Homilia da Semana

São Marcos, Evangelista – 25 de Abril

São Marcos nos remete aos primórdios de nossa tradição, testemunhando para nós a alegria de caminhar, sofrer e morrer pelo Evangelho.
Por Fabiano Farias de Medeiros

Horizonte, 25 de Abril de 2014 (Zenit.org) – São Marcos foi um dos evangelistas. Nasceu em Jerusalém no século I. Era filho de Maria de Jerusalém e primo de Barnabé. A tradição da Igreja o aponta como seguidor de São Paulo tendo sido batizado por ele na infância. Sua casa, que ficava próxima ao Jardim do Getsêmani, servia de local para as reuniões dos cristãos e apóstolos da época. Sua casa também seria agraciada com a realização da última ceia e com a reunião dos apóstolos com Maria ao receberem o Espírito Santo.
Como discípulo de São Paulo, é atribuído a ele a interpretação e redação de muitos escritos e cartas do apóstolo, sendo seu Evangelho considerado uma síntese das pregações que ouviu de Paulo. Também foi muito próximo a São Pedro. Acompanhou-os em muitas viagens das quais pôde testemunhar o poder da Palavra de Deus que era anunciada por cartas às comunidades. Assim foi em Jerusalém, Antioquia, Babilônia, Éfeso até chegar a Roma de onde escreveu seu Evangelho que é reconhecido como um dos mais antigos.
Após retornar de Roma, São Marcos viajou para o Egito onde fundou uma escola cristã na qual ensinava a liturgia, doutrina e outros serviços da Igreja. Partiu em missão para pregar o Evangelho na Região da África retornando para Alexandria para lutar contra o avanço do paganismo na região. E muitos foram convertidos ao cristianismo e batizados. Sabendo da insatisfação dos líderes pagãos, ordenou alguns companheiros ao presbitério e dentre eles Ananias que ordenou Bispo para que dessem seguimento à sua missão caso morresse. E assim aconteceu: São Marcos foi preso, torturado e arrastado pelas ruas até a morte. Após sua morte os pagãos ainda tentaram queimá-lo, mas a terra tremeu e estrondosos trovões varreram o céu dispersando assim os algozes.
Foi enterrado em uma cripta sob a qual no ano 310 foi construída uma Igreja. Sua relíquias foram levadas para Veneza no ano 820, e lá foi erguida uma Basílica em sua homenagem.

 

 

Por Pe. Fernando José Cardoso

Hoje é a festa de São Marcos.

A Igreja entende por Marcos, aquele que escreveu o Evangelho mais antigo, mais primitivo, o Segundo Evangelho.

É verdade que este Evangelho esteve durante dezoito séculos à sombra do Evangelho de Mateus.

A Igreja, durante todo esse tempo, preferiu de longe o Evangelho de Mateus ao Evangelho de Marcos. Há duzentos anos a Igreja descobriu a beleza de Marcos, pois foi ele quem pela primeira vez instituiu o gênero literário dos Evangelhos que nós conhecemos. Foi ele que pela primeira vez pinçou na rica tradição oral, a respeito de Jesus nos anos quarenta, cinqüenta e sessenta, as perícopes (aquelas narrações que eram mais incisivas), para a catequese de sua comunidade. Ele foi costurando literariamente uma perícope na outra.

É possível que Marcos se tenha inspirado na vida ou em trechos de vidas de profetas do Antigo Testamento como Jeremias, mas de grande parte foi ele o inventor. Não teríamos os nossos Evangelhos se Marcos não tivesse sonhado em ser o primeiro a redigir um texto dessa qualidade.

Já tínhamos o Evangelho de Paulo ou melhor, as suas epistolas, que vêm anunciar a Boa Nova de Cristo mas não se compara a Marcos. O que me chama atenção no Evangelho de Marcos e gostaria de transmitir hoje em sua festa é que ele, escrevendo numa época de perseguição recente para a comunidade, provavelmente o texto tenha sido escrito em Roma, não tenha tido escrúpulo algum em mostrar Jesus Cristo sofredor que vai ao encontro da sua Paixão. Não rejeita o sofrimento, pelo contrário, o aceita como disposição misteriosa de Deus Seu Pai.

Marcos descreve a Paixão de Jesus e mostra o Jesus que morre num abandono terrível. Ele conserva as últimas palavras de Jesus: “Meu Deus, Meu Deus porque me abandonastes?”

Assim catequiza cada irmão, cada irmã, catequiza a mim e a você através da fé em Jesus Cristo, não qualquer Fé, uma confiança absoluta em Jesus. Ele é Jesus sofredor neste mundo. Reproduzindo a vida do crucifixado em nós, entrando também pela Porta estreita como Ele, é que chegaremos um dia à glória.

Marcos não conhece outro caminho que chegue a glória da Ressurreição sem passar pela estreiteza da Cruz. Eis a mensagem do evangelista, eis o seu Evangelho, que ainda hoje atrai milhões de seguidores.

 

 

A exemplo de São Marcos, sejamos anunciadores do Evangelho
Padre Roger Araújo

Que São Marcos evangelista nos ajude a ser evangelizadores e anunciadores da Palavra de Deus! E que testemunhemos que só em Jesus há salvação!

“Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! Quem crer e for batizado será salvo” (Marcos 16, 15-16).
Nós hoje celebramos a festa do evangelista São Marcos, dele é o menor dos Evangelhos, mas, ao mesmo tempo, o primeiro a ser escrito cheio de riqueza de conteúdo por nos dar a compreensão de quem é Jesus. Ele nos ajuda a entender, pelas suas explicações, ou melhor dizendo, pelo desenvolvimento que ele dá à vida de Jesus, que Ele é, verdadeiramente, o Filho de Deus.
Movido por essa convicção e por essa certeza é que Marcos se torna também um seguidor de Cristo Jesus. Ele é João Marcos, aquele de quem Jesus usou a casa para estar e fazer a Última Ceia, é na casa dele que aconteceu o Cenáculo, o Pentecostes e o início da Igreja. Marcos se tornou um discípulo apaixonado por Jesus e por isso pôde organizar, para nós, o Evangelho dele.
O Evangelho de Marcos, ou o Evangelho de Jesus Cristo segundo São Marcos, não é apenas uma narração de fatos ou conteúdos a respeito da vida de Jesus, dos prodígios e dos milagres ou daquilo que o Senhor realizou no meio de nós. O Evangelho não é uma coleção de ditos e de palavras que o grande Mestre Jesus deixou para nós. O Evangelho é, acima de tudo, o próprio Jesus, porque palavras por palavras são apenas palavras, mas aqui são palavras de vida eterna!
Aquilo que é pregado a nós, no Evangelho, tem o poder de transformar nossa vida e dar sentido e direção ao que cremos, ao que acreditamos e colocamos a nossa confiança. Por isso o Evangelho a ser pregado não é Evangelho apenas formado de letras, mas o Evangelho vivo, a Boa Nova de Cristo que salva a humanidade.
Quando somos mandados e enviados para ir ao mundo inteiro pregar o Evangelho, nós também somos chamados a ir pregar a vida; essa vida que Cristo trouxe a nós! Para isso, precisamos primeiramente dizer que a nossa vida foi por Ele transformada e que, esse mesmo Jesus que transformou a nossa vida, pode transformar a sua também se assim você o permitir.
Uma vez que nós cremos nessa Palavra e fomos batizados por causa dessa mesma Palavra, a salvação de Deus entra em nós e está em nós!
Que São Marcos evangelista nos ajude a ser também evangelizadores, anunciadores e missionários da Palavra de Deus! Que ele nos ajude a testemunhar ao mundo, às pessoas e aos corações que existe salvação e que só há salvação na Palavra de Jesus: Palavra eterna de Deus, Palavra eterna do Pai, que, ao entrar em nós, dá sentido à nossa vida!
Que o seu coração se abra para que, de forma única, acolha essa Palavra de salvação: Jesus, o Evangelho vivo de Deus!

 

 

Entenda o verdadeiro sentido do amor
Padre Adriano Zandoná

O amor nem sempre vai ser a somatória dos sucessos e das alegrias

Experenciar a cura que vem de Deus para amar não é uma realidade periférica, ao contrário, assim como o pulmão necessita do oxigênio para nos manter vivos, o nosso coração precisa do amor para nos manter realizados. É o amor que dá o sentido à nossa vida, àquilo que nós somos e temos. E eu sei que o amor é desafiante.
Eu quero começar essa homilia com uma frase e uma história. A frase é de Clarice Lispector “Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que eu amava verdadeiramente”.
O amor nem sempre vai ser a somatória dos sucessos e das alegrias, pois existe um caráter oblativo no amor. E isso significa que amar é dar de si ao outro, significa suportar algumas incompreensões, colecioná-las, mas sem desistir do outro. Quantas noites muitas mães passam acordada! Ainda mais quando a criança é recém-nascida. Mas você já ouviu alguma dizer: “Não quero mais brincar disso, não quero mais ser mãe. Vou devolver a criança”? Nunca! Quando nasce o filho nasce a maternidade junto; e a mãe se dispõe a passar uma noite acordada com seu filho. O amor também comporta essa capacidade de amar, mesmo quando dói.
Amar é não esquecer quem o outro é. Deus é assim, quando cometemos pecados, Ele os reconhece, mas também vê cada um de nós como um filho.
Não se esqueça, em primeiro lugar, de quem você é diante de Deus, pois Ele não se esquece de você. E também não se esqueça de quem são as pessoas que Ele colocou em sua vida.
Às vezes, as pessoas nos machucam. Outras vezes, somos nós quem as machucamos, pois exigimos que elas nos amem de uma maneira surreal, pautados nas nossas carências, em nossos vazios.
Não se esqueça de quem as pessoas são na sua vida, do que elas representam. Sobretudo, não se esqueça daquelas pessoas que você não escolhe, mas Deus lhe dá para acompanhá-lo. O problema é que, muitas vezes, corremos o risco de ficar preso no que é ruim. Mas é preciso aprender a ver o coração de quem amamos e que nos ama. É isso que vai nos sustentar, vai possibilitar a nossa cura.
Hoje, celebramos São Marcos, sobrinho de Barnabé, escritor do segundo Evangelho e colaborador de Paulo e Pedro. Diz a tradição que tanto Pedro quanto Paulo tinham um temperamento difícil. Marcos viu pessoas morrendo, sendo martirizadas – ele mesmo foi martirizado –, mas, no seu Evangelho, não vemos nenhuma queixa, nenhuma lamúria. Marcos entendeu que o amor que nos une é mais forte que a dor que quer nos separar. Não olhe para dor e para as feridas que querem separar você das pessoas que Deus lhe deu para amar, mas faça esse amor se multiplicar cada vez mais por meio de uma decisão. Amor não é somente sentimento, é também decisão e convicção.
A Primeira Leitura nos apresenta cinco verbos essenciais para vivermos o amor que Deus quer que vivamos, a fim de que sejamos curados para amar:
1º verbo: revestir-se de humildade. Está no versículo 5b da primeira leitura: “Revesti-vos todos de humildade no relacionamento mútuo” (1Pd 5, 5b). Para vivermos esse amor que não se esquece do outro, que não nos deixa desistir das pessoas, precisamos nos revestir de humildade. Mas, infelizmente, a maioria dos relacionamentos acabam por falta de humildade. Você quer ser feliz ou quer ter razão no seu relacionamento? Muitas vezes, não dá para ter as duas coisas. Há pessoas que terminam um relacionamento, porque sempre querem ter razão. Se você quer ser feliz, saiba abrir mão da razão.
2º verbo: rebaixar-se. “Rebaixai-vos, pois, humildemente, sob a poderosa mão de Deus” (1Pd 5, 6a). Ninguém consegue vencer no amor se antes não se rebaixar diante de Deus, se não aprender a buscar forças no Senhor, pois amar também é um dom, é natural.
Amar uma pessoa que o fez sofrer é natural? Amar alguém que o decepciona cotidianamente é natural? Não. É sobrenatural. Pra você que não consegue amar quem o faz sofrer, rebaixe-se sobre a mão poderosa de Deus e Ele vai lhe dar a graça de amar. Quem não se rebaixa diante d’Ele, rebaixa-se diante da vida. Quem não se ajoelha diante de Deus, ajoelha-se diante dos problemas.
3º verbo: lançar. “Lançai sobre Deus as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós” (1Pd 5, 7). Quanta gente não consegue amar e ser feliz por ser escravo das preocupações e agitações! O que você consegue resolver com sua preocupação? O que sua preocupação pode mudar na sua vida, nas coisas que você precisa resolver? Há coisas que você não pode fazer, não pode resolver. Então, lançai sobre Deus as vossas preocupações. Ele tem cuidado de você. O que você não pode fazer, Deus faz por você, desde que você faça sua parte e confie n’Ele.
4º verbo: viver com sobriedade e vigilância. “Sede sóbrios e vigiai” (1Pd 5, 8) Viver com sobriedade é fechar as portas para o mal não entrar na sua vida. Vigia, meu irmão! Se você acredita que seu casamento é um grande dom que Deus lhe deu, lute por ele. É muito difícil alguma pessoa cair em pecado se ela não abrir um portinha para ele entrar. Se o pecado entrou na sua vida, é porque você abriu a porta para ele.
5º verbo: resistir. “Resisti-lhe, firmes na fé” (1Pd 5, 9). A nossa sociedade tem perdido a capacidade de resistir. Enquanto você estiver vivo, sozinho ou casado, você vai ter problemas e dificuldades.
C.S. Lewis disse que “as dificuldades preparam pessoas comuns para destinos extraordinários”. Nenhum casamento pode ser forte se não passar por alguma dificuldade. Precisamos aprender a resistir, assim como São Marcos resistiu, firme na fé, mesmo diante das perseguições.
Só ama verdadeiramente quem saber vencer a si mesmo e superar o egoísmo, o próprio orgulho. Quando você tem a capacidade de resistir, o vento passa, mexe com a estrutura do seu casamento, da sua vocação, mas se você permanece em Deus, firme na fé. Os frutos que você colhe nem se comparam às dores que você sente. Deus é fiel.

 

 

REFLEXÃO BÍBLICA – SÉRIE “VOCÊ SABIA?”
O Evangelho de São Marcos
Antônio Carlos Ferreira, cmf
Págs. 14 e 15. Revista Ave Maria I Fevereiro, 2018

O Evangelho segundo Marcos deve ser lido como uma série de narrativas que enfatizam os atos e palavras de Jesus(1). Dentre os quatro Evangelhos canônicos, o de Marcos é o mais curto e se propõe a ajudar o discípulo a avançar progressivamente no conhecimento da “misteriosa identidade de Jesus”(2). A elaboração e a organização final da obra revelam e sublinham o interesse teológico do autor: “A estrutura de Marcos está, pois, de acordo com determinados cenários geográficos”(3).
A forma literária do Evangelho aponta em uma direção principal, que é a identidade de Jesus. O relato marcano é projetado de forma a levar o leitor a interagir com ele, atraindo-o à questão central: “Quem é este, afinal?”. Na resposta a essa pergunta, o leitor-discípulo é convidado a identificar-se com aquele que é o personagem principal da história, Jesus(4).
Ao abordar as questões do discipulado, o autor não dá uma resposta, mas, apresenta uma pessoa: Jesus, o Filho do Homem(5), crucificado-ressuscitado(6). Com isso, introduz a experiência do sofrimento como um elemento constitutivo de sua missão messiânica. Dentro dessa perspectiva, o discipulado do Reino será também marcado por essa dimensão, ou seja, associação ao destino do Mestre(7).
Deve-se notar que, do início ao fim do relato, emerge a pergunta “Quem é este, afinal?”, a qual se torna elemento importante na estrutura do Evangelho (cf. 1, 27; 2, 7; 4, 41; 6, 2-3.14-15; 8, 27-29; 14, 61; 15, 2). O interrogante sobre a identidade de Jesus se atesta em sua primeira manifestação pública, na qual se declara que todos foram tomados de admiração e se perguntavam “Que é isto?”. “Um novo ensinamento com autoridade!” (1, 27). O questionamento sobre quem é Jesus também se apresenta na ocasião do mar revolto e este coloca em perigo a vida dos discípulos. Jesus, com sua palavra e autoridade, faz silenciar o vento e o mar. Nesse momento, os discípulos se voltam um para o outro e se perguntam: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc 4, 41).

Seu questionamento inicialmente se faz de maneira geral, “Quem dizem os homens que eu sou?” (8, 27), e, em seguida, com uma pergunta direta aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (8, 29a). Pedro apresenta uma importante declaração: “Tu és o Cristo” (8, 29b)

No capítulo sexto, a pessoa de Jesus segue gerando questionamentos. Agora são seus próprios concidadãos de Nazaré que se perguntam: “De onde lhe vem tudo isto? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais milagres por suas mãos?” (6, 1-6). Os discípulos, mais uma vez, na barca sob uma tempestade, durante uma travessia noturna, confundem-no com um fantasma e gritam: “À vista de Jesus, caminhando sobre o mar, pensaram que fosse um fantasma e gritaram” (6, 49). Essas e tantas outras perguntas acerca de Jesus inquietavam a muitos.
Note-se, na metade do capítulo oitavo, já a caminho de Jerusalém, que é o próprio Jesus que apresenta a interrogação sobre sua identidade, “para esclarecer de vez a situação crítica e tirar os discípulos da cegueira, toma a iniciativa. Faz um retiro com eles e se revela como Messias, mas, um Messias diferente daquele que pensavam. Um Messias na linha do servo sofredor (8, 27-33)”(8). Seu questionamento, inicialmente, se faz de maneira geral, “Quem dizem os homens que eu sou?” (8, 27), e, em seguida, com uma pergunta direta aos discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (8, 29a). Pedra apresenta uma importante declaração: “Tu és o Cristo” (8, 29b). Essa declaração oferece a possibilidade de desenvolver qual seria o tipo de messianismo assumido por Jesus de Nazaré. Essa parte constitui o coração de todo o Evangelho, o “epicentro do anúncio e, ao mesmo tempo, as coordenadas essenciais do seguimento. Como Cristo, assim o discípulo”. É nesse contexto que são narrados os três anúncios sobre a paixão (cf. 8, 31-33; 9, 30-32; 10, 32-34).

O questionamento sobre quem é Jesus também se apresenta na ocasião do mar revolto e este coloca em perigo a vida dos discípulos. Jesus, com sua palavra e autoridade, faz silenciar o vento e o mar

A sessão que compreende 14, 14-16, 8 constitui o ápice do Evangelho. Nela, o Messias, condenado à morte na cruz, é aclamado pelo centurião: “Este homem era realmente o Filho de Deus!” (15, 39). Tal declaração conclui e confirma o proclamado no início pelo autor: “Princípio da boa nova de Jesus Cristo, Filho de Deus” (1, 1).

REFERÊNCIAS
1-ARENS, Eduardo. Los evangelios ayer y hoy: una introducción hermenéutica. Lima: Paulinas, 2006, p. 287.
2-CIRIGNANO, Giulio; MONTUSCI, Ferdinando. Marco un vangelo di paura e di gioia. Esegesi e psicologia di senti menti contrapposti. Bologna: Dehoniane, 2000, p. 10.
3-KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. 2ª ed. Trad. João Paixão e Irmã Isabel Fontes Leal Ferreira. São Paulo: Paulus, 1982, p. 102-103.
4-ARENS, Eduardo. Los evangelios ayer y hoy: una introducción hermenéutica. Lima: Paulinas, 2006, p. 287.
5-MATERA, Frank J. Cristologia narrativa do Novo Testamento. Petrópolis: Vozes, 2003, p. 49.
6-THEISSEN, Gerd. O Movimento de Jesus: História social de uma revolução de valores. São Paulo: Loyola, 2008, p. 129-130.
7-AZEVEDO, Walmor Oliveira de. Comunidade e missão no Evangelho de Marcos. São Paulo: Loyola, 2002, p. 190-191.
8-MOSCONI, Luis. Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos. Para cristãos e cristãs do novo milênio. São Paulo: Loyola, 2009, p. 18.

São Jorge, Mártir – 23 de Abril

Devotos no mundo inteiro comemoram no dia 23 de abril, o Dia de São Jorge, o santo padroeiro da Inglaterra, de Portugal, da Catalunha, dos soldados, dos escoteiros, dos corintianos e celebrado em canções populares de Caetano Veloso, Jorge Ben Jor e Fernanda Abreu. No oriente, São Jorge é venerado desde o século IV e recebeu o honroso título de “Grande Mártir”.
Guerreiro originário da Capadócia e militar do Império Romano ao tempo do imperador Diocleciano, Jorge converteu-se ao cristianismo e não agüentou assistir calado às perseguições ordenadas pelo imperador. Foi morto na Palestina no dia 23 de abril de 303. Ele teria sido vítima da perseguição de Diocleciano, sendo torturado e decapitado em Nicomédia, tudo devido à sua fé cristã.
A imagem de todos conhecida, do cavaleiro que luta contra o dragão, foi difundida na Idade Média. Está relacionada às diversas lendas criadas a seu respeito e contada de várias maneiras em suas muitas paixões. Iconograficamente, São Jorge é representado como um jovem imberbe, de armadura, tanto em pé como em um cavalo branco com uma cruz vermelha. Com a reforma do calendário litúrgico, realizada pelo Papa Paulo VI, em maio de 1969, tornou-se opcional a observância do seu dia festivo. Embora muitos ainda suspeitem da veracidade de sua história, a Igreja Católica reconhece a autenticidade do culto ao santo. O culto do santo chegou ao Brasil com os portugueses. Em 1387, Dom João I já decretara a obrigatoriedade de sua imagem nas procissões de Corpus Christi. O Sport Clube Corinthians Paulista foi outra grande contribuição para a popularização de São Jorge, primeiro no Estado de São Paulo e depois no País, ao escolher o santo como seu padroeiro e protetor, em 1910.
A quantidade de milagres atribuídos a São Jorge é imensa. Segundo a tradição, ele defende e favorece a todos os que a ele recorrem com fé e devoção, vencendo batalhas e demandas, questões complicadas, perseguições, injustiças, disputas e desentendimentos.

São Jorge é venerado desde o século IV
O culto a São Jorge vem do século 4 dC. O soldado foi martirizado na Palestina no dia 23 de abril de 303, vítima da perseguição do imperador Diocleciano. Foi torturado e teve a cabeça cortada, em Nicomédia, devido a sua fé cristã.
Os restos mortais de São Jorge foram transportados para Lídia (antiga Dióspolis), onde foi sepultado, e onde o imperador cristão Constantino (que depois de vários imperadores anti-cristãos converteu-se e a império à religião cristã) mandou erguer suntuoso oratório aberto aos fiéis. Seu culto espalhou-se imediatamente por todo o Oriente. No século V, já havia cinco igrejas em Constantinopla dedicadas a São Jorge. Só no Egito, nos primeiros séculos após sua morte, foram erguidas quatro igrejas e quarenta conventos dedicados ao mártir. Na Armênia, na Grécia, no Império Bizantino (a região oriental do Império Romano, que tinha capital em Bizâncio, depois, Constantinopla) São Jorge era inscrito entre os maiores Santos da Igreja Católica. No Ocidente, na Idade Média, as Cruzadas colocaram São Jorge à frente de suas milícias, como Patrono da Cavalaria. Na Itália, era padroeiro da cidade de Gênova. Na Alemanha, Frederico III dedicou a ele uma Ordem Militar. Na França, São Gregório de Tours era conhecido por sua devoção a São Jorge; o rei Clóvis dedicou-lhe um mosteiro, e sua esposa, Santa Clotide, erigiu várias igrejas e conventos em sua honra. A Inglaterra foi o país ocidental onde a devoção ao santo teve papel mais relevante. O monarca Eduardo III colocou sob a proteção de São Jorge a Ordem da Cavalaria da jarrateira, fundada por ele em 1330. Por considerá-lo o protótipo dos cavaleiros medievais, o inglês Ricardo Coração de Leão, comandante de uma das primeiras Cruzadas, constituiu São Jorge padroeiro daquelas expedições que tentavam conquistar a Terra Santa aos muçulmanos. No século 13, a Inglaterra celebrava sua festa como dia santo e de guarda e, em 1348, criou a Ordem dos Cavaleiros de São Jorge. Os ingleses acabaram por adotar São Jorge como padroeiro do país, imitando os gregos que também trazem a cruz de São Jorge na sua bandeira. Ainda durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) muitas medalhas de São Jorge foram cunhadas e oferecidas aos enfermeiros militares e às irmãs de caridade que se sacrificaram ao tomar conta dos feridos da guerra. As artes, também, divulgaram amplamente a imagem do santo. Em Paris, no Museu do Louvre, há um quadro famoso de Rafael (1483-1520), intitulado “São Jorge vencedor do Dragão”. Na Itália, existem diversos quadros célebres, como o de autoria de Donatello (1386-1466).

São Jorge e a morte do dragão
A imagem conhecida de todos, do cavaleiro que luta contra o dragão, está relacionada às lendas criadas a partir da Idade Média. Há uma grande variedade de histórias relacionadas a São Jorge. O relato e a imagem de todos conhecidos, do cavaleiro que luta contra o dragão, começaram a ser difundidos na Idade Média. A imagem atual do santo, sentado em um cavalo com uma lança que atravessa um dragão, está relacionada às diversas lendas criadas a seu respeito, contadas de várias maneiras em suas muitas paixões. A versão mais corrente dá conta que um horrível dragão saía de vez em quando das profundezas de um lago e atirava fogo contra os muros de uma longínqua cidade do Oriente, trazendo morte com seu mortífero hálito. Para não destruir toda a cidade, o dragão exigia regularmente que lhe entregassem jovens mulheres para serem devoradas. Um dia coube à filha do Rei ser oferecida em comida ao monstro. O Monarca, que nada pôde fazer para evitar esse horrível destino da tenra filhinha, acompanhou-a com lágrimas até as margens do lago. A princesa parecia irremediavelmente destinada a um fim atroz, quando de repente apareceu um corajoso cavaleiro vindo da Capadócia, montado em um cavalo branco, São Jorge. Destemidamente, enfrentou as perigosas labaredas de fogo que saíam da boca do dragão e as venenosas nuvens de fumaça de enxofre que eram expelidas pelas narinas do monstro. Após um duro combate, finalmente São Jorge venceu o terrível dragão, com sua espada de ouro e sua lança de aço. O misterioso cavaleiro assegurou ao povo que tinha vindo, em nome de Cristo, para vencer o dragão. Eles deviam converter-se e ser batizados. Para alguns, o dragão (o demônio) simbolizaria a idolatria destruída com as armas da Fé. Já a donzela que o santo defendeu, representaria a província da qual ele extirpou as heresias. A relação entre o santo e a lua viria de uma lenda antiga que acabou virando crença para muitos. Diz a tradição que as manchas apresentadas pela lua representam o milagroso santo e sua espada pronto para defender aqueles que buscam sua ajuda.

Desde 1969, Igreja Católica tornou opcional a celebração a São Jorge
Embora muitos considerem que sua história não passe de um mito e outros até mesmo acreditem que o santo tenha sido cassado pela Igreja Católica, o martírio de São Jorge e o seu culto continuam sendo reconhecidos pelo catolicismo. A lenda do guerreiro que matou o dragão havia sido rejeitada no século 5 por um concílio, mas persistiu e ganhou enorme popularidade no tempo das Cruzadas. “A imagem atual é fruto de uma lenda. Isso não quer dizer, no entanto, que esse santo não existiu e que o martírio dele não foi significativo”, diz o monsenhor Arnaldo Beltrami, vigário episcopal de comunicação da Arquidiocese de São Paulo. No dia 9 de maio de 1969, a observância do Dia de São Jorge tornou-se opcional, com a reforma do calendário litúrgico, realizada pelo papa Paulo VI. A reforma retirou do calendário litúrgico as comemorações dos santos dos quais não havia documentação histórica, mas apenas relatos tradicionais. Daí ter-se falado, naquele tempo, em “cassação de santos”. Mas o fato da celebração do Dia de São Jorge tornar-se opcional não significa o não reconhecimento do santo.

São Jorge é o padroeiro da Inglaterra
O “Santo Guerreiro” é também o padroeiro da Inglaterra, de Portugal e da Catalunha (região da Espanha que reivindica identidade nacional, onde se localiza Barcelona). Não há consenso, porém, a respeito da maneira como teria se tornado patrono da Inglaterra. Seu nome era conhecido na Inglaterra e na Irlanda muito antes da conquista normanda, o que leva a crer que os soldados que retornavam das Cruzadas influíram bastante na disseminação de sua popularidade. Acredita-se que o santo tenha sido escolhido o padroeiro do reino quando o rei Eduardo III fundou a Ordem dos Cavaleiros de São Jorge, em 1348. Em 1415, a data de sua comemoração tornou-se um dos feriados mais importantes do país. Em 1970, a festa anual do santo nas igrejas católicas foi tornada opcional, com a reforma do Papa Paulo VI. Entretanto, na Inglaterra e em outros lugares onde São Jorge é especialmente venerado, tal festa guarda ainda toda a sua antiga solenidade. Os ingleses acabaram por adotar São Jorge como padroeiro do país.

 

 

São Jorge é santo mesmo?
http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2015/04/23/sao-jorge-e-santo-mesmo/
Prof. Felipe Aquino

Recebi um email de uma pessoa me perguntando:
“São Jorge, qual a verdadeira história dele, é um santo mesmo? Da Igreja Católica ou de macumba? Nunca me senti bem em relação a ele, pois já vi sua imagem em lugares nada cristãos… Poderia me esclarecer por favor?”
A Igreja não tem dúvida de que São Jorge existiu e é Santo; tanto assim que sua memória é celebrada no Calendário litúrgico no dia 23 de abril. São Jorge foi mártir; a Igreja possui os “Atos do seu martírio” e sua “Paixão”, que foi considerada apócrifa pelo Decreto Gelasiano do século VI. Mas não se pode negar de maneira simplista uma tradição tão universal como veremos: a Igreja do Oriente o chama de “grande mártir” e todos os calendários cristãos incluíram-no no elenco dos seus santos.
São Jorge é considerado um dos “oito santos auxiliadores” (8 de agosto). Já no século IV o grande imperador romano Constantino, que se converteu ao cristianismo em 313, construiu uma igreja em sua honra. No século V já havia cerca de 40 igrejas em sua honra no Egito. Em toda a Europa multiplicaram as suas igrejas. Em 1222, o Concílio Regional de Oxford na Inglaterra estabeleceu uma festa em sua honra, e nos primeiros anos do século XV, o arcebispo de Cantuária na Inglaterra ordenou que esta festa fosse celebrada com tanta celebridade como o Natal. No ano de 1330, o rei católico Eduardo III da Inglaterra já tinha fundado a Ordem dos Cavaleiros de São Jorge.
São Jorge, além de haver dado nome a cidades e povoados, foi proclamado padroeiro de muitas cidades como Gênova, Ravena, Roma, de regiões inteiras espanholas, de Portugal, da Lituânia e da Inglaterra, com a solene confirmação, para esta última, do Papa Bento XIV.
O culto de São Jorge começou desde os primeiros anos da Igreja em Lida, na Palestina, onde o mártir foi decapitado e sepultado no início do século IV. Seu túmulo era alvo de peregrinações na época das Cruzadas, no século XII, quando o sultão muçulmano Saladino destruiu a igreja construída em sua honra.
A conhecida imagem de São Jorge como cavaleiro que luta contra o dragão, difundida na Idade Média, é parte de uma lenda contada em suas muitas narrativas de sua paixão.
Diz a lenda que um horrível dragão saía de vez em quando de um lago perto de Silena, na Líbia, e se atirava contra os muros da cidade fazendo morrer muita gente com seu hálito mortal, sendo que os exércitos não conseguiam exterminá-los. Então, o povo, para se livrar desse perigo lhe ofereciam jovens vítimas, escolhidas por sorteio. Só que num desses sorteios, à filha do rei foi sorteada para ser oferecida em comida ao monstro. Desesperado, o rei, que nada pôde fazer para evitar isso, acompanhou-a em prantos até às margens do lago. Mas, de repente apareceu um corajoso cavaleiro vindo da Capadócia. Era são Jorge, que marchou com seu cavalo em direção ao dragão e atravessou-o com sua lança. Outra lenda diz que ele amansou o dragão como um cordeiro manso, que a jovem levou preso numa corrente, até dentro dos muros da cidade, entre a admiração de todos os habitantes que se fechavam em casa, cheios de pavor. O misterioso cavaleiro lhes assegurou, gritando-lhes que tinha vindo, em nome de Cristo para vencer o dragão. Eles deviam converter-se e ser batizados.
Continua a narração dizendo que o tribuno e cavaleiro Jorge fez ao povo idólatra da cidade um belo sermão, após o qual o rei e seus súditos se converteram e pediram o batismo. O rei lhe teria oferecida muito dinheiro, mas Jorge teria partido sem nada levar, mandando o rei distribuir o dinheiro aos pobres.
É claro que isso é uma lenda na qual não somos obrigados a acreditar; mas é preciso entender o valor subjetivo das lendas religiosas sobre os santos. O povo as criava e divulgava para enaltecer a grandeza do santo, de maneira parabólica e fantasiosa; mas nela há um fundo de verdade. É um estilo de literatura, fantasiosa sim, mas que não pode ser desprezada de todo.
Muitos artistas e escultores famosos pintaram e esculpiram imagens do Santo: Rafael, Donatelo, Carpaccio, etc.
Segundo a tradição São Jorge foi condenado à morte por ter renegado aos deuses do império, o que muito acontecia com os cristãos. Ele foi torturado, mas parecia que era de ferro, não se queixava. Diz a tradição que diante de sua coragem e de sua fé, a própria mulher do imperador se converteu, e que muitos cristãos, diante dos carrascos, encontraram a força de dar o testemunho a Cristo com o próprio martírio. Por fim, também são Jorge inclinou a cabeça sobre uma coluna e uma espada super afiada pôs fim à sua jovem vida.
Como houve muitos cristãos que morreram mártires nesses tempos da perseguição romana, nada impede que um deles tenha sido o cavaleiro e tribuno militar Jorge.

 

 

Hoje se comemora o onomástico do Papa
A Igreja recorda no 23 de abril São Jorge
Por Redacao
ROMA, 23 de Abril de 2015 (Zenit.org) – Nesta segunda-feira é dia festivo no Vaticano, porque se celebra o onomástico do Papa, Jorge Mario Bergoglio. E é que no dia 23 de abril, a Igreja recorda São Jorge.
Um de seus mais próximos colaboradores, monsenhor Guillermo Karcher, sacerdote argentino e mestre de cerimônias pontifício declara em uma entrevista á Rádio Vaticano que “pensar hoje, nesta festa onomástica, no santo do Papa – sendo o seu nome de batismo Jorge – é bonito porque quando penso nele, e o vejo atuar, posso dizer que é um ‘São Jorge moderno’, no sentido de que é um grande lutador contra as forças do mal e o faz com um espírito verdadeiramente cristão”.
Além disso, monsenhor Karcher afirma que “é a Cristo que vejo nele, que semeia o bem para combater o mal. E este é um exemplo, porque já o fazia em Buenos Aires e continua fazendo agora com esta simplicidade que o caracteriza, mas que é tão forte, tão importante neste momento do mundo, em que é necessária a presença do bem”.
Jorge da Capadócia é o nome de um hipotético soldado romano da Capadócia, atual Turquia, que, pelo que parece, foi um mártir. Diz-se que nasceu entre 275 e 280, e morreu em 23 de abril de 303. Na Itália, o culto de São Jorge foi muito difundido. Em Roma, Belisario, pelo ano 527, colocou sob a proteção de Jorge a Puerta de San Sebastián e a igreja de São Jorge em Velabro, onde foi transferida uma possível relíquia do santo. Algumas cidades, como Gênova, Ferrara e Reggio de Calabria, têm São Jorge como patrono.
A lenda – possivelmente originada no século IV – conta a história de Jorge, um romano que, depois da morte do pai, mudou-se com a mãe para a cidade natal dela: Lydda, atual Lod, Israel. Ali, a mãe educou de forma cristã o seu filho e quando grande entrou no exército romano. Não demorou para subir e, antes de cumprir os 30 anos, era tribuno e comes, sendo destinado à Nicomédia como guarda pessoa do imperador Diocleciano (284-305).
Em 303, o imperador começou a perseguição aos cristãos. Jorge confessou que ele também era cristão. Diocleciano ordenou que o torturassem e, ao não conseguir que renegasse da sua fé, o executaram. Depois de ser decapitado em frente das muralhas de Nicomédia em 23 de Abril de 303, o corpo de Jorge foi enviado para Lydda para ser enterrado.

 

 

SÃO JORGE: O “GRANDE MÁRTIR”

“Quem nasce homem novo em Cristo no batismo, não vista mais a roupa da mortalidade, mas deponha o homem velho e revista-se de novo estilo de conduta pura e santa. Só assim, purificados da imundície de nossa antiga condição pecadora e brilhando pelo fulgor de uma vida nova, poderemos celebrar dignamente o mistério pascal e imitar verdadeiramente o exemplo dos mártires”, esta é a mensagem do Doutor da Igreja São Pedro Damião sobre a figura de São Jorge, cuja a festa cai no tempo pascal.
São Pedro Damião (1007-1072)
Bispo e Doutor da Igreja

São Jorge é provavelmente o terceiro santo mais popular do catolicismo e do cristianismo ortodoxo, atrás da Virgem Maria e de seu conterrâneo e contemporâneo São Nicolau de Mira (o Papai Noel). São Jorge é padroeiro de Portugal, Inglaterra, Canadá, Alemanha, Grécia, Lituânia, Etiópia, Malta, Palestina e (essa é fácil) Geórgia. O Rio de Janeiro pode ter como padroeiro São Sebastião, mas o santo do coração é o guerreiro São Jorge – um pouco por causa da umbanda, que relaciona o santo ao orixá Ogum. E, claro, é padroeiro do Corinthians…

Nosso Santo guerreiro, nascido na Capadócia, morto pelo imperador Diocleciano, matador de dragão, ele sangrava leite, fazia imagens e exércitos pagãos explodirem, levantou um homem da tumba para batizá-lo, foi cortado em pedaços, carbonizado e ressuscitou. É, as lendas vão longe. Mas tudo o que você leu depois da palavra “santo” é incerto. Sabemos que São Jorge já era popular no século V, mais como lenda do que pela história: em 495, o papa Gelásio I afirmou que São Jorge “é desses santos cujo nome é justificadamente reverenciado entre os homens, mas cujas ações apenas Deus conhece”.

Primeiro, talvez ele não fosse mesmo da Capadócia, mas de Lod, na atual Israel. Lá fica sua tumba, que é reverenciada desde o século V. Segundo, talvez nem fosse guerreiro – existiu um Jorge da Capadócia bem documentado, mas esse foi o bispo de Alexandria (Egito) entre 356 e 361. Um bispo ariano que rejeitava a Santíssima Trindade e acabou linchado pela população, mas foi considerado mártir entre outros hereges.

No século IV, o livro História Eclesiástica, de Eusébio, bispo de Cesaréia fala dos massacres do imperador Diocleciano (244-311). De 303 até sua morte, o imperador fez a última perseguição aos cristãos, na qual mais de 3 mil foram executados. Entre seus decretos, estava a conversão forçada dos soldados de volta ao paganismo. Eusébio cita um homem “de altíssima honra” que rasgou a ordem e foi executado, em Nicomédia (atualmente Izmit, 100 km a oeste de Istambul). O autor não dá nome nem patente ao mártir, mas, tradicionalmente, essa é a versão mais “histórica” para São Jorge. Ele seria um comandante da cavalaria de Diocleciano.

Entre os povos eslavos, a figura de São Jorge é muito apreciada. Ainda hoje, é incontável o número de igrejas católicas e ortodoxas dedicadas ao Grande Mártir São Jorge em todas as partes do mundo.

É para meditar profundamente sobre fatos históricos e lendários desse grande santo mártir um pensamento para o mundo inteiro tão simples, no entanto, tão importante: “O bem, mesmo que demore, vence sempre o mal e a pessoa sábia nas escolhas fundamentais da vida não se deixa jamais enganar pelas aparências”.

Tanto o sofrimento como a vitória fazem parte da vida. Tanto para ricos como para pobres, ignorantes e sábios e em todo lugar e em todas as raças. Traição e amizade sincera vão estar juntos de nós até o fim de nossas vidas. De tudo isso, o principal é não perder a fé, a esperança e o amor. Rezar sempre é a nossa missão de felicidade. Rezar é a nossa poderosa arma contra as forças do inimigo.

São Jorge é de fato e de verdade o santo mártir guerreiro. Ele passa para nós de forma tão categórica um poder tremendo para vencermos os dragões terríveis que aparecem em nosso caminho.

Viva São Jorge, o Grande Mártir, o Santo Guerreiro e intercessor!

Pe. Inácio José do Vale
Sociólogo em Ciência da Religião, Professor de História da Igreja, Instituto Teológico Bento XVI

 

 

São Jorge, viveu o bom combate da fé

Conhecido como ‘o grande mártir’, foi martirizado no ano 303. A seu respeito contou-se muitas histórias. Fundamentos históricos temos poucos, mas o suficiente para podermos perceber que ele existiu, e que vale à pena pedir sua intercessão e imitá-lo.

Pertenceu a um grupo de militares do imperador romano Diocleciano, que perseguia os cristãos. Jorge então renunciou a tudo para viver apenas sob o comando de nosso Senhor, e viver o Santo Evangelho.

São Jorge não queria estar a serviço de um império perseguidor e opressor dos cristãos, que era contra o amor e a verdade. Foi perseguido, preso e ameaçado. Tudo isso com o objetivo de fazê-lo renunciar ao seu amor por Jesus Cristo. São Jorge, por fim, renunciou à própria vida e acabou sendo martirizado.

Uma história nos ajuda a compreender a sua imagem, onde normalmente o vemos sobre um cavalo branco, com uma lança, vencendo um dragão:

“Num lugar existia um dragão que oprimia um povo. Ora eram dados animais a esse dragão, e ora jovens. E a filha do rei foi sorteada. Nessa hora apareceu Jorge, cristão, que se compadeceu e foi enfrentar aquele dragão. Fez o sinal da cruz e ao combater o dragão, venceu-o com uma lança. Recebeu muitos bens como recompensa, o qual distribuiu aos pobres.”

Verdade ou não, o mais importante é o que esta história comunica: Jorge foi um homem que, em nome de Jesus Cristo, pelo poder da Cruz, viveu o bom combate da fé. Se compadeceu do povo porque foi um verdadeiro cristão. Isto é o essencial.

Ele viveu sob o senhorio de Cristo e testemunhou o amor a Deus e ao próximo. Que Ele interceda para que sejamos verdadeiros guerreiros do amor. São Jorge, rogai por nós!

Belíssima e muito ilustrativa imagem de São Jorge

Esta belíssima (e muito pouco conhecida!) imagem do Glorioso Mártir São Jorge é para mim inspiradora. Representa muito bem o que é a verdadeira masculinidade e a luta viril que todo homem católico deve travar contra as tentações, contra o mundo, contra o demônio e contra a carne.
Espelhemo-nos nos santos, meus caros. Desprezemos os paradigmas de falsa masculinidade desse mundo.
O verdadeiro homem, viril, másculo, é o homem de Deus, é aquele tem autodomínio, que sabe combater e vencer a fera que existe dentro de si por causa da ferida do pecado original, triunfando sobre seus instintos mais baixos e desregrados.
Glorioso São Jorge, Mártir de Nosso Senhor Jesus Cristo, modelo de homem católico, rogai por nós!

A Frivolidade: uma “doença do caráter”

Um homem precisa ter caráter se quiser ser homem realmente. E caráter é ter personalidade, é lutar pelo que acredita – por Deus, Autor da vida; pela sua vida própria, e por uma infinidade de coisas que cada um conhece.
Caráter envolve firmeza, é ser viril em suas decisões, é dominar-se a si mesmo – pois este é o domínio mais difícil de se conseguir, e portanto o mais honrado.
Só assim se pode ser homem – macho! – realmente. Homem que é Homem precisa ser Homem de caráter. Senão não é Homem. Simples assim!
O caráter deveria ser o sobrenome do Homem: um sinal constante de que ele é o que é, de que cumpre com a vocação à qual Deus lhe chamou no instante da concepção – a vocação de ser macho. Ele não só aparenta ser: ele é!
A doença da falta de caráter nos dias atuais é degradante. Uma vergonha para os homens de nossa geração. Dá-se desculpas para tudo: para não trabalhar, para não ter um compromisso sério, para sair com mil mulheres e não amar nenhuma delas, para não ir à Igreja – nunca! -, para tratar os outros com vileza e desonestidade. Todas desculpas de homens que não são homens realmente – porque não têm caráter.
Por causa destas desculpas que desviam do caminho São Josemaría Escrivá ensinava:
“Pretextos. – Nunca te faltarão para deixares de cumprir os teus deveres. que fartura de razões… sem razão! Não pares a considerá-las. – Repele-as e cumpre a tua obrigação” (Caminho, n.21).
“Desculpa própria do homem frívolo e egoísta: ‘Não gosto de comprometer-me com nada'” (Sulco, n. 539).
A frivolidade é uma enfermidade entre os homens modernos. Este não querer assumir compromissos, este desrespeitar os que já foram assumidos, este ser mundano, sem domínio sobre si mesmo… tudo isto é frivolidade. E não há coisa que torne os homens menos homens e mais bestas do que ela.
São Josemaría advertia contra essa “doença do caráter”:

“Não caias nessa doença do caráter que tem por sintomas a falta de firmeza para tudo, a leviandade no agir e no dizer, o estouvamento…, a frivolidade, numa palavra. Essa frivolidade, que – não o esqueças – torna os teus planos de cada dia tão vazios (‘tão cheios de vazio’), se não reages a tempo – não amanhã; agora! -, fará da tua vida um boneco de trapos morto e inútil” (Caminho, n.18).

“Assim, bobeando, com essa frivolidade interior e exterior, com essas vacilações em face da tentação, com esse querer sem querer, é impossível que avances na vida interior” (Sulco, n.154).

Um Homem não pode permanecer a “bobear”. A frivolidade não merece cultivo. O Homem, se quiser vencer esta enfermidade do caráter, precisa assumir-se como Homem, e em consequência assumir os compromissos para os quais é chamado: com Deus, com a Igreja, consigo mesmo, com sua santificação pessoal, com sua família, com seu trabalho e profissão, com seus estudos, etc.
Somente a vitória da frivolidade poderá abrir caminho à verdadeira virilidade.
“Enquanto não lutares contra a frivolidade, a tua cabeça será semelhante a uma loja de bricabraque: não conterá senão utopias, sonhos e… trastes velhos” (Sulco, n.535).
E nada de pretextos! Nada de justificar os defeitos dizendo: “Eu sou assim mesmo…”, para não lutar contra a frivolidade própria.
“Não digas: ‘Eu sou assim…, são coisas do meu caráter”. São coisas da tua falta de caráter. Sê homem – esto vir” (Caminho, n.4)
“Obstinas-te em ser mundano, frívolo e estouvado porque és covarde. Que é, senão covardia, esse não quereres enfrentar-te a ti próprio?” (Caminho, n.18).
Jesus nos disse que “não se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa (Mt 5,15).
Assim é São Jorge, uma luz colocada sobre o candeeiro para que brilhe a todos que estão na Casa de Deus, a Igreja, “ao vermos sua luz, suas boas obras, glorificamos ao Pai que esta nos céus”:
“Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5,16)
Ao lembrar São Jorge, fazendo sua memória, procuramos atentar para o exemplo de sofrimento e paciência de um Servo de Deus, tendo-o como modelo de cristão de oração e de vida.
Como outrora, Abraão era modelo de vida para os judeus, conforme vemos nas palavras do Senhor:
“Se sois filhos de Abraão, fazei as obras de Abraão. “(São João 8,39)
São Paulo nos disse:
“atentai para aqueles que andam conforme o exemplo que tendes em nós;” (Filipenses 3,17).
“Irmãos, tomai como exemplo de sofrimento e paciência os profetas que falaram em nome do Senhor. ”
(Tiago 5,10)
Do mesmo modo, como devotos de São Jorge, somos convidados pela Igreja para fazer as obras que esse Grande Santo fez em vida, “pois as obras dos Santos os seguem” (Apo 14,13).
São Jorge é modelo de coragem, pois “não temeu os que matam o corpo, mas aquele que antes pode precipitar a alma e o corpo no inferno” (Mt 10,28).
São Jorge não teve medo do Imperador Romano e “o que ouviu na escuridão das catacumbas cristãs, disse-o às claras, publicou-o em cima dos telhados” (Mt 10,27).
E por ter dado sua vida pela fé em Cristo, tornou-se exemplo para todos que se dizem cristãos, para que sejam corajosos em tudo renunciar por amor a Jesus, que nos disse:
“Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus.
33. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus.”
(Mt 10,32-33)
Do mesmo modo que Jesus proclamou que a pecadora arrependida seria lembrada pela Igreja, por seu testemunho de amor, São Jorge é lembrado:
“Em verdade eu vos digo: em toda parte onde for pregado este Evangelho pelo mundo inteiro, será contado em sua memória o que ela fez.” (Mt 26,13)
São Jorge não temeu defender os cristãos que estavam para ser mortos num plano traçado pelo Imperador de Roma e se tornou ” odiado de todos por causa do nome de Jesus, perseverando até o fim e, por isso, foi salvo” (Mc 13,13), sendo exemplo de coragem e solidariedade na luta contra o Dragão do mal:
“E sereis odiados de todos por causa de meu nome. Mas o que perseverar até o fim será salvo”

São Jorge é, como diz a Bíblia, um dos “sobreviventes da grande tribulação; lavou as suas vestes e as alvejou no sangue do Cordeiro. Por isso, está diante do trono de Deus e o serve, dia e noite, no seu templo. Aquele que está sentado no trono o abriga em sua tenda. Já não tem fome, nem sede, nem o sol ou calor algum o abrasa” (Apo 7,14-15)
São Jorge é um dos que “acompanham o Cordeiro por onde quer que vá; pois foi resgatado dentre os homens” (Apo 14,4).
Por isso, junto com os outros Santos no céu “prostra-se diante do Cordeiro, tendo taças de ouro cheias de perfume (que são as orações dos fieis)” (Apo 5,8), apresentando ao Senhor nossos pedidos, como o Anjo com o turíbulo de ouro nas mãos (Apo 8,4).
Apesar de aguardar a ressurreição do último dia, já ressuscitou pelo Batismo (Col 2,12), e é como os Anjos do céu (Mt 22,30), velando e intercedendo por nós, e por todo o mundo, para que se complete o número dos irmãos de serviço, que devem ser salvos:
“9. Quando abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos homens imolados por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários.
10. E clamavam em alta voz, dizendo: Até quando tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer justiça e sem vingar o nosso sangue contra os habitantes da terra?
11. Foi então dada a cada um deles uma veste branca, e foi-lhes dito que aguardassem ainda um pouco, até que se completasse o número dos companheiros de serviço e irmãos que estavam com eles para ser mortos.”
(Apo 6,9-11)
São Jorge, Mártir, é uma das “almas dos homens imolados por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários” (Apo 6,9).
E “desse modo, cercados como estamos de uma tal nuvem de testemunhas, (entre elas São Jorge) desvencilhemo-nos das cadeias do pecado. Corramos com perseverança ao combate proposto, com o olhar fixo no autor e consumador de nossa fé, Jesus” (Heb 12,1).
São Jorge ora por nós, como outrora, na Bíblia, os judeus viram a alma de Onias e Jeremias em oração por seu povo:
Onias (…) estava com as mãos estendidas, INTERCEDENDO por toda a comunidade dos judeus.
Apareceu a seguir um homem notável (…) Esse é aquele que MUITO ORA pelo povo e por toda cidade santa, é Jeremias, o Profeta de Deus.”
(2Mac 15,12-14)
São Jorge intercede por nós por meio do único Mediador da Salvação, Jesus,“Porque só há um MEDIADOR” entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” – (I Timóteo 2:5), mas ao orarmos pelo próximo, também somos mediadores secundários (Dt 5,5), pois oramos, como Corpo de Cristo que se une a sua Cabeça (Col 1,18), Jesus, que vive para interceder por nosso favor (Heb 7,25).
Por isso, há uma só Igreja, a do céu, a da terra e a dos que se Purificam aguardando o céu, todos somos um só corpo ( Hebreus 12,22-23).

Para que pedir a intercessão de SÃO JORGE se posso falar diretamente com Deus?
Deus quer ouvir nossa oração, apesar de já conhecer nossas necessidades. Deus quer dar-nos suas graças, mas é preciso que a peçamos. Deus quer que rezemos.
Jesus nos falou da importância da oração e da perseverança nela, de pedir insistentemente sem nunca cansar.
Ora, ao pedir a intercessão de São Jorge ou outro servo de Deus, pedimos que esses servos de Deus, quais anjos, não cessem de orar por nos “nem de dia nem de noite, mantendo desperta a memória do Senhor, até que tenha nos concedido sua graça” (Is 62, 6-7).
A São Jorge, como aos demais Santos, nos dirigimos, como outrora Deus ordenou aos amigos de Jó:
“Ide ao meu servo Jó e (…) ele orará por vós, por causa dele vos aceitarei” (Jo 42,8)
Como diz São Paulo, Deus nos livra de todo mal, mas a oração do próximo pode nos ajudar nessa intenção:
“Ele nos livrou e nos livrará de tamanhos perigos de morte. Sim, esperamos que ainda nos livrará
11. se nos ajudardes também vós com orações em nossa intenção. Assim esta graça, obtida por intervenção de muitas pessoas, lhes será ocasião de agradecer a Deus a nosso respeito.” (2Cor 1,10-11)
Se a oração do próximo pode nos ajudar, quanto mais a oração de um servo de Deus que está diante de seu trono dia e noite (Apo 7,15), uma alma justa, pois:
“O Senhor está longe dos maus, mas atende a oração dos justos” (Pr 15,29)
“…a oração do justo, sendo fervorosa, pode muito” (Tg 5,16
Dessa forma, pedir a ajuda dos Santos é algo bom, uma ajuda a mais, para que “a graça obtida pela intervenção deles seja ocasião para eles e para nos de agradecermos a Deus” por esse vínculo de amor fraternal entre os santos.
Como diz a Bíblia, podemos orar a Deus invocando o nome de seus Santos e seus méritos, como vemos no salmo:
“Pelo nome de Davi, vosso servo, não rejeiteis a face daquele que vos é consagrado” (Sl 131,10)
Lembra-te de Abraão, de Isaque, e de Israel, teus servos, aos quais por ti mesmo juraste… (Êx 32,13)
… teve misericórdia deles, e se compadeceu deles, e se tornou para eles, por amor do seu pacto com Abraão, Isaque e Jacó; e não os quis destruir nem lançá-los da sua presença
(2 Re 13,23)
Porque se lembrou da sua santa palavra, e de Abraão, seu servo.
(Salmos 105:42)
A São Jorge pedimos como São Paulo pediu aos Tessalonicenses e aos Filipenses:
“orai por nós (…) para que sejamos livres dos homens perversos e maus; porque nem todos possuem a fé” (Tes 3,1-2) e “para que alcancemos a salvação do Senhor” (Fil 1,19)

Histórias sobre Sinos

Por Mons. Inácio José Schuster
Vigário Geral da Diocese de Novo Hamburgo

Os sinos de nossas igrejas sempre despertam curiosidade de muitas pessoas, mesmo aquelas que não professam a nossa fé. Enquanto as torres das igrejas em geral se sobrelevam ao casario e às demais construções circundantes identificam a presença de um templo por sua mensagem visual, os sinos as complementam, com sua mensagem sonora.

Esses nossos mensageiros apareceram na mais remota antigüidade, na China, e foram usados nos mosteiros budistas, como também foram encontrados no antigo Egito. Suas formas e pesos variaram muito durante os séculos, mas são considerados instrumentos musicais aptos para alertar e convidar os fiéis para as celebrações comunitárias e mesmo para as orações diárias.

Eles são um sinal (daí a origem do nome em latim “signum” e são feitos de bronze – uma liga de 4 partes de cobre e uma de estanho, adicionando também uma dosagem de ouro ou de prata e outros componentes, para otimizar sua sonoridade, segundo fórmulas secretas guardadas sob sete chaves e passadas de geração a geração pelas famílias construtoras, em geral italianas ,alemãs e portuguesas.

Parece que os primeiros a utilizá-los foram os mosteiros beneditinos para convocar os monges às orações das horas, na Itália, nas Gálias e Inglaterra, ou mesmo um santo, São Paolino de Nola que anteriormente já os tinha usado em sua catedral, em meados do século quinto, ou seja, em 431. No século VIII, o Papa Estevão II fez construir uma torre na antiga Basílica de São Pedro, nela colocando três sinos.

No século IX apareceram em todas as catedrais e nas igrejas paroquiais. Os sinos como “res sacrae”, instrumentos diretamente ligados ao culto costumam ser “batizados”, como se diz, ou melhor, recebem uma benção própria, reservada ao Bispo. Costumam homenagear determinados santos cujos nomes são gravados em alto relevo em sua forma cônica.

Vejamos algumas inscrições existentes em velhos e venerados sinos, testemunhas da história, de acontecimentos felizes, de desgraças e calamidades de suas comunidades ou aldeias. Ouçamos em latim, na língua que convém aos sinos evidentemente:

“Vox mea, vox vitae, voco vos ad sacra, venite.” “A minha é a voz da vida que vos convida ao culto divino”, ou, outra mais completa: “Laudo Deum verum” – Louvo o Deus verdadeiro
“Plebem voco” – Convido o povo
“Congrego clerum” – Reúno o clero
“Defunctos ploro” – Choro os mortos
“Nimbum fugo” – Afugento os temporais
“Festa decoro” – Solenizo as festas

Há outra inscrição muito bela: “Funera plango” – Choro os funerais
“Fulmina franfo” – Elimino os raios
“Sabbata pango” – Alegro os feriados
“Excito lentos” – Acordo os preguiçosos
“Dissipo ventos” – Afasto os vendavais
“Paco cruentos” – Pacifico os violentos

Os sinos gozavam de grande prestígio em outras épocas, eram queridos do povo e exerciam até mesmo funções sociais importantíssimas para as suas comunidades.

De acordo com o seu toque, conhecido de antemão pelo povo, os sinos alertavam para os incêndios, a proximidade dos vendavais, ou então a morte e o sepultamento de pessoa da comunidade, (comum toque lento e espaçoso), ou mesmo, o nascimento de uma criança, diferenciando o dobre se essa fosse do sexo masculino ou feminino. Os sinos eram, portanto uma forma perfeita de comunicação em tempos passados e o relógio comunitário.

Durante o dia, às 6 horas, ao meio dia e às 18 horas, recordavam ao povo a hora da oração do “angelus”, ou das ave-marias. Ecoando pelos vales, pelas planícies e colinas traziam sempre mensagem de fé e de serenidade. Durante o tempo do advento e particularmente na quaresma os sinos emudeciam, e o povo sentia a sua falta.

No Natal, à Missa da meia-noite e na solene Vigília da Páscoa, porém, eles se libertavam do longo silêncio penitencial, atingiam o máximo de esplendor e de brilho com o bimbalhar festivo que inundava de alegria os corações de todos.

Hoje parece que os sinos não têm mais voz e vez. Nas grandes cidades as torres que são seu habitat natural vivem asfixiadas entre gigantescos arranha-céus e a sua voz suplantada pela parafernália dos motores e buzinas. Entretanto, eles continuam vivos no imaginário coletivo.

A maioria das pessoas não consegue identificar uma igreja sem a torre e sua presença ilustrativa é constante nos cartões de Páscoa e Natal. Os psicólogos infantis afirmam que as crianças costumam identificar os sinos com a própria igreja.

Em países onde a religião era tolerada ou perseguida, sempre que possível, talvez em sinal de protesto e de auto-afirmação, os campanários se elevavam aos céus e havia até uma sã rivalidade entre as comunidades para ver quem construísse a torre mais alta e mais artística de toda a região.

Em todo o Brasil – do Oiapoque ao Chuí – os sinos belos e históricos estão também presentes no seu cenário.  A tecnologia moderna subiu até as torres e aboliu todo esforço humano na arte de tocar sinos.

Os sinos hoje são eletrônicos e ainda mais, programados. Mesmo com as igrejas fechadas e sem presença humana, eles tocam como se mãos invisíveis de anjos os acionassem docemente, enquanto os homens modernos, sempre estressados, se agitam… Amemos os nossos sinos. Eles são os amigos que nos convidam a caminhar em nossa fé.

Mensageiros celestes que nos convocam à oração, nos alertam para o horário, nos comovem, nos alegram e nos enternecem. O Senhor Jesus afirmou: meus discípulos ouvem a minha voz. Não será também a Sua a voz dos sinos?

 

O TOQUE DOS SINOS

Hoje, com mais freqüência, ouvem-se os sinos de nossas igrejas. Eles lembram o sagrado em meio a uma cidade secularizada. Parece ter caído em desuso, em muitas paróquias, o toque dos sinos, que são utilizados para chamar os fiéis às sagradas funções, bem como para alertar os cristãos.

Que repiquem os sinos, pois eles nos falam de Deus a chamar seus filhos para a oração e o recolhimento. Outra função importante que pode e deve ser salientada é a humanização deste imenso aglomerado urbano, onde o toque dos sinos tem também outra finalidade, às vezes de interesse da administração civil. Sem haver um ato formal, tenho, em diversas oportunidades, falado sobre as vantagens desses instrumentos valiosos para recordar a importância do sagrado e o conforto que propiciam a quem se acha envolvido pela solidão das grandes cidades.

Os sinos continuam voltando às torres da casa de Deus e este som nos traz alegria e paz. Não se trata de um instrumento criado pela Igreja para evangelizar, embora ela o utilize também com esse objetivo. Na China, séculos antes do Nascimento de Cristo, ele já existia. O mesmo se diga dos monumentos pagãos no Egito e em Roma.

No Antigo Testamento, sinetas nas vestimentas sacerdotais são mencionadas em diversos livros da Bíblia. O Êxodo (28, 33-35), ao tratar dos ornamentos litúrgicos, inclui as campainhas de ouro. Elas deviam recordar a aliança entre Javé e o Povo eleito. À medida que, cessada a perseguição, os cristãos construíram as basílicas, surgiram grandes edifícios para o culto, dotados, a partir do século V, de campanários.

Na era cristã, a primeira referência ocorre em torno do ano 515, em carta de um diácono de Cartago. No século VIII, o Papa Estêvão II fez edificar, na basílica de São Pedro, anterior à atual, também um campanário. A utilização generalizada na Igreja, a serviço da Fé, vem do primeiro milênio de sua história.

O Código de Direito Canônico de 1917 (cân. 1169 § 1º) sintetizava bem sua posição no campo pastoral: “É conveniente que todas as igrejas tenham seus sinos, com os quais se convidam todos os fiéis para os diversos ofícios e demais atos religiosos”. A Liturgia se faz presente. A partir do século VII se tem notícias do denominado “batismo dos sinos”.

Em nossos dias, a expansão do secularismo diminuiu o seu emprego, principalmente nas grandes cidades. Dois fatores contribuíram para essa redução: a fraqueza dos clérigos em não resistir aos obstáculos postos às manifestações do sagrado, como a torre e o som dos sinos e o anúncio que eles nos transmitem sobre a existência da realidade divina, um convite à reflexão.

A linguagem do campanário é uma fala de Deus, recorda-nos sua presença, o valor da manifestação orante, em certas horas do dia, uma pausa benéfica em meio à efervescência da vida moderna; um apelo ao cumprimento do dever da Missa dominical. Quando somos assediados por uma quantidade de anúncios em favor de uma vida distanciada do Evangelho, a voz do sino se antepõe ao que nos separa de Deus.

Trata-se, portanto, de válido instrumento de evangelização, também em nossos dias. E não somente nas pequenas cidades, simples aglomerados humanos. Embora em outro nível, importante é sua ajuda para a humanização de nosso ambiente.

Quanto maior for a agitação de um grande centro urbano, mais necessária será essa contribuição, que nos ajuda a superar o cansaço, resultado de atividades absorventes. A sensação de paz e tranqüilidade que nos transmite, compensa o esforço em fazê-lo presente em nosso meio. O mundo moderno valoriza a importância dos sinais. E aí está um que indica uma realidade que nos enriquece. Fala do Bem, da Concórdia, da Fraternidade.

Recorda-nos a presença de Deus. Utiliza uma linguagem que vence distâncias e é ouvida por multidões. Evidentemente, o respeito ao direito de não ser alguém incomodado em suas convicções esbarra na liberdade da manifestação legítima do culto. A observância da legislação sobre o silêncio e o respeito às práticas religiosas do próximo têm, no diálogo, um válido recurso para uma pacífica convivência.

O Concílio Ecumênico Vaticano II determinou a revisão das celebrações de bênçãos. Em conseqüência, a então Congregação para o Culto Divino, por mandato especial do Romano Pontífice, publicou, com data de 31 de maio de 1984, o Ritual de Bênçãos e nele se inclui a do sino.

No texto há passagens bem elucidativas: “Os sinos estão, de certo modo, ligados à vida do Povo de Deus. Seu som marca os tempos da oração, reúne o povo para realizar ações litúrgicas, avisa os fiéis sobre acontecimentos mais sérios que podem significar aflição ou alegria”.

O texto do Evangelho lido nessa oportunidade (Mc 16, 14-16.20), se refere à evangelização: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura”. O Cerimonial dos Bispos, publicado por ordem do Sumo Pontífice o Papa São João Paulo II com data de 14 de setembro de 1984, estabelece: “Na Igreja latina tem prevalecido o costume, que é bom conservar, de benzer os sinos antes de se colocarem no campanário” (nº 1.023).

O canto dos anjos que anunciou o Nascimento de Cristo e, com ele, uma nova humanidade, repete no som de nossos sinos, no Novo Ano de 2015, a alvissareira notícia: veio ao mundo nosso Redentor.

 

O sino: simbolismo e efeitos benéficos. A oração do Ângelus

A oração do Ângelus compõe-se de duas partes essenciais: a oração e o som do sino.

O sino dá ao Ângelus uma solenidade excepcional.

Por que o sino toca o Ângelus de manhã, ao meio-dia e à tarde?

Por ordem da Igreja Católica, cumpre a palavra do rei profeta: “À tarde, de manhã e ao meio-dia, cantarei os louvores de Deus, e Deus ouvirá a minha voz”.

À tarde, canta o princípio da Paixão do Redentor no Jardim das Oliveiras.

De manhã, a sua Ressurreição, e ao meio-dia a sua Ascensão.

De manhã, dá o sinal do despertar, da oração e do trabalho.

Ao meio-dia, adverte o homem de que a metade do dia é passada, e que a sua vida não é mais que um dia.

À tarde, toca ao recolhimento e ao repouso.

Diz ao homem: faze tuas contas com Deus, pois esta noite talvez Ele exigirá a tua alma.

Fazendo ouvir a sua voz três vezes por dia, recorda aos cristãos as lembranças de um glorioso passado, essas belicosas expedições, a honra eterna dos Papas, que salvaram o Ocidente da barbárie muçulmana.

Toca três vezes, para recordar as três Pessoas da Trindade, às quais o mundo é devedor da Encarnação.

Toca nove vezes, em honra dos nove coros de anjos, para convidar os habitantes da Terra a abençoar com eles o seu comum benfeitor.

Entre cada tinido – ou melhor, entre cada suspiro – deixa um intervalo, para que sua voz desça mais suavemente ao coração e desperte com mais segurança o espírito de oração.

Por que, depois do tinido do Ângelus, o sino faz ribombar sua voz? Canta uma dupla redenção: a redenção dos vivos, pelo mistério da Redenção, e a redenção dos finados, pela indulgência ligada ao Ângelus.

Ao Purgatório toca uma felicidade, e a Maria a saudação de uma alma que entra no céu. Assim opera a Igreja da terra, cheia de ternura por sua irmã padecente.

Por que chora o sino na agonia? Se reflete as alegrias deve refletir também as dores.

Para sustentar o jovem cristão nos combates da vida, o sino pede as nossas orações.

Como não solicitá-las nas lutas da morte? Entre todas, estas lutas não são as mais terríveis e as mais decisivas.

No toque da agonia, o sino diz: “Miseremini mei saltem vos amici” – Tende piedade de mim, pelo menos vós que fostes meus amigos!

Vinde orar por mim, vinde sepultar o meu corpo, vinde acompanhá-lo à igreja, depois ao dormitório, onde ele deve repousar até a ressurreição dos mortos.

O sino, nesse momento, assemelha-se a uma mãe que, na sua terna solicitude, não se permite nem paz nem trégua, para clamar em socorro de seus filhos desgraçados e obter a sua libertação.

Também o sino deve tornar o cristão invencível na sua guerra contra os demônios.

Ao estridor dos sinos – acrescenta um de nossos antigos liturgistas – os espíritos das trevas são penetrados de terror, da mesma forma que um tirano se espanta quando ouve ressoar nas suas terras as trombetas guerreiras de um monarca seu inimigo.

Toque de recolher: no inverno, nos países montanhosos, pelas nove horas da noite, o sino faz ouvir a sua voz mais forte.

Chama o viajante desencaminhado, e indica-lhe a estrada que deve seguir para chegar ao lugar onde achará a hospitalidade.

Uma imagem do que também acontece com as almas perdidas no pecado.

Eram inteiramente outros os sentimentos de nossos religiosos antepassados.

Testemunhas inteligentes das bênçãos e das consagrações praticadas pela Igreja no batismo dos sinos, devotavam-lhe um profundo respeito e santo pavor.

Daí vem que temiam infinitamente mais jurar sobre um sino consagrado do que sobre os próprios Evangelhos.

Fonte: Mons. Gaume, “L’Angelus au dix-neuvième siècle”

4º Domingo da Páscoa – Ano B

Evangelho segundo São João 10, 11-18
Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, e o que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo e abandona as ovelhas e foge e o lobo arrebata-as e espanta-as, porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas. Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me, assim como o Pai me conhece e Eu conheço o Pai; e ofereço a minha vida pelas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também estas Eu preciso de as trazer e hão-de ouvir a minha voz; e haverá um só rebanho e um só pastor. É por isto que meu Pai me tem amor: por Eu oferecer a minha vida, para a retomar depois. Ninguém ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente. Tenho poder de a oferecer e poder de a retomar. Tal é o encargo que recebi de meu Pai.»

 

Por Pe. Fernando José Cardoso

É tradicional Jesus se apresentar a sua Igreja no quarto domingo da Páscoa como sendo o Bom Pastor. Na verdade não foi Ele quem buscou este titulo pela primeira vez na história da civilização. Antes Dele muitos governantes do oriente médio antigo se arrogaram este título, se intitulavam pastores e reis ou soberanos e tiranos do Egito da Mesopotâmia e de outros reinos afins ao reino de Judá e de Israel. Ainda hoje na modernidade, embora esta figura o pastor não seja mais usada, como o foi nos tempos de Jesus, nós conhecemos aqueles e aquelas que se apresentam a nós como os salvadores da pátria: são os nossos governantes. Todos eles nos trazem programas maravilhosos, todos eles criticam os antecessores, todos eles prometem uma idade de ouro para a próxima eleição ou logo a seguir. Atenção, o verdadeiro pastor é aquele que não é mercenário, nem proprietário das ovelhas, as ama de maneira desinteressada, aquele que é verdadeiro pastor mora com as ovelhas. Aquele que é verdadeiro pastor deixa-se impregnar pelo cheiro das ovelhas, aquele que é bom pastor, não foge no momento dos perigos. O mercenário sejam eles do passado, sejam eles do presente choram quando lhes faltam uma ovelha porque lhes falta algum dinheiro que poderiam ganhar. Estes “pastores” não são capazes de derramar uma lágrima sequer por causa de um sofrimento qualquer de uma ovelha. A história nos faz caminhar de ilusão em desilusão. Quantas vezes pusemos as nossas esperanças em alguém, em pessoas que prometiam tudo e sequer passou pela nossa cabeça que eram homens mortais como nós e algumas vezes interesseiros ou incapazes ou incompetentes. Jesus é o único Pastor que não nos abandona, é o único Pastor que desce até o abismo mais profundo, mais mal cheiroso onde se encontre cada um de nós. Jesus não se envergonha dos nossos pecados, dos meus e dos seus, por piores que eles possam ser. Jesus está sempre pronto a carregar-nos nos seus braços e a pagar o preço que nós lhe custamos, sua paixão, morte e ressurreição que celebramos na semana santa e de que fazemos menção em cada Eucaristia. Hoje a Igreja olha também por aqueles e aquelas que prolongam na história, o Pastoreio de Jesus que são os seus padres, são os seus sacerdotes. Estes também devem aprender com Jesus a serem desinteressados, a conviverem com as ovelhas dia e noite, a curarem as mais fracas, a alimentarem as que têm fome, a dar segurança àquelas que estão por se perderem. Estes também devem aprender com Jesus a suportar todo o cansaço, estes também devem aprender com Jesus a não deixar de se tornarem próximos, eles devem permitir que as ovelhas transmitam a eles todo o seu cheiro. Toda a vida sacerdotal é relativa e só se compreende a favor das ovelhas de Jesus Cristo. Os outros, aqueles que buscam outros interesses ou querem se enriquecer, estes são os lobos, estes são os mercenários e destes o povo de Deus deve fugir como o diabo da cruz.

