Homilia da Semana

Vós sois os prediletos de Jesus – Primeira Comunhão

FESTIVIDADE LITÚRGICA DO CORPO DE DEUS
HOMILIA DO PAPA SÃO JOÃO PAULO II ÀS CRIANÇAS DA PRIMEIRA COMUNHÃO
Quinta-feira, 14 de Junho de 1979

Caríssimos Meninos e Meninas! É grande a minha alegria ao ver-vos aqui, tão numerosos e tão cheios de fervor, para celebrardes com o Papa a Solenidade litúrgica do Corpo e do Sangue do Senhor! Saúdo a todos e cada um de vós em particular, com a mais profunda ternura, e agradeço-vos de coração terdes vindo renovar a vossa Santa Comunhão com o Papa e pelo Papa; e do mesmo modo agradeço aos vossos Párocos, sempre dinâmicos e zelosos, e aos vossos pais e parentes, que vos prepararam e acompanharam. Tenho ainda nos olhos o espetáculo impressionante das imensas multidões encontradas na minha viagem à Polônia; e eis agora o espetáculo das Crianças de Roma, eis a vossa maravilhosa inocência, os vossos olhos cintilantes e os vossos sorrisos irrequietos!
Vós sois os prediletos de Jesus: Deixai vir a Mim os pequeninos! —  dizia o Divino Mestre — não os impeçais (Lc 18, 16). Vós sois também os meus prediletos! Queridos meninos e meninas! Preparastes-vos para a vossa Primeira Comunhão com muito empenho e muita deligência, e o vosso primeiro encontro com Jesus foi um momento de intensa comoção e de profunda felicidade. Recordai-vos para sempre deste dia abençoado da Primeira Comunhão! Recordai-vos para sempre do vosso fervor e da vossa alegria puríssima! Agora também viestes aqui, para renovar o vosso encontro com Jesus.
Não podíeis fazer-me uma oferta mais bela nem mais preciosa! Muitos meninos já tinham expresso o desejo de receber a Primeira Comunhão das mãos do Papa. Certamente seria para mim grande consolação pastoral dar Jesus pela primeira vez aos meninos e às meninas de Roma. Mas isto não é possível; e depois é melhor cada menino receber a sua Primeira Comunhão na própria Paróquia, do próprio Pároco. Mas pelo menos é-me possível hoje dar a Sagrada Comunhão a uma representação vossa, tendo presente no meu amor todos os outros, neste vasto e magnífico Cenáculo! E é esta, para mim e para vós, uma alegria imensa que não esqueceremos nunca mais.
Ao mesmo tempo, quero deixar-vos alguns pensamentos, que vos possam servir para manterdes sempre límpida a vossa fé, fervoroso o vosso amor a Jesus Eucarístico, e inocente a vossa vida.

1. Jesus está presente conosco.
Eis o primeiro pensamento. Jesus ressuscitou e subiu ao céu; mas quis ficar conosco e para nós, em todos os lugares da terra. A Eucaristia é realmente uma invenção divina! Antes de morrer na Cruz, oferecendo a sua vida ao Pai em sacrifício de adoração e de amor, Jesus instituiu a Eucaristia, transformando o pão e o vinho na sua mesma Pessoa e dando aos Apóstolos e aos seus sucessores, os Bispos e os Sacerdotes, o poder de O tornarem presente na Santa Missa. Jesus, por conseguinte, quis ficar conosco para sempre! Jesus quis unir-se intimamente a nós na Sagrada Comunhão, para nos mostrar o seu amor direta e pessoalmente. Cada um pode dizer: “Jesus ama-me! Eu amo a Jesus”; Santa Teresa do Menino Jesus, recordando o dia da sua Primeira Comunhão, escrevia: “Oh, como foi doce o primeiro beijo que Jesus deu à minha alma!… Foi beijo de amor, sentia-me amada e dizia por minha vez: ‘amo-vos, ofereço-me a vós para sempre’… Teresa tinha desaparecido como gota de água que se perde no meio do oceano. Ficava só Jesus: o mestre, o Rei” (Teresa de Lisieux, Storia di un’anima: Ediz, Queriniana, 1974, Man. A, Cap. IV, pág. 75). E pôs-se a chorar de alegria e consolação, entre o espanto das companheiras. Jesus está presente na Eucaristia para ser encontrado, amado, recebido e consolado. Onde quer que esteja um sacerdote, ali está presente Jesus, porque a missão e a grandeza do Sacerdote é precisamente a celebração da Santa Missa. Jesus está presente nas grandes cidades e nas pequenas povoações, nas igrejas de montanha a nas longínquas cabanas da África e da Ásia, nos hospitais e nas prisões; até nos campos de concentração estava presente Jesus Eucarístico! Queridos meninos! Recebei Jesus com frequência! Permanecei n’Ele; deixai-vos transformar por Ele!

2. Jesus é o vosso maior amigo.
Eis o segundo pensamento. Não o esqueçais nunca! Jesus quer ser o nosso amigo mais íntimo, o nosso companheiro de caminho. Sem dúvida tereis muitos amigos; mas não podeis estar sempre com eles e nem sempre eles vos podem ajudar, ouvir e confortar. Jesus, pelo contrário, é o amigo que não vos abandona nunca; Jesus conhece-vos um por um, pessoalmente; conhece o vosso nome, segue-vos, acompanha-vos, caminha convosco todos os dias; participa nas vossas alegrias e conforta-vos nos momentos de aflição e de tristeza. Jesus é o amigo de que não podemos prescindir, uma vez que o encontramos e compreendemos que nos ama e quer o nosso amor. Com Ele podeis falar, abrir-vos; a Ele podeis dirigir-vos com afeto e confiança. Jesus morreu nada menos que na Cruz por amor de nós! Fazei um pacto de amizade com Jesus e não o interrompais nunca! Em todas as situações da vossa vida, dirigi-vos ao Amigo Divino, presente em nós com a sua “Graça”, presente conosco e em nós na Eucaristia. E sede também os mensageiros e as testemunhas alegres do Amigo Jesus nas vossas famílias, entre os vossos colegas, nos lugares dos vossos divertimentos e das vossas férias, nesta sociedade moderna, muitas vezes tão triste e insatisfeita.

3. Jesus espera-nos!
Eis o último pensamento. A vida, longa ou breve, é uma viagem para o Paraíso: é lá a nossa Pátria, é lá a nossa verdadeira casa; é lá o nosso encontro! Jesus espera-nos no Paraíso! Não esqueçais nunca esta verdade suprema e confortante. E que é a Sagrada Comunhão senão um Paraíso antecipado? De fato, na Eucaristia é o próprio Jesus que nos espera e encontrá-lo-emos um dia face a face no Céu. Recebei Jesus com frequência, para nunca esquecerdes o Paraíso, para estardes sempre a caminho da casa do Pai Celeste, para saboreardes já um pouco o Paraíso! Isto tinha-o compreendido Domingos Sávio, que aos sete anos conseguiu licença de receber a Primeira Comunhão, e naquele dia escreveu os seus propósitos: “Primeiro: confessar-me-ei com muita frequência e farei a Comunhão todas as vezes que o confessor me der licença. Segundo: quero santificar os dias festivos. Terceiro: os meus amigos serão Jesus e Maria. Quarto: a morte, mas não pecados”. Isto que o pequeno Domingos escrevia há tantos anos (em 1849); vale ainda agora e valerá para sempre.

Caríssimos, concluo dizendo-vos, meninos e meninas, mantende-vos dignos de Jesus que recebeis! Sede inocentes e generosos! Empenhai-vos em tornar a vida bela a todos, com obediência, com gentileza, com boa educação! O segredo da alegria é a bondade! E a vós, pais e parentes, digo com ansiedade e confiança: amai os vossos meninos e meninas, respeitai-os, edificai-os! Sede dignos da sua inocência e do mistério encerrado na sua alma, criada diretamente por Deus! Eles têm necessidade de amor, de delicadeza, de bom exemplo e de maturidade! Não os descureis. Não os atraiçoeis! Confio todos vós a Maria Santíssima, a nossa Mãe do céu, a Estrela do mar da nossa vida: implorai-a todos os dias, vós, meninos e meninas! Dai-Lhe, a Maria Santíssima; a vossa mão para que vos conduza a receber santamente Jesus. E dirijamos também um pensamento de afeto e de solidariedade a todas as crianças que sofrem; a todas as crianças que não podem receber Jesus porque não O conhecem, a todos os pais que foram dolorosamente privados dos seus filhos ou estão desiludidos e amargurados nas suas expectativas. No vosso encontro com Jesus rezai por todos, recomendai todos, invocai graças e auxílios para todos! E pedi também por mim, vós que sois os meus prediletos!
© Copyright 1979 – Libreria Editrice Vaticana

 

“A primeira comunhão das crianças é um incentivo para que elas se tornem verdadeiras discípulas de Jesus Cristo e continuem esse processo da fé, com a crisma e a catequese permanente, onde elas possam realmente aprofundar sua fé”.
A “Eucaristia é fundamental para a família”, porque é o “alimento para nossa caminhada”. “Nós somos seres fracos, limitados e precisamos de alguma coisa que nos sustente, e a Eucaristia é justamente isso. Além da Eucaristia ser sempre vivida em comunidade, e é muito importante que as crianças sejam inseridas numa comunidade, sejam acolhidas e possam ser também protagonistas da fé no meio das outras crianças”.
Pergunta às crianças: se quando elas se confessaram sentiram alegria no coração? E agradeceu a Deus porque as crianças tiveram pais que as ajudaram a entender que Jesus é importante em suas vidas e é o nosso Salvador. Agradeceu ainda porque elas foram batizadas e, naquele dia, aconteceu a graça mais importante para nas suas vidas: “Jesus as tornou filhas de Deus. Nós entramos numa família que tem um Pai que é o melhor pai de todos, que nos fez descobrir que temos muitos irmãos e irmãs”.
“Vocês que receberam esse cuidado de Jesus pensem que têm muitas outras crianças que estão esperando para conhecer Jesus, e que as crianças sabem falar de Jesus para outras crianças”. O tempo foi passando e vocês encontraram na Igreja um padre que é como um pai que cuida de nós assim como o pastor cuida de uma ovelhinha, e conheceram os catequistas que as ajudaram a conhecer Jesus. “Hoje, Jesus dá a vocês o maior presente da vida, desde o batismo. Ele não queria ficar longe de nós. Jesus veio ao mundo, se fez criança, foi crescendo como cada um de nós, morou na sua família e depois quis ser pregado na cruz, morreu e ressuscitou, mas Ele não queria voltar para o céu sem ficar no meio de nós. Então, o que Ele criou para nós é o que vocês vão receber hoje, pela primeira vez: ‘o corpo e o sangue de Jesus na Eucaristia'”.
Quando comemos uma comida ela se transforma na gente, nos deixa mais fortes, mas com a Eucaristia acontece o contrário. “Quando nos alimentamos de Jesus, nós nos transformamos n’Ele. Se, a partir de hoje, vocês sempre comungarem bem preparados, vocês irão crescendo e ficando com o ‘rosto de Jesus’, com o ‘jeito de Jesus’, vão viver a vida inteira com Jesus dentro da gente”. “Comungando Jesus vocês serão felizes, vão ter muita força para amar seu pai e sua mãe, os catequistas, os professores, os colegas, forças para viver uma vida diferente. A comunhão nos faz viver bem unidos”.
Uma pequena oração pelas crianças: “Hoje toda Igreja diz com vocês – ‘Fica conosco, Jesus!’. Senhor, não saia mais do coração de nossas crianças, que eles não sejam atraídas por coisas que não prestam, mas permaneçam sempre contigo”.

XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Frei Raniero Cantalamessa, OFMCap.

Os grandes exercem o poder 
Isaías 53, 2a. 3a. 10-11; Hebreus 4, 14-16; Marcos 10, 35-45

«Jesus os chamou e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não deve ser assim; quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos”.» Depois daquele sobre as riquezas, o Evangelho deste domingo nos dá a conhecer o juízo de Cristo sobre outro dos grandes ídolos do mundo: o poder. Tampouco o poder é intrinsecamente mal, como não o é o dinheiro. Deus define a si mesmo «o onipotente» e a Escritura diz que «o poder pertence a Deus» (Sl 62, 12). Já que o homem havia abusado do poder que lhe foi concedido, transformando-o em domínio do mais forte e em opressão do fraco, o que Deus fez? Para dar-nos exemplo, ele se despojou de sua onipotência; de «onipotente» se fez «impotente». «Despojou-se de si mesmo, tomando a condição de servo» (Fl 2, 7). Transformou o poder em serviço. A primeira leitura do dia contém uma descrição profética deste salvador «impotente»: «Cresceu diante dele como um pobre rebento, enraizado numa terra árida. Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos». Revela-se assim um novo poder, o da cruz: «Escolheu Deus o menor do mundo para confundir os sábios» (1Cor 1, 24-27). Maria, no Magnificat, canta antecipadamente esta revolução silenciosa obrada pela vinda de Cristo: «Derrubou do trono os poderosos» (Lc 1, 52). Quem é posto sob acusação por esta denúncia do poder? Só os tiranos e ditadores? Oxalá fosse assim! Tratar-se-ia, neste caso, de exceções. Ao contrário, isso afeta todos nós. O poder tem infinitas ramificações, enfia-se por todas as partes, como certa areia do Saara quando sopra o vento siroco. Até na Igreja. O problema do poder não se propõe, portanto, só no mundo político. Se ficamos aí, não fazemos mais do que unir-nos ao grupo dos que estão sempre dispostos a dar golpes, por suas próprias culpas… no peito dos demais. É fácil denunciar culpas coletivas, ou do passado; mais difícil são as pessoais e do presente. Maria diz que Deus «dispersou os soberbos de coração; derrubou do trono os poderosos» (Lc 1, 51 s). Ela assinala implicitamente um âmbito preciso no qual se deve começar a combater a «vontade de poder»: o do próprio coração. Nossa mente («os pensamentos do coração») pode converter-se em uma espécie de trono no qual nos sentamos para ditar leis e fulminar quem não se submete. Somos, ao menos nos desejos se não nos fatos, os «poderosos nos tronos». Na própria família é possível, lamentavelmente, que se manifeste nossa vontade inata de domínio e atropelo, causando contínuos sofrimentos a quem é vítima disso, freqüentemente (não sempre) a mulher. O que o Evangelho opõe ao poder? O serviço! Um poder para os outros, não sobre os outros. O poder confere autoridade [no sentido de domínio, Ndt], mas o serviço confere algo mais, autoridade que significa respeito, estima, uma ascendência verdadeira sobre os demais. Ao poder o Evangelho opõe também a não-violência, isto é, um poder de outro tipo, moral, não físico. Jesus dizia que teria podido pedir ao Pai doze legiões de anjos para derrotar os inimigos que estavam a ponto de crucificá-lo (Mt 26, 53), mas preferiu rogar por eles. E foi assim que conseguiu sua vitória. O serviço não se expressa, contudo, sempre e só com o silêncio e a submissão ao poder. Às vezes, pode impulsionar a levantar valentemente a voz contra o poder e contra seus abusos. Assim fez Jesus. Ele experimentou em sua vida o abuso do poder político e religioso da época. Por isso, é próximo a todos aqueles que, em qualquer ambiente (na família, na comunidade, na sociedade civil), passam pela experiência de um poder mau e tirânico. Com sua ajuda é possível, como Ele fez, não «sucumbir ao mal», mais ainda, vencer «o mal com o bem» (Rm 12, 21).

 

Evangelho segundo São Marcos 10, 35-45
Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se dele e disseram: «Mestre, queremos que nos faças o que te pedimos.» Disse-lhes: «Que quereis que vos faça?» Eles disseram: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda.» Jesus respondeu: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu bebo e receber o batismo com que Eu sou batizado?» Eles disseram: «Podemos, sim.» Jesus disse-lhes: «Bebereis o cálice que Eu bebo e sereis batizados com o batismo com que Eu sou batizado; mas o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não pertence a mim concedê-lo: é daqueles para quem está reservado.» Os outros dez, tendo ouvido isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João. Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos. Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.»

Por Pe. Fernando José Cardoso
No domingo passado contemplávamos um inimigo do Reino de Deus e da Salvação eterna: o dinheiro. Hoje a Palavra de Deus nos apresenta um sócio aliado seu: o poder. O poder e o dinheiro caminham sempre de mãos juntas, com dinheiro se conquista poder e através do poder se busca com mais facilidade o dinheiro. Na semana passada era o jovem rico que abandonava a chance de sua existência diante de Deus por causa da escravidão do dinheiro. Hoje são dois discípulos, íntimos de Jesus que se transformam em pessoas arrogantes, de desejos desmedidos, são os dois irmãos Tiago e João. Desejam nada menos que os melhores lugares no reino de Jesus e isto depois de Jesus ter pronunciado palavras graves e severas a respeito do futuro que o esperava, sua paixão e morte na cruz: “Queremos que faças o que pediremos”, Jesus lhes pergunta: “O quê?” A resposta vem pronta, mas por detrás dos dois irmãos estava a mãe ambiciosa ela também: “Queremos os melhores lugares, queremos estar um à direita e outro a esquerda, no teu reino”. A resposta de Jesus mais uma vez é pronta: “Não sabeis o que pedis, a final acabo de falar em paixão, podeis eventualmente, beber o cálice que Eu estou para beber? Podeis vós também ser submergidos no batismo com que devo ser submergido Eu?” Resposta inconsciente e superficial da boca dos dois. “Podemos”. Jesus, no entanto não se dá por vencido. É verdade uma vez convertidos os dois irmãos beberão o cálice de Cristo, cada um a seu modo. Tiago foi o primeiro dos doze a ser decapitado, por ordem de Herodes Agripa I. “Quanto a sentar-se a minha direita ou a minha esquerda, este é um aspecto que compete apenas a Deus, nós todos devemos apenas abandonar-nos nas mãos de sua providência”. Os dez se indignam, não contra o pedido imoderado dos dois, mas com a concorrência desleal que estavam fazendo. É então que Jesus mais uma vez os chama a todos e lhes dá a lição que nós nunca ouviremos demasiadamente. Neste mundo existe um carreirismo, quem não conhece o carreirismo das nossas sociedades, na vida, na política, na profissão? Queremos sobressair a todos, ganhar o mais possível, estar no alto, brilhar sob todos os aspectos. Mas aquele que é o Senhor do Universo afirma que não veio indicar este caminho. O Senhor do Universo e o Rei dos Reis veio se sentar no último lugar e nos convida a fazer-lhe companhia, nós também no último lugar. Procure cada um hoje sentar-se no último lugar, procure o último lugar ao longo de sua existência e verá com os próprios olhos e fará a experiência própria de que este é o lugar de Cristo, este é o lugar fecundo onde podemos frutificar para Deus.

 

«Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo»
São Tomás de Aquino (1225-1274), teólogo dominicano, Doutor da Igreja
Conferência sobre o Credo, 6 (a partir da trad. do breviário francês)

Que necessidade havia de que o Filho de Deus sofresse por nós? Uma grande necessidade, que podemos resumir em dois pontos: necessidade de remediar os nossos pecados e necessidade de dar o exemplo para a nossa conduta. […] A Paixão de Cristo dá-nos um modelo válido para toda a vida. […] Se procuras um exemplo de caridade: «Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13). […] Se buscas paciência, é na cruz que a encontramos no grau máximo: […] Na cruz Cristo sofreu grandes tormentos com paciência porque «ao ser insultado […] não ameaçava» (1Pe 2, 23), «não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro» (Is 53,7). […] «Corramos com perseverança a prova que nos é proposta, tendo os olhos postos em Jesus, autor e consumador da fé. Ele, renunciando à alegria que lhe fora proposta, sofreu a cruz, desprezando a ignomínia» (Heb 12, 1-2). Se procuras um exemplo de humildade, olha para o Crucificado. Porque Deus quis ser julgado por Pôncio Pilatos e morrer. […] Se procuras um exemplo de obediência, basta que sigas Aquele que se fez obediente ao Pai «até à morte» (Fil 2, 8). «De fato, tal como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, assim também pela obediência de um só todos se hão-de tornar justos» (Rm 5, 19). Se buscas um exemplo de desapego dos bens terrenos, simplesmente segue Aquele que é o «Rei dos reis e Senhor dos senhores», «em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento» (1Tim 6, 15; Col 2, 3); Ele está nu na cruz, tornado motivo de escárnio, coberto de escarros, maltratado, coroado de espinhos e, por fim, dessedentado com fel vinagre.

