Homilia da Semana

Biografia de Santo Ireneu – 28 de Junho

Por Helcion Ribeiro
Fonte: Coleção Patrística, Volume 4, Ed. Paulus.

Poucas, mas significativas, são as informações que se tem sobre santo Ireneu. No XVII ano do imperador romano Antonino Vero (177 d.C.), inúmeros cristãos passaram a ser aprisionados em Lião e Viena, na Gália, em decorrência de uma perseguição religiosa. Ao mesmo tempo na Frígia, surgiam os montanistas (seguidores de Montano), pregando um iminente retorno de Cristo; eles logo passaram a gozar de grande fama por causa das “maravilhas” de seus múltiplos carismas e falsas profecias. Contudo, tais profetas passaram a inquietar a Igreja espalhada por todo o império. Os cristãos prisioneiros em Lião, dissentindo de tais profetas, escreveram cartas aos irmãos da Ásia e da Frígia, e a Eleutério, o bispo de Roma, visando especificamente pacificar a Igreja. “Estes mártires recomendaram Ireneu ao bispo de Roma e o elogiaram dizendo: “Novamente te desejamos toda felicidade em Deus e que ela permaneça sempre contigo, pai Eleutério. Demos esta missão a Ireneu, irmão nosso e companheiro, de levar-te estas cartas; digna-te de recebê-lo como um zeloso observador do Testamento de Cristo. Se pensássemos que a posição de alguém é aquela que o torna justo, imediatamente queremos te apresentá-lo como sacerdote da Igreja, como de fato ele o é” (cit. por Eusébio, HE, V, 4, 1-2). Tal missão é o único fato datável de sua vida. Todos os outros são os mais possíveis. Costuma-se localizar seu nascimento em torno do ano 140, em Esmirna, na Ásia (atual Turquia). Ainda criança, em Esmirna, freqüentou o velho bispo Policarpo (martirizado em 156), que por sua vez fora discípulo do apóstolo João- o que confere a Ireneu o título de “vir apostolicus”. Na Ásia Menor, Ireneu conheceu são Policarpo. “Eu te poderia dizer-escreve ele a Florino, um ex-condiscípulo de Policarpo, que apostatara tornando-se valentiniano – o lugar onde o beato Policarpo costumava sentar-se para falar-nos, e como entrava nos argumentos; que tipo de vida tinha, qual o aspecto de sua pessoa, os discursos que fazia ao povo, como nos discorria sobre os íntimos colóquios que tinha com João e com os outros que haviam visto o Senhor, seus milagres e sua doutrina. Tudo isto Policarpo aprendeu com testemunhas oculares do Verbo da Vida e o anunciava em plena harmonia com as Sagradas Escrituras” (cit. por Eusébio, HE, V, 20, 5-60) Tendo voltado de Roma, foi eleito pelo povo bispo de Lião, sucedendo a são Potino, que morrera por maus tratos na prisão aos 90 anos de idade. Entre os anos de 180 e 198 escreveu suas duas obras, atualmente conhecidas. Interveio decisivamente em diversas controvérsias eclesiásticas, cuja mais célebre foi a grande polêmica sobre a data da Páscoa, que opôs as Igrejas da Ásia Menor às outras Igrejas do Ocidente, lideradas pelo papa Vítor (189-199). Diziam os bispos da Ásia – sob a liderança de Policrates, de Éfeso – conservar a data hebraica da festa da Páscoa, adotada por São João; para as Igrejas ocidentais e algumas do oriente era outra a data celebrada. Em determinado momento o papa avocou a si a decisão, ameaçando com a excomunhão os que não o seguissem: prenunciava-se assim uma calorosa cisão na Igreja. Ireneu escreveu ao papa e aos bispos da Ásia, em nome das Igrejas da Gália; exortava respeitosamente o papa a uma prudência maior e a não tomar medidas radicais. Certamente havia inconvenientes quanto aos costumes inculturados sobre a questão (duração do jejum, tradições quaresmais e pascais, e a própria data); certamente o bispo de Roma tinha direito de pronunciar-se e indicar o caminho da obediência. Entretanto, Ireneu convidava-o a não quebrar a unidade cristã por esta questão disciplinar e secundária, afinal eram ambas tradições vindas dos apóstolos em contextos diversos. Pacificados os ânimos, Ireneu – segundo o dizer de Eusébio – fez jus ao significado etimológico de seu nome, cujo radical (irene) significa “paz”. Segundo Gregório de Tours, na clássica História dos Francos, Ireneu como bispo conseguiu reanimar sua Igreja saída da perseguição, tornando-a um foco missionário para toda a Gália. Todavia seu mérito histórico maior foi ter identifica- do, estudado e refutado radicalmente o gnosticismo, e com isto estabeleceram-se bases e princípios gerais para combater todas as heresias na Igreja. Nada se sabe – com certeza – sobre sua morte. Uma tradição tardia – que remonta a são Jerônimo e ao Pseudo-Justino – afirma ter sido ele martirizado por heréticos, depois do ano 200, com uns 70 anos de idade; outra tradição afirma ter ele morrido num massacre geral de cristãos lionenses sob Sétimo Severo (pelo ano 202?). A Igreja o venera como mártir, celebrando-o a 28 de junho. Algumas notas -Este asiático, expatriado na Gália, conheceu Roma. Foi ele a unir a tradição da Ásia Menor à tradição romana, que transplantou para Lião. E aí adquire um valor excepcional seu testemunho situado na confluência do Oriente e do Ocidente.
-É impressionante a cultura bíblica de Ireneu – que usava a versão dos Setenta – citando praticamente todos os livros bíblicos, com exceção apenas de Ester, Crônicas, Eclesiastes, Cântico dos cânticos, Jó, Abdias e Macabeus (do AT), e Filemon e 2Jo (do NT).
-Apesar de não ser o seu forte argumentar com textos neo-testamentários, cita ele muito particularmente os Atos dos Apóstolos e a carta de Paulo aos Romanos (da qual mantém constantemente também o espírito). Usa alguns textos apócrifos (por exemplo: I Enoque, Ascensão de Isaías, proto-evangelho de Tiago), além de citar alguns textos atribuídos por ele a Jeremias e a Davi, não encontrados no cânon veterotestamentário.
-Na formação teológica de santo Ireneu estão presentes, não apenas como citação, mas como influência teológica, contributos da tradição apostólica, especialmente – através de São Policarpo – de São João e da escola joanina – sobretudo Pápias –, também Clemente Roma- no, Barnabé, Hermas e o autor da Didaqué. O bispo de Lião é ainda devedor a Teófilo de Antioquia, Melitão de Sardes, Aristão de Pella; conhecia bem Taciano e, provavelmente, Clemente Alexandrino jovem e Atenágoras.
-É inegável sua preparação clássica, podemos citar Homero e Hesíodo, Píndaro e Estesicoro; conhecia as fábulas de Esopo e os dramas de Édipo. Nas teorias gnósticas encontrou paralelos com a doutrina de Tales, Anaximandro, Anaxágoras, mas, sobretudo de Platão e Aristóteles. Leu profundamente Justino. Ao estudar os gnósticos em seus textos originais, aprofundou- se em Valentim, Ptolomeu (valentiniano), Marcos, Marcião, Simão, o Mago, e outros menores como Menandro, Saturnino, Basílides, Carpocrates, Cerinto, os ebionitas, os nicolaítas, Cerdão, Taciano, os ofitas, os setitas, os cainitas.
-Apesar de ser um marco e uma ponte entre o cristianismo das origens e o que se desenvolve a partir do século III (com crescente peso político e organização hierárquica), Ireneu foi aos poucos sendo esquecido a ponto de o bispo de Lião Etério ter escrito ao papa Gregório Magno (590-604) para obter informações sobre a vida e obras de seu ilustre predecessor – do qual conhecia por ouvir dizer provavelmente só o nome e a fama ou uma série de lendas inaceitáveis.
-Ignorado na Idade Média, Ireneu foi redescoberto no século XVI, quando Erasmo publicou uma edição com os textos principais de Adversus haereses (1526). Demonstração só foi encontrada em 1904, pelo arquimandrita Ter- Mekerttschian.
-Homem de tradição apostólica, Ireneu tornou-se o primeiro teólogo como guardião fiel dos “cânones imutáveis da verdade” (Ad. haer. I, 9.4). Sem especulações, nem inovações, ele -mestre da tradição -legou um ensino essencialmente tradicional, cujo caráter permanece na teologia ocidental; ao contrário, por exemplo, do legado de Orígenes (também excelente teólogo, bem mais especulativo e criativo e autor de grandioso estudo científico, apesar de algumas vezes prematuro e nem sempre seguro), ou de Tertuliano (de quem procede especialmente a linguagem técnica da teologia).

SANTO IRENEU – O ADVERSÁRIO DA GNOSE
Ireneu é considerado o maior teólogo do século II. Nascido na Ásia Menor (entre 140 e 160), chegou a conhecer São Policarpo de Esmirna, discípulo do apóstolo São João. Era presbítero na cidade de Lyon durante a perseguição de Marco Aurélio. Após o martírio de Potino, foi eleito bispo daquela cidade. Não temos nada de exato sobre sua morte. Segundo uma tradição antiga, ele teria sido martirizado por hereges depois do ano 200, com aproximadamente 70 anos de idade. Outros, porém, afirmam que ele morreu em um massacre de cristãos em Lyon, no reinado de Sétimo Severo (202?). A Igreja o venera como mártir, no dia 28 de junho. A sua maior obra, “Adversus haereses”, “Contra as heresias”, foi escrita entre os anos 180 e 185. Trata-se de um ataque demolidor ao sistema gnóstico. Depois de expor e refutar detalhadamente as doutrinas da gnose (que conhecia muito bem), Ireneu revela a verdadeira doutrina: o cristianismo. Testemunha de grande autoridade, Ireneu fala, entre outras coisas:
-Do valor da Tradição como regra de fé.
-Do primado da Igreja de Roma: “Com esta Igreja, por causa de sua autoridade principal, faz-se mister concordarem as demais Igrejas, a saber, os fiéis do universo, na qual se manteve incólume sempre, esses fiéis de toda a parte, a tradição apostólica”
-“…onde está a Igreja está o Espírito de Deus, e onde está o Espírito de Deus está a Igreja e toda graça”.
-Da estada e do martírio de São Pedro e de São Paulo em Roma.
-Que Cristo é a encarnação de Deus. Nele Deus se faz homem para divinizar a humanidade.
-Que A Virgem Maria, por sua obediência, consertou a desobediência de Eva. Maria é a “advogada de Eva” e “causa de salvação” para o gênero humano.
-Da doutrina do pecado original.
-Do costume de se batizar também as crianças;
-Que a eucaristia é a carne e o sangue de Jesus. “Compõe-se de dois elementos, um terreno e outro celeste”. É o sacrifício novo, anunciado por Malaquias (Ml 1,10s), celebrado pela Igreja no mundo inteiro. Acompanhando muitos de sua época, Ireneu era milenarista. Como, porém, o milenarismo não tinha sido condenado pelo Magistério, não faz o menor sentido dizer que Ireneu é culpado de heresia. Não se pode falar de culpa sem conhecimento de causa.
Fonte: http://www.bibliacatolica.com.br/historia_igreja/19.php

Santo Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208), bispo, teólogo e mártir
Contra as heresias, III, 11, 8-9
SÃO MATEUS, UM DOS QUATRO EVANGELISTAS
Não pode haver um número superior nem um número inferior de evangelhos. Com efeito, uma vez que são quatro as regiões do mundo no qual nos encontramos, e quatro os ventos principais, e uma vez que, por outro lado, a Igreja está espalhada por toda a terra e tem por “coluna e sustentáculo” (1Tm 3, 15) o Evangelho e o Espírito da vida, é natural que haja quatro colunas que sopram a imortalidade de todos os lados e dão vida aos homens. Quando o Verbo, o artesão do universo, que tem o trono sobre os querubins e que sustenta todas as coisas (Sl 79, 2; Hb 1, 3), se manifestou aos homens, deu-nos um evangelho com quatro formas, embora mantido por um único Espírito. Implorando a sua vinda, David dizia: “Manifestai-Vos, Vós que tendes o Vosso trono sobre os querubins” (Sl, 79, 2). Porque os querubins têm quatro figuras (Ez 1, 6), que são as imagens da atividade do Filho de Deus. “O primeiro [destes seres vivos] era semelhante a um leão” (Ap 4, 7), e caracteriza o poder, a preeminência e a realeza do Filho de Deus; “o segundo, a um touro”, manifestando a sua função de sacrificador e de sacerdote; “o terceiro tinha um rosto como que de homem”, evocando claramente a sua face humana; “o quarto era semelhante a uma águia em pleno vôo”, indicando o dom do Espírito que paira sobre a Igreja. Os evangelhos segundo João, Lucas, Mateus e Marcos estarão, pois, também eles, de acordo com estes seres vivos sobre os quais Cristo Jesus tem o seu trono. […] Encontramos estes mesmos traços no próprio Verbo de Deus; aos patriarcas que existiram antes de Moisés, falava Ele segundo a sua divindade e a sua glória; aos homens que viveram sob a Lei, atribuiu Ele uma função sacerdotal e ministerial; em seguida, fez-Se homem por nós; por fim, enviou o dom do Espírito a toda a terra, escondendo-os à sombra das Suas asas (Sl 16, 8). […] São, pois, fúteis, ignorantes e presunçosos os que rejeitam a forma sob a qual se apresenta o evangelho, ou introduzem no evangelho um número de figuras maior ou menor do que as que referimos.

Santo Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208), bispo, teólogo e mártir
Contra as heresias, III, 22, 3; 23, 1
“FILHO DE ADÃO”
Lucas apresenta uma genealogia que remonta do nascimento de Nosso Senhor até Adão e comporta setenta e duas gerações; deste modo, como que liga o fim ao principio, dando a entender que o Senhor foi Aquele que recapitulou em Si todas as nações dispersas desde Adão, todas as línguas e as gerações dos homens, incluindo o próprio Adão. É também por isso que Paulo chama a Adão “figura daquele que havia de vir” (Rm 5, 14), porque o Verbo, Artesão do universo, tinha esboçado em Adão a futura história da humanidade de que se revestiria o Filho de Deus. […] Ao tornar-se o Primogênito dos mortos (Cl 1, 18), e ao receber no seu seio os antigos pais, o Senhor fê-los renascer para a vida de Deus; tornou-se o primeiro, o príncipe dos vivos, porque Adão se tinha tornado o príncipe dos mortos. […] Ao começar a sua genealogia no Senhor, fazendo-a remontar a Adão, Lucas indica que não foram os pais que deram a vida ao Senhor, mas foi Ele que os fez renascer no Evangelho da vida. Da mesma maneira, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, porque a Virgem Maria desatou pela fé aquilo que a Virgem Eva tinha atado pela sua incredulidade. Era, pois, indispensável que, vindo ter com a ovelha pedida (Mt 18, 12), recapitulando uma tão longa história, vindo à procura da sua obra, por Ele mesmo modelada (Lc, 19, 10; Gn 2, 8), o Senhor salvasse o homem que tinha sido feito à Sua imagem e semelhança (Gn 1, 26), isto é, Adão.

Santo Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208), bispo, teólogo e mártir
Contra as heresias, IV, 20, 7
O FILHO REVELA O PAI
“Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer” (Jo 1, 18). Desde o começo, é o Filho quem revela o Pai, porque Ele está junto do Pai desde o começo. No tempo fixado, foi Ele quem deu a conhecer aos homens, para proveito destes, as visões proféticas, a diversidade das graças, os ministérios e a glorificação do Pai, tudo como uma melodia bem composta e harmoniosa. Com efeito, onde há composição, há melodia; onde há melodia, há tempo fixado; onde há tempo fixado, há proveito. Foi por isso que, para proveito dos homens, o Verbo Se fez dispensador da graça do Pai, segundo os Seus desígnios. Ele mostra Deus aos homens e apresenta o homem a Deus, preservando a invisibilidade do Pai, com receio de que os homens venham a desprezar a Deus e para que eles tenham sempre progressos a fazer, ao mesmo tempo que torna Deus visível aos homens de numerosas formas, com receio de que, totalmente privados de Deus, eles acabem por se esquecer da Sua existência. Porque a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus. Se a revelação de Deus pela criação já dá a vida a todos os seres que vivem na terra, quanto mais a manifestação do Pai pelo Verbo dá a vida aos que vêem a Deus!

Santo Ireneu de Lyon (c. 130-c. 208), bispo, teólogo e mártir
Contra as heresias
“TU REVELASTE-AS AOS PEQUENINOS”
Aquilo que o Senhor nos ensina é que ninguém pode conhecer a Deus a menos que Deus Se mostre; dito de outra maneira, não podermos conhecer a Deus sem o auxílio de Deus. Mas o Pai quer ser conhecido: conhecê-Lo-ão aqueles a quem o Filho O revelar. […] Este “revelar” não designa apenas o futuro, como se o Verbo só tivesse começado a revelar o Pai depois de ter nascido de Maria; aplica-se à totalidade do tempo. Desde o começo que o Filho, presente na criação que Ele próprio modelou, revela o Pai a todos quantos o Pai deseja ser revelado, quando Ele deseja sê-lo, como Ele deseja sê-lo. Em todas as coisas, e através de todas as coisas, não há senão um Deus-Pai, um único Verbo, um único Espírito e uma única salvação para todos quantos crêem nele. Com efeito, ninguém pode conhecer o Pai sem o Verbo de Deus, isto é, se o Filho não O revelar, nem conhecer o Filho sem “o agrado” do Pai (Mt 11, 26). Ora, aquilo que, na Sua bondade, o Pai quer, cumpre-o o Filho: o Pai envia, o Filho é enviado, e vem. E este Pai infinito, que para nós é invisível, é conhecido pelo Seu próprio Verbo, que dá a conhecer Aquele que é inexprimível (Jo 1, 18).

Santo Ireneu de Lião (c. 130 – c. 208), bispo, teólogo e mártir
Contra as Heresias, IV, 13,3
A LEI ENRAIZADA NOS NOSSOS CORAÇÕES
Há preceitos da lei natural que, só por si, nos dão a justiça; mesmo antes do dom da Lei a Moisés, havia homens que observavam esses preceitos e eram justificados pela sua fé e agradavam a Deus. Esses preceitos, o Senhor não os aboliu, mas alargou-os e levou-os à perfeição. É isso que provam estas palavras: “Foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Mas eu digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher e a cobiçar já cometeu adultério com ela no seu coração”. E também: “Foi dito: Não matarás. Mas eu digo-vos: Todo aquele que se encolerizar contra o seu irmão sem motivo, responderá por isso em tribunal” (Mt 5, 21ss)… E assim sucessivamente. Todos estes preceitos não implicam nem contradição nem abolição dos precedentes, mas o seu cumprimento e a sua extensão. Como o próprio Senhor diz: “Se a vossa justiça não ultrapassar a dos escribas e dos Fariseus, não entrareis no reino dos Céus” (Mt 5, 20). Em que consistia essa ultrapassagem? Primeiro, em acreditar não só no Pai, mas também no Filho agora manifestado, porque é Ele quem conduz o homem à comunhão e à união com Deus. Em seguida, em não dizer apenas, mas em fazer – porque “eles dizem, mas não fazem (Mt 23, 3) – e em guardar-se não só dos atos maus mas até do desejo deles. Ao ensinar isto, Ele não contradizia a Lei, mas cumpria a Lei e enraizava em nós as prescrições da Lei… Prescrever abster-se não só dos atos proibidos pela Lei mas mesmo do seu desejo, não é obra de quem contradiz e abole a Lei; é obra de quem a cumpre e alarga.
Fonte: www.evangelhoquotidiano.org

SANTO IRENEU DE LIÃO
Papa Bento XVI
Queridos irmãos e irmãs! Nas catequeses sobre as grandes figuras da Igreja dos primeiros séculos chegamos hoje à personalidade eminente de Santo Ireneu de Lião. As notícias biográficas sobre ele provêm do seu próprio testemunho, que nos foi transmitido por Eusébio no quinto livro da História Eclesiástica. Ireneu nasceu com toda a probabilidade em Esmirna (hoje Izmir, na Turquia) por volta do ano 135-140, onde ainda jovem freqüentou a escola do Bispo Policarpo, por sua vez discípulo do apóstolo João. Não sabemos quando se transferiu da Ásia Menor para a Gália, mas a transferência certamente coincidiu com os primeiros desenvolvimentos da comunidade cristã de Lião: aqui, no ano 117, encontramos Ireneu incluído no colégio dos presbíteros. Precisamente naquele ano ele foi enviado para Roma, portador de uma carta da comunidade de Lião ao Papa Eleutério. A missão romana subtraiu Ireneu à perseguição de Marco Aurélio, que causou pelo menos quarenta e oito mártires, entre os quais o próprio Bispo de Lião, Potino que, com noventa anos, faleceu por maus-tratos no cárcere. Assim, com o seu regresso, Ireneu foi eleito Bispo da cidade. O novo Pastor dedicou-se totalmente ao ministério episcopal, que se concluiu por volta de 202-203, talvez com o martírio. Ireneu é antes de tudo um homem de fé e Pastor. Do bom Pastor tem o sentido da medida, a riqueza da doutrina, o fervor missionário. Como escritor, busca uma dupla finalidade: defender a verdadeira doutrina contra os ataques heréticos, e expor com clareza a verdade da fé. Correspondem exatamente a estas finalidades as duas obras que dele permanecem: os cinco livros Contra as Heresias, e a Exposição da pregação apostólica (que se pode também chamar o mais antigo “catecismo da doutrina cristã”). Em suma, Ireneu é o campeão da luta contra as heresias. A Igreja do século II estava ameaçada pela chamada gnose, uma doutrina que afirmava que a fé ensinada na Igreja seria apenas um simbolismo para os simples, que não são capazes de compreender coisas difíceis; ao contrário, os idosos, os intelectuais chamavam-se gnósticos teriam compreendido o que está por detrás destes símbolos, e assim teriam formado um cristianismo elitista, intelectualista. Obviamente este cristianismo intelectualista fragmentava-se cada vez mais em diversas correntes com pensamentos muitas vezes estranhos e extravagantes, mas para muitos era atraente. Um elemento comum destas diversas correntes era o dualismo, isto é, negava-se a fé no único Deus Pai de todos, Criador e Salvador do homem e do mundo. Para explicar o mal no mundo, eles afirmavam a existência, em paralelo com o Deus bom, de um princípio negativo. Este princípio negativo teria produzido as coisas materiais, a matéria. Radicando-se firmemente na doutrina bíblica da criação, Ireneu contesta o dualismo e o pessimismo gnóstico que diminuíam as realidades corpóreas. Ele reivindicava decididamente a santidade originária da matéria, do corpo, da carne, não menos que a do espírito. Mas a sua obra vai muito mais além da confutação da heresia: pode-se dizer de fato que ele se apresenta como o primeiro grande teólogo da Igreja, que criou a teologia sistemática; ele mesmo fala do sistema da teologia, isto é, da coerência interna de toda a fé. No centro da sua doutrina situa-se a questão da “regra da fé” e da sua transmissão. Para Ireneu a “regra da fé” coincide na prática com o Credo dos Apóstolos, e dá-nos a chave para interpretar o Evangelho, para interpretar o Credo à luz do Evangelho. O símbolo apostólico, que é uma espécie de síntese do Evangelho, ajuda-nos a compreender o que significa, como devemos ler o próprio Evangelho. De fato o Evangelho pregado por Ireneu é o mesmo que recebeu de Policarpo, Bispo de Esmirna, e o Evangelho de Policarpo remonta ao apóstolo João, do qual Policarpo era discípulo. E assim o verdadeiro ensinamento não é o que foi inventado pelos intelectuais além da fé simples da Igreja. O verdadeiro Evangelho é o que foi transmitido pelos Bispos que o receberam numa sucessão ininterrupta dos Apóstolos. Eles outra coisa não ensinaram senão precisamente esta fé simples, que é também a verdadeira profundidade da revelação de Deus. Assim diz-nos Ireneu não há uma doutrina secreta por detrás do Credo comum da Igreja. Não existe um cristianismo superior para intelectuais. A fé publicamente confessada pela Igreja é a fé comum de todos. Só esta fé é apostólica, vem dos Apóstolos, isto é, de Jesus e de Deus. Aderindo a esta fé transmitida publicamente pelos Apóstolos aos seus sucessores, os cristãos devem observar o que os Bispos dizem, devem considerar especialmente o ensinamento da Igreja de Roma, preeminente e antiqüíssima. Esta Igreja, devido à sua antiguidade, tem a maior apostolicidade, de fato haure origem das colunas do Colégio apostólico, Pedro e Paulo. Com a Igreja de Roma devem harmonizar-se todas as Igrejas, reconhecendo nela a medida da verdadeira tradição apostólica, da única fé comum da Igreja. Com estas argumentações, aqui resumidas muito brevemente, Ireneu contesta desde os fundamentos as pretensões destes gnósticos, destes intelectuais: antes de tudo eles não possuem uma verdade que seria superior à da fé comum, porque o que dizem não é de origem apostólica, é por eles inventado; em segundo lugar, a verdade e a salvação não são privilégio nem monopólio de poucos, mas todos as podem alcançar através da pregação dos sucessores dos Apóstolos, e sobretudo do Bispo de Roma. Em particular sempre polemizando com o caráter “secreto” da tradição gnóstica, e observando os seus numerosos êxitos entre si contraditórios Ireneu preocupa-se por ilustrar o conceito genuíno de Tradição apostólica, que podemos resumir em três pontos. a) A Tradição apostólica é “pública”, não privada ou secreta. Ireneu não duvida minimamente de que o conteúdo da fé transmitida pela Igreja é o que recebeu dos Apóstolos e de Jesus, do Filho de Deus. Não existe outro ensinamento além deste. Portanto quem quiser conhecer a verdadeira doutrina é suficiente que conheça “a Tradição que vem dos Apóstolos e a fé anunciada aos homens”: tradição e fé que “chegaram até nós através da sucessão dos Bispos” (Adv. Haer.3, 3, 3-4). Assim, sucessão dos Bispos, princípio pessoal; e Tradição apostólica, princípio doutrinal coincidem. b) A Tradição apostólica é “única”. De fato, enquanto o gnosticismo se subdivide em numerosas seitas, a Tradição da Igreja é única nos seus conteúdos fundamentais, a que como vimos Ireneu chama precisamente regula fidei ou veritatis: e isto porque é única, gera unidade através dos povos, através das culturas diversas, através dos povos diversos; é um conteúdo comum como a verdade, apesar da diversidade das línguas e das culturas. Há uma frase muito preciosa de Santo Ireneu no livro Contra as heresias: “A Igreja, apesar de estar espalhada por todo o mundo, conserva com solicitude [a fé dos Apóstolos], como se habitasse numa só casa; ao mesmo tempo crê nestas verdades, como se tivesse uma só alma e um só coração; em plena sintonia com estas verdades proclama, ensina e transmite, como se tivesse uma só boca. As línguas do mundo são diversas, mas o poder da tradição é único e é o mesmo: as Igrejas fundadas nas Alemanhas não receberam nem transmitiram uma fé diversa, nem as que foram fundadas nas Espanhas ou entre os Celtas ou nas regiões orientais ou no Egito ou na Líbia ou no centro do mundo” (1, 10, 1-2). Já se vê neste momento, estamos no ano 200, a universalidade da Igreja, a sua catolicidade e a força unificadora da verdade, que une estas realidades tão diversas, da Alemanha à Espanha, à Itália, ao Egito, à Líbia, na comum verdade que nos foi revelada por Cristo. c) Por fim, a Tradição apostólica é como ele diz na língua grega na qual escreveu o seu livro, “pneumática”, isto é, espiritual, guiada pelo Espírito Santo: em grego espírito diz-se pneuma. De fato, não se trata de uma transmissão confiada à habilidade de homens mais ou menos doutos, mas ao Espírito de Deus, que garante a fidelidade da transmissão da fé. Esta é a “vida” da Igreja, o que torna a Igreja sempre vigorosa e jovem, isto é, fecunda de numerosos carismas. Igreja e Espírito para Ireneu são inseparáveis: “Esta fé”, lemos ainda no terceiro livro Contra as heresias, “recebemo-la da Igreja e conservamo-la: a fé, por obra do Espírito de Deus, como um depósito precioso guardado num vaso de valor rejuvenesce sempre e faz rejuvenescer também o vaso que a contém. Onde estiver a Igreja, ali está o Espírito de Deus; e onde estiver o Espírito de Deus, ali está a Igreja com todas as graças” (3, 24, 1). Como se vê, Ireneu não se limita a definir o conceito de Tradição. A sua tradição, a Tradição ininterrupta, não é tradicionalismo, porque esta Tradição é sempre internamente vivificada pelo Espírito Santo, que a faz de novo viver, a faz ser interpretada e compreendida na vitalidade da Igreja. Segundo o seu ensinamento, a fé da Igreja deve ser transmitida de modo que apareça como deve ser, isto é, “pública”, “única”, “pneumática”, “espiritual”. A partir de cada uma destas características podemos realizar um frutuoso discernimento sobre a autêntica transmissão da fé no hoje da Igreja. Mais em geral, na doutrina de Ireneu a dignidade do homem, corpo e alma, está firmemente ancorada na criação divina, na imagem de Cristo e na obra permanente de santificação do Espírito. Esta doutrina é como uma “via-mestra” para esclarecer juntamente com todas as pessoas de boa vontade o objeto e os confins do diálogo sobre os valores, e para dar impulso sempre renovado à ação missionária da Igreja, à força da verdade que é a fonte de todos os valores verdadeiros do mundo.

Solenidade de São Pedro e São Paulo – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Este ano, a Solenidade de São Pedro e de São Paulo, Apóstolos, coincide com o domingo, substituindo a liturgia do domingo comum correspondente a este dia. É uma oportunidade para celebrar mais festivamente esta solenidade que nos recorda dois grandes personagens da história da nossa fé cristã, ou seja, os dois grandes apóstolos de Jesus Cristo. Neles encontramos um exemplo para a nossa vida, não esquecendo que são nossos intercessores diante de Deus. A liturgia tem uma missa de vigília, não havendo nada que impeça somente a celebração da missa do dia. As orações próprias (especialmente a coleta) acentuam esta idéia: “por meio dos apóstolos São Pedro e São Paulo, comunicastes à vossa Igreja os primeiros ensinamentos da fé”; e pedem que “a Igreja se mantenha sempre fiel à doutrina daqueles que foram o fundamento da sua fé”. O prefácio desta solenidade é de grande beleza, pondo em paralelo os dois apóstolos: “Pedro, que foi o primeiro a confessar a fé em Cristo, e Paulo, que a ilustrou com a sua doutrina; Pedro, que estabeleceu a Igreja nascente entre os filhos de Israel, e Paulo, que anunciou o Evangelho a todos os povos; ambos trabalharam cada um segundo a sua graça, para formar a única família de Cristo; agora, associados na mesma coroa de glória, recebem do povo fiel a mesma veneração”. Pedro foi o primeiro dos apóstolos. Não é o primeiro na ordem cronológica, mas sim o primeiro no grupo dos discípulos. No Evangelho desta solenidade, Jesus diz. “Tu és Pedro: sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (missa do dia). Pelo fato de Pedro ter sido o primeiro do grupo dos Doze, hoje, o Papa é considerado o sucessor de Pedro. Simão era um pescador, um homem simples, mas um homem apaixonado que viu em Jesus o sentido da sua vida; por isso, seguiu-O. Frágil como nós, experimentou a dificuldade de reconhecer a fé e negou Jesus por três vezes, mas depois, como nos diz o livro dos Atos dos Apóstolos, deu testemunho de Jesus (1ª leitura da vigília), até entregar a sua vida, sendo feito prisioneiro (1ª leitura do dia) e morrendo mártir em Roma. Paulo é o outro grande Apóstolo. Não conheceu Jesus e durante muitos anos foi um perseguidor dos cristãos. Todos sabem como Saulo se converteu e como descobre a fé em Jesus, transformando-se no grande apóstolo dos gentios – daqueles que não eram judeus – pregando o Evangelho por toda a região mediterrânea com as suas viagens e com as suas cartas. Paulo será preso e martirizado em Roma. As suas cartas, tantas vezes proclamadas nas nossas celebrações, ajudam-nos a conhecer o seu carisma e a sua mensagem. Na 2ª leitura desta solenidade, narra-nos como foi chamado e enviado por Jesus (vigília), como também nos fala da entrega total da sua vida pela causa do Evangelho, com a ajuda de Deus, confiando de que receberá o prêmio no dia em que se apresentar diante do Senhor, justo juiz (dia). Pedro e Paulo são os dois grandes apóstolos, são os fundamentos da Igreja. Esta solenidade deve fortalecer a nossa fé. Pedro e Paulo foram dois homens simples, cada um com a sua história, com as suas fraquezas e dificuldades, mas também foram testemunhas firmes de Jesus, até dar a vida no martírio em Roma. De Pedro e de Paulo procede a nossa fé que se foi transmitindo de geração em geração na unidade da Igreja. Nós somos homens e mulheres simples, frágeis, por vezes com dificuldade em acreditar e em ser autênticos discípulos de Jesus. Mas em Pedro e Paulo encontramos um modelo, um exemplo, ânimos para sermos verdadeiros discípulos de Jesus, verdadeiros membros da Sua Igreja. Por intercessão de Pedro e de Paulo, rezemos pela Igreja, pelo Papa, pelos Bispos, por todos os cristãos do mundo para que permaneçamos firmes na fé. No Evangelho da missa do dia, Jesus pergunta aos seus discípulos: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?”. Os discípulos respondem: “Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, outros que é Jeremias, ou algum dos profetas”. Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Então Simão Pedro tomou a palavra e disse: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Hoje, Jesus repete-nos a pergunta: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Cada um terá de dar uma resposta. Para mim, quem é Jesus? Como Pedro, podemos afirmar que Jesus é o Senhor, o Filho de Deus, Aquele que dá sentido à nossa vida, Aquele em quem podemos encontrar as raízes mais profundas do nosso ser. Que a profissão de fé de Pedro e de Paulo seja hoje exemplo e bálsamo para que cada um de nós faça da vida uma verdadeira profissão de fé.

 

FAZER UM ENCONTRO PESSOAL COM JESUS
Padre Roger Luis

A Igreja hoje celebra a solenidade de São Pedro e São Paulo. Eles são os dois pilares da Igreja. “No dia seguinte, João estava lá, de novo, com dois dos seus discípulos. Vendo Jesus caminhando, disse: “Eis o Cordeiro de Deus”! Os dois discípulos ouviram esta declaração de João e passaram a seguir Jesus. Jesus voltou-se para trás e, vendo que eles o seguiam, perguntou-lhes: “Que procurais?” Eles responderam: “Rabi ( que quer dizer Mestre ), onde moras?” Ele respondeu: “Vinde e vede”! Foram, viram onde morava e permaneceram com ele aquele dia. Era por volta das quatro horas da tarde. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que tinham ouvido a declaração de João e seguido Jesus. Ele encontrou primeiro o próprio irmão, Simão, e lhe falou: “Encontramos o Cristo!” ( que quer dizer Messias )Então, conduziu-o até Jesus, que lhe disse, olhando para ele: “Tu és Simão, filho de João. Tu te chamarás Cefas!” (que quer dizer Pedro). No dia seguinte, ele decidiu partir para a Galiléia e encontrou Filipe. Jesus disse a este: “Segue-me”! (Filipe era de Betsaida, a cidade de André e de Pedro). Filipe encontrou-se com Natanael e disse-lhe: “Encontramos Jesus, o filho de José, de Nazaré, aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, bem como os Profetas”. Natanael perguntou: “De Nazaré pode sair algo de bom?” Filipe respondeu: “Vem e vê”! (João 3, 35-46). André apresentou Jesus a Pedro, um Cristo completo, um Jesus que faz milagres, mas também que sofreu e morreu na cruz. E essa é a missão da Canção Nova, apresentar um Messias com tudo que Ele é. Jesus ao se encontrar com Pedro, muda toda a sua vida, muda a sua história, Pedro deixa os seus sonhos para fazer aquilo que está no coração do Senhor. Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos discípulos: “Quem é que as pessoas dizem ser o Filho do Homem?” Eles responderam: “Alguns dizem que és João Batista; outros, Elias; outros ainda, Jeremias ou algum dos profetas”. “E vós”, retomou Jesus, “quem dizeis que eu sou?” Simão Pedro respondeu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Jesus então declarou: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne e sangue quem te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo: tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e as forças do Inferno não poderão vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. Em seguida, recomendou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Cristo (Mateus 16, 13-20). Quem é Jesus para você, quem Jesus na sua família? Você tem mostrado com sua vida quem é Jesus? Você tem proclamado com a sua vida, que Jesus é o messias? Jesus que Pedro declara como filho de Deus é um Cristo inteiro, que vem trazer milagres, prodígios que veio para que tivéssemos um encontro pessoal com Ele e nossa vida fosse transformada. Ele veio libertar os pobres sim, mas não podemos reduzir sua missão somente a isso, Ele veio para que tivéssemos um encontro com Ele. Jesus voltou para a Galiléia, com a força do Espírito, e sua fama se espalhou por toda a região. Ele ensinava nas sinagogas deles, e todos o elogiavam. Foi então a Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, no dia de sábado, foi à sinagoga e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, encontrou o lugar onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça da parte do Senhor”. Depois, fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Os olhos de todos, na sinagoga, estavam fixos nele. Então, começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lucas 4, 14-21). Jesus disse: “Em mim se cumpre essa profecia de Isaías é libertar os pobres, curar os que estão cegos fisicamente, mas também espiritualmente.” Jesus tem um novo tempo para sua vida. Um tempo de graça, de restauração para sua vida. Pois foi isso que ele veio trazer. São Pedro em sua primeira pregação disse que Jesus de Nazaré era um homem credenciado pelos sinais e milagres que Ele fez. A igreja toda tem o direito de experimentar o Cristo por inteiro que nos visita e nos toca. No tempo em que vivemos se nossa evangelização não for carismática, não vamos atingir as pessoas que estão imersas no pecado. Hoje os discursos são tão grandes para que paremos de falar sobre as curas, os milagres de Jesus que eu me questiono se estou errado, mas a Palavra de Deus me dá um respaldo. E eu toco nos milagres do Senhor. E eu entendo a via da perseguição, e eu vou continuar pregando, pois o Senhor me deu um espírito de coragem e não de covardia. Eu me questiono se as pessoas que estão sofrendo não tem o direito de vivenciar os milagres do Senhor, mas a Palavra de Deus vem em meu socorro, em Atos dos Apóstolos está escrito que Pedro e João foram presos por fazerem um milagre, mas a comunidade deu suporte a eles, orando para que crescessem os milagres e prodígios. O desejo de Jesus é que as pessoas experimentem a graça dos prodígios e milagres, que esses acontecimentos se multipliquem. Uma coisa que tem sumido é o temor de Deus, basta ver como o pecado hoje está naturalizado. Muitos não se preocupam dizendo que Deus é misericordioso, mas a misericórdia de Deus é a justiça. Precisamos proclamar Jesus na sua totalidade. Jesus é o mesmo de ontem, de hoje e de sempre e Ele continua realizando milagres e prodígios. E você tem o direito de experimentar esse Cristo que Pedro e Paulo experimentaram. Cegos recobram a vida, paralíticos andam, mortos ressuscitam e a boa nova é anunciada, mas depende muito de você. Você quer? Depende de você querer e entender esse mistério. Saulo perseguia aos cristãos, mas Jesus entrou na sua vida e o transformou completamente. Quando nós nos abrimos a experiência com Cristo, ele renova, muda toda nossa vida. Não importa o que você era antes, como vivia, se era alguém frio na sua fé, que não acreditava que Jesus poderia fazer algo na sua vida, mas agora Deus começou a te convencer que você pode ter um vida reta. O que fez a diferença na vida de Pedro e Paulo foi o encontro pessoal com Jesus. Ele está operando também na sua vida, não tenha medo do que o Senhor fará em sua vida. Jesus Cristo quer te libertar, te dar vida nova, foi isso que os pilares da Igreja experimentaram. Nós não pregamos poesia, pregamos o evangelho. Não temos medo porque nos experimentamos o Espírito Santo que nos libertou do medo, que nos deu um avivamento. Saulo recebeu o Espírito Santo quando Ananias impôs suas mãos sobre ele. Pedro ficou cheio do Espírito quando foi batizado no cenáculo junto com Maria, e após esse batismo ele fez um pregação e se converteram 3 mil pessoas, ele com certeza não pregou poesia. Que hoje você experimente os milagres e prodígios que Deus tem para você.

 

ONDE ESTÁ PEDRO, AÍ ESTÁ A IGREJA!
Padre Bantu Mendonça

Estamos diante da questão da identidade de Jesus. Perante isto, dois títulos se confrontam: “Filho do Homem” e “Cristo”. Jesus, com frequência, identifica-se como o “Filho do Homem”. Por outro lado, os discípulos originários do Judaísmo identificam Jesus como o “Cristo”. O “Filho do Homem” é uma expressão que aparece quase uma centena de vezes no profeta Ezequiel, exprimindo a condição humana -comum e frágil- de alguém que coloca toda sua confiança em Deus. “Cristo”, que é sinônimo de Messias ou Ungido, é um título aplicado abundantemente a Davi, ou a um seu descendente, no Antigo Testamento, estando associado à idéia de um chefe poderoso e dominador. Nós, católicos, temos a certeza e o orgulho de sermos a única Igreja cristã, edificada sobre fundamento rochoso, sobre Pedro (ver Mt 7, 24). Daí que nos orgulhamos em afirmar: “Onde está Pedro, aí está a Igreja!” (Santo Ambrósio). Deixemos a primeira pergunta “Quem dizem os homens que sou eu?” e respondamos à segunda pergunta “E vós, quem dizeis que eu sou?” Hoje não é suficiente a resposta de Pedro: “O Messias, o esperado de Israel”. A nossa resposta deveria ser: O Filho de Deus encarnado, que se entregou e morreu por mim. (ver Gl 2,20) Por isso, vivemos a vida presente pela fé no Filho de Deus. Na verdade, essa imagem de Cristo que todos nós levamos dentro – desde o nosso Batismo – está, ou destroçada ou escurecida. Como poderemos ser apóstolos se não sentimos Sua presença dentro de nós? Como “vender um produto” do qual não estamos nós, os vendedores, convencidos? A resposta de Jesus dada a Simão indica que a nossa resposta, admitindo Seu senhorio total como Messias e como Filho de Deus, é também um dom do céu e que ela merece um makarismo especial. Não seremos os chefes, como Pedro, mas a Igreja estará fundada em nós e em nossas famílias. Além de Cristo como figura central, temos Pedro como figura destacada, por duas razões: por sua fé em Jesus e por sua lista de serviços como chefe da comunidade. A revelação de confessar Jesus como Messias, Filho de Deus, é um dom do Pai e isso serve para todos nós. A chefia da comunidade eclesial é própria dele e continua em seus sucessores através dos séculos. A eles pertence o poder das chaves, jurídico e doutrinal, como o entende a Igreja Católica. Não foi dado este poder aos outros discípulos e, portanto, devemos distingui-lo do poder evangelizador e de governo dado ao resto dos apóstolos, do qual todos nós participamos como discípulos e missionários de Jesus Cristo com uma missão específica. Que os dois pilares da Igreja PEDRO e PAULO, intercedam por cada um de nós a fim de que – verdadeiramente – exercendo as nossas tarefas diárias, professemos a nossa fé em Cristo, Filho do Deus Vivo.

 

A Solenidade de São Pedro e de São Paulo, Apóstolos é uma oportunidade para celebrar festivamente esta solenidade que nos recorda dois grandes personagens da história da nossa fé cristã, ou seja, os dois grandes apóstolos de Jesus Cristo. Neles encontramos um exemplo para a nossa vida, não esquecendo que são nossos intercessores diante de Deus. A liturgia tem uma missa de vigília, não havendo nada que impeça somente a celebração da missa do dia. As orações próprias (especialmente a coleta) acentuam esta idéia: “por meio dos apóstolos São Pedro e São Paulo, comunicastes à vossa Igreja os primeiros ensinamentos da fé”; e pedem que “a Igreja se mantenha sempre fiel à doutrina daqueles que foram o fundamento da sua fé”. O prefácio desta solenidade é de grande beleza, pondo em paralelo os dois apóstolos: “Pedro, que foi o primeiro a confessar a fé em Cristo, e Paulo, que a ilustrou com a sua doutrina; Pedro, que estabeleceu a Igreja nascente entre os filhos de Israel, e Paulo, que anunciou o Evangelho a todos os povos; ambos trabalharam cada um segundo a sua graça, para formar a única família de Cristo; agora, associados na mesma coroa de glória, recebem do povo fiel a mesma veneração”. Pedro foi o primeiro dos apóstolos. Não é o primeiro na ordem cronológica, mas sim o primeiro no grupo dos discípulos. No Evangelho desta solenidade, Jesus diz. “Tu és Pedro: sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (missa do dia). Pelo fato de Pedro ter sido o primeiro do grupo dos Doze, hoje, o Papa é considerado o sucessor de Pedro. Simão era um pescador, um homem simples, mas um homem apaixonado que viu em Jesus o sentido da sua vida; por isso, seguiu-O. Frágil como nós, experimentou a dificuldade de reconhecer a fé e negou Jesus por três vezes, mas depois, como nos diz o livro dos Atos dos Apóstolos, deu testemunho de Jesus (1ª leitura da vigília), até entregar a sua vida, sendo feito prisioneiro (1ª leitura do dia) e morrendo mártir em Roma. Paulo é o outro grande Apóstolo. Não conheceu Jesus e durante muitos anos foi um perseguidor dos cristãos. Todos sabem como Saulo se converteu e como descobre a fé em Jesus, transformando-se no grande apóstolo dos gentios – daqueles que não eram judeus – pregando o Evangelho por toda a região mediterrânea com as suas viagens e com as suas cartas. Paulo será preso e martirizado em Roma. As suas cartas, tantas vezes proclamadas nas nossas celebrações, ajudam-nos a conhecer o seu carisma e a sua mensagem. Na 2ª leitura desta solenidade, narra-nos como foi chamado e enviado por Jesus (vigília), como também nos fala da entrega total da sua vida pela causa do Evangelho, com a ajuda de Deus, confiando de que receberá o prêmio no dia em que se apresentar diante do Senhor, justo juiz (dia). Pedro e Paulo são os dois grandes apóstolos, são os fundamentos da Igreja. Esta solenidade deve fortalecer a nossa fé. Pedro e Paulo foram dois homens simples, cada um com a sua história, com as suas fraquezas e dificuldades, mas também foram testemunhas firmes de Jesus, até dar a vida no martírio em Roma. De Pedro e de Paulo procede a nossa fé que se foi transmitindo de geração em geração na unidade da Igreja. Nós somos homens e mulheres simples, frágeis, por vezes com dificuldade em acreditar e em ser autênticos discípulos de Jesus. Mas em Pedro e Paulo encontramos um modelo, um exemplo, ânimos para sermos verdadeiros discípulos de Jesus, verdadeiros membros da Sua Igreja. Por intercessão de Pedro e de Paulo, rezemos pela Igreja, pelo Papa, pelos Bispos, por todos os cristãos do mundo para que permaneçamos firmes na fé. No Evangelho da missa do dia, Jesus pergunta aos seus discípulos: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?”. Os discípulos respondem: “Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, outros que é Jeremias, ou algum dos profetas”. Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Então Simão Pedro tomou a palavra e disse: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Hoje, Jesus repete-nos a pergunta: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Cada um terá de dar uma resposta. Para mim, quem é Jesus? Como Pedro, podemos afirmar que Jesus é o Senhor, o Filho de Deus, Aquele que dá sentido à nossa vida, Aquele em quem podemos encontrar as raízes mais profundas do nosso ser. Que a profissão de fé de Pedro e de Paulo seja hoje exemplo e bálsamo para que cada um de nós faça da vida uma verdadeira profissão de fé.

 

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E DE SÃO PAULO, A
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha(MG)

Na cidade do Vaticano, no dia 29 de junho de 2014, quarta-feira, o Sumo Pontífice Francisco, gloriosamente reinante, preside a Santa Missa da Solenidade de São Pedro e de São Paulo quando impõe aos Arcebispos Eleitos desde junho de 2014 até o presente momento o Pálio, símbolo da Dignidade Arquiepiscopal. No Brasil, queremos nos unir ao Romano Pontífice e celebrar, com júbilo, a solenidade dos dois alicerces de nossa fé católica. Diz o Diretório da Liturgia e da organização da Igreja no Brasil que a Solenidade de São Pedro e de São Paulo será transferida para o próximo domingo. Pedro foi o primeiro Pontífice e é o fundamento da Igreja. Seu nome era Simão. Jesus o apelidou de Pedro, isto é, de pedra, ao lhe dizer que sobre ele fundaria a Sua Igreja(cf. Mt 16,18). Desde a fundação da Santa Igreja, de São Pedro ao Papa Francisco, a Santa Igreja teve 268 papas. Todos eles fundamento – ou seja – pedra da Igreja como Pedro. Jesus poderia manter a sua Igreja somente com o seu desejo. Entretanto, quis repartir o trabalho, a responsabilidade e o poder. Permanece sempre presente. Por isso São Paulo dirá que “Jesus Cristo foi e é a pedra principal do edifício. É nele que o edifício se une e cresce”(cf. Ef 2,20-21). Jesus confia a Pedro, o papa, o poder de governar, de decidir, de legislar, o poder de santificar, o poder de confortar, o poder de apascentar o Rebanho. Assim, a festa de hoje é a festa do Papa, que nos garante na fé. Prezados fiéis, A Primeira Leitura desta solenidade nos apresenta a prisão e libertação de Pedro(cf. At 12,1-11). Acerca de 43dC Herodes Agripa I manda executar Tiago, filho de Zebedeu. Depois, manda aprisionar Pedro. Mas o “anjo do Senhor” o liberta – como libertou os israelitas do Egito. A comunidade recorreu à arma da oração: é Deus quem age. Ele é o libertador. Queridos Irmãos, Pedro era Galileu, que tinha um irmão que também era Apóstolo: André. A profissão de Pedro era pescador e ele era filho de Jonas. Quando conheceu Jesus Pedro residia em Cafarnaum. Pedro era casado e sua sogra morava com ele. Mas a grandiosidade de Pedro estava na disponibilidade com que aceitou o convite de Jesus para deixar de ser pescador de peixes para se transformar em pescador de homens, de seguidores do Cristo. Coube a Pedro, juntamente com João e Tiago Maior, o privilégio de assistir à transfiguração de Jesus, e à ressurreição da filha de Jairo. A tudo isso, o episódio mais conhecido de São Pedro foi o momento em que na noite da Quinta-Feira, apesar de ter sido prevenido por Jesus, Pedro renega Jesus por três vezes. A negação de Pedro é um crime comparável ao de Judas. Porém, enquanto Judas entrou no desespero, Pedro entrou no caminho da conversão. Jesus não lhe tira o mandato apostólico, mas volta a confirma-lo depois da ressurreição. Após a festa de Pentecostes, Pedro assume de fato a direção dos apóstolos e é ele quem preside a eleição de Matias, para substituir Judas. Pedro prega a Palavra do Evangelho na Galiléia, na Samaria e Judéia. Tem a força dos milagres, a ponto de ressuscitar mortos. Depois de uma visão, compreende que também a salvação vem para os pagãos. Isso sim, que os pagãos tem o direito ao batismo. Pedro foi preso e, por milagre de Deus, foi solto. Pedro toma a palavra no Primeiro Concílio de Jerusalém e, depois, viaja para Antioquia. Mais tarde, Pedro chega à cidade de Roma, onde vive por alguns anos, até ser martirizado entre os anos 64 e 67, durante a perseguição do Imperador Nero. Fala a tradição da Igreja que Pedro foi crucificado de cabeça para baixo, em respeito ao Senhor. Amados Irmãos, O Filho de Deus, Jesus que foi enviado a este mundo para recriar a humanidade e fazer de todas as criaturas um reinado capaz de dar ao Criador toda a honra e toda a glória, entregou o papado a Pedro em Cesaréia de Filipe(cf. Mt 16,13). Jesus entregou a Pedro o poder das chaves: “A quem perdoar os pecados os pecados serão perdoados. A quem reterdes os pecados os pecados serão retidos”. O poder das chaves que foi dado por Cristo a Pedro e aos seus sucessores, simbolizam a autoridade sobre a cidade, sobre a casa, sobre a Igreja, sobre todos os batizados. Pedro, e seus sucessores, poderá permitir ou impedir o acesso ao Reino, à comunidade cristã. A figura do “atar e desatar” reforça o símbolo das chaves. O fato de Jesus usar dois verbos antônimos, numa figura que reforça a primeira – as chaves – significa dizer três vezes a mesma coisa, ou seja, dizer com autoridade, sem deixar nenhuma dúvida. Pedro, assim, representa todos os homens e mulheres, pecadores e santos ao mesmo tempo, com uma sede incontida de Deus e capaz de pesadas traições. Cada um de nós tem essa experiência. As fraquezas e grandezas de Pedro podem nos servir de consolo e estímulo. Deus não fundou a Igreja sobre anjos, mas sobre uma pessoa de carne pecadora e espírito possuído de grande amor e esperança. Se temos a experiência do pecado, tenhamos também a experiência da conversão e da humildade. O amor que estava encheu o coração de Pedro era maior do que o pecado, por isso ele mesmo disse: “O amor cobre a multidão dos pecados”(cf. 1Pd 4,8). A esperança supera o desânimo. Esperança que, em nome de Cristo, Pedro anunciou com misericórdia, com caridade, com graça, manifestando a doce presença de Cristo. Estimados Irmãos, Paulo, que também celebramos em 25 de janeiro, aparece mais na qualidade de fundador carismático da Igreja. Sua vocação se dá na visão do Cristo no caminho de Damasco: de perseguidor, transforma-se em mensageiro de Cristo; “apóstolo das gentes”. Paulo é que realiza, por excelência, a missão dos apóstolos, de serem testemunhas de Cristo “até os extremos da terra”(cf. At 1,8). As cartas a Timóteo, escritas da prisão de Roma, são a prova inequívoca disso, pois Roma é a capital do mundo, o trampolim para o Evangelho se espalhar por todo o mundo civilizado daquele tempo. Ele é o “apóstolo das nações”. No fim de sua vida, pode oferecer sua vida “como oferenda adequada” a Deus, assim como ele ensinou(cf. Rm 12,1). Como Pedro, ele experimentou Deus como um Deus que liberta da tribulação. Caros fiéis, A Segunda Leitura(cf. 2Tm 4,6-8.17-18) nos apresenta a oferenda da vida de Paulo. Paulo, que sempre trabalhou com as suas próprias mãos, está agrilhoado; na defesa, ninguém o assistiu. Contudo, fala cheio de gratidão e de esperança. “Guardou a fidelidade”: a sua e a dos fiéis. Aguarda com confiança o encontro com o Senhor. Ofereceu a sua vida no amor, e o amor não tem fim. Seu último ato religioso é a oferenda de sua vida. Mas a sua vida está nas mãos de Deus, que a arrebata da boca das feras. Amigos e amigas, Pedro e Paulo representam duas vocações na Igreja, duas dimensões do apostolado, diferentes, mas complementares. As duas foram necessárias para que pudéssemos comemorar, hoje, os fundadores da Igreja Católica que peregrina na universalidade do mundo. A complementaridade dos dois “carismas” continua atual: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária. Hoje celebra-se, com gáudio, o “dia do Santo Padre”. Enseja uma reflexão sobre o serviço de responsabilidade última. Importa crescermos em uma obediência adulta, sem mistificação da autoridade, nem anarquia. O governo pastoral da Igreja, hoje sob a barca de Francisco, é um serviço legítimo, autêntico e necessário para a Igreja. Mas, importa observar também que aquele que tem a última palavra deve escutar as penúltimas palavras de muita gente. Pedro e Paulo são testemunhas de Cristo. Por isso, unidos à coroa do martírio, recebam por toda a terra igual veneração que hoje depositamos em orações no coração do Augusto Sumo Pontífice Francisco, a quem rezamos, para que guie a Igreja de Cristo, sendo a primeira testemunha do Ressuscitado, Amém!

 

TU ÉS O MESSIAS, O FILHO DO DEUS VIVO!
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
SOLENIDADE DOS SANTOS APÓSTOLOS PEDRO E PAULO

Pedro e Paulo: dois nomes que desde o início da comunidade cristã indicaram o conjunto dos apóstolos e a Tradição ininterrupta da fé da Igreja, fundada sobre a pregação e o testemunho dos apóstolos. Todo domingo proclamamos na profissão de fé: “Creio na igreja, una, santa, católica, apostólica”. Na cidade de Roma, que recebeu pela pregação de Pedro e de Paulo, “as primícias da fé” (Oração do dia), desde o séc. IV é celebrada no mesmo dia a memória sagrada do martírio deles. As recentes descobertas arqueológicas feitas nas escavações em baixo das “confissões” do altar mor, das basílicas de São Pedro e de São Paulo em Roma, confirmaram a antiquíssima veneração dos grandes apóstolos nos lugares sagrados onde foram guardados seus corpos. A presença e a pregação dos dois apóstolos e o martírio comum deles na cidade imperial, em testemunho de Cristo e do evangelho, fizeram da Igreja de Roma e do seu bispo, o sinal da fidelidade na fé pregada pelos apóstolos, e da comunhão entre os fiéis de todas as comunidades cristãs. Nesse sentido, é significativo que, dentre os títulos com que são chamados os romanos pontífices, Francisco, enquanto bispo de Roma, use habitualmente de preferência o título de “sucessor de São Pedro”, quase como que para destacar a continuidade com a fé de Pedro e dos apóstolos, no exercício do seu ministério de confirmar os irmãos na fé, e de promover a unidade entre todos os cristãos, nesta nossa época em que a fé cristã é chamada a enfrentar tantos desafios. Apesar de serem diferentes, seja no temperamento natural, na formação cultural e religiosa, na história familiar e pessoal, bem como na relação pessoal com o próprio Jesus, Pedro e Paulo estão unidos na mesma fé, no mesmo testemunho de Jesus até o dom da vida, e chamados a “congregar a única família de Cristo por meios diferentes”, como afirma o Prefácio da missa da festa: “Pedro fundou a igreja primitiva sobre a herança de Israel, Paulo, mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o evangelho da salvação”. Pedro destaca a fidelidade de Deus à sua aliança com Israel; Paulo evidencia que esta aliança, pela gratuidade do amor de Deus, abraça não somente o povo de Israel, mas todos os povos que se tornam herdeiros da fé de Abraão. A atividade missionária deles, narrada nos Atos dos Apóstolos, e as respectivas Cartas, manifestam claramente a progressiva entrada de Pedro e de Paulo na perspectiva do chamado universal à nova aliança em Cristo, quer dos judeus quer dos pagãos. Esta entrada deles no projeto de Deus, passa através de uma profunda conversão da própria mentalidade ao plano de Deus, revelado e atuado em Cristo Jesus.  Neste caminho de conversão interior e de estilo no ministério apostólico, Pedro e Paulo se tornam modelo e exemplo de todo discípulo de Jesus, em todo tempo e lugar. Eles são exemplo admirável também para a Igreja do nosso tempo, que está passando de um modelo de cultura consolidada por séculos e de cristandade, a um modelo de sociedade secularizada e de culturas diferentes que convivem uma junto da outra. Com o Concílio Vaticano II, a Igreja destacou a exigência de aprender a reconhecer, com o discernimento do Espírito, os sinais da presença de Deus e da ação misteriosa do seu Espírito também nas novas situações, ao invés de se limitar ao queixar-se das transformações radicais em ato na sociedade. É comovente a pedagogia com a qual o Senhor chama os dois, com gratuita iniciativa, e os forma segundo modalidades e etapas que valorizam a personalidade especifica de cada um. Pedro, o pescador do lago de Genesaré, será transformado no pescador de homens que, confiando na palavra de Jesus, terá a coragem de lançar novamente a rede depois de ter trabalhado em vão a noite inteira, e a fé deixará a rede apanhar uma pesca superabundante (Lc 5, 11; cf Jo, 21). É o mesmo Pedro que, iluminado pelo Pai, confessará, também em nome dos outros apóstolos: “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo” (Mt 16,16). Por isso Jesus, mudando seu nome de Simão para Pedro – Rocha -, o indicará como a pedra sobre a qual ele irá construir sua Igreja, sendo esta proclamação da fé inspirada pelo Pai, a razão da sua escolha e da sua missão para confirmar os irmãos na mesma fé (Evangelho do dia). É o mesmo Pedro que, logo depois de tal confissão de fé, não consegue afinar-se com o projeto de Deus, revelado e assumido por Jesus, ao anunciar a sua paixão e morte como condição para realizar sua missão de salvador (Mt 16, 21-23). O evangelista Mateus salienta logo que seguir a Jesus no seu caminho pascal não é questão somente para Pedro, mas para todo discípulo: “Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, a perderá, mas o que perder sua vida por causa de mim a encontrará” (Mt 16, 24-25). À generosa proposta de seguir Jesus até a morte, se for necessário (Mt 26, 33-35), segue ao invés a negação de até mesmo conhecer Jesus (Mt 26, 69-74). Mas o choro amargo da conversão (Mt 26,75) marca o nascimento do novo Pedro. Cheio do Espírito Santo, chegará a proclamar que o Jesus, crucificado pelo povo, Deus o ressuscitou, está vivo, e enviou os apóstolos como suas testemunhas para a alegria e a salvação de Israel e de todo povo (cf. At. 2, 14-36). O processo de transformação de Pedro, porém, alcançará seu cume quando, na casa do pagão Cornélio, aprenderá definitivamente o chamado dos pagãos à salvação em Cristo, reivindicando por todos a gratuidade do dom de Deus: “Portanto, se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós, que cremos no Senhor Jesus, quem seria eu para impedir a Deus de agir? Ouvindo isto, tranqüilizaram-se e glorificavam a Deus, dizendo: ‘Logo, também aos gentios Deus concedeu o arrependimento que conduz à vida’” (At 11, 17-18). Esta inteligência de fé do evento por parte de Pedro, e sua capacidade de iluminar os irmãos de Jerusalém, abrindo-os ao plano de Deus, constitui o primeiro verdadeiro exercício do seu ministério de confirmar na fé os irmãos. Tal ministério amadurece através de várias passagens de obediência ao Espírito e de conversão interior do próprio Pedro, modelo do caminho de obediência na fé de todo discípulo que se põe ao seguimento de Jesus e do seu Espírito. Mas esta exigência de constante conversão ao método do Senhor, para atuar verdadeiramente o serviço de iluminar e guiar os irmãos, se torna particularmente forte por aqueles que são chamados na Igreja a presidir a comunidade em nome do Senhor. Convosco sou cristão – afirma Santo Agostinho – e para vocês, pastor. Por isso escuto com temor cada palavra de Deus”   Não menos surpreendente e iluminador sobre a pedagogia de Deus é o chamado e o caminho de Saulo/Paulo. Uma experiência que marcará profundamente sua maneira de entender e proclamar o mistério de Jesus e da Igreja, e o chamado à salvação de todo homem e mulher em Cristo. Ele mesmo falará várias vezes sobre o seu encontro inesperado e inimaginável com o Senhor Jesus na estrada para Damasco; encontro este que mudou radicalmente sua existência. A transformação de perseguidor dos seguidores de Jesus em seu apóstolo iluminado e corajoso, fará de Paulo a testemunha privilegiada da gratuidade da salvação pela fé no Senhor Jesus, e o construtor da comunidade dos discípulos como único corpo vivente do próprio Cristo, constituído pelos judeus e os pagãos, enriquecido pela variedade dos dons e carismas do Espírito, cada um e todos juntos, finalizados à edificação da caridade que tudo anima. A fé, o batismo e a partilha do seu corpo e do seu sangue fazem de todo fiel uma pessoa radicalmente partícipe do seu mistério de morte e ressurreição, uma criatura nova, que desde já antecipa a plenitude da vida do Espírito do Pai e do seu reino. Nesta profunda conexão com Cristo, Paulo experimenta e proclama aquela liberdade suprema que nasce da consciência de ser amado sem limite pelo Pai e o próprio Jesus: “Se Deus está conosco, quem estará contra nós? Quem não poupou seu próprio Filho e o entregou por todos nó, como não nos haverá de agraciar em tudo junto com ele?…. Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, os perigos, a espada?… Mas em tudo isto somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou” (Rm 8, 31-37). A confissão de Paulo sobre sua radical conformação a Cristo, num processo que o faz morrer à sua precedente identificação com a lei judaica e sua presunção de auto-salvação, se torna na realidade a meta sonhada e procurada por todo discípulo: “Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, vivo-a pela feno Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2, 19-20) Na radicalidade comum em Cristo dos dois apóstolos e na comunhão recíproca entre eles no Espírito, que acolhe e valoriza as diversidades das experiências e dos pensamentos, a Igreja contempla e celebra o mistério da própria identidade e da própria missão entre os povos. Com efeito, os dois apóstolos realizaram em si mesmos, cada um na sua forma, a Palavra de Jesus segundo a qual o discípulo está destinado a partilhar a sorte do mestre: “O discípulo não está acima do mestre nem o servo acima do seu senhor” (Mt 10,24). Os Atos dos Apóstolos (primeira leitura), narram a atuação de Herodes em relação a Pedro, como aconteceu com o próprio Jesus, quando foi preso, julgado e condenado à morte durante os dias precedentes à Páscoa. Lucas nos dá do evento, não somente uma descrição acurada até os pormenores, mas sobretudo o sentido teológico e espiritual. Pedro partilha a sorte pascal de Jesus, assim como é pedido a todo discípulo, se quer realmente ficar fiel ao Mestre Jesus. “Eram os dias dos Pães Ázimos. Depois de prender Pedro, Herodes colocou-o na prisão, guardado por quatro grupos de soldados, com quatro soldados cada um” (At 12, 3-4). Frente à prepotência do poder político e do fundamentalismo nacionalista e religioso, está somente a pequena Igreja que fica rezando com fervor e perseverança a Deus por Pedro, entregando-lhe a sorte do apóstolo (At 12, 5), assim como o próprio Jesus, ele que entrega a si mesmo e os discípulos ao cuidado fiel do Pai (Jo 17, 9-10). O anjo enviado por Deus acorda Pedro e lhe ordena: “Levanta-te depressa”, e as correntes caem das suas mãos; ele sai através dos portões e por entre os guardas, e toma consciência da ação de Deus: “Agora sei que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava” (At 12, 7- 11). O conjunto dos eventos constitui a narração da Páscoa de Pedro por obra de Deus, como a ressurreição de Jesus: preso, guardado com forte esquema de segurança como Jesus no sepulcro, libertado por Deus, como Jesus subtraído à morte pelo poder do Pai. Paulo, por parte sua, na carta a Timóteo, resume o curso da sua vida e da sua missão, nos termos do combate valoroso que chega a seu fim e da corrida bem sucedida, perseverando na fé, e na oferta sacrifical que está para ser derramada em cima do altar do amor por Cristo. “Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento da minha partida. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa de justiça que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia” (2 Tm 4, 6-8).  O Senhor não deixou que seu apóstolo ficasse sozinho frente aos desafios e aos sofrimentos repetidos que acompanharam sua missão. Esta experiência da proximidade e fidelidade de Deus é garantia que ele libertará do mal o seu apóstolo, também no juízo final e o introduzirá na plenitude do reino de Deus. Nos apóstolos Pedro e Paulo, não somente a Igreja de Roma, mas a Igreja inteira e todo discípulo contempla com estupor e celebra as maravilhas do Senhor, como cada um é chamado a seguir Jesus e a partilhar sua sorte, de morte e de vida nova. Evangelizados em maneira sempre nova pela memória da grande experiência de Jesus por eles vivenciada, nos tornamos evangelizadores e apóstolos para o nosso tempo. Com a vida, mais do que com as palavras: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo!”

XII Domingo do Tempo Comum – Ano A

Por Mons. Inácio José Schuster

Neste domingo, continuamos a ler o “discurso da missão” (capítulo 10º do evangelho de São Mateus). Depois ter escolhido os 12 Apóstolos e de tê-los enviado em missão, Jesus dá-lhes os primeiros ensinamentos. Avisa-os que a missão não será fácil e que haverá perseguições. É neste contexto que devemos enquadrar o evangelho deste domingo. Já no Antigo Testamento, homens e mulheres sofreram a perseguição, porque permaneceram fiéis à vontade de Deus. Na 1ª Leitura deste domingo, encontramos o testemunho do Profeta Jeremias: a sua mensagem, que era a de Deus, era incômoda para as autoridades e, por isso, perseguiram-no. Todavia, o profeta é fiel, não perde a esperança e confia no Senhor: “O Senhor está comigo como herói poderoso e os meus perseguidores cairão vencidos”. A seguir, reza: “Senhor do Universo possa eu ver o castigo que dareis a essa gente, pois a Vós confiei a minha causa”. Jeremias sabe que o Senhor salva “a vida do pobre das mãos dos perversos”. Esta idéia encontra-se, também, no salmo responsorial: nada faz perder a confiança, mesmo quando se experimenta a angustia (“A Vós, Senhor, elevo a minha súplica, no momento propício, meu Deus. Pela vossa grande bondade, respondei-me, em prova da vossa salvação”). Todos passamos por dificuldades, problemas e momentos de desânimo. Ser cristão nem sempre é fácil. Há muitas coisas que nos distraem que nos cansam; não é fácil manter a fidelidade ao Senhor. A sociedade, apesar de não haver perseguições explícitas (nesta zona geográfica onde nos situamos), não nos ajuda na caminhada da fé. Muitas vezes, temos a impressão que estamos sozinhos, que nada resulta. Perante a tentação do desânimo e do pessimismo, somos convidados à confiança. Jesus já tinha alertado os seus discípulos de que a missão não seria fácil. Porém, só na perseverança e na confiança alcançaremos o êxito final e a verdadeira felicidade. Aquele que se mantém fiel terá a proteção e a ajuda de Deus. Por três vezes, Jesus diz aos seus Apóstolos: “Não tenhais medo”. Mesmo que não sejamos compreendidos e no meio das dificuldades, teremos que ser sempre fiéis e não perder a confiança. Por quê? Por três motivos: 1º porque “nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se”; a verdade virá sempre ao de cima: “O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido, proclamai-o sobre os telhados”. 2º Porque os que perseguem os cristãos “matam o corpo, mas não podem matar a alma”. A nossa fé é uma força interior, que ultrapassa a vida física. 3º Porque estamos nas mãos de Deus, ama-nos e protege-nos: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados”, “Valeis muito mais do que todos os passarinhos”. A Palavra de Deus deste domingo é um convite à confiança no amor de Deus, seguindo Jesus que foi fiel até a morte, uma morte que nos abriu para a vida, à verdadeira e eterna vida. Diante do Pai, intercede por nós. São Paulo, na 2ª Leitura, da Carta aos Romanos, fala-nos da realidade do antes e do depois de Jesus Cristo. Antes de Jesus, desde o início da Criação, o pecado e a morte entraram no mundo “por um só homem” (Adão). Com Jesus, deu-se uma nova criação na graça: “Se pelo pecado de um só, todos pereceram, com muito mais razão a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a todos os homens”. Jesus, morto e ressuscitado, é a nossa salvação. Com Ele, venceremos toda a insegurança, todas as dificuldades e todas as perseguições. Se formos fiéis perante as dificuldades, Jesus intercederá por nós diante de Deus, nosso Pai.

 

No Evangelho deste domingo, aos discípulos amedrontados diante dos horizontes carregados de futuras perseguições, Jesus se sai com esta afirmação: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas depois nada mais podem fazer com o espírito. Eu vos direi a quem deveis temer: temei, sobretudo aquele que pode jogar corpo e alma na Geena, isto é, no inferno”. Embasados nestas palavras de Jesus eu também diria a quem nós devemos temer. Temamos aqueles que podem tirar a nossa inocência, aqueles que podem arrancar do nosso coração a nossa confiança em Deus, aqueles e aquelas que nos conduzem para maus caminhos, falsas e más amizades que nos destroem pouco a pouco. Temamos concluir esta vida de maneira errada. Temamos não corresponder as graças que Deus nos oferece diariamente, não ouvir diariamente a Sua Palavra com assiduidade, temamos os pecados que nós cometemos com tanta facilidade e que ofendem, muitas vezes de maneira grave, a Deus e nos causam uma ruína incrível, tão incrível quanto invisível. Sim a estas e a outras tantas coisas semelhantes nós devemos realmente temer. Temer, faz parte da existência humana. Ter medo é uma componente da nossa vida, porém nós podemos e devemos canalizar os nossos medos. Há temores que não se sustentam e não se justificam. Há temores que se cancelam com um pouco mais de confiança em Deus, há os que desaparecem quando nós assumimos a vida neste mundo como vida provisória, há temores que desaparecem quando deixamos teimosamente de querer ser felizes, custe o que custar, já neste mundo. Estes são temores injustificados, mas existem aqueles, primariamente mencionados, que causam a nossa tragédia diante de Deus. Com as palavras de Jesus eu termino: “Eu vos digo a quem deveis temer”. Temei todas aquelas coisas, como possibilidades concretas na vida.

 

FORTE GUERREIRO
Monsenhor Jonas Abib

Você viu que as leituras de hoje se abriram com a leitura do profeta Jeremias que se apresenta ao Senhor. Jeremias sofreu terrivelmente por anunciar a Palavra de Deus, todos os profetas sofreram, mas ele sofreu mais porque era sensível. A leitura fala de injúrias, perseguições, calúnias que ele sofria, mas ele diz: “O Senhor está ao meu lado como forte guerreiro”, e essa a certeza que o Senhor nos dá hoje. São essas duas coisas que as leituras de hoje nos mostram: Por um lado a perseguição, a dor da calúnia, mas ao mesmo tempo, a certeza que o Senhor está ao nosso lado como forte guerreiro. Na Bíblia a palavra forte guerreiro significa “guibor”, aqueles que rodeavam ao rei para que nada lhe acontecesse. Os valentes guerreiros ficavam atentos para que o inimigo não atingisse o rei. O nosso Rei é o Senhor, e Ele nos escolheu para sermos “guibor”, estarmos na linha de frente, essa é a responsabilidade que Deus nos dá. O artista tem a chave para abrir o coração dos outros, que muitos não têm. Um exemplo é o músico, o nosso povo é movido a música, e também a dramaturgia, por isso a novela pegou. O nosso povo se encanta com dramaturgia porque muita gente se põe no contesto da novela, e aí está o risco. Mas é o meio de atingir o coração das pessoas. A seringa é neutra, mas depende daquilo que você põe na seringa e introduz na pessoa. Todos os tipos de artes têm essa chave. O artista tem sensibilidade e passa sensibilidade. Mas a grande pergunta é essa, por que os evangelizadores são tão perseguidos? Jesus tem uma única noiva, a Igreja. Por que então a Igreja sofre em tantos lugares? Quantos hoje estão sendo mártires. Quantos estão sendo perseguidos só por serem cristãos, tantos católicos como protestantes. A própria dor os faz um, tanto os católicos como os protestantes, são guibors. Por que nós sofremos? E nossos sofrimentos são pequenos, quase nada em comparação com aquilo que vivem nossos irmãos que estão em outros países para anunciarem Jesus, para levarem o batismo a outros. Quantos são martirizados pelo fato de aceitaram Jesus. Por que isso? Porque atrás de toda essa perseguição está o anticristo. Não podemos ser ingênuos, o mundo de hoje é pagão, se opõe a Deus e a Jesus Cristo. O mundo que nos rodeia infelizmente é um mundo pagão, nós somos uma exceção na terra, nós marchamos contra a correnteza. Tem muita gente que não vive um cristianismo para valer, mas vive com o pé em duas canoas. Talvez eu esteja falando com a própria pessoal, talvez por causa do seu ministério você tem vivido um cristianismo light, dizendo que não precisamos ser tão radicais. Meus irmãos, não podemos viver essa ambigüidade. Hoje o Senhor está nos falando claramente, não é repreensão, é acordar, é despertar. Reze: “Eu preciso iluminar os que estão na sombra da morte. A luz é Jesus e a lâmpada sou eu. Eu preciso ser essa lâmpada para iluminar os que jazem nas trevas. Não quero viver um cristianismo ligth, eu preciso e quero ser autêntico. Obrigado porque hoje no final deste encontro o Senhor quer me levar a viver a autenticidade. Sou cristão, sou de Cristo, tenho a vida nova e quero viver a vida nova. Sou guibor e quero viver na linha de frente para defender Jesus e vou lutar para ser cada vez mais”. Você sabe que muitas cidades estão sob escombros de um passado que colocaram terra por cima e construíram cidades. A Canção Nova tem debaixo de seus pés, debaixo desse terreno, muita dor, muito sofrimento, muita perseguição, não só aqui em Cachoeira Paulista (SP), mas aonde tem Canção Nova já começa com alicerce de dor, de perseguição. Por isso eu gosto de viver isso, aprendi a viver isso, e tive que viver isso: “Agüenta firme”. Ontem celebrávamos o dia de São Luiz Gonzaga, e também a morte da Izabel Cortes, membro da Comunidade. Ela estava fazendo programa na rádio e foi tirada do ar por homens que entraram lá. Por ser artista ela era muito sensível. Aquilo a atingiu de tal maneira, que a diabetes dela subiu e ela morreu mártir pela evangelização. Imagine o meu sofrimento, eu trouxe o corpo dela no avião, e estava sozinho. Foi naquela ocasião que eu disse para os membros da Canção Nova e para os que estavam no sepultamento: “Depois de tudo isso, ou santos ou nada”. Graças a Deus a nossa comunidade assumiu. Eu sei que somos frágeis e por causa da nossa fragilidade temos que lutar, mas não estamos sozinhos. ‘Não podemos ser ingênuos, o mundo de hoje é pagão e se opõe a Deus ‘ Hoje de maneira especial eu quero dizer a você: Diante daquilo para que o Senhor nos chamou pessoalmente, ele te deu dons artísticos, te deu a vida nova e o Espírito Santo para que você vá evangelizar. O pecado nos rodeia e persegue, mas São Paulo diz a nós que sejamos atentos, pois o demônio fica ao nosso redor para nos derrubar. O evangelizador pela arte tem muita sensibilidade e a nossa sensibilidade nos torna frágeis, por isso precisamos lutar. O inimigo quer pegar os guerreiros de Deus pela sexualidade, e ele tem feito estragos, por isso, PHN – “Por hoje eu não vou mais pecar”. A minha vida tem que ser uma luta contínua contra o pecado. Principalmente nós que temos a sensibilidade à flor da pele. Por isso repita: “Eu vou agüentar firme hoje”. Não tema meu filho! Não tema minha filha! Dê testemunho de mim porque eu quero dá testemunho de ti diante de meu Pai. Dê testemunho em palavra e em vida.

 

DE ADÃO AO CRISTO
Padre Fábio de Melo

Cada vez mais eu me convenço de que a arte é um processo redentor. Redenção é esta experiência que podemos fazer de ser retirados de um lugar inferior e ser colocados num lugar nobre. É ser levado da condição “Adâmica” à condição “Crística”. Deus tira o ser humano da miséria do pecado e o leva à redenção. O Gênesis é uma história contada de forma metafórica para que entendamos uma verdade que não pode ser compreendida com facilidade. A história de Adão e Eva nos mostra o início do processo redentor, pois o início da nossa redenção está no contato do ser humano com a sua fragilidade, que acontece com a primeira queda. Quando olhamos para uma criança recém-nascida e um padre nos explica que aquela criança é pecadora, é difícil de entendermos, pois é uma criança e não nos passa uma imagem de pecado pela inocência que traz em si. O contexto do pecado original se dá quando temos a consciência que a criança nasceu da raiz “Adâmica” e não porque ela tenha atos pecaminosos, se eu sou humano, eu sou marcado pelo limite original por fazer parte desta raiz. Limite é quando sabemos que temos condições precárias. O nosso corpo, por exemplo, tem limites, nossa pele tem limites, se nos expormos ao sol forte vamos nos queimar além do limite. O conceito de limite não é contrário ao humano, ele lembra que não podemos fazer alguma coisa porque nos faz mal. O problema é quando desconsideramos o limite que é próprio de nossa humanidade e isso se torna pecado, ou seja, o pecado entra verdadeiramente na nossa vida no dia em tenho consciência dos limites da minha vida e mesmo assim eu me exponho a eles. A partir do momento que eu saio do limite, eu caio no pecado. O primeiro pecado da humanidade foi justamente sair do limite. O paraíso é um lugar que foi cercado para que ninguém se perdesse, pois Deus estava ali, o lugar do encontro, não é prisão. Delimitar o espaço é você proporcionar a alguém a experiência do encontro, se você realmente deseja ajudar alguém a chegar a algum lugar, você vai se empenhar em limitar ao máximo a informação que você dá, mas aí é que está o perigo, quando nós pedimos a informação para alguém que não está muito feliz ou não está muito desejoso que a gente chegue ao destino. O primeiro pecado, a queda original, aconteceu porque alguém não compreendeu o conceito de limite, não compreendeu o espaço delimitado e se perdeu. O conceito de limite está cada vez mais claro dentro de nós e por isso seremos mais exigidos, como Deus nos diz: “quanto mais for dado, muito mais será exigido”. Jesus nos diz que é impossível viver servindo a dois senhores. Não é possível viver duas realidades que naturalmente não se conciliam. Seus limites precisam ser aclarados, nós precisamos cada vez mais saber sobre o que nós podemos e o que não podemos. O que Cristo realiza na condição de Adão atinge a todos nós, a “cristificação” do universo está acontecendo em nós agora, mas só tomamos posse disso, quando estabelecemos o limite do nosso território, quando reconhecemos o nosso paraíso e tomamos conta dele. “Deus não têm fronteiras para transformar corações” O papel do artista de hoje é anunciar as belezas do paraíso, as belezas do limite, é transformar a pedra em ouro, é devolver a graça ao desgraçado, é devolver o sorriso a quem não sabe mais sorrir. Eu estou cada vez mais assustado com o que apresentam às nossas crianças como arte. Se você não fechar as portas do seu paraíso para aquilo que eles oferecem como forma de entretenimento, você terá grandes problemas com seus filhos à medida que crescem. O tipo de arte secular que hoje são oferecidos a nós e às nossas crianças não molda caráter de ninguém, e por isso devemos ter cuidado com aquilo que deixamos entrar em nossas casas, pois nossos paraísos estão sendo ameaçados continuamente. Quantas coisas vemos por aí que nos parecem inocentes, mas não são. Precisamos fazer o exercício diário de analisar aquilo que entra em nossas casas. Será que estamos fazendo o esforço necessário para chegar na Glória do Cristo? Você pega uma criança e tudo o que você fala a ela, as danças que ela aprende, as coisas que ela vê de nós, vão sendo registradas na mente. Preciso saber que é necessário a cada dia preservar o meu encontro com o Senhor, pois se não vivo esta transição de Adão para o Cristo, que não será fácil, nos perdemos pelo caminho. Quando o Adão vence dentro de nós, quando Eva vence dentro de nós, sabemos muito bem quais são os efeitos disso em nós, mas quando o Cristo vence dentro de nós, podemos experimentar coisas maravilhosas. Quando olhamos para o que éramos e para o que Cristo nos tornou hoje, vemos a ponte que já atravessamos. O bom é que sempre teremos duas figuras para observar, podemos perceber o quanto que a gente consegue ser igual a Adão e isso não requer esforços. Agora se você colocar ao lado de Adão a condição de Jesus, o jeito como Jesus viveu, o que Ele falava, a maneira que Ele via, aí você verá a diferença, e para ser igual a Ele dá trabalho. Deus não têm fronteiras para transformar corações, Ele não precisa de tempo para transformar nossos corações, Ele a qualquer tempo, a qualquer hora pode nos transformar, pode nos convencer a sair da condição de Adão ou da condição de Eva. A condição “crística” é como uma pedra preciosa e se nós não enfiarmos as mãos nesta terra, se nós não enfiarmos a mão neste barro de Adão, nunca iremos conseguir retirar esta pedra. Vamos morrer possuindo uma riqueza, mas sem tê-la nas mãos. Que tudo aquilo que for falado, que tudo aquilo que for ritualizado nos leve ao Cristo, nosso destino é o Cristo, é para Ele que fomos feitos e Nele que precisamos ser reconfigurados. A arte é o desafio de tirarmos os pesos que pesam sobre a humanidade. E o alívio de Deus na experiência humana. É ter a possibilidade de proclamar com o corpo, com a arte que Deus é redentor e que o limite estabelecido é o lugar onde a redenção acontece. O que hoje você poderia pedir que Deus pudesse modificar em você? Qual é a arte que Deus poderia fazer em você hoje? Nós muitas vezes somos como uma pedra, um mármore que precisa ser talhado. Hoje Deus está aqui e quer nos atingir, quer tirar de nós todos os excessos, todas as arestas que fazem com que nos esbarremos, sem alcançar aquilo que precisamos. O teu caminho é o Cristo, o teu destino é o Cristo!!!

 

NÃO PODEMOS NOS TORNAR ESCRAVOS DO MEDO
Monsenhor Jonas Abib  

O grande mal do nosso século é a hipocondria (mania de doença). Muitas pessoas vivem com medo de ficar doentes. Qualquer dor que sentem já ficam apavoradas pensando logo ser algo grave. E se o médico pede algum exame específico, a pessoa já imagina o diagnóstico: estou com câncer, vou morrer… A nossa geração é abençoada e sempre será abençoada. Deus não criou a morte nem a doença. Não podemos nos deixar dominar pelo medo. “Deus criou o homem para ser incorruptível e o fez imagem daquilo que lhe é próprio. Mas, pela inveja do diabo a morte entrou no mundo” (Sb 2,23). A Palavra de Deus nos diz que pela inveja do diabo a morte, a doença, a desgraça, a miséria, o sofrimento e a dor entraram no mundo. Deus criou o homem para ser imortal, incorruptível, saudável. A arma que o demônio mais usa para atormentar os filhos de Deus é o medo: medo do futuro, medo de morrer, medo de traição, medo da calúnia, medo da velhice, medo de perder os pais, medo de desemprego…Medo!!! Deus nos exorta a renunciar a todo e qualquer tipo de medo: ‘Todos os meus temores se realizam, e aquilo que me dá medo vem atingir-me’ (Jó 3,25). Não podemos nos tornar escravos do medo; ao contrário, temos de lutar contra ele confiando em Deus. Na verdade, o que o inimigo quer é nos tornar escravos da doença para ficarmos mergulhados na auto-piedade, revoltados com Deus e com as pessoas que estão à nossa volta. Se você está doente reze, peça oração e procure um médico. Ele possui os meios para nos ajudar; não se entregue ao desespero, pois a medicina provém de Deus (cf. Eclo 38, 9-12). Na hora da dor abandone-se nas mãos do Senhor, lute para não murmurar e não entregue sua alma à tristeza; una-se à cruz de Cristo, oferecendo todo o seu sofrimento em desagravo aos pecados cometidos contra o Sagrado Coração de Jesus, pela conversão dos pecadores, conversão de seus familiares e pelas almas do purgatório, entregando tudo como sacrifício agradável ao Senhor. “Os vossos arados transformai-os em espadas, e as vossas foices em lanças! Mesmo o enfermo diga: Eu sou um guerreiro!” (Jl 4,10). Deus criou o homem para ser incorruptível, em todos os seus membros. Foi pelo demônio que a morte entrou no mundo. Ele não é a favor da vida, da saúde, da felicidade. Por isso temos de combater as forças de morte com a oração. Quantas mulheres testemunham que não conseguiam engravidar. Outras sofreram abortos. Mas quando clamaram a Deus a vitória aconteceu. São verdadeiros milagres que alcançamos por intermédio da oração. Carla Valéria, da cidade de Montes Claros-MG, nos enviou o seu testemunho, louvando e agradecendo a Deus pelo milagre realizado em sua vida: “Tenho 24 anos e quero testemunhar como a Canção Nova me ajudou a ser firme e perseverante na fé e no amor a Jesus. Casei-me aos 21 anos e desde o princípio queria muito ter um filho, pois amo crianças. O tempo foi passando e nada. Resolvemos procurar um médico; iniciei uma série de tratamentos, tomei remédios e uma grande ansiedade tomou conta de mim, pois queria engravidar logo. Dois anos se passaram e mesmo sendo fiel a Deus e rezar o terço todos os dias, continuava procurando médicos e remédios. Os tratamentos eram muito caros e não faziam efeito algum. Fui à casa de minha mãe, que é uma telespectadora da TV Canção Nova e sentei-me ao seu lado para assistir à programação do dia 1º de maio. O Laércio estava conduzindo a oração da manhã e foi canal de graças em minha vida. Ele falou tudo o que eu estava precisando ouvir. Chorei muito e a partir daquele momento abandonei-me nas mãos do Senhor. Larguei todo o tratamento e passei a louvar e a agradecer a Deus por tudo. Com menos de três meses de abandono e firmeza na fé, Jesus já havia providenciado o fruto do nosso amor. Só descobrimos depois de dois meses e meio de gravidez. A minha felicidade foi tão grande que ao sair do laboratório fui direto ao Santíssimo, agradecer. Tive uma gravidez muito tranqüila e me abandonei em Deus e Ele cuidou de tudo. O parto foi cesáreo, numa das segundas-feiras do mês de maio, e por providência e não coincidência, foi realizado no dia 1º de maio, quando fazia exatamente um ano que Jesus havia realimentado a minha fé”. Eu lhe pergunto: quanto vale um filho? É isso que o Senhor nos dá quando confiamos e nos entregamos nas mãos d’Ele.

 

DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM
Mt 10, 26-33.
“Não tenham medo!”.    

“Não tenham medo!” Essa orientação de Jesus ressoa três vezes neste curto trecho!  Este tipo de conselho indica que o contrário era realidade na comunidade para a qual o evangelho se dirigia!  Como somente se toma remédio quando se tem uma doença, também somente se enfatiza a mesma coisa com tanta ênfase quando é para combater um perigo na vida duma comunidade.
Então parece que medo era um problema para os membros das comunidades mateanas.  Medo de que?  O trecho que antecede o de hoje deixa bem claro. Nos versículos16-25 Jesus fala das perseguições que os seus discípulos terão que enfrentar.  Inclui perseguição por parte do poder civil (“entregarão vocês aos tribunais”), perseguição pela a autoridade religiosa judaica (“acoitarão vocês nas sinagogas deles”) e até perseguição e rejeição pelos membros das suas próprias famílias (“irmão entregará à morte o próprio irmão; o pai entregará os filhos; os filhos se levantarão contra os pais e os matarão”).  Quando Mateus escreve essas palavras, este cenário já era conhecido no meio das suas comunidades. Pois enquanto nos primeiros anos da Igreja os cristãos eram tolerados dentro da comunidade dos judeus como uma seita não muito diferente das outras seitas judaicas, e eram, portanto, tolerados pelo Império Romano, que dava ao judaísmo o status de “religião lícita”, nos anos depois de 85 dC tudo mudou.
Um grupo de rabinos fariseus, liderados pelos mestres Yohannan bem Zakkai e Gamaliel II tentava reerguer o judaísmo, sem Templo, sem sacerdócio, sem Jerusalém, ao redor da estrita observância da Lei. Era urgente re-agrupar os judeus depois da destruição de Jerusalém, e dar-lhes uma nova identidade.  Para isso aparecia-lhes necessário insistir na Lei, na sua interpretação farisaica.
Assim, o “desvio” cristão parecia algo que pudesse minar este projeto, e os judeu-cristãos começaram a ser expulsos das sinagogas. Isso implicava ser rejeitados na sua identidade religiosa, familiar e cultural e vistos como traidores pela sua comunidade tradicional.  Famílias se rachavam e os judeu-cristãos eram denunciados pelos próprios familiares.
Expulsos das sinagogas, não mais pertenciam a uma religião lícita e corriam o risco de serem perseguidos também pelo poder imperial.  Como então não entrar em crise, ter medo?
Mateus enfrenta o problema dando-lhes uma mística.  Se assim aconteceu com o Mestre, como não acontecerá com o discípulo?  A perseguição não era sinal de fracasso, mas de fidelidade no seguimento de Jesus! Por isso, não deveriam ter medo, pois o Pai jamais iria abandoná-los.  O grande perigo era deixar que o medo os paralisasse, ou os levasse a mudar de opção de vida, escolhendo a aprovação humana em lugar da fidelidade do discipulado.
Hoje, em geral não somos perseguidos por causa da nossa religião, pelo menos enquanto limitamos a religião à esfera privada.
O mundo até aprova a religião como opção particular, uma vez que não tenha conseqüências sociais e econômicas. Mas persegue a religião que ousa tirar as conclusões práticas do seguimento de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Nesses meses presenciamos nisso nas ameaças sofridas por três dos nossos bispos no Pará. O mundo globalizado do neoliberalismo excludente, que prega o “evangelho” da competitividade e o paraíso do consumo, rejeita a religião que prega a justiça, a partilha, o cuidado dos mais fracos e indefesos, a solidariedade.
Religião dentro do templo, sim, mas aí de quem procura concretiza-la na luta por terra, teto, salário, direitos humanos etc.
Por isso devemos levar a sério o que Jesus nos adverte quando diz “não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma”.  Devemos temer, sim, a tentação de nos conformarmos com as exigências duma sociedade egoísta e idolátrica, que ameaça matar a alma das Igrejas, deixando-as com o seu “corpo” – templos, festas, honras, prédios etc, mas matando a sua “alma” – a prática da opção evangélica pelos oprimidos. O Brasil também tem os seus mártires – e a lista é comprida – que deram a sua vida nas perseguições lançadas pelas ditaduras, latifundiários, e elites.  É sinal duma igreja viva.  Mas não é fácil manter-se firme diante das seduções da sociedade consumista, aliadas às ameaças dos detentores do poder.  Assim soa atual a última advertência do trecho, “quem me renegar diante os homens, eu também renegarei diante do meu Pai”.
Mas também deve nos animar para a luta e a coerência a frase anterior, “quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante do meu Pai”.  Tanto o testemunho como a renegação normalmente não se faz com a boca, mas com as opções concretas em favor dos oprimidos ou dos opressores, no nível individual e eclesial.  Lembremo-nos do canto que tantas vezes cantávamos nas Missas e encontros: “Não temais os que tudo deturpam pra não ver a justiça vencer; tende medo somente do medo de quem mente pra sobreviver”.

Solenidade da Natividade de São João Batista – 24 de Junho

João viveu no deserto até o dia em que se manifestou a Israel – Lc 1, 57-66.80

57Completando-se para Isabel o tempo de dar à luz, teve um filho. 58Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe manifestara a sua misericórdia, e congratulavam-se com ela. 59No oitavo dia, foram circuncidar o menino e o queriam chamar pelo nome de seu pai, Zacarias. 60Mas sua mãe interveio: Não, disse ela, ele se chamará João. 61Replicaram-lhe: Não há ninguém na tua família que se chame por este nome. 62E perguntavam por acenos ao seu pai como queria que se chamasse. 63Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu nela as palavras: João é o seu nome. Todos ficaram pasmados. 64E logo se lhe abriu a boca e soltou-se-lhe a língua e ele falou, bendizendo a Deus. 65O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos; o fato divulgou-se por todas as montanhas da Judéia. 66Todos os que o ouviam conservavam-no no coração, dizendo: Que será este menino? Porque a mão do Senhor estava com ele. 80O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel.

Antiga e Nova Aliança
Podemos dizer, hoje, que João Batista é o último profeta da antiga Aliança e o primeiro da nova Aliança. Ele marca a transição entre os dois. Da tradição e da religião judaicas, João Batista criticou abertamente a religião do seu tempo: cf. Lc 3,3.11.14.
No fundo, João Batista denunciou a religião esclerosada do seu tempo e a corrupção generalizada pelos líderes. Foi um grande profeta como Isaias, Amós, Jeremias, e tantos outros.
Entre João Batista e Jesus de Nazaré há uma espécie de parentela espiritual, de modo que São Lucas os apresenta como primos. Enquanto Maria, a nova Aliança visita Isabel, a antiga Aliança, São Lucas diz que elas são parentas (Lc 1,36). São Lucas quer nos mostrar que há uma continuidade entre a pregação de João Batista e o agir de Jesus de Nazaré: cf. Lc 3,16.

Circuncisão:
No Antigo Testamento a circuncisão era um rito instituído por Deus para assinalar como com uma marca os que pertenciam ao povo eleito. Deus mandou a circuncisão a Abraão como sinal da Aliança que estabelecia com ele e com toda a sua descendência (cf. Gn 17,10-14), e prescreveu que se realizasse no oitavo dia do nascimento. O rito realizava-se na casa paterna ou na sinagoga, e além da operação sobre o corpo do menino, incluía bênçãos e a imposição do nome.
Com a instituição do Batismo cristão cessou o mandamento da circuncisão. Os Apóstolos, no Concílio de Jerusalém (cf. At 15,1ss), declararam definitivamente abolida a necessidade do antigo rito.
É bem eloquente o ensinamento de São Paulo (Gl 5,2ss; 6,12ss; Cl 2,11ss) acerca da inutilidade da circuncisão.

Zacarias:
O fato miraculoso profetizado pelo anjo Gabriel a Zacarias, quando lhe anunciou o nascimento do Batista. Observa Santo Ambrósio (397): “Com razão se soltou em seguida a sua língua, porque a fé desatou o que tinha atado a incredulidade”.

João é o seu nome:
Na Bíblia, o nome é algo dinâmico, é um programa de vida. A troca de nome implica uma missão que deve ser realizada pela pessoa (cf. Gn 17,5; Jo 1,42)
Um nome novo: uma aventura que começa; uma história a ser construída.
O nome é ponto de partida e de chegada na relação com Deus.
Agora, sabendo o que Deus Pai pensa de ti, poderias descobrir o teu nome? A tua identidade? Quais os teus sinais digitais divinos? Quem és tu?

João Batista:
Segundo o Evangelho de Lucas: – João, era filho de Zacarias, um sacerdote do templo, e de Isabel, mulher estéril e de idade avançada. É o precursor de Jesus, e preparou-lhe os caminhos pregando a conversão e o arrependimento dos pecados. Batizou muitos com o batismo da penitência e, quando Jesus foi batizado, manifestou-se a Trindade e a Sua missão.
João se vestia com pele de animais e se alimentava de gafanhotos, sempre pregando sobre o arrependimento sincero e a conversão do coração. Gostava de pregar sobre a Palavra de Deus e a vinda do Messias, até que, ao encontrar-se com Jesus, aponta-O como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, enfatizando que não lhe é digno sequer de desamarrar as sandálias de seus pés e ensinando que ele, João, batizava com água, mas aquele que viria depois dele, referindo-se ao Messias, Ele sim os batizaria no Espírito Santo e no fogo.
João Batista é a “voz que grita no deserto” pedindo que sejam preparados e aplainados os caminhos do Senhor. Essa vinda deveria ser preparada pela penitência.
A Solenidade da Natividade de São João Batista nos ensina precisamente isso: anunciar ao mundo Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
Levemos a sério a chamada universal de conversão pregada por João Batista e sejamos discípulos-missionários de Jesus Cristo, o Redentor!

Referências:
Reflexões de Raymond Gravel (sacerdote Quebec-Canadá)
Reflexões de Dom Orani João Tempesta, O.Cist. Arcebispo do Rio de Janeiro
Bíblia Sagrada, Santo Evangelhos. Edições Theológica, Braga, 1994
Comentários ao Evangelho pelo Pe. Adroaldo Palaoro, SJ. Aos membros do Curso Extensivo de EE.

Imaculado Coração de Maria

Por Mons. Inácio José Schuster

Após a celebração, ontem do Sagrado Coração de Jesus, celebramos hoje o Imaculado Coração de Maria. Nós, porém, faremos a leitura seqüencial da Segunda Carta aos Coríntios. São Paulo continua entusiasmado: o Amor de Cristo nos constrange, um só morreu por todos, assim todos devem se considerar mortos. O pensamento de Paulo provém de seu coração. Contemplando a morte de Cristo e se apropriando pessoalmente dela, ele afirma de si mesmo e aos Coríntios, sua comunidade, que nós também devemos morrer para Jesus, vivendo inteiramente dedicados a Ele até a morte. Continua: se outrora conhecemos alguém segundo a carne, agora nós não conhecemos mais a ninguém segundo a carne. Esta é uma expressão que tem sua dificuldade: conhecer alguém segundo a carne significa conhecê-la, durante sua vida terrestre, mais ainda para Paulo, significa conhecer alguém com sua fraqueza e no seu afastamento de Deus. Se conhecemos no passado alguém segundo a carne, prossegue agora não temos mais nenhum conhecimento carnal. A todos conhecemos em sua relação com Cristo. Nós poderíamos aplicar esse texto para nós. Somos criaturas novas depois do nosso batismo. Se houve um tempo em minha vida em que vivi segundo a carne e este tempo pode ter sido para diversos de nós, mesmo após o batismo uma vida afastada de Deus, agora não vivemos mais segundo a carne, não desejamos mais o afastamento, a distancia e, sobretudo os contrastes entre nós e Deus. Desejamos ser em Jesus Cristo, novas criaturas, em quem o Pai possa com prazer se compraz como com Jesus. Nós gostaríamos de elevar a Deus uma prece de arrependimento, por todas as vezes que vivemos segundo a carne, após o nosso batismo. E uma prece de súplica para que isso não se repita nunca mais em nossas vidas. Vivamos a vida do Ressuscitado em nós.

 

Nesta única cena que os Evangelhos nos transmitiram da adolescência de Jesus, são destacados três elementos importantes: O retorno a Nazaré, a meditação de Maria e o crescimento de Jesus. Começa com a subida a Jerusalém e termina com a descida para Nazaré, conferindo um alcance pascal a todo este acontecimento. Aliás, nesta passagem temos, de modo alternado, os verbos “procurar” e “encontrar”. Procurando-o entre os parentes e conhecidos não o encontram; voltam a Jerusalém para procurá-lo e o encontram no Templo. Eis um dos temas que está muito presente na vida espiritual e ao longo do Evangelho. E isto após três dias, em que se acumulou a inquietude dos pais, levando-nos a ver nesta alusão uma indicação do tempo que Jesus permaneceu no sepulcro e, portanto, nos faz lembrar a Sua Ressurreição. Jesus é encontrado no Templo, onde “todos o ouviam” e eram interrogados por Ele. A este respeito, comenta Orígenes (253): “Ele interrogava os doutores, não era para aprender deles alguma coisa, mas porque interrogando-os, Ele os formava”. Método empregado pelo Senhor, diversas outras ocasiões, em sua vida pública. Diante da angústia de Maria, a resposta de Jesus: ”Não sabíeis que eu tenho de estar na casa do meu PaI?”, nos leva a pensar no Templo, a Casa de Deus. Mas também nos conduz a compreender as relações de intimidade únicas, trinitárias, entre Ele e o Pai. Maria, “sua mãe, guardava tudo isso em seu íntimo”. Esta expressão “tudo isso”, rhemata em grego, refere-se não só às palavras do v.49, mas ao conjunto das palavras e o acontecimento recordados nestes dois capítulos. Maria se manifesta assim unida intimamente ao seu Filho, desdobrando e como que atualizando o “fiat” dado por ela a Deus. Coloquemo-nos assim nesta dinâmica espiritual do procurar e encontrar e, com Maria, guardemos as palavras de Jesus em nosso coração para que cresça sempre mais a nossa união íntima com Ele.

 

CORAÇÃO DE MARIA INSPIRADOR DA MISSÃO

‘Maria quando Jesus morreu, aos pés da cruz Ele a entregou para toda Igreja como Mãe. E Ela assumiu com muito empenho e zelo esta missão de ser Mãe da Igreja. Tanto é que quando o Espírito de Deus veio sobre os primeiros cristãos, lá estava também a Mãe de Jesus, como vai nos dizer os Atos dos Apóstolos. Estava lá Maria testemunhando com as primeiras comunidades que Jesus Cristo não estava morto, mas Ele estava Vivo, e cheios do Espírito Santo a comunidade era convidada a proclamar esta verdade a todas as pessoas’.

O que Maria ensina?
Escuta
“Conservava todas estas recordações e as meditava no coração” (Lc 2, 19). Deus fala pelas Escrituras, pelos acontecimentos, pela Igreja… De muitas maneiras Ele se comunica, mas para ouvi-Lo é preciso estar atento, com os ouvidos e coração abertos. Maria escuta a vontade de Deus através do anjo, de sua prima Isabel, dos pastores, de Simeão, do ministério de seu Filho, de sua oração pessoal… Conserva estas mensagens e medita no coração, e vai compreendendo o plano de Deus aos poucos.

Obediência
“Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Maria devia ter seus planos: casar-se, ter filhos… Como qualquer jovem de sua idade, no seu tempo. Deus lhe pede muito mais, pede a ela toda sua vida. Abandona sua vontade para se abrir inteiramente à vontade do Pai. Por quantos percalços passa: gravidez antes de coabitar com seu esposo; fuga para o Egito; volta para Nazaré; a vida pública de seu Filho que culmina na crucifixão…

Virgindade e Pureza
“Creio em Jesus Cristo… nasceu da Vigem Maria…” O símbolo apostólico professa a virgindade de Maria antes e depois do parto. Mais que uma questão fisiológica a virgindade de Maria Santíssima remete a uma reflexão profunda da vida em Deus. Maria entrega-se por inteira ao projeto de Deus, sem divisões, sem concessões.

Atenção e serviço ao próximo
Com os olhos postos em seus filhos e em suas necessidades, como em Caná da Galiléia, Maria ajuda a manter vivas as atitudes de atenção, de serviço, de entrega e de gratuidade que devem distinguir os discípulos de seu Filho (Documento de Aparecida). Maria educa, ensina, prepara para a missão… Como ela mesma fez e continua fazendo. Grávida, faz uma longa caminhada até a casa de sua prima Isabel, de idade avançada e também grávida, para servi-la como era o costume. Nas Bodas de Caná preocupa-se com o vinho que está no fim. Como Mãe está sempre atenta às necessidades de seus Filhos, especialmente ocupada em levar seu filho nos braços e apresentá-Lo ao mundo.

E a missão continua…
Depois da Ascensão, Maria está com os apóstolos no cenáculo, em Pentecostes. E em toda história da Igreja Maria se faz presente. Os títulos que Maria recebeu em muitos lugares atestam a sua presença e a piedade do povo que a reconhece como mãe: Guadalupe, Lourdes, Fátima, Aparecida, para citar alguns. Tantos lugares, uma missão: levar seus Filhos a Jesus.

“O verdadeiro devoto não é o que reza, mas o que imita”.

Dividido entre os apelos do mundo e a vocação à santidade, o fiel encontra na imitação de Maria o caminho seguro do seguimento de Jesus. Maria é modelo e exemplo de amor incondicional, traduzido na fidelidade ao projeto do Pai e no serviço aos irmãos.

Pelo seu modo de agir se colhe um luminoso e um grandíssimo grau de humildade, que contrasta com a nossa soberba. Ela nos ensina que a humildade é a virtude necessária per percorrer o caminho da fé. Além disso, sendo ela uma criatura idêntica a nós fora que no pecado, conhece bem a natureza, os desejos, as fraquezas e as misérias humanas; por isso quem se não Ela nos poder revelar inteiramente quem é Jesus? Muitas vezes pegamos do Evangelho os ensinamentos do Mestre, mas o lado humano sobrepõe o lado espiritual e caímos no desespero e abandonamos o caminho. É nesse momento que virá em nossa ajuda a Estrela da Manhã que nos pegará pela mão e nos encaminhará ao amor de Jesus. Então, devemos aprender a amá-La para podermos entregar-nos a Ela como uma doce mãe. E Ela suplicará ao seu Filho, a fim de que nos de em abundância perdão e força. Somente um Deus extraordinariamente bom poderia nos dar este caminho que, através de Maria, nos fará chegar felizes a Jesus.

 

CONSAGRAÇÃO AO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

Ó coração Imaculado de Maria, repleto de bondade, mostrai-nos o vosso amor. A chama do vosso Coração, ó Maria, desça sobre todos os homens! Nós vos amamos infinitamente! Imprimi no nosso coração o verdadeiro amor, para que sintamos o desejo de Vos buscar incessantemente. Ó Maria, vós que tendes um Coração suave e humilde, lembrai-vos de nós quando cairmos no pecado. Vós sabeis que todos os homens pecam. Concedei que, por meio do vosso materno e Imaculado Coração, sejam curados de toda doença espiritual. Fazei que possamos sempre contemplar a bondade do vosso materno Coração e convertamo-nos por meio da chama do vosso Coração. Amém.

 

Ladainha do Imaculado Coração de Maria

Senhor, tende piedade de nós
Cristo, tende piedade de nós
Senhor, tende piedade de nós
Cristo, olhai-nos.
Cristo, escutai-nos
Deus Pai celestial, Tem misericórdia de nós.
Deus Filho Redentor do mundo, Tem misericórdia de nós.
Deus Espírito Santo, Tem misericórdia de nós.
Santa Trindade, um só Deus, Tem misericórdia de nós.
Santa Maria, Coração Imaculado de Maria, rogai por nós*
Coração de Maria, cheio de graça, *
Coração de Maria, vaso do amor mais puro, *
Coração de Maria, consagrado íntegro a Deus, *
Coração de Maria, preservado de todo pecado, *
Coração de Maria, morada da Santíssima Trindade, *
Coração de Maria, delícia do Pai na Criação, *
Coração de Maria, instrumento do Filho na Redenção, *
Coração de Maria, a esposa do Espírito Santo, *
Coração de Maria, abismo e prodígio de humildade, *
Coração de Maria, medianeiro de todas as graças, *
Coração de Maria, batendo em uníssono com o Coração de Jesus, *
Coração de Maria, gozando sempre da visão beatífica, *
Coração de Maria, holocausto do amor divino, *
Coração de Maria, advogado ante a justiça divina, *
Coração de Maria, transpassado por uma espada, *
Coração de Maria, Coroado de espinhos por nossos pecados, *
Coração de Maria, agonizando na paixão de teu Filho, *
Coração de Maria, exultando na ressurreição de teu Filho, *
Coração de Maria, triunfando eternamente com Jesus, *
Coração de Maria, fortaleza dos cristãos, *
Coração de Maria, refúgio dos perseguidos, *
Coração de Maria, esperança dos pecadores, *
Coração de Maria, consulente dos moribundos, *
Coração de Maria, alívio dos que sofrem, *
Coração de Maria, laço de união com Cristo, *
Coração de Maria, caminho seguro ao Céu, *
Coração de Maria, prenda de paz e santidade, *
Coração de Maria, vencedora das heresias, *
Coração de Maria, da Rainha dos Céus e Terra, *
Coração de Maria, da Mãe de Deus e da Igreja, *
Coração de Maria, que por fim triunfarás, *
Cordeiro de Deus que tiras o pecado do mundo, Perdoai-nos Senhor
Cordeiro de Deus que tiras o pecado do mundo, Escutai-nos Senhor
Cordeiro de Deus que tiras o pecado do mundo, Tem misericórdia de nós.
Rogai por nós Santa Mãe de Deus,
Para que sejamos dignos de alcançar as promessas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Oremos: Vós que nos tens preparado no Coração Imaculado de Maria uma digna morada de teu Filho Jesus Cristo, concedei-nos a graça de viver sempre conforme a sua vontade e de cumprir seus desejos. Por Cristo teu Filho, Nosso Senhor. Amém.

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Por Mons. Inácio José Schuster

Hoje, 23/6/2017, a Igreja celebra a SOLENIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS.

Hoje celebramos com toda a Igreja a solenidade do coração de Jesus. Na Antiguidade, o coração foi sempre considerado a parte central do ser humano. No coração residiam, na concepção dos antigos, todos os afetos, todos os desejos e todas as decisões. Trata-se de um órgão no qual a vida intelectual, e sobretudo afetiva, vem, quase que fisicamente, representada. E assim, nós hoje contemplamos o coração de Cristo. Que significa isto? Contemplamos, no Homem Jesus, a plenitude da Divindade e contemplamos, no coração humano de Cristo, o amor que Deus nos tem demonstrado, de maneira sensível, de maneira humana, à nós e à Igreja. Na verdade, a celebração do coração de Jesus é a contemplação do amor divino e humano que Jesus Cristo tem para com a Igreja, e para com cada um de nós que somos seus membros. Tudo em nossas relações com Cristo está permeado de amor; Ele nos amou por primeiro, e nos amou gratuitamente. Seu amor é um amor criativo, é um amor não merecido por nós, é um amor imotivado, porque Jesus não detecta nenhuma amabilidade em nós, que não seja, em nós, por Ele mesmo colocada. Tratamos de um amor tão apaixonante quanto desinteressado. Ninguém, absolutamente ninguém nos amou como Jesus nos ama; nem o marido mais tenro, nem a esposa mais dedicada, nem o filho mais afeiçoado. Ninguém, absolutamente, amou-nos com o amor humano e Divino, que hoje queremos contemplar no coração de Cristo. A solenidade de hoje presta-se muito mais à contemplação do que propriamente ao culto, embora o culto seja aprovado pela Igreja, e perfeitamente aceito. É melhor, no entanto, no dia de hoje, buscarmos um espaço mais ou menos grande de silêncio, para deixar que a contemplação do amor de Deus em Cristo para conosco penetre, como chuva fecunda, nosso próprio coração e Deus nos dê hoje, por graça, a capacidade de compreender como somos por Ele amados, em Seu próprio Filho, Jesus Cristo.

 

EM JESUS ENCONTRAMOS O VERDADEIRO DESCANSO
Padre Bantu Mendonça

Na primeira parte do Evangelho de hoje, temos uma breve oração de louvor de Jesus com a afirmação da união de conhecimento entre o Filho e o Pai. Cristo dá testemunho do Pai diante de todos. A vontade do Pai é que todos O acolham. Contudo, surge uma separação entre os “sábios e entendidos” e os “pequeninos”. Os sábios e entendidos são os autossuficientes das elites judaicas e os poderosos das cidades nos dias atuais. Estes estão bem instalados em seus privilégios e não querem mudanças. Os pequeninos são os pobres bem-aventurados, privados e carentes, em busca do socorro de Deus e ansiosos pela mudança do sistema de opressão. Completando a oração, Jesus afirma a Sua união de conhecimento com o Pai, que é a fonte da Sua revelação ao mundo. Em Deus, conhecer e amar são atitudes inseparáveis. A experiência missionária confirma que os pobres estão mais disponíveis para acolher as propostas do Reino para a transformação do mundo. Por isso, Jesus agradece a Deus, Seu Pai: “Ó Pai, Senhor do céu e da terra, eu te agradeço porque tens mostrado às pessoas sem instrução aquilo que escondeste dos sábios e dos instruídos! Sim, ó Pai, tu tiveste prazer em fazer isso”. Depois da Sua ação de graças com alegria, sabendo Jesus que o ser humano precisa de descanso, de repouso para repor as energias – necessita de descanso físico e também de descanso espiritual – nos convida: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde­ de coração, e vós encon­trareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. Neste Evangelho, Jesus vem ao encontro da necessidade de descanso espiritual. Ele diz a cada um de nós: “Vinde, aprendei e encontrareis descanso”. Quando Jesus diz isso, Ele não não quer simplesmente mostrar “pena” ou compaixão humanas. O que Ele quer é mostrar-nos o Seu Pai. O que Jesus diz, então, é que a simples confiança n’Ele e a natural vivência nos parâmetros da Sua Lei – a Palavra de Deus – são fardos leves e gratificantes. Pela confiança n’Ele encontraremos a Deus e n’Ele descansaremos. O Senhor convida a todos que estão cansados e desorientados com as opções e soluções que o mundo oferece e que não dão verdadeiro alívio ou descanso. Mas, principalmente, Jesus convida a todos que sentem o peso do pecado sobre a sua vida, com todas as consequências que ele traz sobre cada um. O pecado nos causa sofrimento físico, culpa e cansaço mental. E tudo isso enche o nosso coração de medo, autopiedade, intranquilidade e desespero. Quantas noites não passamos aflitos por causa dos problemas da vida, quantas vezes não estamos desanimados, lutando com os sentimentos de culpa ou medo e contra a nossa vontade pecadora! Nessas horas, Jesus vem e nos diz: “Vinde a mim todos vós que estais cansados de lutar. Desabafai comigo os vossos problemas, dores, medos e erros. Eu farei cada carga vossa mais leve e trarei paz a vossas almas”. São palavras de amor, carinho e compaixão que Jesus dirige a cada um de nós. Por isso, meu irmão, se você está triste, desanimado, cansado da vida, com os seus problemas, tristezas e desânimo, com os seus desejos, planos e objetivos corra para Jesus e entregue a Ele toda a sua vida e, com ela, tudo o que lhe perturba. Vá a Jesus pela fé, crendo n’Ele como o seu Salvador pessoal e como o Senhor da sua vida. Aprenda com a Sua Palavra, que nos mostra como viver uma vida feliz e que tem sentido e direção, e você encontrará alívio e descanso, pois o que Ele quer para mim e para você é o verdadeiro descanso nesta vida. E descanso eterno com Ele no céu.

 

“Pôs-se Jesus a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e doutores e as revelastes aos pequeninos”. Os termos “céu e terra” – observa Santo Agostinho – designam toda a criação. Certamente o orgulho intelectual, frieza de coração e o fanatismo fecham o homem para as coisas de Deus e de seu Reino. O orgulho, aliás, é a raiz de todos os vícios e exerce grande influência sobre nós, impelindo-nos ao pecado. Jesus contrasta o orgulho com a atitude de uma criança em sua simplicidade e humildade. O simples de coração vê sem pretensões, reconhece sua dependência de Deus e nele confia. As vocações de Davi e de Jeremias são dois exemplos, entre tantos outros, da predileção de Deus pelos pequenos e simples ou, ainda, dos que normalmente estavam excluídos da herança eterna. Deus se opõe aos orgulhosos e dá sua graça aos humildes. “Fazer-se conhecer pelos simples – considera Teodoro de Eracléia – evidencia a graça de Deus”. Jesus rende graças ao Pai, porque diz ele: “Escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos” e, mais adiante, acrescenta: “Ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. O verbo conhecer tem aqui toda a sua força e deve ser entendido como exprimindo a comunhão tanto no pensar como no querer. A filiação de Jesus, não é um simples título, mas uma intimidade, uma comunhão total e perfeita com o Pai. E é nesta intimidade que os simples e pequeninos são introduzidos. O Evangelho de hoje nos convida a abrirmos o coração para Jesus, que, no dizer de São Gregório de Nazianzo, “se faz pobre; suporta a pobreza de minha carne para que eu alcance os tesouros de sua divindade. Ele tudo tem, de tudo se despoja; por um breve tempo se despoja mesmo de sua glória para que eu possa participar de sua plenitude”. Eis a maior riqueza que Jesus nos comunica, fazermos parte da glória, da vida íntima do Pai.

“Deus concedei-me a simplicidade de uma criança e a pureza da fé para poder contemplar vossa face e participar de vosso amor todo misericordioso. Removei toda dúvida, medo e orgulho do meu coração e dos meus pensamentos, para que eu possa receber vossa palavra com confiança e humilde submissão”.

 

Ano B – A celebração como tal não é antiga no calendário litúrgico, porém o que se celebra faz parte do centro do mistério cristão, porque nós nos centralizamos hoje no amor de Jesus Cristo, simbolicamente representado no seu Coração Divino-humano. Lemos uma parábola de Lucas contida no capítulo 15, versículos 3 a 7. “Se alguém de vós tiver uma ovelha perdida, não deixará por acaso, as noventa e nove no rebanho para ir ao encalço daquela que se havia perdido? Pois Eu vos afirmo: haverá mais alegria no céu por um só pecador que faça penitência, que por noventa e nove justos que não necessitem de penitência”. É bem o coração de Cristo que fala através desta parábola. Na verdade nenhum pastor de seu tempo e do nosso também, se importaria com a perda de uma ovelha sobre cem. De resto seria falta de responsabilidade ou imprudência, deixar noventa e nove ovelhas no redil e ir às montanhas e vales, buscar aquela que se havia perdido. Poderia ser facilmente substituída por outra. No entanto, Jesus deixa sorrateiramente o real e passa a afirmar que o coração do Pai e o Seu próprio coração são diferentes de nossos corações. Para Jesus Cristo, cada um de nós é uma pessoa única, inigualável, eternamente pensada e querida no seio da Trindade. Para cada pessoa individualmente considerada, Jesus estaria disposto a realizar novamente a sua Paixão caso fosse necessário. Ela, de resto, vem atualizada cada vez que nós participamos do sacrifício da Eucaristia. Em cada missa, cada um de nós se percebe objeto do inteiro Amor de Cristo. Pois Cristo, no ato de sua morte e sua ressurreição, na Sua maior intimidade se entrega a cada um de nós, como se nós fossemos únicos para Ele. É claro, não se deve levar ninguém, ao individualismo dentro da Igreja. Nós somos comunitários, mas dentro da comunidade, ou de um único redil, cada um de nós conta e é amado infinitamente por Jesus Cristo. Hoje celebramos e contemplamos maravilhados este Amor.

 

“Filho, dá-me teu coração”, faz-nos dizer o ofício divino de hoje. Nós desejamos hoje renovar a entrega de todo o nosso coração, quem sabe após lho ter roubado inúmeras vezes. Os escribas e fariseus se sentiram muito ofendidos porque Jesus os associava aos pecadores e os tratava gentilmente. Os fariseus tinham estabelecido regras rigorosas sobre como manterem -se distantes dos pecadores, pois caso contrário incorreriam em impurezas legais. Eles não lhes emprestavam dinheiro nem lhes pediam algo, não lhes davam uma filha em casamento, nem os convidavam como hóspedes. Eles se escandalizavam do modo como Jesus os acolhia, chegando mesmo a “comer com eles”. Jesus lhes responde contando uma parábola tirada da vida cotidiana. O tema de Deus como pastor do seu povo é bastante familiar a todos os judeus. No relato da ovelha perdida os verbos “buscar-encontrar” revelam, antes de tudo, a iniciativa do Pastor, constituindo um convite para todos os pastores da comunidade cristã. Fala de seu ministério junto aos “pequenos”. O Senhor não quer que nenhum deles se perca. Acolher ou escandalizar um único dentre eles tem importância aos olhos do Pai, porque Ele tem para com o menor dentre eles um amor salvador: chama cada um de nós “por seu nome” próprio, insubstituível. Tal idéia não conduz a um individualismo, mas muito pelo contrário, trata-se de reconduzir ao redil comum. A dor e a ansiedade do pastor e da dona de casa se transformam em alegria quando eles encontram a ovelha ou a dracma perdidas. Ambos procuram até terem encontrado o que tinham perdido e participam o contentamento com toda a comunidade. A novidade no ensinamento de Jesus era sua insistência de que os pecadores devem ser buscados e não meramente censurados ou lamentados. Deus não se regozija com a perda deles, mas deseja que sejam salvos e reconciliados com Ele. A mesma idéia é encontrada no Evangelho de São João, em que o Bom Pastor vela para que nenhum de seus discípulos se perca. Santo Efrém vê nestas palavras a atitude de Jesus que “vê os pecadores e os chama, e os faz sentarem-se ao seu lado, Espetáculo admirável: os anjos temem, por causa de sua grandeza, e os pecadores comem e bebem com Ele”. “Senhor, que vossa luz dissipe a escuridão de forma que aquele que se perdeu possa ser encontrado e restaurado. Que vossa luz brilhe através de mim para que outros possam ver vossa verdade e amor e encontrem esperança e paz em vós”.

Santa Margarida Maria Alacoque
Margarida Maria Alacoque (Verosvres, 22 de julho de 1647 – Paray-le-Monial, 17 de outubro de 1690) foi uma monja e mística católica francesa. Aos 23 anos, entrou na comunidade de Paray-le-Monial. Junto a Jean Eudes, é recordada principalmente por ter siso, coadjuvada pelo jesuíta Claude La Colombière, a iniciadora do culto ao Sagrado Coração de Jesus, cujos primeiros sinais datam de 1200-1300.
Margarida nasceu no dia da festa de Maria Madalena filha do tabelião Claude Alacoque e de Fhiliberte Lamyn, também filha de tabelião. Margarida tinha quatro irmãos, dois dos quais, de saúde frágil, morreram com cerca de vinte anos, Chrysostome, o mais velho, assumiu o papel de pai quando ele morrer, assim que Margarida tinha apenas oito anos, e o outro irmão tornou-se padre em Bois Sainte-Marie. Desde pequena, teve formação cristã, como muitos de seus coetâneos, mas viu na vida de devoção um estilo condizente à sua natureza. Aos oito anos, morreu o pai, e a mãe a enviou a um colégio das Clarissas. A vida religiosa a atraia e ela amava imitar as outras religiosas e sentia nascer em si um desejo sempre mais forte de solidão e de oração. Mais tarde, em 1669, quando tinha 22 anos, recebeu o Crisma, ocasião em que fez acrescentar a seu nome o nome de Maria.
Enfim, Margherita-Maria se decidiu a entrar em um mosteiro, embora a família a obrigasse a se casar. Ele mesma, no início, tentou ir ao encontro das expectativas de sua família, mas sem êxito. Ao tomar a decisão de se fazer religiosa, e diante da necessidade de prover a uma dote, necessária para ingressar no mosteiro, seus familiares escolheram seja a ordem com o mosteiro, optando pela ordem religiosa das Ursulinas. Margarida-Maria julgava mais condizente para si a ordem da Visitação, e enfim, conseguiu alcançar seu intento.

A Vigente de Paray-Le-Monial
Foi no mosteiro da Visitação de Paray-le-Monial, localidade entre Dijon e Lyon, que Margarida-Maria, após alguns anos de vida monástica, revelou-se vigente, e começou a ter as revelações de Jesus conhecidas entre os cristãos como “as grandes revelações do Sagrado Coração”. Em sua vida, foi muito provada por incompreensões, sobretudo por parte de seu ambiente monástico, e ela tinha muitas dificuldades em avaliar claramente estas visões: estava cheia de dúvidas e incompreensões e as maldades de que foi vítima não lhe ajudaram certamente a avaliar claramente suas revelações.

A Mensagem do Sagrado Coração a Margarida Maria (1675)
“Eis este Coração, que tanto amou os homens, que nunca se poupou, até consumir-se na tentativa de testemunhar-lhes o seu amor. Como reconhecimento, recebo da maior parte dos homens apenas ingratidões, irreverências e sacrilégios, junto ao desprezo e a frieza. Mas o que me parece mais doloroso é que, a tratar-me assim, sejam os corações que me foram consagrados. Por isso, pelo que na primeira sexta-feira depois da oitava do Santíssimo Sacramento, seja dedicada uma festa especial para honrar o meu Coração. Naquele dia, te comungarás e tributarás uma emenda de honra, para reparar as indignidades que recebeu durante o período em que foi exposto nos altares. Te prometo também que meu Coração também se dilatará e derramará abundantes influxos de seu divino amor sobre aqueles que tributarão esta honra e farão com que seja tributada”.
As promessas feitas por Nosso Senhor a Santa Margarida para as pessoas devotas a seu Sagrado Coração; a comunhão reparadora das nove primeiras sextas-feiras.

Fonte: Agência Fides

Modelos de Igreja – Modelos de Pastoral

Prof. Dr. Pe. Manoel Augusto Santos FATEO – PUCRS

Em alguns ambientes, argumenta-se que a pastoral se orienta a partir do conceito teológico da existência de vários modelos (visões) de Igreja. Cada modelo de Igreja inspira uma pastoral própria, ou seja, aparecem modelos de pastoral. Isso tem gerado tensões eclesiais e eclesiásticas dificultando a comunhão. Argumenta-se que a questão dos diferentes modelos de Igreja provém do Concílio Vaticano II.

I – Inícios
Costuma-se chamar modelo ao paradigma que simboliza e aglutina um conjunto de idéias, opiniões, posturas e ações. Em outras palavras, é uma constelação de convicções, valores, modos de comportamento etc. No começo da década de 70 (portanto depois do término do Concílio), num livro muito influente, Avery Dulles propôs uma série de modelos de Igreja que se utilizaria para explicar e explorar algo do mistério da Igreja. Segundo ele, os modelos serviriam para sintetizar e lançar nova luz. Dulles afirma que, quando uma imagem de Igreja se usa de maneira reflexiva e crítica para aprofundar numa visão teórica da realidade, se converte no que se chama hoje um modelo. Dulles apresentava cinco modelos de Igreja: instituição, como uma estrutura que continua o ministério de Cristo não num sentido meramente sociológico; comunhão mística, incluindo o Corpo de Cristo e o Povo de Deus; sacramento, como sinal visível e efetivo da graça salvífica; arauto, proclamando a mensagem do Reino e reclamando uma resposta; serva: atenta às necessidades do mundo. Ainda que afirmasse que todos os modelos eram limitados e necessitavam ser completados pelos demais, mostrava na primeira edição do livro uma preferência pelo modelo sacramental, apontando inclusive a possibilidade de usar dito modelo como base para uma eclesiologia sistemática. Na segunda edição propunha um novo modelo: a comunidade dos discípulos comprometida no culto e na missão. A idéia de modelo foi adotada e aplicada em outras áreas da teologia, propondo-se também novos modelos dentro da eclesiologia segundo diversos autores.

II – Modelos de Pastoral
Modelo na ação pastoral é um projeto operativo ou plano concreto de ação que relaciona, de modo dinâmico, todas as tarefas que intervêm no processo da prática pastoral. O modelo pressupõe uma representação ou conhecimento com exigências hermenêuticas. Mas o modelo emerge da própria prática, quando se comparam diferentes tarefas e se correlacionam. Os diferentes modelos de ação pastoral surgem a partir de determinadas interpretações bíblicas, concepções teológicas, posições políticas e pedagogias de ação. É especialmente estreita a relação entre os modelos de Igreja e modelos de ação pastoral, já que a ação pastoral se entendeu como edificação da Igreja. São decisivos, na concepção dos modelos de pastoral os dois fatores que influem na ação pastoral, isto é: a realidade social em que os crentes atuam, e a teologia como inteligência da fé. Os modelos citados pelos autores são variados, conforme se acentua mais o sacramental, a evangelização, a autoridade, a pastoral popular, a libertadora. Em virtude da rejeição ou aceitação da letra e do espírito do Vaticano II, temos uma pastoral pré-conciliar conservadora, de tipo restauracionista, ou uma pastoral progressista, de cariz reformador. Em suma, uns modelos acentuam a hierarquia, o culto, a disciplina, a ordem, outros acentuam a liberdade, a justiça, o povo, os pobres. Uns centram-se na paróquia, com predomínio do sacramental e administrativo, de outro lado centram-se nos movimentos apostólicos, na opção de classes, próximas das lutas libertadoras, dos movimentos sociais, das opções políticas.

III – Modelos de Igreja
As correntes eclesiológicas do período pós-conciliar são muitas. Mesmo esse adjetivo “pós-conciliar” é bastante ambíguo. Nem tudo o que veio depois do Concílio pode considerar-se desenvolvimento legítimo de sua doutrina. Pelo contrário, há construções que somente podem chamar-se pós-conciliares dando a este termo um valor cronológico. No processo de recepção do Vaticano II é preciso elaborar uma elesiologia que tenha em conta a totalidade da doutrina conciliar, sem arbitrárias separações entre letra e espírito do Vaticano II. A seleção arbitrária de conteúdos não é o caminho para uma eclesiologia que queira ser expressão fiel da doutrina conciliar. Paulo VI já sinalizava para uma falsa e abusiva interpretação do Concílio e até para uma ruptura com a tradição, também doutrinal, chegando a repudiar a Igreja pré-conciliar e a permitir-se conceber uma Igreja nova, quase reinventada desde dentro em sua constituição, no dogma, nos costumes e no direito . Muitos modelos são inadequados e insuficientes porque são alternativos auto-excludentes entre si.  A realidade ensina que uma das chaves do verdadeiro é a integração de contrários. Os contrastes demasiadamente radicais, feitos dilemas, sufocam e fanatizam. Há que se chamar a atenção para alguns modelos estereotipados de opções eclesiais que, quando se unilateralizam, resultam perigosos e falsos. Assim, os que desejam contrapor uma Igreja evangelizadora frente a uma Igreja sacramentalizadora. Ora, anúncio e sacramento se complementam e necessitam. Tampouco podemos aceitar um reducionismo que contraponha uma Igreja denominada democrática frente a outra autocrática. A comunhão eclesial exige muito mais que qualquer forma democrática, pois exige amor e fraternidade. E exige fidelidade à vontade de Cristo em fundar uma Igreja com uma estrutura fundamental na qual existe a autoridade garante da comunhão na fé, no culto e na disciplina. Que sentido tem contrapor Igreja profética frente a Igreja cultual? O profeta, quando o é de verdade, sabe que a transformação da realidade vem desde o projeto de Deus, não apenas ou primordialmente humano, o Deus ao qual devemos todos nos inclinar reverente e cultualmente. E o sacerdote, quando o é de verdade, sabe que o culto que oferece não é algo separado da vida e da realidade social, senão desde dentro dela para transformá-la. Não tem sentido contrapor uma Igreja carismática ou popular frente à Igreja institucional ou hierárquica. A única Igreja não é descoberta por uma análise sociológica ou pressupostos meramente humanos ou ideológicos. Cabem na Igreja ministérios e carismas, vocações e funções, anúncio e culto, graça e tarefa humana, oração e ação, tudo para o serviço e a edificação comum. Ao advogar por uma Igreja de pequenas comunidades, o perigo é perder a universalidade, a catolicidade e fechar-se em visões particularistas. Ao advogar uma Igreja de cristãos militantes, lutadores nas frentes sociais, o perigo é criar uma Igreja “dos nossos”, dos puros, dos que são autênticos. Ao advogar por uma Igreja do marketing, do audiovisual, das grandes concentrações, o perigo é viver de aparências, de superficialidade. Ao advogar uma Igreja metida em cheio nos problemas e reivindicações sociais, corre-se o risco de não se diferenciar o humano do Reino evangélico e confundir qualquer aparente justa causa com a missão eclesial. Os pressupostos utilizados por quem idealiza modelos podem, sem dúvida, tornar intelectualmente inaceitáveis o uso de aspectos tradicional e doutrinalmente católicos, como por exemplo, o binômio sacerdócio comum – sacerdócio ministerial. Então o problema está nos pressupostos. Apenas como exemplo, aparecem em alguns autores o uso dos modelos para entender a Igreja e os ministérios. Em alguns autores, percebe-se a legítima afirmação da novidade do sacerdócio do Novo Testamento (o sacerdócio de Cristo) com relação ao sacerdócio do Antigo Testamento. Porém, conforme J. Ratzinger, há que rechaçar uma concepção que, em relação ao culto e ao sacerdócio, supõe uma ruptura com a história da salvação pré-cristã, negando toda relação entre o sacerdócio do Antigo e do Novo Testamento. Neste caso o Novo Testamento não seria um cumprimento, mas um contraste com a Antiga Aliança. Destruir-se-ia a unidade interior da história da salvação. Por meio do sacrifício de Cristo e de sua aceitação na ressurreição, todo o patrimônio cultual e sacerdotal da Antiga Aliança é entregue à Igreja. Com efeito, o sacerdócio da Igreja é continuação do sacerdócio do Antigo Testamento, que encontra seu verdadeiro cumprimento precisamente nesta novidade radical e transformante . Em outros casos parece que há uma visão sócio-funcional do ministério em geral e do ministério ordenado em particular. À nível mundial, J. Ratzinger apresenta a questão e sua inevitável reação: estão frente a frente duas concepções de ministério sacerdotal: uma visão sócio-funcional que define a natureza do sacerdócio com o conceito de “serviço”, e a visão sacramental-ontológica que, sem negar o caráter de serviço do sacerdócio, no entanto o vê estabilizado na existência do ministro, existência determinada por um dom, chamado sacramento. À concepção funcional se uniu também uma variação terminológica. Cada vez se evita mais usar a expressão “sacerdote/sacerdócio”, que conota um sentido sacral, e se substitui pela palavra neutro-funcional “ministério”, que, na teologia católica, até a pouco não tinha quase nenhuma importância . De acordo com J. Dominguez, na idéia sócio-funcional do ministério sacerdotal, este é concebido como emanação a partir da comunidade e determinado em sua configuração pelas exigências funcionais do grupo. Ao predomínio do ontológico sucede a primazia do funcional e a imagem do ministro que resulta adquire os contornos de liderança espontânea, com o que se pretende substituir o modelo baseado na identificação sacramental do ministro com Cristo e na missão recebida deste . Outro caso mais severo transparece: ainda que sensibilizados pela condição de grande parte do povo latino-americano, não se pode empobrecer a realidade sacramental-eclesial e interpretar a realidade dos sacramentos, da hierarquia e de toda a vida da Igreja em termos de produção e consumo, de monopólio, expropriação e conflito . Há que cuidar de não “pôr em xeque a estrutura sacramental e hierárquica da Igreja, tal como a quis o próprio Senhor” .

IV – Considerações finais
Sem o devido discernimento crítico, o uso de modelos na eclesiologia e na pastoral pode afetar a reta inteligência da realidade constitutiva da Igreja, prévia e normativa a toda consideração teórica e prática. A Igreja não pode ser “reconstruída” conforme uns modelos pois tem sua origem e fundamento permanente em Deus. Trata-se de algo que afeta a realidade mesma da Igreja, e que pode tornar-se alvo fácil de pressupostos ideológicos. E a questão não é meramente especulativa, pois afeta a realidade mesma da Igreja e a sua missão no mundo. Pode objetar-se que a tendência a ficar no nível da fenomenologia impede que o método dos modelos possa constituir um fundamento último para uma explicação sistemática da eclesiologia. Mais: com facilidade pode se cair no exclusivismo ideológico. O certo é que a Igreja verdadeira encerra, sem exclusivismos nem ideologias, o melhor dos modelos. E mesmo assim, ainda estamos aquém do significado teológico da Igreja. Afirmar que a Igreja participa do mistério divino e que, portanto, o homem é incapaz de esgotar sua compreensão, denota tão apenas a limitação de nossa inteligência e em modo algum equivale a negar ou a menosprezar as possibilidades de conhecê-la. Todo elemento terreno da Igreja nos é acessível, ainda quando a perfeita compenetração com os celestiais se nos faça inimaginável em seu exato dinamismo salvífico. Aí precisamente reside sempre seu mistério. A projeção transcendente, a insondável profundidade ou, se se prefere, a “intuição” global da natureza da Igreja, nos foi revelada por Jesus Cristo através de diversas imagens complementares, tomadas de realidades próximas ao homem. Jesus empregou para isso uma pedagogia semelhante a das parábolas, que Ele mesmo utilizou para anunciar o Reino de Deus. O Concílio Vaticano II recolhe da Sagrada Escritura muitas dessas imagens. Por exemplo: redil, rebanho de Deus, edificação de Deus, esposa etc. Mais elaboradas e descritivas são todavia outras imagens alusivas a cada uma das Pessoas divinas da Trindade: Povo de Deus, Corpo Místico de Cristo, Templo do Espírito Santo. Igual que no caso das parábolas de Jesus Cristo, ainda que cada uma das imagens diz algo da Igreja, nem sequer a soma de tudo o que sugerem nos permite abarcar sua natureza exata. Como afirma o Sínodo dos Bispos de 1985: estas descrições da Igreja se completam mutuamente e devem entender-se à luz do mistério de Cristo ou da Igreja em Cristo (II, 3) Ao finalizar, convém recordar o número 8 da Constituição Dogmática Lumen gentium do Concílio Vaticano II, um ótimo argumento sobre a impossibilidade de construir um modelo satisfatório para a Igreja, realidade visível e espiritual: 8. Cristo, Mediador único, constituiu e sustenta indefectivelmente sobre a terra, como organismo visível, a sua Igreja santa, comunidade de fé, de esperança e de caridade, e por meio dela comunica a todos a verdade e a graça. Contudo, sociedade dotada de órgãos hierárquicos e corpo místico de Cristo, assembléia visível e comunidade espiritual, Igreja terrestre e Igreja já na posse dos bens celestes, não devem considerar-se como duas realidades, mas constituem uma realidade única e complexa, em que se fundem dois elementos, o humano e o divino. Não é, por isso, criar uma analogia inconsistente comparar a Igreja ao mistério do Verbo encarnado. Pois, assim como a natureza assumida pelo Verbo divino lhe serve de órgão vivo de salvação, a ele indissoluvelmente unido, de modo semelhante a estrutura social da Igreja serve ao Espírito de Cristo, que a vivifica, para fazer progredir o seu corpo místico (cf. Ef 4, 16). Esta é a única Igreja de Cristo, que no símbolo professamos una, santa, católica e apostólica, e que o nosso Salvador, depois de sua ressurreição, confiou a Pedro para que ele a apascentasse (cf. Jo 21, 17), encarregando-o, assim como aos demais apóstolos, de a difundirem e de a governarem (cf. Mt 28, 18), levantando-a para sempre como “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3, 15). Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele, ainda que fora do seu corpo se encontrem realmente vários elementos de santificação e de verdade, que, na sua qualidade de dons próprios da Igreja de Cristo, conduzem para a unidade católica. Do mesmo modo que Jesus Cristo consumou a sua obra de redenção na pobreza e na perseguição, assim também, a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho para poder comunicar aos homens os frutos da salvação. Cristo Jesus, tendo “condição divina… esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de servo” (Fl 2, 6-7) e por causa de nós “ele que era rico, fez-se pobre” (2Cor 8, 9): assim a Igreja, se bem que precise de recursos humanos para cumprir a sua missão não foi constituída para buscar glórias terrenas, mas para dar a conhecer, também com seu exemplo, a humildade e a abnegação. Cristo foi enviado pelo Pai “para evangelizar os pobres… a proclamar a remissão aos presos” (Lc 4, 18), “a procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10): de modo semelhante a Igreja envolve em seus cuidados amorosos todos os angustiados pela fraqueza humana, e mais, reconhece nos pobres e nos que sofrem, a imagem do seu Fundador, pobre e sofredor, esforça-se por aliviar-lhes a indigência, e neles quer servir a Cristo. Mas enquanto Cristo “santo, inocente, imaculado” (Hb 7, 26), não conheceu o pecado (cf. 2Cor 5, 21), e veio expiar unicamente os pecados do povo (cf. Hb 2, 17), a Igreja que reúne em seu seio os pecadores, é ao mesmo tempo santa, e sempre necessitada de purificação, sem descanso dedica-se à penitência e à renovação. A Igreja “continua o seu peregrinar entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus”, anunciando a paixão e a morte do Senhor, até que ele venha (cf. 1Cor 11, 26). No poder do Senhor ressuscitado encontra a força para vencer, na paciência e na caridade, as próprias aflições e dificuldades, internas e exteriores, e para revelar ao mundo, com fidelidade, embora entre sombras, o mistério de Cristo, até que no fim dos tempos ele se manifeste na plenitude de sua luz.

Bibliografia: BUENO DE LA FUENTE, Eloy. Eclesiología. Madrid: BAC, 1998. COMISIÓN EPISCOPAL PARA LA DOCTRINA DE LA FE. Nota doctrinal sobre usos inadecuados de la expresión modelos de Iglesia. In: Fe y Moral. Documentos publicados de 1974 a 1993. Madrid: Conferencia Episcopal Española, 1993. p. 135-145. DULLES, Avery. Models of the Church. Dublin, 1974. FISICHELLA, Rino (dir.). Il Concilio Vaticano II; Recenzione e attualità alla luce del Giubileo. Milano: San Paolo, 2000. FLORISTÁN, C., TAMAYO, J., DE LA TORRE, J., HORTELAO, A. Dicionário de Pastoral. Aparecida-Porto: Santuário-Perpétuo Socorro, 1990. p. 356s. FORTE, Bruno. La Chiesa della Trinità. 3ed. Milano: San Paolo, 2003. P. 318-327. O’DONELL, C., PIÉ-NINOT, S. Diccionario de Eclesiología. Madrid: San Pablo, 2001. p. 730s. PEDROSA, Vicente, SASTRE, Jesús, BERZOSA, Raul. Diccionario de Pastoral y Evangelización. Burgos: Monte Carmelo, 2000. p. 731s. RODRÍGUEZ, Pedro. Eclesiología 30 años después de Lumen gentium. Madrid: Rialp, 1994.

 

NOTA DOUTRINAL SOBRE USOS INADEQUADOS DA EXPRESSÃO «MODELOS DE IGREJA»
(18 outubro 1988)

INTRODUÇÃO

Razão desta nota

1. Em nossa nota doutrinal «sobre algumas questões eclesiológicas» assinalávamos que, nos anos pós-conciliares, foi freqüente falar de «modelos» de Igreja diferentes entre si e, amparando-se nessa expressão, propugnar modelos incompatíveis com a realidade original da Igreja1.

Se hoje voltamos a chamar a atenção sobre este tema concreto é porque nos preocupam alguns usos do termo «modelos» na eclesiologia ou na exegese. A palavra «modelo», na eclesiologia e na prática pastoral, suscita, pelo pronto, perplexidades, não poucas vezes. Seu uso não crítico pode afetar à reta inteligência da realidade constitutiva da Igreja, prévia e normativa a toda consideração teórica e prática. A Igreja não pode ser «reconstruída» conforme a uns paradigmas ou modelos pois tem sua origem e fundamento permanente no dom de Deus em Cristo. Não cabe dúvida de que alguns sentidos deste termo, tal como se utiliza nas ciências e ainda na linguagem corrente, falseiam, aplicados à Igreja, sua realidade. O que aqui está em jogo não é uma questão simplesmente especulativa. A problemática que se coloca como conseqüência do uso que alguns autores fazem desta expressão é pastoral e doutrinalmente importante. Se trata de algo que afeta à realidade mesma da única Igreja. Tudo isso com grandes repercussões na vida da Igreja e na ação pastoral.

Com esta nota não aspiramos a esclarecer toda a problemática que está detrás do conceito «modelo»; nem sequer toda a que cabe suscitar respeito a sua melhor adequação para analizar a realidade da Igreja. Remetemos estas questões ao estudo e diálogo dos teólogos. Nós aqui, sem querer fechar possibilidades teológicas à eclesiologia nem caminhos à ação pastoral, senão respondendo a nossa missão de «mestres autorizados» (LG, 25), oferecemos nosso serviço de discernimento, de vigilância e de promoção da fé da Igreja em nosso tempo.

ALGUNS CRITÉRIOS DE DISCERNIMENTO

Usos inadequados da expressão «modelos de Igreja»

2. Nada haveria que objetar, em princípio, a um uso do termo «modelos» na eclesiologia2. A Igreja recorreu ao longo da história a conceitos, expressões e formas de organização de seu entorno cultural e social, para salvaguardar num horizonte determinado de compreensão o verdadeiro sentido do Evangelho e para levar a cabo sua missão em cada circunstância histórica. Esta é uma tarefa inscrita na missão universal que a Igreja recebeu de Jesus Cristo. É preciso acrescentar, mesmo assim, que, de ordinário, as expressões, os conceitos e as formas organizativas empregados foram corrigidos ou receberam um sentido novo para poder ser aplicados à nova e original realidade cristã3.

O problema surge quando, falando de «modelos», se absolutiza uma visão parcial do mistério da Igreja e se cai na tentação de encerrar-se na própria posição justificada pelo «modelo» de Igreja que se escolheu; quando, amparando-se num determinado «modelo», se rechaçam elementos ou aspectos do ser constitutivo da Igreja; ou quando se aplica sem mais à Igreja um «modelo» social ou político sem ter em conta a natureza peculiar da mesma. Nestes casos, o passo de um «modelo» eclesiológico a outro se leva a cabo sem apoiar-se na vontade de Jesus Cristo, Senhor da Igreja, senão em motivos puramente externos à realidade original da mesma, fundados em pontos de vista muito particulares do teólogo ou do pastor. Deste modo, não se garantiria a vinculação da comunidade eclesial com Jesus Cristo, seu único Senhor e, portanto, sua identidade e continuidade através dos tempos.

A expressão «modelos» de Igreja no marco cultural de pluralismo

3. A introdução do conceito «modelos de Igreja» na teologia coincide com o auge do «pluralismo» em nossos dias. O pluralismo constitui, sem dúvida, uma realidade inscrita na cultura contemporânea. Esta exalta de tal modo as diferenças que renuncia de antemão à identidade e reconciliação das mesmas. Alguns, influídos por esta concepção do pluralismo, não consideram à Igreja unida a Jesus, sua Cabeça, pelo vínculo de uma fé inalterável ao longo dos séculos; a entendem, pelo contrário, como uma justaposição de grupos que, partindo de experiências de fé diversas, se encontram em objetivos práticos ao serviço da «causa de Jesus». Este pluralismo, com seus conseguintes «modelos» de comunidades cristãs, é incompatível com o Novo Testamento e, portanto, inaceitável. Mas não podemos negar que, sempre dentro da unidade de fé e comunhão, há espaço na Igreja para viver acentuações legítimas da mesma fé cristã. Os dons especiais recebidos de Deus e determinadas experiências cristãs ou situações concretas da história levam a captar melhor alguns aspectos do mistério revelado por Deus em Cristo e a iluminar e modular a vida da Igreja apoiando-se nessas intuições crentes. Tais acentos são enriquecedores para a Igreja.

Unidade na diversidade

4. A Igreja, com efeito, admite a pluralidade em suas formas de realização sempre que se mantenha inalterável o desígnio de Deus de levar a todos os homens à unidade através dela. A unidade da Igreja não nega a diversidade: é uma unidade católica. Tanto espacial como historicamente a Igreja se constrói na diversidade. Há nela variedade de membros, todos ativos, e variedade de carismas e ministérios, todos destinados à utilidade comum. A Igreja, ademais, se realiza nas Igrejas locais e joga suas raízes em situações sociais e humanas diferentes utilizando os elementos culturais dos povos para expressar melhor sua catolicidade. Assim, na Igreja Católica, as riquezas da salvação em Cristo se encontram com as riquezas da criação. Desta maneira, variedade e pluralidade não se contradizem senão que cooperam ao desígnio de Deus de recapitular em Cristo e na Igreja toda a riqueza plural da criação e da salvação (Cfr. Ef 1, 9-10; 3, 8-10; Col 1, 19-20; vid. LG, 13).

A Igreja reconhece também que «a divina providência fez que as várias Igrejas fundadas em diversas regiões pelos Apóstolos e seus sucessores, com o correr dos tempos, se constituiram em agrupações organicamente organizadas que, deixando a salvo a unidade de fé e a única constituição divina da Igreja universal, gozam de disciplina própria, de próprios ritos litúrgicos e de um patrimônio próprio teológico e espiritual. Entre elas, as antigas Igrejas Patriarcais, a maneira de mães na fé, geraram outras (Igrejas) a modo de filhas suas e se mantiveram unidas com estas até nossos dias pelo estreito vínculo da caridade na vida sacramental e no respeito mútuo de direitos e deveres. Esta variedade de Igrejas locais orientada à unidade manifesta admiravelmente a catolicidade da Igreja indivisa» (LG, 23).

Novo Testamento e «modelos» de Igreja

5. Alguns teólogos e pastores tratam de justificar a existência de diversos «modelos» de Igreja a partir dos dados da exegese do Novo Testamento e da história das origens do cristianismo. É natural que se busque a legitimação de tais «modelos» nas mesmas origens, já que desta forma pode reivindicar-se sua validez em qualquer outra situação histórica da Igreja.

A exegese e a história das origens colocaram de relevo, com efeito, diferenças de organização e vida da Igreja nos diferentes escritos neo-testamentários. Estas informações do Novo Testamento são, sem dúvida, ocasionais e fragmentárias. Mas, partindo delas, alguns exegetas e teólogos crêem poder construir «modelos» completos e contrapostos de organização e vida eclesial das comunidades cristãs já desde as mesmas origens.

Metodologicamente não é aceitável o procedimento. O investigador, neste caso, se acerca ao Novo Testamento com um prejuízo; quer dizer, trata de encontrar nele umas diferenças e contraposições, iguais ou parecidas às que se dão em nosso tempo entre diversas confissões e comunidades eclesiais, em lugar de interpretá-las à luz da unidade daquela Igreja que produziu os escritos do Novo Testamento. Sustentando este prejuízo, em casos extremos, há uma vontade de justificar as diferenças atuais apoiando-se no Novo Testamento, sem atender às exigências do método teológico nem a interpretação católica da Sagrada Escritura. A verdade é que nenhum dos escritos neo-testamentários tentou oferecer uma imagem sistemática do que é a Igreja.

O «cânon» do Novo Testamento e sua unidade

6. A Igreja recebeu, custodiado e transmitido os documentos neo-testamentários como livros onde se expressava sua fé e se reconhecia a si mesma, uma e única, em sua vida e organização diferenciadas. Dentro destas diferenças, não podemos introduzir seleções arbitrárias, omissões e contrastes para justificar preferências ou rechaços decididos de antemão. Não é lícito introduzir, segundo os próprios prejuízos, um «cânon» no interior da totalidade dos escritos do «cânon»: umas vezes tomando como pauta de interpretação de todo o Novo Testamento o Jesus histórico e outras vezes a Páscoa; umas vezes a justificação pela fé e outras o protagonismo do homem; umas vezes as estruturas eclesiais mais organizadas e outras vezes a maior indeterminação possível no institucional. A Igreja reconheceu, pelo contrário, nos livros do Novo Testamento a expressão legítima de sua própria fé e apoiando-se em sua própria fé pôde lê-los como um só livro, apesar de que constituem uma coleção não homogênea de escritos. Portanto, esta fé da Igreja antiga, precisamente enquanto interpretou como unidade este conjunto de livros, é uma parte essencial do Novo Testamento como «cânon». Só quando se lê cada um destes escritos apoiando-se na fé da Igreja se lêem como Novo Testamento. Por conseguinte, é absurdo postular modelos diferentes e contrapostos de Igreja apelando ao Novo Testamento; em realidade, o que se invoca não é precisamente o Novo Testamento, senão um resto literário tirado de seu contexto vivo e eclesial.

Regra de fé, cânon das Escrituras, ministério e diferenças nas comunidades do Novo Testamento

7. Quem redatou os escritos que formam o Novo Testamento pertenciam a diversas comunidades cristãs. Estas mantinham uma constante comunicação entre si, e destas mesmas comunidades surgiram pensamentos e forças que desembocaram, já durante a época pos-apostólica, no estabelecimento explícito de três elementos fundamentais que configuram a Igreja: a regra de fé, o cânon das Escrituras e o ministério. A Igreja antiga, já no século II, reconhece a legitimidade destes três elementos baseando-se na apostolicidade dos mesmos: pertencem à herença recebida dos Apóstolos e conseguintemente à realidade originante e normativa da Igreja.

Apesar das diferenças recolhidas nos escritos do Novo Testamento, a Igreja antiga se viu refletida ela mesma tanto nas comunidades de Paulo como nas de Lucas ou Mateus; tanto nas comunidades de Jerusalém como nas joânicas. Portanto, nenhuma eclesiologia nem nenhuma renovação eclesial podem legitimar-se pelo Novo Testamento deixando a margem todos ou qualquer dos três elementos que configuram a Igreja: a regra de fé, o cânon e o ministério.

Quanto levamos dito não significa que não se tenham de reconhecer lealmente as diferenças que aparecem nos escritos do Novo Testamento. Também estas entram na Sagrada Escritura que é norma de fé da Igreja. Mas tais diferenças e ainda tensões entre os escritos do «cânon» se devem entender dentro da totalidade da fé. A Igreja, pois, atendo-se à norma de fé, deve ir resolvendo suas diversidades e tensões dentro da realidade total a que se refere sua fé.

Alguns elementos que configuram as comunidades do Novo Testamento

8. No Novo Testamento e na Igreja antiga se nos oferecem realidades suficientes que, desde o princípio, configuraram as diversas comunidades e que não podem faltar em nenhuma interpretação da Igreja, tanto em ordem à reflexão teológica como à prática pastoral. Assinalamos algumas destas realidades de uma forma puramente descritiva.

a) Palavra de Deus, fé, conversão, batismo. Eis aqui a base da entrada na Igreja de Deus em Jesus Cristo e o princípio do aprofundamento em sua pertença: a confissão de fé em Jesus como Senhor e como Deus. A conversão a Deus vivo e verdadeiro, revelado em Jesus Cristo, morto e ressuscitado e a salvação oferecida a todos os homens no Espírito é o conteúdo primeiro da vida eclesial. Necessitamos olhar mais ao poder do Senhor, e deixar de girar em torno de clericalismos de velho ou novo cunho.

A fé é obediência a Deus e, desde o princípio, foi expressada em fórmulas e confissões que já encontramos no Novo Testamento e são normativas para nós. A tarefa da Igreja é confessar a fé, levar o Evangelho até o fim da história e até o confim do mundo para que todo homem possa escutá-lo (Cfr. 1Tes 1, 9; Mt 28, 19-20; Rm 10, 14-17). A santidade e a glória de Deus, a dignidade de filhos e irmãos, as dimensões da missão devem primar nas relações intraeclesiais.

b) Eucaristia, reconciliação, solidariedade, oração. A Eucaristia, bênção a Deus que sacó de la morte a Jesus Cristo, sacrifício de sua Páscoa e banquete fraterno, está no coração da Igreja. Deve ser custodiada com fidelidade, frequentada com proveitosa participação e vivida em todas suas dimensões.

A Eucaristia requer a prévia reconciliação –por isso a conversão extra-sacramental e sacramental a precedem– e leva a um maior nível de perdão e de solidariedade. Da Eucaristia se deve alimentar a solidariedade afetiva e efetiva com todos os homens e especialmente com os mais próximos e necessitados. A «comunhão» no Corpo e no Sangue do Senhor, entregue por nós, faz possível e exige a «compartición» de gozos e esperanças, de lutas e dificuldades, de bens e de necessidades. A coleta, como aparece na primeira descrição da Eucaristia em São Justino, está estreitamente unida à celebração da Eucaristia no Dia do Senhor.

Não pode um cristão por em alternativa a fé em Deus e a justiça entre os homens, o culto divino e o trabalho da esperança; a bênção de Deus e o seguimento de Jesus pelos caminhos da história. Quem sabe temos caído em falsas opções que dissociaram o que Deus sempre havia unido. Necessitamos recuperar a unidade densa, rica e dinâmica da autêntica fé cristã e por em comum as diferentes preferências dos diversos grupos. O que procede do Espírito, em sua liberdade soberana, pode e deve ser vivido na unidade do mesmo Espírito e no vínculo da paz.

c) Carismas, tarefas, participação de todos, autoridade no Senhor. Desde o Novo Testamento estiveram presentes na Igreja. Ainda que não possuamos informação exaustiva das primeiras comunidades do Novo Testamento e ainda que tenha variações entre elas segundo os escritos do Novo Testamento, certamente não pode afirmar-se que tenha havido Igrejas só carismáticas ou Igrejas só institucionais, como se entre uma dimensão e outra existisse oposição. A constituição da Igreja unifica os elementos institucionais e carismáticos.

Nunca a comunidade cristã existiu sem responsáveis, presidentes, pastores, vigilantes, sem ministério, que também é uma realidade carismática. O encargo de apascentar, unificar na fé e no amor e de ativar na missão na Igreja, os Apóstolos o receberam do Senhor. Nos remetemos à doutrina católica que o último Concílio ensinou autorizadamente.

Encarecidamente pedimos no Senhor que conservemos a unidade do Espírito com humildade (Cfr. Fil 2, 1-5). Ministros autorizados desta unidade foram constituídos os Bispos, presididos pelo Bispo de Roma, e os presbíteros como seus colaboradores.

A apelação ao Concílio Vaticano II

9. Uma releitura similar à do Novo Testamento se faz também do último Concílio. Alguns justificam seu «modelo» de Igreja apelando ao Concílio Vaticano II. Se sustenta que, particularmente na Constituição Lumen Gentium, coexistem ao menos dois «modelos» contrapostos de Igreja: um, institucional, e outro, de comunhão, entendida freqüentemente à luz de modelos democráticos; um, jurídico, e outro, carismático; um, baseado na categoria eclesiológica de «Povo de Deus», e outro, pervivência do pré-concílio, na de «sociedade perfeita». Agora bem, a Constituição Lumen Gentium seria, segundo estes teólogos ou pastores, o resultado de um compromisso de duas tendências: uma, que olhava para o passado, a conservadora; e outra, projetada para o futuro, a progressista, a única que haveria tomado em sério a renovação da Igreja. Ao final se impôs pela maioria esta última. A partir disso, fazem uma leitura parcial e seletiva dessa Constituição e dos demais documentos do Vaticano II e «reconstroem» o modelo que, desde uma opção previamente estabelecida, querem aplicar à remodelação das comunidades cristãs.

Esta releitura do Concílio comete um sério erro metodológico. Esquece que os textos de um Concílio não podem ser interpretados isolando umas afirmações e contrapondo-as a outras. Temos de entendê-los como um todo, a partir do ato mesmo do pronunciamento conciliar que une esses textos pelos que a Igreja, mediante eles e num ato unitário de magistério, expressa sua inteligência da fé. Os textos conciliares não são um simples texto literário. Estão sustentados e animados por um único ato colegial do magistério que lhes dá sua referência à realidade da fé que tiveram ante seu olhar os Padres conciliares.

Os Bispos, no Sínodo Extraordinário de 1985, se apoiam, em último termo, neste princípio metodológico quando indicam os critérios imprescindíveis para uma reta interpretação do Concílio Vaticano II. Uma leitura do Concílio «deve ter em conta todos os documentos em si mesmos e sua conexão entre si, para que, deste modo, seja possível expor cuidadosamente o sentido íntegro de todas as afirmações do Concílio, as quais freqüentemente estão implicadas entre si… Não se pode separar a índole pastoral da vigência doutrinal dos documentos, como tampouco é legítimo separar o espírito e a letra do Concílio. Finalmente, é preciso entender o Concílio em continuidade com a grande tradição da Igreja; à vez devemos receber do mesmo Concílio luz para a Igreja atual e para os homens de nosso tempo. A Igreja é a mesma em todos os Concílios» (RF 1, 5)4.

É preciso reconhecer que não poucos isolam também alguns elementos dos ensinamentos conciliares sobre a Igreja e rechaçam outros e se constroem um «modelo» conservador de Igreja que eles pretendem ser conforme com a Tradição. Na realidade, se lhes pode reprovar a estes a mesma parcialidade na interpretação do Concílio que opomos aos teólogos e pastores anteriormente aludidos.

«Modelos operativos»

10. Até agora falamos sobretudo da aplicação do termo «modelo» à inteligência da Igreja. Mas este termo se costuma empregar muito mais freqüentemente ao designar os projetos operativos que dirigem a ação pastoral. Não é estranho o uso deste termo em relação à ação pastoral, pois o conceito de «modelo» em nosso contexto cultural conota muitas vezes a pretensão de ordenar a realidade desde interesses teóricos e práticos.

Faz alguns anos, se procura programar a ação pastoral de forma metódica e ordenada. Esta ordenação vai dirigida sempre, explícita ou implícitamente, por um «modelo operativo». Esta prática da programação pastoral merece todo louvor e apoio por nossa parte pois não vemos como pode levar-se adiante uma ação pastoral lúcida e eficaz nas novas situações em que se encontra a Igreja sem que a sustente e dirija uma adequada programação. Mas não esqueçamos que toda ação pastoral e todo modelo de ação pastoral descansam em supostos teológicos e se alimentam deles. Este assunto mereceria uma longa reflexão mas não podemos deter-nos aqui nela. Unicamente queremos advertir que a ação pastoral opera sobre realidades já constituídas, que pertencem ao ser mesmo da Igreja e tem sua origem na vontade de Cristo e na ação do Espírito Santo e, portanto, toda ação pastoral deve custodiá-las fielmente. A programação e a ação pastoral não poderão lográ-lo se não recolhem a tradição viva da Igreja, seu magistério e a normativa atualmente vigente.

Alguns dados na prática pastoral

11. Quanto vamos dizendo não são especulações sem base alguma nos fatos. Particularmente nos anos passados, não faltaram pastores que dirigiram suas comunidades conforme a pretendidos «modelos de Igreja» excluentes.

Se contrapuseram, com efeito, como irreconciliáveis na prática, um «modelo» evangelizador frente a outro ritualista; um «modelo» meramente democrático ou assembleário frente a outro autocrático; um «modelo» carismático frente a outro juridicista; uma Igreja do culto e da oração e uma Igreja da justiça; um «modelo» progressista, enfim, frente a um «modelo» conservador. Não se pode passar por alto, ademais, que alguns, sem afirmar expressamente sua opção por um «modelo» concreto de Igreja ou de ação pastoral, manifestam com seus fatos a opção implícita por um «modelo» determinado e fechado sobre si mesmo. Este é o caso, por exemplo, de quem reduz de fato a ação pastoral a uma práxis ritualista.

O só enunciado da contraposição destes «modelos» de ação pastoral manifesta já sua parcialidade e, conseguintemente, que são incompatíveis com qualquer programa e ação no interior da Igreja. Como dissemos mais acima, na Igreja há espaço para a originalidade e a criatividade de seu pensamento e de sua vida. O Espírito Santo conduz a Igreja à plenitude da verdade tirando a luz as riquezas sempre novas da comunicação de Deus ao homem em Cristo. Mas o Espírito Santo que abre o futuro para o absolutamente novo e é fonte de liberdade obra na Igreja e no mundo vinculado a Cristo, o Senhor. Portanto, a variedade e pluralidade deve ser vivida e exercida na Igreja no interior de uma unidade compartilhada, sustentada numas realidades fundamentais e idênticas, nuns elementos que em todo tempo e lugar formam a Igreja.

CONCLUSÃO

12. Com este escrito queremos ajudar a discernir a legitimidade ou a não legitimidade do termo «modelo» para entender a Igreja e para orientar a prática pastoral. Ao serviço deste discernimento oferecemos algumas indicações. Desejaríamos que o pensamento teológico e a prática pastoral fossem mais cautos no emprego deste termo.

Mas o que constitui nossa maior preocupação como pastores, mais além da exatidão dos termos da linguagem teológica, é a falta de comunicação, hoje muito freqüente, dos diversos grupos entre si e com seus pastores. A comunhão de todos os grupos e instituições na Igreja exige a constante comunicação de todos na Igreja universal e, ao mesmo tempo, na Igreja particular5. Esta comunicação deverá ser efetiva, concreta e, conseguintemente, deverá passar pela comunicação de todos os grupos e instituições dentro da Igreja particular. Este é o espaço onde se produz a comunicação mais direta dos membros e grupos que integram a Igreja.

Nenhum grupo deve ficar dispensado de integrar-se em sua Igreja particular correspondente, «capaz de acolher dentro de si todas as riquezas que o Espírito suscita em seus membros. Todos devem sentir-se parte integrante desta comunidade eclesial e todos devem encontrar dentro dela e de suas instituições o mesmo reconhecimento, a mesma dignidade e a mesma atenção. Ela deverá ser também lugar de encontro, comunicação e fraternidade entre os cristãos de diferentes tendências, origens e grupos sociais» (TDV, 43). Tanto dentro da Igreja particular como da Igreja universal, os indivíduos, os grupos e as instituições deverão viver a comunhão no Espírito Santo dentro da pluriforme variedade humana para ser deveras sacramento da íntima união com Deus e da unidade do gênero humano (Cfr. LG, 1) e para ser testemunhas e portadores da Boa Nova de salvação e esperança para os homens (Cfr. TDV, 43).

Madrid, 18 de outubro de 1988

O Coração de Jesus e a Eucaristia

“Quem poderá descrever dignamente as pulsações do Coração divino do Salvador, indícios de seu amor infinito, naqueles momentos em que oferecia à humanidade seus dons mais preciosos, a si mesmo no sacramento da eucaristia, sua Mãe santíssima e o sacerdócio? Ainda antes de celebrar a última ceia com seus discípulos, ao pensar que iria instituir o sacramento de seu corpo e de seu sangue, cuja efusão iria confirmar a nova aliança, o Coração de Jesus manifestara intensa comoção, revelada por ele aos apóstolos com estas palavras: “Desejei ardentemente comer esta páscoa antes de sofrer” (Lc 22,15). Mas sua emoção atingiria o ápice quando tomou o pão, rendeu graças, partiu-o e ofereceu-lhes, dizendo: “Este é o meu corpo, dado por vós. Fazei isto em minha memória. Do mesmo modo, depois da ceia, deu o cálice dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que por vós será derramado” (Lc 22,19-20)” (Pio XII, Encíclica Haurietis Aquas, 33-34).

Essas observações do Papa Pio XII, na encíclica que se tornou ponto de referência quando se estuda a espiritualidade do Coração de Jesus, motiva-nos a apresentar a fundamentação bíblica dessa devoção (O coração na Bíblia e O Coração Traspassado) e a analisar o dom mais precioso do Coração de Jesus – aquele que nasceu de um desejo ardente e num momento especialíssimo de sua vida e missão: a Eucaristia (“Desejei ardentemente”, Memorial da morte e ressurreição e O que mais poderia Jesus ter feito por nós?).

O coração na Bíblia
Na introdução de um livro que escreveu sobre o Coração de Jesus, o teólogo alemão Karl Rahner (1904-1984) afirmou que “no futuro do mundo e da Igreja, o homem e a mulher serão místicos, isto é, pessoas com profunda experiência religiosa, ou não serão mais cristãos”. Os místicos, segundo ele, serão capazes de compreender de maneira nova e radical o sentido da expressão Coração de Jesus. Coração de Jesus, Sagrado Coração de Jesus: terá ainda sentido essa devoção? Não será uma forma ultrapassada de expressão religiosa, própria de outras épocas e culturas? Afinal, ao longo dos séculos, homens e mulheres relacionaram-se com Deus utilizando-se de palavras, expressões e gestos tirados de seu mundo, de seu tempo e de sua realidade. Por isso mesmo, muitas devoções e manifestações religiosas, largamente difundidas em determinadas épocas ou lugares, aos poucos caíram em desuso. Todos admitem que tiveram seu valor mas, hoje, ninguém mais lhes dá importância.
Não teria acontecido o mesmo com a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, tão difundida nos séculos dezoito e dezenove? A história da Igreja nos ensina que as expressões de fé que têm base bíblica conseguem ultrapassar culturas, épocas e costumes e permanecem sempre. Ora, a base da espiritualidade do Coração de Jesus está na Bíblia. Nela encontramos, somente no Antigo Testamento, 853 vezes a palavra “coração” – por exemplo, na promessa: “Eu vos darei um coração novo e porei em vós um espírito novo. Removerei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36,26). No Novo Testamento, essa palavra aparece 159 vezes. Na maioria delas, mais do que se referir ao órgão físico, sintetiza a interioridade da pessoa, sua intimidade e o mais profundo do seu ser. É o que percebemos no convite de Jesus: “Vinde a mim vós todos que estais cansados sob o peso de vosso fardo e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,28-29). Quem penetra nesse Coração manso e humilde passa a compreender a razão de sua predileção pelos pecadores, pobres e aflitos; partilha de seu ardente amor pelo Pai; descobre as dimensões de seu amor e sente-se motivado a se jogar com confiança nele. É o caso do apóstolo S. Paulo, que fez tão profunda experiência da intimidade de Cristo que passou a insistir: “Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados na caridade, a fim de que possais, com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo o conhecimento, e sejais cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3,17-19).
Um biblista belga, Ignace de la Potterie[1], escrevendo sobre a intimidade de Cristo, isto é, sobre seu “coração”, insiste que Jesus tinha consciência de ser ele mesmo “o Reino de Deus”. Converter-se e crer no Evangelho quer dizer converter-se a Jesus, penetrar na intimidade de seu Coração e viver dele e por ele. É isso que entendemos, por exemplo, com a invocação: “Coração de Jesus, rei e centro de todos os corações”. Entramos em seu reino, isto é, penetramos em sua interioridade, quando começamos a reconhecê-lo como Rei e Senhor, quando aceitamos que seja ele a reinar em nossos corações. Damos outro passo no conhecimento de sua intimidade quando descobrimos as razões e os modos de sua obediência ao Pai. Jesus foi obediente não só para nos deixar um exemplo, mas porque tinha clara consciência de ser, acima de tudo, Filho. Tendo uma profunda intimidade com o Pai e, sabendo-se infinitamente amado por ele, como não lhe obedecer? A obediência era-lhe, pois, natural, e até mais do que isso: uma agradável obrigação de todo o seu ser. Obedecendo, vivia, mais do que em qualquer outra circunstância, a condição de Filho. Deus é seu “Abbá”, seu Pai querido.

O Coração Traspassado
Também o apóstolo e evangelista João refere-se à intimidade de Cristo, ao seu “coração”, mas de outra maneira. Presente no Calvário quando Jesus consumava sua obra, o evangelista relata com pormenores o que testemunhou: “Era o dia de preparação do sábado, e esse seria solene. Para que os corpos não ficassem na cruz no sábado, os judeus pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas dos crucificados e os tirasse da cruz. Os soldados foram e quebraram as pernas, primeiro a um dos crucificados com ele e depois ao outro. Chegando a Jesus viram que já estava morto. Por isso, não lhe quebraram as pernas, mas um soldado golpeou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água. (Aquele que viu dá testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro; ele sabe que fala a verdade, para que vós, também, acrediteis.) Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura que diz: “Não quebrarão nenhum dos seus ossos”. E um outro texto da Escritura diz: “Olharão para aquele que traspassaram” (Jo 19,31-37). “Olharão para aquele que traspassaram”.
S. João vê no Coração traspassado de Jesus um sinal escolhido por Deus para testemunhar seu amor. Vê nesse sinal o maior prodígio da História da Salvação; a maior epifania do amor de Deus; o ponto mais alto e a síntese de todo o mistério pascal. Não vê esse fato como casual, mas como um acontecimento projetado por Deus e até anunciado no Antigo Testamento (Ex 12,46; Zc 12,10). O sangue que sai do lado de Cristo é sinal de libertação (Ex 12,7,13); por ele concretiza-se a nova aliança (Ex 24,8): “Este é o meu sangue da nova aliança, que é derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados” (Mt 26,28). Assim, no Coração aberto de seu Filho, Deus marca um encontro conosco, mostra-nos sua misericórdia e nos dá seu abraço de Pai. A água que sai do lado de Cristo é a “água viva”, prometida por Jesus à Samaritana (cf. Jo 4,10-14): quem dela beber, “nunca mais terá sede”. É, também, a água prometida a todos “no último e mais importante dia da festa” das Tendas[2]: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba quem crê em mim” – conforme diz a Escritura: “Do seu interior correrão rios de água viva” (Jo 7,37-38). Ao evangelista João não interessa somente o que sai – sangue e água –, mas de onde sai: do lado aberto do Coração de Cristo, de seu Coração traspassado. Sagrado Coração de Jesus, portanto, é um outro nome que a Igreja dá ao Traspassado na Cruz. Desde os primeiros tempos de sua história, a Igreja elevou seu olhar para o Coração de Cristo, ferido pela lança do soldado na Cruz. Olhando para aquele que foi traspassado, queria penetrar na intimidade de seu Senhor. Desse olhar nasceu uma descoberta, que o Concílio Vaticano II (1962-1965) assim resumiria: ele nos “amou com um coração humano” (GS, 22).

“Desejei ardentemente”
O Papa Pio XII destacou que, ao instituir a Eucaristia, seu dom mais precioso, o Coração de Jesus deixou que seus sentimentos se manifestassem abertamente: “Desejei ardentemente comer esta páscoa antes de sofrer” (Lc 22,15). A instituição da Eucaristia aconteceu, pois, por premeditação de Jesus e não por mera iniciativa dos apóstolos. Diante da proximidade da festa da Páscoa, eles perguntaram ao Mestre: “Onde queres que preparemos a ceia pascal?” (Mt 26,17). Os apóstolos eram judeus e deviam participar anualmente dessa celebração. Tinham aprendido a fazer memória[3] da ação libertadora operada pelo Senhor, no Egito. Em resposta à pergunta, Jesus lhes deu as devidas orientações (“Ide à cidade, procurai certo homem e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: o meu tempo está próximo, vou celebrar a ceia pascal em tua casa, junto com meus discípulos’” – Mt 26,18) e eles procuraram executá-las (“Os discípulos fizeram como Jesus mandou e prepararam a ceia pascal” – Mt 26,19).
Ao anoitecer daquela quinta-feira – ou, para usar uma expressão do evangelista Lucas: “quando chegou a hora” (Lc 22,14) –, reunido com os apóstolos, Jesus lhes abriu seu coração. Em nenhuma outra oportunidade havia expressado tão claramente seus sentimentos; em nenhum outro momento falara tão abertamente do que ia no mais profundo de seu ser: “Desejei ardentemente comer esta páscoa antes de sofrer” (Lc 22,15). Depois de antecipar que não mais comeria a páscoa com eles, “até que ela se realize no Reino de Deus” (Lc 22,16), fez uma série de gestos que os apóstolos só entenderiam mais tarde, em Pentecostes: “Tomou o pão, deu graças, partiu-o e lhes deu, dizendo: ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim’. Depois da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós’” (Lc 22,17-20). “Desejei ardentemente…” Jesus deixou claro que aquele momento e aquele acontecimento não estavam sendo improvisados. Foram preparados e desejados por ele. Se para ele era um momento importante, emocionante até, o que foi para os apóstolos? Pouco ou nada entenderam do que Jesus fez e falou. É o que se conclui pelo que aconteceu em seguida: “Ora, houve uma discussão entre eles sobre qual deles devia ser considerado o maior” (Lc 22,24). Certamente, Jesus não se surpreendeu com tal discussão: havia antecipado que só com a vinda do Espírito Santo eles entenderiam suas palavras e obras. Realmente, “quando chegou o dia de Pentecostes” (At 2,1), os apóstolos compreenderam a extensão do “Desejei ardentemente…” e da ordem: “Fazei isso em memória de mim!” (Lc 22,19) – ordem que os primeiros cristãos levaram muito a sério, a ponto de serem “assíduos… à fração do pão” (At 2,42).

Memorial da morte e ressurreição
“Quando a igreja celebra a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, esse acontecimento central da salvação torna-se realmente presente e com ele se realiza também a obra de nossa redenção. Esse sacrifício é tão decisivo para a salvação do gênero humano que Jesus Cristo realizou-o e só voltou ao Pai depois de nos ter deixado o meio para dele participarmos, como se a ele tivéssemos estado presentes. Assim, cada fiel pode tomar parte na obra da redenção, alimentando-se de seus frutos inexauríveis.” (EE, 11). Essa verdade de fé, esse mistério – “mistério grande, mistério de misericórdia” –, fez nascer uma pergunta no coração de João Paulo II: “O que mais poderia Jesus ter feito por nós?” O próprio Papa, maravilhado com a grandeza desse mistério, exclamou: “Verdadeiramente, na Eucaristia demonstra-nos um amor levado até o fim (cf. Jo 13,1), um amor sem medida” (id.).
Estamos convictos de que:
(1º) o memorial da morte e ressurreição do Senhor encontra-se à nossa disposição e podemos participar da obra de nossa redenção “como se tivéssemos estado presentes”;
(2º) de diversas maneiras Jesus cumpre, na Igreja, a promessa que fez: “Eu estarei sempre convosco, até o fim do mundo” (Mt 28,20), sendo que, na Eucaristia, essa presença é especial (cf. EE 1);
(3º) a Igreja vive da Eucaristia; nutre-se desse pão vivo (cf. EE 7);
(4º) a Eucaristia é o que a Igreja tem de mais precioso para oferecer ao mundo (cf. EE 9). Diante dessas certezas, só nos resta perguntar: que impacto tem a Eucaristia em nosso dia-a dia? A participação nesse “mistério da fé” é, realmente, o momento mais importante de nossa vida? “Desejei ardentemente comer esta Páscoa antes de sofrer”. Somos convidados a ver a Eucaristia a partir da perspectiva do Coração de Jesus. Reunido com os apóstolos, na noite daquela memorável quinta-feira, ele procurou dizer-lhes que não nos estava deixando apenas uma série de ensinamentos e de lembranças. Era sua própria pessoa que nos oferecia em testamento. Concretizava, dessa maneira, a nova aliança com o Pai. Ele se oferecia pela salvação do mundo. Na Eucaristia aplica, aos homens e às mulheres de hoje, a reconciliação obtida, de uma vez para sempre, para a humanidade de todos os tempos (cf. EE 12), já que torna presente o sacrifício da Cruz. Não é mais um sacrifício, nem se multiplica. O que se repete é a celebração memorial (cf. EE 12). Participando da Eucaristia, aprendemos com Jesus a “lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14), num serviço fraterno que se expressará sob mil formas e em inúmeras circunstâncias, numa extensão da Eucaristia.

O que mais poderia Jesus ter feito por nós?
Depois da consagração, o Presidente da celebração eucarística aclama: Eis o mistério da fé! Realmente, a Eucaristia não é um dos tantos mistérios, mas é “o” mistério da fé. É fonte da vida da Igreja, pois dela é que nasce a graça; é, também, seu ponto mais alto, pois é para a Eucaristia que tende sua ação, suas orações e seus trabalhos pastorais. Por ela se obtém a santificação dos homens e a glorificação de Deus. Como deve ocupar o lugar central na vida cristã, toda a atividade cristã deve ser organizada em vista da Eucaristia. À aclamação do Presidente da celebração, o povo responde: Anunciamos, Senhor, a vossa morte; proclamamos a vossa ressurreição; vinde, Senhor Jesus! Anunciar a morte do Senhor até que ele venha inclui transformar a vida, que se deve tornar eucarística (cf. EE 20). Somos chamados a unir-nos a Cristo, sacerdote e vítima, associando-nos à oferta que faz de si mesmo pela salvação da humanidade. É com Cristo Eucarístico que aprendemos a viver a identidade entre ministro e vítima. Também nós devemos desejar ardentemente celebrar a Páscoa, pois em nenhum momento somos tão fortes, tão úteis e eficazes como nesse, em que nos oferecemos a Cristo; com Cristo nos oferecemos ao Pai; e oferecemos ao Pai, “por Cristo, com Cristo, em Cristo”, toda a humanidade. Cada vez que formos para o altar deveremos levar a realidade que nos envolve – realidade feita de esperanças e alegrias, mas também de sofrimentos e insucessos. Damos, assim, nossa contribuição pessoal ao sacrifício redentor de Cristo. Com ele, aprendemos a ser pão partido e repartido para vida do mundo – isto é, descobrimos que não se pode comer o corpo do Senhor e beber seu sangue, e permanecer insensível diante da situação dos irmãos.
A Eucaristia é também comunhão: não só cada um de nós recebe Cristo, mas Cristo recebe cada um de nós (cf. EE 22). Unindo-nos a ele, que possui a vida divina em plenitude, participamos de sua vida divina: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, possui a vida eterna” (Jo 6,54). Quem recebe a Eucaristia, recebe, pois, o germe da ressurreição: “Quem come deste pão viverá eternamente” (Jo 6,58). Celebrar a Eucaristia é esperar a vinda gloriosa de Jesus Cristo; é unir-se à liturgia celeste, associando-se àquela multidão imensa que grita: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro” (Ap 7,10). “A Eucaristia é verdadeiramente um pedaço de céu que se abre sobre a terra; é um raio de glória da Jerusalém celeste, que atravessa as nuvens da nossa história e vem iluminar nosso caminho” (EE, 19). “Desejei ardentemente comer esta páscoa antes de sofrer” .
Precisamos alimentar em nosso coração os mesmos sentimentos de Cristo Jesus (cf. Fl 2,5). Quando nossos sentimentos forem os dele, não só poderemos dizer: “Eu vivo, mas não sou eu quem vive; é Cristo que vive em mim!” (Gl 2,20), como também concluiremos que “o divino Redentor foi crucificado mais pela força do amor do que pela violência de seus algozes; e seu voluntário holocausto é o dom supremo que seu Coração fez a cada um dos homens” (HA, 37). Ou, como o apóstolo São Paulo, proclamaremos com convicção: “O Filho de Deus me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). O que mais poderia o Coração de Jesus ter feito por nós?…

[1] DE LA POTTERIE, I. Il mistero del Cuore trafitt -. Fondamenti biblici della spiritualità del Cuore di Gesù. Bolonha – Itália, Dehoniane, 1988.
[2] Festa das Tendas (ou: do Tabernáculo; ou: da Dedicação): Festa do fim da colheita, especialmente da uva, no início do outono da Palestina (set/out), a mais festiva das festas de romaria (Páscoa, Pentecostes e Tendas). Originalmente pernoitava-se nas cabanas de folhagens nos vinhedos, mais tarde, interpretadas como lembrança das tendas no deserto, quando do êxodo do Egito. Tanto o templo de Salomão como o de Zorobabel (2º templo) foram inaugurados nesta festa, motivo pelo qual ela é também chamada de Festa da Dedicação do Templo. Foi em uma delas que Esdras fez a grande leitura da Lei (fundação do judaísmo: Ne 8-9). (Cf. Bíblia Sagrada, tradução da CNBB, Glossário).
[3] Memória: o fato recordado é o evento salvífico de Deus, que se renova na história, atualizando-se. Nesse sentido, a eucaristia não é só recordação, mas o sacrifício de Cristo em ação, no hoje da Igreja, a tensão para a realidade gloriosa de Cristo ressuscitado. (Dicionário Enciclopédico das Religiões, Vozes).  

São Luís Gonzaga – 21 de Junho

“O Deus que me chama é Amor”
Irmã Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

No meio dos prazeres e honras da corte, o jovem Luís permaneceu ancorado no desejo de se fazer religioso

Altíssimo foi o grau de santidade por ele alcançado pela via da inocência. Nada de terreno o atraía, vivia em contemplação e todas as suas ações estavam em conformidade plena com os desígnios divinos. – Então, o que faremos, Irmão Luís? – perguntou o Padre Provincial, ao entrar no quarto do enfermo. – Estamos a caminho, Padre. – Para onde? – Para o Céu… Se não impedirem meus pecados, espero, pela misericórdia de Deus, ir para lá. Esta era a disposição de alma do jovem noviço da Companhia de Jesus, que interrompera seus estudos de Teologia por força de uma grave doença e há três meses jazia prostrado no leito. Oito dias antes, predissera que estes seriam para ele os últimos.

“Morrerei esta noite”
Já pela manhã, pediu o Viático, o qual só lhe foi trazido à tarde, por julgarem-no ainda com saúde. Passou o dia em atos de fé, petição e adoração. Os padres jesuítas não se consolavam por perder o santo irmão, e tentavam persuadi-lo de que sua hora ainda não chegara. Ele, inflexível, respondia: – Morrerei esta noite. Morrerei esta noite. Padres e noviços de todas as casas, tendo sabido da predição de sua morte, acorreram para despedir-se dele, encomendar-se às suas orações e pedir seus últimos conselhos. A doença minara-lhe a saúde do corpo, mas a alma a cada momento crescia em santidade. Assim, atendia a todos com afeto, prometendo lembrar-se deles no Céu. Tendo anoitecido e vendo o Padre Reitor que Luís ainda falava com facilidade, concluiu que não morreria nessa noite e deu ordem aos irmãos para se recolherem a dormir. Ficaram no quarto apenas dois sacerdotes para auxiliar o enfermo, além do seu confessor, São Roberto Belarmino. Luís não escondia sua profunda alegria. Ir para o Céu, unir-se definitivamente com Deus: era o que mais almejara durante sua curta vida! Passado algum tempo, disse ao confessor: – Padre, podeis fazer a encomendação. O sacerdote logo a fez, com muita compenetração e devoção. Recolhido, calmo e confiante, Luís aguardava o momento supremo, o qual não tardou: por volta das vinte horas, com os olhos fixos no crucifixo que segurava em suas mãos, entrou serenamente nas terríveis dores da agonia. Nenhum gemido lhe saiu dos lábios, seu olhar não se desviou um instante sequer d’Aquele que tanto sofrera por nós na Cruz. Pronunciando o Santíssimo Nome de Jesus, entregou sua alma a Deus na mais inteira paz.

O perfeito pensa constantemente em Deus
Luís Gonzaga era dessas almas diletas, sobre as quais Deus derrama graças e dons em superabundância para mantê-las na inocência. Altíssimo foi o grau de santidade alcançado por ele nessa via. Nada de terreno o atraía, vivia em contemplação e todas as suas ações estavam em conformidade plena com os desígnios divinos. Eis como o famoso dominicano Padre Garrigou-Lagrange descreve uma alma nesse estado de perfeição: “Depois da purificação passiva do espírito, os perfeitos conhecem a Deus de uma maneira quase experimental, não mais passageira, porém quase contínua. Não somente durante as horas da Missa, do Ofício Divino ou demais orações, mas também no meio das ocupações exteriores, sua alma permanece voltada para Deus. Por assim dizer, eles não perdem sua presença e guardam a união atual com Ele. ” Compreenderemos com facilidade a questão se a analisarmos em contraposição ao estado de alma do egoísta. Este pensa sempre em si mesmo e, naturalmente, refere tudo a si; entretém-se sem cessar consigo mesmo sobre suas veleidades, suas tristezas, ou suas superficiais alegrias; sua conversa íntima, por assim dizer, é incessante, mas vã, estéril e esterilizante para todos. O perfeito, ao contrário, em lugar de pensar em si, pensa constantemente em Deus, em Sua glória, na salvação das almas e, para isso, faz tudo convergir para este objetivo, como por instinto. Sua conversa íntima não é consigo mesmo, mas com Deus”.1 Vejamos alguns episódios da existência terrena, breve, mas pervadida de santidade, de São Luís Gonzaga, que refletem bem sua inocente alma.

Retidão desde a infância
Nasceu em 9 de março de 1568, no castelo de Castiglione, Itália. Foi o primeiro filho de Dom Fernando Gonzaga, Marquês de Castiglione e Príncipe do Sacro Império, e de Dona Marta Tana, dama da Rainha Isabel de Valois. Muito agradava à marquesa ver quão bem seu filho assimilava, desde pequeno, suas maternais instruções de piedade. Seu pai, porém, se inquietava, pois temia que a devoção o desviasse da carreira das armas, à qual se destinavam os primogênitos. Quando Luís tinha cinco anos de idade, o marquês recebeu ordem de partir para Túnis à frente de três mil homens da infantaria italiana e, devendo passar em revista as tropas na cidade de Casalmaior, levou-o consigo, para acostumá-lo ao sabor das armas. Passou o menino lá alguns meses e, na convivência com a soldadesca, aprendeu algumas palavras indecorosas, as quais passou a repetir, sem saber seu significado. De volta a Castiglione, foi repreendido por seu preceptor, e não apenas nunca mais proferiu tais palavras, mas manifestava grande enfado quando ouvia alguém pronunciá-las. Muito se envergonhou por essa falta e, quando já religioso, costumava contá-la para “provar” como fora mau desde criança.

Devoção a Maria e virtudes exemplares
Quando Luís fez nove anos de idade, Dom Fernando o levou, juntamente com seu irmão Rodolfo, para a corte do Grão-duque da Toscana. A Providência Divina utilizou esses dois anos em que ele viveu em Florença para fazê-lo progredir nos caminhos da santidade. A leitura de um livro sobre os mistérios do Rosário fez desabrochar em sua alma a devoção a Maria Santíssima. Contribuiu também para tal a fervorosa devoção a Nossa Senhora da Anunciata, venerada nessa cidade. Tanto se lhe inflamou o coração pela Virgem que quis oferecer a Ela seu voto de virgindade. As diversas virtudes já eram robustas em sua alma. Adquirira uma completa guarda dos sentidos, uma obediência total aos superiores, além de um profundo recolhimento de alma e elevação de espírito. Deus rapidamente construía a bela catedral da alma de Luís, o qual, com a simplicidade de uma criança, deixava-se conduzir pelo Pai celestial. Tendo passado para a corte de Mântua, não só conservou os hábitos de oração, mas sublimou-os pelas práticas de mortificação. Obrigado pelos médicos a seguir uma dieta alimentar, para curar-se de uma enfermidade, tomou tal gosto pela penitência que, ultrapassando as receitas indicadas, entregou-se aos mais rigorosos jejuns. Considerava ter feito uma lauta refeição quando comia um ovo inteiro!

Intensa vida sobrenatural
De volta ao solar paterno, foi cumulado de graças místicas extraordinárias. Quando se punha a considerar os atributos divinos, experimentava uma tão grande consolação que derramava lágrimas suficientes para empapar vários lenços. Algumas vezes ficava tão arrebatado que perdia completamente os sentidos exteriores. Sua mente estava toda posta no sobrenatural, e sobre as coisas de Deus versavam todas as suas palavras. Em 1580, chegou a Castiglione o Cardeal Carlos Borromeu, Visitador Apostólico do Papa Gregório XIII. Muito se admirou o Cardeal por ver como aquele pequeno “anjo” discorria sobre os temas da Religião. No final de duas horas de conversa com ele, decidiu o Cardeal dar-lhe por primeira vez a Sagrada Eucaristia. O Cardeal Carlos Borromeu admirou-se de ver como o pequeno Luís discorria sobre os temas da Religião e decidiu dar-lhe por primeira vez a Sagrada Eucaristia. Aos treze anos de idade sentiu o chamado religioso. Por ser ainda muito jovem, nada comunicou a seus pais, mas redobrou suas austeridades. Aboliu o uso da lareira em seu quarto; levantava-se de madrugada e, de joelhos, rezava durante longo tempo, mesmo durante os rigores do inverno lombardo. Cada vez mais inquieto à vista dos progressos do filho na trilha da piedade, o Marquês de Castiglione decidiu, para distraí-lo, dirigir-se com toda a família para Madri e colocá-lo como pajem do filho do rei Felipe II. Luís, entretanto, com a alma ancorada em Deus, permaneceu firme e resoluto em seus propósitos, no meio dos prazeres e honras da corte.

Conquista da permissão paterna
“Para qual ordem religiosa sou chamado?” – perguntava-se o jovem pajem. Optou pela Companhia de Jesus. Além da nobre função do ensino à qual esta se dedicava, motivou essa escolha o fato de os jesuítas serem proibidos, pela regra, de ascender a qualquer cargo, salvo se por ordem direta do Papa. Assim, renunciaria para sempre não só às honras do mundo, mas também às eclesiásticas. Gritos de cólera e ameaças de açoites foi a resposta do marquês ao pedido de seu filho para entregar-se a Deus, na Ordem fundada por Santo Inácio. Usou de sua influência para conseguir que algumas altas dignidades eclesiásticas tentassem dissuadi-lo de sua vocação, ou ao menos fazê-lo entrar por um caminho que conduzisse às possíveis honras do cardinalato. Não tiveram sucesso maior que o das ondas furiosas do mar sobre a rocha. Pediu-lhe o pai, então, que esperasse a volta à Itália para decidir. Não podia se conformar em perder aquele filho tão dotado, no qual pusera toda a esperança da principesca casa dos Gonzaga. Começou, então, um período de dois árduos anos de luta para conquistar a permissão paterna de abandonar tudo e seguir a Cristo. Foi a mais dura – e talvez a mais gloriosa – fase de sua vida. Essa luta encerrou-se com um episódio comovedor: certo dia o marquês, olhando pelo buraco da fechadura do quarto de seu filho, viu-o ajoelhado e se flagelando. Só então dobrou-se e lhe deu a tão almejada autorização.

A alegria de entrar na casa do Senhor
“Que alegria quando me vieram dizer: vamos subir à casa do Senhor!” (Sl 121, 1). Chancelada pelo imperador a renúncia pública a seus direitos de filho primogênito, entrou Luís no noviciado da Companhia de Jesus, em Roma. Em todos os lugares por onde passou, o nobre religioso deixou atrás de si o suave aroma de suas virtudes. Despojou-se de tudo quanto podia lembrar sua antiga condição, buscando para si as humilhações e o último lugar. Chegava a enrubescer de vergonha ao ouvir elogios à nobreza de sua família. Os noviços disputavam lugar a seu lado nas horas de recreação, pelo prazer de participar de suas elevadas conversas. E consideravam seus objetos pessoais como verdadeiras relíquias. No estudo de Filosofia e Teologia, mostrou-se tão sábio que defendeu, com aplausos, uma tese diante de três Cardeais e outras autoridades. Vendo seus superiores o valor da joia que tinham em mãos e, ao mesmo tempo, a fragilidade de sua saúde, multiplicaram os desvelos por ele. Recorreram em vão a uma mudança de ares, na esperança de que lhe faria bem. À vista do insucesso dessa terapêutica, o Padre Reitor deu-lhe ordem de, por um determinado período, não se deter em pensamentos elevados, pois talvez estes o estivessem prejudicando… Permitiu a Providência esse equívoco para fazer brilhar mais ainda as qualidades de alma daquele “anjo”. Dessa vez a obediência, por ele tão amada, custou-lhe grandes esforços: sair de seu constante estado de oração – confessou a um de seus companheiros – era um enorme tormento, pois, mal se distraía, seu pensamento voava para a consideração dos mistérios divinos. “No entardecer da nossa vida, seremos julgados segundo o amor”. É para esse  amor, em uma entrega total, que Deus nos chama desde a juventude.

Vítima da caridade
Em 1591, sua caridade para com o próximo encontrou uma ótima ocasião para expandir-se até o heroísmo: atender as pobres vítimas da peste que assolava a Cidade Eterna. Não tardou, porém, em ser ele próprio contagiado. Mas Deus, que decidira colher tão cedo este viçoso lírio, não quis levá-lo antes de ele espargir seus últimos perfumes. Três meses de uma febre ardente, aceita com total abnegação, encerraram os 23 anos de sua permanência na Terra. Seu confessor, São Roberto Belarmino, afirmou que São Luís tinha levado uma vida perfeita e fora confirmado em graça.2 Mais tarde, declararia Santa Madalena de Pazzi, a propósito de uma visão que tivera da glória imensa da qual gozava no Céu este filho de Santo Inácio de Loyola: “Enquanto viveu, Luís manteve seu olhar sempre atento em direção ao Verbo, e é por isso que ele é tão grande. […] Oh! Quanto ele amou na terra! É por isso que hoje no Céu possui Deus numa soberana plenitude de amor”.3 Luís Gonzaga foi beatificado por Paulo V, em 1605, e canonizado a 13 de dezembro de 1726, por Bento XIII, quem o declarou padroeiro da juventude.

Modelo de santidade no amor
“No entardecer de nossa vida, seremos julgados segundo o amor”.4 É para esse amor, em uma entrega total, que Deus nos chama desde a juventude, tal qual o fez ao moço rico do Evangelho: “Vem e segue-Me!” (Mt 19, 21). Que a juventude atual – tão carente de modelos a seguir e tão confundida acerca do amor – não tome a atitude do moço rico, entristecendo-se por ter de desapegar-se das coisas do mundo, mas reencontre o exemplo de seu patrono, São Luís Gonzaga. A isso a incentivou o saudoso Papa João Paulo II, dirigindo-se aos jovens de Mântua: “São Luís é sem dúvida um santo a ser redescoberto em sua alta estatura cristã. É um modelo indicado também à juventude de nosso tempo, um mestre de perfeição e um experimentado guia no caminho da santidade. ‘O Deus que me chama é Amor, como posso circunscrever este amor, quando para isto seria pequeno demais o mundo inteiro?’- lê-se em uma de suas anotações”.5

1 GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. Les trois ages de la vie intérieure. 7.ed. Paris: Les éditions du Cerf, 1951, v.II, p.555-556.
2 Cf. CEPARI, Pe. Virgilio. Vida de São Luís Gonzaga. Roma: Officina Poligrafica, 1910, p.37.
3 GUÉRANGER, Prosper. L’année liturgique. 14.ed. Tours: Alfred Mame et fils, 1922, v.III, p.253.
4 SAN JUAN DE LA CRUZ. Avisos y sentencias, n.57. Burgos: Biblioteca Mística Carmelitana, 1931, v.XIII, p.238.
5 Homilia em Castiglione, por ocasião do IV centenário da morte do santo, 22/6/1991.
(Revista Arautos do Evangelho, Junho/2010, n. 102, p. 34 à 37)

 

História do protetor da juventude – São Luís Gonzaga

1568
Nascimento
São Luís Gonzaga nasceu en Castiglione, Itália, a 9 de março de 1586, filho primogênito de D. Fernando Gonzaga, príncipe do Império, e de Da. Marta Tana Santena.

1573
Aos 5 anos, orgulho da Tropa
D. Fernando Gonzaga leva Luís, com 5 anos, numa expedição guerreira à Tunísia. Tornou-se o orgulho da tropa. Queimara o rosto ao disparar um mosquetão sozinho, reprimindo varonilmente a dor. Nova proeza. Era hora da sesta. De repente, um tiro de canhão. Dom Fernando manda uma patrulha em direção ao tiro. Descobrem a peça ainda fumegante e, por trás das rodas do canhão, Luís que trabalhava por sacudir o pó. O pai manda-o de volta para Castiglione. Começa a fase dos estudos.

1575
A “Conversão”
Ouvira dos soldados certas expressões que, embora não lhes atingisse o significado, não deixavam de ser grosseiros palavrões. Para fazer-se importante diante dos soldados, as repetia para divertimento da velha guarda. Uma vez de volta para casa, ouviu-o falar palavrões o seu aio, Del Turco, censurando com seriedade. Bastaram-lhe para a vida inteira. Nunca mais falou algo com que devesse se envergonhar. Foi o início do que Luís chamaria, mais tarde, da sua Conversão. O conhecimento do pecado e sua oposição a Deus, foi a grande novidade que veio sobressaltar a alma dele criança. Poucos anos bastaram para que o amor de Deus enchesse inteiramente o coração puro de Luís. Este primeiro desenvolvimento culminou mais ou menos aos 7 anos de idade.

Florença
Vida na corte com tudo a que tinha direito: festas, brinquedos, roupas, aulas de dança, professor de caligrafia. Mas Luís já não era mais criança. Estava conscientemente empenhado na formação do próprio caráter. Já fazia algum tempo que Luís vinha pedindo ao mestre Del Turco para que lhe procurasse um confessor. Del Turco apontou-lhe o padre Della Torre, reitor do colégio dos jesuítas. Daí para frente começou a formar sua personalidade interior, atento a tudo que pudesse desfigurá-la. Primeiro, a IRA, a “fraqueza dos fortes”. Em poucas semanas conseguiu dominá-la. Segundo, o Noviciado da Língua: nenhuma palavra mais que pudesse ferir os outros. Falar somente o necessário. Terceiro, tratar a criadagem segundo o Espírito do Cristianimo. Por suas atenções para com os criados, desfrutava de grande veneração entre eles. Quarto, o Sacramento da Penitência, que foi e continuou sendo para Luís a fonte onde buscava força e estímulos para uma constante e esmerada formação do seu caráter. Através deste instrumento singular da Graça, desenvolveu-se nele aquela extraordinária clareza e segurança de consciência que, anos mais tarde, haveria de assombrar o seu próprio confessor, São Roberto Bellarmino. Luís considerou sempre o Sacramento da Penitência como o ponto central de sua vida interior.

Nossa Senhora e a Castidade
Em Florença, Luís costumava visitar com frequência a igreja de Nossa Senhora “Santissima Annunziata”, e deter-se demoradamente diante do quadro da Anunciação. Os olhos puros de Maria tocaram-no profundamente.. Pareciam que estavam a lhe fazer um convite: “Filho, não queres ser como eu fui e ainda sou? Não me queres dar teu coração para que eu o entregue a Jesus como propriedade sua para sempre?” Sua resposta foi simples e singela. Ante o quadro da Anunciação, numa hora de recolhimento e de graça, depositou nas mãos de Maria todo o seu ser virgem e emitiu o voto de perpétua virgindade.

1580
Volta a Castiglione: vida de oração
Junho de 1580. Abrem-se novos horizontes. Algo aconteceu com respeito à oração. Rezava ora nos cumes das montanhas, ora no interior do seu quarto. Espreitando-o por uma fresta da porta, os camareiros viam-no ajoelhado no chão, diante de um grande crucifixo de prata, único ornato em seu quarto, abismado em oração, braços estendidos ou com as mãos postas, sereno, imóvel. E de seus olhos corriam lágrimas de amor e felicidade. Costumava, aos descer as escadas, saudar em cada degrau a Medianeira de Todas as Graças com uma Ave-Maria. Luís tornou-se um grande homem de oração. A princípio rezava 1 hora de manhã e 1 hora à noite. Depois, passou a prolongar a oração durante a noite. Começou, então, a célebre luta contra as distrações na oração. Esta tornou-se o grande propulsor de toda a vida de Luís. Dizia: “A plenitude evangélica só se adquire com o estudo da oração. Não pode jamais a ser perfeito quem não for homem de oração”.

1580
Primeira comunhão
De visita a Castiglione, o cardeal São Carlos Borromeu pergunta a Luís se já havia recebido a santa Comunhão. Luís respondeu que não. No dia 22 de junho de 1580, festa de Santa Maria Madalena, recebeu, na igreja Matriz, das mãos do Cardeal São Carlos Borromeu, a sua Primeira Comunhão. Tinha 12 anos de idade. Quando, durante a Missa, o celebrante erguia o Corpo do Senhor para a adoração dos fiéis, corriam pelas faces de Luís lágrimas de emoção, porque começava a desvendar-se, diante dele, os mistérios da Redenção.

1581
Espanha
Em 1581 parte com a família rumo à Espanha, convidado que fora seu pai a integrar a comitiva de Da. Maria da Áustria. Luís, e seu irmão Rodolfo, foram destacados para o serviço imediato do jovem príncipe herdeiro, D.Diogo, filho de Felipe II. Estava Luís Gonzaga com 13 anos. Intensificou sua vida de oração. Às vezes levava cinco, ou mais, horas de esforços para se livrar das distrações. Vestia-se modestamente, muitas vezes como pobre. Mas a todos causava respeito. Após 1 ano na corte, o príncipe herdeiro morre. Luís começa a preocupar-se com o futuro. Queria decidir sobre a vocação.

Vocação
Depois de muita oração, decide consagrar toda sua vida a Deus entrando numa Ordem religiosa. Mas, QUAL? Pouco a pouco a COMPANHIA DE JESUS foi predominando. Ainda viviam vários padres do tempo de Santo Inácio. Mas o que exerceu um último e decisivo influxo, foi o fato da garantia que a Ordem lhe dava de jamais ser elevado a honras ou dignidades eclesiásticas…ser um simples homem entre outros homens, todo para Deus e para a salvação das almas. Resolveu e ficou em paz. Pede luz à Mãe do Céu, Nossa Senhora do Bom Conselho. Sente a certeza. Seu confessor confirma a decisão. Luís vai imediatamente comunicar a decisão a sua mãe. Esta leva a notícia ao marquês. Da parte deste, primeiro admiração; depois, raiva e, finalmente, um NÃO decidido! Luís resolve enfrentar o pai. Ameaçado de chicotadas, responde; “Peço a Deus que me conceda a graça de, se for preciso, sofrer pacientemente pela minha vocação”. Passam-se dois anos de luta entre os dois. Deixam para resolver o assunto na volta para a Itália.

1584
Volta à Itália
São Luís estava com 16 anos. Mandado a visitar os principados vizinhos, conservou-se forte e puro. Quanto à vocação, o marquês volta à carga: “Vai-te daqui para fora e não apareças mais diante dos meus olhos!” Luís deixa a casa paterna. O pai manda trazê-lo de volta. Novos vitupérios. Luís tranca-se no quarto. O pai, preocupado, vai expiar. O que vê? Luís prostrado de joelhos, diante do crucifixo, repetindo jaculatórias ao seu Jesus. Ao mesmo tempo, com mão firme, vergastava tão violentamente suas costas, que o sangue já aparecia nas estrias. O marquês, impressionado, concede-lhe, finalmente, a permissão. Escreve ao geral da Companhia de Jesus entregando-lhe o seu primogênito, o que de mais caro possuía no mundo!

1585
A abdicação
O dia 2 de novembro de 1585 foi o dia da abdicação. O notário termina a leitura da renúncia de todos os bens. Luís assina sem vacilar. Retira-se para o quarto. Dentro de instantes volta já trajando a batina preta dos jesuítas.

1585
Ingresso na Companhia de Jesus
Aos 20 de novembro de 1585, entra no noviciado de Santo André, em Roma. Começa a observância fiel das regras. Antes de terminar o primeiro ano de noviciado é mandado a Nápoles, a fim de retomar os estudos. Uma das razões era que a sua saúde já começava a dar sinais de abalo. Mas o clima de Nápoles foi pior. Em maio de 1587 é chamado de volta a Roma, onde concluiria o ano letivo. Sobressaiu nos estudos de filosofia. Escolhido para a disputa solene, três cardeais compareceram. Em 1587, fez os Santo Votos de pobreza, castidade e obediência na capela do Colégio Romano. Não havia completado ainda 20 anos. Em 1589, enquanto passava o verão na casa de campo de Frascati, o padre, depois santo, Roberto Bellarmino avisa-o que deve viajar para sua terra natal. Problemas de família. Resolve-os e vai continuar seus estudos em Milão. Durante sua estadia nesta cidade, sente que estava próxima sua viagem para a pátria definitiva. Volta a Roma, decidido a empregar, com toda energia, o tempo que lhe restasse, na preparação para o encontro com o Senhor. Entrega tudo o que tinha ao P. Reitor e inicia o seu quarto e último ano de teologia.

1591
O Apóstolo da Caridade
Em 1591, a peste bate às portas da Itália. Contavam-se, aos milhares, as vítimas em Roma. Luís sentiu que sua grande hora havia chegado. Quis tornar-se um simples Irmão enfermeiro a serviço do próximo. Somente no Colégio Romano eram tratados 300 indigentes. Insiste para cuidar dos doentes, preferindo os mais pobres e necessitados. o zelo de Luís fá-lo descuidar de certas precauções. os superiores o proíbem de trabalhar no hospital, com medo do contágio. Pede, então, para ser transferido a outro hospital menos perigoso. Para lá dirige-se no dia 3 de março de 1591. No caminho, topa na rua com um empestado. Levanta-o e carrega-o nos ombros até o Hospital da Consolação. Volta para casa minado pela febre. O germe da morte infiltrara-se em seu corpo extenuado. Recolhe-se logo ao leito, o seu leito de morte!. Em cinco dias a doença leva-o às portas da morte. Vem uma primeira crise. Resiste, ainda, por três meses. A 10 de junho, escreve uma carta de despedia a sua mãe: “Recebi sua carta ainda em vida nesta terra dos mortos. Em breve, porém, irei louvar a Deus na eternidade, terra dos vivos…Nossa separação não durará muito. Lá em cima nos reencontraremos”. Depois disso, Luís só falava do céu: “Desejo dissolver-me e estar com Cristo” .

1591
A Morte
Caia a tarde de 20 de junho. Era uma quinta-feira, oitava da festa de Corpus Christi. Pede que lhe tragam a santa comunhão. Após a comunhão, pede para despedir-se de cada um em particular. Na hora do desenlace, três pessoas ficaram no quarto. Ao entrar a noite, somente um padre estava no quarto. Este aproxima-se do leito de Luís e pergunta-lhe se precisava de alguma coisa. “Ajudai-me…estou morrendo!”. Depois, pede que o virem para o outro lado. Os outros dois padres volta. Colocam uma vela na mão do moribundo. Luís segura-a firmemente. Com a outra mão, aperta firmemente ao peito o crucifixo dos agonizantes. mantinha o olhar fixo num outro crucifixo que haviam colocado aos pés da cama. Onze da noite, um leve tremor, e dos lábios de Luís, um hálito de respiração e um, bem apagado, “Jesus!” . Fim! Luís Gonzaga voara para a eternidade! Era o dia 21 de junho de 1591. Luís Gonzaga tinha 23 anos!

1605
Beatificação

1726
Canonização

1926
Protetor da Juventude Proclamado pelo Papa Pio XI, em 1926, modelo e protetor da juventude.

XI Domingo do Tempo Comum – Ano A

“Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor”. É uma imagem bíblica que expressa a realidade de muitas pessoas que andam longe dos caminhos de Deus, que andam perdidas e desorientadas neste mundo. O Povo de Israel, por diversas vezes, deixou o caminho de Deus, apesar de ter vivido muitas maravilhas que o Senhor Lhes tinha concedido experimentar. A história dos homens repete-se de diversas maneiras, até hoje. Todavia, Deus continua fiel, a chamar e a anunciar ao Seu povo a promessa salvífica, como poderemos ver na 1ª Leitura deste domingo, do Livro do Êxodo: “Se ouvirdes a minha voz, se guardardes a minha aliança, sereis minha propriedade especial entre todos os povos. Sereis para mim um reino de sacerdotes, uma nação santa”. Quando o homem segue o caminho do Senhor, sente-se membro do povo eleito de Deus, como nos diz o salmo responsorial: “somos o seu povo, as ovelhas do seu rebanho”. Jesus é o Bom Pastor, que se preocupa com as suas ovelhas e que envia os seus discípulos “às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Que pistas de reflexão a partir desta mensagem? Em primeiro lugar, hoje, há muita gente perdida na vida, como ovelhas sem pastor, com problemas, com a tristeza e sem normas de conduta. Jesus “encheu-se de compaixão” por esta gente e também nós somos convidados a imitar o Mestre, levando a todos eles a consolação e a luz de Deus. Em segundo lugar, a comunidade cristã é o Povo de Deus, o rebanho do Senhor, o reino de sacerdotes, a nação santa. É um desafio para as nossas comunidades cristãs.
Acima de tudo, está o amor de Deus. É o que nos diz a 1ª Leitura. Deus faz questão em recordar esta realidade amorosa ao Seu povo, através de Moisés: “Vistes o que eu fiz ao Egito, como vos transportei sobre asas de águia e vos trouxe até Mim”. É nesta base que se fundamentará a aliança do povo com o Senhor. Esta idéia encontra-se, também, no salmo responsorial. São Paulo insiste nessa primazia da graça de Deus, manifestada em Jesus. O tema fundamental da Carta aos Romanos, que estamos a ler na 2ª Leitura, é que a salvação vem de Cristo. Neste domingo, São Paulo diz-nos que “Deus prova assim o seu amor para conosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores”. A morte e a ressurreição de Jesus é a prova suprema do amor de Deus à humanidade. “E agora, que fomos justificados pelo seu sangue, com muito mais razão seremos por Ele salvos da ira divina”. “Mais ainda: também nos gloriamos em Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem alcançamos agora a reconciliação”.
Jesus convida todos os homens a percorrer o caminho da salvação. Porém, dá conta de que “a messe é grande e os trabalhadores são poucos”. Precisa de colaboradores, de discípulos que O sigam e que colaborem com Ele no plano de evangelização. A realidade de Deus que continuamente chama alguém aparece tanto no Antigo como no Novo Testamento. Na 1ª Leitura deste domingo, Deus chama Moisés no Monte Sinai para ser Seu mensageiro junto do Povo de Israel. Também Jesus chama os 12 Apóstolos e envia-os em missão. No domingo passado, escutamos o chamamento de Mateus. Não podemos esquecer o significado simbólico do número 12, que recorda o novo Povo do Senhor, iniciado com Jesus Cristo. No meio de tantos ruídos e confusões do mundo de hoje, onde é difícil escutar e responder à voz do Senhor, o tema do chamamento (vocação) é um convite à reflexão. O que é que Deus, hoje, nos pede? O que é ser discípulo de Jesus nos dias de hoje? Além disso, hoje, mais do que nuca, é preciso rezar ao “Senhor da messe para que mande mais operários para a sua messe”.
Jesus chama e envia. Com o Evangelho deste domingo, inicia-se o “discurso da missão”, que ocupa todo o capítulo 10 do evangelho de São Mateus. O que é fundamental nesta missão está resumido na leitura de hoje: “proclamai que está perto o Reino dos Céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demônios. Tudo isto, feito desinteressadamente: “Recebestes de graça, dai de graça”. Assim se resume a missão evangelizadora que temos de realizar nas nossas comunidades: pregar e curar; anunciar a Boa Nova da Salvação e concretizá-la em obras.

 

DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO COMUM / Mt 9, 36 – 10, 8
“A COLHEITA É GRANDE, MAS OS TRABALHADORES SÃO POUCOS”.
O texto de hoje fecha a seção de 4, 23 – 9, 34, que manifesta Jesus como Messias em palavra e ação, e abre caminho para a missão dos discípulos e o discurso missionário do Cap. 10. Coloca a missão dos discípulos – portanto de nós cristão hoje, individual e eclesialmente – como continuação e atualização da missão de Jesus. Não deixa dúvida sobre a natureza dessa missão – v. 35 fala que Jesus “percorria as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Notícia do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade”. A estrutura da frase mostra que o cerne era a Boa Notícia do Reino – Reino de libertação de todos os males, espirituais, econômicos, sociais e materiais. Essa chegada do Reino em Jesus constituía então o conteúdo do seu ensinamento nos sinagogas e era demonstrada pelas curas, entendidas como libertação do poder do mal.
Mas Jesus não era somente um curador! Ele era movido por compaixão – não por pena, mas “compaixão”, um termo que significa “sofrer com” alguém. O termo grego usado, “splanchnizein”, deriva-se da palavra para “entranhas”, símbolo da sede das emoções. Ele sente “nas entranhas” o sofrimento do povo abandonado pelos seus lideres espirituais, mais preocupados com ritos e estruturas religiosos do que com as pessoas, e pelos líderes políticos, mais engajados em se enriquecer às custas do povo. A imagem do pastor é comum na Bíblia como termo que descreve liderança religiosa e legal (cf. Nm 27, 17; Ez 34, 5; I Rs 22, 17; 2 Cr 18, 16; Zc 10, 2; 13, 17; Mt 10, 6; 15, 24; 18, 12; 26, 31). O que dizer da situação do nosso povo hoje? Será que é tão diferente? Quanta descrença e cinismo diante dos políticos, diante das provas de corrupção e impunidade! E será que nós, que somos duma certa maneira líderes religiosos, sempre mostramos para os sofredores o rosto misericordioso do Deus verdadeiro, ou o escondemos atrás de legalismos, casuísmos, e ritualismo? Diante da crescente clericalização e centralização do poder na Igreja, vale a pena uma análise honesta das nossas atitudes e prioridades.
Jesus não é derrotista nem pessimista. Diante do desafio das ovelhas sem pastor, ele vê uma oportunidade de fazer colheita. Mas reconhece a escassez de operários e operárias! Sempre se usa esse texto para estimular um crescimento nas vocações sacerdotais e religiosas – com razão. Mas é muito mais abrangente no seu alcance. Pois todo batizado e conclamado a ser “trabalhador na messe”. O Documento de Aparecida insiste na ligação essencial e intrínseca ente discipulado e missão. Não há duas classes de cristãos – todos participam na missão sacerdotal, profética e régia de Jesus. Todos, sem exceção, têm o dever de ser missionários – não num sentido proselitista, somente angariando mais adeptos para a sua Igreja, mas no sentido de semear e regar o Reino, de mostrar a misericórdia de Deus, de lutar junto com pessoas de boa vontade para que cresça o mundo de justiça, solidariedade e verdadeira paz que Deus quer! Mas Jesus insiste na oração, pois somente uma comunidade que nutre a sua fé pela oração será capaz de gerar pessoas comprometidas com o Reino e à missão.
O trecho termina com a vocação dos Doze – e aqui Mateus une a noção de discipulado e Apóstolo. Têm uma missão clara – expulsar espíritos maus, e curar todo tipo de doença. As doenças eram entendidas naquela época como sinal da dominação dos poderes do mal. Cumpre perguntar – quais são os espíritos maus da sociedade de hoje que devem ser exorcidos, quais as enfermidades a serem curadas? Hoje tem mania de demonizar tudo, em certos setores e movimentos das Igrejas – mas muito mais do que a capeta tradicional existem os espíritos maus de ganância, egoísmo, individualismo, exclusão, que tomam corpo, não em possessão demoníaco, mas no sistema pecaminoso do neoliberalismo, excludente, na busca desenfreada de lucro sem levar em conta as conseqüências sociais, da dominação da lei selvagem do mercado, na proliferação de religião alienante. Como Jesus chamou os Doze para lutar contra os males que oprimiam o povo do seu tempo, nos chama hoje, à mesma missão, diante dos desafios do mundo moderno. Cada um(a) pode adicionar o seu nome ao rol dos chamados em Mateus. Na verdade não falta oportunidade para cada cristão engajar-se de maneira concreta nessa luta. A opção alternativa é ficar acomodado numa religião individualista e intimista, juntando-nos às fileiras dos pastores maus, que deixam as ovelhas abandonadas à sua sorte.

 

Eu rezaria, de bom grado a Deus se Ele me escutasse, mas qual o que… Ele nos empurra para o fundo do seu céu, a nós que somos formigas desinteressantes a seus olhos e, olhe lá, devemos nos dar por felizes se Ele não nos pisa com os pés.
Assim, se dirigia a Deus um ancião desabusado.
O Evangelho deste domingo diz-nos exatamente o contrário. Jesus, certa vez, olhou uma multidão que estava diante de si e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Os olhares de Jesus ainda hoje se pousam sobre todos e sobre cada um de nós.
Jesus é capaz de contemplar aquele ancião que se apóia a uma bengala ridícula, Jesus é capaz de olhar aquela empregada doméstica que trabalha na sua cozinha, é capaz de ver um operário cuidando de sua fabrica, é capaz de contemplar uma professora preocupada com o progresso de seus alunos, mas Jesus contempla também um enfermo no leito de um hospital ou um inválido numa cadeira de rodas; Jesus contempla uma mulher que está esperando seu bebê e contempla também aqueles que por desgraça, neste exato momento, estão praticando o mal.
Jesus tem um olhar para cada um de nós e por ser Ele Filho de Deus nós hoje podemos dizer: tal Filho, tal Pai.
Se Jesus se importa com estas formiguinhas que não são desinteressantes a seus olhos é porque seu Pai, Deus, também nos olha com imenso carinho e imensa preocupação.
Não, nós não somos pessoas sem valor na sua presença. O Evangelho prossegue naquele momento Jesus escolheu alguns para uma missão mundial, para recuperar todos os seres humanos e cada um em particular; elegeu pela primeira vez o Colégio dos Doze que depois teria seus sucessores pelo mundo.
Hoje eu pergunto se alguém já se pôs a pergunta pessoal: qual a minha vocação?
Jesus me terá chamado a mim também para alguma missão na Igreja? Qual foi a missão para a qual Ele me chamou?
Nós falamos tanto em diversas missões e existem muitas. Qual é a missão para a qual você foi chamado e através de qual Jesus deseja hoje recuperar tantos outros seres humanos para si próprio? Responda com generosidade ao seu apelo.

 

JESUS ESTÁ CHAMANDO
Padre José Augusto
Durante estes dias de acampamento nós falamos com Deus, clamamos a Ele, pedimos a Ele, e agora é a hora de ouvirmos o que Ele tem a nos falar, pois Ele quer falar. Vamos ouvir. Mas o que é o que Ele quer falar?
Eu morei durante 10 meses na Terra Santa e pude ver o que é o pastor e suas ovelhas. Ao passar, vemos os chamados beduínos, com cajado na mão e andando com as ovelhas. Ele anda e elas acompanham, ele pára e elas param. Algum carro vai passar, ele pára e elas param também, ele continua a caminhar e elas vão atrás.
Jesus diz a nós que o pastor dá a vida pelas ovelhas. E dá mesmo! Ai daquele que as roubarem. Jesus já havia feito muitos milagres e cada vez mais as pessoas lhe seguiam. Por isso Ele faz esta alusão ao pastor, pois aonde Ele ia as pessoas iam atrás. Provavelmente Jesus fez esta alusão por ver algum pastor com suas ovelhas naquele momento em que falava. Jesus olha para cada um de maneira particular e Ele vai ao coração de cada um. E dentro do coração Dele vem o sentimento de muita compaixão. Mas, porque Ele sente compaixão? Porque Ele lembra de uma passagem que está no livro de Ezequiel 34, 5 e 6:
“Assim, por falta de pastor, dispersaram-se minhas ovelhas, e em sua dispersão foram expostas a tornarem-se presas de todas as feras. Minhas ovelhas vagueiam em toda parte sobre a montanha e sobre as colinas, elas se acham espalhadas sobre toda a superfície da terra, sem que ninguém cuide delas ou se ponha a procurá-las”.
Nesta hora mesmo tem ovelhas por aí, nas ‘bocadas’, nos motéis da vida. Outras tramam tirar a vida de alguém, outras estão pelas ruas vagando por aí, outras estão nas faculdades, outras na tua casa e outras estão aqui. Elas não têm pastor, elas não tem alguém que as oriente e por isso não podemos condená-las. Há muitas ovelhas que ainda não ouviram falar de Jesus Cristo, há pessoas que não conhecem Jesus, não sabem nada da Igreja, ainda não tiveram a experiência com Jesus, pode até ser que há pessoas que O conhecem, mas não se enganem há muitos ainda que não O conhecem. Estas são as ovelhas que Jesus diz que estão nas colinas, nas planícies e que não tem ninguém que vá falar Dele para elas.
O Evangelho diz: “vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas…” , Jesus se compadece, pois se a pessoa morre e não aceita Jesus, ela será condenada, não é Jesus que condena, mas por ela mesma acaba se condenando, pois ela não aceita Jesus e se morre assim esta pessoa não se salvará. Imagine uma mãe que está preste a perder o seu filho, ela terá um sentimento de compaixão, assim é Deus. Ele não quer perder nenhum de nós. Talvez Deus não esteja preocupado com você, porque você já faz parte das ovelhas deste pastor, é claro que talvez você tenha algo a ser aperfeiçoado, mas há pessoas que estão sem pastor, o que será delas? É por estes que o Senhor se preocupa!
Nós pedimos as coisas e Deus nos atende mais cedo ou mais tarde estas coisas acontecerão em nossas vidas, mas agora é a vez de atender o pedido de Deus, não sejam egoístas, ouça ao Senhor, vocês que tiveram esta experiência com Deus sejam pastores daqueles que precisam, atendam ao pedido do Senhor. É preciso ter o sentimento de Deus, Deus não quer que seus filhos vão para o inferno porque não O conheceram, com isso não coloco peso sobre ninguém, Deus não cobra nada de ninguém, mas há pessoas que estão preparadas e esperando, só precisam ouvir alguém, um pastor para que elas sejam trazidas ao Senhor.
Na carta aos Romanos 10, 13, diz assim: “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”, tem muita gente que não está invocando o nome do Senhor Jesus, mas estão preparadas para ouvir alguém que façam com que elas invoquem ao Senhor. Há pessoas que não rezam por seus parentes porque eles não fumam, não bebem, não matam, não roubam, então elas pensam que está tudo bem. Mas será que estas pessoas conhecem Jesus Cristo? Há muitas pessoas boazinhas e o inferno está cheio de gente boazinha, mas o ponto não é somente ser bonzinho, o ponto é invocar o nome do Senhor. A pessoa pode não fumar, não beber, não matar, mas se não invocar o nome do Senhor não adianta!
Continua a Palavra, “Porém, como invocarão aquele em quem não têm fé? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão falar, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados, como está escrito: Quão formosos são os pés daqueles que anunciam as boas novas?”. Vocês que vieram para este acampamento de oração ouviram uma vinheta na TV, na rádio. Mas e aqueles que não ouviram, como eles vão invocar o nome do Senhor, como eles dirão que são de Deus se não há quem vos fale?
Há pessoas vivendo de forma normal, pois as pessoas vão crescendo, estudam, namoram, se casam, conseguem um trabalho, uma casa, constroem uma família e quem pregará para os seus filhos? Eu falo para vocês que carregam dentro do seu interior o chamado do pastor que é Jesus, a serem pastores e você ainda não se decidiu pelo chamado de Deus. Eu falo de um povo que está pronto e aguardando você e você está indo por outros caminhos, tentando enganar Deus e se afastando daquilo que é o chamado do Senhor na sua vida.
Há muitos que chegaram ao noivado e viram que o chamado de Deus era mais forte e por isso deixaram a noiva e hoje são bons padres, deixaram o diabo enfurecido, pois estão fazendo um bom trabalho na Igreja e trazendo muitas pessoas para Deus. Todo o chamado exige renúncia. Por exemplo, São Geraldo Majela foi um destes que os pais não queriam deixá-lo ir para sua vocação, e ele, ouvindo o chamado de Deus, largou tudo e foi servir a Deus. Deixou-lhes um bilhetinho “meu pai e minha mãe, estou indo para ser santo” e nunca mais voltou. Hoje os pais dele devem estar no céu agradecendo por ele não ter ouvido o pedido que eles fizeram para que ele não fosse.
Jesus chamou os piores, por isso você não pode parar diante de suas fraquezas, de seus defeitos. Se Deus te chamou, você pode ser o que for, pode ter feito o que for, pode ser um maconheiro, pode ter aprontado com meninas ou com meninos, mas Deus te chamou e você deve ouvi-lo, não se preocupe, Ele cuidará de você. Mas se você rejeitar o chamado de Deus também não fique preocupado, pois Ele não irá te castigar por causa disso, mas há ovelhas que precisam ouvi-lo.
Hoje eu falo para você que está enrolando. Não enrole mais! Você precisa pensar, você sabe que Deus te chamou, não imponha limites, não coloque desculpas, não coloque nada, Ele só está dizendo como disse: ‘Mateus vem, Pedro vem’, pois uma multidão não pode ir para o inferno. Não menosprezo as outras vocações, o casamento é uma vocação que serve para trazer as pessoas para o mundo, a vocação ao sacerdócio é para levar as pessoas para o céu. Sinta-se um privilegiado porque o Senhor de todas as coisas, aquele que morreu na cruz te chama para você ficar com Ele e falar Dele às outras pessoas, você é chique demais!
Sinta-se honrado e você deve sair proclamando porque Ele te chamou para servi-lo, para tirar as pessoas das garras do inimigo que quer nos pegar, você é chique demais!

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