Os Santos e a Comunicação com os Mortos

PERGUNTE E RESPONDEREMOS
019 – julho 1959
H. DOGMÁTICA

EVANGÉLICO (Guapimirim): “Será que os santos aparecem realmente aos homens na terra? Como se poderia dar isso?”
L. F. S. (Rio de Janeiro): “Poderíamos comunicar-nos com os mortos?”

Abordaremos primeiramente a questão da realidade das aparições, para depois averiguar as maneiras como se possam dar. Os princípios enunciados se aplicarão à questão da comunicação com os mortos.

1. Aparições: realidade ou alucinação?
1. Por aparição entende-se, em linguagem teológica, toda manifestação sensível de uma pessoa ou de um objeto cuja presença, nas circunstâncias em que ela se verifica, não poderia ser explicada pelas leis comuns da natureza. Dado, por exemplo, que Deus, um anjo ou uma alma de defunto se mostrem sob sinais sensíveis, tem-se o que se chama uma aparição.

2. A possibilidade de tais fenômenos está incluída dentro da possibilidade do milagre. Ora não há dúvida de que o Autor da natureza, Deus, pode, por si ou por alguma criatura, abrir exceções às leis que Ele mesmo impôs aos elementos, desde que, para tanto, haja motivo proporcionalmente importante; por conseguinte, Deus poderá de modo especial manifestar sua presença aos homens na terra, usando de algum sinal que impressione os sentidos; poderá outrossim permitir que um espírito criado se revele de maneira sensível. Está claro que essas intervenções extraordinárias, longe de se realizar a capricho, obedecerão sempre a um plano sábio traçado pela Divina Providência. E qual seria a finalidade proporcionalmente importante em vista da qual o Senhor permitiria aparições? Tal finalidade há de ser a santificação dos homens, a qual é inseparável da glória de Deus. No decorrer da história, o Senhor, levando em conta a debilidade da mente humana frente à verdade, dignou-se periodicamente corroborar a sua Palavra mediante testemunhos sensíveis. Até hoje é de crer que o Criador, mediante tais sinais, queira despertar nos tíbios a chama da fé e avivar nos justos o ardor da caridade; um acontecimento impressionante, um choque psicológico podem provocar a mudança de vida de uma criatura (tais foram, sim, os casos de São Paulo, São João Gualberto, São Norberto e outros justos). Como se entende, as aparições constituirão sempre um dom extraordinário, que a Providência de Deus não está obrigada a conceder nem mesmo aos seus mais íntimos amigos; por conseguinte não são dispensadas segundo leis que de antemão se possam estabelecer, nem são o efeito do desejo das criaturas, por mais piedosas que sejam estas; muito menos, o efeito de artes e preces semelhantes às que se efetuam em sessões espíritas. Trata-se de graças excepcionais e contingentes. Repitamo-lo: Deus não realiza milagre sem motivo grave, proporcional à exceção que tal milagre significa na ordem da natureza.

