invoquemos Maria, Mãe de Jesus, para que nos proteja das ofensas, livre dos ressentimentos e de todo mal
Na esperança de que Ela está perto de nós, especialmente nos momentos dolorosos, de sofrimentos, de incertezas, que Ela possa derramar sobre nós, nossas famílias, nossos entes queridos toda a Sua consolação e o Seu amor de mãe
Que Ela conserve em nós o sorriso e a alegria, também nas horas dolorosas, de modo que mesmo nesses momentos seja possível desfrutar da graça de Deus e manter a coragem e a disposição de nos oferecer ao Senhor e ao próximo.

 

HOMILIA Solenidade da Assunção da Beata Virgem Maria – Bento XVI
Paróquia pontifícia de “São Tomás de Villanova”, em Castel Gandolfo
Quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Queridos irmãos e irmãs, Em 1º de novembro de 1950, o Venerável Papa Pio XII proclamava como dogma que a Virgem Maria “terminado o curso da vida terrena, foi assunta à glória celeste em alma e corpo”. Esta verdade de fé era conhecida pela Tradição, afirmada pelos Padres da Igreja, e era, sobretudo, um aspecto relevante do culto rendido à Mãe de Cristo. O elemento cultual constitui, por assim dizer, a força motora que determinou a formulação deste dogma: o dogma parece um ato de louvor e de exaltação em relação à Virgem Santa. Este emerge também do próprio texto da Constituição apostólica, onde se afirma que o dogma é proclamado “em honra ao Filho, para a glorificação da Mãe e a alegria de toda a Igreja”. É expresso assim na forma dogmática algo que já foi celebrado no culto da devoção do Povo de Deus como a mais alta e estável glorificação de Maria: o ato de proclamação da Assunta se apresentou quase como uma liturgia da fé. E no Evangelho que escutamos agora, Maria mesma pronuncia profeticamente algumas palavras que orientam nesta perspectiva. Diz: “Todas as gerações, de agora em diante, me chamarão feliz” (Lc 1,48). é uma profecia para toda a história da Igreja. Esta expressão do Magnificat, referida por São Lucas, indica que o louvor à Virgem Santa, Mãe de Deus, intimamente unida a Cristo, seu filho, diz respeito à Igreja de todos os tempos e de todos os lugares. E a anotação destas palavras da parte do Evangelista pressupõe que a glorificação de Maria estivesse já presente no período de São Lucas e ele a considerou um dever e um compromisso da comunidade cristã para todas as gerações. As palavras de Maria indicam que é um dever da Igreja recordar a grandeza de Nossa Senhora para a fé. Esta solenidade é um convite, portanto, a louvar Deus, e a olhar para a grandeza de Nossa Senhora, para que conheçamos Deus na face dos seus.

Mas, por que Maria é glorificada na assunção ao Céu? São Lucas, como ouvimos, vê a raiz da exaltação e do louvor à Maria na expressão de Isabel: “Feliz aquela que acreditou” (Lc 1, 45). E o Magnificat, este canto ao Deus vivo e operante na história é um hino de fé e de amor, que brota do coração da Virgem. Ela viveu com fidelidade exemplar e guardou no mais íntimo do seu coração as palavras de Deus ao seu povo, as promessas feitas a Abraão, Isaac e Jacó, fazendo do seu conteúdo sua oração: a Palavra de Deus estava no Magnificat transformada em Palavra de Deus, lâmpada do seu caminho, até torná-la disponível a acolher também em seu ventre o Verbo de Deus feito carne. A atual página evangélica apresenta esta presença de Deus na história e no próprio desenvolver-se dos eventos; especialmente, há uma referência ao Segundo livro de Samuel no capítulo sexto (6, 1-15), no qual Davi transporta a Arca Santa da Aliança. O paralelo que faz o Evangelista é claro: Maria à espera do nascimento do Filho Jesus e a Arca Santa que porta em si a presença de Deus, uma presença que é fonte de consolação, de alegria plena. João, de fato, dança no ventre de Isabel, exatamente como Davi dançava diante da Arca. Maria é a “visita” de Deus que cria alegria. Zacarias, em seu canto de louvor, dirá explicitamente: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e libertou o seu povo” (Lc 1,68). A casa de Zacarias experimentou a visita de Deus com o nascimento inesperado de João Batista, mas, sobretudo, com a presença de Maria, que porta em seu ventre o Filho de Deus.

Mas agora nos perguntamos: o que a Assunção de Maria ensina ao nosso caminho, à nossa vida? A primeira resposta é: na Assunção vemos que em Deus há espaço para o homem, Deus mesmo é a casa com muitas moradas da qual fala Jesus (Jo 14, 2). O próprio Deus é a casa do homem, em Deus há espaço de Deus. E Maria, unindo-se a Deus, não se distancia de nós, não vai para uma galáxia desconhecida, mas quem vai a Deus se aproxima, porque Deus está perto de todos nós, e Maria, unida a Deus, participa da presença de Deus, está muito perto de nós, cada um de nós. Há uma bela palavra de São Gregório Magno sobre São Bento que podemos aplicar ainda também a Maria: São Gregório Magno diz que o coração de São Bento tornou-se grande que toda a criação podia entrar neste coração. Isso vale ainda mais para Maria: Maria, unidade totalmente a Deus, tem um coração tão grande que toda a criação pode entrar neste coração, e os testemunhos em todas as partes da terra o demonstram. Maria está perto, pode escutar, pode ajudar, está perto de todos nós. Em Deus, há espaço para o homem, e Deus está perto, e Maria, unida a Deus, está muito perto, tem um coração alargado como o coração de Deus.

Mas tem também outro aspecto: não só em Deus há espaço para o homem; no homem há espaço para Deus. Também vemos isso em Maria, a Arca Santa que porta a presença de Deus. Em nós, há espaço para Deus e nesta presença de Deus em nós, tão importante para iluminar o mundo na sua tristeza, em seus problemas, esta presença se realiza na fé: na fé abrimos as portas do nosso ser para que Deus entre em nós, para que Deus possa ser a força que dá vida e caminho ao nosso ser. Em nós, há espaço, vamos nos abrir como Maria se abriu, dizendo: “Seja realizada a Tua vontade, eu sou serva do Senhor”. Abrindo a Deus, não perdemos nada. Ao contrário: nossa vida torna-se rica e grande.

E assim, fé, esperança e amor se combinam. Existem hoje muitas palavras sobre um mundo melhor a esperar: seria a nossa esperança. Se e quando este mundo melhor vem, não sabemos, não sei. Certo é que um mundo que se afasta de Deus não se torna melhor, mas pior. Só a presença de Deus pode garantir também um mundo bom. Mas deixemos isso. Uma coisa, uma esperança é certa: Deus nos espera, nos aguarda, não caminhamos no vazio, somos esperados. Deus nos espera e encontramos, indo ao outro mundo, a bondade da Mãe, encontramos os nossos, encontramos o Amor eterno. Deus nos espera: esta é a grande alegria e a grande esperança que nasce exatamente desta festa. Maria nos visita, é a alegria da nossa vida e é a esperança da alegria.

O que dizer, portanto? Coração grande, presença de Deus no mundo, espaço de Deus em nós e espaço de Deus para nós, esperança, ser esperados: esta é a sinfonia desta festa, a indicação que a meditação desta Solenidade nos dá. Maria é aurora e esplendor da Igreja triunfante; ela é a consolação e a esperança para o povo ainda em caminho, diz o Prefácio de hoje. Vamos nos confiar à sua materna intercessão, para que o Senhor nos ajude a reforçar nossa fé na vida eterna; nos ajude a viver bem o tempo que Deus nos oferece com esperança. Uma esperança cristã, que não é somente nostalgia do Céu, mas vivo e operoso desejo de Deus aqui no mundo, desejo de Deus que nos torna peregrinos incansáveis, alimentando em nós a coragem e a força da fé que, ao mesmo tempo, é coragem e força no amor. Amém.

 

Como Maria, responder com generosidade a Deus é o ato mais digno da vida humana
Reflexões de Dom Alberto Taveira, Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

A Virgem Maria, Nossa Senhora, chegou à plena realização de todas as potencialidades humanas. Pelos merecimentos de seu Filho amado, foi preservada da mancha do pecado original, viveu nesta terra conduzida pelo chamado de Deus, para depois, ser elevada ao Céu, como professa a fé da Igreja. Na Assunção de Maria, todas as realidades desta terra são assumidas e acolhidas para adquirirem valor de eternidade. Sua presença e seu exemplo resplandecem como sinal luminoso para todos, podendo nela encontrar conforto e força todas as vocações e estados de vida. Olhar para Nossa Senhora estimula a caminhar com segurança, certos de que fomos feitos para o alto e para a felicidade.
No mês das vocações, voltamos o olhar para a aventura humana e religiosa vivida por Maria. Nela vemos realizada a vocação fundamental de todos os seres humanos, pois, em Cristo, Deus nos escolheu, antes da fundação do mundo, para sermos santos e imaculados diante dele, no amor (Cf. Ef 1, 4). Toda a vida de Nossa Senhora se orienta para o seu Filho, Jesus, Verbo de Deus feito carne. Ela se esvazia de si mesma e de seus próprios projetos, para abraçar o caminho da santidade, tornando-se ícone do que todos somos chamados a viver, pois  convidados a percorrer a estrada da resposta fiel a Deus.
O Apóstolo São Paulo, convicto da escolha feita, apresenta-se diante de suas comunidades na inteireza de sua entrega a Deus. Pode, então, abraçar como próprias as atitudes do mesmo Senhor Jesus Cristo: “Pela fidelidade de Deus, eu vos asseguro: a nossa palavra junto de vós não é ‘sim e não’. Pois o Filho de Deus, proclamado entre vós por mim, por Silvano e Timóteo, nunca foi ‘sim e não’, mas somente ‘sim’. Ao contrário, é nele que todas as promessas de Deus têm o ‘sim’ garantido. Por isso, também, é por ele que dizemos ‘amém’ a Deus, para sua glória. É Deus que nos confirma, a nós e a vós, em nossa adesão a Cristo, como também é Deus que nos ungiu. Foi ele que imprimiu em nós a sua marca e nos deu como garantia o Espírito derramado em nossos corações” (2 Cor 2, 18-22). É com igual certeza que ousamos olhar para Maria, Nossa Senhora, a primeira na resposta ao plano de Deus. Que o seu sim se expresse também em nossa vida.
Maria deu o seu sim à vida. Sua existência, desde os primeiros passos e olhares, era voltada para a Palavra do Senhor e para uma vida humana saudável, na pobreza e no escondimento de Nazaré. Foi na escuta da mesma Palavra que se entregou, na oblação total de própria liberdade, tornando-se generosamente escrava da Palavra. Seu sim radical, dado a Deus e a seu plano de salvação, mudou a história da humanidade. “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Responder com generosidade a Deus é o ato mais digno da vida humana. Todas as vezes que alguém dá sua resposta a Deus, atualizando a graça do Batismo, o Espírito Santo vem sobre a pessoa e realiza a sua obra, edificando o bem! Dela queremos aprender a dizer sim!
Quando as incontáveis angústias de nosso tempo tantas vezes nos preocupam, vale a pena tomar consciência de que a vida de Maria foi marcada pelas surpresas do cotidiano e pela dor, visita inconfundível do Senhor. Para que se repita o nosso sim diante das eventuais decepções experimentadas ou as dores e pecados pessoais e sociais,  a mulher do equilíbrio e da firmeza seja vista como sinal. A Igreja identifica sete situações dolorosas, muito semelhantes àquelas vividas por nós. Maria, elevada ao Céu em corpo e alma, levou as cicatrizes da dor, para que ninguém desanime no caminho da perfeição a que somos chamados.
Uma espada a transpassar o coração, na profecia de Simeão (Cf. Lc 2, 21-40). Se um anjo lhe anunciara sua vocação de mãe do Verbo de Deus feito carne, muito cedo entendeu, para cedo amadurecer, o alcance de sua resposta a Deus. Não voltou atrás e acolheu de pé, na obediência, o projeto de Deus em sua vida. De fato, o Senhor não nos engana, prometendo apenas consolações, mas nos abre o horizonte com realismo, para que todos aprendamos a viver.
Com José, Maria soube que seu filho poderia ser morto pelo ódio sanguinário de Herodes (Cf. Mt 2, 13-18). Doeu-lhe o exílio, mas aprendeu e ensina a todas as gerações de cristãos a coragem para manter a fé a qualquer custo. Não é difícil identificar em nossos dias, no mesmo oriente médio, levas de cristãos em fuga por serem cristãos, firmes diante da provação. O mundo parece o mesmo!
A Terceira espada transpassou o coração de Maria quando perdeu seu filho no templo. Teve que compreender que o Jesus de seu coração é Filho do Pai do Céu e tem uma missão que supera todos os laços e afetos humanos (Cf. Lc 2, 41-52). Em sua dor se encontram as perdas humanas e a liberdade com que os pais e mães hão de educar seus filhos, não para si, mas para Deus e para a vida, olhando para frente!
No caminho do Calvário, a Maria discípula se encontra com seu Filho que carrega a cruz. A multidão não entende a profundidade do olhar, santa cumplicidade daquela Mãe que se fez companheira e colaboradora do Redentor. Ali estava presente o silêncio e o assentimento corajoso de tantas pessoas que não se negam a dar a sua colaboração na realização do plano de Deus.
Aos pés da Cruz, quando o Filho único a entrega como Mãe à humanidade chagada, representada por João, Maria experimenta a desolação, dando sua resposta e pronunciando o seu segundo e definitivo sim (Cf. Jo 19, 1-41). Está de pé, mulher madura para o amor e o sofrimento! Testemunha a morte redentora de seu Filho! Em sua coragem resplandece a disposição de todos os que estão prontos a viver a palavra: “Completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo em favor do seu Corpo que é a Igreja” (Cl 1, 24). O que falta é a participação pessoal!
Aquela que recebera o anúncio de uma espada de dor, vê a lança do soldado transpassar o lado de seu Filho exangue, para depois acolher nos braços e conduzir à sepultura o seu corpo. Mais duas espadas, duas dores lancinantes, para se completar o caminho da perfeição e da maturidade!
Maria do sim nos ajude a percorrer a estrada da maturidade humana e cristã. Sua vida, assunta ao Céu, seja o sinal para nossa caminhada.

Abençoados sejam nossos pais!

EXEMPLO PATERNO

“O Senhor quer que o pai seja honrado pelos filhos… Honre a seu pai em atos e palavras, para que a bênção dele venha sobre você” (Eclesiástico 3, 2 e 8).

Mesmo que atualmente a figura paterna seja menosprezada pelo mundo, a presença do pai é essencial na edificação de um lar. A graça de ser pai é uma missão confiada por Deus para que o homem seja fonte de referência na família através de seus exemplos de dedicação, acolhida, consolo, amor, perdão e fé. Na maioria dos casos, o filho imita o seu pai, tanto nos bons quanto nos maus exemplos. Por isso, cabe ao pai a imensa responsabilidade de orientar corretamente seus filhos. E aos filhos, cabe honrá-lo através de atos e palavras, fazendo frutificar a semente dos ensinamentos cultivada por ele. Que Deus ilumine a todos vocês que são pais para que desempenhem da melhor maneira possível a sua missão.

 

ABENÇOADOS SEJAM NOSSOS PAIS
Dom Orani João Tempesta, O. Cist., arcebispo do Rio de Janeiro

Neste segundo domingo de agosto comemoramos o Dia dos Pais, mesmo sabendo que todos os dias devem ser dedicados aos pais e à valorização do ingente papel paterno na família, constituída pelo casamento do homem com a mulher, dentro da convocação da Igreja, para terem filhos e os educarem na fé. Na comunidade família, o pai é chamado a viver o seu dom. Por isso mesmo recordamos que nesse mesmo domingo rezamos pela vocação matrimonial e iniciamos a Semana Nacional da Família. A paternidade começa no compromisso de vida do marido para com sua esposa, baseando-se no amor desinteressado e generoso. Descobrir a beleza de colaborar no plano da criação e se responsabilizar pelo futuro é por demais belo para que não contemplemos essa bonita missão recebida de Deus! Os filhos e filhas devem ter a oportunidade de reconhecer no pai a presença do amor, da escuta e do apoio oportuno para o seu crescimento, para se tornarem pessoas que experimentem o amor e vivam com equilíbrio a vida humana e com conhecimento dos seus direitos e responsabilidades. Também receberão o apoio para alcançar a auto-estima, a autêntica autonomia e independência para compartilhar e celebrar os seus sucessos, e dar conforto quando confrontado com o fracasso. Os pais não serão julgados pelo valor dos bens materiais que eles possam ou devam proporcionar a seus filhos: o que realmente importa é a forma como o Pai orienta seus filhos para Jesus Cristo e qual o papel de modelo de fidelidade de valores ele realmente apresenta no seio de sua família. Neste sentido, o pai é chamado a assegurar o desenvolvimento harmonioso e de união entre todos os membros da sua família e partilha com a esposa a formação dos filhos. Porém compartilhamos também as angústias de muitos pais, que hoje, frente às frustrações da procura por emprego, ou de desejo de dar o melhor pela sua família, sem poder fazê-lo olham com preocupação a vida de sua família e o futuro de seus filhos. Aqui temos a necessidade de uma sociedade mais justa e solidária que devemos construir com a nossa participação. Deus é a fonte da vida e do amor em que a família vive no mundo de hoje. O Papa Paulo VI já nos recordava na Encíclica Humanae Vitae que o casamento “não é efeito do acaso ou do produto da evolução de forças naturais inconscientes: é uma instituição sapiente do Criador para realizar na humanidade o seu desígnio de amor” (HV 8). Daí que na missão de pai este é convidado a frutificar e ter a vida ao máximo, exercendo sua função específica biológica e psicológica no contexto da família. Mais do que nunca hoje notamos a necessidade desse equilíbrio familiar e o papel do Pai na formação humana de seus filhos. Não se pode abdicar dessa obrigação fundamental da célula da sociedade que é a família e a missão que esta tem no presente e futuro da sociedade. Para os cristãos isso se reveste de uma vocação e conta com a graça de Deus para que possa corresponder ao chamado de Deus para bem desempenhá-la. Em resumo poderíamos dizer que a missão do Pai é uma vocação, em última instância, do próprio matrimônio. Este significa uma união de pessoa com todos os seus valores, e tudo o que deve representar a medida de sua própria dignidade. Todo homem e toda mulher devem doar-se mutuamente em dom sincero de si, através das expressões de sua masculinidade e de feminilidade, o que transpassará certamente para o seu relacionamento com os filhos que virão de sua união. A família é desafiada com variados problemas urgentes e inúmeros ataques e crises que são, na verdade, provocados pelas tendências de uma sociedade em mudança. Portanto, é importante lembrar que os cônjuges têm uma importante missão na educação dos seus filhos, passando-lhes valores e nobres ideais. Neste contexto, surge o conceito de Pai como serviço no amor, conforme nos recorda o Papa Paulo VI: “na tarefa de transmitir a vida, os pais não são livres para procederem à vontade, como se pudessem determinar de forma totalmente autônoma as vias honestas a seguir, mas devem conformar a sua atividade de acordo com a intenção criadora de Deus, expressa na própria natureza do matrimônio e de seus atos”. A criança não pode exercer certas fases de sua maturidade psicológica sem a ajuda paterna, que a ajuda a ousar e a enfrentar as adversidades da vida. O pai educa principalmente pela sua conduta pessoal, que consigo também carrega os variados aspectos da sua própria identidade. Os filhos e também filhas olham para a figura paterna muito mais do que apenas uma extensão de seus conhecimentos limitados. Olham para seus gestos, suas expressões e para o seu testemunho. Procuram neste um valor e um sentido de suas vidas, que encontrarão, certamente, na realidade das coisas, na vida que se apresentará diante deles, um dia. Em suma, a paternidade é um “link” para as consciências dos filhos, que os orienta na condução moral e nos princípios éticos de suas existências. Rogamos hoje a São José, como modelo de pai, que abraçou por inteiro as suas responsabilidades e que ressalta sempre em nós a sua firmeza e sua perseverança, confiando sempre em Deus. Imagens de São José com frequência o retratam segurando uma régua de carpinteiro, mas que podem muito bem simbolizar não só o seu ofício, mas também a sua capacidade de governar e medir as suas posições como homem de família e como pessoa de fé. São Bento, grande mestre da espiritualidade, diz que o abade de um mosteiro tem que mostrar a atitude dura de um mestre e a ternura de um pai. O mesmo deveria se aplicar aos pais de família. Devem ser tanto carinhosos com seus filhos, enquanto agem com firmeza em sua educação. Auguro que os pais de nossa Arquidiocese e do Brasil possam transmitir as verdades da nossa fé católica aos seus filhos e dar um bonito testemunho de discipulado e missionariedade, para que a sua família, rezando e celebrando unidos a sua fé, seja a autêntica Igreja doméstica, parcela da Igreja de Cristo. Que Deus abençoe todos os pais!

 

DO CORAÇÃO DOS PAIS PARA O CORAÇÃO DOS FILHOS
Monsenhor Jonas Abib

Você pai, tem de provocar, tem de fazer coisas, tem de pedir a Deus a arte, a graça, de fazer com que os seus filhos sejam apaixonados por você. Você precisa! Não basta amar! É preciso que os seus filhos sintam que você os ama. Não basta “fazer coisas”. É preciso que eles sintam que são amados.

Eu até digo para muitos pais e muitas mães: larguem de dar coisas! Larguem de “pensar no futuro”, para dar mais coisas no futuro, e cada vez mais coisas no futuro. Larguem de dar coisas! Os seus filhos precisam de amor e de serem excitados para o amor. Não dêem mais coisas! Não comprem mais os seus filhos. Não os “entuchem” mais lhes dando coisas, roupas, moto, carro… Isso não resolve! Eu repito: não resolve.

“Não basta amar! É preciso que os seus filhos sintam que você os ama”

Mude. Mude radicalmente. Peça hoje, peça agora a Dom Bosco educador, a Nossa Senhora Auxiliadora, a mestra de Dom Bosco, peça a Jesus, o Mestre dos mestres, Aquele que disse: “Amai-vos uns aos outros”, peça-Lhe um coração de educador, de educadora, um coração de pai, um coração de mãe. Porque, infelizmente, o mundo deformou o seu coração. Este mundo consumista ensinou a você e o levou (e os seus colegas o ajudaram nisso) a querer “comprar” os outros. Talvez você tenha sido uma pessoa comprada por outros. Fizeram isso com você: o compraram com coisas. Compraram você com as coisas que queria, mas também com as coisas que você não queria. E você viveu na base do consumo. Por isso você vive um amor na base do consumo: dando coisas e tentando angariar amor agindo assim.

E, na verdade, eu lhe digo: esses filhos só fazem desaforo. Só dão ingratidão e decepção para nós. Filho que recebeu, recebeu e recebeu coisas, só dá “coice” no pai e na mãe! Quem muito recebe coisas devolve em forma de “coice”! O filho que muito recebe coisas só acaba devolvendo “coice”!

Se você pai, mãe, não quer continuar levando “coice” de seus filhos não lhes dê mais coisas. Não compre mais o seu filho. Não fique preocupado em trabalhar, trabalhar, trabalhar, para dar, para dar, para dar… Não! Ame e provoque o amor.

Mesmo que você tenha de passar um tempo em “jejum”, ou seja, sem dar coisas. Seu filho e sua filha ficarão admirados. Eles irão estranhar e dirão: “Meu pai e minha mãe viviam me dando coisas, mas agora pararam… O que aconteceu? Será que meu pai não gosta mais de mim? Será que ele não tem mais dinheiro? Será que ele entrou em depressão? Será que a minha mãe ‘pirou’?”

Vai valer a pena, talvez, um tempo de “jejum” até que seu filho estranhe (estou lhe dando lições muito concretas!) e daqui a pouco você começa a amar de uma maneira diferente. E daí você sabe do que o seu filho, a sua filha, gosta. E que não são “coisas”. Todo filho gosta de presença. Gosta de uma mão na cabeça. Gosta de um gesto, de uma cama arrumada (que não é coisa que você está dando!), gosta de um bilhete, de uma flor. Gosta até mesmo de uma comida, de um jeito de arrumar os pratos, de ficar junto, de ouvir, de chamar para trabalhar junto. […]

Ame porque você é capaz de amar. Ame e faça com que seus filhos sintam que você os ama. […] E eu digo para você: ame com gestos. Gesto é gesto. Gesto não é coisa! Ame com gestos.