 

O desafio de viver o amor como serviço
Padre Fabricio

Existem hoje no mundo diversas iniciativas de preservação, pessoas que gastam seu tempo, dedicam sua vida, a preservação de animais que acabaram entrando em extinção. Movimentos sérios, pessoas que se dedicam a preservação de monumentos históricos, preocupados em não deixar que os animais e coisas se percam, para não correr o risco de que nossos filhos e netos não os conheçam, pois não foram preservados. É interessante que neste vasto grupo de preservação, não se encontrem grupos que se preocupem em preservar a raça de animal mais importante. Faltam grupos que dêem suas forças para preservar o animal “homem”, pois corre-se o risco de nossos filhos não encontrarem mais, exemplos de verdadeiros homem e mulheres, pessoas de caráter, com princípios religiosos. Corre-se o risco de nossos filhos não terem modelo para ser copiados no futuro. O que nos falta não é uma instituição que declare lutar para a preservação do homem, ela já existe, tem o nome de Igreja católica Apostólica Romana. De que vai adiantar, preservar animais e praças, se não for preservados homens para passear nessa praça? O evangelho nos mostra o serviço, que em caráter de preservação, mas como muitas coisas estão em extinção, as palavras estão em extinção. A compreensão das palavras estão em extinção, quando falamos em serviço, nós pensamos em dinheiro, em emprego. Em tudo que Jesus fazia era um serviço de amor ao próximo, na correção, na água transformada em vinho, tudo que Jesus trabalhou era para a compreensão de serviço em amor. Mas hoje o que é amor? Amor hoje é prazer, eu faço porque me faz bem, porque gosto. A dimensão de prestação de serviço, na leitura vamos conhecendo a pessoa de Jesus. Esse servo sofredor, que sabe servir o próximo, não porque fez faculdade, mas porque ama e aprendeu a ter compaixão de mim e de você. Um homem, quando não entende a dimensão de serviço que é amor, ele tira proveito dos outros. Um juventude não conhece o serviço, porque entendeu que amar é ter prazer, é tirar vantagem. E fica pedindo provas de amor. Tem muitos casamentos se acabando porque não entendeu que amor é serviço e não tirar vantagem do outro. O evangelho nos mostra uma contradição, chamamos a Jesus de mestre e queremos que ele faça o que queremos. Não é atual o desgaste de amor como serviço. Nós queremos ser servidos e o evangelho termina com exemplo lindo, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para ser servido. Nós chegamos na capela e dizemos: ‘Jesus tu és rei, olha a minha vida está difícil, e eu quero que o Senhor faça isso por mim, se não fizer eu mudo de religião.’ As pessoas que acham que amor é só dizer sim, e quando Deus por amor nos nega algo, achamos ruim. Queremos encontrar um Deus que faça tudo como eu quero. Deus sabe dizer não porque ama e não porque é ruim. Deus sabe servir seus filhos quando diz não, como com Tiago e João, esses lugares estão reservado para quem o Pai preparou. Nós podemos aproximar do Senhor para aprender o serviço e não para mandar no Senhor. Tem muitos que não servem aqueles que amam. Se no seu relacionamento não tem serviços, desconfie da maturidade do amor. A vida de Jesus foi serviço. A vida do cristão é imitar a Cristo. Não existe cristão desempregado, pois onde o cristão está, há um serviço a ser feito para quem conhece e para não conhece. Quem quiser ser grande seja servo, é a medida do amor na vida cristã. Para quem se dispõe, o serviço acontece onde eu estou. Serviço que presto para meu esposo(a), filhos. O evangelho de hoje quer fazer eco a preservação do homem. Na luta de ser maior que o outro, Jesus nos ensina o contrário, por isso nossa vida é contrária ao mundo. Deus escolhe servir sempre, mas nós escolhemos a posição cômoda de nos servimos uns dos outros e de tirar proveito do Senhor. Os relacionamentos hoje não tem estabilidade, porque quando chega a hora de servir, as pessoas que estão acostumadas com o definição de amor prazer, mudam de parceiro. O entendimento de que serviço é amor, qualifica a vida do cristão.

 

Em cada domingo encontramos “novidades” que nos ajudam a aprofundar a nossa caminhada de fé. No passado domingo, vimos como era importante a sabedoria para um bom discernimento e aprendíamos que o desprendimento das riquezas era um requisito para seguir Jesus. Hoje, temos dois pontos a ter em conta: seguir Jesus é servir; seguir Jesus é descobrir, na sua entrega até a morte de cruz, o seu caráter redentor, ou seja, libertador da vida; uma vida que devemos aprender a seguir. Encontramo-nos diante da nossa capacidade contemplativa do mistério de Deus e da nossa capacidade de compreender o convite ao serviço que valoriza e destaca quem se serve e não se procura a própria glória. O evangelista apresenta-nos o pedido de Tiago e de João: “Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda”. Os discípulos ainda não tinham compreendido a mensagem do Mestre e o significado da sua paixão. Jesus já tinha feito três anúncios da sua paixão e os discípulos nada tinham compreendido. Todas as vezes que fez o anúncio da sua paixão, teve que fazer uma catequese para que, pouco a pouco, os discípulos fossem interiorizando o significado da sua morte na cruz e assimilando que a sua vida aparentemente seria um fracasso. Todavia, parece que Jesus não conseguiu passar a mensagem, porque Tiago e João não só davam valor ao êxito humano como também queriam participar desse êxito, como protagonistas. Mais uma vez, Jesus inicia uma catequese e fala do cálice e do batismo que exprimem e simbolizam a desgraça e a morte. A ânsia de ter êxito está muito enraizada no homem da sociedade atual que quase não admite o fracasso e a dor. Mas isto não se pode separar da fé em Jesus Cristo. Hoje, é um dos aspectos mais delicados e mais urgentes a pregar, apesar de vivermos numa sociedade que evita a dor a qualquer preço. O evangelista Marcos apresenta-nos duas reações: por um lado, o desejo de Tiago e de João de serem protagonistas e de serem reconhecidos pelo mundo; por outro, os sentimentos de indignação dos outros discípulos. Tantas vezes comentamos os êxitos e os protagonismos de muitas pessoas, caindo algumas vezes na tentação de acrescentar que não foi por mérito próprio! Facilmente pensamos assim dos políticos, dos empresários, de alguns movimentos ou personalidades eclesiais e de algumas organizações. Jesus propõe o contrário do que habitualmente se entende por mandar que é equivalente a dominar, ou seja, submeter o outro. Ele afirma como condição para segui-lo a atitude de serviço. É importante, então, saber qual é o sentido da palavra serviço na boca de Jesus, porque tem sempre em conta um fim: para dar a vida pela redenção de todos. Servir é ser escravo, é rebaixar-se, não para submeter, mas para libertar aqueles que encontras no caminho da tua vida. Servir é dar a vida, é dar sentido à vida e abrir o sentido da vida a todos àqueles que servem. Assim, é conveniente refletir e saborear com o coração cada uma das palavras que encontramos na primeira leitura: “Aprouve o Senhor esmagar o seu servo pelo sofrimento”, “se oferecer a sua vida como sacrifico de expiação, terá uma descendência duradoira… a obra do Senhor prosperará nas suas mãos”, “O Justo, meu Servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades”. Quem quer ser discípulo de Jesus tem de deixar que estas palavras entrem e permaneçam no seu íntimo. O serviço ao qual Deus chama os discípulos tem a ver com a qualidade daqueles que se deixaram impressionar pelas palavras que a Carta aos Hebreus nos apresenta na segunda leitura: “Vamos, portanto, cheios de confiança ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno”.

São Lucas, Evangelista – 18 de Outubro

Dia dos Médicos e das Médicas

São Lucas é uma das figuras mais simpáticas do Cristianismo primitivo. Homem de posição e qualidades, de formação literária, de profundo sentido artístico e divino, entrega-se plenamente ao Cristianismo logo que toma conhecimento dele na sua cidade, Antioquia, a grande metrópole romana do Oriente; subjuga-o a grandeza de São Paulo e converte-se no mais fiel e incondicional dos seus discípulos. Toda a sua ciência médica e literária põe-na à disposição do grande Apóstolo, entrega-lhe a sua pessoa e segue-o para toda a parte, como a sombra ao sol. Humilde e devoto, pode dizer-se dele que foi um desses homens admiráveis que brilham como estrelas de segunda ordem, ou melhor, que renunciam a brilhar por si mesmos para se entregarem a outros de mais altura, oferecendo assim o mérito da modéstia e uma ação mais fecunda, ainda que menos pessoal.
Assim é São Lucas. Teve a sorte invejável de encontrar-se no caminho da sua vida com um mestre espiritual incomparável. Entregou-se a ele sem reservas e com fé cega, na prosperidade e na adversidade. São Lucas deixou-nos como escritor duas obras divinas: o terceiro Evangelho canônico e a história dos primeiros dias cristãos e das missões de São Paulo. Em ambos os livros se mostra São Lucas o discípulo e admirador incondicional de São Paulo. Olha para Cristo com os olhos de São Paulo, “o seu iluminador”, como lhe chama Tertuliano. A história primeira do Cristianismo centra-a na figura de São Paulo. São Lucas identificou-se com a alma do seu mestre. Por isso o seu Evangelho pode chamar-se “o Evangelho de São Paulo”.
A mensagem divina de Jesus, vê-a São Lucas através do prisma de São Paulo, que lhe dá à inteligência profunda do mistério de Cristo. A filantropia (amizade para com os homens) de Deus resplandece de maneira extraordinária em São Lucas: a bondade misericordiosa, a benignidade que se inclina sobre todas as misérias. Jesus é o Salvador de todos os homens, de todos os povos, de todas as raças. A parábola da ovelha perdida, do filho pródigo, do bom samaritano, realçam em forma concreta o espírito universalista e misericordioso do Evangelho, que profundamente sentiu São Paulo. São Lucas é «o escritor da mansidão de Cristo».
Notou-se com razão o papel importante que desempenham as mulheres no Evangelho de São Lucas. O paganismo tinha rebaixado a nobre condição delas como companheiras do homem. São Paulo fez sobressair a igualdade de todos em Cristo, onde não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem ou mulher. São Lucas recolhe, da vida e ensinamento de Jesus, tudo o que pode realçar o valor e estima que teve pela mulher. Como médico, São Lucas tinha coração compassivo, conhecedor das misérias da humanidade, e estava preparadíssimo para assimilar o espírito filantrópico e essencialmente humano do Evangelho.
Onde nasceu São Lucas? A opinião mais provável diz-nos que foi natural de Antioquia da Síria. De origem pagã, deve lá ter conhecido muito cedo o Cristianismo e deve tê-lo abraçado com todas as veras do seu coração, como homem reto, bem disposto e desapaixonado. A tradição diz-nos que desde a juventude guardou perfeita castidade. Foi como açucena a brotar dentre águas corrompidas. Cumpriu-se nele a máxima de Jesus: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus». São Lucas viu e sentiu profundamente a formosura do Cristianismo. Num mundo que desconhecia, odiava ou punha a ridículo o nome de cristão, ele sentiu-lhe a formosura e diz-nos, cheio de santo orgulho, que foi a sua cidade, Antioquia, a primeira terra onde se começaram a distinguir os discípulos de Jesus com o nome glorioso de «cristãos».
Pelo ano de 50, durante a segunda missão de São Paulo, aparece pela primeira vez ao lado do Apóstolo. Acompanha-o pela Macedônia e a seguir aparta-se dele, em Filipos, até à terceira missão, pelo espaço de quase seis anos. Por 58 sobe com Paulo a Jerusalém, onde conheceu muitos discípulos imediatos de Jesus e se informou minuciosamente de tudo o que se referia à infância do Senhor, ao seu ministério público e à sua paixão e morte. Assim recolheu, com carinho de enamorado, os dados da Anunciação, Encarnação, Nascimento e crescimento de Jesus. Que cenas tão cheias de colorido, de luz, de paz e gozo espiritual! Quanto temos de agradecer, nós cristãos, à diligente e adorável pena de São Lucas!
Uma tradição – que recolheu no século XIV Nicéforo Calisto, inspirado numa frase de Teodoro, escritor do século VI – diz-nos que São Lucas foi pintor e fala-nos duma imagem de Nossa Senhora saída do seu pincel. Santo Agostinho, no século IV diz-nos pela sua parte que não conhecemos o retrato de Maria; e Santo Ambrósio, com sentido espiritual, diz-nos que era figura de bondade. Este é o retrato que nos transmitiu São Lucas da Virgem Maria: o seu retrato moral, a bondade da sua alma. O Evangelho de boa parte das Missas de Maria Santíssima é tomado de São Lucas, porque foi ele quem mais longamente nos contou a sua vida e nos descobriu o seu Coração. Duas vezes esteve preso São Paulo em Roma e nos dois cativeiros teve consigo São Lucas, “médico queridíssimo”. Ajudava-o no seu aposto lado, consolava-o nos seus trabalhos e atendia-o e curava-o com solicitude nos seus padecimentos corporais. No segundo cativeiro, do ano 67, pouco antes do martírio, escreve a Timóteo que “Lucas é o único companheiro” na sua prisão. Os outros tinham-no abandonado.
Não podemos explicitar onde esteve São Lucas no intervalo que separa os dois cativeiros de São Paulo, dos anos 64 a 67. Neste período, consta-nos que veio São Paulo à Hispânia; não se pode excluir a hipótese, para os peninsulares tão honrosa, de também São Lucas nos ter visitado.
Com a morte de São Paulo, eclipa-se na história São Lucas. Um escrito do século III diz-nos que morreu virgem na Bitínia, na idade de 74 anos, cheio do Espírito Santo. Santo Epifânio, no século IV, acrescenta que pregou o Evangelho na Itália, França, Dalmácia e Macedônia.
Sobre a sua morte não temos dados concretos nenhuns, mas uma tradição autorizada, que vem do século IV, assegura-nos que derramou o sangue por Cristo. Assim rubricou a verdade que tinha escrito para toda a Igreja e para o mundo inteiro, com a carta magna do seu Evangelho e com a história dos atos apostólicos. Podemos repetir a sentença de Pascal, falando de todos os Evangelistas: Creio fielmente na história dos que se deixam matar para dar testemunho da verdade do que escreveram. São Lucas é médico bondoso e serviçal, é literato, mas sobretudo é santo e mártir, que morreu pela fé que pregou de palavra e exarou nos seus livros.
É considerado o Padroeiro dos médicos, por também ele ter exercido esse oficio, conforme diz São Paulo aos Colossences (4, 14): “Saúda-vos Lucas, nosso querido médico”.

 

Papa a médicos católicos: reconhecer a face de Deus nos mais frágeis 
Valor da vida

Sexta-feira, 20 de setembro  de 2013, Jéssica Marçal, com Rádio Vaticano em italiano, Da Redação

Reunido com médicos católicos, Papa destacou o valor da vida humana

A vida humana é sagrada. Assim dirigiu-se o Papa Francisco nesta sexta-feira, 20, aos médicos ginecologistas da Federação Internacional das Associações Médicas Católicas, reunidas em Roma desde 22 de setembro. O Santo Padre destacou a necessidade de atenção principalmente para com os mais frágeis, como os idosos, de forma a não promover a cultura do descartável. Francisco refletiu sobre a mentalidade generalizada do útil, a chamada cultura do descartável, que hoje escraviza tantos corações e tem um alto custo: eliminar seres humanos se física ou socialmente mais frágeis. Ele destacou a resposta diante dessa mentalidade é um “sim” decidido e sem hesitação à vida. “Cada criança não nascida, mas condenada injustamente a ser abortada, tem a face do Senhor, que mesmo antes de nascer, e depois apenas nascido experimentou a rejeição do mundo. E cada idoso… mesmo se enfermo ou no fim de seus dias, leva em si a face de Cristo. Não se pode descartar, como nos propõe a cultura do descartável! Não se pode descartar!”, enfatizou. Francisco concentrou-se então sobre o valor da vida humana, que ao contrário das coisas materiais, não tem um preço, pois as pessoas têm uma dignidade, valem mais que estas coisas. Porém, ele lembrou que em muitas situações a vida acaba sendo o que vale menos. “Por isto a atenção à vida humana em sua totalidade transformou-se nos últimos tempos uma verdadeira prioridade do Magistério da Igreja, particularmente àquela majoritariamente indefesa, isso é, as pessoas com deficiência, doentes, o nascituro, a criança, o idoso, que é a vida mais indefesa”. Outro ponto abordado pelo Papa foi a atual situação paradoxal em que se encontra a medicina. Por um lado, há progressos graças ao trabalho de cientistas que se dedicam à procura de novos tratamentos. Por outro, porém, há o perigo do médico perder a própria identidade de servo da vida. “Mesmo estando por sua natureza ao serviço da vida, as profissões de saúde são conduzidas, às vezes, a não respeitar a própria vida”. Os médicos reunidos no Vaticano participam desde o último dia 22 da 10º Conferência Internacional sobre o tema “A nova evangelização, as práticas obstétricas e cuidado com as mães”.

 

DISCURSO do Papa a médicos católicos – 20/09/2013
Audiência com os participantes do encontro de ginecologistas católicos
Sala Clementina do Palácio Apostólico
Sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Peço-vos desculpa pelo atraso… Esta é uma manhã um pouco complicada para audiências… Peço-vos desculpa. 1. A primeira reflexão que gostaria de partilhar com vocês é esta: nós assistimos hoje a uma situação paradoxal, que diz respeito à profissão médica. Por um lado constatamos – e agradecemos a Deus – os progressos da medicina, graças ao trabalho de cientistas que, com paixão e sem economizar, se dedicam à procura de novos tratamentos.  Por outro, porém, encontramos também o perigo de que o médico perca a própria identidade de servo da vida. A desorientação cultural tem afetado também aquilo que parecia um âmbito intocável: o vosso, a medicina! Mesmo estando por natureza a serviço da vida, as profissões de saúde são induzidas às vezes a não respeitar a própria vida. Em vez disso, como nos recorda a Encíclica Caritas in veritate, “a abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento”. Não há verdadeiro desenvolvimento sem esta abertura à vida. Se se perde a sensibilidade pessoal e social para com o acolhimento de uma nova vida, também outras formas de acolhimento úteis à vida secam. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna capaz de ajuda recíproca” (n. 28). A situação paradoxal está no fato de que, enquanto se atribuem à pessoa novos direitos, às vezes mesmo direitos presumidos, nem sempre se protege a vida como valor primário e direito primordial de cada homem. O fim último do agir médico permanece sempre a defesa e a promoção da vida. 2. O segundo ponto: neste contexto contraditório, a Igreja faz apelo às consciências, ás consciências de todos os profissionais e voluntários de saúde, de maneira particular de vocês ginecologistas, chamados a colaborar no nascimento de novas vidas humanas. A vossa é uma singular vocação e missão, que necessita de estudo, de consciência e de humanidade. Um tempo, as mulheres que ajudavam no parto eram chamadas “comadre”: é como uma mãe com a outra, com a verdadeira mãe. Também vocês são “comadres” e “compadres”, também vocês. Uma generalizada mentalidade do útil, a “cultura do descartável”, que hoje escraviza os corações e as inteligências de tantos, tem um altíssimo custo: requer eliminar seres humanos, sobretudo se fisicamente ou socialmente mais frágeis. A nossa resposta a esta mentalidade é um “sim” decidido e sem hesitação à vida. “O primeiro direito de uma pessoa humana é a sua vida. Essa tem outros bens e alguns desses são mais preciosos: mas é aquele o bem fundamental, condição para todos os outros” (Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração sobre aborto provocado, 18 de novembro de 1974, 11). As coisas têm um preço e são ventáveis, mas as pessoas têm uma dignidade, valem mais que as coisas e não têm preço. Tantas vezes, encontramo-nos em situações onde vemos que aquilo que custa menos é a vida. Por isto a atenção à vida humana em sua totalidade transformou-se nos últimos tempos uma verdadeira prioridade do Magistério da Igreja, particularmente àquela majoritariamente indefesa, isso é, as pessoas com deficiência, doentes, o nascituro, a criança, o idoso, que é a vida mais indefesa. No ser humano frágil cada um de nós é convidado a reconhecer a face do Senhor, que na sua carne humana experimentou a indiferença e a solidão à qual às vezes condenamos os mais pobres, seja nos Países em via de desenvolvimento, seja nas sociedades afluentes. Cada criança não nascida, mas condenada injustamente a ser abortada, tem a face de Jesus Cristo, tem a face do Senhor, que mesmo antes de nascer, e depois apenas nascido experimentou a rejeição do mundo. E cada idoso, e – falei da criança: vamos aos idosos, outro ponto! E cada idoso, mesmo se enfermo ou no fim de seus dias, leva em si a face de Cristo. Não se pode descartar, como nos propõe a “cultura do descartável”! Não se pode descartar! 3. O terceiro aspecto é um mandato: sejam testemunhas e difusores desta “cultura da vida”. O vosso ser católico comporta uma maior responsabilidade: antes de tudo para com vocês mesmos, para com o compromisso de coerência com a vocação cristã; e depois para com a cultura contemporânea, para contribuir a reconhecer na vida humana a dimensão transcendente, a marca da obra criadora de Deus, desde o primeiro instante de sua concepção. Este é um compromisso de nova evangelização que requer às vezes ir contracorrente, pagando pessoalmente. O Senhor conta também com vocês para difundir o “evangelho da vida”. Nesta perspectiva, as enfermarias dos hospitais de ginecologia são lugares privilegiados de testemunho e de evangelização, porque lá onde a Igreja se faz “veículo da presença de Deus” vivo, transforma ao mesmo tempo “instrumento de uma verdadeira humanização do homem e do mundo” (Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização, 9). Amadurecendo a consciência de que no centro da atividade médica e assistencial está a pessoa humana na condição de fragilidade, a estrutura de saúde transforma-se em “lugar no qual a relação de cuidado não é trabalho – a vossa relação de cuidado não é trabalho – mas missão; onde a caridade do Bom Samaritano é a primeira cátedra e a face do homem sofredor, a Face própria de Cristo” (Bento XVI, Discurso à Universidade Católica do Sagrado Coração de Roma, 3 de maio de 2012). Queridos amigos médicos, vocês são chamados a ocuparem-se da vida humana na sua fase inicial, recordem todos, com os fatos e com as palavras, que esta é sempre, em todas as suas fases e em toda idade, sagrada e é sempre de qualidade. E não por um discurso de fé – não, não, – mas de razão, por um discurso de ciência! Não existe uma vida mais sagrada que a outra, como não existe uma vida humana qualitativamente mais significativa que a outra. A credibilidade de um sistema de saúde não se mede somente pela eficiência, mas, sobretudo, pela atenção e amor para com as pessoas, cuja vida sempre é sagrada e inviolável. Não deixem nunca de rezar ao Senhor e à Virgem Maria, para ter a força de cumprir bem o vosso trabalho e testemunhar com coragem – com coragem! Hoje é necessário coragem – testemunhar com coragem o “evangelho da vida”! Muito obrigado!

