Como a ioga pode destruir o seu corpo

‘A grande maioria das pessoas’ não deveria praticar ioga, diz professor. É simplesmente muito provável de causar algum mal.
Por William J. Broad
The New York Times 15/01/2012

Em um sábado de frio no início de 2009, Glenn Black, um professor de ioga há quase quatro décadas, cuja clientela devota inclui várias celebridades e gurus proeminentes, estava dando uma aula de mestrado na Sankalpah Yoga em Manhattan. Black é de muitas formas, um yogi clássico: ele estudou em Pune, Índia, no instituto fundado pelo lendário B.K.S. Iyengar, e passou anos em solidão e meditação. Ele é conhecido por seu rigor e seu estilo pé no chão. Mas não foi por isso que eu o procurei: Black, pelo que me contaram, era a pessoa com quem falar caso você quisesse saber não sobre as virtudes da ioga, mas sobre o estrago que ela pode fazer. Muitos de seus clientes regulares o procurou para trabalhar o corpo ou para reabilitação de machucados de ioga. Essa era a situação na qual eu me encontrava. Nos meus trinta e poucos anos eu consegui de alguma forma romper um disco na região lombar e descobri que poderia prevenir muitas crises de dor com uma seleção de posturas de ioga e exercícios abdominais. Então em 2007, enquanto fazia a postura estendida em ângulo lateral, uma postura aclamada como cura para muitas doenças, minhas costas cederam. Com elas foi a minha crença, ingênua em retrospecto, de que a ioga era sempre fonte de cura e nunca de dano. Perguntei a Black sobre sua forma de ensinar ioga — a ênfase em fazer apenas algumas poses simples, a ausência de inversões comuns como posições sobre a cabeça e sobre os ombros (Sarvángásana). Ele me deu o tipo de resposta que se espera de qualquer professor de ioga: que a conscientização é mais importante do que se apressar a fazer um monte de posturas. Na Índia, Black lembrou, um yogi foi estudar na escola de Iyengar e resolveu fazer uma torção espinal. Black disse que assistiu em descrença três costelas do homem quebrando — pop, pop, pop. Mas então ele disse algo mais radical. Black diz crer que “a grande maioria das pessoas” deveriam desistir da ioga de vez. É simplesmente muito provável de causar algum mal. Não apenas alunos, mas professores consagrados também, diz Black, se machucam aos montes, pois a maioria tem fraquezas físicas subjacentes ou problemas que tornam os machucados sérios inevitáveis. Ao invés de fazerem ioga, “eles precisam fazer uma série de movimentos para articulação, para a condição dos órgãos” ele diz, para fortalecer as partes fracas do corpo. “Ioga é para pessoas em boas condições físicas. Ou pode ser usado de forma terapêutica. É controverso dizer, mas não deveria ser utilizada pela maioria das pessoas”. Black aparentemente reconcilia os perigos da ioga com seus próprios ensinamentos dela trabalhando muito em saber quando um aluno “não deveria fazer algo — posições sobre os ombros, sobre a cabeça ou colocando peso sobre a coluna vertebral”. Apesar de ter estudado com Shmuel Tatz, um celebrado fisioterapeuta que desenvolveu um método de massagem e alinhamento para atores e dançarinos, ele reconhece que não tem treinamento formal para determinar quais posições são boas para um aluno e quais podem ser problemáticas. O que tem é “muitas experiência”, como ele diz. “Vir à Nova York e fazer uma aula com pessoas que têm muitos problemas e dizer ‘OK, vamos fazer essa sequência de posições hoje’ — simplesmente não funciona”. De acordo com Black, vários fatores convergiram para aumentar o risco de praticar ioga. O maior é a mudança demográfica dos que a estudam. Praticantes indianos de ioga, tipicamente se agachavam e sentavam de pernas cruzadas no dia-a-dia, e posições de ioga, ou asanas, foram uma derivação dessas posturas. Agora pessoas que vivem em cidades e sentam em cadeiras o dia inteiro entram em um estúdio algumas vezes por semana e se tencionam para se torcerem em posições cada vez mais difíceis apesar de sua falta de flexibilidade e outros problemas físicos. “Hoje muitas escolas de ioga só querem forçar o limite das pessoas”, diz Black. “Você não pode acreditar no que está acontecendo — professores pulando nas pessoas, empurrando e puxando e dizendo ‘você já deveria estar conseguindo fazer isso nesse ponto’. Isso tem a ver com seus egos”. Quando professores de ioga o procuram para condicionamento físico após terem sofrido um grande trauma, Black responde “Não faça ioga”. “Eles olham para mim como se eu fosse louco”, continua Black. “E eu sei que se eles continuam, não vão conseguir aguentar”. Eu perguntei a ele sobre os piores machucados que ele já vira. Ele falou de renomados professores de ioga fazendo posições tão básicas como cachorro olhando para baixo, na qual o corpo forma um V invertido, tão vigorosamente que eles rasgam o tendão de Aquiles. “É o ego”, ele diz. “O argumento principal da ioga é se livrar do ego”. Ele diz ter visto alguns “quadris horríveis”. “Uma das maiores professoras dos Estados Unidos não tinha nenhum movimento nas articulações do seu quadril”, disse Black. “o encaixe tinha se degenerado tanto que ele teve que fazer uma substituição de quadril”. Eu perguntei se ela ainda ensinava. “Ah sim”, respondeu Black. “Existem outros professores de ioga com as costas tão ruins que precisam se deitar para ensinar. Eu ficaria envergonhado”. Quase um ano depois que eu conheci Glenn Black em sua aula de mestrado em Manhattan, eu recebi um email dele me dizendo que tinha feito uma cirurgia na coluna vertebral. “Foi um sucesso”, ele escreveu. “A recuperação é lenta e dolorosa. Me ligue se quiser”. O machucado, disse Black, se originou de quatro décadas de encurvamentos de coluna e torções extremas. Ele desenvolveu estenose espinhal — uma séria condição na qual as aberturas entre as vértebras começam a estreitar, comprimindo os nervos espinhais e causando dor excruciante. Black disse que ele sentiu a sensibilidade começar 20 anos atrás quando ele estava saindo de posições como a postura do arado e a postura sobre o ombro. Dois anos atrás a dor se tornou extrema. Um cirurgião disse que sem tratamento ele eventualmente não conseguiria mais andar. A cirurgia levou cinco horas, fundindo várias vértebras lombares juntas. Ele ficaria bem eventualmente, mas estava sob ordens do cirurgião para reduzir a tensão na lombar. Sua gama de movimentos jamais será a mesma.

Fontes: The New York Times – How Yoga Can Wreck Your Body

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