O uso de células-tronco em pesquisas

Quinta-feira, 14 de junho de 2012, Jéssica Marçal / Da Redação

A pesquisa con genes é, para Frei Moser, uma aventura em que não se sabe o começo nem o resultado que ela vai dar  

A ciência encontra-se em constante estado de evolução, buscando novos remédios, equipamentos e tratamentos que possam beneficiar pessoas que sofrem com alguma enfermidade. No entanto, um tipo de pesquisa, em especial, desperta polêmica na sociedade. Trata-se do uso de células tronco embrionárias em tratamentos terapêuticos.

As células-tronco podem ser adultas ou embrionárias. As primeiras já estão no próprio organismo, de forma que se pode dizer que o corpo humano está repleto de células-tronco adultas. A polêmica é em torno das células embrionárias.

Para o especialista em Bioética e também integrante da Comissão de Bioética da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), frei Antônio Moser, o próprio termo utilizado para definir este tipo de célula é um equívoco.

“O melhor é falar de embrião, porque já não é mais uma célula. O embrião tem a sua identidade própria, tem o seu DNA próprio e original. Portanto, desde o momento da fecundação já não é mais uma célula”, explicou frei Moser.

Ética, Igreja e as células-tronco

O especialista enfatizou que a Igreja e a ética, de forma geral, não têm problema algum com as pesquisas com células-tronco adultas, desde que sejam feitas com competência, sem comercialização e respeitando os princípios éticos referentes à vida humana. Ele acredita que, nesse tipo de estudo, pode-se colocar expectativas porque seria algo bom para a sociedade. “Você então não estaria esperando a morte de alguém para que outro viva, mas estaria realmente propiciando a vida sem a morte de um doador”.

Já sobre o uso de células-tronco embrionárias, o especialista acredita que a prática é uma traição ao princípio básico do direito à vida em todas as suas etapas. Ele informou que até hoje, 10 anos depois da liberação de pesquisas com esse tipo de células, os cientistas não obtiveram resultados. “E nunca se vai conseguir, justamente porque o embrião não vai ser assimilado por nenhum outro organismo. Inclusive todas as tentativas fracassaram e houve também casos de tentativa, como nos Estados Unidos, em que o resultado foi a morte do receptor dessas células”, contou.

Frei Moser, que defende a vida desde a fecundação, ressaltando que o embrião já não é mais uma simples célula  

Riscos

Para além da questão ética, frei Moser destacou que o trabalho com os embriões nessa perspectiva propicia e leva à eugenia, o que implica na eliminação do embrião que possa, eventualmente, portar qualquer anomalia. Para o frei, isso é uma forma de buscar a vida apenas para os mais belos e mais fortes, por exemplo, o que contraria a visão cristã de vida.

“A nossa visão de vida cristã nos diz que todo ser que nasce tem que ser respeitado e o fato de haver deficiências é altamente positivo, no sentido de lembrar a todos nós a consciência da nossa fragilidade. Nós não somos ninguém. Nós somos tudo quando estamos em comunhão com Deus e com os irmãos, fora disso, somos seres muito frágeis”, contou o frei.

Outra implicação desse tipo de estudo, segundo ele, é o risco de manipulação e comercialização de embriões. O especialista contou, por exemplo, que já houve no Brasil um caso de mesclagem de óvulos de mulheres com idades diferentes, visando garantir a eficácia do resultado.

“Traduzindo, nós estaríamos no auge de uma manipulação completamente inaceitável. Você não sabe mais quem é o pai, quem é a mãe e qual o resultado”.

Legislação

No Brasil, em março de 2005, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei da Biossegurança com 352 votos favoráveis, 60 contrários e uma abstenção. Mas, para Frei Moser, ainda não se tem como ter o controle necessário para esse tipo de pesquisa.  “Na prática, cada um faz o que bem entende, não tem mecanismos de controle. Como você vai controlar o que se passa dentro de um laboratório?”

O frei acredita que as pesquisas com células-tronco embrionárias podem, inclusive, constituir uma ameaça à degeneração da espécie humana, já que não há como saber quais serão os resultados genéticos. “É como se a natureza fosse mal feita e nós, que somos conhecedores do mecanismo secreto, somos capazes de gerar o perfeito. Isso é uma arrogância muito grande. Mexer com genes é simplesmente uma aventura que você não sabe nem como vai começar muito menos como vai acabar”.

Ele disse que os laboratórios podem, sim, dar bons frutos em outras pesquisas, como em animais ou na agricultura. No tocante à vida humana, no entanto, enfatizou que os riscos são muito grandes.

“Todo cuidado é pouco e, sobretudo, deveremos ter uma normatização muito mais adequada para impedir todo tipo de abuso. Agora, na prática, isso não existe e é o grande desafio do momento: como preservar os valores da vida humana, o direito de um ser poder ser ele mesmo e não simplesmente o fruto de uma mixagem de elementos genéticos”.

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