Uma japonesa se converte do Budismo ao Catolicismo

PERGUNTE E RESPONDEREMOS
401 – outubro 1995
Testemunhos

Em síntese: Eis o relato da conversão de uma jovem budista ao Catolicismo. A transição não foi fácil, pois o Budismo e o Xintoísmo, para os japoneses, fazem parte da identidade japonesa, ao passo que o Cristianismo tem a aparência de uma religião européia. Aos poucos, porém, Michaela Motose percebeu que, abraçando o Cristianismo, ela não traía o budismo, pois esta religião a preparara para acolher em plenitude a Palavra de Deus encarnada em Jesus Cristo. Passo a passo ela foi deixando de ocultar ao mundo a sua identidade cristã, para tentar harmonizar entre si a nacionalidade japonesa e a fé católica. Afinal o que importa, diz ela, não é ser japonesa ou ser européia; é ser ela mesma vivendo a sua vocação cristã de Franciscana Missionária de Maria.

* * *
O anúncio do Evangelho aos povos da Ásia e da África encontrou tradições culturais e religiosas muito antigas, que oferecem resistência à pregação da Boa-Nova. Esta parece ocidental, européia, de modo que afeta o próprio senso nacionalista ou patriótico de vários povos. Todavia não é este o primeiro desafio que o Evangelho sofre; nos primeiros séculos ele enfrentou o poderio do Império Romano pagão perseguidor, ao qual conseguiu falar por causa do fulgor da verdade de Jesus Cristo. Tertuliano (+220 aproximadamente), jurista latino convertido, chegou a exclamar: “Ó alma humana, naturalmente cristã!”. O Cristianismo corresponde aos anseios mais profundos da alma humana, anunciando-lhe que Deus é o Primeiro Amor: de maneira gratuita e irreversível, ama o homem e acompanha-o para dar-lhe a plenitude da vida. A experiência, portanto, ensina que não é inútil tentar apregoar a Boa-Nova; ela tem em seu favor a força da vitória de Cristo, pois não é mera mensagem de um filósofo; é um sacramental ou a mensagem de Deus a todos os homens. Em nossos dias há significativos casos de pessoas que, atraídas pela grandeza da mensagem cristã, vencem preconceitos culturais e dizem um Sim total a Jesus Cristo; testemunham assim quanto o ser humano é sequioso da verdade religiosa ou de conhecer o autêntico sentido da vida. Segue-se o auto-relato da conversão de uma jovem -Michaela Motose – japonesa, que, a partir do budismo, encontrou Jesus Cristo (1).

INTRODUÇÃO
São Paulo disse: ‘O que sou, eu o sou pela graça de Deus’. Creio que foi o maravilhoso amor de meu país que me levou ao caminho do encontro com Jesus Cristo. Através do amor e da educação budista que me deram, recebi tal graça. Sou cristã desde os vinte anos de idade. Alguns anos depois tornei-me Religiosa na Congregação das Franciscanas Missionárias de Maria. Fui enviada ao Marrocos em missão e, depois, à França. Atualmente trabalho na cooperação missionária. Pediram-me que eu lhes comunique a minha experiência: a passagem do budismo para o Cristianismo e o que para mim o budismo representa hoje. Não me sinto digna de estar aqui, mas respondo com simplicidade e alegria.

O CONTEXTO RELIGIOSO JAPONÊS
O Japão constitui uma sociedade de consumo por excelência. Atualmente é pioneiro do progresso tecnológico. Além disto, a civilização japonesa se enraíza numa tradição de dois mil anos, em que caminham lado a lado o xintoísmo e o budismo. O Cristianismo foi introduzido em 1549 por São Francisco Xavier no momento em que o país se unificava. Pouco depois, um dos mais poderosos senhores feudais receou que a atividade missionária acarretasse uma invasão estrangeira. Em conseqüência, começou a perseguir os cristãos e a expulsar do país todos os missionários estrangeiros. Depois disto, o Japão fechou suas portas para o resto do mundo durante três séculos. Ao contrário, o xintoísmo e o budismo puderam desenvolver-se livremente, servindo para corroborar a unidade do país.

1 O texto que se segue, é traduzido do relato francês intitulado Le Chemin d’Emaüs au Japon e publicado pelo periódico Le Christ au Monde, janeiro-fevereiro 1995, pp.26-30.  

O xintoísmo e o budismo se irmanam na vida da sociedade do Japão; por exemplo, a cerimônia do casamento e a apresentação da criança recém-nascida ocorrem no templo xintoísta; mas os funerais são sempre celebrados no templo budista.   No decorrer dos séculos este cerimonial se arraigou tão bem na vida cotidiana que ele se tornou uma forma de cultura mais do que uma expressão religiosa. Em 1865 missionários franceses evangelizaram de novo o Japão. Em nossos dias há 0,35% (430.000) de católicos sobre um total de 123.000.000 de habitantes.

INFÂNCIA BUDISTA
Nasci numa família budista praticante, e fui educada para tomar-me esposa de um bonzo (2). Em casa, como em quase todas as famílias japonesas, tínhamos dois altares: o do xintoísmo e o do budismo. Seguindo o exemplo de meus pais e de minha avó, desde pequena eu costumava rezar diante do altar de Buda. Um dia minha avó me perguntou: ‘Que pedes diante do altar?’ Surpreendida por esta pergunta inesperada, respondi-lhe: ‘Nada!’. Ela me disse: ‘Está bem. Para agradar a Buda, é suficiente que fiques diante dele sem pedir coisa alguma’. Conservei este hábito de rezar adquirido na minha infância. Creio que esta semente de oração da minha infância continua a se desenvolver atualmente: estar diante de Deus, com as mãos vazias, e numa atitude de recolhimento. Desde a idade de quinze anos procurei um sentido para a minha vida e para toda a aventura humana. Mas ninguém respondeu de maneira satisfatória às minhas perguntas. Após os estudos de segundo grau, passei no exame vestibular para a Universidade. Isto mudou completamente a minha vida. Lá via pela primeira vez a Cruz, uma capela e Religiosas. Antes das aulas, elas começavam com uma oração, dizendo: ‘Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’. Ainda que dito em japonês, eu nada compreendia de tudo o que elas diziam.

2  O bonzo é como que um sacerdote budista. (N. d. R.).

Mais: a Cruz de Cristo me abalou; o semblante de Buda com o seu sorriso suave, misericordioso, sempre sereno, seduzia-me porque me suscitava paz interior. O importante para uma japonesa é viver em harmonia consigo mesma, com a natureza e ter o gosto das coisas belas; isto é um meio de entrar em contato com o Divino. Um dia, durante uma aula de Religião, uma Irmã leu esta passagem da Bíblia: ‘Jesus morreu na Cruz em favor de todos os povos’ (Ef 2) e esta outra: ‘Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida’ (Jo 14,6). Ouvindo estes textos, fiquei profundamente tocada. Coloquei para mim a questão: ‘Será que Ele morreu realmente em favor dos africanos, dos asiáticos e também por mim?’. Por conseguinte, Jesus se apresenta como aquele que abre o caminho. Este caminho não é outro senão Ele mesmo. Isto não me era claro e eu desejava saber mais sobre o Evangelho, de modo que comecei a estudá-lo com um missionário. Um dia descobri que Deus é Amor e que somos todos amados por Deus. Até então eu seguira a voz da minha consciência, levando vida moralmente honesta; mas isto não era suficiente para mim. Creio que a pessoa, muitas vezes sem o saber, aspira ao encontro com Deus, que nos criou por amor. Queria tornar-me filha de Deus pelo Batismo. Mas, ao mesmo tempo, eu não desejava violar a harmonia da família, pois em meu íntimo eu sentia como que uma ruptura. Todavia aos poucos se concretizava a grande aventura que seria a minha adesão à religião ‘européia’.

O CRISTIANISMO: RELIGIÃO EUROPÉIA?
O Cristianismo incontestavelmente marcou a cultura ocidental. Assim, por exemplo, a arquitetura das igrejas francesas encarna o Cristianismo. Até o parque de Versalhes, com as suas plataformas artificiais, com as suas alamedas bem traçadas, tem uma simetria que lembra o Infinito. Os japoneses nutrem uma atitude de espírito e uma disposição de alma que decorrem da mentalidade budista, xintoísta e confucionista; toda a vida japonesa é um culto à harmonia e à beleza; tenhamos em vista a mobilidade das nuvens, os reflexos da lua sobre as águas, as flores das cerejeiras… ou ainda a arquitetura dos templos e das pontes, que está sempre em harmonia com a natureza do ambiente. Por isto na minha alma havia um sentimento de intimidade com a natureza e de resignação confiante na ordem do universo. No relato do Gênesis sobre a criação lê-se: ‘O Senhor Deus tomou o homem e o estabeleceu no jardim do Éden para que o cultivasse e guardasse’ (Gn 2,5). Qual é a função do homem frente à natureza? Toca-lhe a tarefa de aperfeiçoar a criação; o homem é o gerente do mundo com plenos poderes: Adão, o homem, isto é, todo homem assume a criação para continuá-la. A Bíblia é muito clara; o mundo foi dado ao homem para que ele torne o mundo habitável. O japonês não tem o ideal de transformar a natureza para subordiná-la às suas necessidades; mas ele aceita a ordem existente no universo e procura adaptar-se a ela. Contudo Jesus mais e mais me atraía. Após um conselho de família, o bonzo me disse: ‘Se julgas que tal é o teu caminho, não te posso dizer Não’. Assim aos vinte anos recebi o Batismo. Em conseqüência, tive que seguir minha vida: experimentar uma certa dilaceração para aceitar algo que me era totalmente estranho. Eu sentia uma ruptura dos laços que me uniam aos meus familiares e amigos e eu tinha vergonha face aos meus antepassados. Naquela época, eu vivia escondida e não ousava dizer que me tornara católica. A Igreja no Japão nasceu e cresceu graças à Igreja da Europa, que é uma semente convertida em árvore. Esta árvore foi transplantada para o Japão. A Igreja no Japão por muito tempo se apresentou com um semblante estrangeiro. Em meio à paisagem japonesa, a arquitetura cristã guarda seu estilo europeu. Este compreende gestos e práticas pouco usuais no meu país: oração de joelhos, genuflexão, etc. Embora a Liturgia fosse celebrada em língua japonesa, eu tinha a impressão de estar trajando uma veste que não fora talhada segundo as minhas medidas. Todavia no meu íntimo eu compreendia aos poucos que o Senhor me chamava à Vida Religiosa. Um dia encontrei um missionário francês e fiquei impressionada pelo modo de viver dos missionários de Jesus Cristo, pela sua humildade, sua simplicidade e principalmente pela sua caridade. Eles dão a vida pelos japoneses sem esperar algo em retorno. No Evangelho de São João se lê: ‘Não há maior amor do que dar a vida…’. Se eu não tivesse encontrado missionários, a minha caminhada teria sido bem diferente da que é hoje. Apesar de muitas dificuldades, tomei a decisão de entrar na Vida Religiosa, de tudo deixar para seguir o Cristo e, a seu exemplo, doar-me totalmente a Deus e aos outros.

CONCILIAR DUAS IDENTIDADES
Cada vez mais freqüentemente coloco-me a pergunta: Como posso conciliar o Evangelho e duas identidades: a de autêntica japonesa e a de católica batizada? No Japão, após o meu Batismo vivi a vida cristã em meio a outras crenças religiosas, aceitando simplesmente não ser plenamente japonesa; era feliz na Vida Religiosa. Há alguns anos, vivendo na França, descobri que eu não devia descuidar de harmonizar com a cultura japonesa o que atualmente experimento como católica. Nasci no Japão, de pais japoneses. Minha identidade tem raízes na cultura japonesa, e eu passei do budismo ao Catolicismo. Tornar-me cristã não foi nem propriamente a rejeição da minha religião nem passagem de uma religião a outra, mas o cumprimento de todas as minhas aspirações mediante a acolhida da Palavra de Deus, que se revela em Jesus Cristo. Hoje agradeço por ter sido educada no budismo, onde encontrei as sementes da Palavra de Deus, que me tornaram capaz de acolhê-la um dia em plenitude, encarnada em Jesus Cristo; não tenho o sentimento de ter traído a religião que me foi transmitida desde o berço. O mistério de Cristo se desvenda progressivamente e eu me torno pouco a pouco mais ‘cristã’. Como Religiosa missionária na França, o que me importa não é tornar-me francesa nem ficar japonesa. É simplesmente ser eu mesma e viver a minha vocação cristã de Franciscana Missionária de Maria”.

Sem comentários.

 

DE BUDISTA A TOMISTA: a conversão ao catolicismo do filósofo Paul Williams
Catedrático de filosofia budista na Universidade de Bristol e budista praticante, foi durante mais de 30 anos uma das principais autoridades acadêmicas sobre budismo no Reino Unido. Porém em 1999 se converteu ao catolicismo, ao refletir sobre o karma e a vida após a morte.

Pablo Ginés/ReL  – 6 diciembre 2011 –   ReligionenLibertad.com

Paul Williams, catedrático de filosofia budista e professor de religiões da Índia na Universidade de Bristol, foi durante mais de 30 anos uma das principais autoridades acadêmicas sobre budismo no Reino Unido. Também era um budista convencido, intelectual e praticante. Porém em 1999 surprerndeu  seus alunos, companheiros e familiares quando anunciou que se convertia ao cristianismo, mais ainda ao catolicismo mais ortodoxo. Em 2002 publicou um livro com seu testemunho de conversão e suas reflexões.

Na revista budista inglesa Dharmalife não escondiam sua perplexidade: “Williams é um dos principais estudiosos britânicos do budismo e um budista praticante de muitos anos. De fato, seu livro ‘O Budismo Mahayana’ é uma jóia de claridade e visão. Que surpreendente foi escutar há dois anos que tinha decidido ser católico. […] Catolicismo! Tinha tendência a acreditar que enquanto o budismo é uma opção vital e espiritual para as pessoas modernas, o catolicismo pertence a um passado problemático. Minha visão de catolicismo é influenciada pelos testemunhos de amigos ex-católicos, sobre os efeitos debilitadores da culpa, sua busca de bases emocionais saudáveis para suas vidas… Como poderia uma pessoa inteligente e bem informada tomar tal opção?”, se pergunta o crítico da revista.

Williams  explicou em seu livro “Unexpected Way”, de 2002, e em algumas entrevistas e testemunhos escritos.

Juventude anglicana tíbia

Paul Williams nasceu em 1950. A família de sua mãe não era religiosa,  depois de sua conversão descobriu que teve uma bisavó católica. A família de seu padre era tipicamente anglicana. Sendo muito jovem, Paul se juntou ao coral da paróquia anglicana porque  gostava de cantar. Foi crismado em sua adolescência pelo bispo anglicano de Dover e  com 18 anos recorda que ia  comungar algumas vezes. Mas não tinha uma relação próxima com Cristo nem recebeu formação.

Seu irmão trouxe da biblioteca um livro sobre yoga, e com ele Williams se afeiçoou à cultura oriental nos muito alternativos anos 60. “Estive implicado no estilo de vida e das coisas que os adolescentes fazem. Ao aproximarem-se os exames públicos deixei o coral, deixei de servir na igreja, perdi o contato com ela,  deixei o cabelo comprido e me vestia diferente”.

Meditação e budismo

Estudando na Universidade de Sussex se especializou em filosofia indiana e depois em budismo. Tinha lido algo de Santo Tomás de Aquino e lhe pareceu admirável, rápido se esqueceu dele. “Por um tempo fiz a Meditação Trascendental de Maharishi Mahesh Yogui, porém a deixei porque me desgostava de sua superficialidade e me parecia que distorcia a tradição indiana”, escreveu em seu livro.

Em 1973 já  tinha tudo claro: tinha estudado tanto o budismo que via o mundo com categorias budistas, lhe pareciam coerentes, Deus não era necessário e se considerou já budista. Se “refugiou” formalmente como budista na tradição tibetana Dgelugspa, a do Dalai Lama. Sendo professor na Universidade de Bristol criou seu próprio círculo de budistas.

Praticava a meditação, dava palestras em encontros budistas, aparecia em debates televisivos como budista tibetano e participou de debates públicos com o católico dissidente Hans Küng e o catalão orientalista Raimon Panikkar.

O que atraia do budismo

“Interessava-me a filosofia, mas também a meditação e o exótico Oriente. Muitos de nós encontrávamos o budismo interessante, ao princípio, porque parecia muito mais racional que as alternativas, e às vezes muito mais exótico. Os budistas não crêem em Deus, ou melhor, não parecia ter razões para crer em Deus e a existência do mal era para nós um argumento positivo em seu contrário. Nós que havíamos crescido como cristãos estávamos fartos de defender  Deus num mundo hostil, cheio de detratores. No budismo  tem um sistema de moralidade, espiritualidade e filosofia inensamente sofisticado (e exótico), que não necessita de Deus para nada”, explica Williams.

Anos depois, ao converter-se ao catolicismo, o filósofo seguiu refletindo e escreveu: “Se olhamos como são os budistas do Ocidente, o chamado Budismo Ocidental, o que encontramos com regularidade é uma forma de cristianismo na qual tiraram as partes que os cristãos pós-cristãos encontram mais dificuldades em aceitar”.

Williams inclusive conheceu um líder chamado Sthaira Sangharakshita que propunha aos budistas de passado cristão praticar a “blasfêmia terapêutica”, para conseguir desapegar-se de seu fundo cristão, insultando coisas consideradas santas em sua cultura. Para Williams esta idéia  parecia uma barbaridade.

O  problema da reencarnação

O budismo no Ocidente se apresenta sobretudo como técnicas para viver experiências positivas: paz, harmonia, relaxamento… Mas a medida que Williams via o passar dos anos, como filósofo não podia evitar fazer-se perguntas, e entre elas: o que passa depois da morte? Há budistas que preferem não pensar no tema, e consideram que é “Mara”, uma “ilusão”, uma distração, um tema no qual não vale a pena pensar, mas pode um filósofo deixar de perguntar-se?

“Os budistas crêem no renascimento, ou melhor, na reencarnação, como é chamada. Não há um início na série de vidas renascidas: todos temos renascido infinitas vezes, não há princípio nem se necessita de um Deus que o inicie”, explica.

Williams recorda que na época dos primeiros cristãos as crenças a favor do renascimiento estavam muito difundidas na Grécia e Roma, mas o cristianismo nunca as aceitou. “E por boas razões: se a reencarnação é certa, nós não temos nenhuma esperança”.

O que há de mim numa barata?

Imaginemos que vamos  ser executados sem dor amanhã pela manhã, mas sabemos com toda segurança que depois reencarnaremos como uma barata. “Acostumar-te-ás, não á tão mal, ser barata não é como o nada ou o grande vazio, é uma vida, seguirás vivo… Mas por que nada disso nos consola?”, argumenta Williams.

Mais específico ainda: “Não peço que imagineis que despertais dentro do corpo de uma barata, como na  Metamorfose de Kafka. Serias uma barata, e quem sabe quais são os sonhos ou imaginações de uma barata?”

“O terror de ser executado na aurora e renascer como barata é que, simplesmente, isso seria meu fim. Não posso imaginar como ´r renascer como barata porque não há nada que imaginar! Simplesmente, não teria nada de mim aí. Se a reencarnação é certa, nem eu nem meus seres queridos sobreviveríamos à morte. O eu, a pessoa real que sou, minha história, se acaba. Quem sabe haja outro ser vivo com algum tipo de conexão causal com a vida que eu fui, alguém influenciado por meu karma, mas eu já não estou”.

“No nível cotidiano, os budistas tendem a obscurecer este fato -que eu desapareço do tudo com a morte- quando falam de ´meu renascer´ ou de ´preocupar-se por tuas vidas futuras´, mas na realidade qualquer renascer -como uma barata sul-americana- não seria ´eu mesmo´, e por tanto cabe perguntar-se por que hei de preocupar-me por minhas reencarnações futuras”.

Iluminação, sim… mas quem a consegue?

Para escapar do ciclo das reencarnações, o budismo ensina que é possível alcançar a iluminação, o nirvana, uma absoluta perfeição e desapego nesta vida. Quando alguém tem 20 anos pode pensar que com muito esforço o conseguirá. Mas Williams, com mais de 20 anos de intensa prática budista e meditativa o tinha claro: “É evidente que não vou  conseguir a iluminação nesta vida. Todos os budistas tenderão a dizer isso de todo o mundo. A iluminação é uma conquista extremadamente rara e suprema, para heróis espirituais, não para nós, não para gente como eu. Assim que eu, e meus amigos e familiares, não temos esperança”.

Karma: pagar pelas outras vidas tuas… que não eras tu

Williams explica rapidamente a teoria do karma: alguns males e alguns bens que experimentas, são consequência do que fizeste em uma vida passada. Mas em qual sentido se puede decir que el dictador cruel y maligno que fuiste en otra vida eras tú? “La idea de que um bebê sofre uma dolorosa enfermidade por algo que fez outra pessoa, inclusive se o bebê é de alguma maneira um renascimento dessa pessoa, não pode ver-se como satisfatório. Não pode se dizer que o que alguém fez, seja a resposta mais aceitável ao problema do mal. O bebê não foi quem fez os atos malvados, como também eu não sou uma barata depois de minha execução”.

O cristianismo oferece esperança

“O budismo não tinha esperança para mim. Os cristãos sim têm esperança. Assim então eu quis ser cristão. Voltei a examinar as coisas que tinha rejeitado em minha juventude. Dei-me conta que é racional crer em Deus, tão racional -hoje penso que mais racional- do que crer, como os budistas, que não há Deus”.

Examinou a chave da proposta cristã: que Jesus tinha ressuscitado. “Assombrou-me descobrir que a ressurreição literal de Cristo dentre os mortos depois de sua crucifixão é a explicação mais racional do sucedido. Isso fazia do cristianismo a opção mais racional das religiões teístas, e como cristão considerei que devia dar prioridade à Igreja Católica. Em meu livro analizo vários argumentos que me deram para não facer-me católico e explico como não conseguiram dissuadir-me”.

“O cristianismo é a religião do valor infinito de cada pessoa. Cada pessoa é uma criação individual de Deus, e como tal Deus a ama e valoriza infinitamente. Nisto se baseia toda a moral cristã, desde o valor da família ao altruísmo e o sacrifício dos santos. Por sermos infinitamente valiosos, é que Jesus morreu por nós, para salvar-nos a cada um. E somos as pessoas que somos, com nossas histórias, amigos e parentes. Nossa fé é que em Deus nossas mortes terão significado para cada um de nós, de formas que excedem nossa imaginação mas que inclusive agora já suscitam nossa esperança e alimentam nossas vidas”.

Hoje Paul Williams é laico dominicano e um grande admirador de São Tomás de Aquino. Lamenta que às vezes, em encontros ecumênicos ou análises de religião comparada, se faça o contraste entre os místicos cristãos de linguagem simples (como São João da Cruz) com teóricos budistas muito elaborados, com um discurso muito intelectualizado que fazem parecer o místico cristão uma versão simples de uma filosofia complexa. Williams considera que esses autores budistas devem contrastar-se melhor com autores sistemáticos como São Tomás. Segue sendo, em todos os sentidos, professor e especialista em budismo.

Nenhum comentário ainda

Comentários desativados

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda