XXXII Domingo do tempo comum – Ano B

Por Frei Raniero Cantalamessa, OFMCap.

Chegou uma pobre viúva 
1Re 17, 10-16; Hebreus 9, 24-28; Marcos 12, 38-44

Um dia, estando frente ao baú do tesouro do templo, Jesus observa os que ali deixavam esmolas. Fixa-se em uma pobre viúva que deposita ali tudo quanto tem: duas moedinhas, ou seja, alguns centavos. Então, volta-se a seus discípulos e diz: «Digo-vos em verdade que esta viúva pobre deu mais dinheiro que todos os que deixaram esmolas no baú do tesouro. Pois todos deram do que lhes sobrava; esta, ao contrário, deu do que necessitava, tudo o que possuía, tudo o que tinha para viver». Podemos chamar este domingo de «domingo das viúvas». Também na primeira leitura se relata a história de uma viúva: a viúva de Sarepta, que se priva de tudo quanto tem (um punhado de farinha e um pouco de azeite) para dar de comer ao profeta Elias. É uma boa ocasião para dedicar nossa atenção às viúvas e, naturalmente, também aos viúvos de hoje. Se a Bíblia fala com tanta freqüência das viúvas e jamais dos viúvos é porque na sociedade antiga a mulher que ficava sozinha estava em maior desvantagem que o homem que ficava sozinho. Atualmente não existe grande diferença entre ambos; além disso, diz-se que a mulher que fica sozinha se vira, em geral, melhor que o homem na mesma situação. Desejaria, nesta ocasião, aludir a um tema que interessa vitalmente não somente aos viúvos e viúvas, mas a todos os casados, e que é particularmente atual neste mês dos falecidos. A morte do cônjuge, que marca o final legal de um matrimônio, indica também o final de toda comunhão? Fica algo no céu do vinculo que uniu tão estreitamente duas pessoas na terra, ou, ao contrário, se esquecerá ao cruzar o umbral da vida eterna? Um dia alguns saduceus apresentaram a Jesus o caso extremo de uma mulher que foi sucessivamente esposa de sete irmãos, e lhe perguntaram de quem seria esta mulher após a ressurreição dos mortos. Jesus respondeu: «Quando ressuscitarem dentre os mortos, nem eles terão mulher nem elas, maridos, mas serão como anjos nos céus» (Marcos 12, 25). Interpretando de maneira errônea esta frase de Cristo, alguns sustentaram que o matrimônio não tem nenhuma continuidade no céu. Mas com esta frase Jesus rejeita a idéia caricaturesca que os saduceus apresentam do além, como se fosse uma simples continuação das relações terrenas entre os cônjuges; não exclui que eles possam reencontrar, em Deus, o vínculo que os uniu na terra. De acordo com esta perspectiva, o matrimônio não termina de todo com a morte, mas é transfigurado, espiritualizado, subtraído a todos aqueles limites que marcam a vida na terra, como, além disso, não se esquecem dos vínculos existentes entre pais e filhos, ou entre amigos. Em um prefácio dos falecidos, a liturgia proclama: «A vida não termina, mas se transforma». Também o matrimônio, que é parte da vida, é transfigurado, não suprimido. Mas o que dizer a quem teve uma experiência negativa de incompreensão e de sofrimento, no matrimônio terreno? Não é para eles motivo de temor, ao invés de consolo, a idéia de que o vínculo não se rompa nem com a morte? Não, porque no passar do tempo à eternidade o bem permanece, o mal cai. O amor que os uniu, talvez até por pouco tempo, permanece; os defeitos, as incompreensões, os sofrimentos que se infligiram reciprocamente caem. E mais ainda, este sofrimento, aceito com fé, se converterá em glória. Muitíssimos cônjuges experimentarão só quando se reunirem «em Deus» o amor verdadeiro entre si e, com ele, o gozo e a plenitude da união que não desfrutaram na terra. Em Deus tudo será entendido, tudo será desculpado, tudo será perdoado. Dir-se-á: e os que estiveram legitimamente casados com várias pessoas? Por exemplo os viúvos e as viúvas que se voltam a casar? (Foi o caso apresentado a Jesus dos sete irmãos que haviam tido, sucessivamente, por esposa, a mesma mulher). Também para eles devemos repetir o mesmo: o que houve de amor e doação autêntica com cada um dos esposos ou das esposas que tiveram, sendo objetivamente um «bem» e vindo de Deus, não será suprimido. Lá em cima já não haverá rivalidade no amor ou ciúmes. Estas coisas não pertencem ao amor verdadeiro, mas à limitação intrínseca da criatura.

 

Evangelho segundo São Marcos 12, 38-44
Continuando o seu ensinamento, Jesus dizia: «Tomai cuidado com os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser cumprimentados nas praças, de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes; eles devoram as casas das viúvas a pretexto de longas orações. Esses receberão uma sentença mais severa.» Estando sentado em frente do tesouro, observava como a multidão deitava moedas. Muitos ricos deitavam muitas. Mas veio uma viúva pobre e deitou duas moedinhas, uns tostões. Chamando os discípulos, disse: «Em verdade vos digo que esta viúva pobre deitou no tesouro mais do que todos os outros; porque todos deitaram do que lhes sobrava, mas ela, da sua penúria, deitou tudo quanto possuía, todo o seu sustento.»

Por Pe. Fernando José Cardoso
Normalmente quando se reúnem os grandes deste mundo, distribuem ao final da reunião comunicado à grande imprensa. Tudo se passou num ambiente de cordialidade e profundo respeito mútuo, ainda que ninguém tenha saído de acordo com ninguém daquela reunião. Nós vivemos sob muitos aspectos, uma civilização daquilo que parece uma civilização da amostra, no fundo uma civilização hipócrita. Na Igreja, sobretudo em anos passados, havia também o que podemos denominar a hipocrisia religiosa. Ia-se à Igreja muito mais por conveniência do que por convicção, mais por uma questão social do que por uma questão de fé e de profundo respeito e prática religiosa para com Deus. Graças ao bom Deus, hoje as coisas se passam diferentemente, os católicos são menos numerosos que no passado, eles caminham as mais das vezes contra corrente, porque a ideologia da Igreja não se ajusta perfeitamente com a ideologia, que nos propõe não apenas a mídia, mas a própria civilização ocidental moderna e de certa maneira materialista. Hoje os católicos praticam muito mais por profunda convicção religiosa. O Evangelho deste domingo mostra-nos uma pobre viúva que retira do seu bolso duas ou três moedinhas sem nenhum valor; é tudo, no entanto o que ela possuía, coloca aquelas moedas no cofre das esmolas do templo de Jerusalém. Os olhos agudos de Jesus, não a deixam passar despercebida, naquelas duas ou três moedinhas, colocadas ali com coração, com dedicação, com amor; verdadeiras jóias, verdadeiros diamantes, muito mais preciosos a seus olhos do que notas, diríamos hoje, de cem euros ou de cem dólares. Aprendamos a tratar conosco de maneira tal como Deus nos vê, aprendamos a partir deste texto do Evangelho, a sermos verdadeiros, ainda que no pouco, ainda que sejamos insignificantes, ainda que os nossos movimentos ou as nossas ações não façam alarde, ainda que nós tenhamos recebido apenas um ou dois talentos das mãos do Criador. Deus olha os corações, enquanto os homens, bem mais superficiais, se contentam com as aparências. Deus preferiu aquelas moedinhas da viúva, ao que ricos despejavam naqueles cofres a partir de suas sobras, é exatamente esta realidade que nós vemos repetir nos dias de hoje. Madre Tereza de Calcutá conta-nos o seguinte fato: Certa vez estava distribuindo comida, arroz, simplesmente arroz a uma família numerosa. Percebeu que a mãe daquela família deixava a metade do prato. “Para quê e por que?” Perguntou a Madre. A resposta foi imediata: “Para dar a minha vizinha, porque ela também não tem nada e também passa fome”. É isto que Deus vê, é isto que Deus gostaria de ver manifesto em nossos corações: esta sinceridade, esta total pureza de intenções que nós hoje queremos demonstrar-lhe para lhe agradar de coração.

 

«Deitou tudo quanto possuía»
Santo Anselmo (1033-1109), monge, bispo, Doutor da Igreja
Carta 112, a Hugo, o cativo (a partir da trad. De Orval)

No Reino dos céus, todos os homens em conjunto, e como se fossem um só, serão um só rei com Deus, pois todos quererão uma só coisa e a sua vontade cumprir-se-á. Eis o bem que, do alto do céu, Deus declara pôr à venda. Se alguém perguntar por que preço, eis a resposta: Aquele que oferece um Reino no céu não precisa de moeda terrestre. Ninguém pode dar a Deus o que já Lhe pertence, porque tudo o que existe é Dele. E, no entanto, Deus não dá coisas importantes sem que lhes seja estimado o preço: Ele não as dará a quem não as apreciar. De fato, ninguém dá coisas que lhe são queridas a quem não demonstrar ter apreço por elas. Então, e porque Deus não precisa dos teus bens, não deve dar-te uma coisa importante se desdenhares amá-Lo: Ele apenas reclama amor, e sem amor nada O obrigará a dar. Por isso, ama, e receberás o Reino. Ama, e possui-Lo-ás […]. Ama, portanto a Deus mais do que a ti mesmo, e logo começarás a ter o que queres possuir em plenitude no céu.

 

Se no domingo passado acompanhávamos aquele verdadeiro discípulo que, depois de descobrir a fé em Jesus, O seguiu até Jerusalém, e ali vimos que o mais importante para quem segue Jesus é amar, hoje entramos com Jesus no coração da manifestação da fé em Deus: entramos no templo. Ali encontramos aqueles que se exibem com a sua religião, mas incapazes de comprometer a sua vida com os que mais precisam, enquanto que Jesus salienta e valoriza a atitude da viúva que dá tudo o que tem. O contraste é enorme. Aquele que verdadeiramente acredita em Deus dá tudo. Já a Oração Coleta deste domingo convida-nos a pedir a Deus que “nos afaste de toda a adversidade, para que, sem obstáculos do corpo ou do espírito, possamos livremente cumprir a vossa vontade”. Quando vivemos a fé, a nossa vida não pode ser dupla, ou seja, exibicionista da própria fé e ao mesmo tempo escassez de generosidade e doação. Tanto na primeira leitura como no evangelho encontramos duas pessoas que são a expressão da pobreza na Bíblia. As duas pessoas são viúvas e pobres. Não têm ninguém nem qualquer amparo. Só podem entregar-se e confiar em Deus. No aspecto social, vivem na solidão. A viúva de Sarepta ainda tem a seu cuidado criar um filho e vive uma situação de desespero. Todavia, a mulher escuta o homem de Deus, o profeta, e através dele escuta a vontade de Deus que lhe pede um ato de generosidade que ultrapassa a sua situação humana. Porém, ela cumpre o que lhe pede a voz da sua fé e prepara tudo aquilo que o profeta lhe pede. Diz-lhe o que tem e dá-lhe o que tem. No evangelho, a pobre viúva deu tudo o que tinha (condição para ser um verdadeiro discípulo). Para Deus, o mais importante não é a eficácia das coisas materiais, mas a intenção e a generosidade do coração. Aquele que deseja seguir Jesus terá que libertar o seu corpo e o seu espírito de qualquer obstáculo para cumprir a vontade do Deus Misericordioso. No evangelho encontramos o contraste entre a atitude discreta da mulher e a descrição que Jesus faz da exibição dos escribas. Jesus denuncia e condena a tentação de estar sempre no centro das atenções, dos aplausos, das decisões. Todos aqueles que caem nesta tentação não são sensíveis às necessidades dos outros nem a auxiliar o próximo: “devoram as casas das viúvas com pretexto de fazeres longas rezas”. A segunda leitura da Carta aos Hebreus diz-nos que o sacerdócio de Cristo é superior ao sacerdócio do Antigo Testamento, porque Ele é o Mediador da Nova Aliança. A entrada de Cristo no Santos dos Santos é diferente da entrada do Sumo Sacerdote: este tem que entrar cada ano e em todas as festas; Cristo entrou num agora eterno “no próprio céu, …manifestou-se uma só vez”. O Santo dos Santos onde Cristo entrou é muito mais autêntico que o templo; não entrou por uns momentos, mas para sempre. As orações e as ofertas dos homens encontram em Cristo um mediador atento que está sempre diante de Deus. Cristo está revestido da soberania universal de tal modo que exerce sobre os homens uma realeza definitiva: “para dar a salvação àqueles que O esperam”. Aquilo que dá autoridade a Cristo para exercer a expiação definitiva não é o fato de ter derramado o seu sangue, mas o ter oferecido a sua própria vida. A doação de Cristo tem um valor duplo: enquanto Filho de Deus, o seu sacrifício tem um valor superior aos sacrifícios antigos; enquanto Homem perfeito, dá à sua oblação um caráter espiritual que nenhum ritualismo antigo possuía. Cristo pode perdoar os pecados porque foi o primeiro homem que viveu sem pecado e foi o primeiro Senhor que aboliu o reino do mal.

 

TRIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM
Mc 12, 38-44

“Esta viúva pobre depositou mais do que todos os que depositaram dinheiro”

No Evangelho de Marcos, Jesus, na sua última semana de vida em Jerusalém, só encontra uma coisa positiva – o gesto da viúva pobre que depositou duas das menores moedas da época no cofre do Templo. Ela aparece no texto de hoje em contraste com um certo tipo de liderança religiosa da época. O texto relata dois acontecimentos (vv. 38-40; vv. 41-44). O primeiro condena os escribas hipócritas, que concretizam tudo que Jesus quer que os seus discípulos evitem. Ele adverte contra o seu anseio de ter prestígio e honras (vv. 38b-39) – perigo constante para os líderes religiosos, clericais ou leigos/as, de todos os tempos e de todas as religiões! – e o fato de eles esgotarem os recursos das viúvas, enquanto demonstravam a aparência de piedade (v. 40). Embora essa passagem seja muito mais suave do que Mateus 23, também tem sido usado historicamente para atacar os judeus. Mas, Jesus não critica todos os escribas, muito menos todos os judeus, mas somente um certo tipo de escriba (vv. 28-34), os que desviavam o verdadeiro sentido do seu serviço religioso. Na antiguidade, os escribas podiam servir como administradores dos bens das viúvas. Muitas vezes cobravam uma parte dos bens como pagamento – e um escriba com fama de piedade tinha muitas possibilidades de ganhar clientes! Por causa da sua avareza e hipocrisia, esses escribas receberão uma condenação severa no Dia do Juízo, o tribunal mais alto que existe! Do outro lado, a viúva pobre, embora contribua com quase nada em termos monetários, representa a verdadeira espiritualidade dos seguidores de Jesus. Pois, ela contribui com tudo o que ela tinha para viver, e não com o supérfluo (v. 44). Ela simboliza o grupo dos “pobres de Javé” – os que depositavam toda a sua confiança em Deus e não nas riquezas nem no poder. Já em outros textos (Mc 10, 17-30) Jesus enfatizou que é difícil para um rico entrar no Reino de Deus – pois facilmente ele confia nas suas riquezas e não no poder e na graça de Deus. A viúva anônima demonstra o fundamento da espiritualidade dos “pobres de Javé” – gratuidade e doação total, aliadas a uma confiança absoluta em Deus. Contrastando a sua ação com a atitude dos ricos, Jesus implicitamente condena o sistema do Templo, pois ele explorava os mais pobres, exigindo até a oferta dos seus parcos recursos para que pudessem ter acesso a Deus! Assim, Jesus mostra que Deus rejeita qualquer religião que explora e se enriquece à custa dos pobres. Hoje não é nada raro encontrar grupos religiosos que exploram os mais pobres em nome de Deus, com falsas promessas. O texto de hoje nos convida a examinarmos a nós mesmos, para verificar se as nossas práticas religiosas estão revelando o rosto verdadeiro do Deus dos pobres, e para que evitemos totalmente quaisquer projetos – mesmo em nome de Deus – que tiram dos mais necessitados o pouco que eles ainda têm. Também somos convidados a evitar os critérios humanos em julgar as pessoas, pois pode acontecer que alguém doe muito, sem que lhe custe nada, pois vem do seu supérfluo, enquanto freqüentemente a “moeda da viúva”, oferecida pelos pobres, tem muito mais valor diante do Senhor. Somos convidados a olhar e enxergar as coisas com os olhos de Deus e não com os olhos da sociedade materialista e consumista de hoje.

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