XXIX Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Frei Raniero Cantalamessa, OFMCap.

Os grandes exercem o poder 
Isaías 53, 2a. 3a. 10-11; Hebreus 4, 14-16; Marcos 10, 35-45

«Jesus os chamou e disse: “Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam. Mas, entre vós, não deve ser assim; quem quiser ser grande, seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos”.» Depois daquele sobre as riquezas, o Evangelho deste domingo nos dá a conhecer o juízo de Cristo sobre outro dos grandes ídolos do mundo: o poder. Tampouco o poder é intrinsecamente mal, como não o é o dinheiro. Deus define a si mesmo «o onipotente» e a Escritura diz que «o poder pertence a Deus» (Sl 62, 12). Já que o homem havia abusado do poder que lhe foi concedido, transformando-o em domínio do mais forte e em opressão do fraco, o que Deus fez? Para dar-nos exemplo, ele se despojou de sua onipotência; de «onipotente» se fez «impotente». «Despojou-se de si mesmo, tomando a condição de servo» (Fl 2, 7). Transformou o poder em serviço. A primeira leitura do dia contém uma descrição profética deste salvador «impotente»: «Cresceu diante dele como um pobre rebento, enraizado numa terra árida. Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos». Revela-se assim um novo poder, o da cruz: «Escolheu Deus o menor do mundo para confundir os sábios» (1Cor 1, 24-27). Maria, no Magnificat, canta antecipadamente esta revolução silenciosa obrada pela vinda de Cristo: «Derrubou do trono os poderosos» (Lc 1, 52). Quem é posto sob acusação por esta denúncia do poder? Só os tiranos e ditadores? Oxalá fosse assim! Tratar-se-ia, neste caso, de exceções. Ao contrário, isso afeta todos nós. O poder tem infinitas ramificações, enfia-se por todas as partes, como certa areia do Saara quando sopra o vento siroco. Até na Igreja. O problema do poder não se propõe, portanto, só no mundo político. Se ficamos aí, não fazemos mais do que unir-nos ao grupo dos que estão sempre dispostos a dar golpes, por suas próprias culpas… no peito dos demais. É fácil denunciar culpas coletivas, ou do passado; mais difícil são as pessoais e do presente. Maria diz que Deus «dispersou os soberbos de coração; derrubou do trono os poderosos» (Lc 1, 51 s). Ela assinala implicitamente um âmbito preciso no qual se deve começar a combater a «vontade de poder»: o do próprio coração. Nossa mente («os pensamentos do coração») pode converter-se em uma espécie de trono no qual nos sentamos para ditar leis e fulminar quem não se submete. Somos, ao menos nos desejos se não nos fatos, os «poderosos nos tronos». Na própria família é possível, lamentavelmente, que se manifeste nossa vontade inata de domínio e atropelo, causando contínuos sofrimentos a quem é vítima disso, freqüentemente (não sempre) a mulher. O que o Evangelho opõe ao poder? O serviço! Um poder para os outros, não sobre os outros. O poder confere autoridade [no sentido de domínio, Ndt], mas o serviço confere algo mais, autoridade que significa respeito, estima, uma ascendência verdadeira sobre os demais. Ao poder o Evangelho opõe também a não-violência, isto é, um poder de outro tipo, moral, não físico. Jesus dizia que teria podido pedir ao Pai doze legiões de anjos para derrotar os inimigos que estavam a ponto de crucificá-lo (Mt 26, 53), mas preferiu rogar por eles. E foi assim que conseguiu sua vitória. O serviço não se expressa, contudo, sempre e só com o silêncio e a submissão ao poder. Às vezes, pode impulsionar a levantar valentemente a voz contra o poder e contra seus abusos. Assim fez Jesus. Ele experimentou em sua vida o abuso do poder político e religioso da época. Por isso, é próximo a todos aqueles que, em qualquer ambiente (na família, na comunidade, na sociedade civil), passam pela experiência de um poder mau e tirânico. Com sua ajuda é possível, como Ele fez, não «sucumbir ao mal», mais ainda, vencer «o mal com o bem» (Rm 12, 21).

 

Evangelho segundo São Marcos 10, 35-45
Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se dele e disseram: «Mestre, queremos que nos faças o que te pedimos.» Disse-lhes: «Que quereis que vos faça?» Eles disseram: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda.» Jesus respondeu: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu bebo e receber o batismo com que Eu sou batizado?» Eles disseram: «Podemos, sim.» Jesus disse-lhes: «Bebereis o cálice que Eu bebo e sereis batizados com o batismo com que Eu sou batizado; mas o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não pertence a mim concedê-lo: é daqueles para quem está reservado.» Os outros dez, tendo ouvido isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João. Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos. Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.»

Por Pe. Fernando José Cardoso
No domingo passado contemplávamos um inimigo do Reino de Deus e da Salvação eterna: o dinheiro. Hoje a Palavra de Deus nos apresenta um sócio aliado seu: o poder. O poder e o dinheiro caminham sempre de mãos juntas, com dinheiro se conquista poder e através do poder se busca com mais facilidade o dinheiro. Na semana passada era o jovem rico que abandonava a chance de sua existência diante de Deus por causa da escravidão do dinheiro. Hoje são dois discípulos, íntimos de Jesus que se transformam em pessoas arrogantes, de desejos desmedidos, são os dois irmãos Tiago e João. Desejam nada menos que os melhores lugares no reino de Jesus e isto depois de Jesus ter pronunciado palavras graves e severas a respeito do futuro que o esperava, sua paixão e morte na cruz: “Queremos que faças o que pediremos”, Jesus lhes pergunta: “O quê?” A resposta vem pronta, mas por detrás dos dois irmãos estava a mãe ambiciosa ela também: “Queremos os melhores lugares, queremos estar um à direita e outro a esquerda, no teu reino”. A resposta de Jesus mais uma vez é pronta: “Não sabeis o que pedis, a final acabo de falar em paixão, podeis eventualmente, beber o cálice que Eu estou para beber? Podeis vós também ser submergidos no batismo com que devo ser submergido Eu?” Resposta inconsciente e superficial da boca dos dois. “Podemos”. Jesus, no entanto não se dá por vencido. É verdade uma vez convertidos os dois irmãos beberão o cálice de Cristo, cada um a seu modo. Tiago foi o primeiro dos doze a ser decapitado, por ordem de Herodes Agripa I. “Quanto a sentar-se a minha direita ou a minha esquerda, este é um aspecto que compete apenas a Deus, nós todos devemos apenas abandonar-nos nas mãos de sua providência”. Os dez se indignam, não contra o pedido imoderado dos dois, mas com a concorrência desleal que estavam fazendo. É então que Jesus mais uma vez os chama a todos e lhes dá a lição que nós nunca ouviremos demasiadamente. Neste mundo existe um carreirismo, quem não conhece o carreirismo das nossas sociedades, na vida, na política, na profissão? Queremos sobressair a todos, ganhar o mais possível, estar no alto, brilhar sob todos os aspectos. Mas aquele que é o Senhor do Universo afirma que não veio indicar este caminho. O Senhor do Universo e o Rei dos Reis veio se sentar no último lugar e nos convida a fazer-lhe companhia, nós também no último lugar. Procure cada um hoje sentar-se no último lugar, procure o último lugar ao longo de sua existência e verá com os próprios olhos e fará a experiência própria de que este é o lugar de Cristo, este é o lugar fecundo onde podemos frutificar para Deus.

 

«Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo»
São Tomás de Aquino (1225-1274), teólogo dominicano, Doutor da Igreja
Conferência sobre o Credo, 6 (a partir da trad. do breviário francês)

Que necessidade havia de que o Filho de Deus sofresse por nós? Uma grande necessidade, que podemos resumir em dois pontos: necessidade de remediar os nossos pecados e necessidade de dar o exemplo para a nossa conduta. […] A Paixão de Cristo dá-nos um modelo válido para toda a vida. […] Se procuras um exemplo de caridade: «Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13). […] Se buscas paciência, é na cruz que a encontramos no grau máximo: […] Na cruz Cristo sofreu grandes tormentos com paciência porque «ao ser insultado […] não ameaçava» (1Pe 2, 23), «não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro» (Is 53,7). […] «Corramos com perseverança a prova que nos é proposta, tendo os olhos postos em Jesus, autor e consumador da fé. Ele, renunciando à alegria que lhe fora proposta, sofreu a cruz, desprezando a ignomínia» (Heb 12, 1-2). Se procuras um exemplo de humildade, olha para o Crucificado. Porque Deus quis ser julgado por Pôncio Pilatos e morrer. […] Se procuras um exemplo de obediência, basta que sigas Aquele que se fez obediente ao Pai «até à morte» (Fil 2, 8). «De fato, tal como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, assim também pela obediência de um só todos se hão-de tornar justos» (Rm 5, 19). Se buscas um exemplo de desapego dos bens terrenos, simplesmente segue Aquele que é o «Rei dos reis e Senhor dos senhores», «em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento» (1Tim 6, 15; Col 2, 3); Ele está nu na cruz, tornado motivo de escárnio, coberto de escarros, maltratado, coroado de espinhos e, por fim, dessedentado com fel vinagre.

 

O desafio de viver o amor como serviço
Padre Fabricio

Existem hoje no mundo diversas iniciativas de preservação, pessoas que gastam seu tempo, dedicam sua vida, a preservação de animais que acabaram entrando em extinção. Movimentos sérios, pessoas que se dedicam a preservação de monumentos históricos, preocupados em não deixar que os animais e coisas se percam, para não correr o risco de que nossos filhos e netos não os conheçam, pois não foram preservados. É interessante que neste vasto grupo de preservação, não se encontrem grupos que se preocupem em preservar a raça de animal mais importante. Faltam grupos que dêem suas forças para preservar o animal “homem”, pois corre-se o risco de nossos filhos não encontrarem mais, exemplos de verdadeiros homem e mulheres, pessoas de caráter, com princípios religiosos. Corre-se o risco de nossos filhos não terem modelo para ser copiados no futuro. O que nos falta não é uma instituição que declare lutar para a preservação do homem, ela já existe, tem o nome de Igreja católica Apostólica Romana. De que vai adiantar, preservar animais e praças, se não for preservados homens para passear nessa praça? O evangelho nos mostra o serviço, que em caráter de preservação, mas como muitas coisas estão em extinção, as palavras estão em extinção. A compreensão das palavras estão em extinção, quando falamos em serviço, nós pensamos em dinheiro, em emprego. Em tudo que Jesus fazia era um serviço de amor ao próximo, na correção, na água transformada em vinho, tudo que Jesus trabalhou era para a compreensão de serviço em amor. Mas hoje o que é amor? Amor hoje é prazer, eu faço porque me faz bem, porque gosto. A dimensão de prestação de serviço, na leitura vamos conhecendo a pessoa de Jesus. Esse servo sofredor, que sabe servir o próximo, não porque fez faculdade, mas porque ama e aprendeu a ter compaixão de mim e de você. Um homem, quando não entende a dimensão de serviço que é amor, ele tira proveito dos outros. Um juventude não conhece o serviço, porque entendeu que amar é ter prazer, é tirar vantagem. E fica pedindo provas de amor. Tem muitos casamentos se acabando porque não entendeu que amor é serviço e não tirar vantagem do outro. O evangelho nos mostra uma contradição, chamamos a Jesus de mestre e queremos que ele faça o que queremos. Não é atual o desgaste de amor como serviço. Nós queremos ser servidos e o evangelho termina com exemplo lindo, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para ser servido. Nós chegamos na capela e dizemos: ‘Jesus tu és rei, olha a minha vida está difícil, e eu quero que o Senhor faça isso por mim, se não fizer eu mudo de religião.’ As pessoas que acham que amor é só dizer sim, e quando Deus por amor nos nega algo, achamos ruim. Queremos encontrar um Deus que faça tudo como eu quero. Deus sabe dizer não porque ama e não porque é ruim. Deus sabe servir seus filhos quando diz não, como com Tiago e João, esses lugares estão reservado para quem o Pai preparou. Nós podemos aproximar do Senhor para aprender o serviço e não para mandar no Senhor. Tem muitos que não servem aqueles que amam. Se no seu relacionamento não tem serviços, desconfie da maturidade do amor. A vida de Jesus foi serviço. A vida do cristão é imitar a Cristo. Não existe cristão desempregado, pois onde o cristão está, há um serviço a ser feito para quem conhece e para não conhece. Quem quiser ser grande seja servo, é a medida do amor na vida cristã. Para quem se dispõe, o serviço acontece onde eu estou. Serviço que presto para meu esposo(a), filhos. O evangelho de hoje quer fazer eco a preservação do homem. Na luta de ser maior que o outro, Jesus nos ensina o contrário, por isso nossa vida é contrária ao mundo. Deus escolhe servir sempre, mas nós escolhemos a posição cômoda de nos servimos uns dos outros e de tirar proveito do Senhor. Os relacionamentos hoje não tem estabilidade, porque quando chega a hora de servir, as pessoas que estão acostumadas com o definição de amor prazer, mudam de parceiro. O entendimento de que serviço é amor, qualifica a vida do cristão.

 

Em cada domingo encontramos “novidades” que nos ajudam a aprofundar a nossa caminhada de fé. No passado domingo, vimos como era importante a sabedoria para um bom discernimento e aprendíamos que o desprendimento das riquezas era um requisito para seguir Jesus. Hoje, temos dois pontos a ter em conta: seguir Jesus é servir; seguir Jesus é descobrir, na sua entrega até a morte de cruz, o seu caráter redentor, ou seja, libertador da vida; uma vida que devemos aprender a seguir. Encontramo-nos diante da nossa capacidade contemplativa do mistério de Deus e da nossa capacidade de compreender o convite ao serviço que valoriza e destaca quem se serve e não se procura a própria glória. O evangelista apresenta-nos o pedido de Tiago e de João: “Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda”. Os discípulos ainda não tinham compreendido a mensagem do Mestre e o significado da sua paixão. Jesus já tinha feito três anúncios da sua paixão e os discípulos nada tinham compreendido. Todas as vezes que fez o anúncio da sua paixão, teve que fazer uma catequese para que, pouco a pouco, os discípulos fossem interiorizando o significado da sua morte na cruz e assimilando que a sua vida aparentemente seria um fracasso. Todavia, parece que Jesus não conseguiu passar a mensagem, porque Tiago e João não só davam valor ao êxito humano como também queriam participar desse êxito, como protagonistas. Mais uma vez, Jesus inicia uma catequese e fala do cálice e do batismo que exprimem e simbolizam a desgraça e a morte. A ânsia de ter êxito está muito enraizada no homem da sociedade atual que quase não admite o fracasso e a dor. Mas isto não se pode separar da fé em Jesus Cristo. Hoje, é um dos aspectos mais delicados e mais urgentes a pregar, apesar de vivermos numa sociedade que evita a dor a qualquer preço. O evangelista Marcos apresenta-nos duas reações: por um lado, o desejo de Tiago e de João de serem protagonistas e de serem reconhecidos pelo mundo; por outro, os sentimentos de indignação dos outros discípulos. Tantas vezes comentamos os êxitos e os protagonismos de muitas pessoas, caindo algumas vezes na tentação de acrescentar que não foi por mérito próprio! Facilmente pensamos assim dos políticos, dos empresários, de alguns movimentos ou personalidades eclesiais e de algumas organizações. Jesus propõe o contrário do que habitualmente se entende por mandar que é equivalente a dominar, ou seja, submeter o outro. Ele afirma como condição para segui-lo a atitude de serviço. É importante, então, saber qual é o sentido da palavra serviço na boca de Jesus, porque tem sempre em conta um fim: para dar a vida pela redenção de todos. Servir é ser escravo, é rebaixar-se, não para submeter, mas para libertar aqueles que encontras no caminho da tua vida. Servir é dar a vida, é dar sentido à vida e abrir o sentido da vida a todos àqueles que servem. Assim, é conveniente refletir e saborear com o coração cada uma das palavras que encontramos na primeira leitura: “Aprouve o Senhor esmagar o seu servo pelo sofrimento”, “se oferecer a sua vida como sacrifico de expiação, terá uma descendência duradoira… a obra do Senhor prosperará nas suas mãos”, “O Justo, meu Servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniquidades”. Quem quer ser discípulo de Jesus tem de deixar que estas palavras entrem e permaneçam no seu íntimo. O serviço ao qual Deus chama os discípulos tem a ver com a qualidade daqueles que se deixaram impressionar pelas palavras que a Carta aos Hebreus nos apresenta na segunda leitura: “Vamos, portanto, cheios de confiança ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e obtermos a graça de um auxílio oportuno”.

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