Dia do(a)s Médico(a)s – 18 de Outubro

Por que 18 de outubro é o “Dia dos Médicos”?
O dia 18 de outubro foi escolhido como “dia dos médicos” por ser o dia consagrado pela Igreja a São Lucas. Como se sabe, Lucas foi um dos quatro evangelistas do Novo Testamento. Seu evangelho é o terceiro em ordem cronológica; os dois que o precederam foram escritos pelos apóstolos Mateus e Marcos. Lucas não conviveu pessoalmente com Jesus e por isso a sua narrativa é baseada em depoimentos de pessoas que testemunharam a vida e a morte de Jesus. Além do evangelho, é autor do “Ato dos Apóstolos”, que complementa o evangelho. Segundo a tradição, São. Lucas era médico, além de pintor, músico e historiador, e teria estudado medicina em Antioquia. Possuindo maior cultura que os outros evangelistas, seu evangelho utiliza uma linguagem mais aprimorada que a dos outros evangelistas, o que revela seu perfeito domínio do idioma grego. [1][2][3] São Lucas não era hebreu e sim gentio, como era chamado todo aquele que não professava a religião judaica. Não há dados precisos sobre a vida de São Lucas. Segundo a tradição era natural de Antioquia, cidade situada em território hoje pertencente à Síria e que, na época, era um dos mais importantes centros da civilização helênica na Ásia Menor. Viveu no século I d.C., desconhecendo-se a data do seu nascimento, assim como de sua morte. Há incerteza, igualmente, sobre as circunstâncias de sua morte; segundo alguns teria sido martirizado, vítima da perseguição dos romanos ao cristianismo; segundo outros morreu de morte natural em idade avançada. Tampouco se sabe ao certo onde foi sepultado e onde repousam seus restos mortais. Na versão mais provável e aceita pela Igreja Católica, seus despojos encontram-se em Pádua, na Itália, onde há um jazigo com o seu nome, que é visitado pelos peregrinos. [1] Não há provas documentais, porém há provas indiretas de sua condição de médico. A principal delas nos foi legada por São Paulo, na epístola aos colossenses, quando se refere a “Lucas, o amado médico” (4.14). Foi grande amigo de São Paulo e, juntos, difundiram os ensinamentos de Jesus entre os gentios. Outra prova indireta da sua condição de médico consiste na terminologia empregada por Lucas em seus escritos. Em certas passagens, utiliza palavras que indicam sua familiaridade com a linguagem médica de seu tempo. Este fato tem sido objeto de estudos críticos comparativos entre os textos evangélicos de Mateus, Marcos e Lucas, e é apontado como relevante na comprovação de que Lucas era realmente médico. Dentre estes estudos, gostaríamos de citar o de Dircks, [4] que contém um glossário das palavras de interesse médico encontradas no Novo Testamento. A vida de São Lucas, como evangelista e como médico, foi tema de um romance histórico muito difundido, intitulado “Médico de homens e de almas”, de autoria da escritora Taylor Caldwell. Embora se trate de uma obra de ficção, a mesma muito tem contribuído para a consagração da personalidade e da obra de São Lucas.[5] A escolha de São Lucas como patrono dos médicos nos países que professam o cristianismo é bem antiga. Eurico Branco Ribeiro, renomado professor de cirurgia e fundador do Sanatório S. Lucas, em São Paulo, é autor de uma obra fundamental sobre São Lucas, em quatro volumes, totalizando 685 páginas, fruto de investigações pessoais e rica fonte de informações sobre o patrono dos médicos. Nesta obra, intitulada “Médico, pintor e santo”, o autor refere que, já em 1463, a Universidade de Pádua iniciava o ano letivo em 18 de outubro, em homenagem a São Lucas, proclamado patrono do “Colégio dos filósofos e dos médicos”.[1] A escolha de São. Lucas como patrono dos médicos e do dia 18 de outubro como “dia dos médicos”, é comum a muitos países, dentre os quais Portugal, França, Espanha, Itália, Bélgica, Polônia, Inglaterra, Argentina, Canadá e Estados Unidos. No Brasil acha-se definitivamente consagrado o dia 18 de outubro como “dia dos médicos”.

Referências bibliográficas
1. RIBEIRO, E.B. – Médico, pintor e santo. São Paulo, São Paulo Editora, 1970.
2. STERPELLONE, L. – Os santos e a medicina (trad.) São Paulo, Paulus, 1998, p. 13-20.
3. FREY, E.F. – Saints in medical history. Clio Med. 14:35-70, 1979.
4. DIRCKS, J.H. – Scientific and medical terms and references in the writings of St. Luke. Am. J. Dermatopathol. 5:491-499, 1983.
5. CALDWELL, T. – Médico de homens e de almas.(trad.). 31. ed. Rio de Janeiro, Ed. Record, 2002.
Autor: Joffre M. de Rezende

 

Mensagem de homenagem ao dia do médico

SER MÉDICO… aliviar sofrimentos penetrar fundo nos tormentos da humanidade
Ser Médico… dar de si profundamente sentir a dor do doente compreender a sua sorte é se doar por inteiro é romper o nevoeiro que separa vida e morte
Ser Médico… uma vida a dar vidas a mão que cura feridas a palavra que conforta o olhar compadecido ele é sempre o amigo que ao bater lhe abre a porta
Ser Médico… é infundir confiança ao velho, ao jovem, à criança é ser de Deus o instrumento dando alívio à dor alheia tecer fibra a fibra uma teia seguindo o seu juramento
Ser Médico… é ter na mão a leveza agir com delicadeza é ver em cada criatura o pai, a mãe, o filho, o parente para que seu trabalho apresente o dom verdadeiro da cura
Ser Médico… é empreender com carinho conhecer e traçar seu caminho sem jamais pensar no tédio comprimidos não resolvem nem diplomas se devolvem… é uma paixão sem remédio!!!
Poesia de autoria da Drª. Murita L. da Cruz Rios Sampaio, em homenagem ao dia do médico – 18 de outubro.

 

O MÉDICO DOS MÉDICOS!!!
Mensagem lida na formatura do Curso de Medicina da PUC-PR / 2010

Boa noite a todos! Hoje estou aqui para prestar uma homenagem ao primeiro, maior e melhor médico da história da humanidade! Deus é esse médico, o médico dos médicos, e o mais excelente conhecedor do corpo humano. Todas as células e tecidos, órgãos e sistemas, foram arquitetados por Ele, e Ele entende e conhece a sua criação melhor do que todos. Que médico mais excelente poderia existir? Deus é o primeiro cirurgião da história. A primeira operação? Uma toracoplastia, quando Deus retirou uma das costelas de Adão e dela formou a mulher. Ele também é o primeiro Anestesista, porque antes de retirar aquela costela fez um profundo sono cair sobre o homem. Deus é o melhor Obstetra especialista em fertilização que já existiu! Pois concedeu filhos a Sara, uma mulher que além de estéril, já estava na menopausa havia muito tempo! Jesus, o filho de Deus, que com Ele é um só, é o primeiro pediatra da história, pois disse: “Deixem vir a mim as crianças, porque delas é o reino de Deus!” Ele também é o maior reumatologista, pois curou um homem que tinha uma mão ressequida, ou, tecnicamente uma osteoartrite das articulações interfalangeanas. Jesus é o primeiro oftalmologista, relatou em Jerusalém, o primeiro caso de cura em dois cegos de nascença. Ele também é o primeiro emergencista a realizar, literalmente, uma ressuscitação cardio-pulmonar bem sucedida, quando usou como desfibrilador as suas palavras ao dizer: “Lázaro, vem para fora!”, e pelo poder delas, ressuscitou seu amigo que já havia falecido havia 4 dias. Ele é o melhor otorrinolaringologista, pois devolveu a audição a um surdo. Seu tratamento? O poder de seu amor. Jesus também é o maior psiquiatra da história, há mais de 2 mil anos curou um jovem com graves distúrbios do pensamento e do comportamento! Deus também é o melhor ortopedista que já existiu, pois juntou um monte de ossos secos em novas articulações e deles fez um grande exército de homens. Sem contar quando ele disse a um homem coxo: “Levanta, toma a tua maca e anda!”, e o homem andou! O tratamento ortopédico de quadril mais efetivo já relatado na história! A primeira evidência científica sobre a hanseníase está na Bíblia! E Jesus é o dermatologista mais sábio da história, pois curou instantaneamente 10 homens que sofriam desta doença. Ele também é o primeiro hematologista, pois com apenas um toque curou a coagulopatia de uma mulher que sofria de hemorragia havia mais de 12 anos e que tinha gastado todo o seu dinheiro com outros médicos em tratamentos sem sucesso. Jesus é ainda, o maior doador de sangue do mundo. Seu tipo sanguíneo? O negativo, ou, doador universal, pois nesta transfusão, Ele, ofereceu o seu próprio sangue, o sangue de um homem sem pecado algum, por todas as pessoas que tinham sobre si a condenação de seus erros, e assim, através da sua morte na cruz e de sua ressurreição, deu a todos os que o recebem, o poder de se tornarem filhos de Deus! E para ter este grande presente, que é a salvação, não é necessário FAZER nada, apenas crer e receber! O bom médico é aquele que dá a sua vida pelos seus pacientes! Ele fez isso por nós! Ele é um médico que não cobra pelos seus serviços, porque o presente GRATUITO de Deus é a vida eterna! No seu consultório não há filas, não é necessário marcar consulta e nem esperar para ser atendido, pelo contrário, Ele já está à porta e bate, e aquele que abrir a seu coração para Ele, Ele entrará e fará uma grande festa! Não é necessário ter plano de saúde ou convênio, basta você querer e pedir! O tratamento que ele oferece é mais do que a cura de uma doença física, é uma vida de paz e alegria aqui na terra e mais uma eternidade inteira ao seu lado no céu! O médico dos médicos está convidando você hoje para se tornar um paciente dele, e receber esta salvação e constatar que o tratamento que Ele oferece é exatamente o que você precisa para viver! Ele é o único caminho, a verdade e a vida. Ninguém pode ir até Deus a não ser por Ele. Seu nome é Jesus. A este médico seja hoje o nosso aplauso e a nossa sincera gratidão!

Santo Inácio de Antioquia – 17 de Outubro

Se pudesse falar de campeões no martírio, como símbolo do testemunho máximo do cristão, eu proporia, para ocupar esse lugar, Santo Inácio de Antioquia. A sua amável figura, amassada com doçura, mística e valentia, desconhecendo o medo à dor e à morte, resplandece, desde os tempos apostólicos, como farol e convite para todos os que têm de sofrer para se mostrarem fiéis a Jesus Cristo. O seu retrato está envolto em luz celestial, não pelo extraordinário dos milagres ou de qualquer forma de prodígios, mas pela sobrenatural simplicidade do seu proceder, movendo-se unicamente no mundo da fé, a partir do qual adquire lógica indomável aquilo que, aos nossos olhos humanos, parece encerrar aterradoras perspectivas de dor. Além disso, Santo Inácio é, sem pretendê-lo, o cantor do seu próprio martírio.

As suas cartas apaixonadas, de estilo único, continuam a ser vivas, agitando o leitor, que descobre nelas o rugido das feras, o bater das garras que tiram sangue, o ranger dos ossos triturados e todo o horror do circo romano, em que pereciam as primícias do Cristianismo, convertidas em semente de sangue, cuja esplêndida colheita recolheu a história. Mas estes horrores perdem em Santo Inácio os seus tons repulsivos, para se transformarem em canto de glória. Não é a morte cruel, mas o martírio por Jesus Cristo; não é o sofrimento, mas a oferta duma hóstia pacífica – aquilo que ali se retrata.

A crueldade fica sepultada na caridade, a morte é entrada triunfal na vida eterna e a ignomínia da condenação fica convertida em apoteose de imortalidade. As cartas do santo bispo de Antioquia, que hoje nos comovem, certamente constituiriam, para os cristãos dos séculos de perseguição, para aqueles que sabiam estar destinados para morte violenta, uma incitação ao combate, uma fonte pura de fortaleza e de esperança, porque nelas estava presente a eternidade, iluminando a passagem tenebrosa desta vida para a outra. Inácio é cognominado de Theophóros, portador de Deus.

O Martyrium, que relata a sua vida, atribuiu ao santo bispo – ao apresentar-se voluntariamente em Antioquia a Trajano, orgulhoso este pelo seu triunfo militar contra os dácios – o seguinte diálogo que, se historicamente não parece genuíno, reflete a verdade da sua vida. Trajano pergunta-lhe: – Quem és tu, demônio mísero, que tanto empenho pões em transgredir as minhas ordens e persuades outros a transgredi-Ias, para que miseriamente pereçam? Responde Inácio: – Ninguém pode chamar demônio mísero ao portador de Deus, sendo que os demônios fogem dos servos de Deus. Mais, se por ser eu objeto de aborrecimentos para os demônios, me chamas mau contra eles, estou conforme contigo, pois, tendo Cristo, rei celestial, comigo, desfaço todas as ciladas dos demônios. Disse Trajano: – Quem é Theophóros ou portador de Deus? Respondeu Inácio: – O que tem a Cristo no seu peito…

Nada sabemos com certeza dos primeiros anos de Inácio. A lenda, todavia, aureolando a sua figura, viu nele aquele menino de que São Mateus conta: «Naquele momento, os discípulos aproximaram-se de Jesus, e perguntaram-Lhe: “Quem é o maior no reino dos Céus?” Ele chamou um menino, colocou-o no meio deles e disse: “Em verdade vos digo: Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no reino dos Céus. Quem, pois, se fizer humilde como este menino será o maior no reino dos céus. Quem receber um menino como este em meu nome, é a Mim que recebe. Mas se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem em Mim seria preferível que lhe suspendessem em volta do pescoço uma mó de moinho, das movidas pelos jumentos, e o lançassem nas profundezas do mar”» (Mt 18, 1-6).

A fé em Santo Inácio é completa, com formulações dum credo que prelúdio já o símbolo de Niceia: «Assim, pois, fechai os vossos ouvidos, escreve aos Tralenses, onde quer que se vos fale fora de Jesus Cristo, que é da linhagem de David e filho de Maria; que nasceu verdadeiramente e comeu e bebeu; foi verdadeiramente perseguido sob Pôncio Pilatos e verdadeiramente crucificado e morto, à vista dos moradores do céu e da terra e do inferno. O qual em verdade também ressuscitou dentre os mortos por virtude do seu Pai, que, à semelhança sua, nos ressuscitará também a nós, crentes n’Ele. Sim, o seu Pai nos ressuscitará em Jesus Cristo, fora de quem não teremos a vida verdadeira» (Trall. IX). As cartas de Inácio podem considerar-se como a «segunda formulação doutrina I cristã»; nelas reflete-se o que pensavam os cristãos da segunda geração, a imediatamente posterior aos apóstolos.

Está nelas toda a doutrina evangélica e paulina, elaborada, profundamente compartilhada e aceite, matizada diante dos ataques dos primeiros desvios heréticos, desejosos de romper a unidade, tanto hierárquica como doutrinal. A semelhança de doutrina não é tanto repetição de textos quanto princípio idêntico, do qual brotam as fórmulas sem citações, mas com a coincidência exata de quem vive na alma a mesma fé e as mesmas verdades, todas emanadas da mesma fonte, Jesus Cristo. Por isso, o pensamento de Santo Inácio está centrado na união com Cristo dentro da Igreja: «Como o amor não consente calar-se a respeito de vós, daí veio determinar-me a exortar-vos a correr à uma para o pensamento de Deus. Com efeito, ao modo de Jesus Cristo, vida nossa inseparável, é o pensamento do Pai; assim os bispos, estabelecidos pelos confins da terra, estão no pensamento de Jesus Cristo» (Eph. TIl, 3).

É o inventor da palavra católica aplicada à Igreja. «Nas cartas de Inácio – escreve L. de Grandmaison – enlaça-se pela primeira vez o epíteto glorioso de católica ao nome da Igreja: “Onde aparecer o bispo, aí está também a multidão, de maneira que, onde estiver Jesus Cristo, aí está a Igreja Católica” (Smyrn. VIII, 2). Desta maneira, o bispo encarna a sua Igreja particular, exatamente como a grande Igreja é a encarnação continuada do Filho de Deus. Não julgaríamos estar a ler um dos campeões da unidade eclesiástica do nosso tempo, um Adan Moehle, um Jaime Balmes, um Eduardo Pie?» Mostra-nos deste modo Santo Inácio que no seu tempo, fins do século I, a estrutura e o pensamento sobre a Igreja estão completos e amadurecidos. Bispos, presbíteros e diáconos constituem a hierarquia tripartida, sobre a qual se apóia toda a realidade do Cristianismo.

É necessário permanecermos unidos a esta hierarquia para viver dentro do espírito de Cristo. «Por conseguinte, da maneira que o Senhor nada fez sem contar com o seu Pai, feito como estava uma coisa com Ele – nada, digo, nem por Si mesmo nem pelos seus apóstolos -; assim vós nada façais também sem contar com o vosso bispo e com os anciãos; nem trateis de colorir, como louvável, nada que façais por vós somente, mas sim reunidos em comum; haja uma só oração, uma só esperança na caridade, na alegria sem mancha, que é Jesus Cristo; melhor que Ele nada existe» (Mag. VII, 1). Sem esta hierarquia não existe a Igreja: «Por vossa parte, escreve aos Tralenses, todos haveis também de respeitar os diáconos como a Jesus Cristo. O mesmo digo do bispo, que é figura do Pai, e dos anciãos (presbíteros), que representam o senado de Deus e a aliança ou colégio dos Apóstolos. Tirados estes, não há nome de Igreja» (Trai/. m, 1).

Santo Inácio foi detido e condenado a ser devorado pelas feras em Roma. Ouvida a sentença, o Santo responde: «Dou-te graças, Senhor, porque Te dignaste honrar-me com perfeita caridade para contigo, prendendo-me juntamente com o apóstolo Paulo, em cadeias de ferro…» (Mart. 11, 8). Não há nesta atitude nada que se pareça com o orgulho do revolucionário ou com a rigidez do rebelde. Não existe a menor partícula de protesto contra os poderes temporais, nem sequer contra as leis. A disposição do mártir cristão é coisa inédita e única na história. A serenidade e o valor são mantidos por uma visão sobrenatural interna, na consciência de cumprir uma missão: a de ser testemunha – isso significa mártir – de Jesus Cristo, fazendo-se semelhante a Ele no seu sacrifício. Assim o afirma o nosso bispo, escrevendo aos fiéis de Éfeso: «Logo que ficastes informados que vinha eu, da Síria – carregado de cadeias, pelo nome comum e nossa comum esperança, confiando que, pelas vossas orações, conseguirei lutar em Roma contra as feras para poder desse modo ser discípulo – apressastes-vos a sair para me ver» (Eph. I, 1).

Desde o momento da sua detenção, podemos seguir passo a passo os de Santo Inácio, devido à preciosa coleção das suas sete cartas autênticas, escritas durante a peregrinação que fez como preso. Com Zósimo e Rufo, outros dois cristãos condenados como ele, e guardados por um pelotão de soldados, embarcam em Selêucia, porto de Antioquia, para arribarem às costas da Cilícia ou Panfília, continuando desde aí outra parte da viagem por terra. Estes ásperos caminhos da Ásia Menor – poucos anos antes percorridos por S. Paulo, fazendo sementeira de cristandades – seriam para Santo Inácio novas provas da sua ansiada semelhança com o grande Apóstolo. As fervorosas comunidades daquelas terras transformam a viagem em ronda triunfal de admiração e caridade. Ao chegar a Esmirna, toda a comunidade cristã, presidida pelo seu bispo S. Policarpo, discípulo pessoal de São João Evangelista, sai a recebê-lo e prestar-lhe homenagem como se fosse Jesus Cristo em pessoa.

