Maria ajuda a perdoar sempre e sem condições

MARIA AJUDA A PERDOAR “SEMPRE E SEM CONDIÇÕES”

PAMPLONA – Maria é modelo de perdão porque «nos ensina a perdoar de todo coração, incondicionalmente, como uma mãe, não como uma educadora», explica a teóloga Jutta Burggraf.

Leiga e alemã de origem, professora de teologia na Universidade de Navarra, Burggraf, ao aproximar-se o final do mês de Maria, apresenta as lições de candente atualidade que a Mãe de Deus deixa.

Qual é a atitude de Maria que lhe parece mais importante imitar em nossos dias?

Perdoar sempre e sem condições. Há muitas pessoas feridas em nossas sociedades, pessoas que não podem viver em paz com suas lembranças. Assim, cria-se uma espécie de mal-estar e de insatisfação gerais. Perdoar não é fácil, mas é possível com a ajuda de Deus. É um ato de fortaleza espiritual, um ato libertador, tanto para o outro como para mim. Significa optar pela vida e atuar com criatividade.

Nossa Mãe nos deu um exemplo esplêndido sob a Cruz. Quando ouviu as palavras de Cristo: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem», compreendeu o que Deus esperava também dela, e fez o mesmo que seu Filho: perdoou.

A este respeito, recordo o que conta uma amiga sobre sua infância. Costumava ter ataques de raiva: quando algo ia contra sua vontade, ela ficava de cara fechada, gritava e a batia com mãos e pés. Depois de algum tempo, ela percebia o comportamento pouco correto. Corria chorando até sua mãe e lhe pedia perdão. A mãe a sentava em seu colo e, abraçando-a, consolava-a com as palavras: «Já está bem. Você não é assim. Na realidade, é muito melhor». Deste modo, desde pequena, ela experimentava a «festa do perdão» e voltava feliz a jogar com seus amigos. Depois de cada perdão, a vida começava de novo para ela… Mas a mãe morreu, e uma educadora cristã a substituiu. Passado algum tempo, repetiu-se a cena conhecida. A menina ficou furiosa, gritou e bateu. Depois de seu ataque de raiva, correu, como de costume, para a educadora e pediu perdão. Mas dessa vez tudo foi diferente: a educadora não a abraçou, nem a beijou, nem a consolou. Aceitou seu perdão com uma cara séria e com várias admoestações. «Então compreendi que já não tinha mãe», comenta minha amiga.

Nossa Senhora nos ensina a perdoar de todo coração, incondicionalmente, como uma mãe, não como uma educadora.

No mundo acadêmico se invoca Maria como sede da sabedoria.

Segundo a grande Tradição da Igreja, a redenção começa na cabeça. Começa conhecendo a verdade, que nunca é só teoria. Santo Agostinho fala de uma reciprocidade entre «ciência» e «tristeza»: o simples saber – diz – produz tristeza. E, com efeito – continua dizendo o Papa Bento XVI, «quem só vê e percebe tudo o que acontece no mundo, acaba por entristecer-se. Mas a verdade significa algo mais que o saber: o conhecimento da verdade tem como finalidade o conhecimento do bem… A verdade nos torna bons, e a bondade é verdadeira».

A sabedoria expressa uma visão integral do homem e do mundo. Faz referência não só à ciência, mas também à maturidade e beleza interiores. T.S. Eliot fala da «sabedoria da humildade». Todas estas dimensões estão realizadas com abundância em Maria.

A beleza mais profunda é, certamente, a beleza da santidade. Uma boa mulher que cuidava de sua mãe dia e noite em um hospital, disse há algum tempo: «Quando me encontrei de manhã na cafeteria do hospital e olhei ao meu redor, vi as pessoas pálidas, com olheiras que, evidentemente, haviam estado cuidando de seus entes queridos durante a noite. E pensei: ‘Esta é a verdadeira beleza: a beleza da entrega’».

Você acha que falta consciência da presença de Maria no mundo universitário e intelectual?

Maria nos recorda uma verdade básica: «O amor sempre faz uma corrida para baixo».

Em uma parábola famosa do Evangelho, um fariseu agradece a Deus por ser melhor que os demais homens, e Jesus Cristo desaprova claramente esta atitude. Mas se, no caso contrário, o fariseu tivesse pensado que era pior que os demais, tampouco teria sido humilde.

Uma pessoa humilde não se compara com ninguém. Não olha nem a si mesma nem aos outros homens, como o publicano naquela parábola. Só busca Deus e se sente responsável diante d’Ele, porque sabe que Deus o olha com carinho e confiança.

Um cristão que busca ter uma presença viva de Maria, não tenta comparar-se com os demais – nem comparar aos outros entre si. Não é nunca um «rival», um «competidor». Contribui para que o ambiente a seu redor seja natural e amável, e se alegra pelo bem e pelas conquistas dos demais.

Uma pessoa unida a Deus e a Maria obtém uma liberdade maior que a que os pássaros do céu têm; está acima de muitas pequenezes que podem frear nossos passos.

Não quer deixar-se cativar nem pela comodidade dos bens materiais, nem pelo brilho da fama ou de uma máscara, nem pelos resultados de seu próprio trabalho.

Quer ser generosa e compartilhar seus bens com os demais: supostamente o pão, mas também o vinho, também o tempo e as idéias, também os projetos profissionais e todas as oportunidades que a vida lhe dá.

Talvez possa parecer, às vezes, um pouco ingênua e tornar-se objeto de brincadeiras ou sorrisos compassivos. Pode inclusive ter certas desvantagens profissionais em um ambiente no qual contam só a imagem e o progresso, o subir na escala social. Mas sabe que o êxito não é uma categoria de Deus.

Maria nos ensina que tudo que é aparentemente grande, poderoso e triunfal não é mais que um monte de pó, se não for purificado pelo amor. Olhar para ela, a Mãe, é importante em nossa época de ativismo.

Cristo, certamente, pede a seus discípulos que dêem frutos. Mas esta exortação deve compreender-se no contexto evangélico, e não segundo as chaves de interpretação que se utilizam nas sociedades de rendimento. A fecundidade é algo muito diferente da produtividade. Uma pessoa pode produzir muito, obter resultados e méritos incontáveis por seu trabalho, e não ser verdadeiramente fértil; outra, ao contrário, pode não render nada ante os olhos do mundo, e ter uma grande fecundidade.

Cristo pede frutos que permaneçam. Podemos estar completamente seguros de que o que permanece para sempre não será nosso dinheiro, nem o aplauso, nem o êxito. A única coisa que contará ao final de nossa vida será o amor que oferecemos e recebemos. Não teremos nada mais.

Fonte: Zenit, 23/5/2008

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