3. Quanto à realidade das aparições, distingamos entre as que a Sagrada Escritura mesma consigna, e as que os documentos extra-bíblicos referem. As aparições bíblicas foram fatos reais de que dá testemunho o próprio Deus, Autor principal das Escrituras; por isto impõem-se à fé de todos os cristãos, desde que sejam incutidas pelo texto bíblico autenticamente interpretado (neste ponto é preciso chamar a atenção para o estilo e as modalidades de expressão da S. Escritura; nem tudo que, à primeira leitura da página sagrada, parece ser milagre ou aparição milagrosa, há de ser entendido como tal; daí a ressalva: impõem-se à fé as aparições que o texto bíblico, interpretado segundo os critérios do respectivo gênero literário, nos consigna). Dentre as aparições bíblicas, merecem destaque as do Senhor a Abraão na Mesopotâmia (cf. Gên 12,1-3), em Siquém (cf. Gên 12,7); a Moisés, na sarça ardente (cf. Ex 3,2), no Sinai (cf. Ex 19,3). Foram visitados por um anjo; Tobias (cf. Tob 5,5-12,22), Balaão (cf. Num 22,22), Josué (cf. Jos 5,13), Gedeão (cf. Jz 6,11), Elias (cf. 3 Rs 19,5-7; 4 Rs 1,3)…; no Novo Testamento o anjo Gabriel trouxe solene mensagem a Zacarias (cf. Lc 1,8-22) e a Maria Ssma. (cf. Lc 1,26-38); os anjos anunciaram aos pastores o nascimento do Salvador (cf. Lc 2,8-15)… Quanto a aparições de mortos na Bíblia, são relativamente raras: à parte o caso de Samuel (de que trata a questão 7 deste fascículo), lê-se que o Sumo Sacerdote Onias e o Profeta Jeremias se mostraram em sonho a Judas Macabeu (cf. 2 Mac 15,11-16); Moisés apareceu sobre o Tabor (cf. Mt 17,3); após a ressurreição do Senhor, muitos defuntos saíram de seus túmulos e se manifestaram em Jerusalém (cf. Mt 27,52s). No tocante às aparições não-bíblicas, deve-se observar o seguinte: com a morte do último dos Apóstolos (São João, cerca de 100), encerrou-se a revelação pública, ou seja, a comunicação de verdades divinas que se impõem à fé de todos os homens. De então por diante, a Igreja admite aparições e revelações particulares. É, porém, muito cautelosa ao examiná-las. Ela sabe que frequentemente as propaladas aparições não são senão o resultado de disposições doentias, excitação prolongada do cérebro, grande cansaço intelectual, extenuação devida a jejuns exagerados dos «videntes», etc. Já que não raro nos processos de canonização ocorre a narrativa de visões, o Papa Bento XIV (1740-1758) estipulou normas precisas a fim de se distinguirem verdadeiras e falsas aparições. Em geral, os canonistas do século passado eram propensos a não admitir, para comprovar aparições, o testemunho de menores, mulheres e pessoas sobre cuja veracidade ou boa fé pudesse pairar suspeita. A título de curiosidade, citamos aqui o teólogo beneditino Schram, que em 1848 estabeleceu uma lista de dezenove critérios mediante os quais julgava poder discernir as falsas aparições; segundo tal autor, não mereceria crédito o visionário que:
– fosse orgulhoso,
– desejasse ter visões,
– estivesse possesso do demônio,
– fosse dado ao delírio,
– possuísse temperamento melancólico,
– fosse novato na vida espiritual, fosse marcadamente pobre, rico, jovem ou ancião,
– fosse do sexo feminino,
– propalasse com facilidade as suas visões… (cf. Institutiones theologiaè mysticae. Paris 1848).
Sem dificuldade percebe-se que alguns destes critérios carecem de valor. Como quer que seja, a lista acima ao menos atesta quão pouco os teólogos são inclinados a admitir visões e revelações particulares.

Hoje em dia qualquer narrativa de aparição sobrenatural é analisada à luz dos três seguintes critérios:
a) o critério histórico: compulsam-se documentos e ouvem-se testemunhas a fim de se ter certeza de que realmente aconteceu algum fato que mereça especial atenção (remova-se a possibilidade de embuste ou exploração);

b) o critério psicológico: examinam-se as condições intelectuais, morais e psíquicas da pessoa ou das pessoas «agraciadas», a fim de se verificar se algum elemento doentio ou alucinatório não entrou em causa;

c) o critério teológico: estudam-se as afirmações e as atitudes religiosas do «vidente» para se averiguar se o fenômeno extraordinário foi provocado por Deus ou pelo espírito diabólico.

