As diferenças entre a intercessão dos santos e a evocação dos mortos

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A intercessão dos santos se baseia na comunhão que existe entre todos os membros da Igreja, comunhão da qual fala aquele artigo do Credo: “Creio na comunhão dos santos”.
Com efeito, sendo a Igreja uma só, sendo sua unidade um de seus atributos fundamentais, sem o qual ela não pode existir (a Igreja é una no governo – o de Cristo, por meio do Papa –, na Fé – a Fé Católica –, e no culto – o culto cristão), não é de se estranhar que haja uma comunhão entre seus membros. A Igreja é Corpo de Cristo, conforme ensina São Paulo (Colossenses 1, 18) e a Doutrina Católica (cf. Papa Pio XII, Encíclica Mystici Corporis, n. 13), e nós, cristãos católicos, somos membros deste Corpo de Cristo: “Não sabeis que sois membros de Cristo?” (1 Coríntios 6, 15); se, portanto, membros do mesmo Corpo, estamos todos unidos por vínculos sagrados e estreitíssimos. Esta é a “comunhão dos santos”, na qual professamos crer.
O Catecismo Romano ensina a respeito: “Antes de tudo, devemos explicar aos fiéis que o presente artigo do Credo [sobre a comunhão dos santos] é uma ampliação do anterior, que trata da Igreja uma, santa e católica. Sendo, pois, um só Espírito que a governa, todas as graças conferidas à Igreja se tornam bem comum de todos. Os frutos de todos os Sacramentos aproveitam a todos os fiéis. São uma espécie de vínculos sagrados os unem e prendem a Cristo; mormente o Batismo que, quase por uma porta, nos faz entrar no grêmio da Igreja” (Cap. X, Tít. VII, n.1).
Santo Ambrósio dizia: “Assim como dizemos que um membro faz parte de todo o corpo, assim é o nexo entre todos os que temem a Deus” (Abros. in Ps 118,63 sermo 8 – n. 54: ML 15, 1387).
“Muitos são os membros do corpo. Apesar de serem muitos, formam todavia um só corpo, no qual cada um tem sua função própria mas não idêntica para todos. […] É tão íntima a conexão e adaptação entre eles que, se algum sofre dor, todos os mais a sofrem também, por efeito natural do mesmo sangue e do mesmo sentimento; se pelo contrário sentir bem-estar, todos os outros terão a mesma sensação de alegria. Na Igreja observa-se o mesmo fenômeno. Seus membros são diversos, várias nações, judeus e pagãos, homens livres e escravos, pobres e ricos. No entanto, assim que recebem o batismo, formam com Cristo um só Corpo, do qual Ele próprio é a Cabeça. Nesta Igreja, cada membro recebe um ministério especial. Uns são apóstolos, outros são mestres, todos instituídos para o bem da coletividade; de modo que a uns incumbe dirigir e ensinar, a outros obedecer e viver debaixo de ordens” (Catecismo Romano, Cap. X, Corol., n. 1).
Ora, sendo tamanha a unidade deste Corpo, sendo tão estreitos os vínculos que unem os membros da Igreja entre si e a Cristo, é mais que natural que uns membros peçam pelos outros a Cristo, que é a Cabeça de todo o Corpo, e ao qual todos – tanto os que pedem quanto os que são objeto de pedido – estão unidos. A prática da oração entre si – a “intercessão” –, a oração de uns pelos outros, era vivamente recomendada pelos Apóstolos, donde não se pode compreender que hoje muitos impugnem a intercessão tal como é defendida pela Igreja Católica, tratando a esta como se fosse um ato pecaminoso! São Paulo fervorosamente recomendava a intercessão: “Sede perseverantes, sede vigilantes na oração, acompanhada de ações de graças. Orai também por nós! Pedi a Deus que dê livre curso à nossa palavra, para que possamos anunciar o mistério de Cristo” (Colossenses 4, 2-3); “Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas, ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, para que possamos viver uma vida calma e tranquila, com toda piedade e honestidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador” (I Timóteo 2, 1-3).
Pode-se não só rezar por aqueles que são membros do Corpo, como por aqueles que a ele ainda não se incorporaram, conforme recomenda São Paulo (“façam preces […] por todos os homens”); e esta prática, a oração por aqueles que ainda não são membros do Corpo de Cristo, é também um meio de fazê-los incorporar-se a este Corpo Santo.
