São Francisco Xavier – 03 de Dezembro

Fragmentos de cartas de São Francisco Xavier (1506–1552)

1. Confiança em Deus:

– “Deixar de confiar em Deus seria uma coisa muito mais terrível do que qualquer mal físico” – (Carta sobre viagem marítima, ameaçada por tempestades e piratas, rumo a China).

– “Tenho sempre na minha mente e ante os meus olhos algumas palavras que ouvi nosso padre Inácio repetir, que nós devemos nos esforçar muito para conquistar-nos a nós mesmos, e tirar de nossos corações qualquer medo ou ansiedade que possa impedir o crescimento da confiança em Deus.

Há uma grande diferença, também, entre o homem que confia em Deus quando tem tudo o que precisa, e aquele que confia em Deus quando nada possui. Também, uma coisa é confiar em Deus quando a vida está segura, livre de perigos, e outra quando há perigo iminente de destruição. Penso que aqueles que vivem em perigo contínuo de morte chegarão a se cansar desta vida e desejar morrer para estarem sempre com Deus no Céu, porque nossa presente condição mortal é, na verdade, somente uma morte contínua, um exílio da glória para a qual fomos criados”  –  (Carta para jesuítas da Europa).

2. Como obter a humildade:

“Em todos os caminhos da vida procura e deseja ser humilhado e tratado como alguém sem importância alguma, porque sem a verdadeira humildade nunca conseguirá crescer espiritualmente ou ajudar o próximo, ser aprovado pelos santos, agradar a Deus ou perseverar nesta menor Companhia (os Jesuitas), a qual não pode tolerar homens orgulhosos e arrogantes, apegados às suas próprias opiniões e dignidade pessoal; pois tais pessoas nunca fazem bem ou ajudam outras pessoas” – (Carta a um noviço jesuíta).

3. Uma advertência:

“Cuidado com as pessoas que falam para você sobre suas necessidades físicas mais do que sobre suas necessidades espirituais” –  (Carta ao jesuíta Gaspar Berze).

4. Ciúmes entre cristãos?

“Um diz:  Eu o faço, e outro: Não, deixe eu fazê-lo; e um terceiro: Porque não vou fazê-lo, não quero olhar você procurando fazê-lo. E há mais outros que dizem: Eu faço todo o trabalho e a outra pessoa é que recebe gratidão e recompensa. E assim o tempo passa, cada um procurando sua própria vantagem, e o serviço de Deus não é feito” –  (Carta ao rei João III de Portugal).

 

Liturgia das horas   
Das cartas de São Francisco Xavier, presbítero, a Santo Inácio
(Cartas de 20 de Out. de 1542 e 15 de Janeiro de 1544: Epist. S. Francisci Xaverii aliaque eius scripta, ed. G. Schurhammer — I. Wicki, t. I: «Mon. Hist. Soc. Iesu» 67, Romae, 1944, pp. 147-148; 166-167)

Ai de mim se não anunciar o Evangelho

Viemos por povoações de cristãos, que se converteram há uns oito anos. Nestes sítios não vivem portugueses, por a terra ser muitíssimo estéril e extremamente pobre. Os cristãos destes lugares, por não terem quem os instrua na nossa fé, somente sabem dizer que são cristãos. Não têm quem lhes diga Missa e, ainda menos, quem lhes ensine o Credo, o Pai-Nosso, a Ave-Maria e os Mandamentos. Quando eu chegava a estas povoações, baptizava todas as crianças por baptizar. Desta forma, baptizei uma grande multidão de meninos que não sabiam distinguir a mão direita da esquerda. Ao entrar nos povoados, as crianças não me deixavam rezar o Ofício divino, nem comer, nem dormir, e só queriam que lhes ensinasse algumas orações. Comecei então a saber por que é deles o reino dos Céus. Como seria ímpio negar-me a pedido tão santo, comecei pela confissão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, pelo Credo, Pai-nosso, Ave-Maria, e assim os fui ensinando. Descobri neles grande inteligência. Se houvesse quem os instruísse na fé, tenho por certo que seriam bons cristãos. Muitos deixam de se fazer cristãos nestas terras, por não haver quem se ocupe de tão santas obras. Muitas vezes me vem ao pensamento ir aos colégios da Europa, levantando a voz como homem que perdeu o juízo e, principalmente, à Universidade de Paris, falando na Sorbona aos que têm mais letras que vontade para se disporem a frutificar com elas. Quantas almas deixam de ir à glória e vão ao inferno por negligência deles! E, se assim como vão estudando as letras, estudassem a conta que Deus Nosso Senhor lhes pedirá delas e do talento que lhes deu, muitos se moveriam a procurar, por meio dos Exercícios Espirituais, conhecer e sentir dentro de suas almas a vontade divina, conformando-se mais com ela do que com suas próprias afeições, dizendo: «Senhor, eis-me aqui; que quereis que eu faça? Mandai-me para onde quiserdes; e se for preciso, até mesmo para a Índia».

 

Explicação Catequética do Credo, por São Francisco Xavier
http://tesourosdaigrejacatolica.blogspot.com.br/2011/05/explicacao-catequetica-do-credo-por-sao.html

É seguro assumir que este texto representa a maneira como São Francisco Xavier explicava os artigos da oração do Creio aos habitantes das terras asiáticas que catequisou. O santo fundou, junto com amigos, a ordem dos jesuítas, reconhecida pelo Papa em 1541, alguns anos após o pedido ser apresentado. São Francisco Xavier desembarcou na Índia, na cidade de Goa, em 6 de Maio de 1542. Dali, até a sua morte, em 3 de Dezembro de 1552, dedicou-se a catequização da Ásia, tendo viajado pela Índia, Sudeste Asiático, Filipinas, China e até o Japão.

Este texto é uma tradução particular com base no livro Vida e Cartas de São Francisco Xavier, páginas 321 a 339, disponível no site The Internet Archive. O livro foi publicado em 1881, na Inglaterra.

Artigo I: Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, criador do céu e da terra,
* É seguro assumir que este texto representa a maneira como São Francisco Xavier explicava os artigos da oração do Creio aos habitantes das terras asiáticas que catequisou. O santo fundou, junto com amigos, a ordem dos jesuítas, reconhecida pelo Papa em 1541, alguns anos após o pedido ser apresentado. São Francisco Xavier desembarcou na Índia, na cidade de Goa, em 6 de Maio de 1542.  Dali, até a sua morte, em 3 de Dezembro de 1552, dedicou-se a catequização da Ásia, tendo viajado pela Índia, Sudeste Asiático, Filipinas, China e até o Japão.

