XXX Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Frei Raniero Cantalamessa, OFMCap.

Tomado dentre os homens e constituído a favor dos homens   
Jr 31, 7-9; Hb 5, 1-6; Mc 10, 46-52

A passagem do Evangelho relata a cura do cego de Jericó, Bartimeu… Bartimeu é alguém que não deixa escapar a ocasião. Ouviu que Jesus passava, entendeu que era a oportunidade de sua vida e atuou com rapidez. A reação dos presentes («gritavam-lhe para que se calasse») põe em evidência a inconfessada pretensão dos «acomodados» de todos os tempos: que a miséria permaneça oculta, que não se mostre, que não perturbe a vista e os sonhos de quem está bem. O termo «cego» se carregou de tantos sentidos negativos que é justo reservá-lo, como se tende a fazer hoje, à cegueira moral da ignorância e da insensibilidade. Bartimeu não é cego; é só «invidente». Com o coração vê melhor que muitos outros de seu meio, porque tem a fé e alimenta a esperança. Mais ainda é esta visão interior da fé a que o ajuda a recuperar também a exterior das coisas: «Tua fé te salvou», diz-lhe Jesus. Detenho-me aqui na explicação do Evangelho porque me convida a desenvolver um tema presente na segunda leitura deste domingo, relativo à figura e ao papel do sacerdote. Do sacerdote se diz antes de tudo que é «tomado dentre os homens». Não é, portanto, um ser desarraigado ou caído do céu, mas um ser humano que tem detrás dele uma família e uma história como todos os outros. «Tomado dentre os homens» significa também que o sacerdote está feito da mesma massa que qualquer outra criatura humana: com os desejos, os afetos, as lutas, as dúvidas e as fraquezas de todos. A Escritura vê nisto um benefício para os demais homens, não um motivo de escândalo. Desta forma, de fato, estará mais preparada para ter compaixão, estando também ele revestido de fraqueza. Tomado dentre os homens, o sacerdote é também «constituído em favor dos homens», isto é, devolvido a eles, posto a seu serviço. Um serviço que afeta a dimensão mais profunda do homem, seu destino eterno. São Paulo resume o ministério sacerdotal com uma frase: «Que os homens nos tenham por servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus» (1Cor 4, 1). Isto não significa que o sacerdote se desinteresse pelas necessidades também humanas das pessoas, mas que se ocupa também destas com um espírito diferente ao dos sociólogos ou políticos. Freqüentemente, a paróquia é o ponto mais forte de agregação, inclusive social, na vida de um povo ou de um bairro. A que tracei é uma visão positiva da figura do sacerdote. Nem sempre, sabemos, é assim. De vez em quando as crônicas nos recordam que existe também outra realidade, feita de fraqueza e infidelidade… Dela a Igreja não pode fazer mais que pedir perdão. Mas há uma verdade que deve ser recordada para certo consolo das pessoas. Como homem, o sacerdote pode errar, mas os gestos que realiza como sacerdote, no altar ou no confessionário, não resultam por isso inválidos ou ineficazes. O povo não é privado da graça de Deus por causa da indignidade do sacerdote. É Cristo quem batiza, celebra, perdoa; ele [sacerdote] é só o instrumento. Gosto de recordar, a esse respeito, as palavras que pronunciou antes de morrer o «padre rural» de Bernanos: «Tudo é graça». Até a miséria de seu alcoolismo lhe parece graça, porque o torna mais misericordioso para com as pessoas. A Deus não importa tanto que seus representantes na terra sejam perfeitos, mas que sejam misericordiosos.

 

Evangelho segundo São Marcos 10, 46-52
Chegaram a Jericó. Quando ia a sair de Jericó com os seus discípulos e uma grande multidão, um mendigo cego, Bartimeu, o filho de Timeu, estava sentado à beira do caminho. E ouvindo dizer que se tratava de Jesus de Nazaré, começou a gritar e a dizer: «Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim!» Muitos repreendiam-no para o fazer calar, mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem misericórdia de mim!» Jesus parou e disse: «Chamai-o.» Chamaram o cego, dizendo-lhe: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te.» E ele, atirando fora a capa, deu um salto e veio ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe: «Que queres que te faça?» «Mestre, que eu veja!» respondeu o cego. Jesus disse-lhe: «Vai, a tua fé te salvou!» E logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.

Por Pe. Fernando José Cardoso
É uma alegria encontrarmos, neste 30º Domingo do tempo comum, com a simpática figura de Bartimeu. Ele era um cego que vivia na periferia de Jericó. Ele vivia à margem da sociedade de então, pois esta não contemplava pessoas que possuíam defeitos físicos. Para se sustentar ele devia mendigar, e estaria obrigado por toda a sua vida. Certo dia, ouviu dizer que Jesus de Nazaré estava para passar. Descobriu que era a chance de sua vida e pôs se a gritar o pobre Bartimeu. “Kyrie Eleison”, como nós dizíamos antigamente na missa em latim, “Senhor tem piedade de mim”, “filho de Davi, tem piedade de mim”. Pessoas como Bartimeu, se encontram nas sociedades de todos os tempos, e este Evangelho não foi escrito para nos divertir com um folclore ajeitado evangelista, mas é palavra de vida que, contém mensagem de salvação. Cegos como Bartimeu, ou piores do que ele existem muitos. Cegos são todos aqueles que possuem uma idéia falsa de Deus. Por exemplo, todos aqueles que atentem de uma forma espasmódica, arrancar mediante promessas e novenas alguma graça desesperadamente das mãos do Pai. Cego é aquele que é incapaz de contemplar na mão de Deus na beleza do firmamento, ou na beleza das obras da criação. Na beleza do céu, do mar tranqüilo, na beleza da flor, de um animal, ou mesmo de um ser humano. Cego, e pior do que Bartimeu, são todos aqueles que são incapazes de detectarem os rostos sofridos que todos os dias desfilam diante dos seus olhos distraídos. Cegos piores do que Bartimeu, são todos aqueles ou aquelas que olham apenas para si, mas são totalmente incapazes de olhar para o próximo e abrir suas vidas para os outros. Todos estes, e nós que somos muitos, necessitamos urgentemente de uma ação eficaz de Jesus; nós todos que possuímos estas cegueiras, e outras tantas mais, gostaríamos hoje de fazer nossa a prece de Bartimeu, “Kyrie Eleison”, “Senhor, tem piedade de mim. Se queres podes livrar-me da minha cegueira se queres Senhor, tens o poder de trazer-me um pouco mais de luz, podes fazer com que eu enxergue mais a fundo a realidade na qual eu estou mergulhado, e isto para poder agir melhor na minha vida, na vida dos meus irmãos, e assim construir alguma coisa de mais válido, mais sólido, na minha própria história e na vossa Igreja. Peçamos a Deus hoje com Bartimeu, que envie para nós o médico Jesus a curar as diversas cegueiras de que somos vítimas.

 

«Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho»
São Gregório de Nissa (c. 335-395), monge e bispo
A Vida de Moisés, II, 231-233, 251-253 (a partir da trad. de cf. SC Iter, pp. 265ss.)

[No Monte Sinai, Moisés disse ao Senhor: «Mostra-me a Tua glória». Deus respondeu-lhe: «Farei passar diante de ti toda a Minha bondade (…), mas tu não poderás ver a Minha face» (Ex 33, 18ss.).] Experimentar este desejo parece-me porvir de uma alma animada pelo amor à beleza essencial, uma alma a quem a esperança não pára de conduzir da beleza que já viu para aquela que está para além. […] Este pedido audacioso, que ultrapassa os limites do desejo, almeja pela beleza que está para além do espelho, do reflexo, para a ver face a face. A voz divina satisfaz o pedido, recusando-o simultaneamente […]: a magnanimidade de Deus concede-lhe a satisfação do desejo, mas, ao mesmo tempo, não lhe promete repouso nem saciedade. […] É nisto que consiste a verdadeira visão de Deus: aquele que para Ele eleva os olhos nunca mais cessa de O desejar. É por isso que Ele diz: «não poderás ver a Minha face». […] O Senhor que tinha respondido a Moisés exprime-se da mesma forma aos Seus discípulos, clarificando o sentido desta simbologia. Ele diz «Se alguém quiser vir após Mim» (Lc 9, 23) e não: «Se alguém quiser ir à Minha frente». Ao que Lhe faz um pedido a respeito da vida eterna, propõe o mesmo: «Vem e segue-Me» (Lc 18, 22). Ora, aquele que segue caminha virado para as costas daquele que o guia. Portanto, o ensinamento que Moisés recebe sobre a maneira pela qual é possível ver a Deus é este: ver a Deus é segui-Lo para onde Ele conduzir. […] Com efeito, aquele que não conhece o caminho não pode viajar em segurança se não seguir o guia. Este precede-o, mostrando-lhe o caminho; por isso, quem o segue não se desviará do caminho se se mantiver virado para as costas daquele que o conduz. Com efeito, se se deixar ir ao lado ou de frente para o guia tomará uma via diferente da indicada. Por isso, Deus diz àquele a quem conduz: «Não poderás ver a Minha face», o que significa: «não olhes de frente o teu guia», porque, se assim fizesses, correrias num sentido que Lhe é contrário. […] Como vês, é importante aprender a seguir a Deus: para aquele que assim O segue nenhuma contradição do mal se poderá opor ao seu caminhar.

 

Nos últimos domingos, fomos refletindo sobre alguns requisitos dados por Jesus Cristo a quem O quiser seguir, ou seja, ser seu discípulo. Neste domingo, encontramos a figura do cego Bartimeu que é um exemplo-tipo do verdadeiro discípulo. Ele está em boas condições para compreender tudo o que sucederá a Jesus em Jerusalém. Depois de uma purificação progressiva, está em condições de “ver” o mistério de Jesus como salvador e redentor que com a sua vida e a sua morte revela o Pai. Quais são as condições para ser um discípulo perfeito? Bartimeu pede esmola: é pobre, não se pode mexer, está sozinho à beira do caminho, é cego, vive nas trevas. No caminho, junto dele, passa Jesus e os seus discípulos e muita gente para Jerusalém a fim de celebrarem a Páscoa. Bartimeu é o exemplo do homem que necessita da salvação, tendo consciência das suas limitações; não é como um rico que pode usar das suas coisas e das pessoas em função dos seus interesses. Ele faz aquilo que aprendeu toda a vida: mendiga, pede que alguém lhe resolva a sua situação para poder continuar a viver. Quando Bartimeu se apercebe que Jesus se aproxima, começa a fazer a sua profissão de fé. Chama por Jesus com um dos títulos messiânicos: “Filho de Davi”. Para ele, Jesus não é uma pessoa qualquer, mas Aquele por quem todos ansiavam: o Messias, o Salvador. Ao entrar na cidade de Jerusalém, Jesus também será reconhecido como Filho de Davi. A este título, Bartimeu acrescenta: “tem piedade de mim”. A partir da fé, implora misericórdia. Como já tinha acontecido com as crianças, todos aqueles que rodeavam Jesus “repreendiam-no para que se calasse”, ou seja, todos estes ainda não tinham aberto os olhos da fé como Bartimeu estava fazendo naquele momento. Encorajado pela fé, “gritava cada vez mais” o seu pedido. A resposta de Bartimeu ao chamamento de Jesus é imediata: a resposta à vocação cristã tem de ser pronta. Em seguida, tem uma atitude de discípulo, quando reconhece Jesus como mestre e lhe pede o que nenhum outro, poderoso ou rico, lhe podia dar: ver. Quando Jesus o cura, salienta que foi a sua fé que lhe abriu os olhos, o que lhe permitirá compreender o mistério pascal em Jerusalém e assim salvar-se. Mas, para isto é necessário que o discípulo siga Jesus até ao fim, como nos diz o evangelista São Marcos: “Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho”. O episódio que é narrado no evangelho deste domingo é anunciado profeticamente na primeira leitura. O Senhor é o libertador de todos aqueles que se encontram em necessidade e que, por isso, são vulneráveis: o Senhor reúne cegos, coxos, mulheres que vão ser mães e que simbolizam a dor e a fecundidade, ou seja, são o símbolo do futuro e da esperança; todos estes caminham com dificuldade, mas pela ação do Senhor, todos podem avançar, como nos anuncia o Profeta Jeremias, “por um caminho plano em que não tropecem”. Tudo isto se concretiza em Jesus. Ele dirige-se para Jerusalém onde experimentará a dor e a morte, mas será o lugar onde se manifestará a redenção. Jesus fará, com a sua vida, a experiência do homem. Quem quiser seguir Jesus Cristo deve reconhecer a dor e a morte. Neste percurso para Jerusalém, Jesus para e interessa-se por uma situação de dor, ou seja, não é indiferente a quem tem necessidade e está vulnerável (“Chamai-o”, “Que queres que Eu te faça?”). Assim, ensina aos que O seguem que não se pode passar indiferente diante destas situações. Finalmente, mostra que a verdadeira libertação, aquela que dá sentido à vida, é a fé: “a tua fé te salvou”. Por isso, Jesus é o modelo para todos aqueles que têm a responsabilidade de conduzir as comunidades, para as pessoas que querem ser seus discípulos, os quais têm de saber orientar, dizer uma palavra de esperança e fazer sempre o gesto oportuno.

 

TRIGÉSIMO DOMINGO COMUM
Mc 10, 46-52
“E seguia Jesus pelo caminho”

Estamos no fim da caminhada central de Jesus, desde Cesaréia de Felipe até a sua morte e ressurreição em Jerusalém. No texto de hoje, Marcos encerra o bloco todo da caminhada com o último milagre que ele relata de Jesus – a cura do cego Bartimeu. O texto começa com um senso de urgência – chegaram a Jericó e logo saíram. Parece que têm pressa para caminhar até Jerusalém. E lá está o cego Bartimeu. Onde? Sentado à beira do caminho! Enquanto Jesus está “a caminho” com os seus discípulos, o cego está à beira do caminho! Simboliza todos os que não conseguem caminhar no discipulado, mas estão parados, à beira do seguimento de Jesus. Mas, esse texto está bem carregado de sentido. Logo que Bartimeu ouve que é Jesus que passa, ele grita fortemente! “Filho de Davi, tem piedade de mim!” É de novo um dos temas centrais da Bíblia – o grito do pobre e sofrido! Desde o grito do sangue de Abel, passando pelo grito do Êxodo, de Jó, dos pobres nos Salmos, de Bartimeu, de Jesus na Cruz, dos martirizados do Apocalipse, o tema do grito do sofrido perpassa toda a Escritura, com a garantia de que Deus ouve esse grito. Mas, a reação dos transeuntes é típica – mandam que Bartimeu se cale! O poder dominante sempre quer abafar o grito do excluído! E isso não mudou até os dias de hoje! Até nas Igrejas há quem não queira ouvir o grito, e que faz tudo para abafar qualquer iniciativa popular. Mas, Deus ouve! Com um fino toque de ironia, o texto mostra como, por causa da atitude de Jesus, os mesmos que o mandaram calar agora têm que convidá-lo para falar com Jesus. Mas, para isso, Bartimeu tem que lançar fora o manto – a única coisa que ele possuía, a sua única segurança. Como os primeiros discípulos no lago (Mc 1, 18.20), ele aprende que não é possível seguir Jesus sem deixar algo, sem arriscar a segurança humana para experimentar a mão de Deus. Mas, Jesus não parte imediatamente para a ação. Ele respeita a liberdade do cego e pergunta “o que quer que faça por você?” (v. 51). Pois, Jesus não obriga ninguém a se libertar – há quem prefira ficar sentado à beira do caminho, na sua comodidade e não opte pela libertação. Mas, Bartimeu quer ver de novo – diferente do cego de Jo 9, ele via anteriormente e tinha perdido a visão. Aqui ele simboliza a comunidade marcana pelo ano 70, que tinha perdido a clareza da fé, e que precisava o toque de Jesus para que voltasse a ver claramente. Curado, Bartimeu recebe licença para ir, para seguir a sua vida. Mas, ele faz uma outra opção: “no mesmo instante o cego começou a ver de novo e seguia Jesus pelo caminho” (v. 52). Ele usava para Jesus um título não muito adequado “filho de Davi”, pois em Mc 12, 35-37, Jesus fez muitas restrições a este título messiânico, mas ele tem a prática certa – segue Jesus pelo caminho. Aqui Marcos faz contraste com a figura de Pedro, que tinha o título certo “Tu és o Messias” (Mc 8, 29), mas a prática errada! Não quis que Jesus caminhasse para a morte! Assim, em Marcos, o modelo de discípulo não é Pedro, mas Bartimeu! Pois, mais importante do que os títulos e expressões teológicas, sem negar a sua importância relativa, é a prática do seguimento de Jesus! Um alerta para todos nós, para que a nossa prática seja coerente com a nossa fé, no seguimento de Jesus, em favor do Reino de Deus.

 

30º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B
Padre Wagner Augusto Portugal, Vigário Judicial da Diocese da Campanha (MG).
“Exulte o coração dos que buscam a Deus. Sim, buscai o Senhor e sua força, procurai sem cessar a sua face”(Sl 104, 3s).

Meus irmãos e minhas irmãs,
Vamos caminhando para o fim do tempo comum. Mas é exatamente no tempo comum que a sagrada liturgia nos coloca diante de temas que fazem parte do chamado tempo cotidiano, do tempo das coisas comuns e das coisas simples da vida dos homens e das mulheres. A Primeira Leitura(cf. Jr. 31,7-9) nos fala da restauração da vista dos cegos, no tempo messiânico. Trata-se da profecia de salvação para Israel e Samaria, deportados em 721aC, interpretada, mais tarde, como válida também para Judá, em exílio desde 586 aC(cf. Jr. 3,18). Deus reunirá as tribos dispersas e as consolará. Portanto, a cura dos cegos e coxos é uma imagem significativamente preferida para descrever o tempo messiânico: uma cidade onde não mais haverá cegos e coxos mendigando é uma verdadeira utopia(cf. Is 35). O povo responde à comiseração de Deus cantando: “Javé salva”(cf. Jr. 31,7).

Meus caros irmãos,
Na liturgia deste domingo somos convidados, uma vez mais, a refletir sobre a nossa salvação individual e a salvação da humanidade. O episódio do Evangelho de hoje(cf. Mc. 10,46-52) é a cura do cego, mais que fato acontecido, é um grande símbolo que salta aos nossos sentidos. O teatro da salvação é a cidade de Jericó, a cidade mais velha do mundo, representa a humanidade que caminha para a salvação, que aspira a salvação, que necessita da salvação. Bartimeu, o cego, representa cada ser vivente, cada um de nós, homens e mulheres. Bartimeu é cada humano que não consegue caminhar sozinho. A cegueira o impede de alcançar uma meta, porque precisa de uma pessoa para se apoiar para se locomover. Bartimeu não representa somente os cegos físicos, mas, sobretudo, a cegueira espiritual. Bartimeu representa aqueles que, na antevéspera da paixão, não poderão caminhar com Jesus para a paixão em Jerusalém. Jesus, precisamente, veio para salvar esta categoria de pessoas, os cegos físicos e os cegos espirituais, a grande maioria da população que não abre sua visão para a salvação que é o próprio Redentor da humanidade.

Meus queridos irmãos,
Jesus hoje está na cidade de Jericó, bem perto de Jerusalém. A palavra Jesus significa “Deus é salvação”. Jesus tem a missão de introduzir o povo na Terra Prometida. Jesus assume o comando do povo para dar-lhes uma pátria eterna, a Terra Prometida definitiva. A subida de Jerusalém é decisiva para Jesus e para a humanidade. Jericó representa a velha humanidade, o velho mundo. O cego se chama Bartimeu. Porque Bartimeu? Porque a salvação ela é para todos, mas cada pessoa, cada fiel tem que cuidar da sua própria salvação. Bartimeu nos ensinou três virtudes básicas para se conseguir a salvação: Em primeiro lugar a HUMILDADE. Ao exclamar: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!”(cf. Mc 10, 47) Até e principalmente para nos salvarmos é necessário ter humildade, fazer-se pequeno, fazer-se pobre, fazer-se servo simples, fazer-se desprendido. Junto da piedade requerida pelo cego Bartimeu ele teve a grandeza de anunciar a realeza de Cristo chamando-o de “meu mestre”. Humildade absoluta de reconhecer o Salvador como mestre como aquele que abre caminhos e nos coloca nos rumos do céu, da vida eterna. Em segundo lugar temos que ressaltar a FÉ EM JESUS, o REDENTOR. Bartimeu reconheceu em Jesus o Redentor, aquele que nos leva para Deus, que morreu na Cruz pela salvação de nossos pecados. Bartimeu reconheceu em Jesus sua missão de Messias. Em terceiro lugar curado da cegueira Bartimeu deu um pulo e ABANDONOU O MANTO, ou seja, deixou tudo que era velho e foi na nova vida dar testemunho de Jesus e colocar em Jesus a sua única segurança. Tudo para que nós tenhamos consciência de que é necessário abandonar o homem velho, abandonar os bens temporais que oprimem e nos escraviza.

Meus irmãos caríssimos,
A segunda leitura(cf. Hb 5,1-6) situa o ser sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo na sua solidariedade com os homens e com Deus ao mesmo tempo. Participando de nossa condição, santifica-a. Jesus é o pontífice por excelência. Não Jesus mesmo, mas também nenhuma instituição humana, lhe conferiu este poder. Ele pertence a uma linhagem sacerdotal que supera até a de Aarão, por ser primeira e de origem desconhecida, misteriosa: a linhagem de Melquisedec.

Queridos fiéis,
Dentro do Ano da Fé, proposto pelo Papa Bento XVI, a nossa consideração até a solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo de 2014 devemos nos conscientizar de que não há, no mundo secularizado como o nosso, espaço para uma fé anônima, formalista e hereditária, uma fé oriunda de uma pastoral de manutenção.
Urge uma fé fundada no aprofundamento da Palavra de Deus, na opção pelo que professamos no símbolo de nossa fé católica e apostólica e uma fé abraçada conscientemente, inserida como discípulos-missionários. Nesse sentido é salutar olharmos para os sacramentos da iniciação cristã, de um novo modo de considerar a evangelização e os sacramentos, não apenas como numéricos, sem vivência eclesial. É tempo de uma renovada opção catequética, formativa, de introduzir nossos batizados nos mistérios da nossa fé, com um catecumenato renovado, buscando um verdadeiro itinerário de uma fé viva.

Irmãos e irmãs,
Aprendamos com Jesus! Jesus escuta o pobre, o cego à beira do caminho. Para curá-lo pede a colaboração de seus discípulos. Encontra os que o animam: “Coragem! Ele te chama. Levanta-te”.(cf. Mc 10, 49) Mas para aproximar-se de Jesus é sempre necessário deixar algo, nem que seja somente o manto. Importante ainda que se queira ver novamente. Então, basta confiar e corresponder: segui-lo pelo caminho, deixando tudo para trás. Nós cristãos já fomos o cego Bartimeu à beira do caminho. Cristo nos chamou e nos fez ver. Com alegria, pois, o seguiremos no seu caminho, que nos leva para o Céu. Amém!

 

O salto da fé
Não deixe escapar a oportunidade de acreditar
Dom Alberto Taveira Corrêa, Arcebispo de Belém – PA

Eram os primeiros anos de sacerdócio, em minha primeira Paróquia, numa das mais gratificantes experiências do exercício do ministério, a atenção aos doentes, regularmente visitados, para o Sacramento da Penitência, a Unção dos enfermos e a Sagrada Comunhão, quando recebi uma das lições mais expressivas. Penso nos meus sacerdotes hoje, muitos deles dedicados semanalmente a tais visitas, testemunhas de milagres, quando Deus lhes concede muito mais do que levam aos verdadeiros santuários, que são os leitos dos que se fazem para-raios que, com sua oferta e oração contínua, sustentam silenciosamente a Igreja e os irmãos.

Pois bem, minha mestra espiritual, naquela ocasião, foi uma cega de nascença, no alto de seus oitenta e nove anos. Lembro-me de seu rosto curtido, com as marcas da ascendência escrava, da qual nunca se envergonhou. Recebidos os Sacramentos, diante das pessoas que comigo se encontravam, enquanto “saía um cafezinho novo”, pontificou diante do padre novo: “Agradeço a Deus por ser cega! O senhor não acha que a maior parte dos pecados começa com a vista? Ora, se não enxergo, posso pecar menos!” Fazia poucos anos em que tinha me debruçado sobre a afirmação do Senhor Jesus: “Se teu olho te leva à queda, arranca-o e joga fora. É melhor entrares na vida tendo um olho só do que, com os dois, seres lançado ao fogo do inferno” (Mt 18,9).

Precisei de uma pessoa que nunca tinha lido uma letra para entender melhor a importância de viver sem pecado, coragem para resistir às tentações e perseverar no bem. É que aquela senhora enxergava mais do que todos, pois via com o coração. Seu horizonte era muito mais amplo e suas muitas lições permaneceram em seus familiares e frutificaram na Comunidade em que vivia.

“Cheios de grande admiração, diziam: “Tudo ele tem feito bem. Faz os surdos ouvirem e os mudos falarem” (Mc 7,37). O contato de Jesus com as pessoas as deixa sempre marcadas positivamente. Ninguém passa em vão ao seu lado. Em Jericó (Mc 10,46-52), depois de uma escola de vida, durante uma viagem, na qual formava seus amigos escolhidos para a missão de levar a Boa Nova a todos, indica-lhes o modelo do discípulo justamente em Bartimeu, cego, mendigo sentado à beira do caminho e morador de uma cidade de má fama! Mais do que os alunos aplicados da escola do caminho, o rejeitado por todos, sobre o qual muitos teriam perguntado sobre eventuais culpas (Cf. Jo 9,2), é apresentado pelo Evangelho como modelo de discípulo.

Bartimeu é daquelas pessoas que não deixam escapar uma boa oportunidade (Cf. Raniero Cantalamessa, Gettate le reti, Anno B, PIEMME, 2004, Pág. 314). Ouviu dizer que Jesus, o nazareno, estava passando e agiu com prontidão, gritando no meio do povo, mesmo quando a “turma do deixa disso” quis calar sua boca. Era um mendigo da luz, queria enxergar! Como tantos homens e mulheres, jovens ou adultos de nosso tempo que pedem a esmola da luz verdadeira, querem conhecer a verdade, quem sabe às apalpadelas. Faz pensar nas muitas situações em que nosso tempo quer calar a voz da fé, para que se torne apenas um fato privado, com a pretensão de que desapareçam todos os sinais externos das convicções religiosas que sempre geraram cultura e valores.

Bartimeu gritou em voz bem alta a sua fé, para dizer a todos que Jesus é o Messias prometido. Há gritos entalados, e vi muitos deles nas multidões do Círio de Nazaré de 2012, que querem chorar e espernear pelos valores do Evangelho e da dignidade das pessoas humanas. Há gente que quer dar o salto da fé, para sair do meio da multidão! Jesus pretende, através dos cristãos de hoje, aproximar-se de cada uma delas, para perguntar “o que queres que eu te faça?”. Para tanto, faz-se necessário dar um “trato” de atenção e carinho a todos os que estão afastados ou assim se sentem. Lá na margem dos lagos da vida, ou quem sabe, lá na correnteza violenta dos rios da existência, ou, quem sabe, na escuridão das vielas em que se escondem, há pessoas pedindo a esmola da verdade.

Ressoe de novo a palavra do Senhor: “Aclamai a Jacó alegremente, cantai hinos à primeira das nações! Soltai a voz! Cantai! Dizei: Senhor, salva teu povo, o que restava de Israel! Pois vou trazê-los de volta do país do norte, dos extremos da terra hei de reuni-los. Entre eles, cego e aleijado, mulher grávida e parturiente. Em grande multidão voltam para cá. Chegam chorando, suplicantes eu os traslado. Faço-os caminhar entre torrentes de água, por caminhos planos, onde não tropeçam; eu sou pai para Israel, Efraim é meu filho querido” (Jr 31,7-9). Norte, traslado, reunião de multidões, cego e aleijado, mulher grávida e parturiente, torrentes de água, caminhos onde as pessoas não tropeçam… Qualquer semelhança com o que vivemos no Círio, não é coincidência! É Providência!

Cabe-nos encontrar as formas adequadas para dizer “Coragem, levanta-te, Jesus te chama” (Mc 10,49). A cura das pessoas e das multidões virá pelo encontro com o Senhor que é Deus e homem. A Igreja, servidora e colaboradora da verdade, renove suas disposições para anunciar integralmente o Evangelho, no ano da Fé. Este será uma ocasião propícia a fim de que todos os fiéis compreendam mais profundamente que o fundamento da fé cristã é o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo.

Fundamentada no encontro com Jesus Cristo ressuscitado, a fé poderá ser redescoberta na sua integridade e em todo o seu esplendor. Também nos nossos dias a fé é um dom que se deve redescobrir, cultivar e testemunhar para que o Senhor conceda a cada um de nós vivermos a beleza e a alegria de sermos cristãos (Cf. Bento XVI, Carta Enc. Deus caritas est, 25 de dezembro de 2005, n. 1 e Homilia na Festa do Batismo do Senhor, 10 de janeiro 2010).

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