Cristo é o único Mediador entre Deus e os homens: “Porque há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, homem que se entregou como resgate por todos” (I Timóteo 2, 5-6). Logo, toda intercessão que se faça passa por Cristo; é junto a Cristo que intercedemos ou que os santos intercedem por nós, para que Nosso Senhor, que é nosso único Mediador, apresente esta súplica a Seu Pai.
Logo, a intercessão tem profundo amparo na Doutrina Católica, tal como nos resulta das Sagradas Escrituras e da Sagrada Tradição.
Mas não se deve crer que somente os vivos podem rezar uns pelos outros. Havendo a comunhão dos santos, isto é, de todos os membros do Corpo Místico de Cristo, existe também a comunhão entre a Igreja de Cristo que ainda caminha na terra (a “Igreja Militante”), a Igreja de Cristo que se purifica no Purgatório (a “Igreja Padecente”), e a Igreja de Cristo que já conquistou a glória nos Céus (a “Igreja Gloriosa”); estes são os três estados da Igreja, conforme nos indica o Catecismo da Igreja Católica (n. 954). Logo, há perfeita comunhão entre os membros da Igreja que militam na terra (nós), aqueles que, terminados o curso de sua vida terrena, purificam-se para entrar nos Céus (as almas do Purgatório), e aqueles que já estão na glória e já vêem a Deus face a face (as almas dos santos, todos os que já foram salvos e estão no Paraíso).
E não há nenhuma separação entre a Igreja celeste e a Igreja que peregrina na terra. Ao contrário, são o mesmo e único Corpo Místico de Cristo, a mesma e única Igreja Católica. A Doutrina Católica nos proíbe dizer que há separação entre a Igreja que está nos céus e a que está na terra: “A sociedade organizada hierarquicamente e o Corpo místico de Cristo, o agrupamento visível e a comunidade espiritual, a Igreja terrestre e a Igreja ornada com os dons celestes não se deve considerar como duas entidades, mas como uma única realidade complexa, formada pelo duplo elemento humano e divino” (Conc. Ecum. Vaticano II, Const. Dogm. Lumen Gentium, n. 8).
Não havendo separação entre a Igreja terrestre e a celeste, é também perfeitamente possível que os santos do Céu intercedam por aqueles que ainda caminham rumo à santidade aqui na terra; aliás, sua oração será tanto mais eficaz que a nossa, visto estarem eles mais próximos de Deus que nós, pois estão em comunhão com Ele. Não só os santos do Céu podem interceder por nós, como também as almas do Purgatório, que também estão mais próximas de Deus que nós, faltando-lhes apenas a purificação para adentrarem nos Céus; e nós também podemos interceder pelas almas do Purgatório, para que Deus as retire logo de seu sofrimento purificador.
“Pelo fato de os habitantes do Céu estarem unidos mais intimamente com Cristo, consolidam com mais firmeza na santidade toda a Igreja. Eles não deixam de interceder por nós ao Pai, apresentando os méritos que alcançaram na terra pelo único mediador de Deus e dos homens, Cristo Jesus. Por conseguinte, pela fraterna solicitude deles, nossa fraqueza recebe o mais valioso auxílio” (Const. Dogm. Lumen Gentium, n. 49).
É nisto, portanto, que a Igreja Católica crê sobre a intercessão dos santos, e também de uns pelos outros.

 A evocação dos mortos, ou necromancia, praticada pelos espíritas.
Antes de tudo, é preciso diferenciar “invocação” de “evocação”. A propósito, esclarece Frei Boaventura Kloppeburg, renomado Teólogo brasileiro, em sua obra “O Espiritismo no Brasil, Orientações para os Católicos”: “Várias vezes nos objetaram que também os católicos evocamos os mortos, quando rezamos aos santos. Mas isso não é verdade: não evocamos, mas invocamos os Santos. Dirão que as palavras ‘evocar’ e ‘invocar’ são sinônimas. Etimologicamente pode ser, mas realmente os conceitos são bem diferentes: Quando o espírita ‘evoca’ um espírito ele quer que o espírito desça, baixe e se comunique perceptivelmente com a gente; quando o católico ‘invoca’ um Santo, ele quer que o Santo por assim dizer suba ao trono de Deus para interceder por nós, para tornar-se o nosso intercessor e não que baixe e fale conosco. Não há, na devoção católica aos Santos, nem vestígio de mentalidade espírita” (Op. cit., 2ª Ed., Petrópolis: Vozes, 1964, p. 183).
Portanto, invocar não é o mesmo que evocar. A “invocação dos santos” nada mais é que pedir sua intercessão; é a prática católica. A “evocação dos mortos” é a prática dos espíritas, a qual é inteiramente condenável.
Ora, a evocação dos mortos, ou necromancia, se dá com base na crença espírita de que os espíritos dos falecidos podem perambular pelo mundo atendendo às nossas exigências. Neste sentido, o homem poderia perfeitamente evocar sua presença ou seus conselhos, donde surgem as práticas espíritas de psicografia, psicofonia, vidência, entre outras.
A evocação dos mortos sugere que o homem tem o poder de trazer um espírito à terra. Há, portanto, uma pretensão de domesticar os poderes divinos; é a soberba do homem que se acha Deus.
Somente Deus poderia, por iniciativa Sua, permitir a aparição de uma alma ou anjo, como permitiu que a alma de Samuel se manifestasse quando Saul foi à necromante (cf. I Samuel 28, 7-25), ou como quando enviou o Arcanjo Gabriel (cf. Lucas 1, 26) para anunciar a Maria que Ela seria a Mãe do Filho de Deus, ou quando das aparições da Virgem Santíssima é tantos lugares ao longo das épocas. Somente Deus, por sua própria iniciativa, poderia permitir a manifestação de Samuel, da Virgem Maria ou do Anjo Gabriel. Não é o homem quem tem poder para decidir ou exigir tal coisa, como fazem e pregam os espíritas, que exigem a presença, a manifestação e mesmo a aparição dos espíritos em suas reuniões, como se tivessem algum poder para isso; e se estes espíritos aparecem não se tenha dúvidas de que na verdade são demônios enganadores.
Além disso, o espírita evoca os mortos pretendendo deles retirar verdades sobre o além ou com seu auxílio levar à cabo práticas como a adivinhação. Foi isto que fez Saul, recorrendo à necromante da seguinte maneira: “Predize-me o futuro, evocando um morto” (I Samuel 28, 8). Veja-se que a intenção de Saul ao evocar os espíritos era claramente a de obter conhecimentos ocultos, de verdades do além ou do futuro. É isto que faz o espírita. Evoca os mortos para deles obter conhecimentos ocultos. Além de querer domesticar os poderes divinos, exigindo a manifestação das almas como se tivesse poder para tanto, ainda deseja ser onisciente como Deus, pela obtenção de conhecimentos ocultos. É a soberba do homem que se acha Deus, e que dá ouvidos às tentações da Serpente maligna, que disse: “Sereis como deuses” (Gênesis 3, 5).
O católico, ao contrário, ao pedir a intercessão dos santos, como já vimos, apenas eleva-lhe pedidos; roga-lhe que interceda junto a Cristo em seu favor, para que possa obter a graça ou o bem que lhe for necessário naquele momento, seja um bem material ou um bem espiritual. Não há aí, na oração do católico aos santos, nenhuma intenção de exigir a manifestação das almas – pois o católico sabe que somente Deus tem poder para realizar tal coisa – ou de obter pretensos conhecimentos ocultos – o católico entrega o futuro nas mãos de seu Senhor: “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado” (Mateus 6, 34); e o católico conhece sua miséria humana e sabe que somente seu Senhor é onisciente, não tendo nenhuma intenção de igualar-se a Ele nisso.
Há, portanto, uma cabal diferença entre a perniciosa necromancia praticada pelos espíritas e a intercessão dos santos, à qual recorre a Igreja Católica. São óleo e água.
A Igreja o condena: “Todas as práticas de magia ou de feitiçaria com as quais a pessoa pretende domesticar os poderes ocultos, para colocá-los a seu serviço e obter um poder sobrenatural sobre o próximo – mesmo que seja para proporcionar a este a saúde –, são gravemente contrárias à virtude da religião. Essas práticas são ainda mais condenáveis quando acompanhadas de uma intenção de prejudicar outrem, ou quando recorrem ou não à intervenção dos demônios. O uso de amuletos também é repreensível. O espiritismo implica freqüentemente práticas de adivinhação ou de magia. Por isso a Igreja adverte os fiéis a evitá-lo” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2117).
E O Senhor Deus ordena: “Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, nem quem se dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, à magia, ao espiritismo, à adivinhação ou à evocação dos mortos,  porque o Senhor, teu Deus, abomina aqueles que se dão a essas práticas, e é por causa dessas abominações que o Senhor, teu Deus, expulsa diante de ti essas nações.  Serás inteiramente do Senhor, teu Deus” (Deuteronômio 18, 10-13).

 

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