 

IV Domingo de Páscoa – B
Atos 4, 8-12; I João 3, 1-2; João 10, 11-18
Eu sou o Bom Pastor
Chama-se o IV domingo do tempo pascal de «domingo do Bom Pastor». Para compreender a importância que tem na Bíblia o tema do pastor, há que se remontar à história. Os beduínos do deserto dão-nos hoje uma idéia da que foi, em um tempo passado, a vida das tribos de Israel. Nesta sociedade, a relação entre pastor e rebanho não é só de tipo econômico, baseada no interesse. Desenvolve-se uma relação quase pessoal entre o pastor e o rebanho. Passam dias e dias juntos em lugares solitários, sem ninguém mais ao redor. O pastor acaba conhecendo tudo de cada ovelha; a ovelha reconhece e distingue entre todas as vozes a voz do pastor, que freqüentemente fala com as ovelhas. Isto explica por que Deus serviu-se deste símbolo para expressar sua relação com a humanidade. Um dos salmos mais belos do saltério descreve a segurança do crente em ter Deus como pastor: «O Senhor é meu pastor, nada me faltará…». Posteriormente, dá-se o título de pastor, por extensão, também aos que fazem as vezes de Deus na terra: os reis, os sacerdotes, os chefes em geral. Mas, neste caso, o símbolo divide-se: já não evoca somente imagens de proteção, de segurança, mas também as de exploração e opressão. Junto à imagem do bom pastor faz sua aparição a do mau pastor, a do mercenário. No profeta Ezequiel encontramos uma terrível acusação contra os maus pastores, que apascentam só a si mesmos, e em seguida a promessa de Deus de ocupar-se Ele mesmo de seu rebanho (Ez 34, 1ss). Jesus no Evangelho retoma este esquema do bom e mau pastor, mas com uma novidade: «Eu –diz– sou o Bom Pastor!». A promessa de Deus fez-se realidade, superando qualquer expectativa. Cristo faz o que nenhum pastor, por bom que seja, estará disposto a fazer: «Eu dou minha vida pelas ovelhas». O homem de hoje rejeita com desdém o papel de ovelha e a idéia de rebanho, mas não nota que está completamente dentro. Um dos fenômenos mais evidentes de nossa sociedade é a massificação. Deixamo-nos guiar de maneira indiferente por todo tipo de manipulação e de persuasão oculta. Outros criam modelos de bem-estar e de comportamento, ideais e objetivos de progresso, e nós os seguimos; vamos detrás, temerosos de perder o passo, condicionados e seqüestrados pela publicidade. Comemos o que nos dizem, vestimos como nos ensinam, falamos como ouvimos falar, por slogan. O critério pelo que a maioria se deixa guiar nas próprias opções é o «Così fan tutti» («Todos são assim». Ndr) de mozartiana memória. Olhai como se desenvolve a vida da multidão em uma grande cidade moderna: é a triste imagem de um rebanho que sai junto, agita-se e se amontoa em hora fixa nos vagões do trem e do metrô, e depois, pela tarde, regressa, junto ao redil, vazio de si e de liberdade. Sorrimos divertidos quando vemos uma filmagem em câmera rápida com as pessoas que se movem aos saltos, velozmente, como marionetes, mas é a imagem que teríamos de nós mesmos se nos olhássemos com olhos menos superficiais. O Bom Pastor que é Cristo propõe-nos fazer com Ele uma experiência de libertação. Pertencer a seu rebanho não é cair na massificação, mas ser preservados dela. «Onde está o Espírito do Senhor, ali está a liberdade» (2 Coríntios 3, 17), diz São Paulo. Ali surge a pessoa com sua irrepetível riqueza e com seu verdadeiro destino. Surge o filho de Deus ainda escondido, do que fala a segunda carta deste domingo: «Queridos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que seremos».

 

«O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas»
Santo António de Lisboa (c. 1195-1231), franciscano, Doutor da Igreja
Sermões para os domingos e as festas dos santos (trad. Bayart, Eds. franciscanas 1944, p. 140)
«Eu sou o bom pastor». Cristo pode dizer com propriedade «Eu sou». Para Ele nada pertence ao passado nem ao futuro: tudo Nele é presente. É o que Ele diz de Si mesmo no Apocalipse: «Eu sou o Alfa e o Ômega, Aquele que é, que era e que há-de vir, o Todo-Poderoso» (Ap 1, 8). E no Êxodo: «Eu sou Aquele que sou. Assim dirás aos filhos de Israel: «’Eu sou’ enviou-me a vós»» (Ex 3, 14). «Eu sou o bom pastor». A palavra «pastor» vem do termo «pastar». Cristo serve-nos o repasto da Sua carne e do Seu sangue, em cada dia, no sacramento do altar. Jessé, pai de David, disse a Samuel: «Resta ainda o [filho] mais novo, que anda a apascentar as ovelhas» (1Sam 16, 11). Também o nosso David, pequeno e humilde como um bom pastor, apascenta as suas ovelhas. […] Lemos ainda em Isaías: «É como um pastor que apascenta o rebanho […], leva os cordeiros ao colo e faz repousar as ovelhas que têm crias» (Is 40, 11). […] Com efeito, ao conduzir o seu rebanho à pastagem, ou ao regressar de lá, o bom pastor reúne todos os cordeirinhos que ainda não conseguem andar; toma-os nos braços e leva-os junto ao peito; leva também as ovelhas que vão dar à luz e as que acabaram de ter os filhos. Assim faz Jesus Cristo: dia após dia alimenta-nos com os ensinamentos do Evangelho e os sacramentos da Igreja. Reúne-nos nos Seus braços, estendidos sobre a cruz, «para congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos» (Jo 11, 52). Aconchega-nos no seio da Sua misericórdia, como uma mãe aconchega o seu filho.

 

Homilia de D. Henrique Soares da Costa – IV Domingo de Páscoa – Ano B
At 4,8-12 / Sl 117 / 1Jo 3,1-2 / Jo 10,11-18

Este Quarto Domingo da Páscoa é conhecido como Domingo do Bom Pastor, pois nele se lê sempre um trecho do capítulo 10 de São João, onde Jesus se revela como o Bom Pastor. Mas, o que isso tem a ver com o tempo litúrgico que ora estamos vivendo? A resposta, curta e graciosa, encontra-se na antífona de comunhão que o Missal Romano traz: “Ressuscitou o Bom Pastor, que deu a vida pelas ovelhas e quis morrer pelo rebanho!” Aqui está tudo!
“Eu sou o bom pastor” – disse Jesus. O adjetivo grego usado para “bom” significa mais que bom: é belo, perfeito, pleno, bom. Jesus é, portanto, o pastor por excelência, aquele pastor que o próprio Deus sempre foi. Pela boca de Ezequiel profeta, Deus tinha prometido que ele próprio apascentaria o seu rebanho: “Eu mesmo cuidarei do meu rebanho e o procurarei. Eu mesmo apascentarei o meu rebanho, eu mesmo lhe darei repouso” (34, 11.15). Pois bem: Jesus apresenta-se como o próprio Deus pastor do seu povo!
Mas, por que ele é o Belo, o Perfeito, o Pleno Pastor? Escutemo-lo, caríssimos: O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. É por isso que o Pai me ama: porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. Ninguém tira a minha vida; eu a dou por mim mesmo! Tenho o poder de entregá-la e o poder de retomá-la novamente; esse é o preceito que recebi do meu Pai”. Amados irmãos, são palavras de intensidade inexaurível, essas! Jesus é o pastor perfeito porque é capaz de dar a vida pelas ovelhas: ele as conhece, ou seja, é íntimo delas, as ama, e está disposto a dar-se totalmente pelo rebanho, por nós! E, mesmo na dor, faz isso livremente, em obediência amorosa à vontade do Pai por nós! Por amor, morre pelo rebanho; por amor ressuscita para nos ressuscitar! Nós jamais poderemos compreender totalmente este mistério! Jesus diz que conhece suas ovelhas como o Pai o conhece e ele conhece o Pai! É impossível penetrar em tão grande mistério! Conhecer, na Bíblia, quer dizer, ter uma intimidade profunda, uma total comunhão de vida. A comunhão de vida entre o Pai e o Filho é total, é plena. Pois bem, Jesus diz que essa mesma comunhão ele tem com suas ovelhas. E é verdade! No batismo, deu-nos o seu Espírito Santo, que é sua própria vida de ressurreição; na eucaristia, dá-se totalmente a nós, morto e ressuscitado, pleno desse mesmo Espírito, como vida da nossa vida! De tal modo é a união, de tal grandeza é a comunhão, de tal profundidade é a intimidade, que ele está em nós e nós estamos mergulhados, enxertados e incorporados nele! De tal modo, que somos uma só coisa com ele, seja na vida seja na morte! De tal sorte ele nos deu o seu Espírito de Filho, que São João afirma na segunda leitura de hoje: “Somos chamados filhos de Deus. E nós o somos!” Compreendamos, irmãos: somos filhos de verdade, não só figurativamente! Somos filhos porque temos em nós a mesma vida, o mesmo Espírito Santo que agora plenifica o Filho ressuscitado! E São João continua, provocante: “Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai!” Ou seja: se, para o mundo, nós somos apenas uns tolos, uns nada, se o mundo não consegue compreender essa maravilhosa realidade – que somos filhos de Deus – é porque também não experimentou, não conheceu que Deus é o Pai de Jesus, o Filho eterno, o Bom Pastor, que nos faz filhos como ele é o Filho único, agora tornado primogênito de muitos irmãos! Mas, a Palavra de Deus nos consola e anima: “Quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é!” Este é o destino da humanidade, este é o nosso destino: ser como Jesus ressuscitado, trazer sua imagem bendita, participar eternamente da sua glória! Para isso Deus nos criou desde o princípio! Não chegar a ser como Jesus ressuscitado, não ressuscitar com ele – nesta vida já pelos sacramentos, e na outra, na plenitude da glória – é frustrar-se. E isso vale para todo ser humano, pois “em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos!” Por isso mesmo, Jesus afirma hoje, pensando nos não-cristãos: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil. Também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor!”
Caríssimos, voltemos o nosso olhar para Aquele que foi entregue por nós e por nós ressuscitou. Olhemos seu lado aberto, suas mãos chagadas. Quanto nos ama, quanto se deu a nós! Agora, escutemo-lo dizer: “”Eu sou o bom pastor! Eu conheço as minhas ovelhas! Eu dou a minha vida pelas ovelhas!” Num mundo de tantas vozes, sigamos a voz de Jesus! Num mundo de tantas pastagens venenosas, deixemos que o Senhor nos conduza às pastagens verdadeiras, que nos dão vida plena e sacia nosso coração! Num mundo que nos tenta seduzir com tantos amores, amemos de todo coração Aquele que nos amou e por nós se entregou ao Pai!
Hoje é também jornada mundial de oração pelas vocações sacerdotais e religiosas. Peçamos ao Senhor, Bom Pastor, que dê à Igreja e ao mundo pastores segundo o seu coração, pastores que, nele e com ele, estejam dispostos a fazer da vida uma total entrega pelo rebanho; pastores que tenham sempre presente qual a única e imprescindível condição para pastorear o rebanho do Bom Pastor: “Simão, tu me amas? Apascenta as minhas ovelhas!” (Jo 21, 15s). Eis a condição: amar o Pastor! Quem não é apaixonado por Jesus não pode ser pastor do seu rebanho! Não se trata de competência, de eficiência, de vedetismo ou brilhantismo; trata-se de amor! Se tu amas, então apascenta! Como dizia Santo Agostinho, “apascentar é ofício de quem ama”.
Que o Senhor nos dê os pastores que sejam viva imagem dele; que Cristo nos faça verdadeiras ovelhas do seu rebanho. Amém.

 

Homilia do Pe. Françoá Costa – IV Domingo da Páscoa – Ano B
“Um só rebanho e um só pastor”

Há pouco celebrávamos o aniversário natalício do nosso amadíssimo Papa emérito Bento XVI: 91 anos! Hoje, no Evangelho, Jesus fala de si mesmo, que é o bom pastor. Dá vontade de agradecê-lo por que não nos deixa sozinhos um só instante. Contudo, essa presença invisível do Bom Pastor na sua Igreja torna-se visível pelo seu vigário: o Papa. Ele é verdadeiramente o vigário de Jesus Cristo, isto é, faz-lhe as vezes. É o sucessor de Pedro! É Pedro dos nossos dias!
Jesus Cristo fundou um rebanho e colocou Pedro à frente desse rebanho para que, junto com os demais apóstolos, o pastoreasse. Pedro e os demais apóstolos morreram, mas a obra de Jesus, que é a Igreja, deveria continuar. Lógico é que o Senhor fizesse perpetuar o serviço do pastoreio de sua Esposa, a Igreja. Os mesmos apóstolos colocaram pessoas à frente das diversas comunidades para pastoreá-las. Tratava-se, afinal, da obra de Jesus que já não podia mais parar!
Recordemos uma das verdades que professamos frequentemente: a Igreja de Cristo é una: por sua Fonte, a Trindade Beatíssima, um só Deus em três Pessoas; por seu Fundador, Jesus Cristo; por sua Alma, o Espírito Santo (cf. Cat. 813). Alguém poderia perguntar: se a Igreja é una com uma indivisibilidade tão fundada, como explicar a diversidade que há nela? A resposta pode dar-se na mesma linha do que antes foi dito: Deus é um, mas também é trino; a Igreja é una, mas também guarda em si a diversidade. Esta variedade de povos, culturas, espiritualidade, ritos, não impedem a unidade da Igreja. Ela desprende todo o vigor de sua unidade em meio de tão rica variedade.
Em concreto, para verificar o grau de unidade que alguém tem com a Igreja de Cristo é importante fixar-se nos vínculos de unidade. Logicamente, o vínculo dito “invisível” não é verificável, pois se trata da graça de Deus, que faz com que haja “a caridade, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3, 14). Além do vínculo invisível, existem os vínculos visíveis, que sim são verificáveis: a profissão de uma única fé recebida dos apóstolos, a celebração dos Sacramentos, a sucessão apostólica (através do Sacramento da Ordem, que mantém a concórdia na Família de Deus que é a Igreja). Classicamente, isso tem sido expressado assim: comunhão na Fé, nos Sacramentos e no Regime (cf. Cat. 815).
Em sentido estrito, para que alguém esteja em plena comunhão com a Igreja são necessários todos os vínculos, sem excluir a graça de Deus. Não será difícil concluir que nós, os que estamos em plena comunhão com a Igreja Católica mediante os vínculos externos ou visíveis, podemos não estar em plena comunhão se consideramos o estado de graça. É doutrina católica que não é possível saber com certeza de fé se estamos ou não na graça de Deus. Consequência: nunca presumir! É verdade que sempre podemos, supostos os meios sobrenaturais adequados, confiar que estamos em graça; no entanto, sempre com o santo temor de Deus e a consciência de que quem nos salva é o Senhor. É paradoxal, mas verdadeiro: somos a comunidade dos salvados em busca da salvação!
Talvez alguém se assustaria com a afirmação tão clara que os filhos da Igreja ousam dizer nos tempos atuais: a Igreja de Cristo é a Igreja Católica. Contudo, isso é verdade: a Igreja que Jesus Cristo quis e fundou é a Igreja Católica, a única Igreja de Cristo, entregue a Pedro e aos demais Apóstolos. “Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na (“subsistit in”) Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele” (LG 8).
O que fazer então com o ecumenismo? Será o que antes se afirmou não desmorona essa tentativa de unidade? Não. O ecumenismo não pode ser confundido com o “falso irenismo”, com meias verdades, com maneiras suaves fundadas na ignorância. Com o movimento ecumênico, a Igreja tem procurado fazer realidade o desejo de Cristo de que todos sejam um (Cf. Jo 17, 21), e fá-lo na verdade e na caridade. Apesar de ser um trabalho difícil, o ecumenismo precisa ir adiante. O primeiro gesto ecumênico a ser feito, porém, é o da oração; precisamos rezar muitas vezes a oração que Cristo rezou: “que todos sejam um”. No Concilio Vaticano II, “por «movimento ecumênico» entendem-se as atividades e iniciativas, que são suscitadas e ordenadas, segundo as várias necessidades da Igreja e oportunidades dos tempos, no sentido de favorecer a unidade dos cristãos. Tais são: primeiro, todos os esforços para eliminar palavras, juízos e ações que, segundo a equidade e a verdade, não correspondem à condição dos irmãos separados e, por isso, tornam mais difíceis as relações com eles; depois, o «diálogo» estabelecido entre peritos competentes, em reuniões de cristãos das diversas Igrejas em Comunidades, organizadas em espírito religioso, em que cada qual explica mais profundamente a doutrina da sua Comunhão e apresenta com clareza as suas características. Com este diálogo, todos adquirem um conhecimento mais verdadeiro e um apreço mais justo da doutrina e da vida de cada Comunhão. Então estas Comunhões conseguem também uma mais ampla colaboração em certas obrigações que a consciência cristã exige em vista do bem comum. E onde for possível, reúnem-se em oração unânime. Enfim, todos examinam a sua fidelidade à vontade de Cristo acerca da Igreja e, na medida da necessidade, levam vigorosamente por diante o trabalho de renovação e de reforma” (UR 4).
Uma observação que vale a pena fazer: a conversão das pessoas a uma determinada Igreja ou Comunidade Eclesial não vai em contra do ecumenismo. Caso um irmão de uma confissão evangélica queira alcançar a plena comunhão com a Igreja Católica será sempre bem recebido e nós, os católicos, devemos alegrar-nos imensamente de que essa pessoa alcance a plenitude dos meios para a sua salvação.
Para que fique mais claro: uma pessoa chega a pertencer a Igreja de Cristo pelo batismo. Qualquer batizado pertence à Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica. Isso quer dizer, a efeitos práticos, que um cristão de uma comunidade eclesial evangélica pertence à Igreja de Cristo, mas não pertence a ela totalmente; de fato, quanto esse cristão vem à Igreja Católica fala-se que ele alcançou a plena comunhão com a Igreja. Com outras palavras, antes de ser católico ele pertencia à Igreja de Cristo, mas só parcialmente; depois de vir à Igreja Católica ele alcançou a comunhão plena com essa Igreja.
Devemos pedir ao Senhor insistentemente: que todos sejam um! Assim haverá, inclusive numericamente, um só rebanho e um pastor!

Qual é o sentido da ressurreição de Jesus para um cristão?

A ressurreição de Cristo não se reduz à revitalização de um indivíduo qualquer. Com ela foi inaugurada uma dimensão que interessa a todos seres humanos
http://pt.aleteia.org/2015/04/05/qual-e-o-sentido-da-ressurreicao-de-jesus-para-um-cristao/

Acreditar na ressurreição de Jesus, para o cristão, é uma condição de existência: é-se cristão porque se acredita que Jesus está vivo, triunfou da morte, ressuscitou, e é, para todos os humanos, o único mediador entre Deus e os homens. Dessa mediação participam a seu modo tudo aquilo (o universo e tudo aquilo que contém) e todos aqueles (dos mais sábios aos mais humildes) que, pela vida e pela palavra, proclamam o poder e a misericórdia de Deus que sustenta todo o universo e chama todos a participar de sua vida.
A fé na ressurreição de Jesus Cristo é o fundamento da mensagem cristã. A fé cristã estaria morta se lhe fosse retirada a verdade da ressurreição de Cristo. A ressurreição de Jesus são as primícias de um mundo novo, de uma nova situação do homem. Ela cria para os homens uma nova dimensão de ser, um novo âmbito da vida: o estar com Deus. Também significa que Deus manifestou-se verdadeiramente e que Cristo é o critério no qual o homem pode confiar.
A fé na ressurreição de Jesus é algo tão essencial para o cristão que São Paulo chegou a escrever: “Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia, e vazia também a vossa fé” (1Cor 15, 14).
A ressurreição de Cristo não é apenas o milagre de um cadáver reanimado. Não se trata do mesmo evento que ocorreu com outros personagens bíblicos como a filha de Jairo (cf. Mc 5, 22-24) ou Lázaro (cf. Jo 11, 1-44), que foram trazidos de volta à vida por Jesus, mas que, mais tarde, num certo momento, morreriam fisicamente.
A ressurreição de Jesus “foi a evasão para um gênero de vida totalmente novo, para uma vida já não sujeita à lei do morrer e do transformar-se, mas situada para além disso: uma vida que inaugurou uma nova dimensão de ser homem”, explica o Papa Bento XVI no segundo volume do seu livro “Jesus de Nazaré”.
Jesus ressuscitado não voltou à vida normal que tinha neste mundo. Isso foi o que aconteceu com Lázaro e outros mortos ressuscitados por Ele. Jesus “partiu para uma vida diversa, nova: partiu para a vastidão de Deus, e é a partir dela que Ele se manifesta aos seus”, prossegue o Papa.
A ressurreição de Cristo é um acontecimento dentro da história que, ao mesmo tempo, rompe o âmbito da história e a ultrapassa. Bento XVI a explica com uma analogia. “Se nos é permitido por uma vez usar a linguagem da teoria da evolução”, a ressurreição de Jesus é “a maior ‘mutação’, em absoluto o salto mais decisivo para uma dimensão totalmente nova, como nunca se tinha verificado na longa história da vida e dos seus avanços: um salto para uma ordem completamente nova, que tem a ver conosco e diz respeito a toda a história” (homilia da Vigília Pascal de 2006).
Portanto, a ressurreição de Cristo não se reduz à revitalização de um indivíduo qualquer. Com ela foi inaugurada uma dimensão que interessa a todos seres humanos, uma dimensão que criou para os homens “um novo âmbito da vida, o estar com Deus”, explica o Papa no livro “Jesus de Nazaré”.
As narrativas evangélicas, na diversidade de suas formas e conteúdos, convergem todas para a convicção a que chegaram os primeiros seguidores de Jesus, de que sua ação salvadora, tal como se havia pressentido nas Escrituras, não se frustrara nem se havia encerrado com sua morte. Pelo contrário, cumpria a promessa de Deus feita desde as origens da humanidade e, portanto, o fato de Jesus estar vivo e atuante na história tinha sua base em Deus, vinha confirmar a esperança que depositamos em Deus de que a verdade e o bem, a justiça e a paz hão de triunfar, terão a última palavra, porque Deus é fiel.
O mistério da ressurreição de Cristo é um acontecimento que teve manifestações historicamente constatadas, como atesta o Novo Testamento. Ao mesmo tempo, é um evento misteriosamente transcendente, enquanto entrada da humanidade de Cristo na glória de Deus (cf. CIC, 639 e 656).
Dois sinais da ressurreição são reconhecidos como essenciais pela fé da Igreja Católica. O primeiro é o testemunho das pessoas que encontraram Cristo ressuscitado. Essas testemunhas da ressurreição de Cristo são, antes de tudo, Pedro e os Doze apóstolos, mas não somente eles. São Paulo fala claramente de mais de quinhentas pessoas às quais Jesus apareceu de uma só vez, além de Tiago e de todos os apóstolos (cf. CIC, 642; 1Cor 15, 4-8).
O segundo sinal é o túmulo vazio. Significa que a ausência do corpo de Jesus não poderia ser obra humana. O sepulcro vazio e os panos de linho no chão significam por si mesmos que o corpo de Cristo escapou das correntes da morte e da corrupção, pelo poder de Deus (CIC, 656).
O teólogo Francisco Catão, doutor em Teologia pela Universidade de Estrasburgo e professor do Centro Universitário Salesiano de São Paulo, explica que os sinais do sepulcro vazio e das aparições de Jesus ressuscitado foram válidos para os apóstolos e primeiros seguidores de Jesus.
“Não há porque, racionalmente, duvidar. Seria levantar a suspeita de inautenticidade histórica de todo o Novo Testamento, no que hoje, depois dos abalos da exegese liberal e da ciência mal informada, nenhum autor sério cientificamente acredita”.
“O Novo Testamento relata a morte de Jesus e seus primeiros seguidores, interpretando os sinais do túmulo vazio e das aparições. Fato que afirmaram solenemente, com base nas Escrituras. Animados pelo Espírito Santo, deram o testemunho de sua vida pela fé em Jesus, vivo junto a Deus, como o sabemos desde os Atos dos Apóstolos”, afirma o teólogo.
O ser humano é aquele ser que não tem permanência em si mesmo. Continuar vivendo só pode significar, humanamente falando, continuar existindo num outro. Mas existir no outro – por meio dos filhos ou da fama, por exemplo – não passa de uma sombra, porque o outro também se desfaz. Só Deus pode amparar o homem e fazê-lo perdurar. Neste sentido, a ressurreição é a força do amor que vence a morte. Ela não é um ato fechado em si, que pertence só à divindade de Cristo. É o princípio e a fonte de nossa própria ressurreição futura.
Só existe “um” que nos pode amparar, “aquele que ‘é’, que não vem ao ser e que não deixa de ser, mas que permanece em meio ao vir a ser e ao desaparecer: o Deus dos vivos que sustenta não apenas uma sombra e o eco de meu ser e cujos pensamentos não são apenas cópias da realidade” (Joseph Ratzinger, “Introdução ao Cristianismo”).
Nesse sentido, a ressurreição “é a força maior do amor diante da morte. Ela prova, ao mesmo tempo, que a imortalidade só pode ser fruto do existir no outro que continua de pé mesmo quando eu estou em farrapos” (idem).
Os relatos da ressurreição de Jesus testemunham um fato novo, que não brotou simplesmente do coração dos discípulos. Trata-se de um fato que chegou a eles de fora, se apoderou deles contra as suas dúvidas e os fez ter a certeza de que Jesus realmente ressuscitou.
“Aquele que estava no túmulo já não está lá, ele vive – e é realmente ele próprio. Ele que passara ao outro mundo de Deus mostrou-se suficientemente poderoso para mostrar-lhes de forma palpável que era ele mesmo que se encontrava na frente deles, que nele o poder do amor se revelara realmente mais forte do que o poder da morte” (idem).
A ressurreição de Jesus Cristo constitui a comprovação de tudo o que o próprio Cristo fez e ensinou. Todas as verdades, mesmo as mais inacessíveis ao espírito humano, encontram sua confirmação se, ao ressuscitar, Cristo deu a prova definitiva, que havia prometido, de sua autoridade divina (CIC, 651).
Nenhum homem pode ressuscitar um morto. Por conseguinte, se Jesus, como homem, ressuscitou, isto é obra de Deus. A ressurreição de Jesus crucificado demonstrou que ele era verdadeiramente o Filho de Deus e Deus mesmo (CIC, 653).
A ressurreição é o cumprimento das promessas do Antigo Testamento e das promessas que o próprio Jesus fez durante sua vida terrestre. A verdade da divindade de Jesus é confirmada por sua ressurreição.
A ressurreição de Jesus não é um ato fechado em si. É o início de um processo que se estende a todos os homens. Ela é o princípio e a fonte da ressurreição futura dos homens, atuando “desde já pela justificação de nossa alma” e, mais tarde, “pela vivificação de nosso corpo” (CIC, 658).
“Não foi nada fácil, através da história, nem o é, nos dias de hoje, para os cristãos, sustentar sua fé. Nunca, porém, lhes faltou a assistência do Espírito, senão para provar a ressurreição, pelo menos para evidenciar que não pode ser validamente contestada, por nenhum tipo de argumento científico ou filosófico”, afirma o teólogo Francisco Catão.
Ressurreição, Ascensão e Segunda vinda de Cristo
http://opusdei.org.br/pt-br/article/tema-11-ressurreicao-ascensao-e-segunda-vinda-de-cristo/

A Ressurreição de Cristo é verdade fundamental da nossa fé, como diz São Paulo (cfr. 1Cor 15, 13-14). Com este fato, Deus inaugurou a vida do mundo futuro e a pôs à disposição dos homens.
1. Cristo foi sepultado e desceu aos infernos.
Após padecer e morrer, o corpo de Cristo foi sepultado em um sepulcro novo, próximo ao lugar onde o haviam sacrificado. E sua alma desceu aos infernos. A sepultura de Cristo manifesta que verdadeiramente morreu. Deus dispôs que Cristo passasse pelo estado de morte, isto é, de separação entre a alma e o corpo (cfr. Catecismo, 624). Durante o tempo que Cristo passou no sepulcro, tanto sua alma como seu corpo, separados entre si por causa da morte, continuaram unidos à sua Pessoa divina (cfr. Catecismo, 626).
Porque continuava pertencendo à Pessoa divina, o corpo morto de Cristo não sofreu a corrupção do sepulcro (cfr. Catecismo, 627; At 13, 37). A alma de Cristo desceu aos infernos. “Os «infernos» (não confundir com o inferno da condenação) ou mansão dos mortos, designam o estado de todos aqueles que, justos ou maus, morreram antes de Cristo” (Compêndio, 125). Os justos se encontravam em um estado de felicidade (diz-se que repousavam no “seio de Abraão”) embora ainda não gozassem da visão de Deus. Dizendo que Jesus desceu aos infernos, entendemos sua presença no “seio de Abraão” para abrir as portas do céu aos justos que o haviam precedido. “Com a alma unida à sua Pessoa divina, Jesus alcançou, nos infernos, os justos que esperavam o seu Redentor para acederem finalmente à visão de Deus” (Compêndio, 125).
Cristo, com a descida aos infernos, mostrou seu domínio sobre o demônio e a morte, libertando as almas santas que estavam retidas, para levá-las à glória eterna. Deste modo, a Redenção – que devia atingir todos os homens de todas as épocas – aplicou-se àqueles que haviam precedido Cristo (cfr. Catecismo, 634).
A glorificação de Cristo consiste em sua Ressurreição e sua Ascensão aos céus, onde Cristo está sentado à direita do Pai. O sentido geral da glorificação de Cristo está relacionado com sua morte na Cruz. Como, pela paixão e morte de Cristo, Deus eliminou o pecado e reconciliou o mundo consigo, de modo semelhante, pela ressurreição de Cristo, Deus inaugurou a vida do mundo futuro e a colocou à disposição dos homens.
Os benefícios da salvação não derivam somente da Cruz, mas também da Ressurreição de Cristo. Estes frutos se aplicam aos homens por mediação da Igreja e por meio dos sacramentos. Concretamente, pelo Batismo recebemos o perdão dos pecados (do pecado original e dos pessoais) e o homem se reveste, pela graça, com a nova vida do Ressuscitado.
“Ao terceiro dia” (de sua morte), Jesus ressuscitou para uma vida nova. Sua alma e seu corpo, plenamente transfigurados com a glória de sua Pessoa divina, voltaram a se unir. A alma assumiu de novo o corpo e a glória de sua alma se comunicou totalmente ao corpo. Por este motivo, “a Ressurreição de Cristo não foi um regresso à vida terrena. O Seu corpo ressuscitado é Aquele que foi crucificado e apresenta os vestígios da Sua Paixão, mas é doravante participante da vida divina com as propriedades dum corpo glorioso” (Compêndio, 129).
A Ressurreição do Senhor é fundamento de nossa fé, pois atesta de modo incontestável que Deus interferiu na história humana para salvar os homens. E garante a verdade do que prega a Igreja sobre Deus, sobre a divindade de Cristo e a salvação dos homens. Pelo contrário, como diz São Paulo, “se Cristo não ressuscitou, vã é nossa fé” (1Cor 15, 17).
Os Apóstolos não podiam enganar-se nem ter inventado a ressurreição. Em primeiro lugar, se o sepulcro de Cristo não estivesse vazio, não poderiam ter falado da ressurreição de Jesus; além disso, se o Senhor não lhes tivesse aparecido, em várias ocasiões e a numerosos grupos de pessoas, homens e mulheres, muitos dos discípulos de Cristo não teriam podido aceitá-la, como ocorreu inicialmente com o apóstolo Tomé. Muito menos teriam podido eles dar sua vida por uma mentira. Como diz São Paulo: “E se Cristo não ressuscitou (…) seríamos convencidos de ser falsas testemunhas de Deus, por termos dado testemunho contra Deus, afirmando que Ele ressuscitou a Cristo, ao qual não ressuscitou” (1Cor 15, 14.15). E quando as autoridades judias queriam silenciar a pregação do evangelho, São Pedro respondeu: “Há que obedecer a Deus antes que aos homens. O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus a quem vós destes a morte, suspendendo-o num madeiro. (…) Nós somos testemunhos destas coisas” (At 5, 29-30.32).
Além de ser um evento histórico, verificado e testemunhado mediante sinais e testemunhos, a Ressurreição de Cristo é um acontecimento transcendente porque “ultrapassa a história como mistério da fé, enquanto implica a entrada da humanidade de Cristo na glória de Deus” (Compêndio, 128). Por este motivo, Jesus Ressuscitado, embora possuindo uma verdadeira identidade físico-corpórea, não está submetido às leis físicas terrenas, e se sujeita a elas só enquanto o deseja: “Jesus ressuscitado é soberanamente livre de aparecer aos seus discípulos como Ele quer, onde Ele quer e sob aspectos diversos” (Compêndio, 129).
A Ressurreição de Cristo é um mistério de salvação. Mostra a bondade e o amor de Deus, que recompensa a humilhação de seu Filho, e que emprega sua onipotência para encher de vida os homens. Jesus ressuscitado possui, em sua humanidade, a plenitude da vida divina, para comunicá-la aos homens. “O Ressuscitado, vencedor do pecado e da morte, é o princípio da nossa justificação e da nossa Ressurreição: a partir de agora, Ele garante-nos a graça da adoção filial que é a participação real na sua vida de Filho unigênito; depois, no final dos tempos, Ele ressuscitará o nosso corpo” (Compêndio, 131). Cristo é o primogênito entre os mortos e todos ressuscitaremos por Ele e nEle.
Da Ressurreição de Nosso Senhor, devemos tirar para nós:
a) Fé viva: “Acende tua fé. – Cristo não é uma figura que passou. Não é uma recordação que se perde na história. Vive! “Jesus Christus heri et hodie: ipse et in saecula!” – diz São Paulo – Jesus Cristo ontem e hoje e sempre!” [1];
b) Esperança: “Nunca desesperes. Morto e corrompido estava Lázaro: “iam foeted, quatriduanos est enim” – já fede, porque há quatro dias que está enterrado, diz Marta a Jesus. Se ouvires a inspiração de Deus e a seguires – “Lazaro, veni foras!”: Lázaro, vem para fora! -, voltarás à Vida” [2];
c) Desejo de que a graça e a caridade nos transformem, levando-nos a viver vida sobrenatural, que é a vida de Cristo: procurando ser realmente santos (cfr. Cl 3, 1 e ss). Desejo de apagar nossos pecados no sacramento da Penitência, que nos faz ressuscitar para a vida sobrenatural – se a havíamos perdido pelo pecado mortal – e recomeçar de novo: nunc coepi (Sl 76, 11).
A Exaltação gloriosa de Cristo compreende sua Ascensão aos céus, ocorrida quarenta dias depois de sua Ressurreição (cfr. At 1, 9-10), e sua entronização gloriosa neles, para compartilhar, também como homem, a glória e o poder do Pai e para ser Senhor e Rei da criação.
Quando confessamos neste artigo do Credo que Cristo “está sentado à direita do Pai”, nos referimos com esta expressão à “glória e à honra da divindade, onde aquele que existia como Filho de Deus antes de todos os séculos, como Deus e consubstancial ao Pai, está sentado corporalmente depois que se encarnou e de que sua carne foi glorificada” [3].
Com a Ascensão, termina a missão de Cristo, enviado para o meio de nós, em carne humana, para realizar a salvação. Era necessário que, após sua Ressurreição, Cristo continuasse sua presença entre nós, para manifestar sua nova vida e completar a formação dos discípulos. Mas essa presença terminará no dia da Ascensão. Porém, ainda que Jesus tenha voltado ao céu, junto do Pai, permanece entre nós de vários modos, principalmente no modo sacramental, pela Sagrada Eucaristia.
A Ascensão é sinal da nova situação de Jesus. Sobe ao trono do Pai para compartilhá-lo, não só como Filho eterno de Deus, mas também como verdadeiro homem, vencedor do pecado e da morte. A glória que havia recebido fisicamente, com a Ressurreição, se completa agora com sua entronização pública nos céus, como Soberano da criação, junto ao Pai. Jesus recebe a homenagem e o louvor dos habitantes do céu.
Uma vez que Cristo veio ao mundo para redimir-nos do pecado e conduzir-nos à perfeita comunhão com Deus, a Ascensão de Jesus inaugura a entrada no céu da humanidade. Jesus é a Cabeça sobrenatural dos homens, como Adão o foi na ordem da natureza. Já que a Cabeça está no céu, também nós, seus membros, temos a possibilidade real de alcançá-lo. Mais, ele foi para preparar-nos um lugar na casa do Pai (cfr. Jo 14, 3).
Sentado à direita do Pai, Jesus continua seu ministério de Mediador universal da salvação. “Ele é o Senhor que agora reina com a sua humanidade na glória eterna de Filho de Deus e sem cessar intercede por nós junto do Pai. Envia-nos o Seu Espírito e tendo-nos preparado um lugar, dá-nos a esperança de um dia ir ter com Ele” (Compêndio, 132).
Com efeito, dez dias depois da Ascensão ao céu, Jesus enviou o Espírito Santo aos discípulos, conforme sua promessa. Desde então, Jesus manda incessantemente aos homens o Espírito Santo, para comunicar-lhes a potência vivificadora que possui, e reuni-los por meio de sua Igreja para formar o único povo de Deus.
Depois da Ascensão do Senhor e da vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes, a Santíssima Virgem Maria foi levada em corpo e alma para os céus, pois convinha que a Mãe de Deus, que havia levado a Deus em seu seio, não sofresse a corrupção do sepulcro, à imitação de seu Filho [4].
A Igreja celebra a festa da Assunção da Virgem no dia 15 de agosto. “A Assunção da santíssima Virgem é uma singular participação na ressurreição do seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos” (Catecismo, 966).
A Exaltação gloriosa de Cristo:
a) Nos anima a viver com o olhar posto na glória do Céu: quae sursum sunt, quaerite (Cl 3, 1); recordando que não temos aqui morada permanente (Hb 13, 14), e com o desejo de santificar as realidades humanas;
b) Nos impulsiona a viver de fé, pois nos sabemos acompanhados por Jesus Cristo, que nos conhece e nos ama, estando no céu, e que nos dá sem cessar a graça de seu Espírito. Com a força de Deus, podemos realizar o labor apostólico que nos encomendou: levar-lhe todas as almas (cfr. Mt 28, 19) e pô-lo no cume de todas as atividades humanas (cfr. Jo 12, 32), para que seu Reino seja uma realidade (cfr. 1Cor 15, 25). Além disso, Ele nos acompanha do Sacrário.
Cristo Senhor é Rei do universo, mas ainda não lhe estão submetidas todas as coisas deste mundo (cfr. Hb 2, 7; 1Cor 15, 28). Concede tempo aos homens para experimentar seu amor e sua fidelidade. Contudo, no fim dos tempos, terá lugar seu triunfo definitivo, quando o Senhor aparecerá com “grande poder e majestade” (cfr. Lc 21, 27).
Cristo não revelou o tempo de sua segunda vinda (cfr. At 1, 7), mas nos anima a estar sempre vigilantes e nos adverte que antes dessa sua segunda vinda, a parusia, ocorrerá um último assalto do demônio acompanhado de grandes calamidades e outros sinais (cfr. Mt 24, 20-30; Catecismo 674-675).
O Senhor virá então como Supremo Juiz Misericordioso para julgar os vivos e os mortos: é o juízo universal, no qual os segredos dos corações serão revelados, assim como a conduta de cada um diante de Deus e em relação ao próximo. Este juízo sancionará a sentença que cada um recebeu após a morte. Todo homem será cumulado de vida ou condenado, por toda a eternidade, segundo suas obras. Assim se consumará o Reino de Deus, pois “Deus será tudo em todos” (1Cor 15, 28).
No Juízo Final os santos receberão, publicamente, o prêmio merecido pelo bem que fizeram. Deste modo, a justiça será restabelecida, já que nesta vida, muitas vezes, os que praticaram o mal são louvados e os que praticaram o bem, desprezados ou esquecidos.
O Juízo Final nos leva à conversão: “Deus dá ainda aos homens «o tempo favorável, o tempo da salvação» (2Cor 6, 2). Ela inspira o santo temor de Deus, empenha na justiça do Reino de Deus e anuncia a «feliz esperança» (Tt 2, 13) do regresso do Senhor, que virá «para ser glorificado nos seus santos, e admirado em todos os que tiverem acreditado» (2 Ts 1, 10)” (Catecismo, 1041).
Antonio Ducay Bibliografia básica Catecismo da Igreja Católica, 638-679; 1038-1041.
Leituras recomendadas
João Paulo II, La Resurrección de Jesucristo, Catequesis: 25-01-1989, 1-02-1989, 22-02-1989, 1-03-1989, 8-03-1989, 15-03-1989.
João Paulo II, La Ascensión de Jesucristo, Catequesis: 5-04-1989, 12-04-1989, 19-04-1989.
São Josemaria, Homilia A Ascensão do Senhor aos Céus, em É Cristo que Passa, 117-126.
——————-
[1] São Josemaria, Caminho, 584.
[2] Ibidem, 719.
[3] São João Damasceno, De fide ortodoxa, 4, 2: PG 94, 1104; cfr. Catecismo, 663.
[4] Cfr. Pio XII, Const. Munificentissimus Deus, 15-08-1950: DS 3903.
A ressurreição de Jesus é o elemento principal da nossa fé
Padre Roger Araújo
http://homilia.cancaonova.com/homilia/a-ressurreicao-de-jesus-e-o-elemento-principal-da-nossa-fe/

Nós cremos, acreditamos e professamos com todo o nosso coração a certeza de que Jesus está vivo e de que Ele ressuscitou dos mortos.

“Se não há ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vã e a vossa fé é vã também” (1 Coríntios 15, 13).
Amados irmãos e irmãs no Senhor, fiz questão de hoje meditar a primeira leitura da liturgia, da Carta de Paulo aos Coríntios, na qual ele enfatiza o tema da ressurreição dos mortos. Este é um ponto fundamental da nossa fé, da nossa convicção religiosa, e só podemos falar da ressurreição dos mortos a partir da ressurreição de Jesus.
A ressurreição de Jesus é o elemento fundamental da nossa fé! A fé cristã não é baseada no nascimento de Jesus, ela enfatiza os ensinamentos de Jesus, a vida d’Ele e a morte d’Ele, mas o núcleo da fé cristã, o sentido da fé cristã, é a ressurreição de Jesus. Como enfatiza São Paulo: “Se Cristo não tiver ressuscitado tudo o que fazemos é perda de tempo”. Sim, sem essa certeza tudo seria em vão, inútil! Nós cultuamos e celebramos um Deus que está morto? Não, muito pelo contrário, nós cremos, acreditamos e professamos, com todo o nosso coração, a certeza de que Jesus está vivo e de que Ele ressuscitou dos mortos. E, assim como Jesus ressuscitou, nós também ressuscitaremos com Ele; esta é a nossa fé, é a nossa esperança!
Meus irmãos, no mundo em que vivemos há muitas confusões religiosas, há muitas pregações, há muita mistura de elementos religiosos que não são compatíveis com a nossa fé. Há muita gente pregando a reencarnação. Não estou combatendo e não devemos, nenhum de nós, combater nenhuma religião, nenhuma filosofia, mas não podemos nos alimentar nem nos enganar com elementos que são estranhos à nossa fé e à nossa convicção religiosa.
Se existem coisas boas em outras convicções religiosas – que bom – mas não nos cabe misturar elementos estranhos à nossa fé e um deles é a reencarnação. Não há compatibilidade entre ressurreição e reencarnação, não podemos crer em Cristo vivo e ressuscitado e, ao mesmo tempo, também comungar de alimentos, de elementos, de sentimentos, de outras convicções religiosas que não pregam a ressurreição de Jesus.
Precisamos nos cuidar, temos que ser convictos naquilo em que cremos e precisamos dar razões a nossa fé! Nós amamos a todos, queremos bem a todos, mas não comungamos dos pensamentos e dos sentimentos religiosos que não convêm à nossa fé. A reencarnação não é bíblica, não é cristã e não está de acordo com os ensinamentos de Jesus. Nós cremos na ressurreição, assim como Jesus ressuscitou nós também ressuscitaremos!
A Ressurreição de Jesus: Ficção ou Realidade?
Escrito por D. Estêvão Bettencourt, OSB
http://www.veritatis.com.br/apologetica/deus-uno-trino/535-ressurreicao-jesus-ficcao-realidade

Nenhuma outra confissão religiosa atribui ao seu fundador o privilégio da ressurreição dentre os mortos. O Cristianismo, porém, o faz e chega a afirmar que, sem a ressurreição de Jesus, não há Cristianismo.
Ora, a ressurreição de um morto é milagre de primeira grandeza. Por isto a crítica pergunta se não se trata de mito ou ficção; em consequência, tem formulado explicações meramente racionais para a notícia da “ressurreição”. Dada a importância capital de tal matéria desenvolveremos a questão, abordando: 1) as teorias racionalistas; 2) os textos do Novo Testamento que atestam a fé da Igreja nascente, e os seus sinais comprovantes.

I. TEORIAS RACIONALISTAS
Pode-se dizer que até o século XVIII não havia, entre os cristãos, quem duvidasse da historicidade da ressurreição de Jesus. Especialmente importante é o testemunho da Igreja nascente: em Corinto, por exemplo, no ano de 56 os fiéis não aceitavam a perspectiva da ressurreição dos cristãos, mas não punham em xeque a ressurreição de Jesus, de modo que, a partir desta, São Paulo deduzia a ressurreição de todos os mortos.
“Se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou… Se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou…Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que adormeceram” (1Cor 15, 12.13.16.20).
Examinemos, porém, as proposições dos racionalistas:
1) No século XVIII, Hermann Samuel Reimarus (1694-1768) retomou a alegação, dos judeus, de que o corpo de Jesus fora roubado pelos discípulos para que pudessem proclamar a sua ressurreição (Mt 28, 11-15). Segundo Reimarus, Jesus foi um Messias político, que queria libertar Israel do jugo romano. Fracassou, porém. Todavia os discípulos retiraram do túmulo o seu cadáver para poder apregoar a sua ressurreição e apresentar Jesus como o Messias apocalíptico de Daniel 7, 13s.
A própria crítica racionalista rejeitou a teoria de Reimarus como sendo simplória demais e infundada. Os apóstolos não tinham ânimo para admitir a ressurreição do Mestre; muito menos o tinham para tentar impô-la mediante fraude e embuste. Ademais qualquer tentativa de mentira e falsidade da parte dos Apóstolos cedo ou tarde teria sido descoberta pelos judeus hostis, que haveriam consequentemente desprestigiado toda a pregação dos discípulos de Cristo – o que na realidade não se deu.
2) Mais recentemente Karl Friedrich Bahrdt (1741-1792) e Eberhardt Gottlob Paulus (1761-1851) propuseram a tese de que Jesus não morreu realmente na Cruz e foi sepultado vivo. O sedativo que Ele tomou quando crucificado e os aromas que as mulheres levaram ao sepulcro para ungi-lo, terão contribuído para reanima-lo, comunicando-lhe consciência e vigor necessários para sair do túmulo, não ao terceiro dia, mas em data posterior. O estudioso alemão Holger Kersten, em nossos dias, retomou esta hipótese, acrescentando-lhe um complemento: Jesus, deixando o sepulcro, foi à Índia, onde terminou os seus dias.
Tal hipótese também não goza de autoridade, pois é fantasiosa; além do que, contradiz a arqueologia, que mostra o local do sepulcro de Jesus em Jerusalém, com sua história através dos séculos. Levemos em conta, outrossim, o duro desenrolar da Paixão de Cristo (flagelação, coração de espinhos, porte de Cruz, crucificação…) e principalmente o golpe de lança infligido a Jesus, “porque os soldados o encontraram já morto” (Jo 19, 33). Estas ocorrências não podem deixar dúvida sobre a realidade da morte de Jesus na Cruz.
3) Certos seguidores da Escola da História das Formas deram à ressurreição de Cristo uma interpretação nova.Entre eles, destaca-se Willi Marxsen, discípulo de Rudolf Bultmann: Marxsen afirma que o que ressuscitou não foi Jesus, mas a mensagem de Jesus; esta parecia fadada a emudecer por causa da hostilidade dos judeus, mas conseguiu vencer os obstáculos e assim “ressuscitou”, impondo-se aos ouvintes. O que importa, dizem, não é o mensageiro (Jesus), mas a mensagem (a Boa-Nova); as aparições de Jesus aos Apóstolos narradas pelos evangelistas nada teriam de objetivo; seriam apenas a maneira como os antigos cristãos formularam a experiência íntima de que a mensagem de Jesus superara os obstáculos e continuava a viver…O milagre não seria a ressurreição de Jesus, mas a fé dos discípulos.
A tese de Marxsen parte de um preconceito dogmaticamente afirmado, mas não demonstrado, a saber: não pode ser real o que escapa às categorias da razão humana. Ora, a ressurreição de um morto é algo que a razão não explica; daí ser tida como impossível ou como mito,… mito que está sujeito à interpretação ou hermenêutica atrás proposta. – Tal preconceito é falho, pois a razão humana não é a medida ou o critério da verdade; a verdade tem amplidão maior do que o alcance da razão. Por conseguinte, pode haver fatos reais que a razão não explica; só não se pode aceitar que concepções ilógicas ou absurdas (um círculo quadrado, por exemplo) sejam verdadeiras. Ora a ressurreição de um morto não é algo de ilógico ou irracional, absurdo.
4) E os mitos orientais?
Certos historiadores afirmam que as “religiões de mistérios” do Oriente próximo conheciam, no limiar da era cristã, mitos de deuses que voltaram à vida depois de haver morrido: assim na Ásia Menor, Adonis, Astarté, Átis, Cibele; no Egito, Ísis e Osíris… tais mitos se inspiravam no fato de que a natureza morre no outono e renasce na primavera seguinte. Ora, as narrativas evangélicas não seriam senão uma nova edição de tais lendas.
A propósito observamos que os deuses da mitologia estavam longe de “ressuscitar” propriamente; a ressurreição ou volta da alma ao corpo nunca foi um ideal, mas, sim, um espantalho para gregos e orientais (estes tinham o corpo na conta de cárcere da alma). Ademais a ressurreição de Jesus nada tem que ver com os mitos da vegetação que morre e renasce.
Por último, consideremos também que a fé se manifestou desde os primeiros dias da Igreja. Ora, a Palestina não era terreno favorável ao sincretismo religioso; os Judeus, mesmo convertidos ao Cristianismo, eram ferrenhamente avessos aos mitos pagãos. Para que a infiltração de lendas pagãs se desse no Cristianismo, teria sido necessário que este tivesse tido origem num ambiente geográfico e numa população tais como a Síria, a Ásia Menor ou o Egito; além do que, exigir-se-ia notável espaço de tempo entre a morte de Jesus e a pregação de sua ressurreição.
Uma vez examinadas as teorias que negam a ressurreição corporal de Jesus, vejamos qual seja:

II. O TESTEMUNHO DO NOVO TESTAMENTO
2.1. 1Cor 15, 3-8
O texto mais significativo é a profissão de fé consignada por São Paulo em 1 Cor 15, 3-8. Ei-la em tradução literal:
1 Faço-vos conhecer, irmãos, o Evangelho que Vos preguei, o mesmo que vós recebestes e no qual permaneceis firmes.
2 Por ele também sereis salvos, se o conservardes tal como vô-lo preguei…a menos que não tenha fundamento a vossa fé.
3 Transmiti-vos, antes de tudo, aquilo que eu mesmo recebi, a saber, que Cristo morreu por nossos pecados, conforme as Escrituras,
4 e que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia conforme as Escrituras
5 e que apareceu a Céfas, depois aos doze.
6 Posteriormente apareceu, de uma vez, a mais de quinhentos irmãos, dos quais a maior parte vive até hoje, alguns, porém, já morreram.
7 Depois apareceu a Tiago e, em seguida, a todos os Apóstolos.
8 Por fim, depois de todos, apareceu também a mim, como a um abortivo?.
São Paulo escreveu tal passagem no ano de 56, ou seja, pouco mais de 20 anos após a Ascensão de Jesus. Eis, porém, que nesse texto o Apóstolo quer apenas lembrar aos fiéis o que ele lhes transmitiu de viva voz quando fundou a comunidade de Corinto em 51-52: nessa época Paulo entregou aos fiéis a doutrina que lhe foi fora entregue (“Transmiti-vos…aquilo que eu mesmo recebi…”). E quando o Apóstolo recebeu a mensagem?
– Ou por ocasião da sua conversão, que se deu aproximadamente no ano de 35, ou no ensejo de sua visita a Jerusalém, que teve lugar em 38, ou, ao mais tardar, por volta do ano de 40.
Observemos agora o estilo do texto de 1Cor 15, 3-8: as frases são curtas, incisivas, dispostas segundo um paralelismo que lhes comunica um ritmo notável. Abstração feita dos vv. 6 e 8, dir-se-ia que se trata de formulas estereotípicas, forjadas pelo ensinamento oral e destinadas a ser frequentemente repetidas. Nesses versículos encontram-se várias expressões que não ocorrem em outras cartas de São Paulo: assim “conforme as Escrituras”, “no terceiro dia”, “aos doze”, “apareceu” (expressão que só ocorre sob a pena de São Paulo num hino citado pelo Apóstolo em 1Tm 3, 16).
Estas indicações dão a ver que São Paulo em 1Cor 15, 3-8 reproduz uma fórmula de fé que ele mesmo recebeu já definitivamente redigida poucos anos (dois, cinco, oito anos?) após a Ascensão do Senhor Jesus. O v. 6, quebrando o ritmo do conjunto, talvez tenha sido introduzido posteriormente; quanto ao v. 8, é por certo uma notícia pessoal que São Paulo acrescenta ao bloco.
Vê-se, pois, que desde os primeiros anos da pregação do Evangelho já existia entre os fiéis uma profissão de fé na ressurreição de Cristo formulada em frases breves e pregnantes; tais frases eram transmitidas como expressões exatas da mensagem dos Apóstolos.
Ora essa fórmula de fé antiquíssima professa a ressurreição corpórea de Cristo como realidade histórica. Para comprová-la, havia testemunhas oculares, das quais, diz São Paulo, muitas ainda viviam vinte e poucos anos após a ressurreição do Senhor.
Tal depoimento de primeira hora é um texto pré-paulino, concebido e transmitido pelos discípulos imediatos do Senhor como expressão da fé comum da Igreja nascente. – É de notar que São Paulo insiste no peso das testemunhas oculares; muitas ainda viviam e podiam ser interpeladas pessoalmente; não diz que “creram”, mas que “viram” (Jesus apareceu-lhes ressuscitado).
O texto de 1Cor 15, 1-8 é por Bultman e sua escola reconhecido como obstáculo sério à sua teoria racionalista (obstáculo fatal, segundo a expressão usada pelo próprio Bultman em Kerygma und Mythos I). Paulo terá sido incoerente consigo mesmo:
Só posso compreender o texto de 1Cor 15, 1-8 como tentativa de apresentar a ressurreição como um fato objetivo, merecedor de fé. Apenas posso dizer que Paulo, levado por sua apologética, caiu em contradição consigo mesmo? (Glauben und Verstehen I. Tübingen 1964, 54s).
Passemos agora a

2.2. A PREGAÇÃO DA IGREJA NASCENTE
2.2.1. O DESTEMOR DOS APÓSTOLOS
Seriam incompreensíveis o êxito e a força persuasiva da pregação dos Apóstolos, se, depois de haverem feito a dolorosa experiência da Paixão Mestre, não O Tivesse visto realmente ressuscitado.
Sem o encontro com Cristo vencedor, também não se explicaria a Cristologia pascoal (ou seja, a doutrina concernente a Cristo morto e redivivo) da Igreja antiga. Com efeito, os Apóstolos e os primeiros cristãos não somente se reconciliaram com a idéia de um Messias padecente, mas também com a de um Messias ausente, que voltará no fim dos tempos. Levemos em conta, outrossim, que, apesar do seu estrito monoteísmo, os Apóstolos no culto sagrado associaram Jesus a Deus Pai, reconhecendo-lhe grandeza e dignidade divinas. Nada disto teria podido ocorrer, se os discípulos não tivessem visto o Senhor ressuscitado e se Ele não vivesse de fato na Igreja nascente mediante o Espírito Santo prometido aos Apóstolos.
A conversão de São Paulo, que de perseguidor se tornou incansável arauto de Cristo ressuscitado, desenvolvendo atividade admirável e fecunda, é outro fato que dificilmente se poderia entender sem a realidade da ressurreição de Cristo.

2.2.2. O conteúdo da Pregação dos Apóstolos
Em termos mais precisos, perguntamos: que é que os discípulos anunciaram quando começaram a pregar?
O livro dos Atos dos Apóstolos responde a esta pergunta, apresentando-nos textos muito significativos:
At 2, 4-40: Pedro, no dia de Pentecostes, explica à multidão o fenômeno das línguas;
At 3, 12-26: Pedro, apelando para a obra salvífica de Cristo, esclarece como e por que um paralítico foi curado à porta do Templo de Jerusalém;
At 4, 8-12: diante do Sinédrio (tribunal judaico) Pedro explica as ocorrências da última Páscoa;
At 5,30-32: idem;
At 10, 34-43: Pedro, em casa do centurião romano Cornélio, faz uma síntese do plano de Deus, apresentando a morte e a ressurreição de Jesus como ponto central;
At 13, 17-41: Paulo em Antioquia da Pisídia faz o mesmo.
A propósito obervamos:
É possível averiguar o caráter arcaico de tais trechos: neles se encontram, por exemplo, o eco de locuções bíblicas (At 2, 22-24; 10, 38…) e hebraísmos (At 2, 23; 2, 3; 3, 20; 10, 40…)…Isto significa que estamos diante das camadas mais antigas e das linhas mestras da pregação dos Apóstolos, dirigida aos judeus, que constituíram o núcleo inicial da Igreja.
O tema desse anúncio, como se compreende, é Jesus de Nazaré
-anunciado pelos Profetas: At 2, 23; 2, 27; 3, 18; 4, 11; 5, 30s; 10, 40; 13, 35…
-figura histórica, pois há referências ao seu nascimento na casa de Davi (At 13,23; 10,37), ao seu ministério público precedido pela pregação de João Batista (At 2, 22; 10, 37s; 13, 24-31);
-ressuscitado dentre os mortos, ponto alto de toda a pregação. A ressurreição revela o significado da existência de Jesus, de tal modo que o Evangelho (a Boa Nova) é essencialmente o anúncio da ressurreição. Diz São Paulo em Antioquia: “E nós vos anunciamos a Boa-Nova: Deus cumpriu para nós, os filhos, a promessa feita a nossos pais, ressuscitando a Jesus” (At 13, 22). Procurando resumir numa palavra a missão dos Apóstolos, Pedro diz que a sua tarefa principal é a de ser “testemunhas da ressurreição” (At 1, 22).

2.3 O CONCEITO DE MESSIAS
Notemos que os judeus do Antigo Testamento não tinham o conceito de um Messias que morreria e ressuscitaria. Esperavam, antes, a vinda do seu reino em poder e glória. Se, não obstante, a idéia da ressurreição do Messias logo após a sua morte foi apregoada por Pedro e seus companheiros, parece lógico admitir que os Apóstolos tiveram a experiência de um encontro pessoal com Cristo redivivo após a morte na cruz. Sem esta experiência, jamais teriam chegado a proclamar que Jesus ressuscitara dentre os mortos.
Com outras palavras: a idéia de um Messias não glorioso, mas crucificado, era “escândalo para os judeus” (cf. 1Cor 1, 23). O fato de que os Apóstolos a aceitaram, seria um enigma se não tivessem visto Jesus ressuscitado.
Observa-se mesmo que os Apóstolos, longe de imaginar que Jesus morto voltaria à vida, perderam o ânimo ao vê-lo presa de seus inimigos, e fugiram. Quando lhes foi dada a notícia da ressurreição, relutaram para aceitá-la; não estavam subjetivamente predispostos a conceber a vitória de Cristo sobre a morte. Fizeram-no, porém vencidos pela evidência objetiva do fato; cf. Jo 20, 9.19-29 (episódio de Tomé); Lc 24, 13-35 (os discípulos de Emaús); Lc 24, 36-43(Jesus nega ser mero espírito, dá a palpar mãos e pés).
Em outros termos: quem lê os Evangelhos, observa que as aparições de Jesus não se dão após uma expectativa ansiosa dos Apóstolos ou discípulos. Ao contrário, Jesus aparecia de maneira totalmente imprevista, quando os discípulos menos os esperavam.
Nas aparições, é Ele, e somente Ele, quem tem a iniciativa ou quem vai ao encontro… Jesus também desaparece imprevistamente, quando os Apóstolos desejariam tê-lo por mais tempo consigo. Estes dados tornam inaceitável a tese segundo a qual as aparições de Jesus não teriam sido senão subjetivas – visões que, após madura reflexão haveriam sugerido a interpretação; “Jesus ressuscitou”. Segundo os Evangelhos, os discípulos tiveram experiência imediata do Senhor Ressuscitado, que eles puderam identificar com o Crucificado.

2.4 O SEPULCRO VAZIO
O Texto de Mc 16, 1-8 fala das mulheres que encontraram vazio o sepulcro de Jesus na manhã de domingo. A mesma descoberta foi feita por Maria Madalena, segundo Jo 20, 1s, e por Pedro, conforme Lc 24, 12.
Perguntamos: qual o valor histórico destas narrações?
Admite-se a realidade do sepulcro vazio na base das seguintes razões:
1) Os Evangelhos dão a entender que Jesus foi sepultado por José de Arimatéia, homem rico, que se serviu de uma rocha ainda não utilizada para tal fim. Por conseguinte, o sepulcro de Jesus devia estar em lugar conhecido; a visita das mulheres ao túmulo correspondia bem aos costumes da época.
2) A notícia de que as mulheres encontraram vazio o sepulcro de Jesus, não pode ter sido forjada pela Igreja antiga; quem a inventasse, não teria apelado para dizeres de mulheres, já que as mulheres outrora eram tidas como testemunhas pouco fidedignas. Refere São Lucas que as mulheres, tendo encontrado o sepulcro vazio, “disseram isto aos Apóstolos, mas suas palavras pareceram-lhes um desvario e eles não acreditaram. Pedro, no entanto, pôs-se a caminho, e correu ao sepulcro. Debruçando-se, apenas viu as ligaduras e voltou para casa, admirado com o que sucedera” (Lc 24, 10-12).
3) Os inimigos de Jesus não negaram que o túmulo estivesse vazio, mas unicamente trataram de explicar o fato por vias diversas. Eis, por exemplo, o que se lê em Mt 28, 11-15:
“Enquanto as mulheres iam a caminho, alguns dos guardas foram à cidade participar aos príncipes dos sacerdotes tudo o que havia sucedido. Estes reuniram-se com os anciãos e, depois de terem deliberado, deram muito dinheiro aos soldados com esta recomendação: Dizei isto: os seus discípulos vieram de noite e roubaram-no enquanto dormíamos. E, se o caso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e faremos com que os deixe tranquilos. Recebendo o dinheiro, eles fizeram como lhes tinham ensinado. E esta mentira divulgou-se entre os judeus até o dia de hoje”.
Vê-se, pois, que a tradição do sepulcro vazio é historicamente bem fundada. Ela tem sentido profundo para os cristãos. Sim; ela quer dizer que a mensagem da ressurreição de Jesus implica algo mais que o fato de que “a causa de Jesus continua” (Marxsen). Ela incute que existe continuidade entre o Crucificado e o Ressuscitado; a vida terrestre de Jesus não foi uma fase ultrapassada da existência de Cristo, mas continua presente no corpo do Senhor. O Cristo que ressuscitou, é o mesmo que morreu na cruz; possui o mesmo corpo, embora de maneira diversa.
Deve-se dizer também que a ressurreição de Jesus, à qual ninguém assistiu, deixou de si um sinal impressionante na história humana: o sepulcro vazio. Eis por que a questão do sepulcro vazio não é secundária ou pouco importante.

2.5. FATO HISTÓRICO
Há aqueles que, embora aceitem o que acaba de ser exposto, afirmam que a ressurreição de Jesus não foi um fato histórico. E por quê?
– Porque ninguém a viu ou a presenciou.
– Respondemos que, na verdade, ninguém viu Jesus ressuscitar na manhã do domingo de Páscoa; os Apóstolos encontraram o sepulcro já vazio. Todavia não se vê por que restringir o conceito de histórico aos fatos atestados por testemunhas oculares. Mais exato é definir como histórico todo evento que ocorre no tempo e no espaço. Ora, a ressurreição de Jesus aconteceu no tempo e no espaço; por isto deve ser tida como fato histórico. ¹A ressurreição de Cristo, embora se tenha dado sem testemunhas e no plano dos acontecimentos milagrosos, deixou na história os seus sinais ou os seus rastros a partir dos quais se cria a certeza – certeza moral, a certeza própria da historiografia – de que Jesus ressuscitou.
A insistência da Igreja antiga sobre a ressurreição no terceiro dia parece revelar a clara intenção de afirmar que a ressurreição foi um fato realmente histórico, a ponto de se poder indicar a respectiva data Tal intenção é muito clara no discurso de São Pedro proferido em casa do centurião Cornélio:
“Sabeis o que ocorreu em toda a Judéia, a começar pela Galiléia, depois do batismo que João pregou: como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem… E nós somos testemunhas do que Ele fez no país dos judeus e em Jerusalém. A Ele que mataram, suspendendo-O de madeiro, Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-lhe manifestar-se não a todo o povo, mas às testemunhas anteriormente designadas por Deus, a nós que comemos com Ele, depois da Sua ressurreição dentre os mortos. E mandou-nos pregar ao povo…” (At 10, 37-42).
Como se vê, a ressurreição ao terceiro dia é inserida entre os fatos históricos de que os Apóstolos e seus ouvintes são testemunhas.
É verdade que a certeza moral – a certeza da historiografia – ainda não é a certeza da fé. A fé pertence a outro plano; tem a sua origem e a sua motivação decisiva na atração interior que Deus exerce sobre a pessoa que Ele chama à fé. Todavia a certeza moral fornece a justificativa à razão do homem, fazendo que a adesão à fé na ressurreição seja um ato razoável, inteligente, digno, e não cego ou infantil, imaturo.

III. CONCLUSÃO
O Homem do século XX pode crer na ressurreição corporal de Cristo sem recear cair no infantilismo ou na mitologia. Quem nega a ressurreição, fá-lo não porque ela seja em si um absurdo ou porque não haja argumentos que a incutam, mas talvez por não ter refletido suficientemente sobre tais argumentos ou quiçá por nunca ter sido esclarecido a respeito dos mesmos. Quem, ao contrário, sem preconceitos, sem negar de antemão a possibilidade do milagre, estudar o assunto, perceberá que crer na ressurreição de Cristo é atitude correspondente às exigências da razão, para não se dizer “altamente razoável”.
De resto, quem professa as verdades da fé, aos poucos encontra nessa própria fé a demonstração de que não se enganou; a fé se comprova através da experiência ou da vivência respectiva.

Nota: ¹Imaginemos o caso de alguém que morre a sós durante a noite, sem a presença de um acompanhamento, ou de um suicida que se esconde para pôr fim à sua vida…Pode-se dizer que não são fatos históricos? Parece absurdo afirmar tal coisa, visto que são fatos ocorridos no tempo e no espaço.
O que é ressuscitar? Quem ressuscitará? Quando?
http://cleofas.com.br/o-que-e-ressuscitar-quem-ressuscitara-quando/
 
O Catecismo da Igreja ensina que:
“Na morte, que é separação da alma e do corpo, o corpo do homem cai na corrupção, ao passo que sua alma vai ao encontro de Deus, ficando à espera de ser novamente unida a seu corpo glorificado. Deus, em sua onipotência, restituirá definitivamente a vida incorruptível a nossos corpos, unindo-os às nossas almas, pela virtude da Ressurreição de Jesus” (§ 997).
“Todos os homens que morreram: “Os que tiverem feito o bem (sairão) para uma ressurreição de vida; os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de julgamento” (Jo 5, 29). (§ 998)
“Definitivamente “no último dia” (Jo 6, 39-40.44-54); “no fim do mundo”. Com efeito, a ressurreição dos mortos está intimamente associada à Parusia de Cristo: Quando o Senhor, ao sinal dado, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina, descer do céu, então os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro (1Ts 4, 16)” (§ 1001).
De que maneira os mortos ressuscitam?
“Cristo ressuscitou com seu próprio corpo: “Vede as minhas mãos e os meus pés: sou eu!” (Lc 24, 39). Mas ele não voltou a uma vida terrestre. Da mesma forma, nele” ressuscitarão com seu próprio corpo, que têm agora”; porém, este corpo será  “transfigurado em corpo de glória”, em “corpo espiritual” .
“Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam? Insensato! O que semeias não readquire vida a não ser que morra. E o que semeias não é o corpo da futura planta que deve nascer, mas um simples grão de trigo ou de qualquer outra espécie (…) Semeado corruptível, o corpo ressuscita incorruptível (…) os mortos ressurgirão incorruptíveis. (…) Com efeito, é necessário que este ser corruptível revista a incorruptibilidade e que este ser mortal revista a imortalidade (1Cor 15, 35-37.42.44.52-53)” (§ 999).
A Igreja sabe que haverá a ressurreição da carne; as almas de todos os homens se unirão a seus corpos no Último Dia, mas não sabe “como” isso será; ultrapassa nossa imaginação e nosso entendimento, sendo acessível só na fé. Mas, nossa participação na Eucaristia já nos dá um antegozo da transfiguração de nosso corpo por Cristo, como disse Santo Irineu (†202):
“Assim como o pão que vem da terra, depois de ter recebido a invocação de Deus, não é mais pão comum, mas Eucaristia, Constituída por duas realidades, uma terrestre e a outra celeste, da mesma forma os nossos corpos que participam da Eucaristia não são mais corruptíveis, pois têm a esperança da ressurreição” (Adv. Haer. 4.18,5).
De certo modo, já ressuscitamos com Cristo. Pois, graças ao Espírito Santo, a vida cristã é, já agora na terra, uma participação na morte e na ressurreição de Cristo, como disse São Paulo:
“Fostes sepultados com Ele no Batismo, também com Ele ressuscitastes, pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos. (…) Se, pois, ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus (Cl 2, 12; 3, 1)… mas esta vida permanece “escondida com Cristo em Deus” (Cl 3, 3). “Com ele nos ressuscitou e fez-nos sentar nos céus, em Cristo Jesus” (Ef 2, 6).
A recomposição (ressurreição da carne) dar-se-á no fim dos tempos, quando Cristo voltar em sua Parusia ou plena manifestação para consumar a história. E o que ensina o Apóstolo em 1Cor 15, 22s:
“Assim como todos morrem em Adão, todos receberão a vida em Cristo. Cada um, porém, na sua ordem: como primícias, Cristo; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda (Parusia)”.
“Quando o Senhor, ao sinal dado, à voz do arcanjo e ao som da trombeta divina, descer do céu, então os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; em segundo lugar, nós, os vivos…, seremos arrebatados com eles nas nuvens para o encontro com o Senhor”.
“Sabemos, com efeito, que ao se desfazer a tenda que habitamos neste mundo, recebemos uma casa preparada por Deus e não por mãos humanas, uma habitação eterna no céu. E por isto suspiramos e anelamos ser sobrevestidos da nossa habitação celeste, contanto que sejamos achados vestidos e não despidos. Pois, enquanto permanecemos nesta tenda, gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma veste nova por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela vida” (2Cor 5, 1-4).
A alma humana, sendo espiritual e imortal, sobrevive  independentemente do corpo e recebe a sua sorte definitiva, no juízo particular, até a consumação dos tempos: a ausência do corpo não a impede de ter consciência lúcida. Quando Cristo retornar a alma humana receberá o corpo, porém numa nova dimensão de vida.
“Na ressurreição nem eles se casam nem elas se dão em casamento, mas são todos como os anjos no céu” (cf. Mt 22, 30).
A tese da reencarnação é contrária à da ressurreição, pois supõe que a matéria seja má; nela o indivíduo expia faltas de existências anteriores; reencarna-se em castigo de seus pecados, muitas vezes se necessário. A verdadeira felicidade consistiria em livrar-se da matéria ou desencarnar-se definitivamente. A Igreja sempre lutou contra o maniqueísmo gnóstico que considerava a matéria má, como se fosse obra de um deus mau. Na crença da ressurreição a Igreja valoriza tanto o corpo quanto a alma. Além disso, se a pessoa se salva pela reencarnação, então, não precisa da Redenção de Cristo. Isto esvazia o cristianismo.
Dom Estevão Bittencourt ensina que:
“Para que haja a ressurreição não se requer que Deus recolha a poeira dos cadáveres a fim de com ela plasmar de novo os corpos. Lembremo-nos de que, já durante a vida terrestre de um homem, a matéria do respectivo corpo se vai renovando lentamente, de modo que, de sete em sete anos, cada qual tem outra constituição material; não obstante, esta é realmente o mesmo corpo do indivíduo… Deus pode reconstituir o corpo de uma pessoa falecida a partir do que os filósofos chamam “matéria prima”; esta, reunida à alma desse indivíduo, torna-se o corpo mesmo de tal pessoa, com as suas notas típicas, visto que a identidade da alma propicia a identidade das características do respectivo corpo (tal processo tem sua analogia no fato de que o metabolismo de um homem mortal incorpora ao organismo respectivo matéria nova; esta vem a ser o corpo típico de tal pessoa porque passa a ser animada pelo mesmo principio vital ou pela mesma alma). — O corpo dos justos ressuscitados é certamente glorioso, semelhante ao corpo de Jesus, mas conserva as características morfológicas do corpo mortal”.

A Ressurreição de Cristo segundo São João Paulo II

O Túmulo vazio!

A Ressurreição como feito histórico que afirma a fé
S.S. João Paulo II, 25 de janeiro, 1989

1. Nesta catequese confrontamos a verdade culminante de nossa fé em Cristo, documentada pelo Novo Testamento, acreditada e vivida como verdade central pelas primeiras comunidades cristãs, transmitida como fundamental pela tradição, nunca esquecida pelos cristãos verdadeiros e hoje aprofundada, estudada e pregada como parte essencial do mistério pascal, junto com a cruz; quer dizer a ressurreição de Cristo. Dele, em efeito, diz o Símbolo dos Apóstolos que ‘ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos’; e o Símbolo niceno-constantinopolitano precisa: ‘Ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras’.

É um dogma da fé cristã, que se insere em um fato acontecido e constatado historicamente. Trataremos de investigar ‘com os joelhos da mente inclinados’ o mistério enunciado pelo dogma e encerrado no acontecimento, começando com o exame dos textos bíblicos que o testemunham.

2. O primeiro e mais antigo testemunho escrito sobre a ressurreição de Cristo se encontra na primeira Carta de São Paulo aos Coríntios. Nela o Apóstolo recorda aos destinatários da Carta (por volta da Páscoa do ano 57 d.C.): ‘Porque lhes transmiti, em primeiro lugar, o que por minha vez recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que se apareceu a Cefas e logo aos Doze; depois se apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais ainda a maior parte vivem e outros morreram. Logo se apareceu a Tiago; mais tarde a todos os Apóstolos. E em último lugar a mim como a um abortivo’ (1 Cor 15, 3-8).

Como se vê, o Apóstolo fala aqui da tradição viva da ressurreição, da qual ele teve conhecimento após a sua conversão às portas de Damasco (Cfr. At 9, 3). Durante sua viagem a Jerusalém se encontrou com o Apóstolo Pedro, e também com o Tiago, como o precisa a Carta aos Gálatas (1,18 ss.), que o apóstolo aponta como as duas principais testemunhas de Cristo ressuscitado.

3. Deve também notar-se que, no texto chamado, São Paulo não fala só da ressurreição ocorrida o terceiro dia ‘segundo as Escrituras’ (referência bíblica que toca já a dimensão teológica do fato), mas que ao mesmo tempo recorre às testemunhas aos que Cristo se apareceu pessoalmente. É um sinal, entre outros, de que a fé da primeira comunidade de crentes, expressa por Paulo na Carta aos Coríntios, apóia-se no testemunho de homens concretos, conhecidos pelos cristãos e que em grande parte viviam ainda entre eles. Estes ‘testemunhas da ressurreição de Cristo’ (Cfr. At 1, 22), são principalmente os Doze Apóstolos, mas não só eles: Paulo fala da aparição de Jesus inclusive a mais de quinhentas pessoas de uma vez, além das aparições a Pedro, a Tiago e aos Apóstolos.

4. Diante deste texto paulino perdem toda admissibilidade as hipóteses com as que se tratou, em maneira diversa, de interpretar a ressurreição de Cristo abstraindo-a da ordem física, de modo que não se reconhecia como um fato histórico; por exemplo, a hipótese, segundo a qual a ressurreição não seria outra coisa que uma espécie de interpretação do estado no qual Cristo se encontra depois da morte (estado de vida, e não de morte), ou a outra hipótese que reduz a ressurreição ao influxo que Cristo, depois de sua morte, não deixou de exercer (e mais ainda recomeçou com novo e irresistível vigor) sobre seus discípulos. Estas hipótese parecem implicar um prejuízo de rechaço à realidade da ressurreição, considerada somente como ‘o produto’ do ambiente, ou seja, da comunidade de Jerusalém. Nem a interpretação nem o prejuízo acham comprovação nos fatos. São Paulo, pelo contrário, no texto citado recorre às testemunhas oculares do ‘fato’: sua convicção sobre a ressurreição de Cristo, tem então uma base experimental. Está vinculada a esse argumento ‘ex-factis’, que vemos escolhido e seguido pelos Apóstolos precisamente naquela primeira comunidade de Jerusalém. Efetivamente, quando se trata da eleição do Matias, um dos discípulos mais assíduos do Jesus, para completar o número dos ‘Doze’ que tinha ficado incompleto pela traição e morte do Judas Iscariote, os Apóstolos requerem como condição que quem for eleito não só tenha sido ‘companheiro’ deles no período em que Jesus ensinava e atuava, mas  sobre tudo possa ser ‘testemunha da sua ressurreição’ graças à experiência realizada nos dias anteriores ao momento no que Cristo (como dizem eles) ‘foi subido ao céu entre nós’ (At 1, 22).

5. Portanto não é possível apresentar a ressurreição, como faz certa crítica neotestamentaria pouco respeitosa dos dados históricos, como um ‘produto’ da primeira comunidade cristã, a de Jerusalém. A verdade sobre a ressurreição não é um produto da fé dos Apóstolos ou de outros discípulos pré ou pós-pascais. Dos textos resulta mas bem que a fé ‘pré-pascual’ dos seguidores de Cristo foi submetida à prova radical da paixão e da morte em cruz de seu Mestre. O mesmo tinha anunciado esta provação, especialmente com as palavras dirigidas ao Simão Pedro quando já estava às portas dos acontecimentos trágicos de Jerusalém; ‘Simão, Simão! Olhe que Satanás solicitou o poder  crivar-te como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça’ (Lc 22, 31-32). A sacudida provocada pela paixão e morte de Cristo foi tão grande que os discípulos (ao menos alguns deles) inicialmente não acreditaram na notícia da ressurreição. Em todos os Evangelhos encontramos a prova disto. Lucas, em particular, faz-nos saber que quando as mulheres, ‘retornando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas (ou seja, o sepulcro vazio) aos Onze e a todos outros…, todas estas palavras lhes pareceram como desatinos e não lhes acreditavam’ (Lc 24, 9. 11).

6. Pelo resto, a hipótese que quer ver na ressurreição um ‘produto’ da fé dos Apóstolos, cai também, por tudo quanto é referido quando o Ressuscitado ‘em pessoa se apareceu em meio deles e lhes disse: Paz a vós!’. Eles, de fato, ‘acreditavam ver um fantasma’. Nessa ocasião Jesus mesmo deveu vencer suas dúvidas e temores e convence-los de que ‘era Ele’: ‘Me apalpem e vejam, que um espírito não tem carne e ossos como vêem que eu tenho’. E posto que eles ‘não acabavam de acreditá-lo e estavam assombrados’ Jesus lhes disse que lhe dessem algo de comer e ‘comeu-o diante deles’ (Cfr. Lc 24,36-43).

7. Além disso, é muito conhecido o episódio de Tomé, que não se encontrava com os outros Apóstolos quando Jesus veio a eles pela primeira vez, entrando no Cenáculo apesar de que a porta estava fechada (Cfr. Jo 20, 19). Quando, a sua volta, outros discípulos lhe disseram: ‘Vimos ao Senhor’, Tomé manifestou maravilha e incredulidade, e respondeu: ‘Se não ver em suas mãos o sinal dos pregos e não coloco meu dedo no buraco dos pregos e não coloco minha mão em seu flanco não acreditarei. Oito dias depois, Jesus veio de novo ao Cenáculo, para satisfazer a petição de Tomé ‘o incrédulo’ e lhe disse: ‘Aproxima aqui teu dedo e olha minhas mãos; traz a tua mão e coloca-a em meu flanco, e não seja incrédulo mas sim crente’. E quando Tomé professou sua fé com as palavras ‘Meu senhor e meu Deus’, Jesus lhe disse: ‘Porque me viste acreditaste. Felizes os que não viram e acreditaram’ (Jo 20, 24-29).

A exortação a acreditar, sem pretender ver o que se esconde pelo mistério de Deus y de Cristo, permanece sempre válida; mas a dificuldade do Apóstolo Tomé para admitir a ressurreição sem ter experimentado pessoalmente a presença do Jesus vivo, e que depois acontece diante das provas que lhe subministrou o mesmo Jesus, confirmam o que resulta dos Evangelhos sobre a resistência dos Apóstolos e dos discípulos para admitir a ressurreição.

Por isso não tem consistência a hipótese de que a ressurreição tenha sido um ‘produto’ da fé (ou da credulidade) dos Apóstolos. Sua fé na ressurreição nasceu, pelo contrário (baixo a ação da graça divina), da experiência direta da realidade de Cristo ressuscitado.

8. É o mesmo Jesus o que, depois da ressurreição, fica em contato com os discípulos com o fim de lhes dar o sentido da realidade e dissipar a opinião (ou o medo) de que se tratasse de um ‘fantasma’ e portanto de que fossem vítimas de uma ilusão. Efetivamente, estabelece com eles relações diretas, precisamente mediante o tato. Assim é no caso de Tomam, que acabamos de recordar, mas também no encontro descrito no Evangelho do Lucas, quando Jesus diz aos discípulos assustados: ‘me apalpem e vejam que um espírito não tem carne e ossos como vêem que eu tenho’ (24, 39). Convida-lhes a constatar que o corpo ressuscitado, com o que se apresenta a eles, é o mesmo que foi martirizado e crucificado. Esse corpo possui entretanto ao mesmo tempo propriedades novas: há-se ‘feito espiritual’ (e ‘glorificado’ e portanto já não está submetido às limitações habituais aos seres materiais e por isso a um corpo humano. (Em efeito, Jesus entra no Cenáculo apesar de que as portas estivessem fechadas, aparece e desaparece, etc.) Mas ao mesmo tempo esse corpo é autêntico e real. Em sua identidade material está a demonstração da ressurreição de Cristo.

9. O encontro no caminho do Emaus, referido no Evangelho do Lucas, é um fato que faz visível de forma particularmente evidente como amadureceu na consciência dos discípulos a certeza da ressurreição precisamente mediante o contato com Cristo ressuscitado (Cfr. Lc 24, 15-21). Aqueles dois discípulos do Jesus, que ao início do caminho estavam ‘tristes e abatidos’ com a lembrança de tudo o que tinha acontecido ao Mestre o dia da crucificação e não escondiam a desilusão experimentada ao ver derrubá-la esperança posta no como Messias liberador (‘Esperávamos que seria O que ia liberar ao Israel’) experimentam depois uma transformação total, quando lhes fica claro que o Desconhecido, com o que falaram, é precisamente o mesmo Cristo de antes, e se dão conta de que Ele, portanto, ressuscitou. De toda a narração se deduz que a certeza da ressurreição de Jesus fazia deles quase homens novos. Não só tinham readquirido a fé em Cristo, mas também estavam preparados para dar testemunho da verdade sobre sua ressurreição.

Todos estes elementos do texto evangélico, convergentes entre si, provam o fato da ressurreição, que constitui o fundamento da fé dos Apóstolos e do testemunho que, como veremos nas próximas catequese, está no centro da sua pregação.

——————————————————————————–

O sepulcro vazio e o encontro com Cristo Ressuscitado
S.S. João Paulo II, em 1 de fevereiro, 1989

1. A profissão de fé que fazemos no Credo quando proclamamos que Jesus Cristo ‘ao terceiro dia ressuscitou de entre os mortos’, apóia-se nos textos evangélicos que, por sua vez, transmitem-nos e fazem conhecer a primeira pregação dos Apóstolos. Destas fontes resulta que a fé na ressurreição é, desde o começo, uma convicção apoiada em um fato, em um acontecimento real, e não um mito ou uma ‘concepção’, uma idéia inventada pelos Apóstolos ou produzida pela comunidade pós-pascal reunida em torno dos Apóstolos em Jerusalém, para superar junto com eles o sentido de desilusão conseguinte à morte de Cristo na cruz. Dos textos resulta justamente o contrário e por isso, como eu disse, tal hipótese é também crítica e historicamente insustentável. Os Apóstolos e os discípulos não inventaram a ressurreição (e é fácil compreender que eram totalmente incapazes de uma ação semelhante). Não há traços de uma exaltação pessoal sua ou de grupo, que lhes tenha levado a conjeturar um acontecimento desejado e esperado e a projetá-lo na opinião e na crença comum como real, quase por contraste e como compensação da desilusão padecida. Não há traços de um processo criativo de ordem psicológica, sociológica ou literária nem sequer na comunidade primitiva ou nos autores dos primeiros séculos. Os Apóstolos foram os primeiros que acreditaram, não sem fortes resistências, que Cristo tinha ressuscitado simplesmente porque viveram a ressurreição como um acontecimento real de qual puderam convencer-se pessoalmente ao encontrar-se várias vezes com Cristo novamente vivo, ao longo de quarenta dias. As sucessivas gerações cristãs aceitaram aquele testemunho, confiando-se nos Apóstolos e em outros discípulos como testemunhas acreditáveis. A fé cristã na ressurreição de Cristo está ligada, pois, a um fato, que tem uma dimensão histórica precisa.

2. E entretanto, a ressurreição é uma verdade que, em sua dimensão mais profunda, pertence à Revelação divina: em efeito, foi anunciada gradualmente de antemão por Cristo ao longo de sua atividade messiânica durante o período pré-pascual. Muitas vezes predisse Jesus explicitamente que, depois de ter sofrido muito e ser executado, ressuscitaria. Assim, no Evangelho do Marcos, diz-se que depois da proclamação do Pedro nas proximidades da Cesaréia do Filipe, Jesus ‘começou a lhes ensinar que o Filho do homem devia sofrer muito e ser reprovado pelos anciões, os sumos sacerdotes e os escribas, ser morto e ressuscitar aos três dias. Falava disto abertamente’ (Mc 8, 31-32). Também segundo Marcos, depois da transfiguração, ‘quando desciam do monte lhes ordenou que a ninguém contassem o que tinham visto até que o Filho do homem ressuscitasse de entre os mortos’ (Mc 9. 9). Os discípulos ficaram perplexos sobre o significado daquela ‘ressurreição’ e passaram à questão, e agitada no mundo judeu, do retorno do Elías (Mc 9, 11): mas Jesus reafirmou a idéia de que o Filho do homem deveria ‘sofrer muito e ser desprezado’ (Mc 9, 12). depois da cura do epilético endemoniado, no caminho da Galiléia percorrido quase clandestinamente, Jesus toma de novo a palavra para instrui-los: ‘O Filho do homem será entregue em mãos dos homens; o matarão e aos três dias de ter morrido ressuscitará’. ‘Mas eles não entendiam o que lhes dizia e temiam lhe perguntar’ (Mc 9, 31-32). É o segundo anúncio da paixão e ressurreição, ao que segue o terceiro, quando já se encontram em caminho para Jerusalém: ‘Olhem que subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos sumos sacerdotes e os escribas; a condenarão à morte e o entregarão aos gentis, e se burlarão dele, cuspirão nele, o açoitarão e o matarão, e aos três dias ressuscitará’ (Mc 10, 33-34).

3. Estamos aqui ante uma previsão profética dos acontecimentos, em que Jesus exercita sua função de revelador, pondo em relação a morte e a ressurreição unificadas na finalidade redentora, e referindo-se ao intuito divino segundo o qual tudo o que prevê e prediz ‘deve’ acontecer. Jesus, portanto, faz conhecer os discípulos estupefatos e inclusive assustados algo do mistério teológico que subjaz nos próximos acontecimentos, como o resto de toda a sua vida. Outros brilhos deste mistério se encontram na alusão ao ‘sinal do Jônas’ (Cfr. Mt 12, 40) que Jesus faz dele e aplica aos dias de sua morte e ressurreição, e no desafio aos judeus sobre ‘a reconstrução em três dias do templo que será destruído’ (Cfr. Jo 2, 19). Joãon anota que Jesus ‘falava do Santuário de seu corpo. Quando ressuscitou, pois, de entre os mortos, lembraram-se seus discípulos de que havia dito isso, e acreditaram na Escritura e nas palavras que havia dito Jesus’ (Jo 2 20-21). Uma vez mais nos encontramos diante da relação entre a ressurreição de Cristo e sua Palavra, diante de seus anúncios ligados ‘às Escrituras’.

4. Mas além das palavras do Jesus, também a atividade messiânica desenvolvida por Ele no período pré-pascual mostra o poder de que dispõe sobre a vida e sobre a morte, e a consciência deste poder, como a ressurreição da filha do Jairo (Mc 5, 39-42), a ressurreição do jovem de Naim (Lc 7, 12-15), e sobre tudo a ressurreição do Lázaro (Jo 11, 42-44) que se apresenta no quarto Evangelho como um anúncio e uma prefiguração da ressurreição de Jesus. Nas palavras dirigidas a Marta durante este último episódio se tem a clara manifestação da auto-consciência de Jesus respeito da sua identidade de Senhor da vida e da morte e de possuidor das chaves do mistério da ressurreição: ‘Eu sou a ressurreição. quem acredita em mim, embora morra, viverá; e tudo o que vive e acredita em mim, não morrerá jamais’ (Jo 11, 25-26).

Tudo são palavras e fatos que contêm de formas diversas a revelação da verdade sobre a ressurreição no período pré-pascual.

5. No âmbito dos acontecimentos pascais, o primeiro elemento diante do que nos encontramos é o ‘sepulcro vazio’. Sem dúvida não é por si mesmo uma prova direta. A Ausência do corpo de Cristo no sepulcro no qual tinha sido depositado poderia explicar-se de outra forma, como de fato pensou por um momento Maria Madalena quando, vendo o sepulcro vazio, supôs que alguém haveria roubado o corpo de Jesus (Cfr. Jo 20, 15). Mais ainda, o Sinédrio tentou fazer correr a voz de que, enquanto dormiam os soldados, o corpo tinha sido roubado pelos discípulos. ‘E se correu essa versão entre os judeus, (anota Mateus) até o dia de hoje’ (MT 28, 12-15).

Apesar disto o ‘sepulcro vazio’ constituiu para todos, amigos e inimigos, um sinal impressionante. Para as pessoas de boa vontade seu descobrimento foi o primeiro passo para o reconhecimento do ‘feito’ da ressurreição como uma verdade que não podia ser refutada.

6. Assim foi acima de tudo para as mulheres, que muito de cedo de manhã se aproximaram do sepulcro para ungir o corpo de Cristo. Foram as primeiras em acolher o anúncio: ‘ressuscitou, não está aqui… Mas ide dizer aos seus discípulos e ao Pedro…’ (Mc 16, 6-7). ‘Lembrem como lhes falou quando estava ainda na Galiléia, dizendo: ‘É necessário que o Filho do homem seja entregue em mãos dos pecadores e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite!. E elas lembraram as suas palavras’ “(Lc 24, 6-8).

Certamente as mulheres estavam surpreendidas e assustadas (Cfr. Mc 24, 5). Nem sequer elas estavam dispostas a render-se muito facilmente a um fato que, até predito pelo Jesus, estava efetivamente por cima de toda possibilidade de imaginação e de invenção. Mas na sua sensibilidade e fineza intuitiva elas, e especialmente Maria Madalena, aferraram-se à realidade e correram aonde estavam os Apóstolos para lhes dar a alegre noticia.

O Evangelho do Mateo (28, 8-10) informa-nos que com o passar do caminho Jesus mesmo lhes saiu ao encontro as cumprimentou e lhes renovou o mandato de levar o anúncio aos irmãos (Mt 28, 10). Desta forma as mulheres foram as primeiras mensageiras da ressurreição de Cristo, e o foram para os mesmos Apóstolos (Lc 24, 10). Fato eloqüente sobre a importância da mulher já nos dias do acontecimento pascal!

7. Entre os que receberam o anúncio da María Madalena estavam Pedro e João (Cfr. Jo 20, 3-8). Eles se aproximaram do sepulcro não sem hesitações, quanto mais quanto que Maria lhes tinha falado de uma sustração do corpo de Jesus do sepulcro (Cfr. Jo 20, 2). Chegados ao sepulcro, também o encontraram vazio. Terminaram acreditando, depois de ter duvidado não pouco, porque, como diz João, ‘até então não tinham compreendido que segundo a Escritura Jesus devia ressuscitar de entre os mortos’ (Jo 20, 9).

Digamos a verdade: o fato era assombroso para aqueles homens que se encontravam ante coisas muito superiores a eles. A mesma dificuldade, que mostram as tradições do acontecimento, ao dar uma relação disso plenamente coerente, confirma seu caráter extraordinário e o impacto desconcertante que teve no ânimo das afortunadas testemunhas. A referência ‘à Escritura’ é a prova da escura percepção que tiveram ao encontrar-se diante de um mistério sobre o que só a Revelação podia dar luz.

8. Entretanto, eis aqui outro dado que se deve considerar bem: se o ‘sepulcro vazio’ deixava estupefatos a primeira vista e podia inclusive gerar acerta suspeita, o gradual conhecimento deste fato inicial, como o anotam os Evangelhos, terminou levando a descobrimento da verdade da ressurreição.

Em efeito, nos diz que as mulheres, e sucessivamente os Apóstolos, encontraram-se ante um ‘sinal’ particular: o sinal da vitória sobre a morte. Se o sepulcro mesmo fechado por uma pesada laje, testemunhava a morte, o sepulcro vazio e a pedra removida davam o primeiro anúncio de que ali tinha sido derrotada a morte.

Não pode deixar de impressionar a consideração do estado de ânimo das três mulheres, que dirigindo-se ao sepulcro à alvorada se diziam entre si: ‘Quem nos retirará a pedra da porta do sepulcro?’ (Mc 16, 3), e que depois, quando chegaram ao sepulcro, com grande maravilha constataram que ‘a pedra estava corrida embora era muito grande’ (Mc 16, 4). Segundo o Evangelho do Marcos encontraram no sepulcro a alguém que lhes deu o anúncio da ressurreição (Cfr. Mc 16, 5); mas elas tiveram medo e, apesar das afirmações do jovem vestido de branco, ‘saíram fugindo do sepulcro, pois um grande tremor e espanto se apoderou  delas’ (Mc 16, 8). Como não compreende-las? E entretanto a comparação com os textos paralelos de outros Evangelistas permite afirmar que, embora temerosas, as mulheres levaram o anúncio da ressurreição, da que o ‘sepulcro vazio’ com a pedra corrida foi o primeiro sinal.

9. Para as mulheres e para os Apóstolos o caminho aberto pelo ‘sinal’ conclui-se mediante o encontro com o Ressuscitado: então a percepção até tímida e incerta se converte em convicção e, mais ainda, em fé naquele que ‘ressuscitou verdadeiramente’. Assim aconteceu com as mulheres que ao ver o Jesus em seu caminho e escutar sua saudação, jogaram-se a seus pés e o adoraram (Cfr. MT 28, 9). Assim aconteceu especialmente a Maria Madalena, que ao escutar que Jesus lhe chamava por seu nome, dirigiu-lhe antes que nada o apelativo habitual: Rabbuni, Mestre! (Jo 20, 16) e quando Ele a iluminou sobre o mistério pascal correu radiante a levar o anúncio aos discípulos: ‘!Vi o Senhor!’ (Jo 20, 18). O mesmo ocorreu aos discípulos reunidos no Cenáculo que a tarde daquele ‘primeiro dia depois do sábado’, quando viram finalmente entre eles a Jesus, sentiram-se felizes pela nova certeza que tinha entrado em seu coração: ‘alegraram-se ao ver o Senhor’ (Cfr. Jo 20,19-20).

O contato direto com Cristo desencadeia a faísca que faz saltar a fé!

——————————————————————————–

As aparições do Jesus ressuscitado
S.S. João Paulo II, 22 de Fev 89

1. Conhecemos a passagem da Primeira Carta aos Coríntios, onde Paulo, o primeiro cronologicamente, anota a verdade sobre a ressurreição de Cristo: ‘Porque lhes transmiti… o que a minha vez recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras: que foi sepultado e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; que se apareceu ao Cefas e em seguida aos Doze… ‘ (1 Cor 15,3-5). Trata-se, como se vê, de uma verdade transmitida, recebida, e novamente transmitida. Uma verdade que pertence ao ‘depósito da Revelação’ que o mesmo Jesus, mediante seus Apóstolos e Evangelistas, deixou a sua Igreja.

2. Jesus revelou gradualmente esta verdade em seu ensino pré-pascal. Posteriormente esta, encontrou sua realização concreta nos acontecimentos da páscoa de Cristo em Jerusalém, certificados historicamente, mas cheios de mistério.

Os anúncios e os fatos tiveram sua confirmação sobre tudo nos encontros de Cristo ressuscitado, que os Evangelhos e Paulo relatam. É necessário dizer que o texto paulino apresenta estes encontros (nos que se revela Cristo ressuscitado) de maneira global e sintética (acrescentando ao final o próprio encontro com o Ressuscitado às portas de Damasco: Cfr. At 9,3-6). Nos Evangelhos se encontram, a respeito, notas mas bem fragmentárias.

Não é difícil tomar e comparar algumas linhas características de cada uma destas aparições e de seu conjunto para nos aproximar ainda mais ao descobrimento do significado desta verdade revelada.

3. Podemos observar acima de tudo que, depois da ressurreição, Jesus se apresenta às mulheres e aos discípulos com seu corpo transformado, feito espiritual e partícipe da glória da alma: mas sem nenhuma característica triunfalista. Jesus se manifesta com uma grande simplicidade. Fala de amigo a amigo, com os que se encontra nas circunstâncias ordinárias da vida terrena. Não quis enfrentar-se a seus adversários, assumindo a atitude de vencedor, nem se preocupou por lhes mostrar seu ‘superioridade’, e ainda menos quis fulminá-los. Nem sequer consta que se apresentou a algum deles. Tudo o que nos diz o Evangelho nos leva a excluir que se apareceu, por exemplo, ao Pilato, que o tinha entregue aos sumos sacerdotes para que fosse crucificado (Cfr. Jo 19, 16), ou a Caifás, que se tinha rasgado as vestimentas pela afirmação de sua divindade (Cfr. MT 26, 63-66).

Aos privilegiados de suas aparições, Jesus se deixa conhecer em sua identidade física: aquele rosto, aquelas mãos, aquelestraços que conheciam muito bem, aquele flanco que tinham transpassado; aquela voz, que tinham escutado tantas vezes. Só no encontro com o Paulo nas cercanias de Damasco, a luz que rodeia ao Ressuscitado quase deixa cego ao ardente perseguidor dos cristãos e o joga pelo chão (Cfr. At 9, 3-8); mas é uma manifestação do poder daquele que, já subido ao céu, impressiona a um homem ao que quer fazer um ‘instrumento de eleição’ (At 9, 15), um missionário do Evangelho.

4. É de destacar também um fato significativo: Jesus Cristo se aparece em primeiro lugar às mulheres, seus fiéis seguidoras, e não aos discípulos, e nem sequer aos mesmos Apóstolos, apesar de que os tinha eleito como portadores de seu Evangelho ao mundo. É às mulheres a quem pela primeira vez confia o mistério de sua ressurreição, as fazendo as primeiras testemunhas desta verdade. Possivelmente queira premiar sua delicadeza, sua sensibilidade a sua mensagem, sua fortaleza, que as tinha impulsionado até o Calvário. Possivelmente quer manifestar um delicado rasgo de sua humanidade, que consiste na amabilidade e na gentileza com que se aproxima e beneficia às pessoas que menos contam no grande mundo de seu tempo. É o que parece que se pode concluir de um texto do Mateus: ‘Nisto, Jesus lhes saiu ao encontro (às mulheres que corriam para comunicar a mensagem aos discípulos) e lhes disse: !Deus lhes guarde!!. E elas, aproximando-se, agarraram-se de seus pés e lhe adoraram. Então lhes diz Jesus: !Não temam. Vão e avisem a meus irmãos que vão a Galiléia; lá me verão!’ (28, 9-10).

Também o episódio da aparição a María da Magdala (Jo 20, 11-18) é de extraordinária finura já seja por parte da mulher, que manifesta toda sua apaixonada e comedida entrega ao seguimento do Jesus, já seja por parte do Mestre, que a trata com deliciosa delicadeza e benevolência.

Nesta prioridade das mulheres nos acontecimentos pascais terão que inspirá-la Igreja, que ao longo dos séculos pôde contar enormemente com elas para sua vida de fé, de oração e de apostolado.

5. Algumas características destes encontros pós-pascais os fazem, em certo modo, paradigmáticos devido às situações espirituais, que tão freqüentemente se criam na relação do homem com Cristo, quando alguém se sente chamado ou ‘visitado’ por Ele.

Acima de tudo há uma dificuldade inicial em reconhecer a Cristo por parte daqueles aos que Ele sai ao encontro, como se pode apreciar no caso da mesma Madalena (Jo 20, 14-16) e dos discípulos do Emaús (Lc 24, 16). Não falta um certo sentimento de temor ante Ele. Ama-se Lhe, busca-se Lhe, mas, no momento em que se Lhe encontra, experimenta-se alguma vacilação…

Mas Jesus lhes leva gradualmente ao reconhecimento e à fé, tanto a María Madalena (Jo 20,16), como aos discípulos do Emaús (Lc 24, 26 ss.), e, analogamente, a outros discípulos (Cfr. Lc 24, 25)48). Sinal da pedagogia paciente de Cristo ao revelar-se ao homem, ao atrai-lo, ao convertê-lo, ao levá-lo a conhecimento das riquezas de seu coração e à salvação.

6. É interessante analisar o processo psicológico que os diversos encontros deixam entrever: os discípulos experimentam uma certa dificuldade em reconhecer não só a verdade da ressurreição, mas  também a identidade daquele que está ante eles, e aparece como o mesmo mas ao mesmo tempo como outro: um Cristo ‘transformado’. Não é nada fácil para eles fazer a imediata identificação. Intuem, sim, que é Jesus, mas ao mesmo tempo sentem que Ele já não se encontra na condição anterior, e diante d’Ele estão cheios de reverência e temor.

Quando, logo, dão-se conta, com sua ajuda, de que não se trata de outro, mas sim do mesmo transformado, aparece repentinamente neles uma nova capacidade de descobrimento, de inteligência, de caridade e de fé. É como um despertar de fé: ‘Não estava ardendo nosso coração dentro de quando nos falava no caminho e nos explicava as Escrituras?’ (Lc 24, 32). ‘Meu senhor e meu Deus’ (Jo 20, 28). ‘Vi ao Senhor’ (Jo 20, 18). Então uma luz absolutamente nova ilumina em seus olhos incluso o acontecimento da cruz; e dá o verdadeiro e pleno sentido do mistério da dor e da morte, que se conclui na glória da nova vida! Este será um dos elementos principais da mensagem de salvação que os Apóstolos levaram desde o começo ao povo hebreu e, aos poucos, a todas as pessoas.

7. Terá que sublinhar uma última característica das aparições de Cristo ressuscitado: nelas, especialmente nas últimas, Jesus realiza a definitiva entrega aos Apóstolos (e à Igreja) da missão de evangelizar o mundo para lhe levar a mensagem de sua Palavra e o dom de sua graça.

Recorde-se a aparição aos discípulos no Cenáculo na tarde de Páscoa: ‘Como o Pai me enviou, também eu vos envio…’ (Jo 20, 21); e lhes dá o poder de perdoar os pecados!

E na aparição no mar do Tiberíades, seguida da pesca milagrosa, que simboliza e anuncia a fecundidade da missão, é evidente que Jesus quer orientar seus espíritos para a obra que os espera (Cfr. Jo 21,1-23). Confirma-o a definitiva atribuição da missão particular ao Pedro (Jo 21, 15)18): ‘Amas-me?… Tus sabe que te quero… Apascenta meus cordeiros…Apascenta minhas ovelhas…’.

João indica que ‘esta foi já a terceira vez que Jesus se manifestou aos discípulos depois de ressuscitar de entre os mortos’ (Jo 21,14). Esta vez, eles, não só se deram conta de sua identidade: ‘É o Senhor’ (Jo 21, 7), mas sim tinham compreendido que, tudo que tinha acontecido e acontecia naqueles dias pascais, comprometia a cada um deles (e de modo muito particular ao Pedro) na construção da nova era da história, que tinha tido seu princípio naquela manhã de páscoa.

——————————————————————————–

A ressurreição cume da Revelação
S.S. João Paulo II, 8 de março, 1989

1. Na Carta de São Paulo aos Corintios, recordada já várias vezes ao longo destas catequese sobre a ressurreição de Cristo, lemos estas palavras do Apóstolo: ‘Se não ressuscitou Cristo, vazia é nossa pregação, vazia é também sua fé’ (1 Cor 15, 14). Evidentemente, São Paulo vê na ressurreição o fundamento da fé cristã e quase a chave de abóbada de todo o edifício de doutrina e de vida levantado sobre a revelação, assim que confirmação definitiva de todo o conjunto da verdade que Cristo trouxe. Por isso, toda a pregação da Igreja, dos tempos apostólicos, através dos séculos e de todas as gerações, até hoje, refere-se à ressurreição e saca dela a força impulsora e persuasiva, assim como seu vigor. É fácil compreender o porquê.

2. A ressurreição constituía em primeiro lugar a confirmação de tudo o que Cristo mesmo tinha feito e ensinado’. Era o selo divino posto sobre suas palavras e sobre a sua vida.Ele mesmo tinha indicado aos discípulos e adversários este sinal definitivo de sua verdade. O anjo do sepulcro o recordou às mulheres a manhã do ‘primeiro dia depois do sábado’: ‘ressuscitou, como o havia dito’ (MT 28, 6). Se esta palavra e promessa sua se revelou como verdade também todas suas demais palavras e promessas possuem a potência da verdade que não passa, como O mesmo tinha proclamado: ‘O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passará’ (MT 24, 35; Mc 13, 31; Lc 21, 33). Ninguém teria podido imaginar nem pretender uma prova mais autorizada, mais forte, mais decisiva que a ressurreição de entre os mortos. Todas as verdades, também as mais inacessíveis para a mente humana, encontram, entretanto, sua justificação, inclusive no âmbito da razão, se Cristo ressuscitado deu a prova definitiva, prometida por Ele, de sua autoridade divina.

3. Assim, a ressurreição confirma a verdade de sua mesma divindade. Jesus havia dito: ‘Quando tiverem levantado (sobre a cruz) ao Filho do homem, então saberão que Eu sou’ (Jo 8, 28). Os que escutaram estas palavras queriam lapidar ao Jesus, posto que ‘EU SOU’ era para os hebreus o equivalente do nome inefável de Deus. De fato, ao pedir ao Pilato sua condenação a morte apresentaram como acusação principal a de haver-se ‘feito Filho de Deus’ (Jo 19, 7). Por esta mesma razão o tinham condenado no Sinédrio como réu de blasfêmia depois de ter declarado que era o Cristo, o Filho de Deus, depois do interrogatório do sumo sacerdote (MT 26, 63-65; Mc 14, 62; Lc 22, 70): quer dizer, não só o Messias terreno como era concebido e esperado pela tradição judia, mas sim o Messias Senhor anunciado pelo Salmo 109/110 (Cfr. MT 22, 41 ss.), o personagem misterioso vislumbrado pelo Daniel (7, 13-14). Esta era a grande blasfêmia, a imputação para a condenação a morte: o haver-se proclamado Filho de Deus! E agora sua ressurreição confirmava a veracidade de sua identidade divina e legitimava a atribuição feita a Se mesmo, antes da Páscoa, do ‘nome’ de Deus: ‘Na verdade, na verdade lhes digo: antes de que Abraão existisse, Eu sou’ (Jo 8, 58). Para essa judeus era uma pretensão que merecia a lapidação (Cfr. Lv 24, 16), e, em efeito, ‘tomaram pedras para atirar-lhe mas Jesus se ocultou e saiu do templo’ (Jo 8, 59). Mas se então não puderam lapidá-lo, posteriormente obtiveram ‘levantá-lo’ sobre a cruz: a ressurreição do Crucificado demonstrava, entretanto, que O era verdadeiramente Eu sou, o Filho de Deus.

4. Em realidade, Jesus até chamando-se a Si mesmo Filho do homem, não só tinha confirmado ser o verdadeiro Filho de Deus, mas também no Cenáculo, antes da paixão, tinha pedido ao Pai que revelasse que o Cristo Filho do homem era seu Filho eterno: ‘Pai, chegou a hora; glorifica a seu Filho para que o Filho te glorifique’ (Jo 17, 1). ‘… Me glorifique você, junto a ti, com a glória que tinha a seu lado antes que o mundo fosse’ (Jo 17, 5). E o mistério pascal foi a escuta desta petição, a confirmação da filiação divina de Cristo, e mais ainda, sua glorificação com essa glória que ‘tinha junto ao Pai antes de que o mundo existisse’: a glória do Filho de Deus.

5. No período pré-pascal Jesus, segundo o Evangelho do João, aludiu várias vezes a esta glória futura, que se manifestaria na sua morte e ressurreição. Os discípulos compreenderam o significado dessas palavras suas só quando aconteceu o fato.

Assim, lemos que durante a primeira páscoa passada em Jerusalém, depois de ter arrojado do templo aos mercados e cambistas, Jesus respondeu aos judeus que lhe pediam um ‘sinal’ do poder pelo que obrava dessa forma: ‘Destruam este Santuário e em três dias o levantarei… O falava do Santuário de seu corpo. Quando ressuscitou, pois, de entre os mortos, lembraram-se seus discípulos de que havia dito isso, e acreditaram na Escritura e nas palavras que havia dito Jesus’ (Jo 2,19-22).

Também a resposta dada pelo Jesus aos mensageiros das irmãs do Lázaro, que lhe pediam que fora a visitar o irmão doente, fazia referência aos acontecimentos pascais: ‘Esta enfermidade não é de morte, é para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela’ (Jo 11 , 4).

Não era só a glória que podia lhe reportar o milagre, tão menos quanto que provocaria sua morte (Cfr. Jo 11, 46)54); mas sim sua verdadeira glorificação viria precisamente de sua elevação sobre a cruz (Cfr. Jo 12,32). Os discípulos compreenderam bem tudo isto depois da ressurreição.

6. Particularmente interessante é a doutrina de São Paulo sobre o valor da ressurreição como elemento determinante de sua concepção cristológica, vinculada também a sua experiência pessoal do Ressuscitado. Assim, ao começo da Carta aos Romanos se apresenta: ‘Paulo, servo de Cristo Jesus, apóstolo por vocação, escolhido para o Evangelho de Deus, que havia já prometido por meio de seus profetas nas Escrituras Sagradas, a respeito de seu Filho, nascido da linhagem do David segundo a carne, constituído Filho de Deus poderoso, segundo o Espírito de santidade, por sua ressurreição de entre os mortos; Jesus Cristo, Nosso senhor’ (Rom 1, 1-4).

Isto significa que desde o primeiro momento de sua concepção humana e de seu nascimento (da estirpe do David), Jesus era o Filho eterno de Deus, que se fez Filho do homem. Mas, na ressurreição, essa filiação divina se manifestou em toda sua plenitude com o poder de Deus que, por obra do Espírito Santo, devolveu a vida a Jesus (Cfr. Rom 8, 11) e o constituiu no estado glorioso de ‘Kyrios’ (Cfr. Flp 2, 9-11; Rom 14, 9; At 2, 36), de modo que Jesus merece por um novo titulo messiânico o reconhecimento, o culto, a glória do nome eterno de Filho de Deus (Cfr. At 13, 33; Hb 1,1-5; 5, 5).

7. Paulo tinha exposto esta mesma doutrina na sinagoga da Antioquia da Pisídia, em sábado, quando, convidado pelos responsáveis pela mesma, tomou a palavra para anunciar que no cume da economia da salvação realizada na história do Israel entre luzes e sombras, Deus tinha ressuscitado de entre os mortos a Jesus, o qual se apareceu durante muitos dias aos que tinham subido com Ele desde a Galiléia a Jerusalém, os quais eram agora suas testemunhas diante do povo. ‘Também nós (concluía o Apóstolo) anunciamo-lhes a Boa Nova de que a Promessa feita aos pais Deus a cumpriu em nós, os filhos, ao ressuscitar a Jesus, como está escrito nos salmos: meu filho és Tu; eu te gerei hoje’ (At 13, 32-33; Cfr. Sal 2, 7).

Para o Paulo há uma espécie de osmose conceitual entre a glória da ressurreição de Cristo e a eterna filiação divina de Cristo, que se revela plenamente nesta conclusão vitoriosa de sua missão messiânica.

8. Nesta glória do ‘Kyrios’ se manifesta esse poder do Ressuscitado (Homem-Deus), que Paulo conheceu por experiência no momento de sua conversão no caminho de Damasco ao sentir-se chamado a ser Apóstolo (embora não um dos Doze), por ser testemunha ocular do Cristo vivo, e recebeu do a força para confrontar todos os trabalhos e suportar todos os sofrimentos de sua missão. O espírito do Paulo ficou tão marcado por essa experiência, que em sua doutrina e em seu testemunho antepor a idéia do poder do Ressuscitado a de participação nos sofrimentos de Cristo, que também lhe era grata: O que se realizou em sua experiência pessoal também o propunha aos fiéis como uma regra de pensamento e uma norma de vida: ‘Julgo que tudo é perda ante a sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor… para ganhar em Cristo e ser achado nele… e lhe conhecer o poder de sua ressurreição e a comunhão em seus padecimentos até me fazer semelhante a ele em sua morte, tratando de chegar à ressurreição de entre os mortos’ (Flp 3, 8-11). E então seu pensamento se dirige à experiência do caminho de Damasco: ‘… Tendo sido eu mesmo alcançado por Cristo Jesus’ (Flp 3, 12).

9. Assim, os textos referidos deixam claro que a ressurreição de Cristo está estreitamente unida com o mistério da encarnação do Filho de Deus: é seu cumprimento, segundo o eterno desígnio de Deus. Mais ainda, é a coroação suprema de tudo o que Jesus manifestou e realizou em toda sua vida, do nascimento à paixão e morte, com suas obras, prodígios, magistério, exemplo de uma vida perfeita, e sobre tudo com sua transfiguração. Ele nunca revelou de modo direto a glória que tinha recebido do Pai ‘antes que o mundo fosse’ (Jo 17, 5), mas sim ocultava esta glorifica com sua humanidade, até que se despojou definitivamente (Cfr. Flp 2, 7-8) com a morte em cruz.

Na ressurreição se revelou o fato de que ‘em Cristo reside toda a plenitude da Divindade corporalmente’ (Couve 2, 9; cfr. 1, 19). Assim, a ressurreição ‘completa’ a manifestação do conteúdo da Encarnação. Por isso podemos dizer que é também a plenitude da Revelação. portanto, como havemos dito, ela está no centro da fé cristã e da pregação da Igreja

——————————————————————————–

O valor salvífico da ressurreição
S.S. João Paulo II. 15 de março de 1989

1. Se, como vimos em anteriores catequeses, a fé cristã e a pregação da Igreja têm seu fundamento na ressurreição de Cristo, por ser esta a confirmação definitiva e a plenitude da revelação, também terá que acrescentar que é fonte do poder salvífico do Evangelho e da Igreja assim que integração do mistério pascal. Em efeito, segundo São Paulo, Jesus Cristo se revelou como ‘Filho de Deus podendo, segundo o espírito de santidade, por sua ressurreição de entre os mortos’ (Rom 1, 4). E Ele transmite aos homens esta santidade porque ‘foi entregue por nossos pecados e foi ressuscitado para nossa justificação’ (Rom 4, 25). Há como um duplo aspecto no mistério pascal: a morte para liberar do pecado e a ressurreição para abrir o acesso à vida nova.

Certamente o mistério pascal, como toda a vida e a obra de Cristo, tem uma profunda unidade interna em sua função redentora e em sua eficácia, mas isso não impede que possam distinguir-se seus distintos aspectos com relação aos efeitos que derivam dele no homem. Desde aí a atribuição à ressurreição do efeito específico da ‘vida nova’, como afirma São Paulo.

2. Respeito a esta doutrina terá que fazer algumas indicações que, em contínua referência os textos do Novo Testamento, permitam-nos pôr de relevo toda sua verdade e beleza.

Acima de tudo, podemos dizer certamente que Cristo ressuscitado é princípio e fonte de uma vida nova para todos os homens. E isto aparece também na maravilhosa prece do Jesus, a véspera de sua paixão, que João nos refere com estas palavra: ‘Pai… glorifica a seu Filho para que seu Filho glorifique a ti. E que segundo o poder que lhe deste sobre toda carne, dê também vida eterna a todos os que você lhe deste’ (Jo 17, 1-2). Em sua prece Jesus olha e abraça sobre tudo a seus discípulos a quem advertiu da próxima e dolorosa separação que iria se verificar mediante a sua paixão e morte, mas aos quais prometeu do mesmo modo: ‘Eu vivo e também vós vivereis (Jo 14, 19). Quer dizer: terão parte em minha vida, a qual se revelará depois da ressurreição. Mas o olhar de Jesus se estende a um rádio de amplitude universal. Diz-lhes: ‘Não rogo por estes (meus discípulos), mas também por aqueles, que por meio de sua palavra, acreditarão em mim… (Jo 17, 20): todos devem formar uma só coisa ao participar da glória de Deus em Cristo.

A nova vida que se concede aos crentes em virtude da ressurreição de Cristo, consiste na vitória sobre a morte do pecado e na nova participação na graça. Afirma-o São Paulo de forma lapidária: ‘Deus, rico em misericórdia…, estando mortos por causa de nossos delitos nos vivificou junto com Cristo’ (Ef 2, 4-5). E de forma análoga São Pedro: ‘O Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo…, por sua grande misericórdia, mediante a ressurreição do Jesus Cristo de entre os mortos nos há gerado novamente para uma esperança viva’ (1 P 1, 3).

Esta verdade se reflete no ensino paulina sobre o batismo: ‘Fomos, pois, com Ele (Cristo) sepultados pelo batismo na morte, a fim de que, ao igual a Cristo foi ressuscitado de entre os mortos por meio da glória do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova’ (Rom 6, 4).

3. Esta vida nova (a vida segundo o Espírito) manifesta a filiação adotiva: outro conceito paulino de fundamental importância. A este respeito, é ‘clássico’ a passagem da Carta aos Gálatas: ‘Enviou Deus a seu Filho… para resgatar aos que se achavam sob a lei e para que recebêssemos a filiação adotiva’ (Gal 4, 4-5). Esta adoção divina por obra do Espírito Santo, faz ao homem semelhante ao Filho unigénito: ‘…Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus’ ‘m 8, 14). Na Carta aos Gálatas São Paulo apela à experiência que têm os crentes da nova condição em que se encontram: ‘A prova de que são filhos de Deus é que Deus enviou a nossos corações o Espírito de seu Filho que clama: Abbá, Pai! De modo que já não é escravo senão filho; e se filho, também herdeiro por vontade de Deus’ (Gal 4, 6)7). Há, pois, no homem novo um primeiro efeito da redenção: a liberação da escravidão; mas a aquisição da liberdade chega ao converter-se em filho adotivo, e isso nem tanto pelo acesso legal à herança, a não ser com o dom real da vida divina que infundem no homem as três Pessoas da Trindade (Cfr. Gal 4, 6; 2 Cor 13, 13). A fonte desta vida nova do homem em Deus é a ressurreição de Cristo.

A participação na vida nova faz também que os homens sejam ‘irmãos’ de Cristo, como o mesmo Jesus chama a seus discípulos depois da ressurreição: ‘ides anunciar a meus irmãos…’ (MT 28, 10; Jo 20, 17). Irmãos não por natureza mas sim por dom de graça, pois essa filiação adotiva dá uma verdadeira e real participação na vida do Filho unigênito, tal como se revelou plenamente em sua ressurreição.

4. A ressurreição de Cristo (e, mais ainda, o Cristo ressuscitado) é finalmente principio e fonte de nossa futura ressurreição. O mesmo Jesus falou disso ao anunciar a instituição da Eucaristia como sacramento da vida eterna, da ressurreição futura: ‘que come minha carne e bebe meu sangue tem vida eterna, e eu o ressuscitarei o último dia’ (Jo 6, 54). E ao ‘murmurar’ os que o ouviam, Jesus lhes respondeu: ‘Isto lhes escandaliza? E quando vejam o Filho do homem subir aonde estava antes…?’ (Jo 6, 61-62).Desse modo indicava indiretamente que sob as espécies sacramentais da Eucaristia se dá os que a recebem participação no Corpo e Sangue de Cristo glorificado.

Também São Paulo põe de relevo a vinculação entre a ressurreição de Cristo e a nossa, sobre tudo em sua Primeira Carta aos Corintios; pois escreve: ‘Cristo ressuscitou de entre os mortos como primícia dos que morreram… Pois do mesmo modo que no Adão morrem todos, assim também todos reviverão em Cristo’ (1 Cor 15, 20-22). ‘Em efeito, é necessário que este ser corruptível se revista de incorruptibilidade e que este ser mortal se revista de imortalidade. E quando este ser corruptível se revista de incorruptibilidade e este ser mortal se revista de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: !A morte foi devorada na vitória!’ (1 Cor 15, 53-54). ‘Graças sejam dadas a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo’ (1 Cor 15, 57).

A vitória definitiva sobre a morte, que Cristo já obteve, Ele a participa à humanidade na medida em que esta recebe os frutos da redenção. É um processo de admissão à ‘vida nova’, à ‘vida eterna’, que dura até o final dos tempos. Graças a esse processo se vai formando ao longo dos séculos uma nova humanidade: o povo dos crentes reunidos na Igreja, verdadeira comunidade da ressurreição. À hora final da história, todos ressurgirão, e os que tenham sido de Cristo, terão a plenitude da vida na glória, na definitiva realização da comunidade dos redimidos por Cristo ‘para que Deus seja tudo em todos’ (1 Cor 15, 28).

5. O Apóstolo ensina também que o processo redentor, que culmina com a ressurreição dos mortos, acontece em uma esfera de espiritualidade inefável, que supera tudo o que se pode conceber e realizar humanamente. Em efeito, se por uma parte escreve que ‘a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus; nem a corrupção herda a incorrupção’ (1 Cor 15, 50) o qual é a constatação de nossa incapacidade natural para a nova vida), por outra, na Carta aos Romanos assegura aos que acreditam o seguinte: ‘Se o Espírito daquele que ressuscitou ao Jesus de entre os mortos habita em nós, Aquele que ressuscitou a Cristo de entre os mortos dará também a vida a seus corpos mortais por seu Espírito que habita em vós’ (Rom 8, 11). É um processo misterioso de espiritualização, que alcançará também aos corpos no momento da ressurreição pelo poder desse mesmo Espírito Santo que obrou a ressurreição de Cristo.

Trata-se, sem dúvida, de realidades que escapam a nossa capacidade de compreensão e de demonstração racional, e por isso são objeto de nossa fé fundada na Palavra de Deus, a qual, mediante São Paulo, faz-nos penetrar no mistério que supera todos os limites do espaço e do tempo: ‘Foi feito o primeiro homem, Adão, alma vivente; o último Adão, espírito que dá vida'(1 Cor 15, 45). ‘E do mesmo modo que levamos a imagem do homem terreno, levaremos também a imagem do celeste’ (1 Cor 15, 49).

6. Em espera dessa transcendente plenitude final, Cristo ressuscitado vive nos corações de seus discípulos e seguidores como fonte de santificação no Espírito Santo, fonte da vida divina e da filiação divina, fonte da futura ressurreição.

Essa certeza lhe faz dizer a São Paulo na Carta aos Gálatas: ‘Com Cristo estou crucificado; e não vivo eu, mas sim é Cristo quem vive em mim. A vida que vivo ao presente na carne, a vivo na fé do Filho de Deus que me amou e se entregou a si mesmo por mim’ (Gal 2, 20). Como o Apóstolo, também cada cristão, embora viva ainda na carne (Cfr. Rom 7, 5), vive uma vida já espiritualizada com a fé (Cfr. 2 Cor 10, 3), porque o Cristo vivo, o Cristo ressuscitado se converteu no sujeito de todas suas ações: Cristo vive em mim (Cfr. Rom 8, 2. 10)11;. Flp 1, 21; Couve 3, 3). E é a vida no Espírito Santo.

Esta certeza sustenta ao Apóstolo, como pode e deve sustentar a cada cristão nos trabalhos e os sofrimentos desta vida, tal como aconselhava Paulo ao discípulo Timóteo no fragmento de sua Carta com o que queremos fechar )para nosso conhecimento e consolo) nossa catequese sobre a ressurreição de Cristo: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos, descendente do David, segundo meu Evangelho… Por isso tudo suporto pelos eleitos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com a glória eterna. É certa esta afirmação: se temos morrido com Ele, também viveremos com Ele; se nos mantemos firmes, também reinaremos com Ele; se lhe negarmos, também Ele nos negará; se formos fiéis, Ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo…’ (2 Tim 2, 8-13).

‘Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado de entre os mortos’: esta afirmação do Apóstolo nos dá a chave da esperança na verdadeira vida no tempo e na eternidade.

3º Domingo da Páscoa – Ano B

Evangelho segundo São Lucas 24, 35-48
E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão. Enquanto isto diziam, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dominados pelo espanto e cheios de temor, julgavam ver um espírito. Disse-lhes, então: «Porque estais perturbados e porque surgem tais dúvidas nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho.» Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como, na sua alegria, não queriam acreditar de assombrados que estavam, Ele perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa que se coma?» Deram-lhe um bocado de peixe assado; e, tomando-o, comeu diante deles. Depois, disse-lhes: «Estas foram as palavras que vos disse, quando ainda estava convosco: que era necessário que se cumprisse tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos.» Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas.

 

Por Pe. Fernando José Cardoso

Neste terceiro domingo da Páscoa, Lucas tem duas mensagens importantíssimas a transmitir ao povo de Deus, que você faz parte também. Em primeiro lugar, Lucas mais que outros Evangelistas, insiste na corporeidade de Jesus Ressuscitado: “Tocai-me, vede, um fantasma não tem carne nem ossos como estais vendo que Eu tenho e tendes algo a comer?”. E come um peixe assado na frente de todos eles. O corpo de Jesus possui certas semelhanças ao corpo terrestre, é o mesmo Jesus, porém num outro estado, ao mesmo tempo o corpo possui propriedades novas, ele pode aparecer e desaparecer, ele pode tornar-se visível e também as mais das vezes nas nossas comunidades e diante de cada um de nós presente, porém invisível. Lucas tocava os limites da linguagem, como Paulo também ao falar de um corpo espiritual. Parece uma contradição, como pode um corpo ser espiritual, ou como poderia um espírito ser corpo, Paulo está no limite da linguagem. O nosso linguajar é um linguajar deste mundo, deste universo e nós não sabemos nos exprimir a respeito de realidades que fogem este universo; realidades que o superam, realidades que o transcendem como é o corpo de Jesus ressuscitado. Porém, Lucas falando a um auditório grego e escrevendo a pessoas que poderiam possuir uma cultura grega, platônica, para quem o que vale é a alma e não o corpo insiste na corporeidade. Jesus ressuscitado não é uma simples alma que sobrevive após a morte. A ressurreição é mais do que a imortalidade da alma, esta é a sua primeira mensagem. A segunda mensagem que o Jesus Lucano nos transmite neste terceiro domingo da Páscoa é esta: “Abriu-lhes então o entendimento para que compreendessem as escrituras, o que d’Ele estava escrito na Torá, isto é na lei de Moisés, nos profetas e nos Salmos”. Os primeiros cristãos buscaram logo uma antologia de textos, escolhidos do Antigo Testamento, que pudessem fazê-los compreender melhor o que se passava na plenitude dos tempos com Jesus morto e ressuscitado. Sem o auxilio das Escrituras, sem o auxilio do Antigo Testamento, a ressurreição de Jesus seria um simples prodígio, um simples milagre de Deus, mas sem nenhuma conexão, sem nenhuma preparação remota na história da salvação. É exatamente esta antologia de textos que de maneira velada, mas suficiente, já os antecipavam, que possibilitou a primeira geração cristã, e nós também conhecermos o plano de Deus e inserir a ressurreição de Jesus dentro deste plano na plenitude da história. Hoje você tem os dois Testamentos. E como diz Santo Agostinho: o Novo se esconde no Antigo, o Antigo se aclara no Novo. Leve a sério a Palavra de Deus, leve a sério a Sagrada e Escritura, a Antiga e o Novo Testamento, e repita a experiência da primeira comunidade cristã, lá buscando os traços antecipados de Jesus.

 

«Sou Eu mesmo. Tocai-me»
São Gregório Magno (c. 540-604), papa e Doutor da Igreja
Homilias sobre os Evangelhos, n°26; PL 76,1197 (trad. Barroux rev.; cf. Delhougne, p. 204).

Como é que o corpo do Senhor, uma vez ressuscitado, continuou a ser um corpo verdadeiro, podendo, ao mesmo tempo, entrar no local onde os discípulos se encontravam, apesar de as portas estarem fechadas? Devemos estar cientes de que a ação divina não teria nada de admirável se a razão humana a pudesse compreender e que a fé não teria mérito se o intelecto lhe fornecesse provas experimentais. Sendo, por si mesmas, incompreensíveis, tais obras do nosso Redentor devem ser meditadas à luz das outras ações do Senhor, de tal forma que sejamos levados a acreditar nestes Seus feitos maravilhosos por força daqueles que ainda o são mais. Porque o corpo do Senhor, que se juntou aos discípulos não obstante estarem as portas fechadas, é o mesmo que a Natividade tornou visível aos homens, ao sair do seio fechado da Virgem. Por isso, não vale a pena ficarmos admirados de que o nosso Redentor, após ressuscitado para a vida eterna, tenha entrado, estando embora as portas fechadas, porque, tendo vindo ao mundo para morrer, saiu do seio da Virgem, sem o abrir. E, como a fé daqueles que O viam permanecia hesitante, o Senhor fê-los tocar essa carne que Ele fizera atravessar portas fechadas […]. Ora, aquilo que podemos tocar é necessariamente corruptível, e o que não é corruptível é intocável. Porém, após a Sua ressurreição, o nosso Redentor deu-nos a possibilidade de ver, de uma forma maravilhosa e incompreensível, um corpo, a um tempo, incorruptível e palpável. Mostrando-o incorruptível, convidava-nos à recompensa; dando-o a tocar, confirmava-nos na fé. Assim, fez com que O víssemos tão incorruptível como palpável, para manifestar, firmemente, que o Seu corpo ressuscitado continuava a ter a mesma natureza mas tinha sido elevado a uma glória absolutamente diferente.

 

III Domingo de Páscoa – B
Atos 3, 13-15. 17-19; I João 2, 1-5a; Lucas 24, 35-48
Em verdade ressuscitou!

O Evangelho permite-nos assistir a uma das muitas aparições do Ressuscitado. Os discípulos de Emaús acabam de chegar cansados a Jerusalém e estão relatando o que lhes ocorreu no caminho, quando Jesus em pessoa aparece no meio deles: «A paz esteja convosco». Em um primeiro momento, medo, como se vissem um fantasma; depois, estupor, incredulidade, finalmente alegria. E mais, incredulidade e alegria por sua vez: «Por causa da alegria, não podiam acreditar ainda, assustados». A deles é uma incredulidade de todo especial. É a atitude de quem já crê (senão não haveria alegria), mas não se sabe dar conta. Como quem diz: muito belo para ser certo! Podemos chamá-la, paradoxalmente, de uma fé incrédula. Para convencer-lhes, Jesus lhes pede algo de comer, porque não há nada como comer algo juntos que conforte e crie comunhão. Tudo isto nos diz algo importante sobre a ressurreição. Este não é só um grande milagre, um argumento ou uma prova a favor da verdade de Cristo. É mais. É um mundo novo no qual se entra com a fé acompanhada de estupor e alegria. A ressurreição de Cristo é a «nova criação». Não se trata só de crer que Jesus ressuscitou, trata-se de conhecer e experimentar «o poder da ressurreição» (Filipenses 3, 10). Esta dimensão mais profunda da Páscoa é particularmente sentida por nossos irmãos ortodoxos. Para eles, a ressurreição de Cristo é tudo. No tempo pascal, quando encontram alguém, saúdam-no, dizendo: «Cristo ressuscitou!», e o outro responde: «Em verdade ressuscitou!». Este costume está tão enraizado no povo que se conta esta anedota ocorrida no começo da revolução bolchevique. Havia-se organizado um debate público sobre a ressurreição de Cristo. Primeiro havia falado o ateu, demolindo para sempre, em sua opinião, a fé dos cristãos na ressurreição. Ao baixar, subiu ao palanque o sacerdote ortodoxo, que devia falar em defesa. O humilde padre olhou a multidão e disse simplesmente: «Cristo ressuscitou!». Todos responderam em coro, antes ainda de pensar: «Em verdade ressuscitou!». E o sacerdote desceu em silêncio do palanque. Conhecemos bem como é representada a ressurreição na tradição ocidental, por exemplo, em Piero della Francesca. Jesus que sai do sepulcro erguendo a cruz como um estandarte de vitória. O rosto inspira uma extraordinária confiança e segurança. Mas sua vitória é sobre seus inimigos exteriores, terrenos. As autoridades haviam posto selos em seu sepulcro e guardas para vigiar, e eis aqui as trancas rompem-se e os guardas dormem. Os homens estão presentes a sós como testemunhas inertes e passivas; não tomam parte verdadeiramente na ressurreição. Na imagem oriental, a cena é totalmente diferente. Não se desenvolve a céu aberto, mas sob a terra. Jesus, na ressurreição, não sai, mas desce. Com extraordinária energia toma da mão a Adão e Eva, que esperam no reino dos mortos, e os arrasta consigo para a vida e a ressurreição. Detrás dos dois pais, uma multidão incontável de homens e mulheres que esperam a redenção. Jesus pisoteia as portas dos infernos que acaba de desencaixar e quebrar Ele mesmo. A vitória de Cristo não é tanto sobre os inimigos visíveis, mas sobre os invisíveis, que são os mais tremendos: a morte, as trevas, a angústia, o demônio. Nós estamos envolvidos nesta representação. A ressurreição de Cristo é também nossa ressurreição. Cada homem que olha é convidado a identificar-se com Adão, cada mulher com Eva, e a estender sua mão para deixar-se aferrar e arrastar por Cristo fora do sepulcro. É este o novo e universal êxodo pascal. Deus veio «com braço poderoso e mão estendida» para libertar seu povo de uma escravidão muito mais dura e universal que a do Egito.

 

O terceiro domingo da Páscoa é ainda um domingo de aparições. No ciclo B, neste domingo, toma-se como perícope evangélica a narração de São Lucas sobre a aparição aos Apóstolos. É o único texto que não é de São João em toda Cinquentena Pascal, com exceção do dia da Ascensão. A semelhança da narração de São Lucas com a narração de São João (proclamada no domingo passado) pode originar o perigo da repetição. Então, seria melhor destacar na homilia aquilo que não se fez referência com o texto de São João. Para tal, ajudar-nos-ão as outras leituras. A 1ª Leitura é um fragmento do discurso de Pedro depois de um paralítico ter sido curado. Neste texto, encontramos três afirmações relacionadas com a morte e a ressurreição de Jesus: a) os Apóstolos são testemunhas do que anunciam; b) com as ações dos perseguidores, foram cumpridas as Escrituras; c) toda a humanidade é convidada ao arrependimento e à conversão. A 2ª Leitura apresenta-nos Jesus Cristo Ressuscitado como o “Defensor” dos pecadores junto do Pai. Isto não é motivo para continuar a pecar, mas para corresponder com amor e fidelidade à Palavra de Jesus Cristo. Tendo em conta as leituras, a “temática” da homilia poderia recair na segunda parte da narração: a) o cumprimento das Escrituras no mistério pascal de Cristo; b) a missão da Igreja de pregar em todo o mundo a conversão e o perdão dos pecados; c) a missão dos Apóstolos, como testemunhas da ressurreição. Este domingo é uma boa ocasião para salientar a força da assembléia dominical como experiência e ponto de partida para a missão da Igreja. A Liturgia da Palavra fala-nos sempre do mistério de Cristo. E a pregação deverá ser feita de tal modo que faça ver como as Escrituras nos orientam sempre para Cristo. O mistério de Cristo é “para nós, homens, e para a nossa salvação”. Por isso, o arrependimento e o perdão dos pecados são elementos intrínsecos à mensagem evangélica. Aos membros da assembléia dominical pede-se uma atitude de conversão, de confissão e de arrependimento dos pecados (um retorno batismal). Os Apóstolos são enviados como testemunhas desta realidade. É isto que tem feito a Igreja, através dos tempos com a pregação e a celebração dos sacramentos. O perdão dos pecados (no batismo e na penitência) é o fruto da Páscoa de Cristo. É interessante salientar as referências que se fazem nas orações eucológicas (orações do Missal Romano) do tempo pascal a esta ação da Igreja no mundo. O texto litúrgico é uma pauta para modelar as nossas ações e para fazer surgir uma participação que esteja em harmonia com o que se diz na liturgia: “Mens concordet voci”, “que o nosso interior e o nosso espírito estejam em sintonia com o que dizemos”. Nas orações deste domingo, pedimos: “Exulte sempre o vosso povo, Senhor, com a renovada juventude da alma, de modo que, alegrando-se agora por se ver restituído à glória da adoção divina, aguarde o dia da ressurreição na esperança da felicidade eterna” (Coleta); na Oração sobre as Oferendas, rezamos: “Aceitai, Senhor, os dons da vossa Igreja em festa. Vós que lhe destes tão grande felicidade, fazei-a tomar parte na alegria eterna. Na Oração Depois da Comunhão, pede-se para que o povo fiel, como fruto da comunhão eucarística, alcance também “a gloriosa ressurreição da carne”. Também podemos aqui fazer referência à frase que se repete nos Prefácios Pascais: “na plenitude da alegria pascal, exultam os homens por toda a terra”. Não se trata de uma alegria “fabricada”, mas de pedir ao Senhor a alegria (contemplação e gratidão) dos Apóstolos. Os primeiros cristãos de Jerusalém também sentiam esta alegria, quando “celebravam a fração do pão”. Procuremos celebrar assim também.

Solenidade da Anunciação do Senhor – 25 de Março/09 de Abril

Por Pe. Fernando José Cardoso

Evangelho segundo São Lucas 1, 26-38
Ao sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de David; e o nome da virgem era Maria. Ao entrar em casa dela, o anjo disse-lhe: «Salve, ó cheia de graça, o Senhor está contigo.» Ao ouvir estas palavras, ela perturbou-se e inquiria de si própria o que significava tal saudação. Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo. O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim.» Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus.» Maria disse, então: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.» E o anjo retirou-se de junto dela.

Hoje, 25 de março (04 de abril), estamos a exatos nove meses do Natal, e neste dia a Igreja celebra a solenidade da Anunciação do anjo Gabriel à virgem Maria e a encarnação do Verbo de Deus em seu Seio.
Nós estamos acostumados a chamar este dia, o dia do “Fiat”, isto é, o dia do faça-se, pois Maria – diz-nos Lucas – no final da visita do anjo, diz a única frase que cada um de nós gostaria encerrasse toda a sua vida cristã: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a sua palavra”.
Desta maneira Deus pediu o consentimento de Maria, para conduzi-la nas estradas da aventura da salvação do gênero humano. Deus é respeitoso da dignidade humana. Mas não foi só Maria quem disse “Eis a serva, faça-se em mim, estou pronta a me deixar conduzir pelo caminho que Deus tiver designado para mim”, Jesus também teve o seu “Fiat”, Ele disse faça-se.
O autor da Carta aos Hebreus no texto que hoje se lê como segunda leitura, nos faz ouvir o seguinte: “Ao entrar no mundo, Cristo disse sacrifícios e oblações pelos pecados, não foram do vosso agrado, mas vós me preparaste um corpo, eis que venho então Oh Deus, para fazer a Vossa vontade”.
Maria se abre espontaneamente para a vontade de Deus, e Jesus Cristo afirma ao entrar no mundo, que não tem outro desejo, a não ser realizar a vontade de Deus. Quando duas vontades humanas se abriram para a vontade divina, o Pai realizou a maravilha da Salvação do gênero humano. Nós também somos convidados a aceitar, a dar o consentimento àquele plano que Deus tem para com cada um de nós, aquele sonho que Deus tem para cada um de seus eleitos.
Cada um de nós hoje é convidado a dizer, como Jesus e como Maria: “Eis-me aqui, estou pronto para me deixar conduzir, não conheço de forma alguma, não sei o que me acontecerá, mas estou pronto e sou generoso”. Quanto mais cristãos se abrirem a esta generosidade, e quanto maior for o número daqueles cristãos e católicos que disserem o sim a Deus, sem reservas, maiores serão os Dons, maiores serão os prêmios, as graças que Ele derrama agora sobre o gênero humano, sobre as nossas famílias, sobre a sua paróquia, sobre a sua comunidade.
Saiba hoje, como Jesus e Maria, generosamente dizer: “Eis-me aqui, eu também estou pronto Oh Deus, para fazer a vossa vontade”.

 

«PORQUE ME FEZ GRANDES COISAS, O ONIPOTENTE» (Lc 1, 49)
Santo Efrém (c. 306-373), diácono na Síria, Doutor da Igreja
Homilias sobre a Mãe de Deus, 2, 93-145; CSCO 363 e 364, 52-53
(trad. Delhougne, Les Pères commentent, p. 481 rev.)

Contemplai Maria, bem-amados, vede como Gabriel entrou em sua casa e como, à sua objeção, «Como será isso?», o servo do Espírito Santo deu a seguinte resposta: «Nada é impossível a Deus, para Ele tudo é simples.» Considerai como ela acreditou no que ouvira e disse: «Eis a serva do Senhor.» Desde logo o Senhor desceu, de uma forma que só Ele conhece; pôs-Se em movimento e veio como Lhe agradava; entrou nela sem que ela o sentisse e ela acolheu-O sem ter qualquer sofrimento. Ela trazia em si, como uma criança, Aquele de que o mundo está cheio. Ele desceu para ser o modelo que renovaria a imagem antiga  de Adão. É por essa razão que, quando te anunciam o nascimento de Deus, deves manter-te em silêncio. Que a palavra de Gabriel esteja presente no teu espírito, pois nada é impossível a esta gloriosa Majestade que desceu por nós e que nasceu da nossa humanidade. Nesse dia, Maria tornou-se para nós o céu que contém Deus, pois a Divindade sublime desceu e fez dela a Sua morada. Nela, Deus fez-se pequeno – mas sem enfraquecer a Sua natureza – para nos fazer crescer. Nela, Ele teceu-nos uma veste com a qual nos salvaria. Nela cumpriram-se todas as palavras dos profetas e dos justos. Dela se elevou a luz que expulsou as trevas do paganismo. Numerosos são os títulos de Maria […]: ela é o palácio no qual habitou o poderoso Rei dos reis, mas Ele não a deixou como viera, pois foi dela que Ele se fez carne e que nasceu. Ela é o novo céu no qual o Rei dos reis habitou; nela elevou-se Cristo e dela subiu para iluminar a criação, formada e talhada à Sua imagem. Ela é a cepa de vinha que deu uvas; ela gerou um fruto superior à natureza; e Ele, se bem que diferente dela pela Sua natureza, vestiu a sua cor quando nasceu dela. Ela é a fonte da qual brotaram as águas vivas para os sequiosos e aqueles que aí se dessedentam dão frutos a cem por um.

 

NOVENA EM HONRA DA GESTAÇÃO DE MARIA
Convido você a rezá-la junto comigo.
Faremos a oração abaixo todos os dias 25 – iniciando no dia de hoje – durante os noves meses de ‘gestação’ da Virgem Maria.

Oh! Virgem Santa Imaculada, sem mancha, vós preparastes em vosso seio virginal a morada do Filho de Deus. Eu me envergonho de aparecer diante de vós. Desejo que o Filho de Deus, o qual quis nascer de vós, renasça espiritualmente em mim e me conceda esta graça de que tanto necessito (dizer a graça). Prostro-me a vossos pés, oh,  Santa Mãe de Deus, e debaixo do vosso olhar terno, doce e puro, das vossas mãos benditas e de vosso manto sagrado, eu vos louvo e bendigo, e entrego a minha vida. Reverencio-vos por todas as horas dizendo: Bendita seja, oh, Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, Santa Mãe de Deus. Amém!
Rezam-se 23 Ave-Marias e 24 jaculatórias como esta:
Bendita seja, oh, a Santa Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, Santa Mãe de Deus. Amém!
(Retirada do livro Sofrer e Amar de Luzia Santiago, páginas 66 e 67)

 

NOSSA SENHORA DA MATERNIDADE
Servo de Deus Fulton John Sheen (1895-1979)

Há neste público alguma mãe cujo filho se tenha distinguido nos campos de batalha ou na sua profissão? Se há, nós lhe pedimos faça saber aos outros que o respeito havido para com ela não diminui, de modo algum, a honra ou a dignidade devidas ao seu filho. Por que há de então haver quem pense que todo o ato de reverência praticado para com a Mãe de Jesus diminui o poder dele e a sua divindade? Eu conheço a falsidade… do ignorante que afirma que os católicos adoram Maria ou fazem dela uma deusa; mas tal afirmação é uma mentira e, uma vez que neste público ninguém quererá tornar-se culpado de tamanha estupidez, não farei mais do que ignorar semelhante acusação.
Sabeis vós donde provém, na minha opinião, esta frieza e esquecimento para com a bendita Mãe, Nossa Senhora? Do fato de não advertirem que o seu Filho, Jesus, é o eterno filho de Deus. No momento em que colocam o Nosso Divino Senhor ao mesmo nível de Júlio César ou de Karl Marx, de Buda ou de Darwin, isto é, como simples homem, então o pensamento de especial reverência a sua Mãe como se fosse diferente das nossas mães, torna-se, sem dúvida, repelente.
Toda a pessoa pode dizer: Eu tenho a minha mãe, e a minha vale tanto como a vossa. É por esta razão que se tem escrito pouco sobre as mães dos grandes homens, porque cada mãe é considerada a melhor. Nenhuma mãe dum mortal tem o direito de ser mais amada do que qualquer outra mãe. Por isso mesmo nenhum filho lembraria que se escolhesse a mãe de outrem como a Mãe das mães.
Consideremos o caso de São João Batista. Disse Nosso Senhor: “Ele é o homem maior que jamais foi gerado no seio duma mulher”. Suponde que se iniciava um culto para honrar sua mãe Isabel como superior a todas as outras mães: qual de nós se não revoltaria considerando isto um exagero, pelo fato de João Batista ser um simples homem? Se Nosso Senhor fosse apenas um homem, ou um reformador moral, ou um sociólogo, eu seria o primeiro a partilhar do ressentimento do mais fanático ao ouvir que a mãe de Jesus era diferente de todas as outras mães.
O 4ª Mandamento diz: “Honra teu pai e tua mãe”, mas não diz que se honre a mãe de Gandhi ou o pai de Napoleão. Contudo o Mandamento que nos manda honrar o nosso pai não nos impede de adorarmos o Pai Celeste. Se o Pai Celeste manda o seu Filho a esta terra, então o Mandamento segundo o qual devemos honrar a nossa mãe da terra, não nos proíbe que veneremos a Mãe do Filho de Deus. Se Maria fosse apenas a Mãe de outro homem, Ela não poderia ser também mãe nossa, porque os vínculos da carne são exclusivos demais para permitirem tal coisa. A carne só admite uma mãe. É bastante comprido o passo que separa uma mãe duma madrasta, e bem poucos são os que podem dar esse passo. O Espírito, pelo contrário, admite uma outra mãe.
Como Maria é a Mãe de Deus, Ela pode ser igualmente a Mãe de todo aquele que Cristo remiu. O segredo para compreender Maria é este: o ponto de partida não é Maria, é Cristo, o Filho de Deus! Quanto menos penso nele, menos penso nela; quanto mais penso nele, mais penso nela; quando mais adoro a divindade de Cristo, mais venero a maternidade de Nossa Senhora; quanto menos adoro a divindade de Cristo, menos razão tenho para respeitar Nossa Senhora. Estou certo de que não mais quereria nem sequer ouvir pronunciar o nome dela se me tivesse tornado tão perverso que não acreditasse em Cristo, Filho de Deus!
Jamais encontrareis alguém que, amando verdadeiramente Nosso Senhor como Divino Salvador, não ame Maria. É o seu Filho que torna a sua maternidade diferente.
Recordo-me dum rapazinho numa nossa escola paroquial, que falava de Nossa Senhora a um professor, seu vizinho. O professor, um intelectual, um daqueles em quem há mais instrução do que inteligência, estava zombando do rapazito, dizendo-lhe: “Mas não há diferença alguma entre Ela (Nossa Senhora) e a minha mãe!” “Isso diz o senhor — respondeu o pequeno — olhe que há uma enorme diferença entre os filhos”.
Magnífica resposta! Ela não é uma pessoa “privada, particular”; todas as outras o são. Não fomos nós que a fizemos diferente: encontramo-la diferente. Não fomos nós que escolhemos Maria: foi Ele que a escolheu. Procuremos imaginar Jesus e sua Mãe. Cristo é medianeiro entre Deus e a humanidade; Ela é a medianeira entre Cristo e nós. Em primeiro lugar, Nosso Senhor é o medianeiro entre Deus e o homem.
Um medianeiro é como uma ponte que une as margens dum rio, com a diferença de que aqui a ponte está entre o céu e a terra. Do mesmo modo que vós não podeis tocar no telhado sem o auxílio duma escada, assim o homem pecador não poderá atingir Deus sem o auxílio de um que é ao mesmo tempo Deus e homem. Como homem, Ele poderia intervir em nosso nome, carregar com os nossos pecados; como Deus, todas as suas palavras, milagres e morte teriam um valor infinito, e Ele poderia, por conseguinte recuperar mais do que aquilo que perdemos. Deus tornou-se homem sem deixar de ser nem Deus nem homem, e é, portanto nosso medianeiro, nosso Salvador, nosso Divino Senhor.
E agora falemos de Maria. Ela é a medianeira entre Cristo e nós. Ao estudarmos a vida divina de Cristo, ao vermos que Ele foi o primeiro fugitivo perseguido por um governo cruel, que trabalhou como carpinteiro, ensinou e remiu, nós sabemos que tudo começou quando Ele assumiu a natureza humana e se tornou homem. Se Ele nunca se tivesse tornado homem, jamais teríamos ouvido o seu sermão da Montanha, nem o teríamos nunca ouvido perdoar aos que lhe trespassaram as mãos e os pés, pregando-o na cruz.
Maria deu a Nosso Senhor a natureza humana. Ele pediu-lhe, a Ela, que lhe desse uma vida humana, que lhe desse mãos para abençoar as crianças, pés para ir em busca das ovelhinhas perdidas, olhos para chorar os amigos falecidos, e um corpo com o qual sofresse para poder dar-nos uma ressurreição em liberdade e amor. Através dela, Ele tornou-se a ponte entre o Divino e o humano. Deus não se fez homem sem Ela! Sem Ela, não mais teríamos Nosso Senhor! Se tendes um cofre em que guardais o dinheiro, sabeis que a coisa a que sempre deveis prestar atenção e à chave. Vós não pensais que a chave seja o dinheiro; mas sabeis que sem a chave não podeis ter o dinheiro.
Pois bem, Nossa Senhora é como esta chave. Sem ela, não podíamos ter Nosso Senhor, porque Ele veio-nos por seu intermédio. Ela não deve ser comparada com Nosso Senhor, porque é uma criatura e Ele é o Criador! Mas se a perdêssemos, não podíamos chegar até Ele. Eis a razão pela qual nós lhe prestamos tanta atenção; sem Ela nunca poderíamos compreender como foi construída a ponte entre o céu e a terra! Vós podeis objetar: “O Senhor me basta, não preciso dela” No entanto Ele teve necessidade dela. E, o que mais importa, Nosso Senhor disse que nós tínhamos necessidade dela, porque nos deu sua Mãe como nossa Mãe.
Naquela sexta-feira que os homens chamam Santa, quando Cristo foi içado naquela cruz como estandarte da nossa salvação, Ele baixou o olhar sobre as duas criaturas mais preciosas que tinha na terra: sua Mãe e João, o seu discípulo amado. Na primeira noite, durante a última Ceia, deixou-nos as suas últimas vontades, dando-nos aquilo que nenhum homem ao morrer jamais pôde dar, isto é, a si mesmo na Santa Eucaristia. Desse modo Ele ficaria conosco — como Ele disse — “sempre, até a consumação dos séculos”. Agora, nas escuras sombras do Calvário, Ele acrescenta um codicilo ao seu testamento. Ali, ao pé da cruz, não prostrada mas, como observa o Evangelho, de pé, estava sua Mãe. Como filho, pensou em sua Mãe; como Salvador, em nós. Assim nos deu sua Mãe, dizendo: “Eis aí a tua Mãe”. E dirigindo-se a Ela, tratou-a com o título duma maternidade universal: “Mulher” e recomendou-lhe a cada um de nós: “Eis aí o teu filho”.
Finalmente é clara a descrição do seu nascimento apresentada no Evangelho: Maria “deu à luz o seu primogênito e reclinou-o numa manjedoura”. O seu primogênito. São Paulo chama-lhe “o primogênito de todas as criaturas”. Quererá isto significar que Ela tem outros filhos? Sem dúvida! Mas não carnalmente, porque Jesus era seu Filho único; Ela havia de ter outros espiritualmente, e de entre estes, João é o primeiro aos pés da cruz, Pedro talvez o segundo, Tiago o terceiro e nós o milionésimo dos milhões de filhos.
Ela deu à luz “na alegria” a Cristo que nos remiu; depois deu-nos à luz na dor, a nós a quem Cristo remiu. Não figuradamente, não metaforicamente, mas em virtude de dores de parto, tornamo-nos filhos de Maria, irmãos de Jesus Cristo. Assim como nós não afastamos do pensamento que Deus nos dá o Pai, por forma a podermos rezar “Pai nosso”, assim não recusamos o dom da sua Mãe. Podemos mesmo rezar-lhe e invocá-la: Mãe nossa! Assim a queda do homem é reabilitada por uma outra árvore, a Cruz: por um outro Adão, Cristo; e por uma outra Eva, Maria.
A uma estátua que representa uma mãe segurando um filhinho não se pode tirar a mãe, na persuasão de conservar o filho. Eliminar a Mãe é arruinar o Filho. Todas as religiões do mundo se perdem em mitos e lendas com exceção do Cristianismo. Cristo está separado de todos os deuses do paganismo, porque está ligado à mulher e à história. “Nasceu da Virgem, padeceu sob Pôncio Pilatos”. Conventry Patmore chama justamente a Maria: “a nossa única salvadora com um Cristo abstrato”.
É mais fácil compreender-se Cristo manso e humilde de coração contemplando a sua Mãe. Ela detém todas as grandes verdades do Cristianismo, como um pau que tem ligado a si o papagaio. As crianças enrolam o fio do papagaio em volta dum pau e deixam-no depois desenrolar-se quando o papagaio se ergue nos ares. Maria é como esse pedaço de madeira. À sua volta estão todos os precisos liames das grandes verdades da nossa santa Fé: a Encarnação, a Eucaristia, a Igreja.
Por mais que nos afastemos da terra como o papagaio, temos sempre necessidade de Maria para termos unidas as doutrinas do Credo. Se largarmos o pedacinho de madeira, não mais teremos papagaio; se nos tirarem Maria, não mais teremos Nosso Senhor. Ele perder-se-ia no céu, como o papagaio, e isso seria terrível para nós na terra. Ela não nos impede de honrarmos Nosso Senhor.
Não há nada mais cruel do que dizer: Ela afasta as almas de Cristo. Equivaleria a dizer que Nosso Senhor escolheu uma Mãe egoísta. Ele que é o próprio amor! Eu não duvido afirmar-vos que, se Ela me tivesse afastado de seu Filho, renegá-la-ia. Se eu chegasse a vossa casa e me recusasse a falar a vossa mãe, poderíeis vós acreditar que eu era vosso amigo? E que há de sentir Nosso Senhor por aqueles que nunca honram a sua Mãe? Não é Ela, a Mãe de Jesus, suficientemente boa para vós? Nunca teríamos possuído o nosso Divino Senhor, se Ele a não tivesse escolhido. Se no dia de juízo Nosso Senhor não tivesse outra acusação a fazer-me senão que eu amara demasiadamente sua Mãe, que feliz eu seria!
Assim como o nosso amor não começa com Maria, assim também não termina com Maria. Maria é a janela através da qual a nossa humanidade tem uma primeira visão da divindade sobre a terra. Ela é talvez antes uma lente de aumentar, que intensifica o nosso amor pelo seu Filho e torna as nossas orações mais ardentes e vivas! Deus, que fez o sol, fez também a lua. A lua não tira o esplendor ao sol. A lua seria somente um corpo sem luz, vagueando na imensidade do espaço, se não existisse o sol. Toda a sua luz é refletida do sol.
A bendita Mãe reflete o  seu Divino Filho. Sem Ele, Ela é nada. Nas noites escuras, sentimo-nos gratos para com a lua. Quando a vejo brilhar, sei que deve existir o sol. Também nesta escura noite da vida, quando os homens voltam as costas Àquele que é a luz do mundo, nós olhamos para Maria, a fim de que Ela guie os nossos passos enquanto aguardamos o alvorecer. Pedi-vos que fizésseis esta experiência. Aqui me dirijo em especial a três grupos: os que desesperam, os pecadores e os confundidos; os que esgotaram todos os recursos humanos em busca da paz; os que estão cansados da vida e experimentam um profundo sentimento de vergonha e de culpa; e os que estão sem fé, cansados, céticos e cínicos. Começai a recitar o terço durante trinta dias.
Não respondais: “Mas como posso eu rezar, se não creio?” Se vos tivésseis perdido na floresta e não esperásseis que ali perto houvesse alguém, mesmo assim não deixaríeis, com certeza, de gritar. Pois bem, principiai a orar. Ficareis surpreendidos. Maria responder-vos-á, eu vo-lo prometo. Nas guerras há soldados que morrem nos campos de batalha; muitos deles gritam no seu último desesperado desejo. “Quero a minha mãe”. O maior de todos os soldados, ao morrer no campo de batalha do Calvário, não sentiu o impulso da natureza e deu uma maior prova de amor com o dar-nos sua Mãe: “Eis aí a tua Mãe”.
Possa cada um de nós, nestes dias de guerra e de ódio, quando todos os meios humanos faliram, gritar à nossa Mãe Celeste: “Mãe de Jesus, eu amo-te, eu quero-te. Intercede junto do teu Divino Filho pela paz do mundo”. No amor de Jesus!

 

25 DE MARÇO – ANUNCIAÇÃO DO SENHOR

Solenidade

– Verdadeiro Deus e perfeito homem.

– A culminância do amor divino.

– Conseqüências da Encarnação na nossa vida.

A Igreja celebra hoje o mistério da Encarnação do Verbo de Deus e, ao mesmo tempo, a vocação de Nossa Senhora, que conhece através do Anjo a vontade de Deus a respeito dela. Com a sua correspondência – o seu fiat, faça-se – tem início a Redenção. Esta solenidade, tanto nos calendários mais antigos como no atual, é uma festa do Senhor. No entanto, os textos referem-se especialmente à Virgem, e durante muitos séculos foi considerada uma festa mariana. A tradição da Igreja reconhece um estreito paralelismo entre Eva, mãe de todos os viventes, cuja desobediência deu entrada ao pecado no mundo, e Maria – a nova Eva –, Mãe da humanidade redimida, por quem chegou a Vida ao mundo: Jesus Cristo Nosso Senhor.

A data de hoje, 25 de março, fixada para esta festa, está relacionada com o Natal; além disso, conforme uma antiga tradição, deviam coincidir no equinócio da primavera a criação do mundo e o início e o fim da Redenção. Nos anos em que coincide com algum dia da Semana Santa, costuma ser transferida para a segunda-feira da segunda semana do Tempo Pascal.

I. CHEGADA A PLENITUDE DOS TEMPOS, Deus enviou o seu Filho ao mundo, nascido de uma mulher1.

Como culminância do seu amor por nós, Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigênito, que se fez homem para nos salvar e nos dar a incomparável dignidade de filhos. Com a sua vinda, podemos afirmar que chegou a plenitude dos tempos.

São Paulo diz literalmente que Jesus nasceu de uma mulher2. Não apareceu na terra como uma visão fulgurante: fez-se realmente homem, como nós, assumindo a natureza humana nas entranhas puríssimas da Virgem Maria. A festa de hoje é propriamente não só de Jesus como de sua Mãe. Por isso, “em primeiro lugar – diz frei Luís de Granada –, é preciso pôr os olhos na pureza e santidade desta Senhora que Deus escolheu ab aeterno para tomar carne dela.

“Porque assim como, quando decidiu criar o primeiro homem, lhe preparou primeiro a casa que deveria habitar, que foi o Paraíso terreal, assim, quando quis enviar ao mundo o segundo, que foi Cristo, primeiro preparou-lhe o lugar em que hospedar-se: que foi o corpo e a alma da Sacratíssima Virgem”3. Deus preparou a morada do seu Filho, Santa Maria, com a maior dignidade criada, com todos os dons possíveis e cumulando-a de graça.

Nesta Solenidade, Jesus aparece mais unido do que nunca a Maria. Quando Nossa Senhora deu o seu consentimento, “o Verbo Divino assumiu a natureza humana: a alma racional e o corpo formado no seio puríssimo de Maria. A natureza divina e a natureza humana uniram-se numa única pessoa: Jesus Cristo, verdadeiro Deus e, desde então, verdadeiro homem; Unigênito eterno do Pai e, a partir daquele momento, como Homem, filho verdadeiro de Maria. Por isso Nossa Senhora é Mãe do Verbo encarnado, da segunda Pessoa da Santíssima Trindade que uniu a si para sempre – sem confusão – a natureza humana. Podemos dizer bem alto à Virgem Santa, como o melhor dos louvores, estas palavras que expressam a sua mais alta dignidade: Mãe de Deus”4. Quantas vezes não teremos repetido: Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós…!

II. E O VERBO SE FEZ CARNE e habitou entre nós…5

Ao longo dos séculos, houve santos e teólogos que, para compreenderem melhor o mistério, refletiram sobre as razões que poderiam ter levado Deus a tomar uma decisão tão extraordinária.

De maneira nenhuma era necessário que o Filho de Deus se fizesse homem, nem sequer para redimi-lo, pois Deus – como afirma São Tomás de Aquino – “podia restaurar a natureza humana de muitas maneiras”6. A Encarnação é a manifestação suprema do amor divino pelo homem, e só a imensidão desse amor a pode explicar. Tanto amou Deus o mundo que lhe enviou o seu Filho Unigênito…7, o objeto único do seu Amor. Com esse aniquilamento, Deus tornou mais fácil o diálogo do homem com Ele. Mais ainda: toda a história da salvação é a história da busca deste encontro por parte de Deus, até que culmina na Encarnação. O Emmanuel, o Deus conosco, tem, pois a sua máxima expressão no acontecimento que hoje nos cumula de alegria.

O Filho Unigênito de Deus faz-se homem, como nós, e assim permanece: de modo nenhum a assunção de um corpo nas puríssimas entranhas de Maria foi algo precário e provisório. O Verbo encarnado, Jesus Cristo, permanece para sempre Deus perfeito e homem verdadeiro. Este é o grande mistério que nos deixa abismados: Deus, no seu amor, quis tomar o homem a sério. Em correspondência a esse ato de amor gratuito, quis que o homem se comprometesse seriamente com Cristo, que é da sua mesma raça. “Ao recordarmos que o Verbo de Deus se fez carne, ou seja, que o Filho de Deus se fez homem, devemos tomar consciência da grandeza que atinge todos os homens através deste mistério […]. Efetivamente, Cristo foi concebido no seio de Maria e fez-se homem para revelar o eterno amor do Criador e Pai, bem como para manifestar a dignidade de cada um de nós”8.

A Igreja, ao expor ao longo dos séculos a verdadeira realidade da Encarnação, tinha consciência de que estava defendendo não só a Pessoa de Cristo, mas a si própria, bem como o homem e o mundo. “Aquele que é a imagem do Deus invisível (Col 1, 15) é também homem perfeito que restituiu aos filhos de Adão a semelhança divina, deformada pelo primeiro pecado. A natureza humana nele assumida, não absorvida, foi elevada também a uma dignidade sem igual. Com efeito, pela sua encarnação, o Filho de Deus uniu-se de algum modo a todo o homem. Trabalhou com mãos humanas, agiu com vontade humana, amou com coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado”9.

Que valor deve ter a criatura humana diante de Deus, “se mereceu ter tão grande Redentor”10! Ao longo do dia de hoje, demos graças a Deus por este bem tão imenso que nunca chegaremos a entender.

III. A ENCARNAÇÃO DEVE TER muitas conseqüências na vida de um cristão. É, na realidade, o fato que decide o seu presente e o seu futuro. Sem Cristo, a vida carece de sentido. Só Cristo “revela plenamente o homem ao próprio homem”11. Só em Cristo conhecemos o nosso ser mais profundo e tudo o que mais nos afeta: o sentido da dor e do trabalho bem acabado, a alegria e a paz verdadeiras – que não dependem dos estados de ânimo e dos acontecimentos da vida –, a serenidade, e mesmo o júbilo perante o pensamento da outra vida, pois Jesus, a quem agora procuramos imitar e servir, nos espera… Foi Cristo quem “devolveu definivamente ao homem a dignidade e o sentido da sua existência no mundo”12.

Ao assumir todas as coisas humanas nobres (o trabalho, a família, a dor, a alegria), o Filho de Deus indica-nos que todas essas realidades devem ser amadas e elevadas: o humano converte-se em caminho para a união com Deus. A luta interior passa então a ter um caráter eminentemente positivo, pois não se trata de aniquilar o homem para que o divino resplandeça, nem de fugir das realidades correntes para levar uma vida santa. Não é o humano que se choca com o divino, mas o pecado e as marcas que o pecado original e os pecados pessoais deixaram na alma.

O empenho por chegar à semelhança com Cristo implica, pois, uma luta contra tudo aquilo que nos torna menos humanos ou infra-humanos: os egoísmos, as invejas, a sensualidade, a mesquinhez de espírito… Isto é, o verdadeiro empenho do cristão pela santidade traz consigo a purificação e por conseguinte o desabrochar da verdadeira personalidade em todos os sentidos.

Assim como em Cristo o humano não deixou de sê-lo pela sua união com o divino, do mesmo modo as realidades terrenas não deixaram de sê-lo em virtude da Encarnação; mas a partir desse instante podem e devem ser orientadas para o Senhor. Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum13. E Eu, quando for levantado da terra, tudo atrairei a Mim.

“Cristo, com a sua Encarnação, com a sua vida de trabalho em Nazaré, com a sua pregação e milagres pelas terras da Judéia e da Galiléia, com a sua morte na Cruz, com a sua Ressurreição, é o centro da Criação, Primogênito e Senhor de todas as criaturas.

“[…] O Senhor quer os seus em todas as encruzilhadas da terra. Chama alguns ao deserto, para que se desentendam dos avatares da sociedade dos homens e com o seu testemunho recordem aos demais que Deus existe. Confia a outros o ministério sacerdotal. Mas quer a grande maioria dos homens no meio do mundo, nas ocupações terrenas. Estes cristãos devem, pois, levar Cristo a todos os ambientes em que desenvolvem as suas tarefas humanas: à fábrica, ao laboratório, ao cultivo da terra, à oficina do artesão, às ruas das grandes cidades e aos caminhos de montanha”14. Essa é a nossa tarefa.

Terminamos a nossa oração recorrendo à Mãe de Jesus, nossa Mãe. “Ó Maria! Hoje a tua terra fez germinar o Salvador… Ó Maria! Bendita sejas entre as mulheres por todos os séculos… Hoje a Divindade uniu-se e amassou-se com a nossa humanidade com laços tão fortes que jamais poderão ser rompidos, nem pela morte nem pela nossa ingratidão”15. Bendita sejas!

(1) cfr. Gal 4, 4-5; Liturgia das Horas, Antífona 1 do Ofício das leituras; (2) cfr. Sagrada Bíblia, Epístolas de San Pablo a los Romanos y a los Gálatas, vol. VI, nota a Gal 4, 4; (3) Frei Luís de Granada, Vida de Jesus Cristo, 1; (4) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 274; (5) Jo 1, 14; (6) São Tomás, S.Th., III, q. 1, a. 2; (7) Jo 3, 16; (8) João Paulo II, Angelus no Santuário de Jasna Gora, 5-VI-1979; (9) Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 22; (10) Hino Exsultet, Missa da Vigília Pascal; (11) idem, Enc. Redemptor hominis, 4-III-1979, 11; (12) ib.; (13) Jo 12, 32; (14) Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n. 105; (15) Santa Catarina de Sena, Elevações, 15.

As Obras de Misericórdia

OBRAS DE MISERICÓRDIA CORPORAIS
http://www.padrereginaldomanzotti.org.br/sala_leitura/artigos-padre-reginaldo-manzotti/obrascorporais.html

Disse Jesus, de quem nos esforçamos para sermos discípulos: “Sede misericordiosos como vosso Pai do céu é misericordioso” (Lc 6, 36). Ainda, em outro momento reafirmou citando o Profeta Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Mt 9, 13); e, mais uma vez insistiu nas bem-aventuranças: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7).
Ter misericórdia não é ter pena da alguém. Longe disto, ter e exercitar a misericórdia é ter compaixão, e solidariedade para com a necessidade do outro. Mais do que só dar esmola, é descer até a carência física, espiritual e material da outra pessoa envolvendo-a com nosso ser e elevando-a a dignidade e à vida.
Partindo da Palavra de Deus, como citarei, e da Tradição da Igreja (CIC § 2447), podemos falar em quatorze obras de misericórdia. Das quais, sete são obras de misericórdia espirituais e sete corporais.

As obras de misericórdia corporais são:
– Dar de comer a quem tem fome
Várias vezes, Nosso Senhor Jesus Cristo se preocupou com a fome dos que O seguiam (Lc 9, 10-17). Seu mandato ecoa até hoje: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Lc 9, 13).
Pe. Zezinho expressa muito bem isto na letra de sua canção: ”somos a Igreja do pão, do pão repartido, do abraço e da paz”. É bem verdade que nossas cestas básicas, Missas do quilo e “sopões”, servidos nas madrugadas frias, não resolvem os problemas sociais, mas é uma solução imediata que sacia quem sente o desespero da fome.
É urgente e necessário que avancemos em políticas sociais que atinjam a causa da fome, mas enquanto não chegamos ao ideal, exercitemos a partilha no real. “Quem tiver muita roupa partilhe com quem não tem, e faça o mesmo quem tiver alimentos (Lc 3, 11)”.

– Dar abrigo aos peregrinos
Jesus foi um desabrigado já em seu nascimento, quando negaram a José e Maria que estava para dar à luz, um lugar na hospedaria (Lc 2, 7).
Tendo em vista que a realidade dos tempos de Jesus era muito diferente da realidade dos tempos atuais, torna-se complicado, perigoso e é até ingenuidade de nossa parte querer acolher em nossas casas, pedintes ou moradores de rua. Porém, Deus suscita obras de acolhimento na Igreja, através dos padres, religioso(a)s e leigo(a)s, que nos permite praticar esta obra de misericórdia, com nossa ajuda concreta.
Como cidadãos, cristãos, ou enquanto comunidade, somos chamados a contribuir economicamente e voluntariamente nos serviços desta obra.
Não podemos eximir o poder público de uma política habitacional, ao contrário, é nosso dever como cristãos, estar atentos a isto, como obra de misericórdia. No entanto, partilho que conheço inúmeros casos de famílias nos grandes centros que acolhem pessoas vindas do interior até que estas se estabeleçam economicamente.
Sem querer forçar a natureza desta obra de misericórdia, não se poderia entendê-la de uma forma mais ampla, como por exemplo, simplesmente “acolher” na vida familiar, na convivência, no afeto, no dedicar algum tempo? Na escravidão de compromissos intermináveis e espaços curtíssimos entre uma novela e outra, arrumar um tempo, e simplesmente se dispor em “acolher”?

– Assistir os enfermos
Os Evangelhos relatam abundantemente, momentos em que Jesus acolhe, atende, socorre e cura os doentes. Às vezes eram levados a Ele no entardecer (Mc 1, 32-34); em outras pediam que Ele fosse até a casa do enfermo, como fez o oficial que pediu a cura do filho que estava morrendo (Jo 4, 46-53). Vale lembrar a ação de Jesus, quando na casa de Pedro, cura sua sogra (Mt 8, 14-15). Jesus se desdobrou em misericórdia para com os doentes.
Maria, mesmo grávida, andou quilômetros para ajudar e pôr-se a serviço da idosa Isabel, sua prima, grávida de seis meses.
A obra de misericórdia: assistir os doentes começa na família quando se lida com doenças prolongadas e, às vezes irreversíveis. Seja em qualquer idade, e por qualquer problema de saúde, que podem ser, entre tantos: o câncer, as paralisias, a anencefalia, e socorrer sem preconceito os portadores do vírus HIV.
Trata-se também de um trabalho voluntário em hospitais, asilos, e casas de recuperação terapêutica. Estende-se a uma pastoral urbana que visite e acompanhe aqueles que, nos grandes centros urbanos vivem a dor de sua enfermidade na solidão, e no esquecimento.
De forma profética esta obra de misericórdia questiona a ausência de uma pastoral de saúde, tanto em nossas comunidades paróquias, como nos hospitais, que efetivamente possam marcar presença nestes momentos de fragilidade, e vulnerabilidade do ser humano.
Muitos se perguntam: o que fazer para um doente gravemente enfermo?
A resposta é simples, às vezes nada, apenas “estar” presente junto ao que sofre. Misericórdia e solidariedade é estar perto de quem sofre, mesmo sem entender a extensão do sofrimento, pois o pulsar e o latejar da dor é próprio só de quem está machucado.
Assistir os doentes até o fim é uma obra de misericórdia conflitante a toda e qualquer idéia de eutanásia e similares.
Implica inclusive em oferecer, além de recursos físicos, e terapêuticos necessários, a assistência religiosa e espiritual. Fato este que familiares estão se esquecendo e negligenciando.

– Dar de beber ao sedento
Nosso Mestre Jesus disse: “Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca a um destes pequeninos, porque é meu discípulo, em verdade eu vos digo: não perderá sua recompensa” (Mt 10, 42). Em nossos tempos esta obra de misericórdia parece sem sentido, quando cada um tem água encanada, com facilidade em seus lares. Pensa desta forma quem tem o privilégio de viver longe da seca, e dos desafios de andar, em pleno século XXI, muitos quilômetros para buscar água em açudes, e em carros pipas, num Brasil de graves contrastes sociais que clama aos céus igualdade de direitos.
Podemos não ter como, diretamente praticar esta obra de misericórdia nas regiões do Brasil que sofrem o flagelo da seca, mas podemos de forma indireta fazê-lo. Sabemos que água é vida, e que a médio ou longo prazo tende a ser um “tesouro” que se extingue. A consciência cristã e ecológica impele a “copos d’água” que são dados quando exercitamos o uso responsável da água potável. O uso correto, consciente, e sem desperdício da água é um desmembrar desta obra de misericórdia.
Não obstante, Jesus Cristo, nas bem-aventuranças, fala da sede, porém de uma “sede de justiça” (Mt 5, 6). A sede saciada de justiça não seria o saciar a sede real de água, de dignidade e de solidariedade?

– Vestir os nus
Chamados somos nós, a sermos discípulos de um Mestre que Evangelhos relatam, exortou: “Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem” (Lc 3, 11a).
O Apóstolo Tiago escreveu à comunidade que lhe foi confiada pastorear: “Se a um irmão ou a uma irmã faltarem roupas e o alimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, mas não lhes der o necessário para o corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se não tiver obras, é morta em si mesma (Tg 2, 15-17).
Recentemente, deparei-me com uma situação muito triste, percebi que uma senhora levava muitas peças de roupas, e pares de sapato para um bazar beneficente. O que a principio parecia uma atitude louvável, na realidade era fruto de uma compulsão em comprar, e uma forma velada de esvaziar o guarda-roupa e sapateira para sempre ter espaço que acomodasse os artigos de suas compras, nas frequentes visitas aos shopping. Caridade? Obra de misericórdia? Creio numa partilha de bens, onde a atitude condiz com a intenção e a real motivação.
Em contra partida soube de algo edificante: uma pessoa após observar que seu colega de trabalho, recém contratado, passou semanas com a mesma calça, se deu conta que era a única que ele tinha, então com muita sutileza, e descrição para não humilhar o colega, o presenteou com uma calça jeans.

– Socorrer os prisioneiros
Ficará à direita de Deus, no grupo dos bem-aventurados, aquele que visitou os que estavam na prisão (Mt 25, 36).
Hoje o acesso nos presídios não é livre, há um certo rigor e triagem para visitas à presidiários. Porém, nossas dioceses ainda são deficientes em se tratando de uma pastoral carcerária efetiva, e dinâmica.
Os presidiários são lembrados em época de eleição, com falsas promessas de novos presídios a serem construídos, caso o candidato ganhe a eleição. E, quando acontecem as rebeliões que, quanto mais violentas e longas, mais espaço terão na mídia. Inclusive inspirando filmes premiados. Mas, a realidade dos presos, logo cai no esquecimento.
Há pouco tempo, um presidiário que na prisão acompanha meu programa de rádio, escreveu-me partilhando: “minha família não me visita, porque têm vergonha de mim, mas eu também tenho deles…”.
A obra de misericórdia socorrer os prisioneiros, também se estende ao socorro às famílias dos presidiários (as); auxiliando economicamente as que necessitam, e ajudando-as a superarem os preconceitos.

– Enterrar os mortos
Crer na ressurreição da carne, na vida eterna, faz parte da oração pela qual professamos nossa fé.
No Livro de Tobias encontramos o seguinte: Tobit com uma solicitude toda particular, sepultava os defuntos e os que tinham sido mortos (Tb 1, 20).
O Catecismo da Igreja Católica, assim diz: “Os corpos dos defuntos devem ser tratados com respeito e caridade, na fé e na esperança da ressurreição. O enterro dos mortos é uma obra de misericórdia corporal que honra os filhos de Deus, templos do Espírito Santo” (CIC § 2300).
Cada pessoa é templo do Espírito Santo e mesmo depois de morta, seu corpo merece respeito.
A Igreja permite a cremação do corpo, desde que não seja um ato que se faça numa manifestação de contrariedade à fé na ressurreição dos mortos (CIC § 2301). A doação gratuita de órgãos não é um desrespeito ao corpo quando desejada pela própria pessoa, é uma pratica legitima, incentivada pela Igreja como meritória.
Acredito seriamente que o velório, ou guarda do corpo é muito válido, importante e edificante, tanto para o morto, como para os familiares.
Da parte do falecido pelas orações feitas em seu favor, da parte dos familiares pela oportunidade de perdão, conversão e reflexão. Sobre isto aprenderemos mais nas obras espirituais. São elas: instruir, aconselhar, consolar, confortar, perdoar, suportar com paciência, e rezar pelos mortos (esta ultima é item apresentado no capítulo IV do Catecismo de São Pio X). No momento limito-me apenas em citá-las. Em outro artigo, refletiremos detalhadamente sobre elas.
Finalizando este artigo, partilho algo que marcou-me muito na infância. Certo dia, minha mãe na sua simplicidade, disse-me: “filho, Jesus Cristo, às vezes desce do céu e se veste com roupas de mendigo, anda pelas ruas e bate nas casas pedindo esmola. Nunca se desfaça de uma pessoa pobre”.
Certamente, para alguns não passará de “lorota”, mas há muito de verdade neste ensinamento. “Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber, era peregrino e me acolheste, nu e me vestiste… (Mt 25, 35-40).”

OBRAS DE MISERICÓRDIA ESPIRITUAIS
Sete são chamadas obras de misericórdia espirituais: instruir; aconselhar, consolar, confortar, perdoar, suportar com paciência e rogar pelos vivos e pelos mortos.

– Instruir (ensinar os que não sabem)
Instruir não é simplesmente transmitir conhecimentos, é também corrigir os que erram, doutrinar, ensinar os valores do Evangelho, formar na doutrina e nos bons costumes éticos e morais.
A história da salvação é sem dúvida uma instrução contínua e interrupta da parte de Deus para com a humanidade.
Deus se revela e instrui o povo pelos patriarcas, profetas e plenamente em Jesus Cristo.
Com muita dificuldade o ser humano é chamado a compreender os desígnios de Deus, porém nem sempre se consegue. O próprio Jesus Cristo escolheu pessoalmente doze homens, para que, os pudesse instruir, no entanto já no final de sua convivência afirma: “Há muitas coisas para vos revelar, mas que não poderias compreender agora, por isso vos mandarei o Espírito da verdade que vos levará à plena verdade” (Jo 16, 12-13a).
Cada pessoa tem sua hora de encontrar a “verdade”. É a partir disto que nasce a missão de instruir da Igreja, dos pais, dos catequistas e de todos nós.
No principio de Jesus Cristo não há pessoas que sejam casos perdidos, e que tenhamos o direito de desistir.
Evangelizar é também instruir para a verdade, a luz que vem de Jesus Cristo.
À comunidade de Colossenses Paulo diz: “A palavra de Cristo permaneça em vós com toda sua riqueza, de sorte que com toda sabedoria possais instruir e exortar-vos mutuamente” (Col 3, 16a).
Lembremos que toda instrução que brota da caridade, oração e paciência gera frutos em abundancia.

– Aconselhar (dar bons conselhos aos que necessitam)
É o dom de orientar e ajudar a quem precisa.
Jesus nos orientou e aconselhou a não sermos cegos guinando cegos (Mt 15, 14), e também a primeiro tirarmos a trave do nosso olho, para depois tirar o cisco do olho do irmão (Lc 6, 39). Apesar da força deste conselho e alerta de Jesus, não podemos nos eximir de dar bons conselhos àqueles que necessitam.
Reforço, dar bons conselhos e não qualquer conselho. Para que isto aconteça é preciso mergulhar na graça do Espírito Santo, para perceber os sinais de Deus que nos auxiliam na compreensão dos fatos e discernimento da vida.
Perigosos são os conselhos quando dados sem uma vida de oração. Destrutivos são os conselhos recebidos nas mesas de botequins ou grupos de fofoqueiras.
O Salmista nos convida a rezar: “Bendito o Senhor que me aconselha, mesmo de noite a consciência me admoesta (Sl 16, 7).
Na história do povo de Deus, no Antigo Testamento, um mau conselho dado ao rei de Israel por parte de um falso profeta custou ao posso um massacre, invasão e cativeiro (Nm 31, 16).
Por conselhos desprovidos da luz de Deus muitas amizades foram desfeitas, casamentos destruídos e guerras iniciadas.
São Paulo Apóstolo, também sofreu um naufrágio por não terem escutado seu conselho e disso ele se queixa em Atos 27, 21ss.
Aconselhar não é profetizar o futuro, muito menos projetar nossas angustias; é antes de tudo, à luz da oração e do conhecimento da vontade de Deus sobre a humanidade, ajudar aos que nos pedem um discernimento nas opções e decisões a serem tomadas.
Aconselhar é ajudar a lançar luz no caminho de quem hoje pisa em sombras.

– Consolar (Aliviar o sofrimento dos aflitos)
Nosso Senhor Jesus Cristo deu-nos muitos exemplos de consolação, lembremos principalmente, seu empenho em consolar Marta e Maria na morte de Lázaro (Jo 11, 19).
Paulo, fiel apóstolo de Jesus, começa sua segunda carta aos Coríntios dizendo: “Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias, Deus de toda a consolação, que nos conforta em todas as nossas tribulações, para que, pela consolação com que nós mesmos somos consolados por Deus, possamos consolar os que estão em qualquer angústia!” (2Cor 1, 3-4).
Todos nós passamos na vida momentos de aflições e sofrimentos, algumas vezes em conseqüência de nossos próprios erros, em outras por perdas, enfermidades, problemas pessoais ou familiares. Nesses momentos precisamos de consolação. Da parte de Deus ela vem com certeza, pois consolar é atributo de Deus. Em Isaías encontramos Deus comparado à uma mãe: “Como uma criança que a mãe consola, sereis consolados em Jerusalém” (Is 66, 13). Mas, aliviar, diminuir dor, ou sofrimento moral e espiritual deve acontecer também da parte dos irmãos, como recomenda São Paulo: “Consolai-vos mutuamente e edificai-vos uns aos outros” (1Tes 5, 11).
Porém, o mundo está cada vez mais povoado. Pessoas vão e vêem trombando umas nas outras, nas ruas, repartições e elevadores, mas quase ninguém se conhece muitos menos partilham suas experiências. Solitários em meio à multidão, pouco falamos de nossos sentimentos e, menos ainda, ouvimos os outros. Não há tempo. Não queremos arrumar tempo, pois ouvir compromete.
A atitude de consolar apresentada como uma obra de misericórdia, mais do que nunca, torna-se uma virtude cristã a ser exercitada no cotidiano.
Exercitar os olhos para as tragédias alheias; aguçar os ouvidos para escutar os soluços dos que sofrem; oferecer o ombro para deixar reclinar quem chora; estender a mão para levantar quem tropeça e cai.
Hoje consolamos, amanhã seremos consolados.

– Confortar (Fortalecer os angustiados e abatidos)
Deus conforta os humildes (2Cor 7, 6). Também assim devemos agir, aperfeiçoando nossas virtudes.
Estando prisioneiro, muitas vezes, Paulo conforta as comunidades em suas tribulações, tristezas e sentia-se confortado por elas (At 16, 40.20, 1; 2Cor 2, 7; Col 2, 2).
Assim como Paulo, outros personagens da Sagrada Escritura tiveram momentos de angustia, medo, tristeza, desânimo e foram confortados.
O próprio Jesus, no Getsêmani passou por estes momentos (Mt 26, 37ss), e foi confortado por um anjo do céu (Lc 22, 43).
Atualmente o desanimo, a angustia tem minado a vida de muitas pessoas, abatendo-as e levando-as até a um estado de depressão. É nosso dever cristão confortar os que necessitam. E, confortar não significa apenas dar o que é material, ou simplesmente tentar fazê-los esquecer o motivo de seu desânimo, mas estar ao lado deles em seu desânimo, tornando esses momentos mais amenos, revigorando-os na fé.
Muitos de nós não estamos dispostos a nos colocar ao lado de quem está abatido e desanimado, achamos que essas pessoas nos põe para baixo. Não nos sensibilizamos com a fraqueza do outro, estamos preocupados somente com nossos interesses e pensamos apenas em nós mesmos, sobre isto nos alerta São Paulo na Carta aos Filipenses (Fl 2, 4).
Coloquemo-nos à disposição do Espírito Santo de Deus, para que Ele nos inspire e nos use para confortar aqueles que precisam.

– Perdoar (as injustiças de boa vontade)
O perdão é uma exigência do Evangelho, e uma condição para entrar no Reino. Jesus nos dá essa lição ao ensinar a oração do Pai Nosso: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará” (Mt 6, 14-15).
Se nós não perdoamos, impedimos que o perdão de Deus chegue a nós.
São Paulo também nos exorta: “Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente toda vez que tiverdes queixas contra os outros. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós” (Col 3, 13).
Pedir perdão a Deus é fácil, mas conceder o perdão aos outros na maioria das vezes é difícil, e agimos como o servo mau que foi perdoado no muito que devia, e não soube perdoar seu próximo no pouco que lhe era devido (Mt 18, 23-35).
Perdoar de coração deveria nos levar a esquecer toda injustiça sofrida, mas nem sempre conseguimos, e nem sempre voltamos a um relacionamento normal com a pessoa perdoada, isso não deve nos impedir de, à luz do Espírito Santo, exercitar e aprimorar o perdão, pois nem sempre e na maioria das vezes um ato de vontade pode eliminar uma lembrança.
No diálogo com Pedro, Nosso Senhor Jesus ensina que devemos perdoar sempre e sem limites (Mt 18, 21-22).
Negar o perdão nos leva um ato de injustiça com Deus, conosco e com os irmãos.

– Suportar com paciência (as adversidades e fraquezas do próximo)
Para viver o evangelho de Jesus é preciso ser paciente. Esta obra espiritual nos exorta a suportar com paciência os que estão próximos a nós, com todas as suas limitações, fraquezas, defeitos, adversidades e misérias.
Isto não quer dizer que devemos nos omitir de orientar, encorajar, oferecer oportunidades e servir de suporte, para que, essas limitações e fraquezas sejam superadas.
Neste sentido São Paulo escreve: “Pedimo-vos, porém, irmãos, corrigi os desordeiros, encorajai os tímidos, amparai os fracos e tende paciência para com todos” (1Tes 5, 14).
Ainda, segundo São Paulo, quando estamos fortes, devemos suportar as fraquezas dos que são fracos, e não agir a nosso modo (Rm 15, 1). Ajamos então como discípulos de Jesus, que tomou sobre si as nossas fraquezas e carregou nossas dores (Is 53, 4).
São Pedro nos diz: “Que mérito teria alguém se suportasse pacientemente os açoites por ter praticado o mal? Ao contrário, se é por ter feito o bem que sois maltratados, e se o suportardes pacientemente, isto é coisa agradável aos olhos de Deus” (1Pd 2, 20).
Sejamos acolhedores e pacientes com todos.

– Rogar a Deus pelos vivos e pelos mortos
Na oração sacerdotal Jesus rogou a Deus pelos seus e por todos que em todos os tempos viriam a ser seus discípulos, isto é por todos nós (Jo 17). Em várias outras passagens dos Evangelhos Jesus retirava-se para rezar, entre elas cito: Mt 14, 23; Mt 26, 36; Mc 6, 46; Lc 3, 21; Lc 5, 16.
Na Carta aos Efésios, São Paulo recomenda que se intensifiquem as suplicas e pede por ele oração (Ef 6, 18-19).
Podemos até identificar uma pessoa pela oração que ela faz, a oração egoísta, indica um espírito egoísta. Orações que mais parecem lista de compras ou de presentes: Senhor quero isto, isto e aquilo.
O ser humano é sempre mais preocupado com suas próprias necessidades, mas através desta obra de misericórdia espiritual, somos exortados a rezar pela humanidade, rezar por aqueles que nem conhecemos; rezar pela reparação e expiação dos pecados do mundo; pela conversão dos pecadores; pelo Papa e ministros ordenados que conduzem a Igreja de Deus; pelas vocações sacerdotais e leigas; pelas autoridades; pelos que sofrem e pelos que se recomendam às orações.
Rezar pelos mortos: Este ensinamento se apoia, também, na prática da oração pelos defuntos, da qual já a Sagrada Escritura fala: “Eis por que ele [Judas Macabeu) mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, a fim de que fossem absolvidos de seu pecado” (2Mc 12, 46).
Desde os primeiros tempos a Igreja honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em seu favor, em especial o sacrifício eucarístico, a fim de que, purificados, eles possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também as esmolas, as indulgências e as obras de penitência em favor dos defuntos (CIC 1032).
A Igreja não tem dúvida desta realidade por isso, desde o primeiro século reza pelo sufrágio das almas do Purgatório.
As almas merecem a lembrança e orações dos seus. As orações que fazemos por elas, as ajudam a alcançar o repouso eterno, o refrigério e a luz que não se apaga.
Ao socorrer com oração as almas do Purgatório praticamos a caridade em toda sua extensão.
Rezar pelas almas é o melhor meio de salvar a nossa, pois como nos ensinou Santo Ambrósio “Tudo o que damos por caridade às almas do Purgatório converte-se em graças para nós, e, após a morte, encontramos o seu valor centuplicado”.

Que as obras de misericórdia corporais e espirituais nos ajudem a sermos mais perfeitos e assim construirmos um mundo novo e bem melhor.

Domingo da Misericórdia – Segundo da Páscoa

Por Mons. Inácio José Schuster

II Domingo de Páscoa – B
(João 20, 19-31)

«Se não colocar minhas mãos em seu lado, não acreditarei»

«Oito dias depois, estavam outra vez seus discípulos dentro, e Tomé com eles. Apresentou-se Jesus no meio deles estando as portas fechadas, e disse: “A paz esteja convosco”. Logo diz a Tomé: “Aproxima teu dedo e vê minhas mãos; traz tua mão e coloca em meu lado, e não sejas incrédulo, mas crente”. Tomé lhe respondeu: “Senhor meu e Deus meu”. Diz Jesus: “Porque me viste acreditaste. Felizes os que não viram e creram”». Com a insistência sobre o sucedido a Tomé e sua incredulidade inicial («Se não vejo em suas mãos o sinal dos cravos e não coloco meu dedo nas chagas dos cravos não acredito»), o Evangelho sai ao encontro do homem e da era tecnológica que não crê mais que no que pode verificar. Podemos chamar Tomé de nosso contemporâneo entre os apóstolos. São Gregório Magno diz que, com sua incredulidade, Tomé foi-nos mais útil que todos os demais apóstolos que creram em seguida. Atuando de tal maneira, por assim dizer, obrigou Jesus a dar-nos uma prova «tangível» da verdade de sua ressurreição. A fé na ressurreição saiu beneficiada de suas dúvidas. Isto é certo, ao menos em parte, também aplicado aos numerosos «Tomés» de hoje que são os não crentes. A crítica e o diálogo com os não crentes, quando se desenvolvem no respeito e na lealdade recíproca, resultam-nos de grande utilidade. Antes de tudo nos fazem humildes. Obrigam-nos a tomar nota de que a fé não é um privilégio, ou uma vantagem para ninguém. Não podemos impô-la nem demonstrá-la, mas só propô-la e mostrá-la com a vida. «Que é que possuis que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que haverias de te ensoberbecer como se não o tivesses recebido?», diz São Paulo! (1 Coríntios 4,7). A fé, no fundo, é um dom, não um mérito, e como todo dom não pode viver-se mais que na gratidão e na humildade. A relação com os não crentes ajuda-nos também a purificar nossa fé de representações. Com muita freqüência, o que os não crentes rejeitam não é o verdadeiro Deus, o Deus vivo da Bíblia, mas uma imagem distorcida de Deus que os próprios crentes contribuíram a criar. Rejeitando este Deus, os não crentes obrigam-nos a voltarmos a situar após as marcas do Deus vivo e verdadeiro, que está mais além de toda nossa representação e explicação. A não fossilizar ou banalizar a Deus. Mas também há um desejo que expressar: que São Tomé encontre hoje muitos imitadores não só na primeira parte de sua história –quando declara que não crê–, mas também ao final, naquele magnífico ato seu de fé que o leva a exclamar: «Senhor meu, Deus meu!». Tomé é também imitável por outro fato. Não fecha a porta; não fica em sua postura, dando por resolvido, de uma vez por todas, o problema. De fato, certamente o encontramos oito dias depois com os demais apóstolos no cenáculo. Se não tivesse desejado crer, ou «mudar de opinião», não teria estado ali. Quer ver, tocar: portanto está em busca. E ao final, depois de que viu e tocou com sua mão, exclama, dirigindo a Jesus, não como um vencido, mas como um vencedor: «Senhor meu, Deus meu!». Nenhum outro apóstolo havia-se lançado ainda a proclamar com tanta clareza a divindade de Cristo.

 

II DOMINGO DA PÁSCOA (B) – FESTA DA MISERICÓRDIA
“DEUS NOS AMA ACIMA DE NOSSAS LIMITAÇÕES”

O segundo domingo da Páscoa é reconhecido oficialmente pela Igreja como Domingo da Misericórdia. Jesus entra no Cenáculo Glorioso com as portas fechadas e transmite a grande consequência dos que experimentam a Deus. A Paz que é fruto do amor misericordioso de Deus para com suas criaturas. Deus oferece o seu imenso amor a todos os seus filhos através de Jesus Cristo. É o grande mistério de amor da Santíssima Trindade que deseja que façamos parte de sua felicidade. Deus nos criou para o Eterno Convívio com Ele e com todos os que procuraram fazer o bem passando por cima de suas limitações. “Diz à humanidade sofredora que se aconchegue no Meu misericordioso Coração, e Eu a encherei de paz. A humanidade não encontrará a paz enquanto não se voltar, com confiança, para a minha misericórdia”. Estas palavras foram pronunciadas por Jesus Cristo na aparição a Santa Maria Faustina Kowalska nos anos trinta do século passado. A missão desta santa iniciou-se em 22 de fevereiro de 1931, quando o misericordioso Salvador lhe apareceu. Ela viu Jesus vestido de túnica branca, com a mão direita levantada a fim de abençoar, enquanto a esquerda pousava no peito, fazendo que a túnica, levemente aberta, deixasse sair dois grandes raios, um vermelho e outro pálido. A Santa Faustina fixou em silêncio o olhar de Jesus que lhe disse: “Pinta uma imagem de acordo com o modelo que estás vendo, com a inscrição: Jesus eu confio em Vós. Desejo que esta Imagem seja venerada, primeiramente, na vossa capela e, depois no mundo inteiro. Prometo que a alma que venerar esta Imagem não perecerá. Desejo que a Festa da Misericórdia seja refúgio e abrigo para todas as almas, especialmente para os pecadores. Neste dia, estão abertas as entranhas da Minha misericórdia. Derramo todo um mar de graças sobre as almas que se aproximam da fonte da Minha misericórdia. A alma que se confessar e comungar alcançará o perdão das culpas e das penas. Nesse dia, estão abertas todas as comportas divinas, pelas quais fluem as graças. A Festa da Misericórdia saiu das Minhas entranhas. Desejo que seja celebrada solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa. A humanidade não terá paz enquanto não se voltar à fonte da Minha misericórdia” (Diário, nº 699). Neste próximo domingo em muitas comunidades católicas será exposta a imagem de Jesus Misericordioso. O sacerdote que divulgar esta devoção receberá muitas graças para si e para sua comunidade.

 

EVANGELHO (Jo 20, 19-31): Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos de Jesus se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. Depois destas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor. Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E depois de ter dito isto, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados eles serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos”. Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos em suas mãos, e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”. Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” Jesus lhe  disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo tenhais a vida em seu nome. “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”

A humanidade está passando por uma grande crise afetiva. As pessoas não se sentem amadas e por isso se perdem em seus próprios egoísmos. Nós seremos bem-aventurados no momento em que crermos firmemente que Jesus está vivo no meio de nós. Temos a certeza de sua presença e esta realidade é fonte de realização interior. Jesus nos oferece uma felicidade permanente. Hoje devemos crer no testemunho dos apóstolos que viram Jesus Ressuscitado. O cristianismo é uma herança do testemunho apostólico. A profissão de fé de Tomé, chamado dídimo, que significa pequeno; faz-nos repensar sobre nossa Fé como aceitação do Mistério da presença de Deus em nossa vida. Muitas vezes agimos como ele. Queremos uma comprovação daquilo que só é possível saber pela Fé.  Jesus entra três vezes no local onde os discípulos se encontravam com as portas fechadas. Com medo da perseguição e das críticas que os outros poderiam fazer em relação ao seu discipulado. Eles ainda não tinham experimentado a força do Espírito Santo que fará a abertura do Cenáculo e o anúncio do testemunho da Ressurreição de Jesus. A saudação de Jesus é uma saudação de Paz. Uma paz que muitas vezes exigirá sofrimento daqueles que irão ser seus apóstolos após Pentecostes. A segunda saudação de paz está unida à missão apostólica. O perdão dos pecados, o sacramento da reconciliação que nos renova da nossa incapacidade de amar. Jesus pede que os seus discípulos perdoem os pecados. É o mistério da Igreja, a forma de mediação mais perfeita que Deus deixou para nossa salvação. Infelizmente com o surgimento do protestantismo muitas pessoas relativizaram este mandato de Jesus pensando em um perdão pessoal. O pecado atinge a comunidade e o sacerdote em nome de Deus e da comunidade prejudicada com nossas faltas, nos perdoa. É um momento de profunda libertação para todos nós. Se este sacramento fosse mais frequente em nossa vida, certamente teríamos menos problemas de ordem afetiva e emocional. Crer é aceitar e se entregar ao que Deus nos apresenta com sua linguagem paradoxal. Os discípulos “viram o Senhor”. Hoje devemos crer nesta verdade que perpassa os séculos. O testemunho é uma verdade que se vê na testa. Na frente da pessoa envolvida pelo mistério. Jesus não está morto, mas vive no meio de nós, nos sacramentos, na sua Igreja. Crer é ter a vida em Cristo. É se dispor a negar-se a si mesmo em favor da missão que Ele nos confia. Quando acreditamos somos enviados ao sofrimento. A experiência de Deus é rica em misericórdia. Por esta razão ela é uma experiência de perdão. Quando somos perdoados nos sentimos amados. Por esta razão a humildade se faz necessária para sermos realmente felizes em nosso processo de ressurreição. Somos pecadores, mas o Senhor é misericordioso e quer nos reconciliar. A comunicação perdida com Deus através do pecado original é derrotada pelo próprio amor que Deus sente pelas suas criaturas. Hoje, através de nossa vida, devemos mostrar ao mundo que Cristo está vivo. Especialmente pelos valores que vamos assumindo em nossa existência em direção ao Pai. Os cristãos precisam viver na alegria verdadeira que nasce da conexão com o Criador através de Jesus Cristo. Hoje queremos ser os bem-aventurados, que mesmo sem termos visto o Senhor acreditamos no testemunho dos que nos antecederam na Fé. A profissão de fé de Tomé marcou a história da humanidade. Podemos cair na tentação de achar que ele era uma pessoa fraca e insensível. Mas o crer no Cristo ressuscitado é o maior desafio que temos em nossa vida. Crer é realizar na vida os valores de Cristo no concreto de nossa existência. Pela fé teremos paz que é um dom necessário para sermos felizes. A saudação que Jesus ressuscitado faz ao estar junto aos seus discípulos é muito importante para que saibamos qual é a consequência da vida de seus seguidores. A paz é fruto do amor que invade o coração daquele que crê. O processo de ressurreição começa já nesta vida quando iniciamos a aceitar a realidade do amor que  Deus sente em  grande escala por nós. O perdão é uma graça dada a partir do Espírito Santo e isto provoca a unidade dentro de nós mesmos e na vivência comunitária.  Tomé representa todos nós que queremos uma comprovação tátil daquilo que é sobrenatural. Quando amamos temos certeza de fatos que não conhecemos de um modo racional. A razão é um instrumento que deve nos levar a experiência de sermos criaturas amadas por Deus.  Os primeiros mártires da Igreja nos dão provas de que quando vamos nos entregando ao mistério da ressurreição, nos desapegamos da sociedade que valoriza o que não tem valor.  Como é importante aceitarmos o testemunho de nossos irmãos. Vermos a transformação que acontece em suas vidas a partir da fé. Se Tomé tivesse valorizado aquilo que seus irmãos tinham experimentado, ele não seria revestido da dúvida em relação ao fato da ressurreição de Jesus. A partir do mistério da Ressurreição de Jesus a história da humanidade já não é mais a mesma e a definição sobre a existência humana toma outro sentido. Jesus está vivo no meio de nós oferecendo a sua infinita misericórdia. Não podemos mais perder tempo com alegrias momentâneas, tudo o que estamos passando é preparação para a vida definitiva. Se existimos é porque somos amados. Estamos sobre o olhar amoroso de Deus que nos criou para a vida. A conversão ou o nosso processo de ressurreição exige de nossa parte uma mudança em nosso olhar. Para nos santificarmos precisamos olhar como Deus olha. Deixarmos de lado todo egoísmo para experimentarmos o amor.

 

Neste segundo domingo da Páscoa e sua oitava, outrora chamado domingo “in albis”, hoje, domingo da Divina Misericórdia, nós lemos o final do Evangelho de João. Na verdade o seu primeiro final, porque, após, veio acoplado um apêndice que não estava presente na primeira redação do texto. Neste primeiro final o evangelista apresenta a Duvida apostólica, cada evangelista trabalhou, a seu modo, à dúvida dos apóstolos de Jesus. Eles não eram crédulos, ou simplórios, como muitas vezes se pensam. Eram pessoas que relutaram em aceitar a Ressurreição de Jesus. Não lhes foi fácil, não tinham o intelecto preparado para tal, nem Jesus Se tinha manifestado tão claramente a respeito de Sua própria Ressurreição, de se notar que as próprias predições de Jesus, com relação a Sua morte e a Sua vitória, não foram, historicamente, tão claras quanto hoje se lêem nos evangelhos, por exemplo em Marcos, capítulos IX, X e XI.
Jesus deve ter falado numa linguagem mais ampla e menos transparente. De qualquer maneira, foi difícil para eles aceitarem a realidade de um mundo que se iniciava, ou se inaugurava, com a ressurreição de Jesus.
Cada evangelista, a seu modo, trabalhou esta dúvida apostólica e a trajetória que, com dificuldade e sofrimento, tiveram que realizar aqueles discípulos passando do real e trágico da morte de Jesus à Sua vitória definitiva. O evangelista João também realiza o mesmo serviço, só que ele, de certa maneira, condensa em Tomé o que era um aspecto geral apostólico. Todos duvidaram, nenhum deles aceitou plenamente, num primeiro momento, a ressurreição. Todos tiveram que realizar um longo “iter” e uma revolução Copérnica nas suas idéias e no seu universo mental judaico religioso.
Diante de Jesus ressuscitado finalmente Tomé, que aqui representa todos os 11, se posta de joelhos e exclama: “Meu senhor e meu Deus”. Até então, por causa da técnica narrativa, o Jesus do quarto evangelho não podia se dirigir diretamente aos leitores, isto é, a nós, à platéia. Mas agora, quando o cenário está para se concluir e a cortina para se cerrar definitivamente, o Jesus do texto de João se permite olhar para a platéia, olhar para cada um de nós e dizer para todos nós: “Bem aventurados aqueles que creram sem terem visto”. Somos todos nós. Nós cremos sem termos visto. Sem termos visto, colocamos as nossas melhores esperanças em Jesus ressuscitado. E por causa da presença do Espírito Santo, Ele não é uma simples imagem do passado; é pessoa viva no meio de nós.

 

SOMOS CHAMADOS A VIVER A RESSURREIÇÃO DE JESUS EM COMUNHÃO COM DEUS
Padre Bantu Mendonça

Nas tradições das primeiras comunidades, circulavam dois tipos de textos sobre a Ressurreição de Cristo: uns relativos à constatação do túmulo vazio e outros relacionados às aparições do Ressuscitado. Em Marcos, encontramos apenas a tradição do túmulo vazio. Os demais evangelistas combinam-se ao coletar textos extraídos das duas tradições. No Evangelho de João, temos a narrativa do encontro do túmulo vazio. Em continuação, este Evangelho apresentará as narrativas das aparições. A tradição do túmulo vazio suscita a fé no Ressuscitado sem vê-Lo.
Precisamos fazer um rebusco sobre o que Jesus disse para os discípulos na Última Ceia. Ele já havia comunicado aos discípulos, de maneira expressiva, a sua paz; agora, na condição de ressuscitado, renova-a. Jesus aparece entre os discípulos reunidos, anuncia-lhes a paz e lhes mostra as chagas.
A primeira testemunha do cumprimento dessas Palavras foi Maria Madalena quando chegou ao túmulo. Ela vê a pedra que O fechava removida e acha que roubaram Seu corpo. Ela comunica o fato a Pedro e ao discípulo que Jesus amava. Este discípulo é mais ágil do que Pedro ao dirigir-se ao túmulo; porém, em consideração a ele, deixa que entre primeiro.
O pano que havia coberto a cabeça de Jesus estava enrolado num lugar à parte. O discípulo que Jesus amava viu e acreditou na presença viva do Senhor. Até então, não haviam compreendido que Ele ressuscitaria. Contudo, os sinais do túmulo vazio são suficientes para João crer que Cristo continuava vivo.
No Evangelho de hoje, os discípulos estão com as portas trancadas com medo dos judeus. Esse detalhe exprime a situação da comunidade de João – excluída pelos judeus -, os quais, inclusive, denunciavam os cristãos aos romanos. Porém, a presença do Ressuscitado liberta essa comunidade do medo e lhes traz a alegria. O “mostrar as chagas” das mãos e do lado é a confirmação da identificação do Ressuscitado com Jesus de Nazaré que foi crucificado. Agora, conforme anunciara nos discursos de despedida, Jesus comunica aos discípulos o Espírito, soprando sobre eles.
Os discípulos são enviados em missão, com o conforto do Espírito. Suas comunidades, que vivem na comunhão e partilha – movidas pela fé em Jesus – são responsáveis pela prática da misericórdia no acolhimento dos excluídos como pecadores e de todos aqueles que se sentem atraídos por Jesus. A partir da experiência de Tomé, Jesus proclama a bem-aventurança da fé. Começa o tempo dos bem-aventurados que não viram e creram.
Cristo ressuscitado continua presente entre os Seus discípulos. É o mesmo Jesus de Nazaré, Filho de Deus encarnado, que a todos comunicou eternidade e vida divina. As primeiras comunidades tinham consciência de que, pelo batismo, já viviam como ressuscitadas, isto é, em união com Jesus em Sua eternidade e divindade.
Comprometer-se, hoje, com o projeto vivificante de Jesus – na justiça, no amor e na partilha – é viver a Ressurreição em comunhão com o Deus eterno.

 

Divina Misericórdia do Senhor   

Termina a oitava da Páscoa celebrando a Divina Misericórdia do Senhor.

Renovemos o ímpeto de anunciar a todo o mundo a Boa Nova: Cristo Ressuscitou. Apenas Jesus viveu a sua passagem da morte à vida. Os seus discípulos vão passar do medo à alegria e à paz, basta-lhes uma palavra – «a paz esteja convosco» – e verem as chagas ainda visíveis no Ressuscitado. Basta-lhes um sopro, o do Espírito de Cristo, para se tornarem embaixadores da reconciliação. Tomé vai passar da dúvida à fé, basta-lhe ver e tocar o que Cristo lhe oferece, então ele crê.

No ano 2000, o Papa João Paulo II canonizou Irmã Faustina e decretou o primeiro domingo depois da Páscoa como 2º Domingo de Páscoa ou Domingo da Misericórdia. Santa Faustina recebeu aparições regulares de Cristo consignadas no seu livro “O pequeno Jornal”. O essencial da mensagem recebida por ela gira em torno da misericórdia de Deus para com toda a humanidade. O próprio Cristo solicitou que esta verdade fosse solenemente objeto de meditação no domingo subsequente à comemoração de Sua ressurreição.

“Diz à humanidade sofredora que se aconchegue no meu misericordioso Coração, e Eu a encherei de paz. A humanidade não encontrará a paz enquanto não se voltar, com confiança, para a minha Misericórdia”.

Estas palavras foram pronunciadas por Jesus Cristo na aparição a Santa Maria Faustina Kowalska, nos anos trinta do século passado. A missão desta santa iniciou-se em 22 de fevereiro de 1931, quando o misericordioso Salvador lhe apareceu. Ela viu Jesus vestido de túnica branca, com a mão direita levantada a fim de abençoar, enquanto a esquerda pousava no peito, fazendo que da túnica, levemente aberta, deixasse sair dois grandes raios, um vermelho e outro pálido. Santa Faustina fixou o olhar de Jesus, que lhe disse:

“Pinta uma imagem de acordo com o modelo que estás vendo, com a inscrição: Jesus, eu confio em Vós. Desejo que esta Imagem seja venerada, primeiramente na vossa capela, e depois no mundo inteiro. Prometo que a alma que venerar esta Imagem não perecerá. Desejo que a Festa da Misericórdia seja refúgio e abrigo para todas as almas, especialmente para os pecadores. Neste dia, estão abertas as entranhas da minha Misericórdia. Derramo todo um mar de graças sobre as almas que se aproximam da fonte da minha Misericórdia. A alma que se confessar e comungar alcançará o perdão das culpas e das penas. Neste dia, estão abertas todas as comportas divinas, pelas quais fluem as graças. A Festa da Misericórdia saiu das minhas entranhas. Desejo que seja celebrada solenemente no primeiro domingo depois da Páscoa. A humanidade não terá paz enquanto não se voltar à fonte da minha Misericórdia” (Diário nº. 699).

As chagas de Jesus devem ser o refúgio de todos, a repetirem com Santo Tomé, repletos de confiança, num ato de fé profunda: “Meu Senhor e meu Deus”.

Jesus entra glorioso no Cenáculo, com as portas fechadas, e transmite a Paz, que é fruto do amor misericordioso de Deus para com suas criaturas. É o grande fruto do amor de Deus, que jamais Se esquece de seus filhos, oferecendo o seu imenso amor a todos nós, através de Jesus Cristo. É o grande mistério de amor da Santíssima Trindade, desejosa de que façamos parte de sua Felicidade.

O objetivo Dele é que a clemência, a indulgência, a bondade de Deus seja sempre refúgio sobretudo para os pecadores. Neste domingo, em muitas comunidades católicas será exposta a imagem de Jesus Misericordioso. O sacerdote que divulgar esta devoção receberá muitas graças para si e para sua comunidade. Também podemos alcançar a graça da Indulgência Plenária, conforme a Igreja prescreve para este dia.

Jesus relacionou com a esta Festa uma graça especial: o perdão de todas as culpas e penas. Esta graça prometida por Jesus é algo muito maior do que a indulgência plenária, é uma da graças que recebemos no Batismo. Além da exigência da confiança, a promessa foi relacionada diretamente com a santa Eucaristia, recebida neste dia. Isso pressupõe evidentemente o sacramento da penitência, recebido antes.

Terminemos esta reflexão coma as palavras de João Paulo II sobre a Misericórdia Divina:
Cristo sublinha com insistência a necessidade de perdoar aos outros. Quando Pedro lhe perguntou quantas vezes devia perdoar ao próximo, indicou-lhe o número simbólico de «setenta vezes sete», querendo desta forma indicar-lhe que deveria saber perdoar sempre a todos e a cada um.

É evidente que exigência tão generosa em perdoar não anula as exigências objetivas da justiça. A justiça bem entendida constitui, por assim dizer, a finalidade do perdão. Em nenhuma passagem do Evangelho o perdão, nem mesmo a misericórdia como sua fonte, significam indulgência para com o mal, o escândalo, a injúria causada, ou os ultrajes. Em todos estes casos, a reparação do mal ou do escândalo, a compensação do prejuízo causado e a satisfação da ofensa são condição do perdão.

Com razão a Igreja considera seu dever e objetivo da sua missão, assegurar a autenticidade do perdão, tanto na vida e no comportamento concreto, como na educação e na pastoral. Não a protege de outro modo senão guardando a sua fonte, isto é, o mistério da misericórdia de Deus, revelado em Jesus Cristo (Dives in misericordia sobre a Misericórdia Divina Ioannes Paulus PP. II 30/11/1980).

ORAÇÃO: Ó Deus de eterna misericórdia, que reacendeis a fé do vosso povo na renovação da festa pascal, aumentai a graça que nos destes. E fazei que compreendamos melhor o batismo que nos lavou, o espírito que nos deu nova vida e o sangue que nos redimiu. Por nosso Senhor Jesus Cristo na unidade do Espírito Santo. Amém.

 

Grande é o poder da Misericórdia Divina
Padre Fábio de Melo

“Feliz a alma que confiou na vossa bondade. E submeteu-se inteiramente à Vossa Misericórdia! Essa alma está repleta da paz, do amor, em toda parte eu a defendeis, como Minha filha. Ó alma quem quer que sejas no mundo, ainda que seus pecados sejam negros como a noite. Não temas a Deus, tu frágil criança, porque grande é minha misericórdia” (Diário Faustina nº 1652). Hoje você pode substituir a palavra alma, pelo seu nome.

Entre minha morte e a eternidade existe um abismo de amor, do amor de Deus. Deus é um Pai amoroso que está sempre de mesa posta para acolher os que tem fome.

A parábola do filho prodigo, quebra todo paradigma, entender a misericórdia de Deus é para uma vida inteira. Você que se sente “estropiado”, longe de Deus e rejeitado.

O primeiro movimento da misericórdia de Deus em nós, é criar dentro do nosso coração a capacidade de amar e ser amado. E misericórdia é isso, ter um coração que ainda tem condição de acolher.

Deus coloca em nós a dignidade humana, é o elo que nos prende a Ele. Caminhamos na certeza que Deus está em mim. A opção de Deus por mim é definitiva. Precisamos responder a essa misericórdia.

João Paulo II viveu experimentou e viveu a dinâmica da misericórdia. Ele deve ter lutado para ser o bom filho, um bom seminarista, um bom padre, e um bom papa. Qual a diferença entre nós e João Paulo II, João entendeu que quanto mais ele tinha Deus, mais ele precisava ter. E Deus não acumulamos como as coisas. A cada dia é uma experiência nova, a única diferença que a experiência de hoje levará a base do cristão de amanhã.

Cuidado, para você não confundir misericórdia com preguiça, não ache que Deus vai ficar passando a mão na sua cabeça. Mas Deus fará no imperativo: “Sai desta vida! Esforça-te!”

Viver a misericórdia é viver o esforça de sermos melhor. A aprovação da lei que foi aprovada na semana passado é só inicio. A misericórdia do senhor me motiva a ser cada dia mais um vitorioso. O amor de Deus pode até doer, mas é uma dor de trás redenção”.

Hoje no dia da misericórdia, não podemos negar a realeza de ser filho de Deus.

O caminho de salvação é feito todos dias. O coração de Jesus está disposto a nos conduzir do Egito para terra prometida. Qual é seu Egito? É seu esposo? Um doença? Espera, caminhe rumo a terra prometida!

Quem não caminha não chega a lugar nenhum: dê passos! Não desanime! Não se curve aos destrato que o mundo quer te dar.

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda