Festa de dedicação da Basílica de São João de Latrão – 09 de Novembro

Por Pe. Inácio José Schuster

Hoje, 9,  celebramos a festa da dedicação à Basílica de São João de Latrão, catedral da Diocese de Roma. Nela, está o trono papal (Cathedra Romana), o que a coloca acima de todas as igrejas do mundo, inclusive da Basílica de São Pedro. Tem o título honorífico de Omnium Urbis et Orbis Ecclesiarum Mater et Caput (Mãe e Cabeça de todas as Igrejas de Roma e do Mundo).

No século IV, o Imperador Constantino deu este grande edifício ao Papa São Silvestre I, que o consagrou, dedicando-o a Deus como Catedral de Roma. A nova Catedral foi dedicada ao Divino Salvador e, mais tarde, também aos santos João Batista e João Evangelista. Como se localiza numa antiga chácara da nobre família romana dos Laterani, foi chamada popularmente de São João do Latrão. Por isso a presente solenidade nos traz à mente e ao coração três aspectos da nossa fé.

Primeiro: Todo templo cristão dedicado a Deus é imagem do próprio Cristo. Ele, no Seu Corpo Ressuscitado, é o verdadeiro Templo, do qual o templo de Jerusalém era apenas uma imagem e profecia: “Destruí este Templo e em três dias eu o levantarei”. Mas Jesus estava falando do seu corpo.

É do Corpo Ressuscitado do Senhor, verdadeiro Templo, que brota a água da vida, símbolo do Espírito Santo. É a esta realidade tão bela e misteriosa que alude a leitura de Ezequiel: “A água corria do lado direito do Templo”. Estas águas correm para a região oriental, desembocam nas águas salgadas do mar e elas se tornarão saudáveis. Haverá vida onde o rio chegar. Nas margens do rio, crescerá toda espécie de árvores frutíferas, as quais servirão de alimento e suas folhas serão remédio”.

A imagem é bela, rica, intensa: a água que brota do lado direito do Cristo transpassado é o Espírito Santo, dado pelo Senhor à Igreja e à humanidade, para que n’Ele tenhamos a cura dos nossos pecados e a vida em abundância. Por tudo isso, veneramos e respeitamos nossos templos: eles são imagem do próprio Corpo Ressuscitado de Cristo, fonte do Espírito e lugar de encontro com o Pai. Por isso, toda igreja mais importante – as paroquiais e, sobretudo, as catedrais -, são dedicadas a Deus, como Cristo que foi todo consagrado ao Pai.

Segundo: A Igreja é, primeiramente, a Comunidade: “Vós sois a construção de Deus. Acaso não sabeis que sois santuário d’Ele e que o Seu Espírito mora em vós? O santuário do Senhor é santo, e vós sois esse santuário!”

Nossos templos são chamados de “igreja”, porque são casas da Igreja, espaço sagrado no qual a Igreja-Comunidade se reúne num só Espírito Santo para, unida ao Filho Jesus, elevar o louvor de glória ao Pai, sobretudo na Eucaristia. Assim, celebrar a dedicação de uma igreja-templo é recordar que nós somos Igreja-Comunidade, Corpo de Cristo, templo verdadeiro de Deus, pleno do Espírito Santo.

Santo Agostinho recordava: “A dedicação da casa de oração é festa da nossa comunidade. Mas, nós mesmos somos a Casa de Deus. Somos construídos, neste mundo, e seremos solenemente dedicados no fim dos tempos!” Nós – cada um de nós – somos pedras vivas, pedras vivificadas pelo Espírito para formarmos um só edifício espiritual, isto é, um edifício no Espírito Santo. E este edifício é a Igreja, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo.

Irmãos, a Igreja somos nós, chamados a assumir nossa parte na edificação do Reino do céu. Na Igreja, não somos espectadores; mas atores, participantes! Não nos omitamos, portanto; não recebamos a graça de Deus em vão! Tornamo-nos Igreja pelo batismo, o qual nos fez membros do Corpo de Cristo. Em cada Eucaristia, vamos nos tornando sempre mais corpo de Cristo até sermos plenamente configurados com ele na glória. Então, não recebamos em vão tamanha graça!

Terceiro: A Basílica de Latrão é a Catedral da Igreja de Roma, a Catedral do Papa. Na sua entrada, há uma inscrição: “Mãe de todas as igrejas da cidade e do mundo”. Compreendamos! A Igreja de Roma (isto é, a Arquidiocese de Roma) é a Igreja de Pedro e de Paulo, é a Igreja que preside a todas as outras dioceses do mundo, é a mais venerável de todas as igrejas da Terra.

Santo Inácio de Antioquia referia-se a ela, lá pelo ano 97, com indizível veneração. Numa carta que endereçou aos cristãos romanos, o Santo Bispo de Antioquia escrevia: “À Igreja objeto de misericórdia na magnificência do Pai altíssimo e de Jesus Cristo Seu único Filho, amada e iluminada na vontade daquele que conduz à realização todas as coisas que existem, segundo a fé e o amor de Jesus Cristo nosso Deus, à mesma que também preside na região dos romanos, digna de Deus, de honra, digna de louvor e sucesso e colocada acima das demais na caridade, que possui a lei de Cristo e o nome do Pai”.

O Papa, como Bispo de Roma, é cabeça do Colégio dos Bispos e sinal visível da unidade da Igreja na fé e na caridade. Por isso, hoje, unimo-nos à Igreja de Roma, na festa da dedicação, da consagração da sua catedral, a Basílica do Latrão.

A catedral de cada diocese é a igreja do bispo, sucessor dos apóstolos. Quanto mais a catedral do Bispo de Roma, sucessor de Pedro! Por isso, ela é considerada a “Mãe de todas as igrejas da cidade e do mundo”. Assim sendo, a festa de hoje nos convida também a rezar pela Igreja de Deus que está em Roma e pelo seu Bispo, Francisco. Convida-nos a estreitar nossos laços com Roma e o Papa, retomando nossa consciência do papel que ele tem como Vigário de Pedro, a quem Cristo confiou Sua Igreja.

Num mundo tão complexo, com tantas ideias, opiniões e modas, num Cristianismo que vê surgir tantas seitas sem nenhum fundamento teológico, sem nenhuma seriedade ou enraizamento na Tradição Apostólica, fazendo um terrível mal à fé dos simples e desavisados, reafirmemos nossa comunhão firme, profunda e convicta com a Igreja de Roma e seu Bispo, a quem o Cristo entregou, de modo particular, as chaves do Reino e lhe deu a missão de confirmar, na fé, os irmãos. A comunhão com Roma é garantia de estar naquela comunhão que Cristo sonhou para a Sua Igreja; é garantia de permanecer na fé apostólica, transmitida, de uma vez por todas, é garantia de não cair num tipo de Cristianismo alheio àquilo que o Senhor Jesus pensou e estabeleceu.

Que a festa hodierna seja uma feliz ocasião para professar, na exultação e no louvor, a nossa fé católica, da qual nos ufanamos com humildade e na qual esperamos ser salvos. Amém!

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