 

“Não um amigo, mas apenas pai”
Flavio Insinna homenageia o pai ao apresentar sua autobiografia no Fiuggi Family Festival
Luca Marcolivio

FIUGGI, Itália, sexta-feira, 27 de julho de 2012 (ZENIT.org) – Apesar de o clichê de que “o tempo cura todas as feridas”, a morte de um ente querido é uma marca indelével no coração de qualquer pessoa. A experiência universal da morte do pai torna-se única e especial na obra do ator e apresentador de televisão italiano Flavio Insinna, que narra seu drama no livro autobiográfico Neanche con un morso all’orecchio [Nem com uma mordida na orelha, em tradução livre] (Mondadori, 2012, em italiano). Insinna compartilhou o seu depoimento nesta semana com o público do Fiuggi Family Festival, superando o difícil desafio de evitar as lágrimas fáceis e conservando a abordagem irônica. Durante a conversa com a apresentadora Julie Arlin, Insinna traçou a personalidade do pai, Salvatore, médico de origem siciliana, muitas vezes duro e severo na forma, mas generosíssimo em espírito. O artista fala da extraordinária dedicação de seu pai pela família e pelos pacientes, em prol dos quais, até os últimos momentos da vida, ele foi literalmente se “consumindo”. “Ele dizia que um médico de família tem que saber tudo da família, cada problema humano deles, e que o paciente vira uma criança, porque tem medo: por isso, o sorriso do médico é fundamental”. “Ele se importava muito com o nosso estudo e com a nossa formação”, prossegue Insinna, “e costumava dizer para os filhos: ‘você tem que viver a vida como se fosse o último dia e estudar como fosse viver para sempre’. E recomendava ler uma página por dia, do que quer que fosse”. O casamento dos pais de Flavio Insinna durou mais de cinquenta anos, não “porque eram outros tempos, mas porque os meus pais eram pessoas de outros tempos. Muita gente que leu o meu livro me disse que eu tive sorte de ter uma família tão unida. O meu pai sabia pegar as coisas ordinárias em família e transformá-las em coisas extraordinárias: ele nos ensinou a ser pessoas decentes, sem ser moralistas”. Do falecido pai, Insinna recordou comovido as várias vezes em que recebeu dele um “não”, além das renúncias que o ajudaram a crescer. “Ele nunca quis ser ‘amigo’, mas apenas pai. E nunca me deu ‘descontos’. Ele me educou para estar sempre me superando”. “Um dia, ele me disse: ‘filho, você acha que teria sido mais fácil dizer sempre que sim? Se uma pessoa sempre diz que sim, aquilo é bom durante algum tempinho, mas depois, no fundo, você tem a sensação de que ela não lhe dá a mínima’”. “Ele me dizia sempre: ‘filho, o dilúvio não está vindo em cima de você’, querendo me dizer para não pensar só em mim, para olhar para os outros e para as necessidades dos outros. Não existe só o ‘eu’, mas também o ‘nós’”. “Uma vez eu disse que também podia ter sido médico, e ele me respondeu que nós teríamos tido que pagar um bom advogado para cada paciente que eu teria matado… Ele me via mesmo como advogado”. A opção de Flavio pela carreira artística não foi compartilhada inicialmente pela família. Mas, com o tempo, as coisas mudaram. “Volta e meia, eu fazia o meu pai ler os scripts, e o último telefonema antes de subir no palco e logo depois era sempre para os meus pais”. Insinna acredita que, involuntariamente, o pai o tenha encaminhado para a carreira teatral, já que “ele tinha um talento extraordinário para contar histórias com um grande timing cômico”. Da relação do pai com a fé, Insinna declarou: “Ele era um homem da ciência e, no começo, acreditava pouco. Mas mamãe, como aquela gota que vai furando a pedra, o envolveu cada vez mais, fazendo com que ele fosse à missa e convivesse mais com os padres”. “Católico ou não, ele sempre tentou trazer alegria para a nossa vida. Mas se nós conseguimos nos dar ao luxo de discutir durante anos e mesmo assim permanecer unidos, o mérito foi da mamãe e do grande amor que ela sempre colocou em tudo”. No fim do encontro, Insinna reconheceu a impossibilidade de apagar uma dor tão grande como a da morte de um pai. “Não faz sentido dizer num funeral que ‘é a vida’. Como você diz isso na frente da morte? E outro absurdo é falar de uma pessoa morta dizendo que ‘ele já era velho’”. Depois de um luto tão difícil, “você continua vivendo com dignidade, mas o vazio que um ente querido deixa é um buraco que vai crescendo dia após dia. É uma dor que eu acho que Alguém vai me explicar quando eu mesmo passar para a melhor vida…”. [Trad. ZENIT]

 

O PAI NUNCA DESISTE

Havia um homem muito rico, possuía muitos bens, uma grande fazenda, muito gado e vários empregados. Tinha ele um único filho, que, ao contrário do pai, não gostava de trabalho nem de compromissos. O que ele mais gostava era de festas, estar com seus amigos e de ser bajulado por eles. Seu pai sempre o advertia que seus amigos só estavam ao seu lado enquanto ele tivesse o que lhes oferecer, depois o abandonariam. Os insistentes conselhos do pai lhe retiniam os ouvidos e logo se ausentava sem dar o mínimo de atenção.
Um dia o velho pai, já avançado na idade, disse aos seus empregados para construírem um pequeno celeiro e dentro do celeiro ele mesmo fez uma forca, e junto a ela, uma placa com os dizeres: “Para você nunca mais desprezar as palavras de seu pai”. Mais tarde chamou o filho, o levou até o celeiro e disse:
– Meu filho, eu já estou velho e quando eu partir, você tomará conta de tudo o que é meu, e sei qual será o seu futuro. Você vai deixar a fazenda nas mãos dos empregados e irá gastar todo dinheiro com seus amigos, irá vender os animais e os bens para se sustentar, e quando não tiver mais dinheiro, seus amigos vão se afastar. E quando você não tiver mais nada, vai se arrepender amargamente de não ter me dado ouvidos. É por isso que eu construí esta forca; sim, ela é para você, e quero que me prometa que se acontecer o que eu disse, você se enforcará nela.
O jovem riu, achou absurdo, mas, para não contrariar o pai, prometeu e pensou que jamais isso pudesse ocorrer.
O tempo passou, o pai morreu e seu filho tomou conta de tudo, mas assim como se havia previsto, o jovem gastou tudo, vendeu os bens, perdeu os amigos e a própria dignidade. Desesperado e aflito, começou a refletir sobre a sua vida e viu que havia sido um tolo, lembrou-se do pai e começou a chorar e dizer:
– Ah, meu pai, se eu tivesse ouvido os teus conselhos, mas agora é tarde, é tarde demais.
– Pesaroso, o jovem levantou os olhos e longe avistou o pequeno celeiro, era a única coisa que lhe restava. A passos lentos se dirigiu ate lá e, entrando, viu a forca e a placa empoeirada e disse:
– Eu nunca segui as palavras do meu pai, não pude alegrá-lo quando estava vivo, mas pelo menos esta vez vou fazer a vontade dele, vou cumprir minha promessa, não me resta mais nada. Então subiu nos degraus e colocou a corda no pescoço e disse:
– Ah! se eu tivesse uma nova chance …
E pulou, sentiu por um instante a corda apertar sua garganta, mas o braço da forca era oco e quebrou-se facilmente, o rapaz caiu no chão, e sobre ele caíram jóias, esmeraldas, pérolas, diamantes.
A forca estava cheia de pedras preciosas, e um bilhete que dizia:
– Essa é a sua nova chance. Eu te Amo muito.
Seu Pai

– Isso é o que faz nosso maravilhoso Pai: Deus.

E para você papai: feliz dia dos Pais!

 

Este homem que admiramos tanto, com todas as suas virtudes e também com seus limites. Este homem com olhar de menino, sempre pronto e atento, mostrando-nos o caminho da vida, que está pela frente.

Este mestre contador de histórias traz em seu coração tantas memórias, espalha no nosso caminhar muitas esperanças, certezas e confiança.

Este homem alegre e brincalhão, mas também, às vezes, silencioso e pensativo, homem de fé e grande luta, sensível e generoso.

O abraço aconchegante a nos acolher, este homem, pai, com quem aprendemos a viver. Pai, paizinho, paizão… nosso velho, grande amigão, conselheiro e leal amigo: infinito é teu coração.

Obrigado, pai, por orientar nosso caminho, feito de lutas e incertezas mas também de muitas esperanças e sonhos…

 

O Pai e a Família

Neste domingo celebramos o Dia dos Pais! Dentro da comunidade família, o pai é chamado a viver o seu dom. Os pais são planos de Deus para a família. Esta comemoração, que veio através da sociedade civil, nos ajuda a valorizar no âmbito religioso a vida familiar. Apesar da exploração comercial deste dia, a Igreja no Brasil, neste mês vocacional, recorda a vocação à vida em família. Por isso mesmo começamos a viver também nesse dia a Semana Nacional da Família. Hoje, ultrapassamos a ideia do chamado pai provedor, enquanto ele é capaz de trabalhar, até arduamente, para abrigar sua família, colocar comida na mesa e pagar as contas no final do mês. A paternidade começa no compromisso de vida do marido para com sua esposa, baseando-se no amor desinteressado e generoso.
Os filhos e filhas devem reconhecer no pai a presença do amor, da escuta e do apoio oportuno para o seu crescimento, para se tornarem pessoas com conhecimento dos seus direitos e responsabilidades; o apoio para alcançar a auto-estima, a autêntica autonomia e independência e também para compartilhar e celebrar os seus sucessos, e dar conforto quando confrontado com o fracasso. O que conta para o cristão é a forma como o Pai orienta seus filhos para Jesus Cristo, e qual o papel de modelo de fidelidade de valores ele realmente quer apresentar no seio de sua família. Neste sentido, o pai é chamado a assegurar o desenvolvimento harmonioso e de união entre todos os membros da sua família. Deve partilhar com a esposa a formação dos filhos. Podemos afirmar que a paternidade é própria de uma verdadeira espiritualidade da família. Deus é a fonte da vida e do amor em que a família vive no mundo de hoje. O saudoso Papa Paulo VI já nos recordava na Encíclica Humanae Vitae que o casamento “não é efeito do acaso ou do produto da evolução de forças naturais inconscientes: é uma instituição sapiente do Criador para realizar na humanidade o seu desígnio de amor (HV 8). Daí que, na missão de pai, este é convidado a frutificar e ter a vida ao máximo, exercendo sua função específica biológica e psicológica no contexto da família.
Poderíamos dizer que a missão do Pai é uma vocação, em última instância, do próprio matrimônio. Este significa, antes de tudo, a união de uma pessoa com todos os seus valores e tudo o que deve representar a medida de sua própria dignidade. Todo homem e toda mulher deve doar-se mutuamente em dom sincero de si, através das expressões de sua masculinidade e de feminilidade, o que transpassará certamente para o seu relacionamento com os filhos que virão de sua união. A família é sempre desafiada com variados problemas urgentes, que são, na verdade, provocados pelas tendências de sua secularização. Neste contexto, surge o conceito de Pai como serviço no amor.
Novamente nos adverte Paulo VI: “na tarefa de transmitir a vida, os pais não são livres para procederem à vontade, como se pudessem determinar, de forma totalmente autônoma, as vias honestas a seguir, mas devem conformar a sua atividade de acordo com a intenção criadora de Deus, expressa na própria natureza do matrimônio e de seus atos”. A criança não pode exercer certas fases de sua maturidade psicológica sem a ajuda paterna, que a ajude a ousar e a enfrentar as adversidades da vida. O pai educa principalmente pela sua conduta pessoal, que consigo também carrega os seus variados aspectos da masculinidade do ser humano.
Os filhos e filhas olham para a figura paterna muito mais do que apenas como uma extensão de seus conhecimentos limitados. Olham para seus gestos, suas expressões e para o seu testemunho. Procuram neste um valor e um sentido de suas vidas, que encontrarão, certamente, na realidade das coisas, na vida que se apresentará diante deles, um dia. Em suma, a paternidade é um “link” para as consciências dos filhos, que os orienta na condução moral e nos princípios éticos de suas existências. Roguemos, hoje, a São José, como modelo de pai que abraçou por inteiro as suas responsabilidades, ressaltando a sua firmeza e sua perseverança, confiando sempre em Deus e no seu plano. Quantos pais estão diante das frustrações da procura por emprego, ou de desejo de dar o melhor pela sua família, sem poder fazê-lo! São Bento, grande mestre da espiritualidade, diz que o abade de um mosteiro tem que mostrar a atitude dura de um mestre e a ternura de um pai. O mesmo deveria se aplicar aos pais de família. Devem ser tanto carinhosos com seus filhos, enquanto agem com firmeza em sua educação.
Que a Semana Nacional da Família nos ajude a apresentar a beleza da vida em família cristã que procura ouvir a voz de Deus e colocar em prática a Sua Palavra. Eis um belo momento de apresentar ao mundo a importância e a necessidade das famílias cristãs e a proposta de sua presença na sociedade!
† Orani João Tempesta, O. Cist.  
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

O Matrimônio e a Família no Plano de Deus

1. O que ensina a Igreja sobre a família?

A Igreja ensina que a família é um dos bens mais preciosos da humanidade.

2. Por que é um bem tão precioso?

A família é um dom precioso porque forma parte do plano de Deus para que todas as pessoas possam nascer e desenvolver-se em uma comunidade de amor, ser bons filhos de Deus neste mundo e participar na vida futura do Reino dos Céus: Deus quis que os homens, formando a família, colaborem com Ele nesta tarefa.

3. Onde estão revelados os planos de Deus sobre o matrimônio e a família?

Nas Sagradas Escrituras -a Bíblia-, se narra a criação do primeiro homem e da primeira mulher: Deus os criou a sua imagem e semelhança; os fez varão e mulher, os abençoou e os mandou crescer e multiplicar-se para povoar a terra (cf. Gn 1, 27). E para que isto fosse possível de um modo verdadeiramente humano, Deus mandou que o homem e a mulher se unissem para formar a comunidade de vida e amor que é o matrimônio (cf. Gn 2, 19-24).

4. Que benefícios traz formar uma família como Deus manda?

Quando as famílias se formam segundo a vontade de Deus, são fortes, sanas e felizes; possibilitam a promoção humana e espiritual dos seus membros contribuindo à renovação de toda a sociedade e da mesma Igreja.

5. Como ajuda a Igreja aos homens para conheçam o bem da família?

A Igreja oferece sua ajuda a todos os homens recordando-lhes qual é o desígnio de Deus sobre a família e sobre o matrimônio. Corresponde de modo especial aos católicos compreender e dar testemunho dos ensinamentos de Jesus neste campo.

6 . Como é possível realizar plenamente o projeto de Deus sobre o matrimônio e a família?

Somente com a ajuda da graça de Deus, vivendo de verdade o Evangelho, é possível realizar plenamente o projeto de Deus sobre o matrimônio e a família.

7. Por que existem tantas famílias quebradas ou com dificuldades? Por que às vezes parece tão difícil cumprir a vontade de Deus sobre o matrimônio?

Adão e Eva pecaram desobedecendo a Deus e desde então todos os homens nasceu com o pecado original. Este pecado e os que cada pessoa comete tornam fazem que seja difícil conhecer e cumprir a vontade de Deus sobre o matrimônio Por isso Jesus Cristo quis vir ao mundo: para redimir-nos do pecado e para que pudéssemos viver como filhos de Deus nesta vida e alcançar o Céu. É necessária a luz do Evangelho e da graça de Cristo para devolver ao homem, e também ao matrimônio e à família, sua bondade e beleza originais.

8. Quais são as conseqüências para a sociedade por não cumprir o plano de Deus sobre a família e o matrimônio?

Quando a infidelidade, o egoísmo e a irresponsabilidade dos pais com respeito aos filhos são as normas de conduta, toda a sociedade se vê afetada pela corrupção, pela desonestidade de costumes e pela violência.

9. Qual é a situação da família e nossa sociedade?

As mudanças culturais das últimas décadas influenciaram fortemente no conceito tradicional da família. Entretanto, a família é uma instituição natural dotada de uma extraordinária vitalidade, com grande capacidade de reação e defesa. Não todas estas mudanças foram prejudiciais e por isso o panorama atual sobre a família se pode dizer que está composto de aspectos positivos e negativos.

10. Quais aspectos positivos se notam em muitas famílias?

O sentido cristão da vida influenciou muito para que em nossa sociedade se promova cada vez mais: uma consciência mais viva da liberdade e responsabilidades pessoais no seio das famílias; o desejo de que as relações entre os esposos e dos pais com os filhos sejam virtuosas; uma grande preocupação pela dignidade da mulher; uma atitude mais atenta à paternidade e maternidade responsáveis; um maior cuidado com a educação dos filhos; uma maior preocupação pelas famílias para que se relacionem e se ajudem entre si.

11. Quais aspectos negativos encontramos nas famílias do nosso país?

São muitos e todos eles revelam as conseqüências que provoca o rechaço do amor de Deus pelos homens e mulheres da nossa época. De modo resumido podemos indicar: uma equivocada concepção da independência dos esposos; defeitos na autoridade e na relação entre pais e filhos; dificuldades para que a família transmita os valores humanos e cristãos; crescente número de divórcios e de uniões não matrimoniais; o recurso fácil à esterilização, ao aborto e a extensão de uma mentalidade anti-natalista muito difundida entre os matrimônios; condições morais de miséria, insegurança e materialismo; a emergência silenciosa de grande número de crianças de rua fruto da irresponsabilidade ou da incapacidade educativa dos seus pais; grande quantidade de pessoas abandonadas pela falta de famílias estáveis e solidárias.

12. O que podemos fazer para que os sinais negativos não prevaleçam?

A única solução eficaz é que cada homem e cada mulher se esforcem para viver nas suas famílias os ensinamentos do Evangelho, com autenticidade. O sentido cristão da vida fará que sempre prevaleçam os sinais positivos sobre os negativos, por mais que estes nunca faltem.

13. Jesus Cristo nos deu algum exemplo especial sobre a família?

Sim, porque Jesus Cristo nasceu em uma família exemplar; seus pais foram José e Maria. Ele os obedeceu em tudo (cf. Lc 2, 51) e aprendeu deles a crescer como verdadeiro homem. Assim pois, a família de Cristo é exemplo e modelo para toda família.

14. Estes ensinamentos são válidos para a família dos dias de hoje?

Os exemplos da Sagrada Família alcançam os homens de todas as épocas e culturas, porque o único modo de conseguir a realização pessoal e a dos seres amados é criar um lar onde a ternura, o respeito, a fidelidade, o trabalho, o serviço desinteressado sejam as normas de vida.

15. Quem deve sentir-se responsável por fortalecer a instituição familiar?

Cada homem é responsável de uma maneira ou de outra pela sociedade em que vive, e portanto da instituição familiar, que é o seu fundamento. Os casados, devem responder pela família que formaram para que seja segundo o desígnio de Deus: os que permanecem solteiros, devem cuidar daquela na qual nasceram. Os jovens e adolescentes têm uma particular responsabilidade de prepararem-se para construir estavelmente sua futura família.

Fonte: Catecismo da família e do matrimônio
Padres Fernando Castro e Jaime Molina  

 

Se nos amamos e vamos nos casar, por que não podemos ter relações?
“A relação sexual dentro do matrimônio defende a integridade do amor: seja a dos cônjuges entre si, seja o amor deles para com o fruto natural do matrimônio: o filho”
Roma,  12 de Agosto de 2013  (Zenit.org)  Pe. Anderson Alves

Essa é uma pergunta que alguns namorados cristãos comprometidos se fazem. Se eles sentem um amor real, por que não podem expressá-lo num gesto de intimidade que poderia ajudar a crescer o afeto entre os dois? Se a união corporal será comum dentro de pouco tempo, por que não iniciá-la quando o amor parece já ser maduro? Certamente, a maioria dos cristãos aceita que uma relação realizada por pessoas que mal se conhecem é irresponsável e pecaminosa. Mas não seria exagerado dizer o mesmo do ato realizado por namorados sinceros, fiéis e que estão (quase) decididos a se casar?

Para responder a essa questão é preciso lembrar que a Igreja não tem autoridade para mudar o que Deus revelou. A Palavra de Deus é sempre viva e eficaz, é uma luz que guia nossos passos. E ela ensina: “O corpo não é para a fornicação, e sim para o Senhor, e o Senhor é para o corpo”; “Fugi da fornicação. Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o impuro peca contra o seu próprio corpo”[1]. Esses textos expressam o valor altíssimo do corpo humano, que é templo do Espírito Santo, e não algo que possa ser usado ou abusado. E a fornicação (ato sexual fora do casamento) é um ato pecaminoso, porque reduz o valor do corpo humano ao de uma coisa, a algo utilizável. As relações sexuais não são meros atos físicos, mas devem ser expressão de algo mais profundo: a doação total e incondicional de uma pessoa a outra. E essa doação é real e se concretiza com o pacto matrimonial. Por isso, o ato sexual é bom quando busca o bem do casal e está aberto à transmissão da vida[2]. Esses são os dois fins do matrimônio.

Mas como aceitar isso nos nossos dias? Há algum motivo racional que poderia convencer-nos da verdade desses ensinamentos? Cremos que há vários motivos. Apresentamos agora alguns.

1. A relação sexual dentro do matrimônio defende especialmente a mulher e o possível fruto dessa relação: o filho. Se a geração de um filho se dá antes do matrimônio, o que geralmente ocorre? Esse novo ser passa a ser visto mais como um problema do que como um dom. Pois a concepção de um filho não obriga ao homem (o pai) a se casar. Se o pai é reto e tem um sentido apurado de justiça, manterá suas obrigações financeiras para com esse filho e para com a mulher. Mas isso não basta para a criança. Cada filho tem o direito de nascer dentro de um matrimônio sólido, no qual os pais busquem a felicidade juntos. Dentro do matrimônio, o filho é seu fruto natural, está protegido social e juridicamente e é naturalmente visto como um dom, e não como um fruto indesejável;

2. Em geral, quem vive a castidade no namoro terá menos dificuldades de viver a fidelidade ao matrimônio. Hoje em dia, o “permissivismo” moral é grande. A “educação sexual” transmitida pelos meios de comunicação e, às vezes, pelas escolas, diz somente: “faça o que você quiser, desde que seja com preservativos e escondido dos seus pais”. Para vencer nesse ambiente hostil e irresponsável é necessária uma verdadeira educação à castidade, que é a proteção do amor autêntico. E o período de namoro serve para isso: para que o casal cresça no conhecimento mútuo, elabore projetos comuns e adquira virtudes indispensáveis para a vida matrimonial. Se o casal vive bem esse período, sem chegar a ter intimidades próprias da vida matrimonial, passará por uma verdadeira escola de castidade e de fidelidade. Constatamos que pecar contra a castidade antes do matrimônio é tão fácil quanto pecar contra a fidelidade dentro dele. Assim, estará mais preparado para viver a fidelidade quem se preparou bem antes, vivendo a castidade no namoro;

3. O amor matrimonial não se reduz a um exercício físico, mas é a comunhão total de vida. Certa vez, disse Chesterton: «Em tudo que vale a pena, até em cada prazer, há um ponto de dor ou tédio que deve ser preservado, para que o prazer possa reviver e durar. A alegria da batalha vem depois do primeiro medo da morte; a alegria em ler Virgílio vem depois do tédio de aprendê-lo; o brilho no banhista vem depois do choque gelado do banho do mar; e o sucesso do casamento vem depois da decepção com a lua-de-mel»[3]. O que diz esse autor, que foi um homem bem casado por muitos anos, é uma verdade comprovável. O prazer do ato sexual certamente existe, mas não é tudo na vida matrimonial. O ato sexual é, como todo ato humano, sempre ambíguo, pois ao mesmo tempo em que realiza quem o faz, causa certa frustração, porque o coração humano é feito para o infinito e não se contenta com atos singulares. Todo jovem deve reconhecer isso, que faz parte de todo processo de maturação, e o ideal é que isso ocorra dentro do matrimônio. Só quem supera a “decepção” inicial pode ser feliz no matrimônio, pois a felicidade vem de Deus, do amor fiel e responsável renovado diariamente em atos de doação mútua. O amor não é o mesmo que o prazer, mas é uma entrega voluntária e fiel, que supera todas as dificuldades.

4. Boa parte dos casais que fazem planos sérios de casamento acabam por se separar antes que isso se realize. Nem o namoro e nem o noivado dão ao casal o mesmo nível de comprometimento um com o outro que só dá o matrimônio. Por isso, quem tem relações sexuais antes do casamento corre o sério risco de se entregar a alguém com quem, ao fim, não se unirá sacramentalmente. E tal pecado sempre marca profundamente a alma e traz sérias consequências (principalmente afetivas), ainda que seja plenamente perdoado por Deus após uma boa Confissão.

Nos tempos atuais as pessoas “usam” o sexo como se fosse um jogo. E o que ocorre? Cada vez menos pessoas adquirem a capacidade de fazer escolhas definitivas, cada vez menos pessoas se casam. O ato matrimonial, ao qual Deus quis unir um prazer sensível, deve produzir um prazer superior, de natureza espiritual: a alegria de saber que se está cumprindo a vontade de Deus. E o ato de gerar um filho é algo de milagroso, no qual se dá a união das partes materiais provenientes dos pais e a criação de uma nova alma humana, diretamente por Deus. O prazer que os pais têm ao saber que estão colaborando com Deus é algo único.

A resposta à pergunta diz, portanto, que o amor não é somente um sentimento vago, nem mesmo se reduz ao prazer. Mas é algo bem prático e exigente, que implica a vontade concreta de colaborar com os planos de Deus, que concebeu o ato matrimonial como a expressão perfeita de uma doação integral de duas pessoas, um homem e uma mulher, colaborando assim com a mesma obra criadora de Deus.

[1] 1Cor 6, 13 e 18; cfr.: Tob 4, 13; At 21, 25; Ef 5, 3.
[2]  Cfr. Catecismo da Igreja Católica, § 2361-2363.
[3] Chesterton, O que há de errado no mundo, EditoraEcclesiae,Campinas2012.

 

O pai como primeiro evangelizador

Seis horas da manhã, hora de levantar e se preparar para o trabalho e para a escola. Após o corre-corre para achar os brincos, pegar o material e o lanche todos estão no carro a caminho da escola. Ao invés de ligar o rádio do carro o pai inicia uma breve oração de entrega do dia a Deus e é seguido por cada um dos filhos; todos então rezam uma Ave-Maria e um Pai-Nosso e o dia está oficialmente começado.
Sete horas da noite e ao retornar para casa o pai beija a mãe e começa a ouvir com atenção o relato do dia da mãe e de cada filho. Logo o jantar está pronto e todos estão à mesa aguardando que o pai inicie a oração de ação de graças pelo dia e pelo alimento. Fala-se de tudo, da escola, do trabalho, das provocações de um filho com o outro, um trabalho da escola por fazer e quando há espaço comenta-se alguma leitura da missa do dia no contexto da vida dos pais e dos filhos. Chegada a hora o pai carinhosamente dá a benção a cada filho que se recolhe em seu quarto para dormir. Vivendo o evangelho do dia-a-dia o pai vai permeando a vida dos filhos e da esposa com a presença de Deus, construindo assim, de forma concreta, o reino de Deus aqui na terra.

Como é bom ter filhos adolescentes
Mais uma vez olhei para os meus filhos sentados à mesa para jantar e me apaixonei por aqueles olhares. Olhares não para mim, mas para a mãe que os servia um delicioso franguinho.
Então pensei que benção era a vida de cada um ali e como seria difícil viver sem esses olhares.
Vocês pensaram em crianças pequeninas? Não é bem isto que eu tenho. São 4 adolescentes.
Pensaram naquela cena da Santa Ceia com todos em volta da mesa com aquela cara de piedade? Também erraram.
É difícil Termos momentos com menos que três falando ao mesmo tempo, e algumas discussões “às vezes” acontecem.
E na sua casa, é assim? Onde não é? E é isto que me apaixona. Como a vida não pode ser programada! Como cada filho reserva suas surpresas para nós pais, todos os dias. E principalmente com os mais velhos como o amor exige entrega, amadurecimento e liberdade (não abandono).
Por exemplo, ultimamente ando tendo certa dificuldade de diálogo com meu filho (os pais mais velhos devem pensar: Que novidade!). Mas esta dificuldade vem exigindo de mim um amadurecimento no que se refere a respeitar o espaço dele como pessoa, e como pessoa amada.
Não é fácil quando um filho entra dentro de si mesmo, se isolando no quarto e não conseguimos arrancar o que o incomoda ou o que ele pensa naquele momento. Queremos ajudar a romper aquele silêncio e nada. Nos sentimos preteridos, impotentes ou mesmo desrespeitados.
Eu, pelo menos, me sinto até com raiva por não poder escancarar os seus pensamentos. E é aí que tenho que me policiar para saber amar, correr o risco, respeitar, esperar sem me afastar, e não considerar como derrota pessoal um fato corriqueiro de qualquer adolescente normal.
Isto é muito bom, pois, como eles nunca foram adolescentes, eu também nunca fui pai de um adolescente e, portanto temos que aprender juntos. E eu sei que não basta pensar que fomos adolescentes a 20 ou 25 anos atrás; hoje agimos e pensamos diferente e temos que nos esforçar muito para compreendê-los.
O que posso fazer é usar uma característica muito boa da adolescência que é a teimosia. Não no mal sentido, mas sim a teimosia que não se entrega com qualquer argumento e que não desiste de suas posições com qualquer ameaça, ao contrário o estimula a continuar.
Eu vou insistir, na espera, na busca de diálogo e principalmente nas demonstrações de amor; no beijo na face ou na bênção antes de dormir. E o resto, Deus cuida.
Também me entusiasmo quando eu e minha esposa estamos com um grupo de preparação para o Crisma e vejo mais que 100 adolescentes diante de mim. Sinto um grande amor por eles e mesmo não tendo o mesmo raio de ação que tenho com os meus filhos penso neles como novos homens e mulheres que poderão mudar este mundo por meio do amor verdadeiro. Semelhante ao que acontece em minha casa, de 100 jovens, uns 40 falam ao mesmo tempo, mas como é bom ver seus olhos brilharem quando dizemos que é bom ser adolescente porque Deus nos fez assim; e que o próprio Jesus, como homem que era também sentiu o que eles sentem nessa idade. E quando vão se envolvendo com uma música que fala de Deus e lentamente até os mais reticentes se entregam e acabam por cantá-la entrando no clima do momento.
Por isso eu insisto aos pais, catequistas e todos que trabalham com jovens em suas comunidades, demonstrem amor aos nossos jovens. Digam a eles como são amados, ajude-os a se sentirem bem consigo mesmo. Apresentem estes jovens à fonte do amor e da vida que é Jesus. Um Jesus que os compreende mesmo quando eles mesmos estão confusos, um Jesus que passou pelo que eles estão passando nesta fase de transformação tão brusca entre ser criança e se transformar num adulto, um Jesus que pode ouvi-los a qualquer momento, mesmo nos piores momentos.
E aqui eu pergunto: Como você age quando chega no seu prédio, na sua rua ou até na Igreja e lá está o “mais seleto grupo de adolescentes”, conversando alto, uns dando uns tapas nos outros ou mesmo com casais num beijo apaixonado? Fingimos que não os vemos? Fazemos cara de desaprovação? Ou os cumprimentamos com um sorriso? A adolescência é a fase da contestação. O jovem coloca diante de si mesmo tudo o que ouviu dos pais, professores, padres, avós e começa a avaliar se aquilo realmente é bom ou é simplesmente palavrório.
Primeiro eles nos testam se somos coerentes entre o que falamos e o que fazemos; depois eles contestam todos os nossos princípios para ver se realmente aquilo é bom ou ruim ou é só mais uma regra fútil, e finalmente vão se decidindo pelo que ficará como valor para suas vidas, ou será descartado do seu comportamento de adultos. Se nós os desprezamos, os rejeitamos e os colocamos à margem, que tipo de reação poderemos esperar destes jovens?

 

DO CORAÇÃO DOS PAIS PARA O CORAÇÃO DOS FILHOS
Trecho da pregação “Do coração dos pais para o coração dos filhos” de monsenhor Jonas Abib

Você pai, tem de provocar, tem de fazer coisas, tem de pedir a Deus a arte, a graça, de fazer com que os seus filhos sejam apaixonados por você. Você precisa! Não basta amar! É preciso que os seus filhos sintam que você os ama. Não basta “fazer coisas”. É preciso que eles sintam que são amados.

Eu até digo para muitos pais e muitas mães: larguem de dar coisas! Larguem de “pensar no futuro”, para dar mais coisas no futuro, e cada vez mais coisas no futuro. Larguem de dar coisas! Os seus filhos precisam de amor e de serem excitados para o amor. Não dêem mais coisas! Não comprem mais os seus filhos. Não os “entuchem” mais lhes dando coisas, roupas, moto, carro… Isso não resolve! Eu repito: não resolve.

“Não basta amar! É preciso que os seus filhos sintam que você os ama”

Mude. Mude radicalmente. Peça hoje, peça agora a Dom Bosco educador, a Nossa Senhora Auxiliadora, a mestra de Dom Bosco, peça a Jesus, o Mestre dos mestres, Aquele que disse: “Amai-vos uns aos outros”, peça-Lhe um coração de educador, de educadora, um coração de pai, um coração de mãe. Porque, infelizmente, o mundo deformou o seu coração. Este mundo consumista ensinou a você e o levou (e os seus colegas o ajudaram nisso) a querer “comprar” os outros. Talvez você tenha sido uma pessoa comprada por outros. Fizeram isso com você: o compraram com coisas. Compraram você com as coisas que queria, mas também com as coisas que você não queria. E você viveu na base do consumo. Por isso você vive um amor na base do consumo: dando coisas e tentando angariar amor agindo assim.

E, na verdade, eu lhe digo: esses filhos só fazem desaforo. Só dão ingratidão e decepção para nós. Filho que recebeu, recebeu e recebeu coisas, só dá “coice” no pai e na mãe! Quem muito recebe coisas devolve em forma de “coice”! O filho que muito recebe coisas só acaba devolvendo “coice”!

Se você pai, mãe, não quer continuar levando “coice” de seus filhos não lhes dê mais coisas. Não compre mais o seu filho. Não fique preocupado em trabalhar, trabalhar, trabalhar, para dar, para dar, para dar… Não! Ame e provoque o amor.

Mesmo que você tenha de passar um tempo em “jejum”, ou seja, sem dar coisas. Seu filho e sua filha ficarão admirados. Eles irão estranhar e dirão: “Meu pai e minha mãe viviam me dando coisas, mas agora pararam… O que aconteceu? Será que meu pai não gosta mais de mim? Será que ele não tem mais dinheiro? Será que ele entrou em depressão? Será que a minha mãe ‘pirou’?”

Vai valer a pena, talvez, um tempo de “jejum” até que seu filho estranhe (estou lhe dando lições muito concretas!) e daqui a pouco você começa a amar de uma maneira diferente. E daí você sabe do que o seu filho, a sua filha, gosta. E que não são “coisas”. Todo filho gosta de presença. Gosta de uma mão na cabeça. Gosta de um gesto, de uma cama arrumada (que não é coisa que você está dando!), gosta de um bilhete, de uma flor. Gosta até mesmo de uma comida, de um jeito de arrumar os pratos, de ficar junto, de ouvir, de chamar para trabalhar junto. […]

Ame porque você é capaz de amar. Ame e faça com que seus filhos sintam que você os ama. […] E eu digo para você: ame com gestos. Gesto é gesto. Gesto não é coisa! Ame com gestos.

XIX Domingo do Tempo Comum – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Cada pessoa tem o seu temperamento que, por vezes, não é o melhor para se relacionar com os outros ou para cumprir a missão que Deus lhe confiou. Elias era um profeta valente e firme nas suas convicções. Mas, quando foi perseguido pela rainha Jezebel, fugiu para o Monte Horeb com medo e desejando a morte. No monte, escutou a voz de Deus e com temor experimentou a Sua presença. Deus aproveitou esta ocasião. Passou uma forte rajada de vento, mas Deus não estava no vento. Depois, sentiu-se um terremoto, mas o Senhor não estava no terremoto. De seguida, acendeu-se um fogo, mas Deus não estava no fogo. Depois do fogo, ouviu-se uma ligeira brisa; aí estava o Senhor! Deus não se manifesta como nós queremos. Deus tem o seu estilo e o seu modo de Se manifestar; é um Deus de surpresas. Os seus caminhos não são os nossos caminhos. A Elias, que era um profeta forte e decidido, quase violento como um terremoto, Deus ensina-o a acalmar-se e a saber encontrá-Lo na paz e no silêncio e não na confusão, na dispersão e nos altos decibéis das conversas. “Deus fala de paz ao seu povo e aos seus fiéis” (Salmo Responsorial).
Jesus dá-nos também uma lição de paz e de serenidade. Depois de ter dedicado longas horas a ensinar e a fazer a multiplicação dos pães, como líamos no domingo anterior, Jesus reserva para Si um momento de descanso, de paz interior, separando-se de todos para rezar ao Pai. Tem tempo para tudo: para pregar, para caminhar, para atender os outros e também para se retirar para rezar. Quando sobe à barca dos apóstolos, imediatamente a tempestade desapareceu. Deveríamos sempre procurar momentos de paz, de silêncio e de serenidade. É saudável para nos libertarmos do stress da vida, dando tempo à leitura, à música, aos passatempos, ao contato com a natureza e ao convívio familiar. É importante ter tempo para nos encontrarmos interiormente com Jesus Cristo, para fazer uma oração mais pausada a sós ou em comunidade. Precisamos de paz, de silêncio, de uma serenidade psicológica e espiritual. Em férias ou não, precisamos de nos reencontrar conosco próprios, com os outros, com a natureza e com Deus. Tudo isto é necessário para o nosso crescimento humano e cristão, para a nossa unidade interior. A celebração eucarística também pode contribuir para encontrar esta paz se for celebrada com um ritmo sereno e com amabilidade.
Como Elias, Pedro também recebeu uma lição. Sentiu, como todos os outros que estavam no barco, medo e pânico com a tempestade e com a presença fantasmagórica de Jesus sobre as águas. Então, Pedro desceu do barco e foi ao encontro de Jesus. Começou a afundar-se, quando perdeu a confiança. Homem de pouca fé! A sua oração, breve e urgente, não podia ser outra: “Salva-me, Senhor!”. Assim, aprendeu a não confiar excessivamente nas suas próprias forças, mas em Deus.
Na nossa vida, por vezes, temos a tentação de pensar que Deus nos abandonou. Assaltam-nos as dúvidas. Parece que tudo de mal nos acontece, que a vida perdeu a razão de ser, que a Igreja e o mundo não vão muito longe. Talvez, Jesus, hoje, também diga: “Homens de pouca fé”. Precisamos continuar a ouvir a frase de Jesus: “Tende confiança. Sou Eu. Não temais”. Jesus convida-nos a ter uma visão positiva e pascal da vida. Nem termos muito medo, nem entusiasmo excessivo. É importante não perder a calma tanto nos momentos de êxito como nos momentos de fracasso. Confiar mais em Deus, mesmo que tenhamos a sensação de que Ele se esconde. A vitória de Cristo contra as forças do mal é a certeza de que também nós venceremos. Sem perder a paz interior, trabalhemos para a vitória contra o mal.

 

‘VERDADEIRAMENTE, TU ÉS O FILHO DE DEUS!’
Padre Bantu Mendonça

À noite os discípulos entram no barco e se dirigem para o outro lado do mar em direção a Cafarnaum. Um fenômeno estranho, mas natural no alto mar. O barco estava sendo sacudido pelas ondas, “pois o vento era contrário”. Os discípulos se encontram fatigados, atormentados em remar. E o vento soprando forte e agitando o mar. De repente, Jesus se apresenta andando sobre as águas. Na escuridão da noite, a Sua figura pareceu ser um fantasma que pretendia ultrapassar a embarcação. Daí, os gritos de espanto e medo dos apóstolos. Na realidade, com essa ação, o Senhor demonstrou ter poderes divinos, pois lemos em Jó 9,8: “O Senhor caminha sobre as águas dos mares”. É interessante observar que Pedro foi o único a também querer, com a permissão de Jesus Nazareno, andar sobre as águas, como que estando “por cima” do mal. O mar era símbolo do mal e do oculto, especialmente suas profundezas nas quais reinava o poder das trevas e de onde saíram os impérios contrários ao verdadeiro Reino de Deus (cf. Dn 7,1-8). Pedro, uma vez mais, mostrou-se impetuoso e mais confiante do que seus companheiros. Não só reconhece o Mestre, mas quer participar desse poder de estar acima do mal, representado pelas águas turbulentas do mar. Ele sabe que o poder de Jesus não é unicamente pessoal, mas atinge igualmente Seus mais íntimos amigos e reconhece na prática o que Ele dirá mais tarde: “Em ti unicamente eu confio, pois cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus” (Jo 6,69). Porém, sempre existe a dúvida e a indecisão após tomar uma atitude valente e corajosa. O vento, o mar agitado, abala a fé e a confiança do grande apóstolo. E unicamente a resposta de Cristo, diante da súplica angustiada deste [Pedro], restabelece a situação e salva o discípulo. O “Salva-me, Senhor!” de Pedro deve ser o nosso grito que salvará muitas vidas do fracasso total. No “Salva-me, Senhor!” encontramos a força que nos falta e a fé que procuramos em Jesus, nosso Salvador. Cristo, através da deficiência na fé de Pedro, quis mostrar que sempre – por detrás das situações de perigo e domínio do mar, representante das forças do mal – não estamos sozinhos, pois Ele o sustentava. Por isso, os Padres da Igreja afirmam que onde está Pedro está a Igreja e onde está a Igreja está Jesus. E, logicamente, na época em que foi feita a afirmação dos Padres da Igreja, estes não se referiam a Pedro, o Simão, filho de Jonas, mas ao bispo de Roma. Jesus entra na barca e o vento se acalma. Era uma perturbação de ondas e vento sem chuva, pouco parecido com a descrita em Mateus 8,23. Mas, tendo entrado Jesus na barca nada temem os discípulos, porque a paz, a tranquilidade e o sossego haviam chegado. E, então, aproximando-se de Cristo lhe prestam homenagem, dizendo: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!” O que significa: Tu tens algo do poder divino em teu ser. Meu irmão, Jesus é a sua paz. Portanto, não tenha medo e nem receio de O proclamar. Ele veio para livrar a mim e a você do medo e da angústia. O trecho de hoje está escrito precisamente para nos demonstrar que a transcendência e independência de Jesus – manifestada com Suas palavras e Seu proceder diante das leis e costumes tradicionais e diante das leis físicas da natureza, – revelam Seu domínio absoluto sobre as crenças e Seu senhorio total como Criador – e não como criatura – sobre os acontecimentos e sobre tudo o que há, de modo que a nossa resposta, hoje, não pode ser outra diferente desta: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”

 

VIVER O PROCESSO DA FÉ
Padre Fábio de Melo

Quanto sofrimento é preciso passar para chegar na verdade dessa frase “Deus caminha comigo, Deus é meu grande amigo, Ele é mais forte um abrigo, Ele caminha comigo, n’Ele posso confiar”? Não tem nada por acaso nessa vida, não podemos chegar se não caminharmos. Para se eu preciso andar 5 km, preciso ter a disposição do primeiro passo e acreditar que de passo em passo chegarei. Tudo é processo, tem começo, meio e fim. O processo da fé é pontuado. A fé cristã é audaciosa, o que Jesus nos propõe é uma verdade audaciosa. Hoje a Igreja nos convida a ter fé, a viver o processo da fé, acreditar mesmo que não tenha razões para isso. A nossa fé passa pelo processo da inteligência, mas ela acontece quando preciso passar uma situação humana que me parece insuportável. E Deus começa arrancar de você frutos que não semeou. É a fé como dom, que começa a ver a vida a partir de um olhar que antes ninguém tinha lhe ensinado. A Igreja diz que a fé é dom. E temos a responsabilidade de administrá-lo. A fé é dom, mas é tarefa. Eu preciso buscar a minha atitude para confirmar o Cristo realizou na minha vida. A fé humana indica para uma fé maior. A fé primeira que experimentamos na vida, é a fé natural. Entramos num restaurante e não pensamos que a comida pode estar envenenada, você confia que não tem nada naquele alimento. A fé uma experiência natural que dá para a gente. Para mim não há nada mais precioso que confiar em alguém. Como é importante para o padre a confiança em que está perto de nós. E a partir dessa experiência humana, Deus nos convida a experimentar algo muito maior. Pedro, homem que fez a experiência de Jesus e mostra aqui sua fragilidade no processo de fé. Acho que Jesus o chamou de Simão nessa hora, que não tinha feito a experiência de Jesus, que não tinha feito a travessia que ele precisava. A fé vai ser vivida enquanto formos gente. A Igreja nos pede a fé no Ressuscitado, pois só essa fé nos poderá direcionar para o homem, e mulher que Jesus idealizou para cada um de nós. Estou em travessia, processos que nunca termina, pois nunca estaremos prontos para Deus. Sempre estaremos inacabados. A arte é assim, sempre inacabada, porque se tiver acabada, não há mais o que fazer. Nós sobrevivemos daquilo que em nós é inacabado. O que Deus já fez na sua vida hoje, não será o suficiente para o que precisará amanhã. Não somos postes, postes ficam parados, somos estrelas em deslocamentos. Deus vai te visitar a partir da sua particularidade. Não devemos medir o quanto de fé cada um tem. Precisamos ser cada dia mais homens de fé. Às vezes o caminho que precisamos percorrer não é tão longo, mas por não termos dimensão, ficamos parados. Muitas vezes eu encontro ateus que estão muitos mais próximos de Deus que eu, porque as vezes eles estão mais honestos e se aproximaram mais das questões humanas. Precisamos nos aproximar das questões humanas, estamos inseridos numa sociedade e é preciso encarnar na minha história tudo aquilo que digo crer. Se você acredita no mesmo Deus que eu tenho com você uma responsabilidade. Pois não tenho o direito de negligenciar o conteúdo dessa pregação, por isso eu sou um padre de travessia. O papel de padre hoje é ser o testemunho coerente de quem fez essa opção radical por ser Jesus de novo através da vida sacramental. Os sacramentos que celebramos é para santificar nossa alma e dar sentido as atitudes do corpo. É a totalidade da salvação acontecendo em nós e através de nós. A Igreja quer cada dia mais que a fé que celebramos vire vida na comunidade, que você sinta em Jesus o motivo da sua atitude. Eu estou aqui configurado a Ele, quero ser como Ele. Quanto mais eu acredito em Deus, muito mais é a minha capacidade de acreditar nos meus irmãos. Que amor a Deus é esse que não te faz amar seus irmãos? A fé que eu tenho em Jesus muda o modo de como eu olho para aqueles que estão do meu lado. Se Jesus tivesse a oportunidade de passar aqui como eu estou Ele lhe diria: “vamos lá, não fique parado, vamos fazer o que será. Vamos visitar regiões do seu coração que você ainda não conseguiu ir.” Muitas vezes na nossa miséria não acreditamos que Deus acredita em nós. Vamos acelerar o processo de nosso crescimento pessoal. Quanto mais acreditarmos em Deus, e tivermos a fé para suportar o sofrimento, mais testemunharemos Deus. Hoje precisamos tomar a decisão de deixar Deus acelerar em nós o crescimento. Para isso você precisa dar passos, tratar melhor seu marido, seu funcionário, deixar de fumar, etc. Você precisa acreditar em você. O que você precisa fazer concretamente para dar um passo na fé? Faça seu compromisso consigo mesmo, acredite que a partir de hoje você será uma pessoa diferente, uma pessoa melhor. Acredite em si mesmo, para demonstrar que Deus crê em ti. Eu creio em Deus e Ele crê em mim, e nós dois juntos ninguém segura.

 

A narração evangélica que a liturgia oferece neste domingo coloca-nos diante de uma característica importante da Igreja: viver no mundo. O texto diz que Jesus “obrigou” os discípulos a subir para o barco. O verbo “obrigar” tem um significado não muito agradável para a maior parte das pessoas; mas no texto evangélico, significa o caminho dos discípulos no meio deste mundo que, por vezes, é tempestuoso, ou seja, existem ventos contrários ao projeto de Deus. Depois da multiplicação dos pães, somos convidados a refletir na nossa missão no mundo que consiste em partilhar o pão com os pobres e com todos os povos. Também o evangelho deste domingo diz que aqueles que são portadores do projeto de Deus, esta Igreja representada no barco dos discípulos, são frágeis, com muitas limitações, com dúvidas (por vezes, há a tentação de pensar que Jesus nos abandona por uns tempos!). Se a fragilidade e a pobreza são coisas próprias do mundo, também o são da Igreja. Isto leva-nos a esta conclusão: quando a Igreja abandona o mundo, ou quer estar nele com poder, deixa de ser a Igreja que Jesus fundou. A narração da tempestade acalmada segue-se à do milagre da multiplicação dos pães, onde Jesus dá de comer a todos, tendo uma atenção especial aos doentes e aos pobres. É este o valor da nossa “reunião dominical” e da missão que nos está confiada. O barco que avança com dificuldade num mar tempestuoso e com ventos contrários é, hoje, um convite a contemplar o Ressuscitado. Um mar, que é o mundo, onde Jesus caminha como Senhor, acompanhando a sua Igreja. Este texto é introduzido pelo extrato do Primeiro Livro dos Reis (1ª leitura). O profeta Elias é perseguido. Refugia-se numa gruta. A sua fuga não é para fazer um retiro espiritual, mas num contexto de perseguição e de sofrimento por causa de defender a justiça em nome de Deus, faz uma grande experiência espiritual. Na segunda, continuamos a ler a Carta de S. Paulo aos Romanos. Ele abre-nos o coração para expressar o seu sofrimento ao ver que o seu povo não aceita Jesus. Como o Apóstolo sofre, porque tem um coração de pastor, com aquelas pessoas que se desviam do caminho certo. Se os pastores de hoje dessem o seu testemunho pessoal do seu próprio ministério, marcado pela caridade pastoral… Na homilia, é de lançar um convite a contemplar Jesus na sua humanidade e na sua divindade. É o que faz São Mateus que vai respondendo às perguntas que a comunidade faz acerca de Jesus: “Não é este o filho do carpinteiro?”. São Mateus apresenta-nos Jesus com características que somente pertencem a Deus. Uma delas ouvimos no domingo passado na partilha e multiplicação dos pães, recordando o maná do deserto. Hoje, a divindade de Jesus encontramos no poder de andar sobre as águas, algo próprio de Deus, Senhor do mundo. O gesto de estender a mão a Pedro, um gesto frequente nos salmos, expressa que Deus estende a mão aos necessitados. Outro aspecto a explorar na homilia é aprofundar a identidade da Igreja no mundo. Deus ama o mundo, enviou o seu Filho que se fez homem. Viver no mundo, anunciando a novidade do Evangelho conscientes que o Senhor está no meio de nós, ainda que, por vezes, para alguns seja ainda um “fantasma”. No final da Eucaristia, há sempre o envio: “Ide em paz”. Depois da experiência íntima com Deus, Ele envia-nos para o mundo, mas também nos diz como a Pedro: “Vem”.

 

19º DOMINGO DO TEMPO COMUM
“Considerai, Senhor, vossa aliança, e não abandoneis para sempre o vosso povo. Levantai-vos, Senhor, defendei vossa causa, e não desprezeis o clamor de quem vos busca.” (cf. Sl 73,20.19.22s)
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG)

Meus irmãos, Estamos celebrando neste domingo a vitória de Cristo sobre o mundo. Não podemos ter medo de vivenciar o seguimento cristão e cada um de nós é convidado a deixar a vivência pastoral pessoal e anunciar o evento evangelizador. Abandonar o comodismo e vivenciar o anúncio da mensagem evangélica que é sempre atual, questionadora, e, mais do que tudo isso, parte de uma mudança radical da vida da própria pessoa. Por isso, todos nós somos convidados a enxergar Deus nas coisas pequenas e simples da vida quotidiana. Apesar da violência humana, Deus está naquilo que significa paz e refrigério. Deus não está na tempestade(1Rs 19,9a.11-13a). Elias venceu os sacerdotes de Baal no monte Carmelo, invocado sobre eles o fogo do céu. Mas Deus lhe faz experimentar que o zelo não é sempre vitorioso e sua vocação não é a violência contra os homens, mas o serviço paciente. Elias, perseguido por Jezabel, fica sem força e foge até o Horeb. E aí Deus lhe fala, porém, não nos elementos violentos – tempestade, terremoto,fogo,  mas na brisa mansa. Dentro da brisa mansa, Ele confia a Elias uma nova missão, que é manifestada pela tempestade. A religiosidade mágica facilmente acredita que Deus se manifesta na tempestade. Mas Javé se manifesta acalmando a tempestade. Assim, ele se manifestou em Cristo, aos olhos dos Apóstolos, que estavam lutando contra o vento, no barco do lago de Genesaré. Por detrás de tudo isso, está a mitologia: o mar era o domínio de Leviatã, o monstro marinho, uma vez considerado como um deus, mais tarde, desmistificado até anjo ou diabo. A tempestade era a força do inimigo, acreditavam ainda os supersticiosos  pescadores galileus. Irmãos e Irmãs, Jesus se escondera no deserto, logo que soube da morte de João Batista. Havia perigo para o Divino Salvador. A multidão correu ao deserto atrás dele. Jesus teve compaixão dos peregrinos e multiplicou o pão. O povo, feliz e entusiasmado com a multiplicação dos pães, entusiasmou-se e quis proclamá-lo Rei. O momento era conflitante e profundamente delicado. Não era chegada a hora do Filho do Homem, porque Ele não viera para um reinado terreno. As coisas de Deus não podem ser confundidas com as coisas da política partidária dos homens. Por isso, coube ao próprio Jesus dispensar a multidão. No Evangelho deste domingo (cf. Mt 14,22-33) Jesus chegou aos discípulos que estavam na barca, depois que Ele despediu a multidão e foi rezar, andando sobre as águas. Isso foi uma demonstração aos seus mais próximos da grandiosidade de sua missão, que era exercida a mandado do Pai dos Céus. Jesus que andou sobre as águas é maior do que a maldade e tem o poder de “fazer da fossa surgir à vida” (cf. Jn 2, 7). Basta uma ordem dele e o peixe deixou Jonas em terra firme (cf. Jn 2,11), podendo cumprir a vontade de Deus de purificar os ninivitas. Há um plano de salvação por parte do Pai dos Céus. Jesus foi mandado ao mundo para dar pleno cumprimento deste projeto de salvação, conforme nos ensina São João 4,34. Entretanto, as forças do mal podem agir e reagir. Mesmo assim, o plano será cumprido na sua integralidade. Nenhuma porta do inferno levará vantagem, tendo em vista que Deus está conduzindo a sua Igreja pelos caminhos da História. É grandiosamente imenso o contraste entre o medo de um fantasma diabólico e a confiança de Pedro ao ouvir a voz de Jesus, que vinha caminhando sobre as ondas. Para Jesus é mais importante a confiança de Pedro do que o medo. No meio das dificuldades quotidianas da vida, é importante a comunidade substituir o medo pela partilha. Pedro, que teve a coragem de atirar-se às ondas encrespadas, ficou com medo do vento. Meus irmãos, Jesus multiplica o pão, o que foi motivo de grande contentamento e de admiração por parte do povo presente. A cena de Pedro o demonstra. A fé verdadeira pressupõe a humilde confiança e a humildade confiante, sem nenhuma exigência de milagres ou comprovações. Os apóstolos, reverentes, de joelhos comprovam o Senhorio de Jesus e a confiança daqueles que devem anunciar o seu projeto de Salvação: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”(cf. Mt 14,33). A humildade de fazer a genuflexão, como se fosse para beijar os pés de Jesus, ou para adorá-Lo, é uma manifestação de quem reconhece ser Jesus, o dono da vida e do nosso destino. Essa deve ser a atitude do cristão, no seu comportamento diário, de não procurar milagres, mas ter uma fé autêntica, abalizada nas Sagradas Escrituras, levando adiante aquilo que o próprio Jesus disse: “Não tenha medo, creia, e venha ao Seguimento do Senhor!”. Meus irmãos, Paulo, na segunda leitura (cf. Rm 9,1-5), confessa sua paixão para com o povo de Israel, do qual ele é membro. O Apóstolo mesmo gostaria de ser condenado se, com isso, os seus irmãos judeus tivessem a salvação, conforme nos ensina Rm 9,3. Palavra forte, mas que não era mero exagero: Paulo sabia que seria impossível que eles estivessem pura e simplesmente perdidos. O plano de salvação vale para os judeus também, mesmo se aparentemente tenha sido passado adiante aos gentios. Com isso, podemos concluir da confiança que Paulo tem no plano de Deus, que ele pode dizer a nós hoje: se Israel for totalmente rejeitado, então, eu também! O Evangelho salva todo o que crê: primeiro o judeu, depois o grego(cf Rm 1,16). Os judeus têm sido privilegiados(cf Rm 3,1). Eles têm até o Messias. E, contudo, parece que não se verifica sua salvação, pois não tem a fé no Evangelho de Cristo. Caros fiéis, Ser cristão é ser voltado para a acolhida e para o entendimento do Deus da Brisa Mansa, que anda sobre as águas e leva para o mundo o testemunho inequívoco da necessidade de depositar nas mãos de Deus a confiança de nossa vida de fé. Vida de fé que o PAI DAS BEM-AVENTURANÇAS do céu abençoa e encaminha os pais da terra que tem o grave dever de nos fazer mais santos e imaculados, como o SENHOR DEUS fez ao enviar a Salvação por Jesus Cristo ao gênero humano!

 

“CORAGEM! SOU EU. NÃO TENHAIS MEDO!”
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
19º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A
Leituras: 1 Rs 19,9a.11-13; Rm 9,1-5; Mt 14, 22-33

“Depois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. Ouvindo isso, Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta” (1 Rs 19,13a). “Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco prostraram-se diante dele, dizendo: Verdadeiramente, tu és o filho de Deus” (Mt 14,33). Duas cenas de calma e serenidade quase paradisíacas, que acabam de concluir a atribulada travessia do deserto por parte do profeta Elias, e a longa noite dos discípulos, cheia de angústia ao lutar contra as ondas do lago agitadas pela tempestade. Apesar desse quadro, os protagonistas das duas histórias estão gozando tranqüilidade e paz profunda: dom surpreendente que acompanha o inesperado e íntimo encontro com o Senhor, que até pouco antes parecia estar ausente, surdo e mudo perante os seus gritos de medo e de ajuda. Por um lado as cenas marcam o cume da condescendência de Deus para com o seu profeta Elias, e a intensa manifestação da senhoria de Jesus sobre os agitados acontecimentos da história, para com os discípulos. Por outra parte, a mudança radical do cenário marca o ponto de chegada do longo processo de conversão do profeta ao Senhor, assim como do crescimento da frágil fé de Pedro e dos demais discípulos. O medo paralisante de pouco antes se traduz na solene profissão de fé que proclama Jesus “Filho de Deus”. Quantas vezes Jesus, ao encerrar o encontro com um homem ou com uma mulher que vai em busca dele, confiante em sua ajuda, declara: “Vai, a tua fé te salvou!” (cf. Mc 5,34; Mt 15, 28). O Senhor abre para nós o mesmo trilho! A profissão de fé dos discípulos nos coloca em cheio na plena luz da páscoa; páscoa que celebramos hoje, assim como em todo domingo, para que ilumine e oriente a partir de uma perspectiva interior nossos dias. Eles se sucedem uns aos outros, aparentemente iguais na repetição da rotina, e não raramente provados por feridas e fatigas sem saída. A luz do Ressuscitado os resgata do “não sentido”, e os faz lugar do possível encontro com o Senhor. A Igreja nos acompanha com o dom da Palavra de Deus e com o pão de vida da Eucaristia, para que nos tornemos companheiros da longa trajetória interior de Elias e dos discípulos, partilhando com eles a mesma força transformadora da fé e a intimidade para com o Senhor, que caracterizam toda autêntica relação com ele. O breve trecho do 1 livro dos Reis, proclamado na primeira leitura, nos apresenta apenas a conclusão da complicada história humana e interior de Elias, o primeiro dos profetas históricos de Israel. Ele é apresentado pela mesma escritura do AT e do NT, como modelo de tantos homens de Deus, chamados por ele a tornar-se seus amigos e corajosas testemunhas, na defesa da justiça em prol dos pobres, na recuperação das exigências da aliança estabelecida por Deus com Israel, na espera da vinda do Messias que vai restabelecer as condições para cumprir a originária aliança. A compreensão profunda da extraordinária experiência de Deus, vivenciada pelo profeta na gruta do monte Horéb, pressupõe uma leitura atenta e partícipe da fascinante aventura humana e espiritual de Elias, narrada nos capítulos 18-19 do 1 livro dos reis. À sua luz se compreende a colocação desta história em conjunção com a narração da noite de Jesus mergulhado em profunda oração na montanha, e sua ida em socorro dos discípulos em dificuldade dentro do barco no meio da tempestade. Na complexidade das intrigas e das paixões humanas, se desvela a secreta pedagogia com que Deus dirige a história, chama e forma seus profetas para guardar e alcançar o cumprimento do seu projeto de vida. Talvez seja útil lembrar alguns pontos salientes deste trajeto interior de Elias, para iluminar um pouco nosso próprio caminho existencial. Poderia nos ajudar também a entender porque a sua figura se tornou tão emblemática na tradição da própria Escritura, na tradição judaica posterior, naquela cristã, sobretudo na sua vertente mística, e até mesmo na tradição muçulmana. Cada uma delas se reconhece num ou no outro aspecto da sua experiência espiritual, como num espelho. No momento mais alto da revelação da identidade e da missão de Jesus na transfiguração, ele aparece dialogando sobre o cumprimento da sua tarefa de messias sofredor com Moisés e Elias, os dois eixos do projeto salvífico de Deus na aliança, que está para se realizar na sua morte e ressurreição (cf Lc 9, 30-31). O profeta, com zelo ardente pela pureza da fé de Israel com a violência de todo fundamentalista religioso (1 Rs 18,20-40), foi progressivamente transformado pelo próprio Senhor, através de uma série de despojamentos interiores, sempre mais sofridos e radicais. O Senhor lhe ordena de morar no deserto, onde aprende a se alimentar confiando na providência divina: os corvos trazem o pão e a torrente de água o sacia por um tempo limitado. O Senhor o envia a morar em terra pagã, sustentado por uma pobre viúva em Sarepta (1 Rs 17, 2-24).  O profeta pretende defender Deus com a matança dos profetas de Baal (1 Rs 18, 16-40). Foge para o deserto para salvar-se da vingança da rainha Jezabel, cai no extremo desânimo, o Senhor o socorre alimentando-o através de seu anjo, e o fortalece para cumprir seu caminho até a montanha do Senhor (1 Rs 19, 1-8). O Senhor o interpela como profeta refugiado na gruta da montanha. Ele se queixa de estar correndo riscos mortais pelo Senhor, e reivindica mais uma vez o feito de ficar sozinho para defendê-lo (1 Rs 19, 10.14). Em resposta o Senhor lhe ordena de “sair da gruta” em que está amparado, para ficar diante dele que está para passar diante dele ( 1 Rs 19, 9-11; 13-14)).   A gruta em que está refugiado, mais que na rocha da montanha, está escavada na realidade em seu pequeno mundo ideológico, onde falta o ar livre da vida e a visão ampla da realidade. O Senhor faz sair Elias deste túmulo de morte, e o faz nascer à vida nova. O murmúrio suave e brando é a habitação verdadeira do Senhor. A sua voz profunda é o silêncio que chega ao coração. Elias pode somente entrever a face do Senhor através do manto que cobre seu rosto, como a mão protetora de Deus cobriu o rosto de Moisés, na montanha do Sinai, para protegê-lo da luz insustentável da sua glória, concedendo-lhe o privilégio de contemplá-lo somente pelas costas (cf  Ex 33, 18-23). Elias sai deste encontro radicalmente transformado (1 Rs 19, 9-14). Recebe a nova missão de promover a vida do povo, em Israel e em Damasco, e de transmitir seu carisma de profeta a Eliseu (1 Rs 19, 15-18). Somente quem tem em si mesmo a vida do Senhor pode transmitir vida. Iniciada como fuga diante do poder prepotente da rainha Jezabel, a aventurosa viagem de Elias se transforma numa verdadeira peregrinação interior rumo ao centro de si mesmo, mais que uma transferência forçada de lugar geográfico para outro, com a finalidade de esconder-se. Marca o retorno às origens espirituais de Israel a descida do profeta nas profundidades do seu coração, onde encontra a verdadeira habitação do Senhor e a linfa vital da sua missão de profeta ao serviço do Deus da aliança e da vida. Através da pedagogia, severa e doce ao mesmo tempo, dos progressivos despojamentos de si, o Senhor molda o seu profeta, até fazê-lo digno de encontrá-lo na intimidade e na paz, como supremo dom de graça. Está superada toda manifestação de força que se impõe, simbolicamente expressa pelos impetuosos elementos naturais do vento violento e forte que quebra as montanhas, ou do terremoto e do fogo ( cf  1 Rs 19,11-12). Tais sinais tinham acompanhado a manifestação de Deus a Moisés e ao povo junto do Monte Sinai no momento de estipular a aliança (cf Ex 19,16-24). Desaparece também toda pretensão de fazer-se como defensor de Deus e quase seu protetor! Deus não precisa de defensores, mas de testemunhas da sua graça e da salvação que vem dele. Testemunhas que, antes de mais nada, sabem escutar o testemunho interior do próprio Espírito do Senhor que fala dentro de nós, nos atrai a si próprio, nos fortalece, e nos sugere o que  é importante de verdade a se dizer, diante do tribunal da história ( cf Mt 10, 17-20).  Apreender o caminho espiritual, deixando-nos guiar pelo próprio Senhor e a ser moldados pela sua pedagogia purificadora e libertadora, em tempo de marcado individualismo e protagonismo também na busca espiritual, é uma herança preciosa que nos vem do profeta e do próprio Jesus: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27).  Enquanto com a fórmula “Sou eu”, Jesus evoca o poder do nome divino (cf Ex 3, 14-15) pelo qual ele domina o mal, como deixam vislumbrar seu caminhar em cima das ondas e a calma da tempestade, ele vai encontro dos discípulos, como um pai que cuida da sua criança assustada, os encoraja, e igualmente encoraja Pedro na fraqueza da sua fé, já que ele segura prontamente em sua mão respondendo a seu grito de ajuda, sobe no barco e a tempestade se acalma. A tradição cristã reconheceu neste evento, junto com a multiplicação dos pães, a imagem da Igreja na sua travessia ao longo da história, alimentada e sustentada pelo próprio Jesus. Na fé ela sabe e experimenta que Jesus não abandona os navegantes, assim como sabe que é ele mesmo a fortalecer a fé de Pedro e a garantir que o barco alcance seu destino, “para o outro lado do mar”, segundo o projeto de Deus.  Precisamos aprender o estilo da condescendência divina e da sua misericórdia solidária, num tempo em que cada um eleva o tom da voz para deixar-se ouvir, no atual show permanente e confuso das idéias e das propostas, onde se fica acentuando as cores de suas fardas e das suas bandeiras para afirmar seus princípios éticos, políticos, religiosos. Isto significa aprender com o profeta Elias a descer do monte Carmelo, lugar da matança dos profetas, e aprender a peregrinar com ele os duros trilhos do deserto até o monte Horeb, o lugar do encontro no silêncio com o Senhor e com as fontes da verdadeira vida. A mística não fecha a pessoa num mundo vazio, pelo contrário, a constrói com a mesma energia de Deus e a faz capaz de reconhecer e de cuidar do seu rosto divino, presente em toda pessoa e em toda situação. Estas passagens espirituais e culturais constituem um desafio permanente no caminho pessoal e das comunidades cristãs de todo tempo. É difícil fazer próprio o estilo de Deus e de Jesus. Depois que ele multiplicou os pães, o povo queria fazê-lo rei, destaca João, como que para garantir a continuidade da bonança material inesperada (Jo 6,15). Jesus, porém, refugiou-se sozinho na montanha, onde, numa noite de intensa oração face a face com o Pai, confirma sua escolha ao serviço do reino. Desta íntima relação com o Pai, ele desce em socorro potente e caridoso dos discípulos. Mas eles mesmos, observa S. Marcos, “ainda não tinham entendido nada a respeito dos pães, mas seu coração estava endurecido” (Mc 6, 52). A Igreja conhece bem o tesouro da fé que nos anima, embora exposta a tantas fragilidades diante das provações da vida. Por isso nos convida a rezar com confiança o Pai, para que o nosso coração de filhos e filhas seja por ele mesmo fortalecido e alcancemos a tranqüilidade e a intimidade da casa paterna que esperamos: “Deus eterno e todo poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, para alcançarmos um dia a herança que prometestes” (Oração do dia). A Oração Eucarística VI-B (Deus conduz sua Igreja pelo caminho da salvação) interpreta muito bem esta consciência viva da Igreja e a firme esperança que a anima em seu caminho.

Transfiguração do Senhor – 06 de Agosto – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

No dia da Transfiguração do Senhor, ouvimos o Evangelho segundo Mateus, que nos ensina a contemplar Jesus transfigurado no alto do monte. Naquela ocasião, segundo o Evangelista, Jesus tomou três dos seus discípulos e seguiu em direção à montanha. Afastados do convívio de todos, em lugar ermo e silencioso, a primeira condição para se contemplar a face de Deus no rosto de Cristo, que é a suprema vocação Cristã. Deus não está no barulho, na algazarra. Quem vive da manhã à noite extrovertidamente, não é capaz de ouvir a Palavra de Deus. Naquele momento os três estavam em condições. Esta se deu num relance. Eles puderam contemplar com seus próprios olhos, Jesus transfigurado. Naquele momento algo da Glória Pascal se antecipou na vida de Jesus. Aqueles discípulos que estavam destinados a serem testemunhas do desfiguramento de Jesus, por ocasião da sua Paixão, agora o viam Transfigurado e assim alimentavam sua fé para os dias de crise que estavam por vir. O cristianismo não é neste mundo a religião da visão. De fato o texto da transfiguração se termina, relatando que depois do êxtase, levantando os olhos não viram mais ninguém, a não ser Jesus. Se o cristianismo, neste mundo não é a religião da visão, é com certeza a religião da escuta, pois a última vez que o Pai falou no Novo Testamento, foi exatamente neste dia: “Este é o Meu Filho. Escutai-O o que Ele diz”. Jesus havia dito imediatamente antes que tinha que sofrer muito pela salvação de todos nós. Esta era a Palavra de Deus que os discípulos haviam de escutar, sobretudo contemplar, por ocasião da Paixão. Foram fracos naquela circunstância, mas depois se recuperaram e se tornaram arautos do cristianismo, pregadores do Evangelho. A visão está destinada para o outro mundo, a outra vida. Aqui resta-nos a escuta obediente que realizamos através da fé. Somente aqueles que tiverem obedecido a Deus diariamente em Suas Palavras, se purificam interiormente e vão se tornando capazes de O contemplar um dia, no Reino dos Céus.

 

«A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR, NOSSA TRANSFIGURAÇÃO»
Pe. José Artulino Besen

“Ó Cristo Deus, tu te transfiguraste sobre a montanha, mostrando aos discípulos tua glória, à medida que lhes era possível contemplá-la. Também sobre nós, pecadores, deixa brilhar tua luz eterna, pelas orações da Mãe de Deus. Ó Doador da luz, glória a ti!” Os Evangelhos sinóticos (Mt 17, 1-13; Mc 9, 6-8; Lc 9, 28-36) relatam a revelação ocorrida no Monte Tabor: Pedro, Tiago e João contemplam Jesus, mais brilhante do que o sol, conversando com Moisés e Elias. E, como no dia do Batismo, a voz do Pai declara “Este é o meu Filho muito amado; escutai-o”. No século VI a festa da Transfiguração, 6 de agosto, difundiu-se por todo o Oriente e em 1457 o papa Calixto III introduziu-a no Ocidente, em agradecimento pela vitória conseguida contra os turcos. Quando Pedro pediu ao Senhor para construir tendas e residirem no monte, estava equivocado: a Transfiguração não é uma emoção para ser degustada, mas um caminho que passa pela paixão e morte; também se equivocou Calixto III, pois não foi um triunfo terreno. A Transfiguração foi um lampejo, um resplendor do reino que é Jesus: é a Luz da Páscoa, do Pentecostes, da Parusia. É o Senhor da Luz. Naquela hora, conversando com Moisés e Elias, a Lei e os Profetas, Jesus ilumina todo o Antigo Testamento, revela o novo Êxodo (sua Paixão e Morte) e é revelado como a Luz das Nações. Pedro, Tiago e João são as testemunhas da Nova Aliança: contemplam o Cristo transfigurado e o contemplarão ressuscitado. O Cristo do Tabor é o mesmo Jesus que peregrinava pela Palestina, o Deus feito homem, o Homem-Deus. Todos os olhos conseguiam somente contemplar o homem, mas, na Transfiguração, o Espírito transfigurou os olhos dos discípulos e eles contemplaram o Homem-Deus. Tendo seus olhos lavados pela graça, foram tomados pela energia divina. A antiga e a nova Aliança Conversando com Moisés e Elias, Jesus insere a antiga Aliança na nova: ele é o Mediador e a realização dos dois Testamentos. O Pai de Jesus é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó e é o Pai do Colégio apostólico. Freqüentemente a história nos coloca frente a contradições: o mesmo dia 6 de agosto, quando a Igreja da Nova Aliança celebra a Transfiguração é, para o povo da Antiga Aliança o dia 9 do mês de Av, quando faz memória da destruição do Templo em 586aC e em 70pC. Nossas igrejas estão iluminadas para celebrar a Luz do Tabor e as Sinagogas, ao contrário, ficam em semi-escuridão, com apenas uma vela acesa para a leitura das Lamentações. Nós nos alegramos pela Luz que nos invade, que nos transfigura, e o povo judeu chora a ausência de seu Templo e chora também todas as perseguições que sofreram por causa do ódio humano e cristão. Enquanto Cristo conversa com Moisés e Elias, nós cristãos blasfemamos contra o povo judeu, chegando à Shoah, ao Holocausto desse povo sob o nazismo. O Cristo transfigurado é filho de Abraão segundo a carne e nós, pela Transfiguração, somos filhos de Abraão segundo o Espírito. Toda oposição e ódio negam a verdade que emana da pessoa que é a Luz dos Povos, o Senhor.

 

Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade.
Uma pequena meditação sobre a festa da Transfiguração do Senhor
Por Vitaliano Mattioli

CRATO, 05 de Agosto de 2014 (Zenit.org) – No dia seis de agosto a Igreja celebra a festa da Transfiguração de Jesus. No Ocidente esta festa foi instituída pelo papa Calisto II no ano 1456 em memória da vitória de Belgrado sobre o Islã. Na transfiguração Jesus se manifesta aos seus três apóstolos em todo o esplendor da sua divindade. Qual foi o motivo? No mesmo capítulo (Mc 9, 31), Jesus fez o segundo anúncio da sua paixão. E por causa disso os apóstolos ficaram decepcionados. Jesus manifestou a sua divindade para encorajar e fortalecê-los no momento de sua paixão e morte. Os apóstolos ficaram alegres e satisfeitos vendo Jesus resplandecente de luz. E por isso Pedro disse: “Jesus, é bom ficarmos aqui”. Uma primeira reflexão.  É verdade, é bom ficar com Jesus quando a nossa vida está no monte Tabor. Mas – pergunta – temos a mesma alegria e entusiasmo quando estamos no Monte das Oliveiras, isto é, quando se aproxima a hora da nossa paixão, quando, como Jesus, sentimos uma tristeza mortal? Pedro, que no monte Tabor queria ficar ali para sempre perto de Jesus transfigurado, agora, no Monte das Oliveiras não tem o mesmo entusiasmo e alegria para ficar perto de Jesus, mas dorme e Jesus fica só. É fácil ficar com Jesus quando em nossa vida tudo dá certo. Mas, quando vem a hora da tribulação temos a mesma alegria, coragem e fé para continuar com Jesus, e saborear o cálice amargo da paixão e não somente a luz do Tabor? Jesus nos concede a consolação para sermos fortes na hora das dificuldades, para sermos sempre fiéis a Ele quando nos chama a compartilhar o sofrimento da paixão. Só nesta fidelidade podemos dizer que amamos Jesus de verdade, e não somente as consolações de Jesus.    Uma segunda reflexão. Mateus nos conta: “O rosto de Jesus brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (17, 2). Jesus nos doou um ensaio da sua divindade. Ele apareceu resplandecente de luz. Uma transformação semelhante acontece na pessoa batizada. Com o batismo Deus Trindade toma posse de sua criatura. Esta, espiritualmente falando, resplandece pela presença deste Deus. Deus nos comunica a sua beleza e a sua luz. Nos primeiros séculos os neófitos eram chamados de “fotoi”, isto é, “iluminados”, evidenciando assim o resplendor de uma pessoa na qual habita Deus Trindade. A transfiguração de Jesus é uma antecipação da nossa transfiguração. A consequência é que também o nosso modo de viver deve ser transformado. Um mote latino diz: “Agere sequitur esse”, isto é: “A maneira de agir deve ser conforme ao próprio ser”. Nós cristãos temos que ser espiritualizados e transfigurados.  Também a nossa maneira de agir deve ser transfigurada. Em uma homilia na liturgia batismal o papa Leão Magno assim disse: “Toma consciência, ó cristão, da tua dignidade. E já que participas da natureza divina, não volte aos erros de antes por um comportamento indigno de tua condição. Recorda-te que foste arrancado do poder das trevas e levado para a luz e o reino de Deus”. Devemos realizar uma transfiguração continua.

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda