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XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano A

Mt 22,15-21: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

15Reuniram-se então os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas suas próprias palavras. 16Enviaram seus discípulos com os herodianos, que lhe disseram: Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade, sem te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens. 17Dize-nos, pois, o que te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César? 18Jesus, percebendo a sua malícia, respondeu: Por que me tentais, hipócritas? 19Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto! Apresentaram-lhe um denário. 20Perguntou Jesus: De quem é esta imagem e esta inscrição? 21De César, responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Fariseus e herodianos se unem para conspirar contra Jesus. Os herodianos eram os partidários da política de Herodes e de sua dinastia: admiravam a dominação romana e, em matéria religiosa, compartilhavam com as idéias materialistas dos saduceus. Os fariseus eram zelosos cumpridores da Lei, anti-romanos e consideravam o regime de Herodes e dos seus sucessores como um poder obtido pela fraude. Havia uma diferença radical entre herodianos e fariseus, mas, nesta ocasião se unem e fazem uma pergunta maliciosa, mostrando como odiavam a Jesus. Se o Senhor respondesse que era lícito pagar o tributo a César, os fariseus estariam depreciando Jesus perante o povo, que pensava com mentalidade nacionalista. Se respondesse que não era lícito, os herodianos podiam denunciá-lo junto às autoridades romanas. Mas, Jesus responde com sabedoria e fidelidade à Sua pregação sobre o Reino de Deus. Fariseus e herodianos não alcançam a profundidade da colocação de Jesus: “Dai, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, onde Jesus confirma os deveres para com César, mas acrescenta que também devem dar a Deus o que lhes corresponde. Jesus apresenta outro lado da moeda, que eles ignoravam. O que corresponde a César? – a tributação necessária para a existência do ordenamento temporal, para a realização do bem comum e a felicidade plena do ser humano. E o que se deve dar a Deus? – Obediência aos Mandamentos, que implica “em Tudo Amar e Servir”, conforme nos diz Santo Inácio de Loyola. A resposta de Jesus está longe do entendimento de seus tentadores, está acima do “sim” e do “não” que queriam que Jesus respondesse. A doutrina de Jesus está acima de qualquer proposta política, e se, como fiéis leigos, no exercício de nossa liberdade, fizermos uma opção, escolhendo uma determinada posição em assuntos temporais, devemos desempenhar fielmente nossas tarefas, nos deixando guiar pelo Espírito do Evangelho… Nós leigos, que participamos ativamente na vida da Igreja, estamos obrigados não somente a impregnar o mundo de espírito cristão, mas também somos chamados a dar testemunho de Cristo em tudo, no meio da comunidade humana (cf. Gaudium et Spes, nº 43). Jesus reconheceu a autoridade civil e seus direitos, mandando dar o tributo a César, mas lembrou claramente que se deviam observar os direitos superiores de Deus (cf. Dignitatis Humanae nº 11). Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

 

Por Mons. Inácio José Schuster

Neste 29° domingo do Tempo Comum, nós encontramos uma perícope no texto de Mateus, que tem como finalidade conter um “logion”, isto é,  uma expressão de Jesus que tornou-se famosa no Cristianismo, e até mesmo fora dele. “Dai a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.” Queriam tentá-Lo: “devemos ou não pagar o tributo ao estrangeiro, ao dominador?” Qualquer que fosse a resposta de Jesus O comprometeria. Se dissesse sim, seria taxado de colaboracionista dos Romanos, e perderia Seu encanto com o povo Judeu que O acompanhava, se dissesse não, poderia ser acusado de rebeldia contra os dominadores. Jesus não se descompôs: “de quem é esta moeda? De quem é esta efígie? Em Seu tempo, provavelmente de Tibério Cesar, o imperador Romano daquela época. Se se comercia com o que é de Cesar, se se compra e se vende através de uma moeda que vem de Cesar, então nada mais justo que se dar a Cesar o que é de Cesar. No entanto, este não é o texto que nos leva, nós Cristãos, a respeitar e, de certa maneira, obedecer as autoridades civis constituídas, ainda que não comunguem de nossa fé. Existem outros textos do Novo Testamento que incutem nos Cristãos um respeito para com essas autoridades legítimas que nos governam neste mundo. Não é este, porém, o texto. Jesus não equipara Cesar a Deus. A frase de Jesus, famosa e célebre, deve ser entendida da seguinte maneira: podem dar a Cesar o que lhe pertence, porque Cesar, de maneira nenhuma, deve fazer ou faz concorrência com Deus. No entanto, se a Cesar o que é de Cesar, a Deus – que é infinitamente superior a Cesar – o que Lhe convém. E o que convém a Cesar? Simplesmente o pagamento dos impostos que são exigidos. Que convém a Deus? Muito mais que respeito; Deus não quer o posto de quem quer que seja, Deus quer o coração, Deus quer a obediência, Deus quer a totalidade, Deus quer a vida, Deus quer toda a energia para Si. Nada disto Cesar reclama para ele. Portanto, Cesar e Deus não estão no mesmo nível e não podem ser equiparados. De resto, o próprio texto insinua que se nós obedecemos a Cesar, se nós o respeitamos, nós não precisamos amá-lo, não precisamos temê-lo e não precisamos reverenciá-lo. E se, no entanto, Cesar exorbitar, se for além de suas prerrogativas, se exigir o que não é lícito, Deus deve ser preferido. E neste caso, Cesar deve ser rebaixado. Isto aconteceu muitas vezes no Cristianismo e, sobretudo, no Cristianismo das origens, quando Cesar queria ser adorado como uma divindade – pensamos, por exemplo, em Domiciano, no final do século primeiro – e os Cristãos não estavam dispostos a este ato cultual, como nos ensina o Livro do Apocalipse.

 

TEMOS DADO A DEUS O QUE É DE DEUS?
Padre Bantu Mendonça

Estamos na última semana da vida de Jesus. Ele atua como mestre no pórtico de Salomão ao oriente da esplanada do Templo. Seus inimigos estão à espreita para ver como apanhá-lo em suas palavras e, por isso, propõem diversas questões – que eram discutidas na época – com o intuito de ver seus conhecimentos e até de poder acusá-lo diante das autoridades por sua discrepância da Lei ou sua oposição às autoridades romanas. Um destes episódios é o de hoje: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências. Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar imposto a César?” É lícito significa se está de acordo com a Lei. Pagar o tributo a César seria, segundo os zelotas e os fariseus, dar dinheiro a um representante de um deus pagão. Seria manter o princípio de propriedade do Estado Romano sobre terras que Javé-Deus tinha dado a Israel a título inalienável. Segundo os juristas romanos, o povo de Israel tinha unicamente o usufruto destas terras. Por isso, a taxação era uma escravidão evidente segundo o povo eleito. Diante deste fato, a resposta se fosse favorável aos romanos atrairia o desprezo do povo sobre Jesus. Mas, se a resposta de Jesus fosse contrária ao pagamento do tributo, poderia ser causa suficiente para tratar Jesus como zelota e os herodianos acusá-lo-iam às autoridades – como realmente o fizeram – de impedir o pagamento do tributo a César (Lc 23,2). Jesus pede a moeda onde estava escrita ao redor da efígie do César: César Tibério, do divino Augusto filho, ele mesmo Augusto Pontifice Máximo. A moeda foi cunhada em Roma – como todas as moedas em ouro ou prata. Todos, tanto fariseus como herodianos, usavam a moeda, o que era de fato aceitar o domínio de César. A tradução mais exata da resposta de Jesus seria: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Sem dúvida, Jesus aponta para uma dívida que temos tanto com as autoridades civis como para com Deus: 1º – Ele estabelece uma clara distinção entre os deveres cívicos e os religiosos, não confundindo as áreas, mas separando-as. 2º – Toda autoridade da qual nos servimos – como se serviam do denário os judeus – tem origem divina, como Ele respondeu a Pilatos: “Nenhuma autoridade terias sobre mim se de cima não te fosse dada”. (Jo 19,11) Deus quer ser representado na autoridade do homem, como diz Paulo, independentemente dessa autoridade ser boa ou má. Em Rm 3,1 afirma: “Não há autoridade que não proceda de Deus e as autoridades que existem foram por Ele instauradas”. No mundo moderno não interrogamos Jesus sobre o tributo a César, mas interrogamos a Igreja sobre o Jesus que está mostrando ao mundo: O homem oprimido tem substituído a mensagem evangélica sobre o verdadeiro Jesus, Filho de Deus, Redentor e Salvador. Do Evangelho tomamos unicamente a mensagem sobre a justiça e igualdade. E a fé, fundamento da vida cristã, fica diluída em termos humanos. O homem substitui o Deus encarnado. Em Jesus queremos ver um revolucionário e, na revolução, um remédio universal, uma redenção necessária embora dolorosa. Portanto, devemos favorecê-la e acompanhá-la com ilusão e até propagá-la como remédio dos males modernos. Da frase eu vim evangelizar os pobres reduzimos o Evangelho a uma simples conclusão de semelhante afirmação. O resto da boa notícia não interessa. É por isso que os milagres de Jesus ou são silenciados ou são negados e, entre eles, a Ressurreição. A vida eterna do Evangelho é traduzida como vida melhor na terra por uma repartição mais justa das riquezas. O sobrenatural é substituído pelo natural. O pão de cada dia desloca o Pão Eucarístico necessário para a verdadeira vida. A política tem tomado o lugar da religião. Damos a César o que é de César. Mas não damos a Deus o que é de Deus, embora esse Deus moderno seja o grande arquiteto que anula o Cristo do qual temos recebido o nome. A fé se reduz a uma ideia mais conforme com a filosofia natural do que com a dos versículos dos Evangelhos. Temos que nos perguntar se damos a Deus o que é de Deus. Porque, embora sabendo que Ele é o verdadeiro Senhor de nossas vidas, muitas vezes O temos relegado a um segundo plano quando nos declaramos independentes ou buscamos nosso próprio bem, no lugar da vontade que é absoluta no céu e que deveria ser também soberana na terra, como rezamos no Pai Nosso.

 

Hoje é o Dia Mundial das Missões. Desde 1926, com o Papa Pio XI, no penúltimo domingo de Outubro a Igreja reza para que a fé chegue a todos os povos e que todos os fiéis tomem consciência da importância das missões. No comentário de entrada e na homilia, esta preocupação deve estar presente. Uma das intenções da Oração Universal dos Fiéis deverá ser dedicada às missões. Poder-se-á utilizar o formulário da Missa pela Evangelização dos Povos (ver Missal Romano. Também somos convidados a auxiliar as missões com a nossa oferta paro o Dia Mundial das Missões. A evangelização é uma dimensão essencial da Igreja. Desde os seus inícios, a Igreja se expandiu, porque os apóstolos não descuidaram o trabalho missionário que nunca foi interrompido através das gerações. “A Igreja, enviada por Deus a todas as gentes para ser “sacramento universal de salvação”, por íntima exigência da própria catolicidade, obedecendo a um mandato do seu fundador, procura incansavelmente anunciar o Evangelho a todos os homens. Já os próprios Apóstolos em que a Igreja se alicerça, seguindo o exemplo de Cristo, “pregaram a palavra da verdade e geraram as igrejas”. Aos seus sucessores compete perpetuar esta obra, para que a “palavra de Deus se propague rapidamente e seja glorificada (2 Tess. 3, 1), e o reino de Deus seja pregado e estabelecido em toda a terra” (Concílio Vaticano II, Ad Gentes, n. 1). Todos somos missionários, apesar de não partirmos para terras longínquas. Podemos colaborar na difusão do reino de Deus no nosso ambiente familiar e social, no nosso trabalho. O exemplo de uma vida em conformidade com o evangelho é o melhor testemunho que podemos dar. Uma vida autenticamente cristã vale mais que mil palavras. Além disto, podemos colaborar com as missões, através das nossas orações e da nossa humilde ajuda econômica. A primeira leitura do Livro de Isaías narra-nos um elogio de Ciro, rei dos Persas. Depois de conquistar Babilônia e com o seu decreto do ano 538 a. C., permitiu aos israelitas e aos outros povos que ali estavam desterrados regressarem às suas terras. Ajudou-os a reconstruir a sua nação e o Templo de Jerusalém. Através deste rei estrangeiro, que não conhecia Deus, cumpre-se a vontade do Senhor. Assim, Ciro é um instrumento escolhido por Deus, um caudal da graça divina, um meio para que prossiga a história da salvação. Na nossa vida, temos, de certeza, conhecimento de pessoas e de acontecimentos, através dos quais sentimos a mão paternal de Deus a intervir. Agradeçamos ao Senhor pelas suas intervenções na nossa vida, para que o anúncio do seu amor e da sua graça prossiga no mundo e em cada um de nós. No evangelho, os fariseus colocam a Jesus um dilema, armando uma cilada: “É lícito ou não pagar tributo a César?” Mas Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Jesus não prega uma separação, mas diz-nos que deve harmonia entre ser bom cidadão e ser bom cristão. Uma coisa não anula a outra, mas quando há oposição entre ambas (moral sexual, respeito pela vida, identidade do matrimônio…), há que optar pela vontade de Deus.

 

29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – A
“Clamo por vós, meu Deus, porque me atendestes; inclinai vosso ouvido e escutai-me. Guardai-me como a pupila dos olhos, à sombra das vossas asas abrigai-me.” (Sl 16,6.8)
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha, MG.

Irmãos e irmãs, Refletiremos neste domingo acerca da soberania de Deus e o nosso relacionamento com as coisas do mundo político. Está presente a famosa frase “Daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”(cf. Mt 22,21). Na primeira leitura desta Santa Missa(cf. Is 46,1.4-6) o rei pagão, Ciro, é instrumento de salvação nas mãos de Javé, o rei verdadeiro.  O rei Crio, o pagão que fez os judeus voltar do Exílio. Embora ele conheça Deus só por ouvir dizer, Deus o conhece, o toma pela mão; o profeta até o chama de “ungido”, o título da dinastia davídica: pois ele atua em favor do povo de Israel. Ciro é um bendito instrumento nas mãos de Javé, para tornar conhecido seu nome, sua fama de ser um Deus que salva. Caros irmãos, Jesus, ao fim de sua pregação, entrou abertamente em conflito com as autoridades do povo judeu. Em vista disso, quiseram armar para Jesus uma cilada, para que as autoridades o pegassem em alguma palavra que pudesse ser o motivo de sua condenação, ou seja, que fosse contra os princípios judaicos. Esse trecho do Evangelho de hoje (Mt 22,15-21) é bem conhecido de todos: O que é de César e o que é de Deus. Inúmeras vezes, durante toda a caminhada pública de Jesus, o Salvador enfrentou os chefes do povo e aqueles que se colocavam contra a sua Pessoa, o seu Reino e a sua Missão. Tudo isso porque Jesus veio pregar a libertação, denunciar o sistema religioso de então, maculado pelos interesses mesquinhos, cheio do rigorismo de prescrições rituais que mais amarravam, do que proporcionavam a salvação. Mateus, portanto, nos ensina neste domingo de quais virtudes os cristãos devem se lembrar na sua caminhada: a sinceridade, a honestidade, a abertura do coração, o espírito do acolhimento, a prática de boas obras, a coerência entre o dizer e o fazer, entre outras diretivas para o bem viver de uma vida voltada para as coisas do Senhor da Vida. Os fariseus não tinham coragem de enfrentar Jesus, por isso eles mudaram de tática, tentando provocar Jesus a cair em tentação. Meus irmãos, Jesus nos pede hoje que tenhamos atenção em dois pecados muito recorrentes e comuns nos dias de hoje: a exploração e a falsidade. O contexto atual é igual ao de dois mil anos atrás. A Palestina era colônia romana, totalmente dependente do poder central. Na colônia, todos deveriam pagar tributos exorbitantes, ou seja, impostos ao Imperador Romano, que era conhecido pelo nome de César – César Augusto. O tributo era pago com uma moeda de prata, chamada denário, que tinha impressa a figura do Imperador. Além de não poder citar o nome de César Augusto, porque “augusto” era um adjetivo reservado somente para Deus e proclamá-lo em vão era uma blasfêmia, os judeus queriam que Jesus entrasse em contradição, até porque eles se sentiam profundamente humilhados no pagamento do imposto, que era exorbitante e pesado. Mais do que isso, um judeu pagar imposto para um rei que não fosse hebreu, era um absurdo, porque teria que reconhecer nele o representante de Deus, o que contradizia as leis, os profetas, costumes e dignidade de raça. Manusear essa moeda para eles também era um sacrifício, uma idolatria, porque no denário estava inscrito “divino” Augusto. Tudo em volta do tributo era repugnante, porque ia contra os sentimentos de dignidade, sobretudo dos fariseus, que eram muito xenóbofos e nacionalistas. Respondendo que os judeus deveriam pagar o tributo poderiam acusá-lo de estar a serviço dos estrangeiros, de ser explorador do povo, de trair sua raça, podendo ser apedrejado por isso. Se respondesse não, seria acusado de subversão e de sonegação, podendo ser levado ao procurador romano para ser condenado. Enfim, tudo foi colocado para que Jesus, respondendo afirmativa ou negativamente, fosse sumariamente condenado e eliminado, porque incomodava ao poder religioso de então, que era medíocre e sem compromisso com a edificação do Reino de Deus. Meus irmãos e irmãs, O homem é, ao mesmo tempo, corpo e espírito, terra e céu. A religião não abrange somente a alma. Ela envolve o homem inteiro, seu ser e seu fazer, seu presente e seu futuro. A lição do Evangelho é que todas as dimensões: religiosa, social, política e econômica se complementam, se necessitam e devem ser igualmente respeitadas, acontecendo – ao mesmo tempo e com a mesma meta – a felicidade escatológica. A pessoa humana é o todo. “Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” significa não negligenciar nem a dimensão para o alto, nem a dimensão social em suas diversas manifestações. Quando dizemos “dar a César o que é de César” nunca podemos deixar Deus de lado. Também nossos compromissos com o país, com a economia, com a política, com a cultura, com o trabalho e com o progresso devem sempre respeitar os mandamentos de Deus que ilumina todos os setores da vida do homem. Em tudo, mas em tudo mesmo, Deus deve estar presente em primeira mão. Tudo isso porque Ele nos criou à sua imagem e semelhança. Em vista disso, todos nós trazemos a marca de Deus. Caríssimos, A segunda leitura (1Tessalonicenses 1,1-5) nos fala da chegada da parusia. O texto nos apresenta um itinerário de vida para esta semana: fé atuante, caridade abundante e esperança perseverante. Paulo, nesta carta, tem bons motivos para dar ação de graças, poucas semanas trabalhou em Tessalônica teve que partir às pressas, mas a fé cresceu, a forca de Deus operou neles: eles são os eleitos. A carta toda é agradecida lembrança e experiência da vinda do Senhor. A missa de hoje nos questiona: a construção da cidade terrestre é uma tarefa importante, mas não será ela caduca? Construindo a cidade dos homens contribui-se ou não para a edificação do Reino de Deus? Não serão dois reinos distintos? Para nós católicos a esperança não se realiza, certamente, em plenitude, senão na vida eterna. Entretanto, a esperança se manifesta e é eficaz aqui e agora: é uma força imensa no mundo, é um fermento poderoso que o faz levedar, é um sal que dá sentido e sabor ao esforço humano de libertação, ao empenho temporal. Não existem duas esperanças: uma terrena e outra celeste. A esperança é uma só: ela está intimamente ligada ao Céu, mas através do empenhamento cristão, a antecipa na realidade terrestre. O cristão deve dizer sim à vida e não à violência que traz o uso das armas de fogo. Os irmãos e irmãs de caminhada devem ter a fé de Deus, que nos fez à sua imagem e semelhança, para iluminar os rumos do Brasil, com caridade e esperança nestes momentos difíceis. Porque de esperança e esperança, dando a César o que lhe pertence e a Deus tudo o que lhe devemos, vamos construir uma grande Nação, sendo a meta o centro da liturgia de hoje: estarmos, todos, à disposição do supremo Senhor, na construção da globalização da solidariedade.

 

“DAI A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR E A DEUS O QUE É DE DEUS”
Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração
29º Domingo Comum – A
Leituras: Is 45, 1.4 – 6; 1 Ts 1, 1 – 5b; Mt 22, 15 – 21

Em muitas nações está tornando-se muito vivo o debate sobre o sentido e o estilo da presença dos cristãos, e em particular dos católicos, na atividade política. Em alguns dos grandes países de antiga tradição cultural e religiosa própria como, por exemplo, na Índia e na China, os cristãos constituem uma porcentagem muito pequena. Por isso mesmo encontram dificuldade para exprimir uma presença significativa no nível social e político. A única palavra possível é o testemunho da própria vida inspirada pelo evangelho. Em outras nações de antiga tradição cristã, como na Europa, hoje, porém, profundamente influenciadas pela mentalidade secularizada, os cristãos encontram forte oposição para uma presença mais incisiva nas mídias, nas estruturas econômicas, culturais e sociais, assim como no âmbito da política. A mentalidade secularizada pretende reduzir ao âmbito individual e particular toda expressão da dimensão religiosa da existência das pessoas. Às vezes os cristãos chegam a sofrer uma verdadeira marginalização social por parte dos grandes poderes econômicos e culturais, isso quando não são conduzidos até a morte pela violência dos fundamentalistas religiosos, por causa do testemunho fiel ao evangelho e às exigências de justiça que o evangelho leva consigo. Todo mundo conhece as doloridas crônicas dos últimos anos, narrando acontecimentos dramáticos na Ásia, na África, mas também na América Latina e até no Brasil. Em outros países, muitos católicos, depois de experiências bastante problemáticas e negativas, se afastaram do empenho político, e às vezes até social, achando ser mais condizente para eles dedicarem-se exclusivamente à “própria vida espiritual”, dentro das próprias comunidades, limitando a ação à caridade de emergência fornecida aos mais necessitados. Talvez se encontrem outras pessoas e grupos, que sonhem voltar ao “tempo feliz” quando a Igreja, através das conexões diretas da sua hierarquia com as autoridades públicas, conseguia influenciar o comportamento social das pessoas, além das convicções interiores e da coerente prática pessoal. Era o tempo da chamada cristandade. Hoje a situação está radicalmente mudada, já que todas as sociedades apresentam-se profundamente pluralistas em nível social, cultural e religioso.  Como colocar-se neste novo contexto histórico, que é o nosso, para ser luz e sal do mundo, segundo o mandamento de Jesus (cf Mt 5,13)? Homens e mulheres animados pela novidade que vem de Cristo, somos chamados a “partilhar as alegrias, as esperanças e as dores” dos homens e das mulheres do nosso tempo, como se exprime o Concílio Vaticano II, na Constituição “Gaudium et Spes”- “Alegrias e esperanças”. A palavra de Deus deste domingo nos oferece algumas indicações para iluminar e orientar nosso caminho. Somos chamados a viver este nosso tempo com inteligência e discernimento espiritual, e colocando ao serviço dos nossos irmãos e irmãs “as energias que vem da nossa fé e as nossas capacidades humanas, procurando não os interesses particulares mas o bem comum”(papa Bento XVI – 10/10/11). Diante das tentativas de afastar Deus da vida dos homens e das mulheres contemporâneas na pressuposição que ele diminua a sua liberdade e a responsabilidade, o papa Bento XVI, durante sua recente visita apostólica a sua terra natal, a Alemanha, afirmou com renovado vigor: “Onde Deus está presente, há esperança e abrem-se perspectivas novas e, frequentemente, inesperadas que vão para além do hoje e das coisas efêmeras”. Jesus nos abre o caminho que passa através do processo de morte a nós mesmos e ao poder mundano, para libertar as energias criativas que nos habitam e que vem do Espírito de amor. É preciso, porém, aproximar-se a Jesus com o coração simples das crianças, pois é a elas, e aos pequenos, que o Pai revela a profundidade do reino de Deus, e faz compreender a beleza de viver a páscoa transformadora com Jesus, e de pertencer ao Senhor na liberdade dos seus filhos e filhas (cf. Mt 11, 25-27). Esta atitude interior de abertura ao Senhor e de desapego do poder, é um critério fundamental para nos afinar com o coração de Deus e atuar como discípulos de Jesus. Se ela faltar, até os milagres, se tornam incapazes de nos despertar às novidades de Deus, como aconteceu com os concidadãos de Jesus em Nazaré! (cf Mc 6, 5-6). Ao contrário, os fariseus, fazem perguntas “para apanhar Jesus em alguma palavra” (Mt 22,15). Não estão à procura da verdade e da vida, mas espalham armadilhas para enganar. Projetam no diálogo com Jesus a maldade e a divisão que polui o seu coração. Escolhem por este objetivo o terreno mais equivocado, o da política. Como diz o salmista, os ímpios “falam de paz com seu próximo, mas tem a malícia no coração” (Sl 28,3). No tempo de Jesus os romanos ocupavam com as tropas a terra de Israel e o povo era obrigado a pagar pesados tributos. O imperador de Roma, o César, era de fato o seu verdadeiro patrão. A tradição religiosa de Israel, ensinava, ao contrário, que o único dono do povo eleito devia ser considerado o Senhor, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus que tinha libertado seu povo da escravidão do Egito. Este conflito de consciência despertava repetidas rebeliões sociais e militares entre o povo, que os romanos sufocavam com o sangue e, no final, com a destruição de Jerusalém no ano 70. Aceitar pagar a taxa do tributo significava reconhecer e aceitar a dominação dos romanos, estrangeiros e pagãos. Isto significava para Jesus perder o favor do povo. Por outro lado, a recusa do pagamento provocaria a reação violenta dos ocupantes. Qualquer resposta, imaginam os adversários de Jesus, acabaria colocando-o numa situação desfavorável e perigosa. Jesus desmascara a sua malícia. Indica a autêntica relação do homem e da mulher, assim como do poder publico, para com Deus e para com o homem, pois o poder existe para servir as pessoas. Jesus não aceita a contraposição entre Deus e o homem, mas destaca a primazia absoluta de Deus, como a nascente da liberdade do homem e da natureza do poder como serviço. “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Da primazia de Deus brota aquela unidade interior que gera a liberdade da consciência para a orientação da própria vida, e o respeito das obrigações em relação à legitima autoridade pública no nível social, quando suas disposições não violam a consciência das pessoas nem o bem comum. A comum pertença à sociedade gera a obrigação moral e civil de contribuir com o bem comum, pagando impostos justos ao Estado, para que este os invista em serviços de pública utilidade. Assim, a autoridade pública tem o dever de não se aproveitar dos recursos públicos para fins particulares. Ainda mais, da relação com Deus como referência fundamental da própria vida, nasce a exigência e a capacidade de empenhar-se com todas as suas energias ao serviço da sociedade e da promoção da justiça. “A ação política, conduzida com integridade e profissionalismo, dizia Paulo VI, constitui o mais alto exercício da caridade”. Não instrumentalizar a religião para fins políticos, nem pretender fazer do poder político um instrumento impróprio, para dominar sobre os demais, nem para impor a própria visão religiosa, invés de respeitar e promover a liberdade e o crescimento integral das pessoas. Quantos abusos e quantas distorções se podem observar no cenário público! Isto constitui um grande desafio para os cristãos do nosso tempo, conscientes da própria responsabilidade histórica em relação à sociedade.  Já através dos profetas o Senhor tinha afirmado o valor supremo da sua relação conosco, graças à aliança no amor: “Eu serei seu Deus e eles serão meu povo” – “Eu serei Deus para vocês e vocês serão povo para mim” (cf. Jer 31,33).   lei da aliança deixa de ser uma obrigação exterior para tornar-se a inspiração que atinge o coração do homem sob o influxo do Espírito, e orienta sua existência em todas suas manifestações, individuais e públicas. O homem renovado pelo Espírito de Deus acaba com a divisão interior e com as ambiguidades nas suas relações com os demais. Tudo nele, quando vive sob esta influência benéfica e criadora do Espírito, é ao mesmo tempo resposta de amor a Deus e serviço de amor ao próximo. Diante de uma nova pergunta maliciosa de um fariseu sobre qual fosse o maior dos mandamentos, Jesus indica na unidade indivisível do amor sem limites e sem reserva a Deus e ao próximo, o sentido supremo e único de toda a escritura: “Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mt 22, 34-40).  A consciência que Deus guia a história de cada um, e de toda a humanidade com sua providência e sua fidelidade, sobretudo em favor dos mais necessitados, desperta a força interior e a esperança. Esta força interior gerou – e continua gerando – tantos mártires cristãos ontem e hoje.  Esta é a mensagem fundamental que o profeta apresenta ao povo de Israel, no momento em que, depois de quase cinqüenta anos de exílio da própria terra, não tem a coragem nem de esperar mais um futuro diferente. O profeta, ao contrário, iluminado pelo Espírito do Senhor consegue ler na ascensão militar e política do rei Ciro, no ano 535 a.C., a manifestação da providência com a qual Deus dirige a história em favor do seu povo, além da presunção de onipotência que o próprio Ciro talvez tenha de si mesmo. “Por causa de meu servo Jacó e de meu eleito Israel, chamei-te (Ciro) pelo nome; reservei-te e não me reconheceste. Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim não há deus” (Is 45, 4-5). Aqui está uma mensagem muito importante e atual para nós também. Às vezes temos a tendência a julgar os acontecimentos turbulentos e as profundas transformações sociais, políticas, econômicas, culturais e religiosas da nossa época, somente como elementos negativos. E ficamos sonhando voltar ao passado, imaginado-o como melhor. Falta-nos às vezes a consciência de ser “amados por Deus” e de ser “do número dos escolhidos”, como lembra o apóstolo Paulo aos Tessalonicenses (segunda leitura). Esta é condição indispensável para manter viva a atuação da nossa fé, o esforço da nossa caridade e a firmeza da nossa esperança em Cristo (1 Ts 1,3). Falta-nos a capacidade de exercitar a leitura profética da situação, para descobrir a eventual função libertadora em nosso favor que ela guarda escondida em si mesma. Quais são as novas oportunidades para crescer em autenticidade, na nossa humanidade e na experiência da nossa fé, da nossa esperança e da nossa caridade? Qual é o “Ciro”, escolhido misteriosamente por Deus, para nos abrir um novo caminho de vida mais autêntica? Seria um exercício muito proveitoso parar um pouco em silêncio e em oração diante de si mesmo e do Senhor; re-ler na luz do Espírito, a própria história, e tentar reconhecer quantas vezes à primeira vista certa situação nos parecia somente negativa e depois se revelou ser um “Ciro libertador”, uma oportunidade oferecida pelo Senhor, em função de um salto de qualidade de nossa própria vida. Tentemos ficar um pouco mais conosco mesmos e com o Senhor neste domingo. Sem dúvida acabará saindo dos nossos lábios, se formos sinceros, o canto de louvor e de admiração do salmista: “Cantai ao Senhor Deus um canto novo… Manifestai a sua glória entre as nações e, entre os povos do universo, seus prodígios!… Adorai-o no esplendor da santidade, terra inteira, estremei diante dele” (Salmo Responsorial).

Santo Evangelho (Lc 11, 37-41)

28ª Semana Comum – Terça-feira 17/10/2017

Primeira Leitura (Rm 1,16-25)
Leitura da Carta de São Paulo aos Romanos.

Irmãos, 16eu não me envergonho do Evangelho, pois ele é uma força salvadora de Deus para todo aquele que crê, primeiro para o judeu, mas também para o grego. 17Nele, com efeito, a justiça de Deus se revela da fé para a fé, como está escrito: O justo viverá pela fé. 18Por outro lado, a ira de Deus se revela, do alto do céu, contra toda a impiedade e iniquidade dos homens que em sua iniquidade oprimem a verdade. 19Pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto aos homens: Deus mesmo lhes manifestou. 20Suas perfeições invisíveis, como o seu poder eterno e sua natureza divina, são claramente conhecidas através de suas obras, desde a criação do mundo. Assim, eles não têm desculpa 21por não ter dado glória e ação de graças a Deus como se deve, embora o tenham conhecido. Pelo contrário, enfatuaram-se em suas especulações, e seu coração insensato se obscureceu: 22alardeando sabedoria, tornaram-se ignorantes 23e trocaram a glória do Deus incorruptível por uma figura ou imagem de seres corruptíveis: homens, pássaros, quadrúpedes, répteis. 24Por isso, Deus os entregou com as paixões de seus corações a tal impureza, que eles mesmos desonram seus próprios corpos. 25Trocaram a verdade de Deus pela mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 18)

— Os céus proclamam a glória do Senhor!
— Os céus proclamam a glória do Senhor!

— Os céus proclamam a glória do Senhor, e o firmamento, a obra de suas mãos; o dia ao dia transmite esta mensagem, a noite à noite publica esta notícia.

— Não são discursos nem frases ou palavras, nem são vozes que possam ser ouvidas; seu som ressoa e se espalha em toda a terra, chega aos confins do universo a sua voz.

 

Evangelho (Lc 11,37-41)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 37enquanto Jesus falava, um fariseu convidou-o para jantar com ele. Jesus entrou e pôs-se à mesa. 38O fariseu ficou admirado ao ver que Jesus não tivesse lavado as mãos antes da refeição. 39O Senhor disse ao fariseu: “Vós fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades. 40Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? 41Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
Santo Inácio de Antioquia, portador de Deus

Santo Inácio de Antioquia foi muito amado em Antioquia e no Oriente todo

Neste dia deparamos com a fé ardente, doação completa e amor singular ao Cristo do mártir Inácio, sucessor de São Pedro em Antioquia da Síria, que desde a infância conviveu com a primeira geração dos cristãos.

Como Bispo foi muito amado em Antioquia e no Oriente todo, pois sua santidade brilhava, tanto que o prenderam devido a sua liderança na religião cristã, durante o Império de Trajano, por volta do ano 107.

Chamado Teóforo – portador de Deus – Inácio, ao ser transportado para Roma, sabia que cristãos de influência na corte imperial poderiam impedi-lo de alcançar Cristo pelo martírio, por isso, dentre tantas cartas que enviara para as comunidades cristãs, a fim de edificar, escreveu em especial à Igreja Católica em Roma: “Eu vos suplico, não mostreis comigo uma caridade inoportuna. Permiti-me ser pasto das feras, pelas quais me será possível alcançar Deus, sou trigo de Deus e quero ser moído pelos dentes dos leões, a fim de ser apresentado como pão puro a Cristo. Escutai, antes, as feras, para que se convertam em meu sepulcro e não deixem rasto do meu corpo. Então serei verdadeiro discípulo de Cristo”.

Nesta mesma carta há uma preciosa afirmação sobre a presença de Cristo na Eucaristia: “Não encontro mais prazer no alimento corruptível nem nos gozos desta vida, o que desejo é o pão de Deus, este pão que é a carne de Cristo e, por bebida, quero seu sangue, que é o amor incorruptível”.

Santo Inácio escreveu sete cartas: Epístola a Policarpo de Esmirna, Epístola aos Efésios, Epístola aos Esmirniotas, Epístola aos Filadélfos, Epístola aos Magnésios, Epístola aos Romanos, Epístola aos Tralianos.

Santo Inácio foi, de fato, atirado às feras no Coliseu em Roma no ano 107, e hoje intercede para que comecemos a ter a têmpera dos mártires a fim de nos doarmos por amor.

Santo Inácio de Antioquia, rogai por nós!

Todos somos heterossexuais

Sexualidade

A Igreja, que é mãe e mestra, acolhe cada pessoa como Jesus as acolhe, aceitando o pecador, mas não o pecado

A homossexualidade pode ser definida como uma atração sexual prevalente e estável por pessoas do próprio sexo. Sendo simplesmente uma atração (inclinação, tendência…), como outras tendências (musicais, esportivas, alimentares…), independente da identidade da pessoa, a homossexualidade não constitui o aspecto essencial e não é, portanto, a natureza, a condição ou o estado dessa pessoa.

Pode-se afirmar, a rigor de lógica, que não existem homossexuais, mas pessoas com orientações homossexuais. É fundamental distinguir entre a tendência homossexual e a pessoa que prova essa tendência. Pode-se considerar a homossexualidade um problema, desaprovar as uniões homossexuais e considerar imoral tais atos; mas nos confrontos dessas pessoas são necessários compreensão e respeito. Do mesmo modo, uma atitude crítica em relação à homossexualidade não significa “homofobia” nem desprezo com pessoas que possuem essa tendência. A homossexualidade não é determinada pelo comportamento sexual. Existem, de fato, pessoas com tendências homossexuais absolutamente castas ou que possuem relações heterossexuais, assim como existem pessoas com uma orientação heterossexual, mas que, por diferentes motivos, experimentam comportamentos homossexuais, sem que estes modifiquem sua orientação sexual.

A homossexualidade não diz respeito apenas e exclusivamente à orientação sexual. Sua raiz se coloca como a identidade de gênero, ou seja, a consciência do papel que os indivíduos do próprio sexo desenvolvem na sociedade. O fundamento da homossexualidade – como evidenciou Alfred Abner (1870-1937) e foi confirmado mais recentemente por Irving Bieber (1908-1991) – é que os homens que provam tendências homossexuais não se percebem à altura dos outros homens, capazes de poder satisfazer as exigências que a sociedade faz aos representantes do próprio gênero, dotados daquelas características viris que, na realidade, cada homem deve fastidiosamente construir. Esses admiram, invejam e, portanto, sentem-se atraídos por outros homens que veem mais desejosos de si.

Isso implica que as pessoas com tendências homossexuais são, na realidade, heterossexuais com problemas de identidade de gênero. Não existem, portanto, “homossexuais latentes”, porque não existe uma natureza homossexual que possa não se manifestar, nem existe uma tendência homossexual se ela não é advertida; e mais ainda, pode-se afirmar que as pessoas com tendências homossexuais são, na realidade, “heterossexuais latentes”.

Outra distinção importante é aquela entre as pessoas com tendências homossexuais e os gays: enquanto a palavra “homossexualidade” indica simplesmente uma atração ou tendência, a palavra “gay” indica uma identidade sócio-política. Nem todas as pessoas com tendências homossexuais se reconhecem na identidade gay; a maior parte deles não é orgulhoso dessa inclinação e, por isso, sofrem muito, nem mesmo consideram a homossexualidade positiva para si e para a sociedade. Uma das questões mais debatidas sobre o argumento homossexual é se a homossexualidade é algo natural. A questão nasce de um equívoco de fundo: não é de fato natural tudo que existe, nem mesmo tudo que fazem os animais. O termo “natural” indica aquilo que deveríamos ser, aquilo que seremos se o nosso desenvolvimento não encontrasse obstáculos. Em uma palavra, é o nosso projeto vital.

Da mesma forma que a obesidade existe, mas não é natural, também a homossexualidade não é natural, porque todas as pessoas são heterossexuais, a não ser que algo intervenha, elimine a sua identidade de gênero e faça surgir um sentido de inferioridade, de diversidade e dificuldade em relação às outras pessoas.

Os ativistas gays fortemente sustentam a hipótese de que a homossexualidade tenha uma causa biológica. No imaginário comum, de fato, tudo aquilo que é biológico é facilmente identificado como alguma coisa de inelutável, e que, portanto, deve ser aceito. Todavia, estudos científicos excluem a possibilidade de uma causa biológica da homossexualidade: independente de títulos jornalísticos tanto de grande circulação como não tanto, não existe um “gene gay”, um “cérebro gay” ou um “hormônio gay”; no máximo – mas sem nenhuma certeza científica – pode-se fazer hipótese de uma predisposição biológica que é bem diferente de uma causa biológica. Mas, com certeza, há influências ambientais (familiar, social, experiência de vida etc.) que determinam um sentido de inferioridade em relação às pessoas do mesmo sexo, e, portanto, o desenvolvimento da homossexualidade.

A título de conclusão: é possível que uma pessoa com tendências homossexuais mude sua orientação sexual? Sim. Há testemunhos de experiências clínicas (Nicolosi, van den Aardweg, Bieber, Spitzer…) como também de associações de pessoas que mudaram sua orientação sexual. Existe também uma vastíssima bibliografia, seja em português ou em outras línguas, principalmente em inglês e francês, muito importantes, como a carta que Joseph Ratzinger escreveu: CARTA AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA SOBRE O ATENDIMENTO PASTORAL 
DAS PESSOAS HOMOSSEXUAIS.

Antes de darmos um juízo final sobre tal comportamento ou tendência, saibamos que por trás de cada um existe uma história, e que a Igreja, que é mãe e mestra, acolhe cada pessoa como Jesus as acolheu, aceitando o pecador, mas não o pecado. Ajudemos a cada um desses nossos irmãos e irmãs com nossa oração e caridade.

Anderson Marçal Moreira é padre da Igreja Católica Apostólica Romana. Natural da cidade de São Paulo (SP), padre Anderson é membro da comunidade Canção Nova desde o ano 2000. No dia 16 de dezembro de 2007, foi ordenado sacerdote. Estudou Teologia Pastoral Bíblica-Litúrgica na Universidade Salesiana de Roma.

 

Entrevista exclusiva
Igreja não mudou posição sobre homossexuais, afirma cardeal 
Quarta-feira, 15 de outubro de 2014, Kelen Galvan Da redação, com colaboração de Danusa Rego

Cardeal Odilo Scherer diz que interpretação sobre mudança de postura da Igreja quanto aos homossexuais é errônea

A Igreja não mudou sua posição em relação às uniões de pessoas do mesmo sexo. Foi o que afirmou o Cardeal Odilo Pedro Scherer, que participa dos trabalhos da 3º Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, sobre a Família, no Vaticano, em entrevista exclusiva à nossa correspondente em Roma, Danusa Rego.

O cardeal comentou a repercussão das mídias, que, em alguns casos, trouxeram interpretações equivocadas sobre o relatório da primeira semana do Sínodo, apresentado nesta segunda-feira, 13.

Dom Odilo enfatizou que o relatório foi apenas um “apanhado” geral de tudo o que foi apresentado rapidamente em mais de 200 intervenções, e o texto ainda passará por discussões. Ele lembrou também que o documento final do Sínodo será concluído apenas em outubro de 2015.

Outro alerta do cardeal foi a respeito de decisões de Francisco. Segundo ele, “não houve nenhuma decisão do Papa”, pelo contrário, o Santo Padre está em atitude de escuta. “Ele está participando de quase tudo, quietinho, ouvindo, porque o Sínodo é chamado justamente a falar, e o Papa ouve”, explicou.

Canção Nova – Dom Odilo, na segunda-feira, o Cardeal Péter Erdõ, leu o chamado relatório pós-congregações, que sabemos não ser ainda o documento final do Sínodo, não é mesmo?

Dom Odilo – De fato, esse relatório, preparado pelo Cardeal Erdõ, de Budapeste, que é o relator geral do Sínodo, ajudado naturalmente pela equipe de secretaria, tentou trazer uma síntese de tudo o que foi apresentado durante a semana, por mais de 200 intervenções dos membros do Sínodo, que falaram por três ou quatro minutos.

Portanto, foram muitas intervenções e o relator fez um apanhado organizando essas sínteses com uma reflexão, títulos e assim por diante.

Então, esse relatório não é ainda uma decisão, não é um documento do Sínodo. É um relatório. E um relatório que, naturalmente, está sendo trabalhado ulteriormente pelo Sínodo, porque os grupos menores são parte da metodologia.

O Sínodo é maior que o trabalho do relator. Então, o Sínodo continua trabalhando sobre esse relatório agora para complementar, ampliar, aprofundar e cortar, se for o caso, alguma questão. E, naturalmente, isso parte da metodologia do Sínodo.

O que eu quero destacar é que, de fato, esse relatório apresentado é de síntese, não é nenhum documento aprovado.

Canção Nova – Ontem, um dos cardeais afirmou ter visto com surpresa a forma que algumas mídias noticiaram os fatos dessa semana, como se o Papa já tivesse decidido alguma coisa. Lemos em alguns jornais, por exemplo, que os bispos defendem mudanças profundas na relação do Vaticano com os homossexuais, e que bispos conservadores estariam reagindo à abertura da Igreja com relação aos gays. O senhor poderia também esclarecer essa questão?

Dom Odilo – Para começar, não houve nenhuma decisão do Papa. Ele está participando de quase tudo, quietinho, ouvindo, porque o Sínodo é chamado justamente a falar e o Papa a ouvir. O Papa não está intervindo constantemente. Ele ouve. E, portanto, não tomou nenhuma decisão.

Então, noticiar que o Sínodo tomou essa decisão, mudou isso ou aquilo, não é verdade. Isso ainda não aconteceu nem é parte da metodologia do Sínodo, mas o Papa incentivou que todos tivessem a coragem de falar, francamente e livremente.

Ele até disse: “Quem garante a unidade da Doutrina é o Papa; portanto, falem livremente, porque nós estamos num Sínodo”. Sínodo significa um caminho, a busca de um caminho comum.

As reflexões evidentemente não são todas iguais. Nos mais de 200 participantes desta Assembleia Sinodal, há muitas maneiras diferentes de ver as coisas. Isso tudo é apresentado; então, é claro que as posições não são iguais. Mas isso não significa que estão aí debatendo uns contra os outros, que está tendo partido aqui, bancada lá. Isso é uma fantasia que, talvez, caiba nos parlamentos políticos, mas não está acontecendo na Igreja.

O que está havendo é a livre manifestação das ideias, das reflexões que, agora, buscam chegar a um caminho comum. Sínodo é isso: um caminho comum, que, de toda maneira, ainda tem muitas etapas para fazer, para se chegar a um documento final. Inclusive, o caminho a fazer é a próxima Assembleia do Sínodo do ano que vem.

Canção Nova – Nós falamos dos homossexuais, talvez seja interessante esclarecer também que não é uma grande novidade a acolhida da Igreja para com essas pessoas, não é Dom Odilo?

Dom Odilo – De fato, às vezes, apresenta-se como grande novidade aquilo que já está, é parte da vida da Igreja, é parte das atitudes dela, da sua doutrina. Então, não houve também nada de mudança nesse sentido. É só olhar o que está nos documentos da Igreja a respeito dos homossexuais.

O que se disse erroneamente é que a Igreja mudou sua posição em relação à união de pessoas do mesmo sexo. Isso não aconteceu. Não houve uma mudança de posição.

O que houve no Sínodo foram várias considerações, porque isso também está na pauta, no Instrumento de Trabalho, a respeito das uniões de pessoas do mesmo sexo. Como encarar isso? Como encarar a presença dos homossexuais na Igreja? Como encarar a adoção de filhos e a educação deles? Como encarar duas pessoas do mesmo sexo que adotaram uma criança e querem batizá-la? Tudo isso foi refletido. Mas não houve mudança de posição na Igreja em relação àquilo que já se fazia.

Canção Nova – Para que as pessoas compreendam melhor, qual o clima desses trabalhos sinodais entre os cardeais, os bispos e até mesmo os leigos que participam dessas discussões?

Dom Odilo – O clima é muito bom, sereno e fraterno, de grande liberdade e de grande caridade também no escutar. Basta pensar que, na semana passada, ficamos a semana inteirinha, manhã e tarde, escutando os outros que falavam, e ficávamos quietinho. Eu falei duas vezes durante a semana e o resto foi escutar.

Então, a gente faz a caridade da escuta, da paciência, do discernimento, da acolhida de quem pensa diferente para chegar justamente a uma maior luz sobre a verdade que tem de ser acolhida e seguida.

O clima é muito fraterno, portanto, entre todos os participantes do Sínodo, isso não impede que cada um expresse livremente, com toda a sua convicção, aquilo que pensa; e isso é necessário, porque se todo mundo pensa a mesma coisa, nós não vamos para a frente nem seria necessário fazer um Sínodo.

Canção Nova – Como caminham os trabalhos dos círculos menores, em especial do grupo do qual o senhor participa?

Dom Odilo – Eu estou num grupo de língua espanhola. Infelizmente, não temos um grupo de língua portuguesa. Esse grupo é formado sobretudo de latino-americanos, de bispos de toda a América Latina e um ou outro da Espanha, portanto, bastante diversificado.

O grupo é muito vivo, muito interessado nas questões, com muitas sugestões, muita criatividade que está sendo manifestada. Nós estamos fazendo muitas propostas, emendas para enriquecer o texto e, depois, reapresentá-las no plenário, para que elas possam ser integradas ao texto global.

Desapego

Há uma insaciável febre de compras

Não é fácil enfrentar um tempo marcado por propostas estimulantes de consumismo e com requinte de esbanjamento. A questão é tão grave que chega até a provocar desequilíbrio social, complicando a vida de muitas pessoas em condições financeiras desconfortáveis. Há uma insaciável febre de compras, induzida pela força e pertinência da mídia.

Seria saudável se todas as pessoas tivessem o necessário para o próprio consumo, mas com capacidade também para certas renúncias, concretizando uma vida de desapego e capacidade de partilha fraterna. Apego exagerado a determinadas riquezas pode denotar sintoma de injustiça, de incapacidade para viver em comunidade e de enxergar o vazio na vida de muitos outros.

Não encarar o desapego de forma concreta pode levar o rico a ficar cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre. Com isto aumenta o fosso existente entre uma classe social e outra, ocasionando uma sociedade que experimenta “na pele” o mundo da violência, do inconformismo e da insegurança. Com isto, sofrem os ricos e os pobres e toda a sociedade com eles.

Existem administradores desonestos e inescrupulosos, agindo de forma escandalosa e injusta com todos. É uma esperteza que clama aos céus, provocando a ameaça e o confronto da justiça. Sabemos que, quem pratica o mal, mais cedo ou mais tarde, poderá sofrer as consequências. A injustiça, em muitos casos, é percebida por quem de direito que, às vezes, toma providências.

É importante agir com inteligência diante dos bens que o mundo coloca à nossa disposição. São repugnantes as fraudes que se cometem na administração pública e nos atos privados, deixando transparecer apego a realidades que pertencem a outros. Diz o Mestre Jesus que os filhos das trevas são muito espertos.

O desapego faz as pessoas serem ricas diante de Deus, porque a vida do mundo passa e tudo fica por aí. A grande riqueza é a vida em todas as suas dimensões, na integridade e gratuidade diante da natureza e do Criador. A riqueza pode criar vazio, porque ela é passageira.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba (MG)

Espiritualidade Missionária

Por Mons. Inácio José Schuster

I. TENTANDO ENTENDER O QUE É ESPIRITUALIDADE

Não são poucos os agentes de pastoral que costumam reclamar: falta espiritualidade em nosso grupo! Quando os cristãos manifestam essa inquietação, o que na verdade, estão demandando? Creio estarem denunciando o fato de se sentirem meros executores de obras meritórias. Sentem-se meros “tarefeiros”. Cumprem tarefas, promovem e participam de muitas reuniões, visitam doentes, sobem em favelas e descem em vilas, organizam encontros e assembléias. Trabalham, evangelizam e sentem-se vazios, desmotivados. E alguns, diante das primeiras dificuldades na convivência, no relacionamento com os outros irmãos de caminhada, desistem e deixam o trabalho no meio do caminho. Sim, talvez tenha faltado espiritualidade, porque a Igreja não é uma empresa a que prestamos serviço… Sentimos falta de espiritualidade. Mas o que significa exatamente essa palavra? Evidentemente, ela vem de “espírito”.

Pedimos socorro ao Aurélio e lá encontramos algumas definições para a palavra espírito:
• A parte imaterial do ser humano, a alma.
• Entidade sobrenatural ou imaginária como os anjos, o diabo, os duendes.
• Pessoa dotada de inteligência ou bondade acima do comum: é um grande espírito!
• ânimo, índole.
• Líquido obtido pela destilação, álcool.
Perdemos tempo. Aurélio não nos ajudou, deixou-nos na mão. Mas não nos precipitemos. Aproveitemos alguma coisa.

Talvez nos sirvam os conceitos “ânimo, índole”. Espírito seria aquilo que anima a nossa ‘ânima’, a nossa alma. Seria o nosso entusiasmo, seria a nossa motivação maior, seria o nosso cerne, aquilo que sobra quando tudo acaba. No AT, o termo que traduz espírito é ruah, que significa hálito. O respiro que pode ser concebido como um princípio ou como um sinal de vida. Lá no Gênesis, o espírito da vida é o hálito. A respiração é o hálito de Deus, o sopro comunicado ao homem por insuflação divina (Gn 2,7). O espírito no AT, originalmente vento e sopro, é concebido como uma entidade divina dinâmica, pela qual Deus-Iahweh realiza seus objetivos.
No NT, o termo que traduz espírito é PNEUMA. Muito semelhante ao sentido e ao uso da palavra ruah: é o movimento do ar, principalmente sopro ou vento. A novidade do NT: espírito como força de Deus, presente em Jesus Cristo e posteriormente nos apóstolos. O Espírito é dado, antes de tudo, ao próprio Jesus no batismo. Em Jo aparece como o Paráclito, o espírito de verdade que o mundo não conhece. Dessa forma, Espiritualidade seria viver uma vida segundo o Espírito, uma vida no Espírito, aí se contrapondo à vida segundo a carne, à vida na carne. Essas duas situações fundamentais que caracterizam o ser humano são desafios que exigem uma definição e uma opção fundamental.

1. Uma pessoa pode viver segundo a carne e seus imperativos:
•Organiza sua vida segundo as diretrizes do mundo débil, caduco e mortal;
•Considera sua vida no mundo como a única realidade e obedece aos mecanismos da mortalidade. “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos”.
•Fecha-se sobre si mesmo, goza egoisticamente dos bens terrenos e atende indistintamente às exigências das paixões humanas.
•Não vislumbra nada para além do nascimento e da morte.
•Tudo se reduz em construir este mundo, assegurá-lo o mais possível preservado da morte, embora jamais o consiga.
•Para o homem do projeto-carne, a ganância de acumular é inteligência, a rapina é esperteza, a trapaça é habilidade, a corrupção é sagacidade nos negócios, exploração do outro é sabedoria de um trabalho lucrativo.
•Conseqüências da vida segundo a carne: impureza, ódios, discórdias, ciúmes, invejas, divisões (cf. Gl 5, 19-21). As Escrituras entendem como sinônimo: andar no pecado. Carne é a debilidade moral, a infidelidade na obediência a Deus.

2. Viver segundo o espírito é outra opção fundamental para a existência humana. Quem vive nessa dimensão não está livre do peso da vida, das tribulações, da dor e da angústia.
• Quem assim vive assume sem lamúrias a condição humana.
• Acolhe a mortalidade e a pequenez como vindas de Deus.
• Para tal pessoa, o mundo não fornece o sentido derradeiro das buscas do coração. Somente Deus pode ser o descanso do inquieto coração.
• A pessoa espiritual vê este mundo com os olhos da eternidade. Esta vida não é tudo. Viver segundo o espírito é viver filialmente face a Deus na devota obediência de sua vontade. Fraternalmente com os irmãos e senhorilmente frente ao mundo como um livre Senhor e responsável pela reta ordem das realidades do mundo.
À luz desta compreensão, Jesus podia dizer: “O Espírito é quem dá a vida. A carne não serve para nada” (Jo 6, 33). E São Paulo redizia: “As tendências da carne são a morte, mas as do espírito são a vida e a paz” (Rm 8, 6). Quem vive o projeto do espírito lentamente vai vivificando a carne. Não é possível jogar a carne fora. A vida segundo o espírito não consiste em recalcar ou negar a própria realidade da criação. Pelo contrário, exige um acolhimento e aceitação humilde. Esta atitude tem como conseqüência o triunfo da vida. Espiritualidade é viver segundo o Espírito do Senhor, tentando fazer novas todas as coisas. É uma resposta pessoal à presença de Deus, uma experiência interior, um encontro pessoal e profundo com o Pai misericordioso. Faz-se como uma oração silenciosa… A vivência de uma espiritualidade provoca um certo esquecimento de si, generosidade, desapego das coisas, relatividade dos acontecimentos. Qualquer realidade, mesmo as realidades mais concretas e materiais, quando tocadas por Deus, ficam espirituais. Assim, alguém que dá comida a um faminto movido por Deus, faz um ato espiritual. Viver uma espiritualidade é cultivar a presença de Deus em nós. Presença que envolve todo nosso ser: corpo, sexualidade, afetividade, inteligência, vontade, liberdade, relação com os outros, com as coisas, com o mundo, com Deus. Qualquer espiritualidade supõe uma experiência de Deus.

Condições para a experiência de Deus:
1. Acreditar que Ele existe, está vivo.
2. Fazer silêncio dentro de si para escutá-lo.
3. Prestar atenção nessa Presença.
4. Responder, acolher ativamente sua Presença na práxis.

II. A ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA

Missão sempre evoca uma ação, uma atividade. Quando pensamos num missionário, sempre o imaginamos envolvido em mil atividades. Caminhando, subindo e descendo vilas, batendo de porta em porta, atendendo uma fila de centenas de pessoas doentes. O missionário é o homem e a mulher incansáveis. Deixaram tudo: família, amigos, país natal e partiram para um desafio que exige, antes de tudo, esforço físico. O missionário, nessa concepção, é um atleta, um ginasta, que precisa ter, antes de tudo, preparo físico. Ser missionário é quase uma malhação. Dessa forma, ficam imediatamente excluídos da possibilidade de ser missionários: os idosos, os enfermos, as crianças, os monges, as monjas. Fica difícil entender que Santa Teresinha do Menino Jesus seja apresentada como modelo de missionária, aliás, Padroeira Universal das Missões da Igreja. Dessa caricatura podemos deduzir que o missionário, nessa perspectiva, transforma-se num “tarefeiro”. Cumpre tarefas. Se o missionário não cultivar uma espiritualidade própria, uma mística, bem cedo ele vai pedir aposentadoria. Cansado, extenuado, suado, vai desistir de sua missão, caso não cultive o que podemos chamar de vida interior.
“A Espiritualidade missionária exprime-se, antes de tudo, no viver em plena docilidade ao Espírito, e em deixar-se plasmar interiormente por Ele, para se tornar cada vez mais semelhante a Cristo” (João Paulo II, A Missão do Redentor, n. 87). O Papa nos lembra que os apóstolos eram muito limitados. Amavam o mestre, eram generosos na resposta a seus apelos, mas mostravam-se incapazes de compreender suas palavras e eram renitentes em segui-lo pelo caminho da cruz. O Espírito cuidará de transformá-los em testemunhas corajosas e anunciadores esclarecidos de sua Palavra: será o Espírito quem os conduzirá pelos caminhos árduos e novos da missão. Continua o Papa a afirmar que a nota essencial da espiritualidade missionária é a comunhão íntima com Cristo. Não é possível compreender e viver a missão, sem a referência a Cristo. Como “enviado”, o missionário experimenta a presença reconfortante de Cristo que o acompanha em todos os momentos da vida: “Não tenhas medo… porque Eu estou contigo” (At 18, 9-10). O chamado à missão deriva, por sua natureza, da vocação à santidade. Todo cristão só é autêntico missionário se empenhar no caminho da santidade. A vocação universal à santidade está estritamente ligada à vocação universal à missão. Por isso, o Papa nos exorta a que tenhamos um novo “ardor de santidade”, a sermos “contemplativos na ação”. Sem o Espírito, o Evangelho é morto e a evangelização é uma simples propaganda. Com o Espírito, entretanto, o Evangelho é força de Deus e a evangelização é um Pentecostes. As técnicas de evangelização são boas, mas mesmo as mais aperfeiçoadas não poderiam substituir a ação do Espírito Santo.

Já podemos falar em SANTIDADE MISSIONÁRIA, cujos elementos são os seguintes:
1. A centralidade de Cristo na vida do missionário e a abertura ao seu Espírito, que chama e envia gratuitamente à missão. Cristo oferece clarividência, paciência e perseverança, força e audácia nas decisões, criatividade na busca de soluções sempre novas. É imprescindível uma assimilação progressiva das motivações da fé em Cristo que nos libertam das ilusões.
2. A pobreza como condição e estilo de vida, que traz um êxodo constante de si mesmo, das seguranças, do desejo de poder. É convite ao desapego, ao desprendimento de certos modelos caducos. Saber mergulhar na ambigüidade da história, sem se escandalizar e sem se perder.
3. Amor eclesial: uma espiritualidade inspirada na missão cultiva uma relação de amor com a Igreja. Apesar das dificuldades e conflitos, o missionário não pode fechar-se num mundo reduzido. Sintonia com a Igreja Particular, afinidade e afabilidade para com o Pastor diocesano, engajamento nos planos pastorais diocesanos. Cuidar para não ser “livre atirador”, solista. Um missionário nunca está sozinho, deve buscar a comunhão e a participação. A eclesialidade supõe sujeição à caminhada eclesial. Mesmo que eu discorde de alguns pontos, não posso me excluir e buscar caminhos pessoais como criança emburrada.
4. Atitude de realismo: é necessária uma espiritualidade impregnada pela realidade. O idealismo do evangelizador não deve distanciá-lo do cotidiano da comunidade humana e cristã. Ver, julgar, agir. Não se esquecer do primeiro passo: VER. Ter senso crítico, não ser ingênuo, estar bem informado. A santidade missionária parte da vida para buscar na missão o sentido pleno da realização dessa mesma vida, tentando alcançar a libertação integral.
5. Abertura sem fronteiras: O amor de Jesus não tem fronteiras, muros, cercas, áreas privadas. “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos”? Ter uma espiritualidade sem fronteiras é considerar-se ponte entre a comunidade cristã e os povos de outras religiões. A missão torna-se uma visita respeitosa aos amigos, sem que se invada a casa alheia… O missionário é uma pessoa do diálogo, o que criará condições para a inculturação do Evangelho.
6. Atitude de provisoriedade: a vocação missionária é vocação de movimento, deslocamento. A dinâmica do provisório exige despojamento das ambições e projetos pessoais. Ninguém é insubstituível (o cemitério está cheio de insubstituíveis…). Saber dar lugar, saber a hora certa de partir para outros campos… “não grudar na peroba”… Não temos aqui morada permanente…

A espiritualidade missionária exige confronto com algumas tentações:
A) A tentação do protagonismo: não querer ser estrela. Evitar aparecer muito. Ser fermento na massa, ser “fogo de monturo”. Ex. Irmãzinhas de Jesus, de Charles de Foucauld. Criticar, sem aceitar as críticas, não saber escutar e colaborar… Lembrar-se que a Igreja é de Cristo. Sou mero instrumento. Evitar personalismo…
B) A tentação do fatalismo: Conformismo, desânimo diante da rotina ou da falta de resultados visíveis. Jesus pode fazer também das crises e dos fracassos ocasiões de crescimento. Vontade de largar tudo, jogar o arado para o lado. Lembrar que um planta e outro colhe… Os resultados não se vêem a curto prazo. Lançar sementes.
C) A tentação do narcisismo: Eu faço e aconteço… Sei que falo bem e transformo-me num sedutor pela palavra e não pelo testemunho. D) A tentação do ativismo: Agir sem motivações de fé e sem impregnar a ação com a contemplação. Passar de um projeto a outro sem uma adequada reflexão e sem um sério discernimento no Espírito. Descuidar da oração. Transformar-se numa “lata vazia” que só faz barulho. Dar “show”. Sem conteúdo, sem sentido, sem conversão, sem reconhecimento das próprias fraquezas.

 

ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA
É a espiritualidade nata do ser Igreja. A expressão “espiritualidade missionária” aparece, pela primeira vez, no Decreto Conciliar Ad Gentes (1965): “promover a vocação e a espiritualidade missionária, o zelo e a oração pelas missões” (AG 29). A Espiritualidade missionária também é vida segundo o Espírito, que “unifica a Igreja na comunhão e no ministério, dotando-a com vários dons hierárquicos e carismáticos. Vivifica as instituições eclesiásticas como se fosse a alma. Introduz nos corações dos fiéis o mesmo espírito missionário pelo qual era movido Jesus Cristo” (AG 4). Pelo batismo, o Espírito leva os batizados a participar de forma responsável na missão de Jesus. Todo o cristão é chamado a viver a vocação missionária, em nível pessoal e comunitário, na perspectiva da evangelização universal. A raiz da espiritualidade missionária é a incorporação na Igreja missionária que se origina da missão do Filho e da missão do Espírito, segundo a caridade, o “amor fontal” de Deus Pai. A espiritualidade missionária não é algo opcional, que está acima da realidade eclesial. Ela origina-se da natureza, da essência do ser Igreja. É a marca dos seguidores e seguidoras de Jesus que assumem as opções concretas da Igreja na sua caminhada, hoje, e até o final dos tempos. O missionário caracteriza-se pela caridade apostólica de Cristo, que veio “também para congregar na unidade os filhos de Deus dispersos” (Jo 11, 52), do Bom Pastor, que conhece as suas ovelhas, procura-as e oferece sua vida por elas (Jo 10). Quem tem espírito missionário sente o ardor de Cristo pelas almas e ama a Igreja como Cristo a amou. O missionário é impelido pelo zelo das almas, que se inspira na própria caridade de Cristo, feita de atenção, ternura, compaixão, acolhimento, disponibilidade e empenho pelos problemas dos filhos de Deus. É alguém que caminha pelas estradas do povo, que escuta, vê, sente as alegrias e dores, os sonhos e derrotas, abrindo sempre caminhos de esperança. Ser missionário é amar a Igreja. A Igreja que serve o Reino com o anúncio que chama à conversão, fundando comunidades, difundindo os valores evangélicos com seu testemunho e atividade, no diálogo, na promoção humana, no compromisso pela paz e pela justiça, na educação, no cuidado dos doentes, na assistência aos pobres e pequenos, mantendo sempre firme a prioridade das realidades transcendentes e espirituais, premissas da salvação escatológica. Por fim, por sua oração de intercessão (Redemptoris Missio 20). O missionário vive em função do Reino de Deus, sabendo que o seu serviço não é cargo vitalício, nem profissão. Exerce seu serviço de acordo com suas possibilidades e consentimento da comunidade; ele dá tudo de si, com a maior gratuidade e fidelidade, e crê na palavra de Jesus, que diz: “Quando tiverem cumprido tudo o que lhes mandarem fazer, digam: somos empregados inúteis: fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17, 10). “Isso que vimos e ouvimos nós agora o anunciamos a vocês, para que vocês estejam em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1, 3).

 

ESPIRITUALIDADE? O QUE É ISTO?
Frei Patrício Sciadini, ocd – 13/08/2003

Uma das palavras mais usadas nestes últimos tempos é espiritualidade, porque nos faz muita falta para o equilíbrio de nossa vida. Dizem os psicólogos que quando se fala muito de uma coisa é porque não a possuímos e, portanto somos carentes do que falamos. Não sei se esta teoria está certa, não é minha especialidade. O que posso dizer é que a espiritualidade não é uma teoria que preenche o coração de ninguém. Para que a espiritualidade se torne algo de pessoal e de amado deve sair do papel e do campo das idéias e se fazer vida. Somente quem vive olhando para o alto, não se deixando escravizar pelas coisas da terra pode lentamente tornar-se uma pessoa espiritual. Devemos evitar o espiritualismo que nos impede de compreender que a ação é o caminho certo de toda forma de espiritualidade. Se um dia você tiver a oportunidade de visitar uma livraria do aeroporto ou rodoviária ou qualquer outra livraria você fica espantado em ver tantos livros que são denominados de espiritualidade, mas que na verdade não passam de pequenas e às vezes insignificantes orientações emocionais e psicológicas que não atingem o verdadeiro sentido da vida. No respeito para todos estes autores que fazem um bem imenso aos que lêem, discordo de tudo isto porque me parece que não pode existir uma autêntica espiritualidade sem uma referência explícita a determinados valores fundamentais como a defesa da vida, da paz, dos direitos humanos. A busca da espiritualidade não pode prejudicar a ninguém, mas deve nos ajudar a ser cada vez mais livres da matéria e senhores dos nossos instintos. Verdadeira espiritualidade é fruto de uma luta corajosa, forte, onde ficamos feridos, arranhados e sangrando, mas não desistimos da luta. Um dos textos que mais me ajudam como aprender a verdadeira e autêntica espiritualidade é a carta de São Paulo aos gálatas. Ele nos recorda a beleza da nossa vocação, deste caminho espiritual que devemos percorrer e que devemos sempre ter presente na vida. “Fostes chamados para a liberdade”. Somente quem busca a autêntica liberdade se aventura no caminho espiritual. A liberdade não é como normalmente se entende dentro da linguagem das pessoas no dia a dia. Livre é quem faz o que quer e como bem entende. Há muitos autores que dizem: “tenho o direito de ser feliz e de buscar a minha felicidade e realização, portanto até que não encontre vou buscando, não importa se isto me faz romper os laços da família, do amor, dos compromissos do matrimônio ou do relacionamento familiar, o que vale é a minha felicidade”. Na verdade nunca seremos felizes se nos deixarmos dominar pelo egoísmo que está em nós. A liberdade é um sonho duro a ser conquistado e que vai exigindo muito de nós. Esta liberdade nos leva à verdadeira espiritualidade do amor. Mais reflito sobre o amor e menos sei, e, no entanto me parece que com os anos que vão chegando o compreendo mais. Mesmo quem sabe por que a memória dos fracassos me faz ver em outra perspectiva o mesmo amor que devo conquistar. Perceber a necessidade do amor para viver uma dimensão de vida que não pode ser “espiritualização” de nada, mas sim somente espiritualidade autêntica e vital. Será o mesmo São Paulo que vai apresentando uma lista interminável de frutos da carne. São 15 nomeados e outros que ele não nomeia. E todos são causas de perturbações que nos afastam do valor fundamental da vida. Há quem acha que viver a feitiçaria ou espiritualismo é espiritualidade, ou quem vive até rancores e domínio dos outros… Pensa que para dominar os demais se necessite de uma forte espiritualidade. Não há dúvida que são visões distorcidas da verdadeira e autêntica espiritualidade. Não podemos confundir a espiritualidade no sentido católico do termo, esta não pode Ter outro alicerce a não ser Cristo Jesus. Existem várias espiritualidades: budista, muçulmana, hinduísta, judaica… são janelas pelas quais as pessoas vêem a vida. Mas nós queremos ver a vida pela janela do Evangelho e do coração de Deus, por isso o único alicerce de toda a espiritualidade é a Palavra de Deus que nos alimenta em cada momento. Paulo diz que os que vivem os frutos da carne não podem entrar no reino de Deus. Não é necessário termos todos os frutos da carne, é suficiente ter um que nos domine, para não termos acesso à mesma vivência do reino. Um fruto influencia toda a nossa vida e nos escraviza. Os frutos do Espírito, que são o sinal do autocontrole e do senhorio de nós mesmos, nos fazem entrar na verdadeira liberdade. Quais são estes frutos do Espírito? Os frutos do Espírito são: caridade, alegria, paz, longanimidade, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, continência. Contra estes não há Lei (Gl 5, 22-23). Aqueles que vivem estes frutos do espírito não têm mais lei porque são orientados pelo amor e quem ama sabe que jamais poderá fazer o mal nem a si mesmo e nem aos outros. São João da Cruz, na sua visão de liberdade e de plenitude da vida, ensina que quem chega no cimo do monte encontra somente a honra e a glória de Deus, e que para o justo não há lei…O justo tem uma única lei que o orienta, o amor. Este não lhe permite mais ser escravo de nada e de ninguém. O caminho da verdadeira espiritualidade é um processo de libertação interior onde tudo está debaixo do poder da nossa liberdade e que nada mais poderá nos impedir de sermos livres no nosso agir. Na espiritualidade então percebemos que é necessário superar as ideologias mágicas que não realizam nada em nós. Por exemplo, a espiritualidade dos perfumes, das cores, do incenso queimado ou das novenas feitas somente pelo intuito de receber a graça e nada mais. São espiritualidades vazias e sem fundamento. É preciso que o Espírito encontre em nós uma resposta e se faça carne. Deus nos dá um espaço de tempo para viver a nossa espiritualidade e somente neste espaço de vida que somos chamados a realizar o seu projeto de amor. Não há nada de reencarnação e de caminhos de volta para nos purificar e chegar assim “à iluminação”. É aqui e agora que a nossa vida deve se realizar. Não há outras vidas e nem outra existência a não ser a vida eterna que se conquista no dia a dia duro e difícil do nosso carregar a cruz, e na luta sem trégua contra o mal que está dentro e fora de nós. Mas afinal o que é espiritualidade? É um estilo de vida pautado pelo Evangelho que visa a imitar a pessoa de Jesus. Seremos espirituais quando pudermos dizer com sinceridade com São Paulo apóstolo: “já não sou mais eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”.

Santo Evangelho (Lc 11, 29-32)

28ª Semana Comum – Segunda-feira 16/10/2017

Primeira Leitura (Rm 1,1-7)
Início da Carta de São Paulo aos Romanos.

1Paulo, servo de Jesus Cristo, apóstolo por vocação, escolhido para o Evangelho de Deus, 2que pelos profetas havia prometido, nas Escrituras, 3e que diz respeito a seu Filho, descendente de Davi segundo a carne, 4autenticado como Filho de Deus com poder, pelo Espírito de Santidade que o ressuscitou dos mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor. 5É por Ele que recebemos a graça da vocação para o apostolado, a fim de podermos trazer à obediência da fé todos os povos pagãos, para a glória de seu nome. 6Entre esses povos estais também vós, chamados a ser discípulos de Jesus Cristo. 7A vós todos que morais em Roma, amados de Deus e santos por vocação, graça e paz da parte de Deus, nosso Pai, e de nosso Senhor, Jesus Cristo.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 97)

— O Senhor fez conhecer a salvação.
— O Senhor fez conhecer a salvação.

— Cantai ao Senhor Deus um canto novo, porque ele fez prodígios! Sua mão e o seu braço forte e santo alcançaram-lhe a vitória.

— O Senhor fez conhecer a salvação, e às nações, sua justiça; recordou o seu amor sempre fiel pela casa de Israel.

— Os confins do universo contemplaram a salvação do nosso Deus. Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, alegrai-vos e exultai!

 

Evangelho (Lc 11,29-32)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 29quando as multidões se reuniram em grande quantidade, Jesus começou a dizer: “Esta geração é uma geração má. Ela busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas. 30Com efeito, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim também será o Filho do Homem para esta geração. 31No dia do julgamento, a rainha do Sul se levantará juntamente com os homens desta geração e os condenará. Porque ela veio de uma terra distante para ouvir a sabedoria de Salomão. E aqui está quem é maior do que Salomão. 32No dia do julgamento, os ninivitas se levantarão juntamente com esta geração e a condenarão. Porque eles se converteram quando ouviram a pregação de Jonas. E aqui está quem é maior do que Jonas”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
Santa Margarida Maria Alacoque, devota do Sagrado Coração de Jesus

Santa Margarida Maria Alacoque, diante do Coração Eucarístico começou a ter revelações divinas

Deus suscitou este luzeiro, ou seja, portadora da luz, que é Cristo, num período em que na Igreja penetrava as trevas do Jansenismo (doutrina que pregava um rigorismo que esfriava o amor de muitos e afastava o povo dos sacramentos). O nome de Santa Margarida Maria Alacoque está intimamente ligado à fervorosa devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Nasceu na França em 1647, teve infância e adolescência provadas, sofridas. Órfã de pai e educada por Irmãs Clarissas, muito nova pegou uma estranha doença que só a deixou depois de fazer o voto à Santíssima Virgem.

Com a intercessão da Virgem Maria, foi curada e pôde ser formada na cultura e religião. Até que provada e preparada no cadinho da humilhação, começou a cultuar o Santíssimo Sacramento do Altar e diante do Coração Eucarístico começou a ter revelações divinas.

“Eis aqui o coração que tanto amou os homens, até se esgotar e consumir para testemunhar-lhe seu amor e, em troca, não recebe da maior parte senão ingratidões, friezas e desprezos”. As muitas mensagens insistiram num maior amor à Santíssima Eucaristia, à Comunhão reparadora nas primeiras sextas-feiras do mês e à Hora Santa em reparação da humanidade.

Incompreendida por vários, Margarida teve o apoio de um sacerdote, recebeu o reconhecimento do povo que podia agora deixar o medo e mergulhar no amor de Deus. Leão XIII consagrou o mundo ao Sagrado Coração de Jesus e o Papa Pio XIII recomendou esta devoção que nos leva ao encontro do Coração Eucarístico de Jesus. Santa Margarida Maria Alacoque morreu em 1690 e foi canonizada pelo Papa Bento XV em 1920.

Santa Margarida Maria Alacoque, rogai por nós!

São Lucas, Evangelista – 18 de Outubro

Dia dos Médicos e das Médicas

São Lucas é uma das figuras mais simpáticas do Cristianismo primitivo. Homem de posição e qualidades, de formação literária, de profundo sentido artístico e divino, entrega-se plenamente ao Cristianismo logo que toma conhecimento dele na sua cidade, Antioquia, a grande metrópole romana do Oriente; subjuga-o a grandeza de São Paulo e converte-se no mais fiel e incondicional dos seus discípulos. Toda a sua ciência médica e literária põe-na à disposição do grande Apóstolo, entrega-lhe a sua pessoa e segue-o para toda a parte, como a sombra ao sol. Humilde e devoto, pode dizer-se dele que foi um desses homens admiráveis que brilham como estrelas de segunda ordem, ou melhor, que renunciam a brilhar por si mesmos para se entregarem a outros de mais altura, oferecendo assim o mérito da modéstia e uma ação mais fecunda, ainda que menos pessoal.
Assim é São Lucas. Teve a sorte invejável de encontrar-se no caminho da sua vida com um mestre espiritual incomparável. Entregou-se a ele sem reservas e com fé cega, na prosperidade e na adversidade. São Lucas deixou-nos como escritor duas obras divinas: o terceiro Evangelho canônico e a história dos primeiros dias cristãos e das missões de São Paulo. Em ambos os livros se mostra São Lucas o discípulo e admirador incondicional de São Paulo. Olha para Cristo com os olhos de São Paulo, “o seu iluminador”, como lhe chama Tertuliano. A história primeira do Cristianismo centra-a na figura de São Paulo. São Lucas identificou-se com a alma do seu mestre. Por isso o seu Evangelho pode chamar-se “o Evangelho de São Paulo”.
A mensagem divina de Jesus, vê-a São Lucas através do prisma de São Paulo, que lhe dá à inteligência profunda do mistério de Cristo. A filantropia (amizade para com os homens) de Deus resplandece de maneira extraordinária em São Lucas: a bondade misericordiosa, a benignidade que se inclina sobre todas as misérias. Jesus é o Salvador de todos os homens, de todos os povos, de todas as raças. A parábola da ovelha perdida, do filho pródigo, do bom samaritano, realçam em forma concreta o espírito universalista e misericordioso do Evangelho, que profundamente sentiu São Paulo. São Lucas é «o escritor da mansidão de Cristo».
Notou-se com razão o papel importante que desempenham as mulheres no Evangelho de São Lucas. O paganismo tinha rebaixado a nobre condição delas como companheiras do homem. São Paulo fez sobressair a igualdade de todos em Cristo, onde não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem ou mulher. São Lucas recolhe, da vida e ensinamento de Jesus, tudo o que pode realçar o valor e estima que teve pela mulher. Como médico, São Lucas tinha coração compassivo, conhecedor das misérias da humanidade, e estava preparadíssimo para assimilar o espírito filantrópico e essencialmente humano do Evangelho.
Onde nasceu São Lucas? A opinião mais provável diz-nos que foi natural de Antioquia da Síria. De origem pagã, deve lá ter conhecido muito cedo o Cristianismo e deve tê-lo abraçado com todas as veras do seu coração, como homem reto, bem disposto e desapaixonado. A tradição diz-nos que desde a juventude guardou perfeita castidade. Foi como açucena a brotar dentre águas corrompidas. Cumpriu-se nele a máxima de Jesus: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus». São Lucas viu e sentiu profundamente a formosura do Cristianismo. Num mundo que desconhecia, odiava ou punha a ridículo o nome de cristão, ele sentiu-lhe a formosura e diz-nos, cheio de santo orgulho, que foi a sua cidade, Antioquia, a primeira terra onde se começaram a distinguir os discípulos de Jesus com o nome glorioso de «cristãos».
Pelo ano de 50, durante a segunda missão de São Paulo, aparece pela primeira vez ao lado do Apóstolo. Acompanha-o pela Macedônia e a seguir aparta-se dele, em Filipos, até à terceira missão, pelo espaço de quase seis anos. Por 58 sobe com Paulo a Jerusalém, onde conheceu muitos discípulos imediatos de Jesus e se informou minuciosamente de tudo o que se referia à infância do Senhor, ao seu ministério público e à sua paixão e morte. Assim recolheu, com carinho de enamorado, os dados da Anunciação, Encarnação, Nascimento e crescimento de Jesus. Que cenas tão cheias de colorido, de luz, de paz e gozo espiritual! Quanto temos de agradecer, nós cristãos, à diligente e adorável pena de São Lucas!
Uma tradição – que recolheu no século XIV Nicéforo Calisto, inspirado numa frase de Teodoro, escritor do século VI – diz-nos que São Lucas foi pintor e fala-nos duma imagem de Nossa Senhora saída do seu pincel. Santo Agostinho, no século IV diz-nos pela sua parte que não conhecemos o retrato de Maria; e Santo Ambrósio, com sentido espiritual, diz-nos que era figura de bondade. Este é o retrato que nos transmitiu São Lucas da Virgem Maria: o seu retrato moral, a bondade da sua alma. O Evangelho de boa parte das Missas de Maria Santíssima é tomado de São Lucas, porque foi ele quem mais longamente nos contou a sua vida e nos descobriu o seu Coração. Duas vezes esteve preso São Paulo em Roma e nos dois cativeiros teve consigo São Lucas, “médico queridíssimo”. Ajudava-o no seu aposto lado, consolava-o nos seus trabalhos e atendia-o e curava-o com solicitude nos seus padecimentos corporais. No segundo cativeiro, do ano 67, pouco antes do martírio, escreve a Timóteo que “Lucas é o único companheiro” na sua prisão. Os outros tinham-no abandonado.
Não podemos explicitar onde esteve São Lucas no intervalo que separa os dois cativeiros de São Paulo, dos anos 64 a 67. Neste período, consta-nos que veio São Paulo à Hispânia; não se pode excluir a hipótese, para os peninsulares tão honrosa, de também São Lucas nos ter visitado.
Com a morte de São Paulo, eclipa-se na história São Lucas. Um escrito do século III diz-nos que morreu virgem na Bitínia, na idade de 74 anos, cheio do Espírito Santo. Santo Epifânio, no século IV, acrescenta que pregou o Evangelho na Itália, França, Dalmácia e Macedônia.
Sobre a sua morte não temos dados concretos nenhuns, mas uma tradição autorizada, que vem do século IV, assegura-nos que derramou o sangue por Cristo. Assim rubricou a verdade que tinha escrito para toda a Igreja e para o mundo inteiro, com a carta magna do seu Evangelho e com a história dos atos apostólicos. Podemos repetir a sentença de Pascal, falando de todos os Evangelistas: Creio fielmente na história dos que se deixam matar para dar testemunho da verdade do que escreveram. São Lucas é médico bondoso e serviçal, é literato, mas sobretudo é santo e mártir, que morreu pela fé que pregou de palavra e exarou nos seus livros.
É considerado o Padroeiro dos médicos, por também ele ter exercido esse oficio, conforme diz São Paulo aos Colossences (4, 14): “Saúda-vos Lucas, nosso querido médico”.

 

Papa a médicos católicos: reconhecer a face de Deus nos mais frágeis 
Valor da vida

Sexta-feira, 20 de setembro  de 2013, Jéssica Marçal, com Rádio Vaticano em italiano, Da Redação

Reunido com médicos católicos, Papa destacou o valor da vida humana

A vida humana é sagrada. Assim dirigiu-se o Papa Francisco nesta sexta-feira, 20, aos médicos ginecologistas da Federação Internacional das Associações Médicas Católicas, reunidas em Roma desde 22 de setembro. O Santo Padre destacou a necessidade de atenção principalmente para com os mais frágeis, como os idosos, de forma a não promover a cultura do descartável. Francisco refletiu sobre a mentalidade generalizada do útil, a chamada cultura do descartável, que hoje escraviza tantos corações e tem um alto custo: eliminar seres humanos se física ou socialmente mais frágeis. Ele destacou a resposta diante dessa mentalidade é um “sim” decidido e sem hesitação à vida. “Cada criança não nascida, mas condenada injustamente a ser abortada, tem a face do Senhor, que mesmo antes de nascer, e depois apenas nascido experimentou a rejeição do mundo. E cada idoso… mesmo se enfermo ou no fim de seus dias, leva em si a face de Cristo. Não se pode descartar, como nos propõe a cultura do descartável! Não se pode descartar!”, enfatizou. Francisco concentrou-se então sobre o valor da vida humana, que ao contrário das coisas materiais, não tem um preço, pois as pessoas têm uma dignidade, valem mais que estas coisas. Porém, ele lembrou que em muitas situações a vida acaba sendo o que vale menos. “Por isto a atenção à vida humana em sua totalidade transformou-se nos últimos tempos uma verdadeira prioridade do Magistério da Igreja, particularmente àquela majoritariamente indefesa, isso é, as pessoas com deficiência, doentes, o nascituro, a criança, o idoso, que é a vida mais indefesa”. Outro ponto abordado pelo Papa foi a atual situação paradoxal em que se encontra a medicina. Por um lado, há progressos graças ao trabalho de cientistas que se dedicam à procura de novos tratamentos. Por outro, porém, há o perigo do médico perder a própria identidade de servo da vida. “Mesmo estando por sua natureza ao serviço da vida, as profissões de saúde são conduzidas, às vezes, a não respeitar a própria vida”. Os médicos reunidos no Vaticano participam desde o último dia 22 da 10º Conferência Internacional sobre o tema “A nova evangelização, as práticas obstétricas e cuidado com as mães”.

 

DISCURSO do Papa a médicos católicos – 20/09/2013
Audiência com os participantes do encontro de ginecologistas católicos
Sala Clementina do Palácio Apostólico
Sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Peço-vos desculpa pelo atraso… Esta é uma manhã um pouco complicada para audiências… Peço-vos desculpa. 1. A primeira reflexão que gostaria de partilhar com vocês é esta: nós assistimos hoje a uma situação paradoxal, que diz respeito à profissão médica. Por um lado constatamos – e agradecemos a Deus – os progressos da medicina, graças ao trabalho de cientistas que, com paixão e sem economizar, se dedicam à procura de novos tratamentos.  Por outro, porém, encontramos também o perigo de que o médico perca a própria identidade de servo da vida. A desorientação cultural tem afetado também aquilo que parecia um âmbito intocável: o vosso, a medicina! Mesmo estando por natureza a serviço da vida, as profissões de saúde são induzidas às vezes a não respeitar a própria vida. Em vez disso, como nos recorda a Encíclica Caritas in veritate, “a abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento”. Não há verdadeiro desenvolvimento sem esta abertura à vida. Se se perde a sensibilidade pessoal e social para com o acolhimento de uma nova vida, também outras formas de acolhimento úteis à vida secam. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna capaz de ajuda recíproca” (n. 28). A situação paradoxal está no fato de que, enquanto se atribuem à pessoa novos direitos, às vezes mesmo direitos presumidos, nem sempre se protege a vida como valor primário e direito primordial de cada homem. O fim último do agir médico permanece sempre a defesa e a promoção da vida. 2. O segundo ponto: neste contexto contraditório, a Igreja faz apelo às consciências, ás consciências de todos os profissionais e voluntários de saúde, de maneira particular de vocês ginecologistas, chamados a colaborar no nascimento de novas vidas humanas. A vossa é uma singular vocação e missão, que necessita de estudo, de consciência e de humanidade. Um tempo, as mulheres que ajudavam no parto eram chamadas “comadre”: é como uma mãe com a outra, com a verdadeira mãe. Também vocês são “comadres” e “compadres”, também vocês. Uma generalizada mentalidade do útil, a “cultura do descartável”, que hoje escraviza os corações e as inteligências de tantos, tem um altíssimo custo: requer eliminar seres humanos, sobretudo se fisicamente ou socialmente mais frágeis. A nossa resposta a esta mentalidade é um “sim” decidido e sem hesitação à vida. “O primeiro direito de uma pessoa humana é a sua vida. Essa tem outros bens e alguns desses são mais preciosos: mas é aquele o bem fundamental, condição para todos os outros” (Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração sobre aborto provocado, 18 de novembro de 1974, 11). As coisas têm um preço e são ventáveis, mas as pessoas têm uma dignidade, valem mais que as coisas e não têm preço. Tantas vezes, encontramo-nos em situações onde vemos que aquilo que custa menos é a vida. Por isto a atenção à vida humana em sua totalidade transformou-se nos últimos tempos uma verdadeira prioridade do Magistério da Igreja, particularmente àquela majoritariamente indefesa, isso é, as pessoas com deficiência, doentes, o nascituro, a criança, o idoso, que é a vida mais indefesa. No ser humano frágil cada um de nós é convidado a reconhecer a face do Senhor, que na sua carne humana experimentou a indiferença e a solidão à qual às vezes condenamos os mais pobres, seja nos Países em via de desenvolvimento, seja nas sociedades afluentes. Cada criança não nascida, mas condenada injustamente a ser abortada, tem a face de Jesus Cristo, tem a face do Senhor, que mesmo antes de nascer, e depois apenas nascido experimentou a rejeição do mundo. E cada idoso, e – falei da criança: vamos aos idosos, outro ponto! E cada idoso, mesmo se enfermo ou no fim de seus dias, leva em si a face de Cristo. Não se pode descartar, como nos propõe a “cultura do descartável”! Não se pode descartar! 3. O terceiro aspecto é um mandato: sejam testemunhas e difusores desta “cultura da vida”. O vosso ser católico comporta uma maior responsabilidade: antes de tudo para com vocês mesmos, para com o compromisso de coerência com a vocação cristã; e depois para com a cultura contemporânea, para contribuir a reconhecer na vida humana a dimensão transcendente, a marca da obra criadora de Deus, desde o primeiro instante de sua concepção. Este é um compromisso de nova evangelização que requer às vezes ir contracorrente, pagando pessoalmente. O Senhor conta também com vocês para difundir o “evangelho da vida”. Nesta perspectiva, as enfermarias dos hospitais de ginecologia são lugares privilegiados de testemunho e de evangelização, porque lá onde a Igreja se faz “veículo da presença de Deus” vivo, transforma ao mesmo tempo “instrumento de uma verdadeira humanização do homem e do mundo” (Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização, 9). Amadurecendo a consciência de que no centro da atividade médica e assistencial está a pessoa humana na condição de fragilidade, a estrutura de saúde transforma-se em “lugar no qual a relação de cuidado não é trabalho – a vossa relação de cuidado não é trabalho – mas missão; onde a caridade do Bom Samaritano é a primeira cátedra e a face do homem sofredor, a Face própria de Cristo” (Bento XVI, Discurso à Universidade Católica do Sagrado Coração de Roma, 3 de maio de 2012). Queridos amigos médicos, vocês são chamados a ocuparem-se da vida humana na sua fase inicial, recordem todos, com os fatos e com as palavras, que esta é sempre, em todas as suas fases e em toda idade, sagrada e é sempre de qualidade. E não por um discurso de fé – não, não, – mas de razão, por um discurso de ciência! Não existe uma vida mais sagrada que a outra, como não existe uma vida humana qualitativamente mais significativa que a outra. A credibilidade de um sistema de saúde não se mede somente pela eficiência, mas, sobretudo, pela atenção e amor para com as pessoas, cuja vida sempre é sagrada e inviolável. Não deixem nunca de rezar ao Senhor e à Virgem Maria, para ter a força de cumprir bem o vosso trabalho e testemunhar com coragem – com coragem! Hoje é necessário coragem – testemunhar com coragem o “evangelho da vida”! Muito obrigado!

Papa Francisco canoniza mártires brasileiros

Domingo, 15 de outubro de 2017, Da redação, com Rádio Vaticano

Francisco canonizou nesta manhã 35 novos santos, dentre eles 30 brasileiros

Missa de canonização dos mártires brasileiros, mexicanos, um sacerdote espanhol e um frade italiano na Praça de São Pedro / Foto: Reprodução CTV

Em cerimônia presidida pelo Papa Francisco neste domingo, 15, na Praça de São Pedro, 35 novos santos foram canonizados, dentre eles 30 brasileiros: os mártires de Cunhaú e Uruaçu, Padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro e Mateus Moreira e outros 27 companheiros.

Além dos mártires brasileiros, o Papa Francisco também canonizou três Protomártires do México — considerados os primeiros mártires do continente americano: Cristóvão, Antônio e João, mortos por ódio à fé, em 1527 e 1529. Também foram canonizados o sacerdote espanhol Faustino Míguez, fundador do Instituto Calasanzio, Filhas da Divina Pastora, e o Frade Menor Capuchinho italiano Angelo d’Acri.

O Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Amato, acompanhado pelos Postuladores das Causas, dirigiu-se até o Santo Padre pedindo para que se procedesse à canonização dos Beatos, com a leitura de seus nomes. Também foi lida a biografia dos novos santos e, por fim, o Santo Padre leu a fórmula de canonização.

Homilia

Concluído o rito de canonização, começou a Santa Missa. Em sua homilia dominical, o Papa Francisco se inspirou no Evangelho de Mateus proposto pela Liturgia do dia. Francisco recordou que “o Reino de Deus é comparável a uma Festa de Núpcias”. O Santo Padre destacou que o homem é convidado para estas núpcias, mas se trata de um convite que pode ser recusado. Neste sentido, o homem é chamado a renovar a cada dia a opção de Deus, vivendo segundo o amor verdadeiro, superando a resignação e os caprichos de próprio eu.

O Santo Padre ressaltou que as núpcias inauguram uma comunhão total de vida, que é o que Deus deseja ter com cada um, uma relação feita de diálogo, confiança e amor.

“Esta é a vida cristã, uma história de amor com Deus, na qual quem toma gratuitamente a iniciativa é o Senhor e nenhum de nós pode gloriar-se de ter a exclusividade do convite: ninguém é privilegiado relativamente aos outros, mas cada um é privilegiado diante de Deus. Deste amor gratuito, terno e privilegiado, nasce e renasce incessantemente a vida cristã”.

O Papa destacou ainda um importante aspecto do Evangelho do dia: as “vestes dos convidados”. Ele explicou que não basta responder ao convite de Deus, mas vestir o hábito do amor vivido a cada dia, praticando a vontade de Deus, renovando a cada dia a opção de Deus. Nesse sentido, Francisco evocou o exemplo dos santos canonizados hoje.

“Os Santos canonizados hoje, sobretudo os numerosos mártires, indicam-nos esta estrada. Eles não disseram sim ao amor com palavras e por um certo tempo, mas com a vida e até ao fim. O seu hábito diário foi o amor de Jesus, aquele amor louco que nos amou até ao fim, que deixou o seu perdão e as suas vestes a quem O crucificava. Também nós recebemos no Batismo a veste branca, o vestido nupcial para Deus”.

Spinner: um brinquedo inocente?

Estilo de vida
https://pt.aleteia.org/2017/06/05/spinner-um-brinquedo-inocente/

Tudo o que você precisa saber sobre o brinquedo que virou febre entre crianças e adolescentes

É sempre assim: de vez em quando surge um brinquedo ou uma brincadeira que logo vira febre entre crianças, adolescentes e até adultos. Quem não se lembra do saudoso ioiô e da mola maluca? E do Tamagotchi, aquele bichinho virtual que você tinha que “alimentar”?
Tudo bem, você não é dessa época? Vamos dar um exemplo mais recente então: o que dizer do fenômeno Pokemon Go? O eletrônico – que propunha a caça com o celular a avatares em lugares reais – fez a cabeça de jovens e adultos do mundo inteiro da noite para o dia. Alvo de críticas, logo desapareceu – assim como tudo o que é modinha. Mas deixou rastros, já que teria provocado inúmeros acidentes.
Agora, a bola da vez é o spinner (ou fidget spinner). Seu filho já te pediu um? Se ainda não, prepare-se porque logo ele vai querer. O brinquedo nada mais é do que uma geringonça de três pontas arredondadas de plástico ou metal. Há modelos coloridos, com 5 pontas e até os que têm luzes. O que todos eles fazem? Nada mais do que girar, girar e girar entre os dedos, conforme é pressionado.

Origens
O dispositivo foi desenvolvido nos Estados Unidos durante os anos 90 para ajudar no tratamento de pacientes com autismo e com déficit de atenção. Depois de 20 anos, foi patenteado pela indústria de brinquedos e, agora, com a força da internet e das redes sociais, ganhou fama no mundo todo, principalmente pelo baixo preço e pela facilidade de ser adquirido. Você pode comprá-lo em vários sites, lojas e até no mercado informal. O preço, no Brasil, gira em torno de R$ 10,00. Mas o brinquedinho está envolvido em muitas polêmicas.

Terapêutico?
Algumas pessoas acreditam que este mero brinquedinho pode ter um fundo terapêutico contra o estresse e ajuda no tratamento do déficit de atenção. Em entrevista ao El País, a psiquiatra infantil Beatriz Martinez, disse que não é bem assim. “No momento, vender um spinner como um remédio para transtornos de déficit de atenção é uma fraude. É preciso pesquisar muito mais. É muito preocupante a tendência da sociedade de vender qualquer coisa como terapêutica sem evidências científicas”, afirmou a especialista.

Proibição
Várias escolas dos Estados Unidos e da Europa já proibiram os alunos de levarem o spinner para a sala de aula. Brincar com ele, só se for na hora intervalo. Os professores argumentam que o brinquedo, ao invés de melhorar a concentração dos estudantes, atrapalha, pois eles ficam preocupados em saber quanto tempo o dispositivo ficará rodando entre os dedos e não prestam atenção no que a professora está explicando na lousa.

Acidente
Há algumas semanas, as redes sociais revelaram a primeira vítima do spinner: foi uma criança do Texas, Estados Unidos. De acordo com a mãe, a garota estava brincando com o fidget e engoliu uma peça dele. A menina começou a vomitar e foi rapidamente levada a um hospital. Um exame de Raios-X mostrou a peça no esôfago da criança, que precisou ser sedada para que os médicos retirassem o objeto através de um procedimento de endoscopia.

Apreensões
Em Portugal, 16.000 spinners foram recolhidos do mercado por não informarem a indicação da faixa etária adequada nas embalagens. As autoridades portuguesas proibiram a venda do brinquedo para crianças menores de 3 anos de idade por conter peças pequenas, o que implica o risco de engasgamento.

O que fazer?
Claro, a decisão de permitir ou não que as crianças usem determinado brinquedo é dos pais. E eles devem estar sempre atentos à procedência, aos objetivos e possíveis oferecidos pelos produtos. Não cair nas armadilhas das promessas sem comprovação científica é crucial
Se for permitir que seu filho brinque com o spinner, fique de olho: não deixe que ele o leve para escola, verifique faixa etária recomendada pelo fabricante e, principalmente, monitore o uso para que brincadeira não se torne um vício para os pequenos.

 

Santo Evangelho (Mt 22, 1-14)

28º Domingo do Tempo Comum – 15 de outubro de 2017

Primeira Leitura (Is 25,6-10a)
Leitura do Livro do profeta Isaías:

6O Senhor dos exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos. 7Ele removerá, neste monte, a ponta da cadeia que ligava todos os povos, a teia em que tinha envolvido todas as nações. 😯 Senhor Deus eliminará para sempre a morte e enxugará as lágrimas de todas as faces e acabará com a desonra do seu povo em toda a terra; o Senhor o disse. 9Naquele dia, se dirá: “Este é o nosso Deus, esperamos nele, até que nos salvou; este é o Senhor, nele temos confiado; vamos alegrar-nos e exultar por nos ter salvo”. 10aE a mão do Senhor repousará sobre este monte.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Responsório (Sl 22)

— Na casa do Senhor habitarei, eternamente.
— Na casa do Senhor habitarei, eternamente.

— O Senhor é o pastor que me conduz; não me falta coisa alguma. Pelos prados e campinas verdejantes ele me leva a descansar. Pelas águas repousantes me encaminha, e restaura as minhas forças.

— Ele me guia no caminho mais seguro, pela honra de seu nome. Mesmo que eu passe pelo vale tenebroso, nenhum mal eu temerei; estais comigo com bastão e com cajado; eles me dão a segurança!

— Preparais à minha frente uma mesa, bem à vista do inimigo, e com óleo vós ungis minha cabeça; o meu cálice transborda.

— Felicidade e todo bem hão de seguir-me por toda a minha vida; e na casa do Senhor habitarei pelos tempos infinitos.

 

Segunda Leitura (Fl 4,12-14.19-20)
Leitura da Carta de São Paulo aos Filipenses:

Irmãos: 12Sei viver na miséria e sei viver na abundância. Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou sofrendo necessidade. 13Tudo posso naquele que me dá força. 14No entanto, fizestes bem em compartilhar as minhas dificuldades. 19O meu Deus proverá esplendidamente com sua riqueza a todas as vossas necessidades, em Cristo Jesus. 20Ao nosso Deus e Pai a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

– Palavra do Senhor.
– Graças a Deus.

 

Anúncio do Evangelho (Mt 22,1-14)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, 1Jesus voltou a falar em parábolas aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, dizendo: 2“O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho. 3E mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram ir. 4O rei mandou outros empregados, dizendo: ‘Dizei aos convidados: já preparei o banquete, os bois e os animais cevados já foram abatidos e tudo está pronto. Vinde para a festa!’ 5Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios, 6outros agarraram os empregados, bateram neles e os mataram. 7O rei ficou indignado e mandou suas tropas para matar aqueles assassinos e incendiar a cidade deles. 8Em seguida, o rei disse aos empregados: ‘A festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela. 9Portanto, ide até as encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes’. 10Então os empregados saíram pelos caminhos e reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala da festa ficou cheia de convidados. 11Quando o rei entrou para ver os convidados, observou aí um homem que não estava usando traje de festa 12e perguntou-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje de festa?’ Mas o homem nada respondeu. 13Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de dentes’. 14Porque muitos são chamados, e poucos são escolhidos”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

 

A IGREJA CATÓLICA CELEBRA E VENERA HOJE
Santa Teresa de Ávila (Santa Teresa de Jesus)

Santa Teresa de Ávila, conseguiu recuperar o fervor de muitas carmelitas

Com grande alegria lembramos, hoje, da vida de santidade daquela que mereceu ser proclamada “Doutora da Igreja”: Santa Teresa de Ávila (também conhecida como Santa Teresa de Jesus). Teresa nasceu em Ávila, na Espanha, em 1515 e foi educada de modo sólido e cristão, tanto assim que, quando criança, se encantou tanto com a leitura da vida dos santos mártires a ponto de ter combinado fugir com o irmão para uma região onde muitos cristãos eram martirizados; mas nada disso aconteceu graças à vigilância dos pais.

Aos vinte anos, ingressou no Carmelo de Ávila, onde viveu um período no relaxamento, pois muito se apegou às criaturas, parentes e conversas destrutivas, assim como conta em seu livro biográfico.

Reze a oração de Santa Teresa de Ávila

Certo dia, foi tocada pelo olhar da imagem de um Cristo sofredor, assumiu a partir dessa experiência a sua conversão e voltou ao fervor da espiritualidade carmelita, a ponto de criar uma espiritualidade modelo.

Foi grande amiga do seu conselheiro espiritual São João da Cruz, também Doutor da Igreja, místico e reformador da parte masculina da Ordem Carmelita. Por meio de contatos místicos e com a orientação desse grande amigo, iniciou aos 40 anos de idade, com saúde abalada, a reforma do Carmelo feminino. Começou pela fundação do Carmelo de São José, fora dos muros de Ávila. Daí partiu para todas as direções da Espanha, criando novos Carmelos e reformando os antigos. Provocou com isso muitos ressentimentos por parte daqueles que não aceitavam a vida austera que propunha para o Carmelo reformado. Chegou a ter temporariamente revogada a licença para reformar outros conventos ou fundar novas casas.

Santa Teresa deixou-nos várias obras grandiosas e profundas, principalmente escritas para as suas filhas do Carmelo : “O Caminho da Perfeição”, “Pensamentos sobre o Amor de Deus”, “Castelo Interior”, “A Vida”. Morreu em Alba de Tormes na noite de 15 de outubro de 1582 aos 67 anos, e em 1622 foi proclamada santa. O seu segredo foi o amor. Conseguiu fundar mais de trinta e dois mosteiros, além de recuperar o fervor primitivo de muitas carmelitas, juntamente com São João da Cruz. Teve sofrimentos físicos e morais antes de morrer, até que em 1582 disse uma das últimas palavras: “Senhor, sou filha de vossa Igreja. Como filha da Igreja Católica quero morrer”.

No dia 27 de setembro de 1970 o Papa Paulo VI reconheceu-lhe o título de Doutora da Igreja. Sua festa litúrgica é no dia 15 de outubro. Santa Teresa de Ávila é considerada um dos maiores gênios que a humanidade já produziu. Mesmo ateus e livres-pensadores são obrigados a enaltecer sua viva e arguta inteligência, a força persuasiva de seus argumentos, seu estilo vivo e atraente e seu profundo bom senso. O grande Doutor da Igreja, Santo Afonso Maria de Ligório, a tinha em tão alta estima que a escolheu como patrona, e a ela consagrou-se como filho espiritual, enaltecendo-a em muitos de seus escritos.

Santa Teresa de Ávila, rogai por nós!

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