1. Delicia aos cristãos ouvir e aprender a maneira e ordem na qual o Senhor Deus fez todas as coisas, para uso e serviço do homem. No início Ele criou os céus e a terra, os Anjos, o sol, a lua e as estrelas; o dia e a noite; plantas e ervas de todos os tipos, raízes e frutas nas árvores; pássaros e animais que vivem sobre a terra; os mares, rios, lagos e todas criaturas que vivem nas águas. E após tudo isto ter sido criado, Ele fez, por último, o homem, à sua imagem e semelhança.

2. O primeiro homem criado foi Adão, e a primeira mulher, Eva. Tendo formado a ambos e inspirado sobre eles a vida, colocou-os no Paraíso terrestre. Abençoou-os, deu-os um ao outro e os ligou-os pelo casamento, ordenou-os a se unirem, terem filhos e encher a terra de habitantes. Deste casal somos todos descendentes, a partir deles todas as nações se formaram. Neste primeiro tipo de povo habitando a terra, vemos um exemplo da unidade através do casamento. Por ele, Deus, o senhor de toda sabedoria, o criador da natureza, não deu a Adão mais que uma mulher. Fica claro como é contrário à autoridade de Deus tomar mais de uma esposa, como aprovam muçulmanos e idólatras, e mais deplorável e corrupto, como fazem algumas vezes maus cristãos, que vivem com muitas mulheres; e mesmo aqueles que vivem com apenas uma concubina não escapam da condenação por esta lei; pois Deus não permitiu a Adão e Eva unirem-se e terem filhos antes de estarem unidos pelos laços do matrimônio.

3. Portanto, os fornicadores, rebeldes ao Deus que os fez, devem esperar punições adequadas aos seus crimes. Também os que fazem orações aos ídolos devem entender o grave crime de que são culpados, abandonando e desprezando o único verdadeiro Deus, o único criador de todas as coisas. Fazem orações, em seu erro fanático, a ídolos mudos e fantasmas do inferno. A razão nos mostra claramente que devemos procurar seguir a Ele, que nos deu os princípios da vida; eles, na sua sacrílega tolice, colocam suas esperanças e ações em atos de bruxaria e histórias contadas por adivinhos. Eles dirigem ao Diabo – o implacável inimigo da salvação – a fé e oração devidas a Deus, o autor de todas as boas coisas, de quem receberam sua alma, seu corpo, tudo o que são e possuem. Impiedade não mais deplorável e detestável, fatal para os pobres que são culpados de cometê-las, pois esta insensível superstição os exclui de ganhar um lugar na vida eterna, um local cheio de alegrias preparadas para a alma dos que reconhecem a Deus, a abençoada felicidade, pela qual o Criador, em seu infinito amor, criou o gênero humano.

4. Quão mais inteligentes são os cristãos! Fiéis a Deus, acreditam em Seu Senhor e a Ele prestam culto em espírito; e com toda sua capacidade e afeto de seus corações o aceitam; o único verdadeiro, supremo e eterno Espírito, criador dos céus e a terra. Demonstram o que passa em seus corações através de sinais de devoção, frequentando igrejas, onde podem ver em altares imagens de Jesus Cristo, seu Filho; da Virgem Maria Mãe de Deus; e de santos, que após uma vida a serviço de Deus, reinam com ele na glória do Paraíso.

5. Em meio a figuras solenes, que relembram santos acontecimentos, pessoas representadas por estas imagens, ajoelhados no chão, com as mãos elevadas ao céu, na direção em que colocam seu coração, os cristãos confessam sua fé em Deus, apenas a Ele creditam suas alegrias e consolações, dizendo estas palavras de São Pedro: “Eu creio em Deus Pai, Todo Poderoso, criador do céu e da terra”. Criador também dos anjos que estão nos céus, anteriores ao homem. Agora, a multidão dos anjos avidamente adora o seu Deus, dando graças e glorificando-O pela sua abençoada criação. Lucifer, por outro lado, e muitos anjos caídos recusam-se a adorá-Lo como seu criador; disseram com orgulho, vamos nos elevar, fazermo-nos como deuses, reinando nos altos céus. Para punir esta rebelião, Deus expulsou a Lucifer e seus seguidores do céu, mandando-os aos infernos.

6. Lucifer, caído dos céus, viu Adão e Eva, os primeiros humanos, e invejoso da graça de Deus que os criara, para fazê-los cair em tentação, colocou em seus corações o mesmo orgulho que o fez sair do céu. Encontrou-os no Paraíso terrestre e os prometeu falsamente a mesma glória de Deus criador, se comessem do fruto proibido. Adão e Eva deixaram-se levar pela falsa promessa que se tornariam como deuses, e consentiram, comeram do fruto e perderam a graça na qual haviam sido criados. Como punição para o seu pecado, Deus os dirigiu para fora do paraíso. Daquele momento em diante, viveram afastados de Deus, numa condição de duros serviços, fazendo penitência pelo pecado cometido, a culpa estava muito acima de qualquer expiação, que por mais que Adão e seus filhos possam pagar, tudo é insuficiente para apagar a marca e restaurar a esperança de viver na alegria eterna, do qual foram justamente  privados como punição pelo seu orgulho e desejo de serem como deuses. A partir daquele momento, os portões do Paraíso mantiveram-se fechados, atrás de barreiras impenetráveis, que afastaram Adão e sua posteridade de todo acesso a glória irreparavelmente perdida pelo pecado cometido, a sua ruína e de seus filhos.

Artigo II e III: e em Jesus Cristo, seu único filho, Nosso Senhor, concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria,
* trecho adicional, não relacionado diretamente a um artigo: Vida de Jesus Cristo

7. Oh cristãos, qual será então o destino de nossa miserável fé? Se assim como muitos anjos por um único pecado cometido foram retirados dos céus e jogados nas profundezas do inferno; se Adão e Eva, pelo pecado do orgulho, perderam a abençoada posse do Paraíso terrestre – que esperança podemos ter, nós que nos degradamos por muitos pecados, de todos os tipos, de nos libertarmos de nossas impurezas, de limparmo-nos de nossas sujeiras e ascendermos aos mais altos céus, preparado pelo Deus imortal para nossas almas imortais? Toda esperança estava perdida; a danação e ruína eternas da raça humana eram certas, sem nenhuma alternativa para escarparmos, quando São Miguel,  nosso fiel amigo, e os anjos como ele, permaneceram fiéis, obedientes e em posse deste prêmio pela sua constância, a mais agradável eterna alegria nos céus, todos juntos, compadecidos das calamidades que atingem a raça humana, em humilde súplica aos pés de Deus, desejando alcançar pelas suas preces o remédio para tão grandes males, que pelo pecado de Adão e Eva, espalharam-se como uma grande enchente por todos seus descendentes; assim os santos oram:

8. “Oh Deus dos deuses, mais misericordioso Senhor e Pai de todas as nações, agora que tem chegado a última hora, o dia mais esperado desde o início dos tempos está se aproximando, o dia que o Sagrado Senhor preparou e destinou para demonstrar sua misericórdia à humanidade perdida. Já vemos agora o amanhecer deste dia em que os portões do céu estarão novamente abertos para os filhos de Adão, restaurados pela graça de serem filhos adotados de Deus. Dos Santos Joaquim e Ana nasceu uma filha, Maria por nome, cujas virtudes e santidade ultrapassaram em excelência todas as criaturas menores que Deus. E esta mulher, é tão pura e nobre, de sangue virginal, nem parece ser obra do mesmo infinito e oniciente Deus que formou o corpo do velho homem, o corpo de Adão, à sua semelhança. E neste corpo virginal, formado da mais pura substância, o Todo Poderoso insuflou a mais bela alma, em íntima união, ultrapassando a santidade de todas almas criadas antes dela e que serão criadas no futuro. Neste tempo, Deus resolveu, em conselho da Santíssima Trindade, juntar sua Divina Pessoa com nossa natureza humana no seio da Virgem Maria, de tal modo que desta Virgem, a mais perfeita de todas criaturas, pudesse nascer Jesus Cristo, seu Filho e Salvador do universo. E assim, ó Deus, as Escrituras serão cumpridas, assim como as promessas feitas aos patriarcas e profetas serão plenamente realizadas, em favor daqueles que estão esperando pelo Salvador Jesus Cristo, nosso Senhor e Redentor.”

9. Ao ouvir esta prece dos santos anjos, o mais alto, o soberano Senhor e Todo Poderoso Deus, tocado pela infinita compaixão pela nossa imensa miséria, mais claramente compreendida por Ele, enviou dos céus o arcanjo Gabriel para a cidade de Nazaré, onde a Virgem Maria residia. Este anjo, seguindo as ordens de Deus, disse a ela: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo. Encontraste graça diante de Deus, conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus (cf. Lc 1, 28-31). Ao ouvir estas palavras, Maria respondeu: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38). No instante que a santa virgem deu sua palavra de consentimento ao que era proposto por Deus através do arcanjo, Deus formou em seu ventre, do seu puro sangue, um corpo humano, ao qual Ele uniu, no mesmo instante, a alma de seu Filho. Então a segunda pessoa da Santíssima Trindade se encarnou no ventre da Virgem Maria, somando sua perfeita alma a um perfeito corpo, ambos infinitamente santos.

10. Após, transcorridos nove meses desde o dia da incarnação do Filho de Deus, deu-se seu nascimento. Jesus Cristo, o Salvador da humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nasceu da Virgem Maria. Isto professou Santo André: Eu creio em Jesus Cristo, o único Filho de Deus, nosso Senhor,  e ao que São João acrescentou: que foi concebido pelo Poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria. Jesus, nosso Senhor e Salvador nasceu em Belém, próximo a Jerusalém. Foi lá que os anjos, a Virgem sua Mãe, São José, os Reis Magos vindos do este e muitos outros, adoraram ao Senhor Soberano.

A vida de Jesus Cristo
11. Enquanto isso, Herodes, que estava reinando em Jerusalém, temendo pela queda do seu reinado, ao qual era apaixonadamente agarrado, pensou que poderia ser tomado dele por Jesus Cristo recém-nascido, resolveu matá-lo. Mas esta cruel intenção falhou, pois Jesus foi levado embora antes que Herodes agisse. São José avisado em um sonho pelo Anjo, fugiu de Belém para o Egito, levando consigo Jesus Cristo e a sua mãe Virgem Maria; e por lá permaneceram até Herodes morrer de maneira miserável. Tão grande foi a barbaridade que cometeu, que enfureceu-se contra Belém, e matou todas crianças de dois anos e meio ou menos, pensando que Jesus Cristo estivesse incluído em tal massacre. Isto, no entanto, era falso, pois a Sagrada Família estava à salvo; retornaram do exílio no Egito para a cidade de Nazaré quando José foi avisado em sonho por um Anjo.

12. Quando Jesus alcançou a idade de doze anos foi ao templo em Jerusalém, onde estavam os doutores da Lei, e a eles explicou o que as Escrituras, os profetas e patriarcas, falavam a respeito Dele, que previram o Filho de Deus, demonstrando uma sabedoria tão maravilhosa que todos ouvintes ficaram extasiados. Dali, retornaram a Nazaré, onde Jesus permaneceu até Jesus alcançar cerca de trinta anos, quando foi até o Rio Jordão, onde São João Batista estava batizando grande número de pessoas. Lá João batizou ao Filho de Deus nas águas do Jordão. Então Jesus retirou-se para o deserto, onde por quarenta dias e quarenta noites absteve-se de alimento e água. No deserto, o demónio, não sabendo que se tratava-se fo Filho de Deus, tentou fazê-lo cair nos pecados da glutonia, cobiça e vanglória.   Jesus Cristo derrotando Satanás no deserto.

13. Mas, repelindo todas estas tentações, saiu vitorioso sobre o demônio, caminhou em direção a Galiléia, onde convertou multidões, expulsou muitos demônios, ordenando que abandonassem os corpos que haviam invadido, até mesmo os mais obstinados e rebeldes maus espíritos lhe obedeciam instantaneamente. O povo, justamente admirado, enchia-se de admiração,  espalhava sua fama e falava de sua divina doutrina, explicitada em discursos e ensinamentos de infinita sabedoria, visível em obras e milagres que demonstravam seu poder, especialmente as muitas curas de doentes que padeciam de diferentes males.  Muitos foram persuadidos por seus discursos, que eram feitos com tão grande autoridade, e auxiliavam outros a trazer seus doentes para que Jesus, com o toque de suas mãos, as curasse de qualquer problema, e as enviasse para casa saudáveis e cheias de gratidão.

14. Então Jesus chamou doze Apóstolos e setenta e dois discípulos, que O acompanhavam em sua jornada, de cidade em cidade, vila em vila, ensinando os mistérios do Reino de Deus e pregando para as multidões, confirmando a verdade que Ele ensinava através de grandes e inumeráveis milagres. Aos olhos do povo, na presença de seus apóstolos e discípulos, Jesus restaurou a visão aos cegos, fez falar o mudo, ouvir o surdo, caminhar o paralítico. A visão destes milagres diários confirmava seus apóstolos e discípulos mais e mais na fé em Jesus Cristo. Embora fossem pescadores iletrados e homens rudes, pregavam ao povo a divina doutrina de Jesus Cristo, o Filho de Deus, pois Jesus comunicava a eles tão grande poder e sabedoria, que supriam a falta de estudo e ensinamentos humanos. Quando invocavam o Seu Nome, os apóstolos eram capazes de maravilhas, livrando os homens de diferentes doenças, selando, desta maneira, as verdades que anunciavam, provando de maneira abundante para muitas testemunhas através de sinais miraculosos o caráter Divino de seu testemunho.

15. A grande fama de Jesus e seus discípulos espalhou-se pela Judéia, atraiu a atenção dos chefes da nação, homens que consideravam-se muito importantes, especialmente aqueles chamados fariseus, arrogantes desprezadores de qualquer coisa que não fosse de seu grupo, habitualmente zangavam-se se qualquer outro grupo ou seita obtivesse mesmo que uma pequena fama. É fácil imaginar quão grande inveja atingiu estes homens orgulhosos quando souberam de Jesus Cristo, que censurava sua doutrina, era ouvido com aplausos pelo povo e muito estimado pelas multidões, pois parecia ser eminente a queda do posto mais alto posto de reputação e autoridade onde estavam havia muitos anos, e que este novo Mestre tomaria seu lugar comandando um grupo de simples pescadores. Movidos, pela fúria da inveja, os fariseus colocaram em prática um plano baseado em calúnias para afetar a reputação e a vida de Jesus.

Artigo IV: padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado,

16. Com a intenção de atingir a reputação de Jesus, após tentaram constrange-Lo com perguntas inconveninetes, criar suspeitas, acusações diretas, os chefes dos fariseus persuadiram Pilatos, naquele tempo governador da Judéia, a prender Jesus alegando que era necessário para manter a ordem pública. O governador estrangeiro deixou-se levar pelas maquinações dos fariseus, não que ele fosse ignorante que as alegações fossem mera e fraca justificativa para disfarçar a inveja que sentiam, mas seja porque não desejava resistir àqueles pedidos inoportunos ou pelo desejo que ganhar os favores dos líderes do povo judeu, entendeu que lhe valeria tranquilidade e poderia melhor negociar favores no futuro as custas de Jesus, que parecia ser apenas um novo Elias ou Jeremias entre os mais velhos, ou João Batista entre os mais jovens, pois ele não suponha ser superior à natureza humana. Se tivesse conhecimento que Jesus era Filho de Deus, talvez nenhuma influência dos fariseus teria prevalecido e Jesus não fosse entregue à fúria dos seus inimigos.

17. Tendo sido feito prisioneiro pela autoridade do governo, Seus inimigos tomaram medidas que garantissem que Jesus fosse tratado da maneira mais cruel e ignomiosa possível. Ele foi arrastado através das ruas e praças da cidade, em meio à multidão que lhe ofendia de todas formas, de um local para outro, colocado a frente de diferentes tribunais, zombado, espetado, cuspido e espancado, até que o conduziram à presença de Pilatos, com falsas testemunhas contra Ele, em frente à uma multidão que clamava por morte, e morte na Cruz. Ainda assim o juiz exitou, sabendo da inocência do acusado, até que sugeriram que ele perderia o favor de Cesar se deixasse livre um homem que se declarava Rei dos Judeus e que poderia, em breve, liderar uma revolta. Então Pilatos cedeu aos apelos dos acusadores e sentenciou Jesus. Após ter sido flagelado da cabeça aos pés, ele enviou Jesus para ser crucificado pelos judeus, como haviam pedido.

18. Antes de crucificá-Lo, os emissários dos fariseus Lhe colocaram uma roupa de Rei, como zombaria, e uma coroa de espinhos em Sua cabeça, uma cana como cetro real em Sua mão, ajoelharam-se em frente a Ele como irônica homenagem, dizendo ser o Rei dos Judeus, pois lhe cuspiam na face, batiam em face repetidas vezes, tomavam a cana de suas mãos e a utilizavam para bater em Sua cabeça e cravar mais fundo a coroa de espinhos. Então O amarraram em uma Cruz e o levaram para o Monte Calvário, próximo a cidade de Jerusalem. Jesus morreu na cruz, para salvar os homens pecadores; sua mais Sagrada alma separou-se de seu corpo, embora desunidos, nunca cessou de sofrer intensamente Sua Paixão. Assim, o corpo já sem vida, enquanto ainda na cruz ou quando colocado na tumba, esteve sempre na companhia inseparável da Divindade.

19. Ainda, ao morrer Jesus Cristo, o Sol escureceu-se, o dia ficou escuro, a terra estrememceu, as pedras rolaram, as tumbas dos mortos abriram-se, e muitos corpos dos santos reviveram, sendo vistos por muitos dos habitantes da cidade de Jerusalem. Em vista destes prodígios, muitos dos que pediram a morte de Jesus convenceram-se e lamantaram: Realmente este era Filho de Deus! Todos estes fatos estão na confissão de fé do apóstolo São Tiago, que adicionou estas palavras às precedentes: “Creio em Jesus Cristo, que padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”. Jesus Cristo era Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade; ao mesmo tempo era verdadeiramente homem, nasceu da Virgem Maria, tinha uma alma e corpo humanao.  Realmente morreu na cruz enquanto estava pregado a ela. Pois a morte nada é mais que a separação da alma do seu corpo, no qual e com o qual habitou. E a mais sagrada alma de Jesus Cristo foi separada do corpo quando Ele expirou na cruz.

Artigo V: desceu à mansão dos mortos, ressuscitou no terceiro dia,

20. E então, a mais Sagrada alma, separada do corpo de Jesus e permanecendo unida à divindade do Filho de Deus, como tem sido desde sempre, desceu ao Limbo. O Limbo é um local abaixo da terra onde estão as almas dos santos padres, profetas, patriarcas e muitos outros, reunidas à espera da vinda do Filho de Deus, pois sabem que as conduzirá para a abóboda do Paraíso. Pois desde o início da criação, homens bons tem vivido, tem sido amigos e tementes de Deus, pois livremente entenderam e professaram as santas verdades e nunca abandonaram sua fé frente aos perversos que se opuseram a elas. Estas almas reprovaram pecadores, corrigiram a maldade daqueles que se opuseram a Deus, o criador de todos. Mas homens corruptos e criminosos não aceitaram suas censuras, pela inspiração e assistência do Demônio, arranjaram falsas testemunhas, perseguiram boas pessoas, amigas de Deus, com todo tipo de maldade, fazendo-as prisioneiras, banindo-as das cidades, injuriando-as e insultando-as.

21. Correspondendo às grandes diferenças de vida entre os homens bons e os perversos, é muito diferente o estado destas almas que separaram-se de seus corpos. Todas almas daqueles que durante a sua vida foram virtuosos, quando a morte libertou a alma das ligações com o corpo, dirigiram-se para este lugar a pouco mencionado, chamado Limbo, localizado logo abaxo da superfície da terra. Lá não há, como no lugar chamado Inferno, fogos, tormentos ou dores. Tais punições são reservadas aos perversos, enquanto que as almas daqueles que agradaram a Deus repousam numa abençoada paz.

22. Abaixo desta região, há outra chamada Purgatório, por ser um lugar para purificação e limpeza, que tornará as almas daqueles não culpados de pecados graves, almas levemente marcadas por pecados veniais, que não incorreram em pecados mortais e ainda não fizeram penitências adequadas para cobrir as dívidas de seus pecados, que pela graça de Deus poderão livrar-se das culpas e pagar por seus erros. Neste local, através de sofrimentos e privações, livram-se dos velhos vícios encrustados nas almas, até pagarem por todos pecados atribuídos a elas; até as almas tornaram-se limpas a ponto de brilharem com intensidade. Então é permitido a elas entrarem em posse de sua herança, sendo uma punição esperarem por esta purificação até o momento justo.

23. A última destas abóbadas abaixo da Terra é propriamente chamado de Inferno, a mais miserável abóbada de chamas que nunca extinguem-se e tormentos tão horríveis e intoleráveis, de diferentes tipos, que se qualquer homem aplicasse a si mesmo tais punições por apenas uma hora de sua vida, mesmo que de maneira imperfeita e como nosso estado permite, a natureza de tais tormentos  seria evidente, veria claramente o grande horror de fazer-se culpado de grandes crimes e maldades sem hesitação, por esporte ou diversão, e correr o risco de terem que suportar tão grandes tormentos por toda eternidade. Lá está Lucifer, príncipe dos espíritos que rebelaram-se contra Deus. Lá estão todos espíritos que o seguiram e desceram aos infernos junto com Lucífer. Lá estão todos homens que, desde o início da humanidade, desprezaram a graça de Deus e tornaram-se culpados de pecados mortais. Aqueles que uma vez colocados nestas chamas do inferno para sofrer eternamente sem esperança e serem atormentados por imensas e inumeráveis dores, sabem com certeza que nunca, por nenhum meio, por toda eternidade, jamais encontrarão remédio ou consolação, por menor que seja.

24. Meus queridos, que loucura é esta nossa, que nos faz vivermos de maneira despreocupada, sem temer o Inferno, enquanto estamos sempre alimentando aquele fogo eterno, empilhando em nossas consciências o peso de nossos pecados, cada dia mais e mais! Não é este um sinal claro que nossa fé é, não apenas fraca, mas inexistente? Podemos professar com nossas bocas, mas nossos atos  refutam a Deus; pois aqueles que se chamam cristãos e permitem-se pecar como se fossem muçulmanos e idólatras, devem certamente pensar que podem enganar-se e mentir quando dizem acreditar em chamas eternas e punições reservadas aqueles que violam as leis de Deus. A Igreja, seja aquela militante composta por pessoas na Terra, ou a triunfante, formada pelos Santos que reinam junto com Deus, nunca reza por aqueles que estão no inferno, pois sabe muito bem que o Paraíso lhes está negado por toda eternidade, toda esperança esta perdida e a ruína é irreparável. Mas a Igreja, tanto a que está na Terra quanto nos Céus, ajuda de maneira caridosa as almas que sofrem no Purgatório, e é cheia de cuidados para com aqueles que ainda estão neste mundo; ela busca obter a graça de Deus para todos, para que livrem-se da miséria e chamas eternas do inferno.

25. Jesus Cristo morreu numa sexta-feira, sua sagrada alma, sempre unida á Divindade, desceu ao Limbo, e livrou todas almas que lá esperavam sua vinda; e no terceiro dia, no Domingo, ele subiu dos mortos, reunindo sua sagrada alma ao corpo que havia abandonado quando morreu na cruz. Neste momento recobrou a vida  e, de posse total de sua imortalidade, apareceu primeiro a Sagrada Virgem Maria, então aos apóstolos, discípulos e a outros que lhe queriam. Assim, todas inseguranças e dúvidas que lhes acometeram  quando de sua morte foram eliminadas e abundantemente compensadas. Ele ainda ofereceu, através do testemunho de seus apóstolos, o perdão aos inimigos e àqueles que lhe crucificaram, e  concedeu sua graça a todos que a aceitaram. Havia grande números destes; e foi maravilhoso como muitos daqueles que obstinadamente não acreditaram em Jesus quando ainda estava vivo, pregando e confirmando seus ensinamentos com grandes milagres; quando Ele já não era mais visto acreditaram no testemunho dos apóstolos sobre a sua Ressurreição e colocaram toda sua esperança Nele, professaram sua crença em Deus Salvador dos homens. E estes que assim consideraram a verdade como sua fortaleza, isto afirmaram com estas palavras: “Creio em Jesus Cristo, que desceu à mansão dos mortos e no terceiro dia ressuscitou”.

Artigo VI: subiu aos céus e está sentado a direita de Deus Pai Todo-Poderoso,  

Jesus Cristo Triunfante conduz aos céus os patriarcas e santos homens e mulheres que lhe precederam, em frente da Vurgem Maria, apóstolos e outras testemunhas.

26. Jesus permaneceu na Terra após sua Ressurreição dos mortos por quarenta dias, por duas razões: Primeiro, para convencer totalmente seus discípulos de sua Ressurreição; e, em segundo lugar, ensinar para eles o que deveriam fazer em suas vidas. Eles estavam tão perturbados pelo inesperado evento de sua morte, tão consumidos pela dor, que era muito dificil para eles acreditar na ressurreição. Não era suficiente Jesus aparecer para eles uma ou duas vezes, era preciso mais tempo e uma multiplicação de provas para afirmar que Ele havia retornado à vida, para tanto muitas aparições foram necessárias. Nosso Senhor, tão cheio de condescendência e amor, para fazê-los crer plenamente, teve que adaptar-se à uma natureza humana, adiar por quarenta dias sua entrada triunfante nos céus. Neste período Ele instruiu Seus discípulos, em frequentes discursos, no que deveriam acreditar, o que deveriam ensinar a todas as nações e, após convencê-los sobre sua doutrina, como deveriam orar e agir para estarem preparados e alcançar o reino dos céus no tempo adequado, para segui-Lo, pois Ele estava indo adiante deles.

27. Tendo alcançado estes dois objetivos, retirado todas as dúvidas que afligiam os discípulos quanto a sua morte e ressurreição, o verdadeiro Filho de Deus e Salvador da Humanidade, tendo ensinado sobre todos temas acerca do reino de Deus, ou seja, como deveriam fundar a Igreja, a doutrina a ensinar, os sacramentos e todos pontos da disciplina cristã, que os apóstolos deveriam expandir para todo mundo, então, Jesus Cristo, não tendo mais razões para permanecer na terra, dirigiu-se ao Monte das Oliveiras, acompanhado pela Virgem Maria, sua mãe, os Apóstolos e muitos outros, e, à vista de todos, ascendeu aos mais altos céus, levando consigo os patriarcas e almas libertadas do Limbo. Então os portões do céu abriram-se, todos anjos vieram encontrar o Senhor em seu triunfo e preparar para Ele um trono ao lado direito de Deus Pai. Jesus retornou ao lugar de onde saiu para assumir um corpo humano no santo seio da Virgem Maria. Neste trono está sentado, advogando pelos pecadores, pedindo por eles ao Seu Pai, desarmando sua ira, enviando-nos auxilio, ajudando aqueles que podem livrar-se do perigo da danação eterna. Este é o significado do artigo do Creio, atribuído a São Tiago Menor: “Eu creio em Jesus Cristo, que subiu aos céus e está sentado a direita de Deus Pai Todo-Poderoso.”

Artigo VII: de onde irá julgar os vivos e os mortos.

28. Considerando que o mundo teve um início, deve também ter um final; e esta última cena deve estar, também, em acordo com a Providência Divina de seu criador. A sociedade humana, sucessivas gerações, propagando-se ao longo dos tempos, não vai encerrar-se antes de um julgamento final ser pronunciado quanto aos pensamentos, palavras e ações de cada homem, dando a cada uma merecida recompensa. Jesus Cristo, o Supremo Juiz, irá descer dos céus para pronunciar seu julgamento sobre as causas de todos homens; isto ocorrerá certamente como foi proclamado pelos anjos no dia de Sua ascenção aos céus. Ele abrirá sua corte, a qual todos os homens que tiverem passado pela terra, em qualquer tempo ou lugar, deverão comparecer, inexorável tribunal do onisciente e todo-poderoso Juiz, para o qual nada está escondido, nele os homens deverão responder todas questões, esclarecer se verdadeiramente acreditam nos dogmas da fé como propostos pela Igreja e verificar se cumpriram os mandamentos. Aqueles que tiverem feito tudo isto serão admitidos na glória do Paraíso; aqueles que tiverem se recusado a acreditar, como os muçulmanos, judeus e gentios, serão colocados no fogo eterno, do qual não há redenção; e os que tiverem confessado a fé, mas agiram como maus cristãos, negligenciaram os Dez Mandamentos, quem assim tiver agido, será condenado por sentença irrevogável a sofrer nas chamas eternas.

29. Antes destas coisas passarem e quando o final do mundo estiver próximo, todos os homens ainda vivos deverão morrer; pois a morte é um débito da natureza que deve ser pago. Todos que nascem, fazem-no na condição de que um dia morrerão, até mesmo Jesus Cristo, o Filho de Deus, não foi exceção a esta lei. É claramente imprudente e tolo imaginar que alguém poderá ter como privilégio um destino diferente. Mas Jesus Cristo não morreu por si mesmo, mas pelo nossos pecados. Ele ressurgiu pelo Seu pdoer, pela Sua ressurreição ratifica nossa esperança de um dia também ressuscitarmos e, assim, tornar a morte mais tolerável para homens bons e piedosos, seus amigos, sendo Ele o nosso exemplo. Então, mesmo que seja certo que no final dos tempos, os santos, perfeitos em todas virtudes, serão encontrados e encontrarão a felicidade que desejaram e mereceram, também eles passaram pela morte. Eles terão provado o gosto da morte, e como o restante da humanidade, serão restaurados à vida, cada um tomando o seu corpo, um corpo transformado para um amelhor condição pelos atributos da bondade divina. Assim os santos entrarão na plenitude das promessas.

30. Quando Jesus Cristo descer dos céus para realizar o último julgamento, todos homens, do primeiro ao último, que morreu imediatamente antes, serão julgados por Ele. Justos e ímpios serão julgados, mas com uma imensa diferença que jamais será alterada por toda eternidade: os justos passarão a alegria eterna, os ímpios à morte e sofrimentos sem fim. Esta é a verdade professada por São Felipe, dizendo: Creio em Jesus Cristo, que irá julgar os vivos e os mortos.

Artigo VIII: Creio no Espírito Santo,

31. Nós, cristãos, quando marcamos a nós mesmos com o sinal da Cruz, professamos nossa fé na mais Santíssima Trindade. O mistério da Santíssima Trindade é este: adoramos um único Deus em três pessoas. A primeira pessoa é Deus Pai, que não foi feito, criado ou nascido; A segunda pessoa é Deus Filho gerado por Deus Pai, não produzido nem criado; a terceira pessoa é Deus Espírito, que procede o Pai e Filho, também não foi produzido ou criado. Isto indicamos toda vez que fazemos o sinal da Cruz. Por isso colocamos a mão direita sobre a testa e dizemos “Em nome do Pai”, mostrando que Deus  Pai não foi produzido nem criado. Então movemos a mão para o peito e pronunciamos “e do Filho”, que significa Deus Filho gerado por Deus Pai, mas não criado nem produzido por Ele. Finalmente, tocamos com a mão o ombro esquerdo, falando ao mesmo tempo “e do Espírito”. e então tocamos o ombro direito dizendo a palavra “Santo”, assim declaramos que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.

32. Esta é a fé que todo cristão é convidado a confessar sem hesitação, adorando e glorificando ao Espírito Santo, consubstancial com o Pai e Filho, procedendo de ambos; que pela suas santas inspirações nos chama de nossos pecados e move nosso coração a observar os Dez Mandamentos da lei de Deus Nosso Senhor e aos preceitos de nossa mãe, a santa Igreja Católica; que nos dispõe a realizar atos de misericórdia espiritual e corporal. A doutrina da divindade do Espírito Santo foi professada por São Bartolomeu com estas palavras: Creio no Espírito Santo.

Artigo IX: na Santa Igreja Católica,

33. Todos nós que abraçamos a religião cristã resolvemos observar seus preceitos e manter a fé; devemos não apenas acreditar sem dúvidas nas verdades necessárias para a salvação e em tudo relacionado ao Cristo, Nosso Senhor, Deus e homem, assim como os apóstolos, discípulos e santos acreditaram. Ao mesmo tempo, devemos estar perfeita e completamente convencidos que Ele instituiu a Igreja Católica sobre a terra, cujas regras foram ditadas diretamente pelo Espírito Santo. Assim, não é permitido a nenhum de nós, de nenhum modo, imaginar que o prescrito pela Igreja não deve ser observado e o ensinado por ela não deve ser entendido como correto e verdadeiro. Em todas as coisas que, por consenso, a Igreja decretar que devem ser feitas ou evitadas pelos homens, aquilo que após estudo e maturação decidir a respeito de antigos dogmas ou controvérsias acerca destes dogmas, que surgem de tempos em tempos, a Igreja tem a assistência do Espírito Santo, conforme foi prometido, impedindo-a de errar. Portanto, os canons sagrados dos Santos Padres, os decretos dos Concílios, os éditos dos Supremos Pontífices, confirmados pelos Cardeais e outros prelados da Igreja, devem ser recebidos por nós com humilde veneração, fé e pronta obediência. Todas estas palavras são ensinadas pela autoridade e sabedoria de Nosso Senhor Jesus Cristo, que continua a governar a Sua Igreja e guia-la para o final de felicidade eterna através dos ministros que Ele tem colocado em Seu lugar. Isto é o que o Santo Apóstolo e Evangelista São Mateus confirma quando disse: Creio na Santa Igreja Católica.

Artigo X: na comunhão dos santos, na remissão dos pecados,

34. Outro ponto em que devemos acreditar, se não queremos levar falsamente o nome de cristãos, é que através dos imensos méritos de Jesus Cristo, pelos trabalhos heróicos realizados durante sua vida mortal, suas ações e sofrimentos, sua obediência a Deus Pai, Jesus ajuntou méritos para a salvação dos homens que são comunicados para todos os cristãos que permanecem na graça de Deus, como um influxo favorável a todos nós. Assim como no corpo mortal, os membros comunicam uns aos outros suas qualidades e o comando vital parte da cabeça para as extremidades, assim também no corpo místico da Igreja, do qual Jesus é a cabeça, todos os membros, ou seja, todos fiéis, recebem esta força vital de Jesus Cristo, que os nutre e faz crescer, o único Filho de Deus, ao qual, como cabeça, estão unidos. Este alimento celestial flui Dele principalmente pelos canais dos sete sacramentos: Batismo, Confirmação, comumente chamada Crisma, Eucaristia, Penitência, Extrema Unção, Ordem e Casamento. Aqueles que recebem os sagrados mistérios com justa disposição, recebem a graça, ou o aumento da graça, uma qualidade salvadora da alma que Deus concede aos homens, não merecedores por eles mesmos desta graça, pelas sagradas obras realizadas por Jesus Cristo durante sua vida na terra. Pois, como Jesus obedeceu ao seu Pai, padecendo de muitas doenças, sofrendp por livre vontade muitas injurias e insultos, o mais pesado suplício, a cruz e a morte, Ele mereceu qualquer prêmio, por maior que fosse, por seus atos. Mas possuindo Ele mesmo toda felicidade, não precisava de nenhum prêmio ou retribuição, Ele transferiu seus direitos para todos nós, que recebemos o lucro de seus sofrimentos. Portanto, a graça concedida a todos nós é fruto dos méritos de Jesus Cristo, é uma influência positiva para todos os membros do corpo.

35. E, assim como no corpo natural não é apenas a cabeça que nutre, dá força e vida aos membros do corpo, mas também os membros produzem efeitos visíveis em outros membros; assim é principalmente, mas não apenas de maneira isolada, somos responsáveis pelos tesouros acumulados por Jesus Cristo através de seus méritos, quando sofreu pacientemente durante sua vida mortal. Ele desejou que algo restasse para realizarmos através de ações virtuosas e laboriosos sacrifícios. Portanto, quando rezamos, recebemos graças; quando sofremos por seu nome, somos libertados da justiça de Deus. Finalmente, todas boas ações, enquanto permanecermos nas graças de Deus e unidos ao corpo da Igreja, nos beneficia de várias maneiras, uma superabundância de bens que é comunicada aqueles unidos a Ele, fluindo de seu poder salvador.

36. Nós reconhecemos e comfessamos que Deus Nosso Senhor possui autoridade e poder para perdoar nossos pecados, ou seja, apagar as manchas dos pecados e eliminar punições por nossos maus atos, realizados pelo abuso do livre arbítrio, quando nos separamos de Deus e nos rebelamos contra Ele, merecendo nos afastar de sua graça, na qual Ele gentilmente nos admite. Também confessamos e acreditamos que Jesus Cristo, através dos sacerdotes da Igreja Católica, pelo efeito de comunicação de sua autoridade, absolve dos seus pecados todos que se acharem suficientemente arrependidos de suas fracas condutas, perante Deus.

37. Por esta razão, aqueles que sentem-se culpados de terem ofentdido a Deus devem trabalhar honestamente, demonstrar arrependimento de suas faltas para obter perdão e assegurar a salvação de sua alma. A causa é defendida perante o tribunal sagrado ao qual comparecemos, o sacerdote julgando se o penitente é merecedor ou não de absolvição; e o acusador sendo a própria pessoa acusada. O sacerdote, como juiz, deve tomar conhecimento da causa, diligentemente considerar todos os aspectos deste ofício sagrado. O penitente deve confessar clara e completamente todos pecados mortais, exceto se o tempo restante o impedir, como pode ocorrer em casos extremos. Quando todos pecados são suficientemente conhecidos e o padre pronuncia a sentença de absolvição, a graça de Deus jorra na alma do penitente, e através da graça todas manchas que desfiguravam a alma são limpas e a remissão dos pecados e livramento das punições eternas lhe é concedida. Estes dois artigos da doutrina católica são assim resumidos nas palavras de São Simão: Creio na comunhão dos santos e no perdão dos pecados.

Artigo XI: na ressurreição do corpo

38. Injustiça pode ser feita à infinita bondade e justiça de Deus se não acreditarmos firmemente que Deus não pode falhar nunca ao retribuir de forma abundante todos aqueles que lhe servem fielmente na obediência exata da sua santa lei, ou, por outro lado, falhar ao punir adequadamente os ímpios e escarnecedores de Deus, obstinados transgressores de seus mandamentos. Portanto, acreditamos, com certeza, que haverá ressurreição do corpo, que todos homens, sem exceção, aqueles que viveram no passado, vivem hoje em dia, e ainda viverão nesta terra, retornarão à vida e receberão os mesmos corpos que lhes pertencia antes de morrerem, e passarão a eternidade em glória ou tormentos. Porque é necessário que o Deus Nosso Senhor, o mais justo e incorruptível, conforte com alegrias imortais os santos que durante sua vida mortal sujeitaram seus membros e sentidos a contínuos combates para não separararem-se do amor de Deus, pois sofreram muitos insultos e golpes de seus perseguidores, que lhes perseguiam com violência selvagem para força-los a ofender a Deus. De maneira virtuosa, os santos mantiveram suas almas e corpos no dever, privando-se de muitos prazeres, sofrendo dores, tormentos e, muitas vezes, cruéis castigos, é justo então que suas almas e corpos recebam nos céus seu quinhão de descanso e glória.

39. Também é apropriado que os corpos dos homens ímpios, que durante sua vida, apesar das advertências da lei divina, deixaram-se fartar nos prazeres da licensiosidade e todo tipo de vício, seguindo suas paixões de glutonia e impurezas contrárias aos mandamentos de Deus, devam ser punidos eternamente contra as suas vontades, em fogos que nunca se extinguem, expiando seus apetites sexuais indulgentes e promíscuos, e então, ainda que muito tarde, conheçam o grande mal que provocaram e como é inútil uma criatura desprezar e provocar a Deus, adorável acima de todas as coisas. Por estas razões, como disse, toda humanidade, bons e ímpios, irãoo ressuscitar no Dia do Julgamento Final, suas almas retornarão aos seus corpos que receberão no primeiro nascimento e animarão até a morte. Estarão unidas de um modo que jamais se dissolverá, e de acordo com os méritos de cada um, irão para os céus reinar com Jesus Cristo na glória do Paraíso, ou para o Inferno, junto com o Demônio para o sofrimento eterno. Isto São Judas confessa quando dia: Creio na ressurreição do corpo.

Artigo XII: e na vida eterna. Amém.

40. A nossa alma, criada a imagem e semelhança de Deus Todo-Poderoso, por ter uma natureza espiritual, é enriquecida com faculdades que representam a perfeição divina: vontade, inteligência e memória. A partir da criação é impelida por um certo desejo inato, inspirado pelo Criador, de unir-se a Ele, sua imagem. Não podemos crer que tão excelente criação de Deus, este instinto ativo dado pelo Criador, tenha sido em vão. Todos nós, cristãos, estamos convencidos do contrário e, sem dúvidas, achamos que a alma, exceto se lutar contra, buscará satisfazer este desejo e buscar aquele bem superior a tudo, a vida eterna. E, até mesmo antes da ressurreição do corpo, as almas que houverem morrido na graça de Deus e totalmente purificadas de todos pecados, estarão de posse desta vida eterna, sendo admitidas a partir deste momento à vista e alegrias de Deus.

41. Portanto, estas almas, uma vez unidas aos seus corpos, em um estado melhor e mais perfeito, irão aproveitar a felicidade que estamos descrevendo, ininterruptamente pela eternidade. Por todo este espaço de tempo, infinito, as almas dos santos regojizarão com Deus nos céus, junto aos coros de inumeráveis anjos, jubilantes e triunfantes Santos, entre todos homens, todos na presença amorosa e beatifica de Deus Criador e Senhor de tudo, que despejará suas bençãos celestiais em cada um  e sobre todos. A excelência destas bençãos é tão sublime, que por maior esforço façamos durante nossa vida mortal pensando ou imaginando, nunca formaremos uma idéia ou imagem que se aproxime, mesmo que a longa distância, da verdade. A magnificência de Deus supera de tal modo nossa forças que nem os Santos puderam imaginar quão grande é este amor de Deus. No entanto, o menos que consigamos imaginar ou compreender sobre esta inefável felicidade, é abundatemente suficiente para nos convencer que devemos desejá-la.

42. No céus os santos vivem em paz e descanso, numa gloriosa paz, sem reclamações ou ofensas contra qualquer um, todos em amor mútuo, honrando um ao outro, compartilhando todos bens. Eles não podem sentir nenhum impulso ao mal, serem atacados por outros, ou temerem qualquer coisa. Por outro lado, tão abundante são os bens que possuem, bens de todos tipos, que ultrapassam todos desejos e são suficientes para a eternidade. E todas bençãos são seguramente guardadas para eles, que não precisam temer, nem há risco, de serem retiradas ou diminuídas. Isto é o que São Matias compreendia quando disse: Creio na Vida Eterna.

— Explanação Catequética do Credo para os Habitantes das Ilhas Molucas, por São Francisco Xavier (século XVI)

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