Comemoração de todos os Finados – 02 de Novembro

Por Pe. Fernando José Cardoso

Hoje, FINADOS, a Igreja se mobiliza para sufragar aqueles filhos seus, que outrora, haviam gerado para Deus e dirigido à Vida Eterna. Nós somos seres de eternidade. Nós fomos feitos para a alegria e o bem; não fomos feitos para o desastre e a morte. Quando tocamos o mistério da morte com nossas mãos, esta mesma realidade se apresenta a nós irremediável, absurda e inaceitável. Sim, é inaceitável um ente querido ser arrancado, abrupta e cruelmente do nosso convívio. É inaceitável, o marido amado, deixar sua esposa e ir se para nunca mais voltar. É inaceitável e cruel, perceber que um filho afetuoso também se vai, sem sequer ter tempo de se despedir do pai ou da mãe. A morte é absurda. E uma vida que caminha para ela seria absurda também se não houvesse alguma coisa por detrás; se não houvesse nada além dela. De todos os entes do universo, nós seríamos ao mesmo tempo os mais nobres e os mais contraditórios, porque para todos os outros entes, animais incluídos, a morte não é problemática. Ela é um problema grave e insolúvel apenas para nós. Se não houvesse nada para além da morte, um grande magnata do tráfico de drogas, que carregou na consciência milhares de mortes, estaria lado a lado no cemitério com Madre Teresa de Calcutá. É algo de absolutamente inadmissível e de extremamente chocante. Nós agradecemos a Deus porque temos a dita e a felicidade de crer; e não é fácil crer, diante do inexorável da morte, que uma plenitude de vida se encontra por detrás. Não é fácil crer que os nossos mortos não estão mortos, estão junto de Deus. Não é fácil crer que eles participam hoje da serenidade e beleza de Deus, contemplando-O face a face na beatitude do Céu repetem, hoje, para nós, o que Jesus disse aos seus, na véspera de morrer: “Vou preparar-vos um lugar; e quando o tiver preparado, voltarei para vos tomar comigo”. Nossos mortos hoje nos segredam ao coração: tenham confiança, fomos também preparar um lugar para vós, e vos ajudaremos com nossas preces, a chegar aonde nós já chegamos, vos ajudaremos a contemplar, o que estamos contemplando: a beleza inesgotável e infinita de Deus. Com Santa Teresinha do Menino Jesus, Virgem Carmelita e Doutora da Igreja nós, hoje gostaríamos de repetir: não morro, entro na Vida.

 

IRMÃ MORTE
“Tudo tem seu tempo, há um momento oportuno para cada empreendimento debaixo do céu. Tempo para nascer e tempo de morrer” (Eclo 3, 1-2a).   

Viver esse dia de finados, não significa deixar-se tomar pela tristeza da morte, da saudade, do abandono, da falta de esperança. Mais que isso, é um momento de refletirmos sobre tudo. Uma grande oportunidade de orar, tomar a Bíblia, meditar sobre a vida, sobre o amor verdadeiro e partilhado no lar, na família, contemplar o horizonte, o nascer e o pôr do sol sobre a nossa existência.

Nós que somos filhos do Deus da Vida, temos por nós o Cristo ressuscitado, vencedor da morte, ficamos nos lamentando e nos desesperando ao nos depararmos com ela – a morte.

Desde que nascemos e começamos a percorrer as estradas da vida, vencendo obstáculos, quer seja no limite, quer seja com maior facilidade, cada pessoa com seu próprio estilo, com sua individualidade. Como um rio que corre pelo seu leito, às vezes tranqüilo, às vezes vencendo obstáculos, ruidosamente caindo em cascatas, mas sempre nos seus limites, suas margens, até chegar, mais cedo ou mais tarde, à plenitude da água que é o oceano.

As pessoas também, mais cedo ou mais tarde chegam a plenitude da existência, da vida, do amor, da felicidade, do prazer, que desde criança aprendemos a chamar de céu, e que não está localizado nem aqui, nem ali, nem no alto, nem no baixo, mas no além, no diferente, em Deus. Para a sua glória somos chamados e iremos quando chegar o nosso dia, face a face com o Pai.

Lá estão todos os seres humanos. Lá estão todos que amam, por que o amor não tem qualificação de tempo. É uma só e grande família. Uma enorme família. É isto que chamamos de céu; é isto a vida dos ressuscitados; é isto que acontece na morte de cada um, e para sempre.

Uma presença diferente. Um modo de ser diferente, que participa plenamente do jeito de ser do espírito. Todos ali, numa nova e eterna família, reunida para toda a eternidade, junto com a Trindade.

Nós desejamos para você, não apenas mais um feriado, mas um dia de crescimento, maturidade e aconchego na fé. Ore pelos seus amados, celebre a Vida, a vitória da Cruz do Cristo Senhor, participe da Eucaristia celebrada na intenção dos seus familiares falecidos e também por todos nós em Ação de Graças ao redor do altar da vida.

 

Evangelho segundo São Mateus 25, 31-46 «Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos. O Rei dirá, então, aos da sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.’ Então, os justos vão responder-lhe: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?’ E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: ‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’ Em seguida dirá aos da esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos! Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.’ Por sua vez, eles perguntarão: ‘Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?’ Ele responderá, então: ‘Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.’ Estes irão para o suplício eterno, e os justos, para a vida eterna.»

Durante a última ceia, naquela noite derradeira que passou entre nós, Jesus disse a seus discípulos: “Vou preparar-vos um lugar. E quando tiver ido e vos tiver preparado um lugar, voltarei para vos tomar comigo e assim estareis onde Eu estou”. Hoje nós nos recordamos com saudades, mas também com esperanças, daqueles que se foram, partiram deste mundo, tendo-nos precedido na fé, na vida cristã e na morte. Eles foram receber o lugar onde Jesus tinha sofrido durante a sua vida entre nós. Eles se foram para receber para sempre na eternidade de Deus, as alegrias que Cristo ressuscitado oferece a todos aqueles que neste mundo souberam carregar a sua cruz e seguir os seus passos, vivendo o caminho do Evangelho. Eles nos precederam na vida e na morte, eles deixaram saudades e nós hoje de certa maneira exprimimos através de mil gestos a nossa saudade, porém juntamente com a nossa saudade, nós exprimimos a nossa esperança. Nós queremos chegar aonde eles chegaram e para tanto não é preciso grandes esforços, realizações consideráveis ou coisas extraordinárias, basta que sejamos fiéis à vocação cristã no nosso dia-a-dia. Basta que não tenhamos outra preocupação na vida, como eles, os fiéis defuntos, a não ser amar. Que saibamos: “Amar a Deus sobre todas as coisas e amar a todos como a si próprios”. Se alguém de nós assumir este programa de vida, este essencial, ainda que deixe de lado todo o resto, esta pessoa está no bom caminho. Hoje nós nos recordamos daqueles que, sobretudo se purificam para serem dignos da morada eterna de Deus. O purgatório nada mais é do que aquele momento no ato da morte em que Cristo alivia o excesso de nossas bagagens ou a nossa gordura excessiva, em direção à eternidade. Os nossos fiéis defuntos se submetem alegremente ao purgatório, a esta última purificação que elimina todas as escórias de seus corpos e, sobretudo de seus corações, para que sejam plenamente dignos de participar da alegria dos Santos, na luz da imortalidade de Deus. Hoje nós os contemplamos, repito, com saudades, mas ao mesmo tempo com esperança, porque com a graça de Cristo que não nos falta, como não faltou a eles, também, nós queremos chegar aonde eles chegaram. E assim, da mesa dos peregrinos e da estrada dos viajantes, nós com eles, ingressaremos na Pátria definitiva a cantar para sempre, com todos os eleitos á misericórdia de Deus.

 

Muitas vezes nos perguntam porque rezar pelos mortos. Se já faleceram que valor terá nossa oração? Esta pergunta teria sentido caso não compreendêssemos a comunhão dos santos em Deus. Nele não existe separação ou divisões, mas todos os que se encontram em seu amor vivem em profunda e verdadeira comunhão entre si. Todos os membros da Igreja estão, portanto, unidos, formando o Corpo de Cristo em que uns beneficiam os outros. É necessário que o amor de Deus penetre sempre mais a nossa vida e assim sejam consumidas todas as impurezas do pecado. Jesus veio para nos comunicar todos os bens espirituais, sem discriminar quem quer que seja. O Senhor deseja que todos participem de todos os bens, não se prendendo a classes sociais ou a privilégios. A comunhão entre os membros da Igreja não se restringe ao tempo presente, mas abrange o passado e mesmo os que hão de vir. Em Deus há um eterno presente. E como queremos que todos sejam envolvidos pela misericórdia divina elevamos a Deus nossas preces em favor de todos, dos doentes, das crianças, dos moribundos, dos idosos e dos que já faleceram. Sem dúvida, nesta comunhão dos santos, os falecidos estão também rezando, intercedendo por nós. De fato, no livro de Macabeus se lê que se “ele não esperasse que os que haviam sucumbido iriam ressuscitar seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas, se considerava que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormecem na piedade, então era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis por que ele mandou oferecer esse sacrifício expiatório pelos que haviam morrido, a fim de que fossem absolvidos do seu pecado” (2Mc 12, 38ss).

 

FINADOS
Dom Benedicto de Ulhoa Vieira, Arcebispo Emérito de Uberaba (MG)

Na próxima sexta-feira (02/11), as peregrinações ao cemitério se intensificam. Todos querem levar uma flor à sepultura daquele que partiu, deixando um vazio de tristeza aos que ficaram. Pode, para muitos, ser um dia de saudade e de recordação. Para nós, cristãos, a visão da morte é diferente. Não que não nos traga tristeza. Mas há, na recordação dos mortos, um luminoso raio de alegria. No prefácio da Missa dos mortos, a Igreja lembra esta confortadora esperança: “Aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola. Para os que crêem, a vida não é tirada, mas transformada. E desfeita a nossa habitação terrestre, nos é dada no céu uma eterna mansão”. O mesmo nos diz São Paulo (2Cor 5, 1): “Se nossa tenda (corpo) for destruída, teremos no céu morada eterna, feita não por mãos humanas”. É que para nós, cristãos, a morte não é o fim. É passagem, como o é a do nascimento da criança, que passa do escuro do seio materno para a luz do dia. Não é possível fugir da morte. A vida, na visão do salmista (Sl 89) é como a flor viçosa na madrugada, que reabre em sorrisos para a aurora, mas que à tarde fenece e fica seca. Há, no culto dos mortos, talvez o desejo inconsciente de que eles estivessem vivos, bem perto de nós. Enfeitam-se os enterros de flores. Erguem-se monumentos nos cemitérios com afetuosas inscrições. Conservam-se nas paredes os retratos dos entes queridos. Temos medo de esquecer os que partiram. E eles não voltam para falar conosco. O Senhor Jesus já nos avisou. Por isso, é oportuno lembrar, no dia dos mortos, a colorida parábola que São Lucas registra (Lc 16, 19) do homem rico e do pobre mendigo que vegetava na sua porta. Os dois morreram. Quando o rico pede ao Senhor para que o pobre volte à terra a fim de advertir os descuidados sobre o perigo de serem, também eles, castigados, a resposta divina é peremptória: a distância é intransponível. Não pode quem lá está voltar, nem sequer para advertir os incautos. É a palavra do Mestre. O que fazer pelos mortos? O 2º livro dos Macabeus (2Mac 12) responde: rezar por quem morreu, que é sinal de fé na ressurreição dos mortos. Dia dos finados – dia de oração em favor dos que partiram.

 

Como o grão de trigo
Santo Ireneu de Lião (c. 130-c. 208), bispo, teólogo e mártir
Contra as Heresias V, 2, 3 (a partir da trad. de SC 153, pp. 37ss. rev.)

Uma vez plantada na terra, a cepa dá fruto a seu tempo. Da mesma forma, o grão de trigo, depois de ter caído à terra e de se ter dissolvido nela (Jo 12, 24), ressurge multiplicado pelo Espírito de Deus que tudo mantém. Depois, graças a um trabalho competente, esses frutos tornam-se utilizáveis pelos homens; seguidamente, recebendo a Palavra de Deus, tornam-se Eucaristia, quer dizer, corpo e sangue de Cristo. Da mesma forma, os nossos corpos, alimentados por essa Eucaristia, após deitados à terra e nela dissolvidos, ressuscitarão a seu tempo quando o Verbo de Deus lhes conceder a graça da ressurreição «para glória de Deus Pai» (Fil 2, 11). Porque Ele obterá a imortalidade para o que é mortal e a incorruptibilidade para o que é corruptível (1Cor 15, 53), porque a força de Deus manifesta-se na fraqueza (2Cor 12, 9). Sendo assim, acautelar-nos-emos de nos inflarmos de orgulho – como se fosse de nós mesmos que obtivéssemos a vida – e de nos levantarmos contra Deus, mantendo pensamentos de ingratidão. Pelo contrário, sabendo por experiência que é exclusivamente através Dele […] que recebemos o dom de viver eternamente, nunca nos afastaremos dos pensamentos verazes sobre Deus e sobre nós mesmos. Conheceremos o poder de Deus e quantos benefícios Dele recebe o homem. Não nos equivocaremos a respeito da verdadeira concepção que é necessário ter de Deus e do homem. Aliás […], se Deus permitiu a nossa decomposição na terra, não será precisamente para que, sabendo tudo isso, estivéssemos doravante atentos a tudo, de forma a não menosprezarmos nem a nós mesmos, nem Deus? […] Se o cálice e o pão, pela Palavra de Deus, se tornam Eucaristia, como pretender que a carne é incapaz de receber a vida eterna?

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