Em numerosos casos a autoridade da Igreja abstém-se de pronunciar algum juízo sobre tal ou tal pretensa aparição; limita-se apenas a não condenar a respectiva narrativa e estimular de maneira geral a piedade dos fiéis (veja-se o exemplo do santuário de Loreto em «P.R.» 12/1958, qu. 9).
Contudo, apesar do rigor aplicado nos respectivos exames, a S. Igreja reconhece (não, porém, como dogmas de fé universal) casos de aparição, permitindo sejam publicamente evocados até mesmo na Liturgia: tenham-se em vista, por exemplo, as manifestações do Senhor em Paray-le-Monial, as da Virgem Ssma. em La Salette, Lourdes, Fátima; a de S. Miguel Arcanjo no monte Gargano (Sicília). Além disto, é costume afirmar-se que S. Catarina de Sena, S. Teresa de Ávila, o Sto. Cura d’Ars, S. Gema Galgani e outros justos foram agraciados com o dom de visões sobrenaturais. Seja licito frisar: tais aparições, ainda que reconhecidas (e até solenizadas na Liturgia) pela autoridade da Igreja, não se impõem obrigatòriamente à fé dos cristãos, pois ficam fora do depósito da revelação pública e universal; a Igreja não consideraria herético o discípulo que não as aceitasse. Está claro que seria um feito de temeridade e soberba negar sem razão suficiente a realidade de tais fenômenos (pois, além de gozar da assistência geral do Espírito Santo, mesmo quando não define verdades de fé, a Igreja não costuma tomar posições afoitas); contudo toca a todo indivíduo o direito de examinar as narrativas de aparições à luz das regras da prudência e da critica histórica. Parece ainda importante acentuar que, mesmo quando publicadas com o «Imprimatur» ou a licença de um bispo, as narrativas de visões e revelações particulares não representam necessàriamente o pensamento comum da Igreja; o «Imprimatur» apenas significa que a respectiva obra a rigor nada contém contra a fé e a moral cristãs; disto, porém, não se segue que o magistério da Igreja intencione recomendar positivamente as idéias aí expressas.
Compete ao leitor, em tais casos, exercer um certo discernimento a fim de nutrir a sua fé e a sua vida cristãs nas fontes mais ricas e puras do depósito sagrado. Para concluir as considerações acima, vai aqui citado um trecho do último pronunciamento da S. Igreja a respeito de aparições: trata-se de uma carta de Monsenhor (hoje Cardeal) Ottaviani, Pró-Secretário do Santo Oficio, publicada em fevereiro de 1951, carta em que se lê o seguinte: «Não nos acusem de sermos adversários do sobrenatural, se nos propomos agora acautelar os fiéis contra as afirmações não comprovadas de pretensos acontecimentos sobrenaturais que em nossos dias pululam em toda a parte e ameaçam lançar o descrédito sobre o verdadeiro milagre… Há cinquenta anos atrás, quem imaginaria que a Igreja hoje deveria alertar seus filhos e mesmo sacerdotes contra narradores de visões, de pretensos milagres, numa palavra: contra todos esses fatos tidos como preternaturais, os quais de um continente a outro, de um pais a outro (pode-se dizer: em toda parte), atraem e excitam as multidões…? Já há anos que verificamos a recrudescência da paixão popular em relação ao maravilhoso, mesmo no plano religioso.
Multidões de fiéis vão ter aos lugares de presumidas aparições ou de pretensos milagres, e ao mesmo tempo abandonam as igrejas, os sacramentos, os sermões… A Igreja certamente não intenciona pôr na sombra os prodígios realizados por Deus. Ela apenas quer chamar a atenção dos fiéis para aquilo que vem de Deus e aquilo que, não vindo de Deus, pode vir do nosso adversário, que é também o adversário de Deus. Ela é inimiga do falso milagre…»

2. Como se dão as aparições?
Procuremos agora explicar como o Senhor Deus e os santos se possam manifestar aos mortais. Devemos logo distinguir entre as aparições de Deus, dos anjos e dos santos que ainda não ressuscitaram (são espíritos não unidos a corpos) e as aparições de Cristo, Maria Ssma., Henoque e Elias…, que se acham em corpo e alma na glória do céu.

1) Quanto aos espíritos puros, está claro que a sua substância imaterial não age diretamente sobre os sentidos dos homens, que são faculdades orgânicas e materiais; um espírito, por não ter tamanho nem cor…, é totalmente inacessível aos nossos sentidos.

Positivamente
a) julgam bons teólogos que a imagem sensível de um homem, de uma donzela ou de um jovem mancebo… que Deus ou criaturas espirituais suscitam nos videntes, se deve a um agente intermediário corpóreo de que tais espíritos puros se servem para impressionar os sentidos dos mortais; Deus tem, sim, o poder de mover a matéria a fim de que ela produza tal efeito no órgão visual de indivíduos humanos; o mesmo Senhor pode outrossim permitir que os anjos e santos provoquem semelhantes efeitos. A figura assim suscitada apresenta os traços mais aptos para evocar no respectivo vidente a lembrança de Deus ou de tal anjo, de tal justo… São traços contingentes; podem variar segundo a idade, a cultura, a nacionalidade dos videntes (o Espírito Santo, por exemplo, apareceu ora sob a forma de pomba, ora sob a forma de línguas de fogo); tais figuras sensíveis têm apenas o papel de lembrar atributos característicos dos seres espirituais que elas representam.

b) A maioria dos teólogos, porém, prefere dizer que os espíritos puros geralmente não recorrem a algum agente intermediário colocado diante dos videntes, mas produzem imediatamente nos sentidos (nos olhos, principalmente) dos mortais tal ou tal imagem que lembra Deus ou determinado anjo ou santo… Essa ação imediata já é suficiente para manifestar a presença (ou para caracterizar a aparição) do Senhor ou de tal espírito puro.

