Dobrar Deus? “Orações todo-poderosas”

Dom Estêvão Bettencourt (OSB)

Em síntese: Não há orações todo-poderosas, como por vezes se diz na linguagem popular. Desde toda a eternidade, Deus já decretou que Ele quer dar, e a sua vontade é imutável. Rezamos então não para o dobrar Deus, mas para colaborar com Ele, visto que, ao decretar dar-nos algo, Ele o fez incluindo a nossa oração: Ele quer dar, mas quer que o peçamos.

Encontram-se por vezes nas Igrejas folhas de papel portadoras de orações “todo-poderosas”, desde que a maneira de proceder ali indicada seja fielmente cumprida. Passamos a analisar essa temática.

1. Análise de exemplares

Apresentaremos três modelos de oração dita infalível:

1.1. Oração das 13 almas

“Oh! minhas 13 almas benditas, sabidas e entendidas, a vós peço pelo amor de Deus, atendei o meu pedido. Minhas 13 almas benditas, sabidas e entendidas, a vós peço pelo sangue que Jesus derramou, atendei o meu pedido, pelas gotas de suor que Jesus derramou do seu sagrado corpo, atendei o meu pedido. Meu Senhor Jesus Cristo, que a vossa proteção me cubra, vossos braços me guardem no vosso coração e me protejam com os vossos olhos, Oh! Deus de bondade, vós sois meu advogado na vida e na morte, peço-vos que atendei os meus pedidos e me livrai dos males e dai-me sorte na vida. Segui meus inimigos que os olhos do mal não me vejam, cortai as forças dos meus inimigos. Minhas 13 almas benditas, sabidas e entendidas se me fizerem alcançar esta graça, ficarei devota de vós e mandarei imprimir 200 desta oração mandando também rezar uma missa.

Reza-se 13 Pai Nossos e 13 Ave Marias, 13 dias.”

Pergunta-se: quem são essas treze almas? Já o número 13 é suspeito por estar muito ligado à superstição.

O pedido insistente de defesa contra os inimigos é uma das linhas- mestras das religiões afro-brasileiras, que atribuem todos os males a espíritos superiores que se encostam no ser humano. – Tal oração será uma adaptação da mentalidade umbandista à linguagem cristã?

Essas 13 almas benditas, sabidas e entendidas são tão poderosas quanto Deus é?

1.2 Novena Milagrosa das Sandálias de Santo Antônio

“Reze durante Novembro terça-feira, com uma vela acesa sobre esta sola de sandália cinco Pai Nosso, cinco Ave-Maria, cinco Glória ao Pai. Quando acabar de Rezar, apague a vela e guarde para as outras terça- feira. Na última terça-feira, deixe que ela se queime até o fim. Faça dois pedidos difíceis de serem realizados e um pedido para sua melhoria geral.

A cada terça-feira, distribua três cópias desta novena. Se não tiver ninguém para quem dar as cópias, deixe-as em uma igreja junto a uma imagem de Santo Antônio. Esta novena é infalível. Quem não tem fé vai comover-se.”

Superstição é atribuir efeito maravilhoso a causas que a lógica e o bom senso não justificam. Donde a pergunta: Por que a sandália do Santo? Por que durante o mês de novembro?

Quem prometeu infalibilidade a tal prática? Certamente não o próprio Deus; nem Santo Antônio obteria isto de Deus.

1.3 Pedido Especial

“Oh, Mãe querida Nossa Senhora Aparecida

Oh, Santa Rita de Cássia.

Oh, meu Glorioso São Judas, protetor das Causas impossíveis,

Santo Expedito, o Santo da última hora.

Santa Edwiges, a Santa dos necessitados.

Vós, que conheceis meu coração angustiado,

Intercedei junto ao Pai por mim (pedir a graça).

Eu vos glorifico e vos louvo sempre.

Curvar-me-ei diante de vós… Pai Nosso, Ave Maria, Glória ao Pai.

Confio em Deus com todas as minhas forças, e peço que ilumine o meu caminho e a minha vida. Amém.

Atenção: rezar por três dias. Faça 25 cópias, e deixe na igreja, para sua propagação. Observe o que acontecerá no quarto dia. Sua graça será alcançada por mais difícil que seja.”

Esta oração começa por invocar seis Santos, nivelando de certo modo a virgem Ssma.com Santo Expedito, cuja existência é posta em dúvida.

Pergunta-se de novo: quem garante a eficácia de tal prece? Não é o próprio Deus; o único Onipotente. Ninguém pode garantir a ocorrência de um evento livre senão o próprio Deus.

Dizemos então que tais concepções dependem de uma mentalidade da mágica ultrapassada pela lógica e a mentalidade científica: Deus é imutável e não pode ser dobrado pela vontade humana nem a troco dos mais requintados artifícios. Indaga-se então:

2. Por que devemos orar?

Se Deus não modifica seus desígnios quando o homem lhe pede algo muito razoável e santo, por que oramos?

Respondemos: Deus decretou irrevogavelmente dar-nos o que nos convém, incluindo nesse desígnio a colaboração do homem pela oração. Oramos não para que Deus faça a nossa vontade, mas para que nós façamos a vontade dele à semelhança do que Jesus fez quando disse: “Que este cálice passe sem que eu o beba; faça-se, porém, a tua vontade e não a minha” (Mc 14, 36).

S. Agostinho comenta os fatos:

“Vós tratais o homem como um doente a restabelecer; dais-lhe quando julgais oportuno que ele receba; e dais-lhe segundo a sua necessidade. Por vezes, exprimimos a Deus um desejo que Ele não escuta; Ele sabe a hora em que convém dar-nos, porque vela sobre nós.

Porque digo eu isto, meus irmãos? Porque acontece, por vezes, que alguém não é ouvido quando pede coisas perfeitamente legítimas, ao passo que Deus pode escutar um pedido injusto, para castigo de quem pede. Quando pedires uma coisa perfeitamente justa e não fores escutado, não percas a coragem, não percas o ardor; fixa os olhos no alimento que Deus dá em tempo oportuno.

Quando Deus recusa dar, não dá para que o seu dom não se torne para nós um prejuízo. Paulo não fazia uma súplica injustificada quando pedia a Deus que o libertasse do espinho na sua carne, esse anjo de Satanás que o esbofeteava. Pediu e não recebeu. Era tempo de provar a sua fraqueza e não de lhe dar alimento: Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a minha força se manifesta.

O diabo pediu a Deus para pôr Jó à prova, e foi-lhe concedido. Meditai bem nisto, meus irmãos, porque é um grande mistério que devemos conhecer, recordar, ter sempre presente no espírito e nunca esquecer, porque nesta vida nunca nos faltarão provações.

Que direi? Há de comparar-se o Apóstolo ao diabo? O Apóstolo reza e não recebe; o diabo pede e obtém. Mas o diabo obtém para sua perda, enquanto Paulo não recebe para poder progredir na perfeição. O próprio Jó foi curado a seu tempo. Mais depressa foi escutado o demônio para tentar a Jó, do que Jó para lhe ser restituída a saúde. Deus difere, para pôr à prova. Aprendei a não murmurar contra Deus, e quando não fordes atendidos, não cesseis de dizer: todos os dias Vos bendirei”.

Mentalidade bem diferente daquela que nos passa no “Orações todo- poderosas”. É Deus quem governa e rege, e não os homens.

APÊNDICE

À guisa de complemento, segue-se uma notícia de ação-oração mágica, colhida em VEJA, edição de 13/02/2008:

Há vinte dias, um vereador da cidade gaúcha de Pelotas protagonizou uma sessão de exorcismo na tribuna da Câmara de Vereadores local. Cláudio Insaurriaga, um político do PV que usa a alcunha de Cururu, disse à repórter Mariana Amaro que o objetivo do ritual era anular um feitiço vodu feito contra cinco de seus colegas.

Veja – O que o motivou a fazer o exorcismo?

Cururu – Encontraram um caixão com sete bonecos. Cinco estavam espetados com alfinetes e tinham as fotos dos membros da mesa diretora. Os dois outros representavam os mandantes que estavam de um lado do caixão rindo da desgraça dos outros. Ai, disseram que eu devia fazer um desmanche.

Veja – Tinha de ser na tribuna da Câmara?

Cururu – O desmanche devia ser feito no lugar mais nobre da Casa. Por isso, eu me inscrevi para falar e usei a tribuna para o exorcismo.

Veja – Como foi o ritual?

Cururu – Tirei os alfinetes dos bonecos para libertar os vereadores da magia negra. Depois, decapitei os bonecos dos autores. Usei até uma imagem do diabo.

Veja – O senhor já tinha feito isso antes?

Cururu – Não. Segui minha intuição e conselhos de religiosos. Usei uma mesa de amuletos para exorcizar a maldade e vesti trajes apropriados.

Veja – Apropriados…

Cururu – Uma bata branca, uma coroa de espinhos e um crucifixo. Não frequento igreja, mas sou cristão. Pela Constituição, tenho o direito de me vestir à semelhança de Cristo. Não me importo com o que meus adversários dizem.

Veja – O que eles dizem?

Cururu – Que quero aparecer.

Pergunta-se qual a filosofia suposta por esse ritual?

Supõe-se que o inimigo esteja presente ao boneco que o representa, de modo que os danos causados ao boneco recaem sobre o adversário.

Supõe-se outrossim que o diabo seja auxiliar dessa prática de “carrego” como de “descarrego”.

Supõe-se ainda que, além do diabo, haja entidades superiores ao mago que colaboram com ele mediante a observância de roupagem correspondente.

Ora tais premissas carecem de toda base racional e científica; são crendices do homem primitivo, que até hoje subsistem ao lado da tecnologia moderna. O homem sente-se sempre pequeno e ameaçado pelos desafios da vida e, na falta da fé correta, imagina o seu panteon e a ele recorre. Falta-lhe a instrução religiosa…

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