Devido a esta recepção, escrever-lhes-amais tarde: «Eu glorifico a Jesus Cristo, Deus, que é quem até esse ponto vos fez sábios; pois muito bem me dei conta de quão preparados estais com fé indestrutível, bem assim como se estivésseis pregados, em carne e em espírito, sobre a cruz de Jesus Cristo, e estivésseis assegurados na caridade pelo sangue do mesmo Cristo. É que vos vi cheios de certeza no que diz respeito a nosso Senhor» (Esm. 1). Outras comunidades vêm saudá-lo e ajudá-lo com a maior caridade. Algumas delas ficam enriquecidas com as suas cartas: Éfeso, Trales e Magnésia. Escreve-as de Esmirna, como também a enviada aos fiéis de Roma. Esta carta, documento único e impressionante da literatura universal, merece menção à parte.

Teve Santo Inácio conhecimento de que os romanos tratavam de interpor toda a sua influência para salvar-lhe a vida; e alarma-se profundamente, porque essa caridade é o mesmo que apartá-lo do martírio, da sua anelada meta. Para evitar esta possibilidade, escreve a famosa carta. O próprio Renan viu-se obrigado a comentá-la assim:

«A mais viva fé e a sede ardente da morte não inspiraram nunca traços tão apaixonados. O entusiasmo dos mártires, que foi durante 200 anos o espírito dominante de todo o Cristianismo, recebeu do autor desta peça extraordinária a sua expressão mais exaltada». Seria necessário copiar a carta inteira, mas, não sendo possível, uns parágrafos darão a idéia da sua altura celestial. Depois de saudar a Igreja de Roma, dando testemunho do seu lugar na hierarquia – ao dizer que «preside na capital do território dos romanos» e está «posta na cabeça da caridade», títulos preciosos para provar que a Igreja de Roma era considerada já como cabeça da cristandade – escreve:

«Por fim, à força de orações a Deus, consegui ver os vossos rostos divinos, e de tal maneira o alcancei que me é concedido mais do que pedia. Com efeito, encadeado por Jesus Cristo, tenho esperança de ir-vos saudar, se for vontade do Senhor fazer-me a graça de chegar até ao fim. Porque os começos, sem dúvida, bem postos estão, contanto que obtenha graça para alcançar sem impedimento a herança que me toca. E é que temo com razão a vossa caridade, não seja ela quem me prejudique. Porque para vós, na verdade, coisa fácil é fazerdes o que pretendeis; para mim, pelo contrário, se vós não tendes consideração comigo, vai ser-me difícil alcançar a Deus… O fato é que nem eu terei nunca ocasião de alcançar a Deus, nem vós, só com vos calardes, podeis pôr a vossa assinatura em obra mais bela. Porque, se vós vos calardes quanto a mim, eu converter-me-ei em palavra de Deus; mas, se vos deixardes levar pelo amor à minha carne, ficará tudo outra vez em mera voz humana. Não me procureis outra coisa senão permitir que me imole a Deus, enquanto há ainda um altar preparado, a fim de, formando um coro pela caridade, cantardes ao Pai por meio de Jesus Cristo, por ter Deus feito a graça, ao bispo da Síria, de chegar até ao Ocidente depois de o ter mandado chamar do Oriente. Como é belo que o sol da minha vida, ao sair do mundo, se transponha para Deus, a fim de n’Ele eu amanhecer!

«Pelo que a mim toca, escrevo a todas as igrejas, e diante de todas encareço que estou pronto a morrer de boa vontade por Deus, contanto que vós não mo impeçais. Eu vo-lo suplico: não mostreis para comigo uma benevolência inoportuna. Permiti-me ser pasto das feras, por meio das quais me é dado alcançar Deus. Trigo sou de Deus, e pelos dentes das feras hei-de ser moído, a fim de ser apresentado como limpo pão de Cristo. Afagai, pelo contrário, as feras, para se converterem em sepulcro meu e não deixarem sinal do meu corpo; assim, depois da minha morte, não serei molesto a ninguém. Quando o mundo já não vir nem sequer o meu corpo, então serei verdadeiro discípulo de Jesus Cristo. Pedi a Cristo por mim, para que por esses instrumentos consiga ser sacrifício para Deus. Não vos dou ordens como Pedro e Paulo. Eles foram apóstolos, eu não sou senão um condenado à morte; eles foram livres, eu, até ao presente, sou escravo. Mas, se conseguir sofrer o martírio, ficarei sendo liberto de Jesus Cristo e ressuscitarei livre n’Ele. E é agora que aprendo, encadeado como estou, a não ter desejo algum.

«Desde a Síria até Roma estou já a lutar com as feras, por terra e por mar, de noite e de dia, atado como estou a dez leopardos, quer dizer, a um pelotão de soldados que, mesmo com benefícios que lhes são feitos, se tomam piores. Agora sim, com os seus maus tratos, aprendo eu a ser melhor discípulo do Senhor, embora nem por isto me tenha por justificado.

«Oxalá goze eu das feras que estão para mim destinadas e que faço votos se mostrem velozes para comigo! Eu mesmo as atiçarei para que me devorem rapidamente, e não seja eu como alguns, a quem, cheias de medo, elas não se atrevem a tocar. E se elas não quiserem aquilo que de boa vontade se lhes oferece, eu mesmo as obrigarei. Perdoai-me, eu sei o que me convém. Agora começo a ser discípulo. Nenhuma coisa, visível nem invisível, seja posta diante de mim por má vontade, impedindo-me alcançar Jesus Cristo. Fogo e cruz, e manadas de feras, quebras dos meus ossos, desconjunta mentos de membros, triturações de todo o meu corpo, tormentos atrozes do diabo, tudo venha sobre mim, unicamente sob a condição de eu alcançar Jesus Cristo.

«Porque vos escrevo agora com ânsias de morte. O meu amor está crucificado e já não há em mim fogo que busque alimentar-se de matéria; mas sim, em troca, há uma água viva que murmura dentro de mim e do íntimo me está dizendo: “Vem para o Pai”. Não sinto prazer pela comida corruptível nem me atraem os deleites desta vida. Quero o pão de Deus, que é a carne de Jesus Cristo, da linhagem de David; o seu sangue quero por bebida, que é amor incorruptível».

Partindo de Esmirna, toca em Alexandria de Troas, donde escreve aos fila delfins, aos esmirniotas e a Policarpo, bispo destes últimos. Seguem viagem, parando também em Filipos; atravessam a Macedônia. Tomam a embarcar em Dirráquio, rodeiam o Sul da Itália, desembarcando em Óstia. Em Roma estavam no fim umas festas nunca vistas, para comemorar o triunfo de Trajano, conseguido dos dácios no ano 106. Duraram cento e vinte e três dias, e nelas morreram dez mil gladiadores e doze mil feras. A 18 de Dezembro do ano seguinte, 107, foram lançados às feras Zósimo e Rufo, os dois companheiros de Santo Inácio, e dois dias mais tarde, o santo bispo de Antioquia.

As suas poucas relíquias corporais foram enviadas para Antioquia. Mas as verdadeiras relíquias imortais foram as suas cartas; sobre elas escreveu o Padre J. Huby: «Inácio, entregue às feras no tempo de Trajano, é o exemplar do pontífice entusiasta e o modelo de mártir. É a realização viva das palavras apostólicas: Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim… Desejo ser desfeito e estar em Cristo. As suas insistências não comoveram menos a Igreja que as de São Paulo, e em certas frases, mil vezes citadas, parece estar concentrado todo o espírito dos mártires».

Dia dos Professores – 15 de Outubro

CARTA VATICANA SOBRE O ENSINO DA RELIGIÃO NA ESCOLA
Da Congregação para a Educação Católica aos presidentes de conferências episcopais

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 8 de setembro de 2009 (ZENIT.org).- Publicamos a carta circular que a Congregação vaticana para a Educação Católica enviou aos presidentes das conferências episcopais sobre o ensino da religião católica na escola.

* * *
Roma, 05 de Maio de 2009

Eminência/Excelência Reverendíssima, a natureza e o papel do ensino da religião na escola tornou-se objeto de debate e, nalguns casos, de novas legislações civis, que tendem a substituí-lo por um ensino do fato religioso de natureza multiconfessional ou de ética e cultura religiosa, mesmo contra as escolhas e direção educativa que os pais e a Igreja procuram dar à formação das novas gerações. Por isso, com a presente Carta Circular, destinada aos Presidentes das Conferências Episcopais, esta Congregação para a Educação Católica retém necessário recordar alguns princípios, que são aprofundados no ensinamento da Igreja, a clarificação e a norma acerca do papel da escola na formação católica das novas gerações; a natureza e a identidade da escola católica; o ensino da religião na escola; a liberdade de escolha da escola e do ensino religiosa confessional.

I. O papel da escola na formação católica das novas gerações
1. A educação apresenta-se hoje como uma tarefa complexa, desafiada pelas rápidas mudanças sociais, econômicas e culturais. A sua missão específica permanece a formação integral da pessoa humana. Às crianças e aos jovens deve ser garantida a possibilidade de desenvolver harmoniosamente as próprias qualidades físicas, morais, intelectuais e espirituais. Os mesmos devem ser ajudados a adquirir um sentido mais perfeito da responsabilidade, a apreender o reto uso da liberdade e a participar ativamente na vida social (cfr. c. 795 Código de Direito Canônico [CIC]; c. 629 Código dos Cânones das Igrejas Orientais [CCEO]). Um ensino que desconhecesse ou marginalizasse a dimensão moral e religiosa da pessoa constituiria um obstáculo para uma educação completa, porque as “crianças e os adolescentes têm direito de serem estimulados a estimar retamente os valores morais e a abraçá-los pessoalmente, bem como a conhecer e a amar Deus mais perfeitamente”. Por isso, o Concílio Vaticano II pediu e recomendou “a todos os que governam os povos ou orientam a educação, para que providenciem que a juventude nunca seja privada deste sagrado direito” (Declaração Gravissimum educationis [GE ],1).
2. Uma tal educação requer o contributo de vários sujeitos educativos. Os pais, porque transmitiram a vida aos filhos, são os primeiros e principais educadores (cfr. GE 3;  João Paulo II, Exortação apostólica Familiaris consortio [FC], 22 de Novembro de 1981, 36; c. 793 CIC; c. 627 CCEO). Com a mesma razão, compete aos pais católicos cuidar da educação cristã dos seus filhos (c. 226 CIC; c. 627 CCEO). Nesta primordial tarefa os pais têm necessidade da ajuda subsidiária da sociedade civil e de outras instituições. Na verdade, “a família é a primeira, mas não a única e exclusiva comunidade educativa” (FC 40; cfr GE 3).
3. “Entre todos os meios de educação, tem especial importância a escola” (GE 5), que constitui o “principal auxílio aos pais para o desempenho do seu múnus de educar” (c. 796 §1 CIC), particularmente para favorecer a transmissão da cultura e a educação à vida com os outros. Nestes âmbitos, em concordância também com a legislação internacional e dos direitos do homem, “deve ser absolutamente assegurado o direito dos pais à escolha de uma educação conforme à sua fé religiosa” (FC 40). Os pais católicos “confiem os filhos às escolas em que se ministre educação católica; se não o puderem fazer, têm obrigação de procurar que fora das escolas se proveja à devida educação católica dos mesmos” (c. 798 CIC).
4. O Concílio Vaticano II recorda aos pais “o grave dever que lhes incumbe de tudo disporem, ou até exigirem”, para que os seus filhos possam receber uma educação moral e religiosa e “progredir harmonicamente na formação cristã e profana. Por isso, a Igreja louva aquelas autoridades e sociedades civis que, tendo em conta o pluralismo da sociedade atual e atendendo à justa liberdade religiosa, ajudam as famílias para que a educação dos filhos possa ser dada em todas as escolas segundo os princípios morais e religiosos das mesmas famílias” (GE 7).
Em síntese:
– A educação apresenta-se hoje como uma tarefa complexa, vasta e urgente. A complexidade atual arrisca-se a perder o essencial: a formação da pessoa humana na sua integralidade, em particular relativamente à dimensão religiosa e espiritual.
– A ação educativa, mesmo sendo realizada por vários sujeitos, tem nos pais os primeiros responsáveis da educação.
– Tal responsabilidade exerce-se também no direito de escolher a escola que garanta uma educação segundo os próprios princípios religiosos e morais.

II. Natureza e identidade da escola católica: direito a uma educação católica para as famílias e para os alunos. Subsidiariedade e colaboração educativa.
5. A escola tem um papel particular na educação e na formação. No serviço educativo escolar distinguiram-se e continuam a dedicar-se louvavelmente muitas comunidades e congregações religiosas. Todavia é toda a comunidade cristã e, em particular, o Ordinário diocesano que têm a responsabilidade de “tudo dispor para que todos os fiéis desfrutem da educação católica” (c. 794 §2 CIC) e, mais concretamente, “se não houver escolas onde se ministre educação imbuída de espírito cristão, compete ao Bispo diocesano procurar que se fundem” (c. 802 CIC; cfr. c. 635 CCEO).
6. Uma escola católica caracteriza-se pelo vínculo institucional que mantém com a hierarquia da Igreja, a qual garante que o ensino e a educação sejam fundados sobre princípios da fé católica e ensinados por professores que se distinguem pela reta doutrina e pela probidade de vida (cfr. c. 803 CIC; cc. 632 e 639 CCEO). Nestes centros educativos, abertos a todos aqueles que partilhem e respeitem o projeto educativo, deve-se viver um ambiente escolar imbuído do espírito evangélico de liberdade e caridade, que favoreça um desenvolvimento harmônico da personalidade de cada um. Neste ambiente é ordenada toda da cultura humana à mensagem da salvação, de modo que o conhecimento do mundo, da vida e do homem, que os alunos gradualmente adquirem, seja iluminado pelo Evangelho (cfr. GE 8; c. 634 §1 CCEO).
7. Deste modo, está assegurado o direito das famílias e dos alunos a uma educação autenticamente católica e, ao mesmo tempo, se atinja os outros fins culturais e de formação humana e acadêmica dos jovens, que são próprios de qualquer escola (cfr. c. 634 §3 CCEO; c. 806 §2 CIC).
8. Mesmo sabendo o quanto seja hoje problemático, é desejável que, para a formação da pessoa, exista uma grande sintonia educativa entre a escola e a família, a fim de evitar tensões ou fraturas no projeto educativo. É então necessário que exista uma estreita e ativa colaboração entre os pais, professores e diretores das escolas, e é oportuno favorecer os instrumentos de participação dos pais na vida escolar através de associações, reuniões, etc. (cfr. c. 796 §2 CIC; c. 639 CCEO).
9. A liberdade dos pais, das associações e instituições intermédias e da própria hierarquia da Igreja em promover escolas com identidade católica constituem um exercício do princípio de subsidiariedade. Este princípio exclui “o monopólio do ensino, que vai contra os direitos inatos da pessoa humana, contra o progresso e divulgação da própria cultura, contra o convívio pacífico dos cidadãos e contra o pluralismo que vigora em muitíssimas sociedades de hoje” (GE 6).
Em síntese:
– A escola católica é verdadeiro e próprio sujeito eclesial em razão da sua ação escolar em que se baseiam harmonicamente a fé, a cultura e a vida.
– Essa está aberta a todos aqueles que desejam partilhar o projeto educativo inspirado dos princípios cristãos.
– A escola católica é expressão da comunidade eclesial e a sua catolicidade é garantida pelas competentes autoridades (o Ordinário do lugar).
– Assegura a liberdade de escolha dos pais e é expressão do pluralismo escolar.
– O princípio de subsidiariedade regula a colaboração entre a família e as várias instituições dedicadas à educação.

III. O ensino da religião nas escolas
a) Natureza e finalidade
10. O ensino da religião na escola constitui uma exigência da concepção antropológica aberta à dimensão transcendental do ser humano: é um aspecto do direito à educação (cfr. c. 799 CIC). Sem esta disciplina, os alunos estariam privados de um elemento essencial para a sua formação e desenvolvimento pessoal, que os ajuda a atingir uma harmonia vital entre a fé e a cultura. A formação moral e a educação religiosa favorecem também o desenvolvimento da responsabilidade pessoal e social e demais virtudes cívicas, e constituem então um relevante contributo para o bem comum da sociedade.
11. Neste setor, numa sociedade pluralista, o direito à liberdade religiosa exige a garantia da presença do ensino da religião na escola e a garantia que tal ensino seja conforme às convicções dos pais. O Concílio Vaticano II recorda: “[Aos pais] cabe o direito de determinar o método de formação religiosa a dar aos filhos, segundo as próprias convicções religiosas. (…) Violam-se os direitos dos pais quando os filhos são obrigados a freqüentar aulas que não correspondem às convicções religiosas dos pais, ou quando se impõe um tipo único de educação, do qual se exclui totalmente a formação religiosa” (Declaração Dignitatis humanae [DH] 5; cfr. c. 799 CIC; Santa Sé, Carta dos direitos da família, 24 de Novembro de 1983, art. 5, c-d). Esta afirmação encontra correspondência na Declaração universal dos direitos do homem (art. 26) e em tantas outras declarações e convenções da comunidade internacional.
12. A marginalização do ensino da religião na escola equivale, pelo menos em prática, a assumir uma posição ideológica que pode induzir ao erro ou produzir um prejuízo para os alunos. Além disso, poder-se-ia também criar confusão ou gerar um relativismo ou indiferentismo religioso se o ensino da religião estivesse limitado a uma exposição das várias religiões de modo comparativo e “neutro”. A propósito, João Paulo II explicava: “A questão da educação católica compreende (…) o ensino religioso no âmbito mais alargado da escola, seja ela católica ou do estado. A tal ensino têm direito as famílias dos crentes, que devem ter a garantia que a escola pública – exatamente porque aberta a todos – não só não ponha em perigo a fé dos seus filhos, mas antes complete, com adequado ensino religioso, a sua formação integral. Este princípio está enquadrado no conceito de liberdade religiosa e do Estado verdadeiramente democrático que, enquanto tal, isto é no respeito da sua profunda e verdadeira natureza, se coloca ao serviço dos cidadãos, de todos os cidadãos, no respeito dos seus direitos e da suas convicções religiosas” (Discurso aos Cardeais e aos colaboradores da Cúria Romana, 28 de Junho de 1984).
13. Com estes pressupostos, compreende-se que o ensino da religião católica tem a sua especificidade na relação com as outras matérias escolares. Na verdade, como explica o Concílio Vaticano II: “a autoridade civil, que tem como fim próprio olhar pelo bem comum temporal, deve, sim, reconhecer e favorecer a vida religiosa dos cidadãos, mas excede os seus limites quando presume dirigir ou impedir os atos religiosos” (DH 3). Por estes motivos compete à Igreja estabelecer os conteúdos autênticos do ensino da religião católica na escola, que garanta diante dos pais e dos próprios alunos a autenticidade do ensino que se transmite como católico.
14. A Igreja reconhece esta tarefa como o seu ratione materiae e reivindica-o como sua própria competência, independentemente da natureza da escola (estatal ou não estatal, católica ou não católica) em que é ensinada. Por isso, “está sujeita à autoridade da Igreja (…) a instrução e a educação religiosa católica que se ministra em quaisquer escolas (…); compete à Conferência episcopal estabelecer normas gerais de ação nesta matéria, e ao Bispo diocesano regulamentá-la e vigiar sobre ela” (c. 804 §1 CIC; cfr. também, c. 636 CCEO).

b) O ensino da religião na escola católica
15. O ensino da religião na escola católica identifica o seu projeto educativo: De fato, “o caráter próprio e a profunda razão de ser das escolas católicas, aquilo por que os pais católicos as devem preferir é precisamente a qualidade de o ensino religioso ser integrado na educação dos alunos” (João Paulo II, Exortação apostólica Catechesi tradendae, 16 de Outubro de 1979, 69).
16. Nas escolas católicas também deve ser respeitada, como noutros lugares, a liberdade religiosa dos alunos não católicos e dos seus pais. Evidentemente, isso não impede o direito-dever da Igreja “de ensinar e testemunhar publicamente, por palavra e por escrito a sua fé”, tendo em conta que “na difusão da fé religiosa e na introdução de novas práticas, deve sempre evitar-se todo o modo de agir que tenha visos de coação, persuasão desonesta ou simplesmente menos leal” (DH 4).

c) Ensino da religião católica sob o perfil cultural e relação com a catequese
17. O ensino escolar da religião enquadra-se na missão evangelizadora da Igreja. É diferente e complementar da catequese na paróquia e de outras atividades, tais como a educação cristã familiar ou as iniciativas de formação permanente dos fiéis. Além do âmbito em que cada uma é ensinada, são diferentes as finalidades que se estabelecem: a catequese propõe-se promover a adesão pessoal a Cristo e o amadurecimento da vida cristã nos seus vários aspectos (Cfr. Congregação para o Clero, Diretório geral para a catequese [DGC], 15 de Agosto 1997, nn 80-87); o ensino escolar da religião transmite aos alunos os conhecimentos sobre a identidade do cristianismo e da vida cristã. Além disso, o Papa Bento XVI, falando aos professores de religião, indicou a exigência de “ampliar os espaços da nossa racionalidade, reabri-la às grandes questões da verdade e do bem, unir entre si a teologia, a filosofia e as ciências, no pleno respeito pelos seus próprios métodos e pela sua autonomia recíproca, mas também na consciência da unidade intrínseca que as conserva unidas. A dimensão religiosa, com efeito, é intrínseca ao fato cultural, contribui para a formação global da pessoa e permite transformar o conhecimento em sabedoria de vida”. Para tal fim contribui o ensinamento da religião católica, com o qual “a escola e a sociedade se enriquecem de verdadeiros laboratórios de cultura e de humanidade, nos quais, decifrando a contribuição do cristianismo, habilita-se a pessoa a descobrir o bem e a crescer na responsabilidade, a procurar o confronto e a apurar o sentido crítico, a inspirar-se nos dons do passado para compreender melhor o presente e projetar-se conscientemente para o futuro” (Discurso aos professores de religião, 25 de Abril de 2009).
18. A especificidade deste ensinamento não diminui a sua própria natureza de disciplina escolar; antes pelo contrário, a manutenção daquele status é uma condição de eficácia: “É necessário, portanto, que o ensino religioso escolar se mostre como uma disciplina escolar, com a mesma exigência de sistema e rigor que requerem as demais disciplinas. Deve apresentar a mensagem e o evento cristão com a mesma seriedade e profundidade com a qual as demais disciplinas apresentam seus ensinamentos. Junto a estas, todavia, o ensino religioso escolar não se situa como algo acessório, mas sim no âmbito de um necessário diálogo interdisciplinar” (DGC 73).
Em síntese:
– A liberdade religiosa é o fundamento e a garantia da presença do ensino da religião no espaço público escolar.
– Uma concepção antropológica aberta à dimensão transcendental é a sua condição cultural.
– Na escola católica o ensino da religião é característica irrenunciável do projeto educativo.
– O ensino da religião é diferente e complementar da catequese; por ser ensino escolar não requer a adesão de fé, mas transmite os conhecimentos sobre a identidade do cristianismo e da vida cristã. Além disso, ele enriquece a Igreja e a humanidade com laboratórios de cultura e humanidade.

IV. A liberdade educativa, liberdade religiosa e educação católica
19. Concluindo, o direito à educação e a liberdade religiosa dos pais e dos alunos exercem-se concretamente através de:
a) a liberdade de escolha da escola. “Os pais, cujo primeiro e inalienável dever e direito é educar os filhos, devem gozar de verdadeira liberdade na escolha da escola. Por isso, o poder público, a quem pertence proteger e defender as liberdades dos cidadãos, deve cuidar, segundo a justiça distributiva, que sejam concedidos subsídios públicos de tal modo que os pais possam escolher, segundo a própria consciência, com toda a liberdade, as escolas para os seus filhos” (GE 6; cfr. DH 5; c. 797 CIC; c. 627 §3 CCEO).
b) A liberdade de receber, nos centros escolares, um ensino religioso confessional que integre a própria tradição religiosa na formação cultural e acadêmica própria da escola. “Os fiéis esforcem-se por que na sociedade civil as leis orientadoras da formação da juventude provejam também à educação religiosa e moral nas próprias escolas, de acordo com a consciência dos pais” (c. 799 CIC; cfr. GE 7, DH 5). De fato, está sujeita à autoridade da Igreja a instrução e educação religiosa católica que vem ensinada em qualquer escola (cfr. c. 804 §1 CIC; c. 636 CCEO).
20. A Igreja está consciente que em muitos lugares, agora como em tempos passados, a liberdade religiosa não é totalmente realizada, nas leis e na prática (cfr. DH13). Nestas condições, a Igreja faz o possível para oferecer aos fiéis a formação de que precisam (cfr. GE 7; c. 798 CIC; c. 637 CCEO). Ao mesmo tempo, de acordo com a própria missão (cfr. Concílio Vaticano II, Constituição pastoral Gaudium et spes, 76), não deixa de denunciar a injustiça que acontece quando os alunos católicos e as suas famílias são privados dos próprios direitos educativos e é ferida a sua liberdade religiosa, e exorta todos os fiéis a empenhar-se para que tais direitos sejam realizados (cfr. c. 799 CIC).
Esta Congregação para a Educação Católica está convencida que os princípios acima recordados podem contribuir para encontrar uma cada vez maior consonância entre a tarefa educativa, que é parte integrante da missão da Igreja, e a aspiração das Nações no desenvolvimento de uma sociedade justa e respeitosa da dignidade de cada homem. Da sua parte a Igreja, exercendo a diakonia da verdade no meio da humanidade, oferece a cada geração a revelação de Deus da qual se pode apreender a verdade última sobre a vida e sobre o fim da história. Esta tarefa que não é fácil num mundo secularizado, habitado pela fragmentação do conhecimento e pela confusão moral, compromete toda a comunidade cristã e constitui um desafio para os educadores. Sustenta-nos, no entanto, a certeza – como afirma Bento XVI– que “as nobres finalidades […] da educação, fundadas sobre a unidade da verdade e sobre o serviço à pessoa e à comunidade, tornam-se um instrumento de esperança poderoso e especial” (Discurso aos educadores católicos, 17 de Abril de 2008).
Pedimos a Vossa Eminência /Excelência de dar a conhecer a quantos estão interessados no serviço e missão educativa da Igreja os conteúdos da presente Carta Circular.
Agradecendo-Lhe pela cordial atenção e na comunhão de oração a Maria, Mãe e Mestra dos educadores, aproveitamos a ocasião para apresentar os nossos sinceros e cordiais cumprimentos e despedirmo-nos com sentimentos de particular veneração de Vossa Eminência/Excelência Reverendíssima devotamente no Senhor
Zenon Card. GROCHOLEWSKI, Prefeito
Jean-Louis BRUGUÈS, O.P., Secretário

 

Nem Cristo agüentaria ser um professor nos dias de hoje…

O Sermão da montanha  
(*versão para educadores*)

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Ele os preparava para serem os educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens. Tomando a palavra, disse-lhes:

– “Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque  deles é o reino dos céus. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque  serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque eles…”

Pedro o interrompeu: – Mestre, vamos ter que saber isso de cor?

André perguntou: – É pra copiar?

Filipe lamentou-se: – Esqueci meu papiro!

Bartolomeu quis saber: – Vai cair na prova?

João levantou a mão: – Posso ir ao banheiro?

Judas Iscariotes resmungou: – O que é que a gente vai ganhar com isso?

Judas Tadeu defendeu-se: – Foi o outro Judas que perguntou!

Tomé questionou: – Tem uma fórmula pra provar que isso tá certo?

Tiago Maior indagou: – Vai valer nota?

Tiago Menor reclamou: – Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.

Simão Zelote gritou, nervoso: – Mas por que é que não dá logo a resposta e pronto!?

Mateus queixou-se: – Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!

Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado  nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo: – Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?

Caifás emendou: – Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?

Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus: – Quero ver as avaliações da primeira, segunda e terceira etapas e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto. E vê lá se não vai reprovar alguém! Lembre-se que você ainda não é professor titular…

“Dai-nos forças, Senhor, para aceitar com serenidade tudo o que não possa ser mudado. Dai-nos coragem para mudar o que pode e deve ser mudado. E dai-nos sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”

 

O PROFESSOR ESTÁ SEMPRE ERRADO
Jô Soares

O material escolar mais barato que existe na praça é o professor! É jovem, não tem experiência. É velho, está superado. Não tem automóvel, é um pobre coitado. Tem automóvel, chora de “barriga cheia’. Fala em voz alta, vive gritando. Fala em tom normal, ninguém escuta. Não falta ao colégio, é um ‘caxias’. Precisa faltar, é um ‘turista’. Conversa com os outros professores, está ‘malhando’ os alunos. Não conversa, é um desligado. Dá muita matéria, não tem dó do aluno. Dá pouca matéria, não prepara os alunos. Brinca com a turma, é metido a engraçado. Não brinca com a turma, é um chato. Chama a atenção, é um grosso. Não chama a atenção, não sabe se impor. A prova é longa, não dá tempo. A prova é curta, tira as chances do aluno. Escreve muito, não explica. Explica muito, o caderno não tem nada. Fala corretamente, ninguém entende. Fala a ‘língua’ do aluno, não tem vocabulário. Exige, é rude. Elogia, é debochado. O aluno é reprovado, é perseguição. O aluno é aprovado, deu ‘mole’. É, o professor está sempre errado, mas, se conseguiu ler até aqui, agradeça a ele!

Santa Teresa de Jesus – 15 de Outubro

Santa Teresa de Ávila
Dom Eurico dos Santos Veloso

Teresa Sanchez Cepeda Davila y Ahumada nasceu em Ávila, Castela, em 28 de março de 1515. Era a terceira do casal Alonso Sanchez Cepeda e Beatriz Davila y Ahumada. Ela faleceu a 4 de outubro de 1542, mas por causa das reformas no calendário litúrgico, considera-se a data de sua morte 15 de outubro. Foi beatificada em 1614 pelo Papa Paulo V e canonizada em 1622 por Gregório XV, com comemoração em 15 de outubro. Em 27 de setembro de 1970, foi proclamada Doutora da Igreja pelo Papa Paulo VI. Bem, o grande legado à Igreja dessa Santa mística foi a reforma do Carmelo e sua contribuição para a experiência metódica da oração pessoal na busca de uma intimidade maior com Deus. Santa Teresa parte da oração vocal, que havia praticado com as irmãs agostinianas, mas tece-lhe críticas, pois no seu entendimento deve-se pensar no que se diz e não recitar muitas fórmulas e mexer com os lábios. Segundo ela, o espírito deve esvaziar-se, a imaginação e o entendimento calar-se. É a oração de recolhimento, na qual a alma deve aprender a amar. Ela se fixa nos mistérios da humanidade de Cristo, no seu sofrimento e pouco a pouco abandona o ser e o espírito, desinteressando-se de si mesmo. A alma vive e vê, numa palavra, contempla. É uma oração ativa, laboriosa, voluntária e perseverante. Falando as irmãs do Carmelo diz: “Não sabeis o que é oração mental. Nem como se faz a vocal. Nem o que é contemplação… Comecemos por nos perguntar a quem vamos falar, e quem somos. Não podemos dirigir a um príncipe de modo tão informal quanto a um trabalhador ou a pobres criaturas como nós, a que se pode falar de qualquer jeito, e sempre está muito bem!”. “Dirige a Deus cada um dos teus atos, oferece-os e pede-lhe que seja com grande fervor e desejo de Deus. Em todas as coisas, observa a providência de Deus e sua sabedoria. Em tudo, envia-lhe o teu louvor. Em tempo de tristeza e de inquietação, não abandones nem as boas obras de oração, nem a penitência a que estás habituada. Antes as intensifica. E verás com que prontidão o Senhor te sustenta”. “Que teu desejo seja ver Deus. Teu temor, perdê-lo. Tua dor, não te comprazeres na sua presença. Tua satisfação, o que pode conduzir-te a ele. E viverás numa grande paz”. “Quem verdadeiramente ama a Deus, ama tudo o que é bom, quer tudo o que é bom, favorece tudo o que é bom; louva todo o bem, com os bons se junta sempre, para apoiá-los e defendê-los. Em uma palavra, só ama a verdade e o que é digno de ser amado”. “Quando recito o pai-nosso, será um sinal de amor lembrar quem é esse Pai e também quem é o Mestre que nos ensinou essa oração”. “Ó meu Senhor, como vos mostrais Pai de tal Filho, e como vosso Filho revela que veio de tal Pai. Bendito seja para sempre. Pai nosso, que estais no céu… Com quanta razão a alma estaria em si; poderia então elevar-se acima de si mesma e escutar o que lhe ensinaria o Filho bendito sobre o lugar em que – afirma ela – está o Pai. Deixemos a terra, minhas filhas; não é justo que apreciemos tão mal um favor como esse, e que, depois de ter compreendido sua grandeza, continuemos sobre a terra” (cf. Orações e recomendações de Santa Teresa, extraídas do livro: “Orar com Santa Teresa de Ávila” – Edições Loyola – 1987). Assim, orar com os métodos de Santa Teresa de Ávila, nos leva ao encontro pessoal com nosso Deus e Pai, uma vez que a oração segundo nos ensina essa grande mística é um trato de amizade entre a alma e Deus. A oração vem as ser, assim, um caminho que nos leva à fonte de todo bem, Deus, e com a oração aprendemos a relação de dependência que nos faz viver as entranhas maternais desse Deus que vela por todos nós.
Termino com a consagrada prece de entrega a Deus de nossas preocupações e inquietudes, pois, para quem encontra Deus nada lhe falta. Só Deus é que preenche todo o nosso ser:
“Nada te inquiete,
nada te amedronte,
Tudo passa,
Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
A quem tem Deus, nada falta,
SÓ DEUS BASTA”.  

Santa Tereza de Ávila, rogai por nós.

 

Papa propõe Santa Teresa de Jesus como “mestra espiritual”
Começa uma breve série sobre os Doutores da Igreja

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – O Papa Bento XVI quis propor hoje a santa espanhola Teresa de Ávila como exemplo de vida “fascinante” e como “mestra espiritual” para os cristãos de hoje. Começou assim um percurso – como ele mesmo anunciou aos peregrinos reunidos na Sala Paulo VI para a audiência das quartas-feiras – pela vida dos Doutores da Igreja, sobre alguns dos quais já falou durante seu ciclo de teólogos medievais. Teresa de Ávila, afirmou o Papa, “representa um dos cumes da espiritualidade cristã de todos os tempos”.
Citando a autobiografia da santa espanhola – “O livro da vida” -, Bento XVI percorreu sua vida desde os desejos de martírio em sua infância, sua adolescência e juventude cheias de distrações, seu conflito interior em meio às doenças e, finalmente, sua conversão e suas experiências místicas. “Paralelamente ao amadurecimento da sua própria interioridade, a santa começa a desenvolver, de forma concreta, o ideal de reforma da Ordem Carmelita”, explicou o Papa, aludindo à importante reforma do Carmelo, levada a cabo por Teresa. A existência de Teresa de Ávila, ainda que tenha transcorrido na Espanha, sublinhou, esteve “empenhada por toda a Igreja”, fato pelo qual foi proclamada Doutora da Igreja por Paulo VI, em 1970. “Teresa de Jesus não tinha formação acadêmica, mas sempre entesourou ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve ao que tinha experimentado pessoalmente ou visto na experiência de outros”, explicou o Papa.
Da mesma forma, aludiu à sua “amizade espiritual com muitos santos, especialmente com São João da Cruz”, assim como sua estima pelos “Padres da Igreja, São Jerônimo, São Gregório Magno, Santo Agostinho”. Além da autobiografia, o Santo Padre destacou o “Caminho de perfeição”, no qual a santa “propõe um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração”, e sua obra mística mais conhecida, “Castelo interior”. Nesta última, Teresa “refere-se à estrutura de um castelo com sete ‘moradas’, como imagens da interioridade do homem”, inspirando-se “na Sagrada Escritura, especialmente no ‘Cântico dos Cânticos'”.
Entre os ensinamentos da santa, o Papa destaca “o desapego dos bens ou a pobreza evangélica (e isso diz respeito a todos nós); o amor de uns aos outros como elemento essencial da vida comunitária e social; a humildade e o amor à verdade; a determinação como resultado da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva”. Nos ensinamentos de Teresa estão também “as virtudes humanas: afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria, cultura”. “Em segundo lugar, Santa Teresa propõe uma profunda sintonia com os grandes personagens bíblicos e a escuta viva da Palavra de Deus”, assim como a oração como algo “essencial”: para a santa, rezar significa “tratar de amizade com Deus, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama”. “Outro tema caro à santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Para Teresa, na verdade, a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus que culmina na união com Ele pela graça, por amor e por imitação”, assim como “a perfeição, como aspiração de toda vida cristã e sua meta final”. Por isso, afirmou o Papa aos presentes, “Santa Teresa de Jesus é uma verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Em nossa sociedade, muitas vezes desprovida de valores espirituais, Santa Teresa nos ensina a ser incansáveis testemunhas de Deus, da sua presença e da sua ação”.

 

Catequese do Papa: perfeição cristã segundo Santa Teresa de Ávila
Intervenção na audiência geral de hoje

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Sala Paulo VI para a audiência geral.

Queridos irmãos e irmãs: Ao longo das catequeses que eu quis dedicar aos Padres da Igreja e a grandes figuras de teólogos e mulheres da Idade Média, pude falar sobre alguns santos e santas que foram proclamados Doutores da Igreja por sua eminente doutrina. Hoje, eu gostaria de começar com uma breve série de encontros para completar a apresentação dos Doutores da Igreja. E iniciamos com uma santa que representa um dos cumes da espiritualidade cristã de todos os tempos: Santa Teresa de Jesus. Ela nasceu em Ávila, Espanha, em 1515, com o nome de Teresa de Ahumada. Em sua autobiografia, ela menciona alguns detalhes da sua infância: o nascimento “de pais virtuosos e tementes a Deus”, em uma grande família, com nove irmãos e três irmãs. Ainda jovem, com pelo menos 9 anos, leu a vida dos mártires, que inspiram nela o desejo de martírio, tanto que chegou a improvisar uma breve fuga de casa para morrer como mártir e ir para o céu (cf. Vida 1, 4): “Eu quero ver Deus”, disse a pequena aos seus pais. Alguns anos mais tarde, Teresa falou de suas leituras da infância e afirmou ter descoberto a verdade, que se resume em dois princípios fundamentais: por um lado, que “tudo o que pertence a este mundo passa”; por outro, que só Deus é para “sempre, sempre, sempre”, tema que recupera em seu famoso poema: “Nada te perturbe, nada te espante; tudo passa, só Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem tem a Deus, nada lhe falta. Só Deus basta!”. Ficando órfã aos 12 anos, pediu à Virgem Santíssima que fosse sua mãe (cf. Vida 1,7). Se, na adolescência, a leitura de livros profanos a levou às distrações da vida mundana, a experiência como aluna das freiras agostinianas de Santa Maria das Graças, de Ávila, e a leitura de livros espirituais, em sua maioria clássicos da espiritualidade franciscana, ensinaram-lhe o recolhimento e a oração. Aos 20 anos de idade, entrou para o convento carmelita da Encarnação, sempre em Ávila. Três anos depois, ela ficou gravemente doente, tanto que permaneceu por quatro dias em coma, aparentemente morta (cf. Vida 5, 9). Também na luta contra suas próprias doenças, a santa vê o combate contra as fraquezas e resistências ao chamado de Deus. Escreve: “Eu desejava viver porque compreendia bem que não estava vivendo, mas estava lutando com uma sombra de morte, e não tinha ninguém para me dar vida, e nem eu poderia tomá-la, e Aquele que podia dá-la a mim, estava certo em não me socorrer, dado que tantas vezes me voltei contra Ele, e eu o havia abandonado” (Vida 8, 2). Em 1543, ela perdeu a proximidade da sua família: o pai morre e todos os seus irmãos, um após o outro, migram para a América. Na Quaresma de 1554, aos 39 anos, Teresa chega o topo de sua luta contra suas próprias fraquezas. A descoberta fortuita de “um Cristo muito ferido” marcou profundamente a sua vida (cf. Vida 9). A santa, que naquele momento sente profunda consonância com o Santo Agostinho das “Confissões”, descreve assim a jornada decisiva da sua experiência mística: “Aconteceu que…de repente, experimentei um sentimento da presença de Deus, que não havia como duvidar de que estivesse dentro de mim ou de que eu estivesse toda absorvida n’Ele” (Vida 10, 1). Paralelamente ao amadurecimento da sua própria interioridade, a santa começa a desenvolver, de forma concreta, o ideal de reforma da Ordem Carmelita: em 1562, funda, em Ávila, com o apoio do bispo da cidade, Dom Álvaro de Mendoza, o primeiro Carmelo reformado, e logo depois recebe também a aprovação do superior geral da Ordem, Giovanni Battista Rossi. Nos anos seguintes, continuou a fundação de novos Carmelos, um total de dezessete. Foi fundamental seu encontro com São João da Cruz, com quem, em 1568, constituiu, em Duruelo, perto de Ávila, o primeiro convento das Carmelitas Descalças. Em 1580, recebe de Roma a ereção a Província Autônoma para seus Carmelos reformados, ponto de partida da Ordem Religiosa dos Carmelitas Descalços. Teresa termina sua vida terrena justamente enquanto está se ocupando com a fundação. Em 1582, de fato, tendo criado o Carmelo de Burgos e enquanto fazia a viagem de volta a Ávila, ela morreu, na noite de 15 de outubro, em Alba de Tormes, repetindo humildemente duas frases: “No final, morro como filha da Igreja” e “Chegou a hora, Esposo meu, de nos encontrarmos”. Uma existência consumada dentro da Espanha, mas empenhada por toda a Igreja. Beatificada pelo Papa Paulo V, em 1614, e canonizada por Gregório XV, em 1622, foi proclamada “Doutora da Igreja” pelo Servo de Deus Paulo VI, em 1970. Teresa de Jesus não tinha formação acadêmica, mas sempre entesourou ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve ao que tinha experimentado pessoalmente ou visto na experiência de outros (cf. Prefácio do “Caminho de Perfeição”), ou seja, a partir da experiência. Teresa consegue tecer relações de amizade espiritual com muitos santos, especialmente com São João da Cruz. Ao mesmo tempo, é alimentada com a leitura dos Padres da Igreja, São Jerônimo, São Gregório Magno, Santo Agostinho. Entre suas principais obras, deve ser lembrada, acima de tudo, sua autobiografia, intitulada “Livro da Vida”, que ela chama de “Livro das Misericórdias do Senhor”. Escrito no Carmelo de Ávila, em 1565, conta o percurso biográfico e espiritual, por escrito, como diz a própria Teresa, para submeter a sua alma ao discernimento do “Mestre dos espirituais”, São João de Ávila. O objetivo é manifestar a presença e a ação de um Deus misericordioso em sua vida: Para isso, a obra muitas vezes inclui o diálogo de oração com o Senhor. É uma leitura fascinante, porque a santa não apenas narra, mas mostra reviver a profunda experiência do seu amor com Deus. Em 1566, Teresa escreveu o “Caminho da perfeição”, chamado por ela de “Admoestações e conselhos” que dava às suas religiosas. As destinatárias são as doze noviças do Carmelo de São José, em Ávila. Teresa lhes propõe um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração. Entre os trechos mais importantes, destaca-se o comentário sobre o Pai Nosso, modelo de oração. A obra mística mais famosa de Santa Teresa é o “Castelo Interior”, escrito em 1577, em plena maturidade. É uma releitura do seu próprio caminho de vida espiritual e, ao mesmo tempo, uma codificação do possível desenvolvimento da vida cristã rumo à sua plenitude, a santidade, sob a ação do Espírito Santo. Teresa refere-se à estrutura de um castelo com sete “moradas”, como imagens da interioridade do homem, introduzindo, ao mesmo tempo, o símbolo do bicho da seda que renasce em uma borboleta, para expressar a passagem do natural ao sobrenatural. A santa se inspira na Sagrada Escritura, especialmente no “Cântico dos Cânticos”, para o símbolo final dos “dois esposos”, que permite descrever, na sétima “morada”, o ápice da vida cristã em seus quatro aspectos: trinitário, cristológico, antropológico e eclesial. À sua atividade fundadora dos Carmelos reformados, Teresa dedica o “Livro das fundações”, escrito entre 1573 e 1582, no qual fala da vida do nascente grupo religioso. Como na autobiografia, a história é dedicada principalmente a evidenciar a ação de Deus na fundação dos novos mosteiros. Não é fácil resumir em poucas palavras a profunda e complexa espiritualidade teresiana. Podemos citar alguns pontos-chave. Em primeiro lugar, Santa Teresa propõe as virtudes evangélicas como base da vida cristã e humana: em particular, o desapego dos bens ou a pobreza evangélica (e isso diz respeito a todos nós); o amor de uns aos outros como elemento essencial da vida comunitária e social; a humildade e o amor à verdade; a determinação como resultado da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva. Sem esquecer das virtudes humanas: afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria, cultura. Em segundo lugar, Santa Teresa propõe uma profunda sintonia com os grandes personagens bíblicos e a escuta viva da Palavra de Deus. Ela se sente em consonância sobretudo com a esposa do “Cântico dos Cânticos”, com o apóstolo Paulo, além de com o Cristo da Paixão e com Jesus Eucarístico. A santa enfatiza, depois, quão essencial é a oração: rezar significa “tratar de amizade com Deus, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama” (Vida 8, 5). A ideia de Santa Teresa coincide com a definição que São Tomás Aquino dá da caridade teologal, como amicitia quaedam hominis ad Deum, uma espécie de amizade entre o homem e Deus, quem primeiro ofereceu sua amizade ao homem (Summa Theologiae II-ΙI, 23, 1). A iniciativa vem de Deus. A oração é vida e se desenvolve gradualmente, em sintonia com o crescimento da vida cristã: começa com a oração vocal, passa pela interiorização, através da meditação e do recolhimento, até chegar à união de amor com Cristo e com a Santíssima Trindade. Obviamente, este não é um desenvolvimento no qual subir degraus significa abandonar o tipo de oração anterior, mas um gradual aprofundamento da relação com Deus, que envolve toda a vida. Mais que uma pedagogia da oração, a de Teresa é uma verdadeira “mistagogia”: ela ensina o leitor de suas obras a rezar, rezando ela mesma com ele; frequentemente, de fato, interrompe o relato ou a exposição para fazer uma oração. Outro tema caro à santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Para Teresa, na verdade, a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus que culmina na união com Ele pela graça, por amor e por imitação. Daí a importância que ela atribui à meditação da Paixão e à Eucaristia, como presença de Cristo na Igreja, para a vida de cada crente e como coração da liturgia. Santa Teresa vive um amor incondicional à Igreja: ela manifesta um vivo sensus Ecclesiae frente a episódios de divisão e conflito na Igreja do seu tempo. Reforma a Ordem Carmelita com a intenção de servir e defender melhor a “Santa Igreja Católica Romana” e está disposta a dar sua vida por ela (cf. Vida 33, 5). Um último aspecto fundamental da doutrina de Teresa que eu gostaria de sublinhar é a perfeição, como aspiração de toda vida cristã e sua meta final. A Santa tem uma ideia muito clara da “plenitude” de Cristo, revivida pelo cristão. No final do percurso do “Castelo Interior”, na última “morada”, Teresa descreve a plenitude, realizada na inabitação da Trindade, na união com Cristo mediante o mistério da sua humanidade. Queridos irmãos e irmãs, Santa Teresa de Jesus é uma verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Em nossa sociedade, muitas vezes desprovida de valores espirituais, Santa Teresa nos ensina a ser incansáveis testemunhas de Deus, da sua presença e da sua ação; ensina-nos a sentir realmente essa sede de Deus que existe em nosso coração, esse desejo de ver Deus, de buscá-lo, de ter uma conversa com Ele e de ser seus amigos. Esta é a amizade necessária para todos e que devemos buscar, dia após dia, novamente. Que o exemplo desta santa, profundamente contemplativa e eficazmente laboriosa, também nos encoraje a dedicar a cada dia o tempo adequado à oração, a esta abertura a Deus, a este caminho de busca de Deus, para vê-lo, para encontrar a sua amizade e, por conseguinte, a vida verdadeira; porque muitos de nós deveríamos dizer: “Eu não vivo, não vivo realmente, porque não vivo a essência da minha vida”. Porque este tempo de oração não é um tempo perdido, é um tempo no qual se abre o caminho da vida; abre-se o caminho para aprender de Deus um amor ardente a Ele e à sua Igreja; e uma caridade concreta com nossos irmãos. Obrigado. [No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:] Queridos irmãos e irmãs, Santa Teresa de Jesus, nascida no século XVI, é um dos vértices da espiritualidade cristã de todos os tempos, e deu início, junto com São João da Cruz, à Ordem dos Carmelitas descalços. Apesar de não possuir uma formação acadêmica, sempre soube se alimentar dos ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Suas principais obras são: “O livro da Vida”; “Caminho da perfeição”; “Castelo Interior” e “O Livro das Fundações”. Entre os elementos essenciais da sua espiritualidade, podemos destacar, em primeiro lugar, as virtudes evangélicas, base de toda a vida cristã e humana. Depois, Santa Teresa insiste na importância da oração, entendida como relação de amizade com Aquele que se ama. A centralidade da humanidade de Cristo, outro tema que lhe era muito caro, ensina que a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus, a qual culmina na união com Ele pela graça, pelo amor e pela imitação. Por fim, está a perfeição, aspiração e meta de toda vida cristã, realizada na inabitação da Santíssima Trindade, na união com Cristo através do mistério da Sua humanidade. Dou as boas-vindas a todos os peregrinos de língua portuguesa, presentes nesta audiência! Que o exemplo e a intercessão de Santa Teresa de Jesus vos ajudem a ser, através da oração e da caridade aos irmãos, testemunhas incansáveis de Deus em uma sociedade carente de valores espirituais. Com estes votos, de bom grado, a todos abençoo.
[Tradução: Aline Banchieri.© Libreria Editrice Vaticana]

 

SANTA TERESA PROPÕE ANTÍDOTOS CONTRA NOVA ERA
Segundo Dom Berzosa no 2º Congresso Internacional Teresiano

ÁVILA, quinta-feira, 8 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – A mística carmelita possui um aspecto que, “por si só, acaba com a pseudo-mística da Nova Era: o nexo intrínseco entre a Trindade e todos os demais mistérios humanos”. Quem afirmou isso foi o bispo de Ciudad Rodrigo, Dom Raúl Berzosa, em sua intervenção de 4 de setembro, no 2º Congresso Internacional Teresiano. “No cristianismo, na mística carmelita, não se pode aplicar o termo ‘autorrealização’, porque nem sequer o homem e a mulher mais desenvolvidos em sua existência podem alcançar por si mesmos a plenitude. Tudo é dom e tarefa, graça e liberdade”, disse. Dom Berzosa, autor do livro “Nova Era e cristianismo. Entre o diálogo e a ruptura”, indicou que, “no livro ‘Caminho de Perfeição’, de Santa Teresa, podemos encontrar algumas chaves ou antídotos para enfrentar os enganos místicos da Nova Era”. Ele propôs um texto do capítulo 16 da grande obra para rebater o panteísmo da Nova Era: “Ó Senhor! Que todo o dano nos vem de não ter os olhos postos em Vós, que, se não olhássemos a outra coisa senão o caminho, depressa chegaríamos; mas damos mil quedas e tropeçamos e erramos o caminho por não pôr os olhos, como digo, no verdadeiro caminho”. E, diante da pretensão de salvar-se sozinho, recolheu um fragmento do capítulo 17 de “Caminho de Perfeição”: “Deixai o Senhor da casa fazer o que quiser: sábio é Ele e poderoso e entende o que nos convém e o que lhe convém a Ele também”. Para o bispo de Ciudad Rodrigo, não podem se sustentar as teses repetidas na Nova Era, segundo as quais o homem e mulher de hoje já têm dentro de si todo o seu potencial.

Mística
O prelado destacou que o termo “mística” equivale à “busca apaixonada do Deus vivo, descoberta do Deus vivo, encontro com o Deus vivo, abraço com o Deus vivo, já neste mundo e na nova humanidade”. E propôs também um texto de São João da Cruz sobre a presença de Deus na sua criação: “Deus em todas as pessoas mora secreto e encoberto na mesma substância delas, porque, se não fosse assim, não poderiam durar”, escreveu o santo. O bispo continuou citando-o: “Mas há diferença neste morar, e muita: porque em umas, mora sozinho e, em outras, não mora sozinho (trinitariamente); em umas,, mora com agrado e, em outras, com desagrado; em umas, mora como em sua casa, mandando e regendo tudo e, em outras, mora como estranho em casa alheia, onde não o deixam mandar nem fazer nada (…)”. “Uns têm Deus por graça em si somente e outros, por união. É tanta a diferença, como a que há entre desposório e matrimônio. Porque no desposório só há uma vontade de ambas as partes e presentes de joias e ornatos, mas no matrimônio há também comunicação de pessoas e união”, concluiu sua citação do livro “Chama viva de amor”. Dom Berzosa destacou que “somente sob a ação do Espírito Santo o homem se encontrará em profundidade consigo mesmo e se realizará o processo de verdadeiro amadurecimento da humanidade, de forma individual e comunitária”. E afirmou que, “em tudo isso, pulsa um transfundo clássico ascético-místico muito carmelita: a afirmação de que a presença da Trindade em nós é tripla: por criação, por graça e por união”.

Religiões superadas?
O prelado detalhou os traços espirituais e os elementos teológicos da Nova Era e sublinhou alguns dos seus pontos divergentes do cristianismo. Advertiu que a Nova Era “não está contra as religiões, pois procura superá-las desde dentro”. Neste sentido, resumiu o processo: “Anos 60: Cristo, sim; Igreja, não. Anos 70: Deus, sim; Cristo, não. Anos 80: religião, sim; Deus, não. Anos 90: espiritualidade, sim; religião, não”. Em outras palavras, referiu-se aos que viram a “passagem de uma religiosidade confessional a outra da experiência, de uma religiosidade institucionalizada a outra personalizada, de uma religiosidade formal a outra mais interiorizada”.

Mentiras da Nova Era
E comentou as “quatro mentiras ou tentações” espirituais da Nova Era, já mencionadas em Gênesis 3, 1-5, e cuja autoria seria do tentador: “sereis como deuses” (panteísmo), “não morrereis jamais” (reencarnação), ‘conhecereis o bem e o mal” (relativismo e subjetivismo moral) e “seus olhos se abrirão” (esoterismo iluminista). “A fé cristã não é uma iniciação esotérica nem um caminho de iluminação da consciência – explicou. E a salvação não consiste em uma experiência de plenitude cósmica através de um processo de reencarnação.” Também destacou o grande alcance dessa espiritualidade e estilo de vida, chegando a afirmar que a Nova Era é como “a alma ou espírito da globalização econômica neoliberal”. “Se, há algumas décadas (I1960-1970), se falava de transformação social, compromisso social, mudança de estruturas (marxismo), hoje se fala de consciência superior, de boas vibrações, de qualidade de vida, de harmonia profunda, de meditação transcendental, de energia, de agir no planetário, de nova ordem mundial e globalização”, disse. Com relação ao perfil de pessoas mais influenciadas por este novo paradigma, destacou: “Ele se arraiga entre as pessoas do primeiro mundo, de classe média-alta, entre 25-50 anos – que têm o estômago cheio, mas a cabeça e o coração vazios e que são os grandes ausentes das nossas comunidades cristãs”. No entanto, Dom Berzosa afirmou que “a moda da Nova Era se esfumará, mas as perguntas levantadas por ela permanecerão (…), perguntas que o cristianismo soube e saberá responder a partir do mistério profundo e integral de Jesus Cristo”.

Congresso
O 2º Congresso Internacional Teresiano, em preparação para o quinto centenário do nascimento de Santa Teresa, foi realizado na universidade da Mística de Ávila, de 29 de agosto a 4 de setembro. Participaram mais de 100 pessoas, de 20 nacionalidades, e os organizadores calculam que mais de 6 mil pessoas acompanharam em algum momento as atividades pela internet. O congresso permitiu aprofundar na sabedoria desta doutora da Igreja a partir da sua obra “Caminho de Perfeição”. Precisamente o manuscrito original desta grande obra, que habitualmente se conserva no mosteiro das carmelitas descalças de Valladolid, esteve exposto no recinto da Universidade da Mística por ocasião do congresso.

 

Dia do Professor: “Formar homens novos para um mundo novo”
Por Padre Luizinho

Hoje é dia do Professor e de uma grande mestra de vida cristã, Santa Teresa de Ávila. Quero começar agradecendo aos professores que eu tive em minha casa, a minha família, meus pais, tios e irmãos, pois os melhores professores estão dentro de nossa família. Na escola a gente aprende a ler, escrever a despertar a nossa inteligência e capacidade intelectual, mas em casa aprendemos a ser gente, aprendemos a falar, andar, a ter fé a agir para o bem. Na escola aprendemos as letras, em casa adquirimos o caráter, aprendemos a ser humano. “Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes” Paulo Freire. Para conquistar o sonho e a vocação ser sacerdote eu deveria estudar muito, aqui começam as dificuldades, pois quando criança tinha um pequeno desvio no cérebro que me impedia de aprender a ler e escrever, eu não conseguia juntar as letras e isso me deixava muito nervoso. Passei por algumas escolas e não conseguia progredir, isso também causava fortes dores de cabeça, hoje tenho consciência que tinha uma forte dislexia, tomei gardenal até os doze anos. Neste tempo no meu bairro, uma professora chamada Aglair, é importante lembrarmos das pessoas que nos fizeram experimentar vitórias, com muita paciência dava-me aulas de reforço em sua casa, neste ambiente de misericórdia e acolhimento aprendi a ler e escrever, daí em diante não tive mais dificuldade. Na verdade professor passa muito mais do que conhecimento, do que teoria, o verdadeiro professor passa vida, amor, para formar o homem todo e essa pedagogia tem a capacidade de curar o corpo e a alma. A todos os verdadeiros professores que passaram em minha vida, muito obrigado, vocês formaram um homem de Deus, essa é a essência da vocação do Professor: “Formar homens e mulheres novos para um mundo novo”.

“Professor é o sal da terra e a luz do mundo. Sem vós tudo seria baço, e a terra escura. Professor, faz de tua cadeira a cátedra de um mestre. Se souberes elevar teu magistério, ele te elevará à magnificência… … Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. Melhor professor nem sempre é o de mais saber e, sim, aquele que, modesto, tem a faculdade de manter o respeito e a disciplina da classe”. Cora Coralina

Verdades da Profissão de Professor
Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho. A data é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos. Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda (Paulo Freire).

Santa Tereza mestra e professora rogai por nós!

XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Frei Raniero Cantalamessa, OFM Cap.

Como é difícil um rico entrar no Reino dos Céus! 
Sabedoria 7, 7-11; Hebreus 4, 12-13; Marcos 10, 17-30

Uma observação preliminar é necessária para livrar o terreno de possíveis equívocos ao ler o que o Evangelho deste domingo diz da riqueza. Jesus jamais condena a riqueza nem os bens terrenos por si mesmos. Entre seus amigos está também José de Arimatéia, «homem rico»; Zaqueu é declarado «salvo», ainda que retenha para si a metade de seus bens, que, visto o ofício de arrecadador de impostos que desempenhava, deviam ser consideráveis. O que condena é o apego exagerado ao dinheiro e aos bens, fazer depender deles a própria vida e acumular tesouros só para si (Lucas 12, 13-21). A Palavra de Deus chama o apego excessivo ao dinheiro de «idolatria» (Col 3, 5; Ef 5, 5). O dinheiro não é um de tantos ídolos; é o ídolo por antonomásia. Literalmente «deus de metal fundido» (Ex 34, 17). É o antideus porque cria uma espécie de mundo alternativo, muda o objeto às virtudes teologais. Fé, esperança e caridade já não põem em Deus, mas no dinheiro. Há uma sinistra inversão de todos os valores. «Nada é impossível para Deus», diz a Escritura, e também: «Tudo é possível para quem crê». Mas o mundo diz: «Tudo é possível para quem tem dinheiro». A avareza, além da idolatria, é desta forma fonte de infelicidade. O avarento é um homem infeliz. Desconfiado de todos, isola-se. Não tem afetos, nem sequer entre os de sua própria carne, a quem vê sempre como aproveitadores e quem, por sua vez, alimenta com freqüência a respeito dele um só desejo de verdade: que morra logo para herdar suas riquezas. Tenso até o espasmo para economizar, nega-se tudo na vida e assim não desfruta nem deste mundo nem de Deus, pois suas renúncias não se fazem por Ele. Em vez de obter segurança e tranqüilidade, é um eterno refém de seu dinheiro. Mas Jesus não deixa ninguém sem esperança de salvação, tampouco o rico. Quando os discípulos, depois do dito sobre o camelo e a agulha, preocupados perguntaram a Jesus: «Então, quem poderá ser salvo?», Ele respondeu: «Para os homens, impossível, mas não para Deus». Deus pode salvar também o rico. A questão não é «se o rico se salva» (isto não esteve jamais em discussão na tradição cristã), mas «que rico se salva». Jesus assinala aos ricos uma via de saída de sua perigosa situação: «Acumulai tesouros no céu, onde não há traça nem ferrugem que corroem» (Mt 6,20); «Fazei amigos com o dinheiro da iniqüidade, a fim de que, no dia em que faltar, eles vos recebam nas tendas eternas» (Lc 16, 9). Poder-se-ia dizer que Jesus aconselha aos ricos transferir seu capital ao exterior! Mas não à Suíça, ao céu! Muitos –diz Agostinho– se afanam em meter seu próprio dinheiro sob a terra, privando-se até do prazer de vê-lo, às vezes durante toda a vida, com objetivo de saber seguro. Por que não colocá-lo nada menos que no céu, onde estaria muito mais seguro e onde se voltará a encontrar, um dia, para sempre? Como fazer? É simples, prossegue Santo Agostinho: Deus te oferece, nos pobres, os portadores. Eles vão ali onde tu esperas ir um dia. A necessidade de Deus está aqui, no pobre, e te devolverá quando fores ali. Mas está claro que a esmola de trocados e a beneficência já não é hoje o único modo de empregar a riqueza para o bem comum, nem provavelmente o mais recomendável. Existe também o de pagar honestamente os impostos, criar novos postos de trabalho, dar um salário mais generoso aos trabalhadores quando a situação permitir, pôr em andamento empresas locais nos países em vias de desenvolvimento. Em resumo, pôr a render o dinheiro, fazer fluir. Ser canais que fazem circular a água, não lagos artificiais que a retém só para si.

 

As leituras de cada domingo ajudam-nos a traçar o perfil espiritual do homem crente (homem de fé) que consiste numa configuração da vida, aliviada das canseiras e dos problemas que podem “travar” um pouco a caminhada da fé; assim, o nosso íntimo poderá ver melhor o caminho a percorrer para nos configurarmos a Cristo glorioso, convertendo-nos em verdadeiros discípulos do Senhor. Em cada domingo, encontramos uma proposta para progredir e para interiorizar espiritualmente, não só no aspecto pessoal, mas também no aspecto comunitário. A Palavra de Deus é acolhida por toda a assembléia que a irá pôr em prática. Por isso, todos somos corresponsáveis. Hoje, as leituras convidam-nos a refletir sobre a riqueza e as suas consequências. Primeiro Passo a dar: Ser sábios. Para ser sábio segundo Deus, é necessário tomar consciência da nossa pobreza, das nossas limitações. Não se trata de adquirir conhecimentos como se fossemos enciclopédias ambulantes, mas ter a lucidez para saber e valorizar o que é mais importante, quer a nível pessoal, quer a nível comunitário. O texto da primeira leitura coloca nos lábios do Rei Salomão os critérios que deve ter em conta para o seu crescimento pessoal e para servir o seu povo. Ele terá sempre que saber o que é mais importante. Como alguém que sente a sua pobreza e as suas limitações, Salomão reza a Deus e pede que lhe dê prudência, sabedoria e capacidade de discernir. O discernimento é mais importante que possuir o poder, riquezas e saúde. Segundo Passo a dar: Acolher a Palavra. Se perguntássemos a alguém se tem consciência de não ter muitos valores e convicções na sua vida, certamente adivinharíamos a resposta. Todavia, se perguntássemos a alguém se conhece alguém que pareça não ter valores nem princípios na sua vida, certamente não olharia para si próprio e procuraria enunciar o nome de outro, talvez com alguma prontidão. O extrato da Carta aos Hebreus da segunda leitura convida-nos a olhar em primeiro lugar para nós próprios e a deixar-nos interrogar pela Palavra de Deus. “A Palavra de Deus é viva e eficaz, mais cortante que uma espada de dois gumes”, ou seja, ela vai ao mais profundo do nosso ser e motiva-nos à revisão de vida. Estaremos convencidos e disponíveis para a revisão de vida ou não sentimos necessidade de fazê-la? Já nos conhecemos o suficiente; já conhecemos os nossos valores, dons e limitações? Será que nos sentimos pobres ou andamos convencidos que não precisamos da luz de Deus, porque já sabemos como projetar e viver a vida? Quem sabe se por nos sentirmos ricos e seguros de nós próprios cristalizamos e ficamos insensíveis! Assim não acolheremos a novidade que sempre nos traz a Palavra de Deus. Levantamos muralhas no nosso interior que nos impedem de interrogar e de rever a vida, talvez com medo de perder aquilo que, outrora, adquirimos; tantas vezes, isso se transforma em “prejuízos” religiosos e espirituais. Terceiro Passo a dar: Desprendermo-nos de tudo o que nos impede de seguir Jesus Cristo. O evangelho deste domingo apresenta-nos um homem bom, porque não faz nada que prejudique os outros. A lista dos mandamentos, exceto o de honrar pai e mãe, faz referência à possibilidade de prejudicar o próximo. O homem até tem bons princípios, mas para ganhar a vida eterna é preciso muito mais. Jesus, como Mestre, mostra-lhe o caminho a percorrer para o seu crescimento espiritual, ou seja, o caminho para o reino. O evangelista destaca o sentimento de Jesus (“olhou para ele com simpatia”); além disso, faz referência ao seu modo de agir: corre (denota uma atitude ativa), ajoelha-se (denota uma atitude de humildade e de aceitação de Jesus como Mestre), como também explicita o obstáculo que impede o seu progresso espiritual. O evangelho diz-nos que a riqueza condiciona-o de tal maneira que o impede de ouvir a Palavra para que esta o penetre até ao mais íntimo do seu ser. Não podia prescindir daquilo que ele tanto valoriza! A grande questão é saber descobrir aquilo que na vida é e causa impedimento a seguir Jesus.

 

VIGÉSIMO OITAVO DOMINGO COMUM
Mc 10, 17-30 “Como é difícil entrar no Reino de Deus”

O nosso texto inicia-se com a frase “Quando Jesus saiu de novo a caminhar”. Mais uma vez, estamos na caminhada com Jesus, na caminhada que é uma aprendizagem para o discipulado, uma caminhada que o leva cada vez mais perto a Jerusalém, lugar da crise definitiva da sua vida. Ao longo desta caminhada Jesus luta com a incompreensão dos seus discípulos, até dos mais chegados a Ele, pois a mentalidade deles era formada pela ideologia dominante, e assim tinham a maior dificuldade em apreciar a viravolta de valores que Jesus e a sua mensagem significavam. Nos outros domingos, já vimos essa tensão no trato das questões do poder, do divórcio, das crianças. No nosso texto hoje, Jesus põe em cheque o ensinamento comum sobre a riqueza e a pobreza. A cena é muito conhecida – um homem pede orientação sobre como entrar na vida eterna. Num primeiro momento, Jesus coloca diante dele as exigências conhecidas por todo judeu piedoso e ensinadas pelas escolas rabínicas – o cumprir dos mandamentos. Mas o homem – sem dúvida um praticante piedoso da Lei – sente que isso não é o suficiente, antes, é o mínimo. E assim Jesus põe diante ele as exigências do Reino – o seguimento d’Ele, o despojamento dos bens e a partilha e solidariedade. Aqui, o homem é incapaz de aceitar. Estava amarrado aos seus bens, pois era muito rico (v. 22). Fez a sua opção – optou por uma vida “regular” que não exigisse partilha nem despojamento, e como conseqência foi embora “muito abatido”- pois tinha colocado bens secundários acima do bem maior. Mas o centro do relato está no debate entre Jesus e os seus discípulos. O Mestre afirma que “é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus!” (v. 25). Muitas vezes gastamos tanta energia em debater o que significa “o buraco da agulha” (quase sempre tentando diminuir o seu impacto!), e deixamos de lado o aspecto mais importante – a reação dos discípulos! Eles ficam “muito espantados” quando ouviram isso e se perguntaram: “então quem pode ser salvo?” Por que ficaram espantados? O que houve de espantoso na colocação de Jesus? Aqui está o âmago da questão. O espanto dos discípulos – também todos judeus praticantes e piedosos – era causado pelo fato que, na ideologia religiosa vigente, a riqueza era considerado sinal da bênção de Deus, e a pobreza como sinal da maldição (uma idéia presente em certos grupos cristãos hoje e que às vezes infiltra algumas pregações sobre o dízimo, na própria Igreja Católica). Para eles, quem não iria se salvar era o pobre, pois o rico era abençoado. Aqui é bom lembrar que se trata de “entrar no Reino de Deus”, que não é sinônimo com a salvação eterna. A salvação depende da gratuidade e misericórdia de Deus, e diante de tal mistério só cabe à gente se calar. Mas o Reino de Deus deve ser uma experiência já existente entre nós, mesmo que não em plenitude, e que significa experimentar na vida os valores do Reino. O rico dificilmente entra nesta dinâmica porque normalmente é auto-suficiente, atrelado a um sistema classista e injusto, e com grande dificuldade tanto de repartir como de sentir a sua dependência de Deus. A proposta de Jesus desafia as ideologias que veem a riqueza como sinal da bênção de Deus. A proposta d’Ele não é a riqueza, mas a partilha, não é a acumulação, mas a solidariedade e a justiça, para que todos possam ter o suficiente. O texto deixa claro que quem quer viver esta proposta vai sofrer, pois o mundo não vai aceitá-la. Quem segue Jesus na prática da solidariedade, encontra uma felicidade mais duradoura, mas com perseguição, pois  já vive a certeza da plenitude do Reino que virá (v.29-31).

 

Evangelho segundo São Marcos 10, 17-30
Quando se punha a caminho, alguém correu para Ele e ajoelhou-se, perguntando: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus. Sabes os mandamentos: Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes, honra teu pai e tua mãe.» Ele respondeu: «Mestre, tenho cumprido tudo isso desde a minha juventude.» Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Mas, ao ouvir tais palavras, ficou de semblante anuviado e retirou-se pesaroso, pois tinha muitos bens. Olhando em volta, Jesus disse aos discípulos: «Quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que têm riquezas!» Os discípulos ficaram espantados com as suas palavras. Mas Jesus prosseguiu: «Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus.» Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros: «Quem pode, então, salvar-se?» Fitando neles o olhar, Jesus disse-lhes: «Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível.» Pedro começou a dizer-lhe: «Aqui estamos nós que deixamos tudo e te seguimos.» Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: quem deixar casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, no tempo presente, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, juntamente com perseguições, e, no tempo futuro, a vida eterna.

Por Pe. Fernando José Cardoso

“Bom Mestre – disse alguém a Jesus – o que devo fazer para obter em herança a vida eterna?” Eis, um jovem simpático, atraente, preocupado com a vida eterna, o que é coisa bastante estranha na juventude atual. No entanto reparem bem o seu vocabulário, não deixa ele de ter um “quê” de interesseiro, de financeiro: “O que devo fazer para obter em herança?” Herança é uma palavra que tem a ver com bens materiais e dinheiro; este jovem está preocupado em obter como herança a vida eterna. Jesus no primeiro momento lhe indica o caminho comum de todos os mortais: “Conheces os mandamentos”. Só que, apela para os mandamentos da segunda tábua, os mandamentos sociais, isto é, o relacionamento nosso com os outros seres humanos, isto quer dizer que o relacionamento vertical com Deus está condicionado ao relacionamento horizontal com os demais. “Tudo isto já faço”, é a resposta que Jesus obtém. Neste momento – diz o Evangelista – Jesus o olhou com particular carinho, o amou: “Eis aí, um jovem candidato ao sacerdócio, quem sabe até ao episcopado, é possível que se torne um dia um cardeal da Igreja; de qualquer maneira um outro a preencher mais vagas no colégio apostólico”. A resposta segunda de Jesus é esta: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu, a seguir, vem e segue-me”. Não era isto que o jovem queria, não era isto que havia perguntado a Jesus. Não era o seu interesse ter um tesouro no céu, herdar a vida eterna? Para decolar nesta direção, lhe diz Jesus: “É preciso se desfazer dos bens materiais”. A final de contas eles são bens provisórios, eles não são bens definitivos, se o que importa a este jovem é o definitivo, e realmente o definitivo, então que se desfaça do provisório. A atitude foi imediata; cabisbaixo voltou atrás porque possuía muitos bens. Jesus não voltou atrás nas suas palavras, não tentou adocicá-las. “Não, não, não espere um pouquinho, se deres a metade dos teus bens aos pobres já é suficiente para um serviço qualquer no meu reino”. Não! Jesus insiste no que fala e a seguir aos discípulos assustados afirma: “É mais fácil um camelo entrar pelo orifício de uma agulha – o animal maior da Palestina nos tempos de Jesus – do que um rico apegado ao dinheiro entrar no reino dos céus”. Este jovem representa a cada um de nós, eu poderia dizer a todos neste momento, através deste meio, são todos formidáveis, são todos excelentes candidatos ao Reino de Deus, porém estamos muitos de nós fixos aqui na terra como balões presos a certos fios, impedidos de levantar vôo ao alto. O dinheiro, os cheques, os cartões de crédito, quando estas coisas vão além de um tolerável, impedem realmente um rico de penetrar no definitivo; ele está condenado a ficar no provisório e a não sair mais daí. Este Evangelho deve ser profundamente meditado e assimilado por cada um de nós que queremos entrar na vida eterna.

 

«Terás um tesouro no Céu»
São João Crisóstomo (c. 345-407), Bispo de Antioquia e, mais tarde, de Constantinopla, Doutor da Igreja
Homilia 63 sobre São Mateus; PG 58,603 (trad. cf. Marc commenté, DDB 1986, p. 104)

Cristo tinha dito ao jovem: «Se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos» (Mt 19, 17). E ele pergunta: «Quais?», não para O pôr à prova, longe disso, mas por supor que o Senhor tem para ele, a par da Lei de Moisés, outros mandamentos que lhe proporcionem a vida; era uma prova do seu desejo ardente. Depois de Jesus lhe enunciar os mandamentos da Lei, o jovem diz-Lhe: «Tenho cumprido tudo isso»; mas prossegue: «Que me falta ainda?» (Mt 19, 20), sinal certo desse mesmo desejo ardente. Não são as almas pequenas as que consideram que ainda lhes falta alguma coisa, aquelas a quem parece insuficiente o ideal proposto para alcançarem o objeto dos seus desejos. E que diz Cristo? Propõe-lhe uma coisa grande; começa por propor-lhe a recompensa, declarando: «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro nos céus; depois, vem e segue-Me». Vês o preço, a coroa que Ele oferece como prêmio desta corrida desportiva? […] Para o atrair, propõe-lhe uma recompensa de grande valor e apresenta-lhe o cenário completo. Aquilo que poderia parecer penoso permanece na sombra. Antes de falar de combates e de esforços, mostra-lhe a recompensa: «Se queres ser perfeito», diz-lhe: eis a glória, eis a felicidade! […] «Terás um tesouro nos céus; depois, vem e segue-Me»: eis a soberba recompensa daqueles que seguem a Cristo, daqueles que escolhem ser Seus companheiros e Seus amigos! Este jovem apreciava as riquezas da terra; Cristo aconselha-o a despojar-se delas, não para empobrecer com este despojamento, mas para enriquecer ainda mais.

 

Arte a serviço do belo e do bem
Padre Wagner

Alguém chegou para Jesus e perguntou que devo fazer para ganhar a vida eterna. Meus irmãos e irmãs de certa forma, todos se questionam a respeito da felicidade. Todos nós buscamos a felicidades, nós cristãos sabemos que seremos felizes na posse da vida eterna, mas essa pergunta que o homem faz é a pergunta que todo ser humano faz para ser feliz, que caminhos devo trilhar para possuir a felicidade. E Jesus deixa muito claro para aquele homem que deveria trilhar os mandamentos de Deus, para que pudesse chegar a vida eterna. Ele deveria praticar os mandamentos de Deus. Jesus deixa claro que a posse da vida eterna depende da realização dos mandamentos de Deus. O homem do evangelho, após a resposta que Jesus dá a respeito dos mandamentos, respondeu: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude” (Marcos 10, 17-30). Uma tremenda coragem, mas acredito que esse homem foi sincero. Aquele homem apresenta verdade da sua vida, “Senhor eu tenho observado os mandamentos de Deus”, mas ele apresenta sua verdade, pois ele observa que a prática das leis de Deus, não era suficiente, ainda o deixava insatisfeito. Santo Agostinho disse: “a pessoa que prática os mandamentos, ele começa levantar a cabeça para liberdade, mas ainda não é a liberdade”. E Jesus que é a palavra de Deus viva, olhou para aquele homem, com olhar de profundo amor e esquadrinhou, fez um raio- x, e vê a insatisfação do coração daquele homem, que praticava com radicalidade os mandamentos de Deus, mas percebia que isso não era suficiente para ganhar a vida eterna e diz: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!” (Marcos 10, 21). Neste momento Jesus apresenta para este homem o que deveria fazer para ser livre, para possuir a verdadeira liberdade. Jesus não está fazendo uma crítica as riquezas, mas ele critica que aquele homem, era um escravo de suas riquezas, de suas posses. Com coerência aquele homem procurava colocar em prática os mandamentos de Deus, mas ia acumulando bens e ficou escravo, da sua ganância, do desejo de poder. Jesus não faz critica a pessoa que é rica, mas coloca em evidência qual era a causa da insatisfação, aquele homem era dominado por sua ganância, por isso a prática dos mandamentos, não era suficiente para ganhar a vida eterna. O que está em jogo é a vontade de ser livre, para fazer se si mesmo, um dom de amor para glória de Deus. Todos os mandamentos da lei de Deus foram sintetizados por Jesus em 2 mandamentos, amar a Deus e o amor ao próximo. Para que eu possa amar, fazer de mim mesmo, um dom para o bem dos outros, para eu amar a Deus, eu preciso fazer da minha vida um dom para Deus e um dom para fazer bem para o próximo, eu não posso dar o que eu não tenho. Quando a pessoa é escrava, ela não pode fazer se si um dom para outros, não pode se fazer dom para Deus e não pode fazer dom para o próximo. O caminho de nós nos libertamos de toda escravidão, é o caminho do amor. Precisamos romper com toda escravidão para nos fazer um dom para Deus e para os outros. Aquele homem foi embora muito triste porque ele possuía muitas riquezas. Jesus disse: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!” (Marcos 10, 23). Fazer parte do reino de Deus, orientar a vida, para eternidade em Deus, significa assumir os valores do Reino de Deus. Para que nós possamos viver em comunhão com Deus e irmãos é preciso encarnar os valores de Deus. Que valor, além do amor, devemos encarnar na nossa vida? A justiça, a caridade, o perdão, a reconciliação, a paz, tudo isso diz respeito aos valores do reino de Deus para orientarmos nossa vida para a eternidade. Jesus faz uma hierarquia de valores, no topo está o amor, que devemos buscar com avidez, que precisamos do Espírito santo, pois sem ele é impossível conseguirmos. Na primeira leitura, o livro da Sabedoria nos apresenta uma hierarquia de valores, e segundo o livro, o primeiro valor é sabedoria. E o autor da sabedoria coloca a sabedoria em primeiro lugar que é mais importante que os bens materiais, mas também a coloca como maior que os bens físicos, a saúde e beleza. Nós que somos cristãos devemos acima de tudo buscar o amor e com amor buscar a sabedoria. Se você quer ser feliz, orientar sua vida para eternidade em Deus, e sonha possuir a vida eterna, se quer aqui encarnar o amor de Deus, busque o amor e a sabedoria. Tenha sede de amor e sede de sabedoria. Essa sabedoria, não se aplica com os livros de ciência, eles são importantes, mas ela vem do Espírito da graça de Deus. A sabedoria é humilde, é dom do alto, ela se realiza, sobretudo na vida dos simples, porque encarnam em sua vida os valores do Reino de Deus. Vivem a sabedoria como dom de Deus para o bem dos outros, pois a felicidade consiste em fazer a felicidade dos outros, se quer ser feliz, faça os outros felizes. Tanto a saúde como a beleza, são bens que não devem ser desprezados, devemos cuidar da nossa saúde e beleza, porém a sabedoria em primeiro lugar. A saúde e beleza, são bens que não me orientam para vida eterna, mas a sabedoria sim. Neste acampamento para artistas, fico muito contente que a beleza vem a tona na primeira leitura, pois existe entre a arte e o belo, uma relação muito estreita. O autor de toda e qualquer beleza é o próprio Deus. Deus é o belo por excelência. Mas ao mesmo tempo, Deus não é somente o belo, mas também o sumo bem. Em Deus o belo e o bem se coincide, se identificam perfeitamente, Deus é belo porque é bom, e ao mesmo tempo a beleza de Deus se manifesta na sua bondade. O bem exerce uma força atrativa, por isso é que em Deus o belo e o bem se identificam, a autêntica beleza atrai. A beleza passageira nos atrai temporariamente, mas a autêntica, verdadeira nos atrai profundamente, pois ela esta totalmente entrelaçada com o bem, e percebemos que aquela arte manifesta o belo e o bem. É importante que o mundo contemple o belo e por ela o mundo se salve, a nossa arte deve estar a serviço do bem. O artista que se compromete a serviço de Deus, faz uma arte para o bem. Ética e estética, o bem e o belo em Deus se coincide. Um artista católico deve suplicar o dom da sabedoria, para que sua arte feita com sabedoria, manifeste o belo e salve o mundo do desespero e passe o bem. O verdadeiro artista não pode achar que basta colocar em prática alguns mandamentos de Deus, vemos que o homem rico praticava todos os mandamentos, mas era um frustrado, pois era escravo da sua riqueza. Arista se você tem alguma escravidão dento do seu coração, suplique ao Espírito de Deus pelo dom da sabedoria, para que possa atrair as pessoas para o belo que é Deus. Eu invoco o Espírito de Sabedoria para os artistas, para que sua arte esteja comprometida com o bem e não somente o belo. Pois quando a arte se compromete apenas com o belo, sem se comprometer com o bem, levam as pessoas para o desespero. É o Espírito que provoca o artista para se comprometer com o belo e ao mesmo tempo com o bem.

Homilia do Papa Francisco em Aparecida

Viagem Apostólica ao Brasil
Homilia do Papa Francisco
Santuário Nacional de Aparecida
Quarta-feira, 24 de julho de 2013

“Também eu venho hoje bater à porta da casa de Maria”, afirma Papa Francisco

Venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs!

Quanta alegria me dá vir à casa da Mãe de cada brasileiro, o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. No dia seguinte à minha eleição como Bispo de Roma fui visitar a Basílica de Santa Maria Maior, para confiar a Nossa Senhora o meu ministério de Sucessor de Pedro. Hoje, eu quis vir aqui para suplicar à Maria, nossa Mãe, o bom êxito da Jornada Mundial da Juventude e colocar aos seus pés a vida do povo latinoamericano.

Queria dizer-lhes, primeiramente, uma coisa. Neste Santuário, seis anos atrás, quando aqui se realizou a V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, pude dar-me conta pessoalmente de um fato belíssimo: ver como os Bispos – que trabalharam sobre o tema do encontro com Cristo, discipulado e missão – eram animados, acompanhados e, em certo sentido, inspirados pelos milhares de peregrinos que vinham diariamente confiar a sua vida a Nossa Senhora: aquela Conferência foi um grande momento de vida de Igreja. E, de fato, pode-se dizer que o Documento de Aparecida nasceu justamente deste encontro entre os trabalhos dos Pastores e a fé simples dos romeiros, sob a proteção maternal de Maria. A Igreja, quando busca Cristo, bate sempre à casa da Mãe e pede: “Mostrai-nos Jesus”. É de Maria que se aprende o verdadeiro discipulado. E, por isso, a Igreja sai em missão sempre na esteira de Maria.

Assim, de cara à Jornada Mundial da Juventude que me trouxe até o Brasil, também eu venho hoje bater à porta da casa de Maria, que amou e educou Jesus, para que ajude a todos nós, os Pastores do Povo de Deus, aos pais e aos educadores, a transmitir aos nossos jovens os valores que farão deles construtores de um País e de um mundo mais justo, solidário e fraterno. Para tal, gostaria de chamar à atenção para três simples posturas: Conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus; viver na alegria.

1. Conservar a esperança. A segunda leitura da Missa apresenta uma cena dramática: uma mulher – figura de Maria e da Igreja – sendo perseguida por um Dragão – o diabo – que quer lhe devorar o filho. A cena, porém, não é de morte, mas de vida, porque Deus intervém e coloca o filho a salvo (cfr. Ap 12,13a.15-16a). Quantas dificuldades na vida de cada um, no nosso povo, nas nossas comunidades, mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos. Frente ao desânimo que poderia aparecer na vida, em quem trabalha na evangelização ou em quem se esforça por viver a fé como pai e mãe de família, quero dizer com força: Tenham sempre no coração esta certeza! Deus caminha a seu lado, nunca lhes deixa desamparados! Nunca percamos a esperança! Nunca deixemos que ela se apague nos nossos corações! O “dragão”, o mal, faz-se presente na nossa história, mas ele não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança! É verdade que hoje, mais ou menos todas as pessoas, e também os nossos jovens, experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer. Frequentemente, uma sensação de solidão e de vazio entra no coração de muitos e conduz à busca de compensações, destes ídolos passageiros. Queridos irmãos e irmãs, sejamos luzeiros de esperança! Tenhamos uma visão positiva sobre a realidade. Encorajemos a generosidade que caracteriza os jovens, acompanhando-lhes no processo de se tornarem protagonistas da construção de um mundo melhor: eles são um motor potente para a Igreja e para a sociedade. Eles não precisam só de coisas, precisam sobretudo que lhes sejam propostos aqueles valores imateriais que são o coração espiritual de um povo, a memória de um povo. Neste Santuário, que faz parte da memória do Brasil, podemos quase que apalpá-los: espiritualidade, generosidade, solidariedade, perseverança, fraternidade, alegria; trata-se de valores que encontram a sua raiz mais profunda na fé cristã.

2. A segunda postura: Deixar-se surpreender por Deus. Quem é homem e mulher de esperança – a grande esperança que a fé nos dá – sabe que, mesmo em meio às dificuldades, Deus atua e nos surpreende. A história deste Santuário serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir apanhar peixes, nas águas do Rio Parnaíba, encontram algo inesperado: uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende, como o vinho novo, no Evangelho que ouvimos. Deus sempre nos reserva o melhor. Mas pede que nos deixemos surpreender pelo seu amor, que acolhamos as suas surpresas. Confiemos em Deus! Longe d’Ele, o vinho da alegria, o vinho da esperança, se esgota. Se nos aproximamos d’Ele, se permanecemos com Ele, aquilo que parece água fria, aquilo que é dificuldade, aquilo que é pecado, se transforma em vinho novo de amizade com Ele.

3. A terceira postura: Viver na alegria. Queridos amigos, se caminhamos na esperança, deixando-nos surpreender pelo vinho novo que Jesus nos oferece, há alegria no nosso coração e não podemos deixar de ser testemunhas dessa alegria. O cristão é alegre, nunca está triste. Deus nos acompanha. Temos uma Mãe que sempre intercede pela vida dos seus filhos, por nós, como a rainha Ester na primeira leitura (cf. Est 5, 3). Jesus nos mostrou que a face de Deus é a de um Pai que nos ama. O pecado e a morte foram derrotados. O cristão não pode ser pessimista! Não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto. Se estivermos verdadeiramente enamorados de Cristo e sentirmos o quanto Ele nos ama, o nosso coração se “incendiará” de tal alegria que contagiará quem estiver ao nosso lado. Como dizia Bento XVI: «O discípulo sabe que sem Cristo não há luz, não há esperança, não há amor, não há futuro” (Discurso inaugural da Conferência de Aparecida [13 de maio de 2007]: Insegnamenti III/1 [2007], 861).

Queridos amigos, viemos bater à porta da casa de Maria. Ela abriu-nos, fez-nos entrar e nos aponta o seu Filho. Agora Ela nos pede: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2,5). Sim, Mãe nossa, nos comprometemos a fazer o que Jesus nos disser! E o faremos com esperança, confiantes nas surpresas de Deus e cheios de alegria. Assim seja.

Fonte: Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé

Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida – 12 de Outubro

PADROEIRA E RAINHA DO BRASIL

A intercessora do povo
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha(MG)

“Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias”

O Brasil está unido, de norte a sul, de leste a oeste, para a grande festa de nossa excelsa padroeira: a Virgem da Conceição, Aparecida das águas do Rio Paraíba, no vale do mesmo nome, no ano de 1717. A devoção a Virgem Maria que nos abre o caminho mais rápido para contemplarmos a Santíssima Trindade. No majestoso Santuário Nacional de Nossa Senhora, na paulista Aparecida, ou nas Catedrais, Igrejas Matrizes, Igrejas Filiais e Capelanias de todo o imenso território nacional os fiéis precedidos de seus Pastores, louvam a Deus, por intermédio de sua Mãe que nos legou o mais simples e profundo modo de seguir a Jesus Cristo, o Redentor: “Fazei tudo o que Ele vos disser!” (cf. Jo 2, 5). Maria deve ser colocada, dentro de um bom entendimento da liturgia de hoje, como a intercessora do povo, como principal padroeira do povo Brasileiro. A Virgem Aparecida nos traz recordações importantes na vida cristã: como a ternura maternal da Virgem, sua dedicação a Jesus como mulher de fé, seu serviço prestado a toda a humanidade. Em Maria temos o mais perfeito exemplo do discípulo e da discípula de Jesus, que sabe cumprir os mandamentos e fazer realizar a única vontade do Pai, que se concretiza na salvação do povo de Deus. A Virgem Maria deve ser apresentada como o Modelo acabado de fidelidade do ser humano a Deus. Maria da fraternidade. Maria da acolhida. Maria da graça. Maria da partilha. Maria da misericórdia. Maria da graça santificante. Maria da generosidade. Maria do serviço! Relembramos assim, a visita do Conde de Assumar, em 1717, em Guaratinguetá, quando os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso foram escalados para pescar peixes para a refeição da visita ilustre, sendo este dia uma sexta-feira, dia de abstinência de carne. Os homens simples do Vale do Paraíba nada pescaram. Quando já estavam quase desanimando jogaram a rede e retiram uma imagem pequena de Nossa Senhora da Conceição, um pouco enegreada pela água, sem a cabeça. Outro arremesso. Veio a cabeça da imagem. Assim prosseguiu mais um arremesso e veio a pesca abundante. Deus abençoava, naquele momento, os três pescadores. A imagem da Virgem da Conceição, feita de barro cozido, enegrecida pelas águas e pelo tempo, medindo 36 cm, foi levada para o culto divino. Em 1745 foi construída uma Capela no alto do Morro dos Coqueiros. Nascia, assim, a devoção a Virgem Aparecida, Mãe do Povo Brasileiro. Em 1888 foi substituída a primitiva capela por uma Igreja. Em 1894 a Igreja e a devoção a Nossa Senhora foi enriquecida pela presença dos Missionários Redentoristas que passaram a gerir o Santuário Nacional. Desde 1953, a festa de Nossa Senhora Aparecida, tem como dia de celebração o dia 12 de outubro. Desde 1930 Nossa Senhora Aparecida abençoa o povo brasileiro como sua Padroeira Nacional. Em 4 de Julho de 1980 o Sumo Pontífice João Paulo II, de venerável memória, consagrou o novo Santuário Nacional. Em 13 de maio de 2007, o Sumo Pontífice Reinante, Papa Bento XVI, abriu a V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e caribenho nos fazendo o doce convite para “sermos discípulos e missionários de Jesus Cristo para que todos tenham vida e vida plenamente”. Na véspera deste memorável encontro, no interior da majestosa Basílica, o Santo Padre rezara o terço com os ministros sagrados e o povo de Deus, na mais cândida homenagem a Maria que abençoa o povo brasileiro. A história ensina que Maria é a verdadeira salvaguarda da fé; em cada crise, a Igreja reúne-se à volta d’Ela. Só assim os discípulos do Senhor poderão ser para os outros sal da terra a luz do mundo (cf. Mt 5, 13.14). “Feliz do povo, cujo Senhor é Deus, cuja Rainha é a Mãe de Deus!” Assim proclamava o Papa Pio XII e assim poderá exclamar essa dileta arquidiocese de Aparecida, se devidamente souber voltar os olhos para Aquela que gerou, por obra do Espírito Santo, o Verbo feito carne. É que a missão essencial da Igreja consiste precisamente em fazer nascer Cristo no coração dos fiéis (cf. Lumen gentium, 65) pela ação do mesmo Espírito Santo, através da evangelização. Salvos das águas pela fé e pelo Batismo, os cristãos podem atingir algo daquilo que contemplam na Virgem Aparecida, a Imaculada, se seguirem o seu conselho: “Fazei tudo o que Ele vos disser!”. Esta parte fica como a nossa missão na festa da Virgem Maria Aparecida. Amém!

 

APARECIDA E SUA MENSAGEM
Deus se encantou com esta mulher e a fez sua Mãe
Pe. Rinaldo Roberto de Rezende, Cura da Catedral de São Dimas

Bem escreveu Dom Helder Câmara, saudoso arcebispo de Recife e Olinda: “Não nos basta tua sombra, ó Mãe, comove-nos tua imagem!” É assim que nos sentimos diante da pequenina imagem da Senhora Aparecida. Como aconteceu esta “aparição”? A história é muito comentada, mas podemos nos perder nos detalhes e, por isso, arrisco contá-la numa pequena síntese. Em 1717, iria passar pelo nosso Vale do Paraíba o Conde de Assumar, uma visita ilustre para os pobres moradores da região ribeirinha. Fazia parte da viagem passar pelo Porto de Itaguaçu, hoje cidade de Aparecida. Conta-se que iriam servir uma refeição para o Conde. O que tinham de melhor? Os peixes do Rio Paraíba. Mas o rio não estava para peixe. Com receio de não terem o que servir, pediram ajuda aos céus. Lançaram as redes, e nada. Até que pescaram o corpo de uma pequena imagem e, em seguida, veio para a rede a cabeça, da mesma imagem. Que imagem era essa? Uma imagem barroca, de terracota, da Imaculada Conceição. Acredita-se que esta imagem tenha sido lançada no Rio Paraíba na altura da cidade de Jacareí. Por sinal, bem junto à ponte que liga a Praça dos Três Poderes ao bairro São João, existe uma antiga capela dedicada a Nossa Senhora Aparecida. Mais um detalhe, a padroeira da Matriz de Jacareí é a Imaculada Conceição. A partir daí a pequenina imagem de cor morena, devido ao lodo do fundo do rio, passou a ter como casa a casa dos pescadores. Tempos depois improvisaram uma pequena capela. A fama da imagem foi crescendo. Qual imagem? Aquela “aparecida” nas águas do rio. Daí vem o nome, que se tornou nome de tantos e tantas: Aparecida. Alguém poderia se perguntar: qual a mensagem deixada? Como tantos outros já disseram, aqui registro o seguinte: a mensagem de Aparecida está ligada ao modo como apareceu e ao contexto histórico. A imagem da Imaculada Conceição traz Maria grávida de Jesus. É de uma mulher grávida. Maria vem para nos apresentar Jesus, para nos apresentar a Jesus. Isto é o que importa. A imagem está de mãos postas, como que rezando. A nós ela pede que façamos o que Jesus nos disser, a Ele ela intercede por nós: “Eles não têm mais vinho”, como no Evangelho de João, no capítulo segundo. A cabeça e o corpo precisam ser unidos, como a Igreja Corpo Místico de Cristo precisa estar unida a “Cristo Cabeça”. Sem Ele, cabeça deste corpo, nada somos e nada podemos. Ainda, a imagem vem para a barca dos pescadores. A barca é símbolo da Igreja nos Evangelhos. Maria entra na história do nosso povo, da Igreja no Brasil. A imagem brota das águas, como nós brotamos para a Igreja pelas águas purificadoras do Batismo. A imagem vem para os pequenos, para os pobres, e num período em que os negros viviam no regime da escravatura. Aí vem uma outra “coincidência”: só em 1888 a imagem recebe uma “casa digna”, que hoje chamamos de Basílica Velha. Parece-nos que ela esperou seus pobres filhos serem libertos para aceitar um presente melhor. A casa só veio quando seus filhos foram libertos. Ela é a Mãe Morena do povo brasileiro. Também quero sublinhar os presentes que o povo deu à imagenzinha: uma coroa, uma capa. Assim ela foi ornamentada. Deus se encantou com esta mulher e a fez sua Mãe. Ela, por sua vez, também nos encantou. Contemplando a pequenina imagem, vemos um esboço de sorriso em seus lábios. Ela é, sem dúvida alguma, o sorriso de Deus para a nossa gente, para todos nós!

 

BRASIL, NASCIDO NOS BRAÇOS DA SANTÍSSIMA VIRGEM

O Brasil é o maior país católico do mundo, como disse o Papa São João Paulo II, por ocasião do centenário da coroação de Nossa Senhora de Aparecida, em 2004. Foi o Papa São Pio X quem solenemente coroou a Virgem Maria como “Rainha do Brasil”, em 1904. Todavia, a história da devoção mariana neste país surge no início do século XVI, quando a frota do navegador português, Pedro Álvares Cabral (1467-1520), em abril de 1500, desembarca nas costas de uma terra ainda desconhecida, e que será chamada, inicialmente, Ilha de Vera Cruz e, em seguida, Terra de Santa Cruz, antes de receber o nome atual, Brasil (da palavra brasa em referência aos tons avermelhados dos troncos de uma espécie de árvore conhecida como pau-brasil).

“O Brasil nasceu nos braços de Maria”
E foi, na verdade, no início de 1500, após ter-se colocado sob a maternal proteção de Maria e ter assistido à Santa Missa numa capela dedicada a Nossa Senhora de Belém, que a frota portuguesa, comandada por Pedro Álvares Cabral partiu, visando a descobrir novas e longínquas terras, além do Atlântico. A Virgem Maria, sob o vocábulo de Nossa Senhora da Esperança, foi, também, a primeira a colocar os pés em terras brasileiras, graças a Pedro Álvares Cabral que, assim que chegou, fez rezar a primeira Missa neste novo solo, em presença da estátua da Virgem que viajara com ele. Eis o motivo pelo qual os brasileiros gostam de dizer que “o Brasil nasceu nos braços de Maria”. Em conseqüência disso, todos os portos e aldeias do novo país surgiam com uma pequena igreja, devotada, durante um bom  tempo, à Maria. Além disso, todo o litoral brasileiro é consagrado à Virgem! Em 1584 a Paraíba era chamada de Nossa Senhora dos Mares; ainda hoje, um sem-número de vestígios datando desta época pioneira, pode nos revelar a existência de outras igrejas dedicadas a Maria. O primeiro grande santuário Mariano de que se tem notícia no Brasil é o de Nossa Senhora das Graças, na Bahia, que lhe foi erigido, por volta de 1530, após a aparição da Mãe de Deus a uma jovem índia casada com um português.

“A Rainha bem-amada do povo brasileiro”
Assinalamos, igualmente, o santuário de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Itanhaém (perto de São Paulo), sem dúvida, o primeiro dedicado à Maria com este vocábulo, naquela região. Já no  Espírito Santo, o santuário é devotado à Nossa Senhora das Vitórias e, em Porto Seguro, à Nossa Senhora do Socorro. Na província do Pará se encontra o importante santuário de Nossa Senhora de Nazaré, sua importante Basílica e a imensa sala dos ex-votos, oferecidos para agradecer a Nossa Senhora tantos milagres e graças recebidos mediante a sua intervenção. Entretanto, o maior testemunho, no Brasil, da devoção a Maria, em sua Imaculada Conceição, certamente é o santuário construído em honra à Virgem Imaculada em Aparecida, sobre as margens do rio Paraíba, no estado de São Paulo. Foi neste local, diante da Virgem Aparecida que, em 1946, o Brasil renovou a consagração do povo brasileiro ao coração Imaculado de Maria. Vale assinalar, também, que, a partir de 1940, de forma particular, o Brasil sempre esteve na vanguarda do movimento Mariano em relação ao mundo inteiro. Neste país, as Congregações marianas não cessam de florescer; contamos, hoje, com aproximadamente três mil delas, que agrupam grande quantidade de jovens, (os “Marianos”)! Pois Maria é, verdadeiramente, “a Rainha bem-amada do povo brasileiro”.

Fonte: MDN

 

Um modelo de docilidade
Maria simples criatura escolhida como mestra do amor
Marina Adamo / [email protected]

A alegria e a emoção invadem o meu coração neste momento que escrevo sobre Maria, a mulher que se abandonou inteiramente nas mãos do Criador. A mestra do amor que gera o Mestre do amor, pois só quem ama e capaz de submeter-se ao amor e assumir todas as suas conseqüências. Maria, uma mulher que teve a coragem de renunciar ao seu lindo plano de amor, que era casar-se com Jose, por causa de um Bem Maior: ser a Mãe do Salvador. Muitas vezes em nossa vida, nos não conseguimos viver a vontade de Deus, porque temos dificuldades de fazer a troca de um Bem por um Bem Maior. Mas, quando amamos a Deus sobre todas as coisas, os nossos desejos e interesses são considerados mesquinhos e pequenos diante da grandeza, bondade, sabedoria e amor do Pai. Maria fez da sua felicidade a realização do projeto de Deus. Nós também somente conquistamos a felicidade autêntica imitando-a na realização de uma total entrega a Deus. E todo aquele que ama Jesus prefere a vontade e os desejos do Pai. Entre inúmeras virtudes de Maria, saliento a sua docilidade e obediência a Palavra de Deus, que capacitou Maria para gerar o próprio Deus. Os discípulos de Jesus são aqueles que acolhem a Palavra e permitem que as suas vidas sejam transformadas e conduzidas por ela. Jesus reconhece todas as pessoas que seguem o exemplo da sua mãe. “Felizes são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11, 28). Se todos ouvissem a Deus como Maria, teríamos pessoas mais felizes e uma convivência humana bem mais fácil. Maria, simples criatura de Deus, foi escolhida como modelo de abertura total à ação do Criador. Ele olhou para a humildade da Sua serva; e ela, apesar de uma escolha de destaque, continuou sendo simples e humilde. Torna-se verdadeira discípula e assume a missão de apresentar o filho de Deus para o mundo. Para entendermos a missão de Maria é preciso nos abrirmos ao projeto de Deus, que visa o bem humano, a nossa união, a convivência fraterna de todos, tendo em vista a conquista ao Premio Celeste: o Céu. Toda a humanidade deveria reconhecer a escolha de Deus: Maria, a Mãe de Deus, como esta no evangelho de Lucas: “Todas as gerações me chamarão Bem-Aventurada” (Lc 1, 48). Ela deseja que todos os seus filhos brasileiros a acolham como a anfitriã do nosso País, a nossa mãe. O mundo atual tem levado as pessoas a serem egoístas e competitivas, mas nos brasileiros não podemos deixar que esta maneira de ser nos contagie, porque somos um povo que acolhe o estrangeiro e tem gestos de amor para com o outro. Neste dia da Virgem Aparecida, a Rainha e Padroeira do Brasil, vamos pedir ao Pai que Ele una os nossos corações, para que cada vez mais possamos nos render ao amor daquela que e a mestra do amor e que gerou o Mestre do Amor. O amor não divide, o amor se multiplica. Aprendamos com ela a amar a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a nos mesmos. Se você ainda não se relaciona com Maria como uma mãe, comece hoje a dar os primeiros passos, e deixe que ela entre em sua casa, em seu coração e seja a sua educadora e mestra, a sua amiga, conselheira, consoladora, auxilio e companheira rumo ao Céu!

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