2) Quanto a Cristo e aos santos que se acham em corpo e alma na glória, poderiam manifestar aos homens seu corpo transfigurado. Foi, aliás, o que se deu quando Jesus apareceu aos Apóstolos após a ressurreição e a S. Paulo depois da Ascensão. Elias no Tabor deve ter aparecido em seu próprio corpo. Em vista, porém, da diversidade de figuras que Cristo e a Virgem Ssma. revelam nas suas aparições (tenham-se em conta as imagens do S. Coração de Jesus, do Menino Jesus de Praga, os tipos marianos de Fátima, Lourdes, La Salette, etc.), admite-se mais comumente que não são propriamente os corpos de Cristo e de Maria que se manifestam; julga-se que estes são apenas evocados por uma das duas vias (a ou b) referidas atrás, sob o nº 1. A título de ilustração, transcrevemos aqui as palavras com que o famoso teólogo A. Tanquerey explica as aparições ocorrentes segundo a modalidade anteriormente descrita; «As visões sensíveis ou corpóreas, também chamadas aparições, são aquelas em que os sentidos percebem uma realidade objetiva por si invisível ao homem. Não é necessário que o objeto percebido seja um corpo de carne e ossos; basta seja uma forma sensível ou luminosa. Por conseguinte, admite-se geralmente, com S. Tomaz, que Nosso Senhor, depois da sua Ascensão, não apareceu pessoalmente senão em casos muito raros; Ele em geral só aparece sob uma forma sensível que não é seu verdadeiro corpo… O que dizemos de Nosso Senhor, aplica-se à Ssma. Virgem; portanto, quando ela apareceu em Lourdes, seu corpo permanecia no céu, e no lugar da aparição só havia uma forma sensível que a representava. É o que explica como ela apareça ora sob uma forma, ora sob outra» (Précis de Théologie ascétique et mystique II. Paris 1924, 934). S. Tomaz (S. Teol., Supl. qu. 69, a. 3) admite que as almas dos defuntos, quer estejam no céu, quer estejam no purgatório, quer no inferno, possam por certo tempo, em virtude de especial disposição da Providência, sair do seu estado próprio para se manifestar na terra. Adverte, porém, o S. Doutor: ao passo que os justos conseguem isto todas as vezes que o pedem a Deus, os réprobos só com raridade aparecem neste mundo. Em todo e qualquer caso, a finalidade dessas aparições é algo de nobre: os santos, diz S. Tomaz, vêm exortar e estimular os seus irmãos peregrinos na terra; as almas do purgatório vêm pedir sufrágios, e os réprobos, por desígnio de Deus, vêm admoestar os viventes e incutir-lhes temor salutar. Citamos estas considerações unicamente à guisa de ilustração, pois versam em torno de objetos que em grande parte escapam à alçada do nosso conhecimento; em tal setor só nos é possível fazer conjeturas, abstendo-nos de afirmações categóricas. O mesmo Doutor Angélico se refere em particular às aparições de Cristo na Eucaristia sob a forma de criança ou de carne viva. Assevera que em tais casos os videntes contemplaram uma imagem formada milagrosamente sobre as espécies sacramentais (sobre as aparências do pão, por exemplo) ou formada diretamente na retina dos videntes (cf. S. Teol. III 76, 8); como quer que fosse (e isto é importante), a formação dessa imagem se devia a uma intervenção extraordinária do Senhor Deus e constituía um autêntico sinal de Cristo para avivar a fé dos videntes. À guisa de Apêndice, parece oportuna uma palavra sobre o famoso «Museu das almas do purgatório» de Roma. Foi instalado não pelas autoridades oficiais da Igreja, mas pelo Pe. Vítor Jouet, sacerdote da Congregação do Sagrado Coração e fundador da revista «Le Purgatoire» em 1900. Apresenta uma coleção de objetos de todo original: livros de orações (como o de Margarida Dammerle, de Erlingen) e missais, nos quais as almas do purgatório teriam gravado marcas de fogo; pedaços de pano portadores de semelhantes vestígios (assim há a camisa de José Leleux, da cidade de Mons, que traz as marcas de dedos incandescentes datadas de 21 de janeiro de 1789; o manto militar de uma sentinela italiana que em uma noite de 1932 montava guarda no Panteão ao monumento do rei assassinado Humberto I; o espectro do defunto teria pousado sua mão chamejante sobre uma das espáduas do soldado, após haver entregue a este uma mensagem para Vítor Emanuel III), tabuinhas, encostos de madeira marcados a fogo, etc. Encontram-se nesse museu outrossim silhuetas de mãos inteiras, não deformadas, com os dedos abertos;… uma cruz traçada com muito esmero pela ponta de um dedo indicador incandescente… (notícias colhidas na obra do Pe. Réginald-Omez: Peut-on communiquer avec les morts? Paris 1955).
Difícil seria definir a origem desses sinais. Dever-se-ão a um fenômeno ou acidente de índole meramente natural? Serão, antes, o produto de alguma arte ilusória praticada de boa fé ou… de má fé? Seriam, ao contrário, verdadeiros efeitos sobrenaturais provocados por algum espírito bom (ou mau) com a permissão de Deus? — Tais questões e suas respectivas respostas não têm grande importância, pois a ideologia e o programa de santificação do cristão (coisas estas de máximo valor) não dependem de tais fenômenos; estes são totalmente contingentes no Cristianismo. Dado, porém, que se admita a origem preternatural das mencionadas marcas, tomar-se-á a cautela de não dizer que foram produzidas pelo fogo do purgatório. Este não é elemento semelhante ao fogo da terra, capaz de queimar os objetos materiais; livros, panos, madeira, etc. (alguns teólogos chegam a chamá-lo «fogo espiritual»). Os referidos vestígios das almas, caso sejam autênticos, dever-se-ão à intervenção de Deus. que terá suscitado (ou terá permitido que alguma alma do purgatório suscitasse), em dadas circunstâncias, um elemento capaz de queimar os objetos assinalados, deixando neles a respectiva marca, talvez como símbolo do estado em que acham as almas do purgatório. Dado que se comprove ou se torne plausível alguma mensagem de alma do purgatório neste mundo, não será necessário admitir que tal alma se tenha tornado presente na terra; Deus em sua misericórdia pode ter produzido um fenômeno maravilhoso que, para os respectivos espectadores, terá sido a expressão da dita mensagem (em geral, estas mensagens consistem em pedidos de preces pelos defuntos).
Em qualquer caso, mesmo que não se possa definir a índole de uma presumida mensagem de alma do purgatório, as pessoas interessadas poderão sempre responder sufragando as almas por suas preces e pelo S. Sacrifício da Missa; tais sufrágios jamais serão infrutuosos. Apesar de toda a reserva de que usa a S. Igreja em se tratando de apregoadas aparições de almas do purgatório, seria temerário negar globalmente toda e qualquer manifestação desses espíritos.
Na vida de alguns santos, cujos escritos após severo exame canônico foram tidos como fidedignos, leem-se episódios de tal gênero, dos quais, a título de ilustração, vai aqui citado o que S. Margarida Maria Alacoque (+1690) narra em sua Autobiografia: «Estando eu diante do Ssmo. Sacramento, no dia da festa do mesmo, uma pessoa toda recoberta de fogo, de repente se me apresentou. O mísero estado em que, conforme me declarou, ela se achava no purgatório, fez-me derramar abundantes lágrimas. Disse-me que era a alma do religioso beneditino que ouvira minha confissão outrora e me mandara receber a S. Comunhão. Em recompensa disto, Deus lhe permitira dirigir-se a mim para que eu lhe proporcionasse alívio em suas penas. Pediu-me tudo que eu pudesse fazer e sofrer durante três meses… Por fim, ao cabo dos três meses, vi-o cheio de alegria e de glória; ia gozar da felicidade eterna e, agradecendo-me, disse-me que me tomaria em tutela na presença de Deus» (S. Margarida Maria Alacoque, Vie écrite par elle-même 1920, 98).

Nenhum comentário ainda

Comentários desativados

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda