São Lucas, Evangelista – 18 de Outubro

Dia dos Médicos e das Médicas

São Lucas é uma das figuras mais simpáticas do Cristianismo primitivo. Homem de posição e qualidades, de formação literária, de profundo sentido artístico e divino, entrega-se plenamente ao Cristianismo logo que toma conhecimento dele na sua cidade, Antioquia, a grande metrópole romana do Oriente; subjuga-o a grandeza de São Paulo e converte-se no mais fiel e incondicional dos seus discípulos. Toda a sua ciência médica e literária põe-na à disposição do grande Apóstolo, entrega-lhe a sua pessoa e segue-o para toda a parte, como a sombra ao sol. Humilde e devoto, pode dizer-se dele que foi um desses homens admiráveis que brilham como estrelas de segunda ordem, ou melhor, que renunciam a brilhar por si mesmos para se entregarem a outros de mais altura, oferecendo assim o mérito da modéstia e uma ação mais fecunda, ainda que menos pessoal.
Assim é São Lucas. Teve a sorte invejável de encontrar-se no caminho da sua vida com um mestre espiritual incomparável. Entregou-se a ele sem reservas e com fé cega, na prosperidade e na adversidade. São Lucas deixou-nos como escritor duas obras divinas: o terceiro Evangelho canônico e a história dos primeiros dias cristãos e das missões de São Paulo. Em ambos os livros se mostra São Lucas o discípulo e admirador incondicional de São Paulo. Olha para Cristo com os olhos de São Paulo, “o seu iluminador”, como lhe chama Tertuliano. A história primeira do Cristianismo centra-a na figura de São Paulo. São Lucas identificou-se com a alma do seu mestre. Por isso o seu Evangelho pode chamar-se “o Evangelho de São Paulo”.
A mensagem divina de Jesus, vê-a São Lucas através do prisma de São Paulo, que lhe dá à inteligência profunda do mistério de Cristo. A filantropia (amizade para com os homens) de Deus resplandece de maneira extraordinária em São Lucas: a bondade misericordiosa, a benignidade que se inclina sobre todas as misérias. Jesus é o Salvador de todos os homens, de todos os povos, de todas as raças. A parábola da ovelha perdida, do filho pródigo, do bom samaritano, realçam em forma concreta o espírito universalista e misericordioso do Evangelho, que profundamente sentiu São Paulo. São Lucas é «o escritor da mansidão de Cristo».
Notou-se com razão o papel importante que desempenham as mulheres no Evangelho de São Lucas. O paganismo tinha rebaixado a nobre condição delas como companheiras do homem. São Paulo fez sobressair a igualdade de todos em Cristo, onde não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem ou mulher. São Lucas recolhe, da vida e ensinamento de Jesus, tudo o que pode realçar o valor e estima que teve pela mulher. Como médico, São Lucas tinha coração compassivo, conhecedor das misérias da humanidade, e estava preparadíssimo para assimilar o espírito filantrópico e essencialmente humano do Evangelho.
Onde nasceu São Lucas? A opinião mais provável diz-nos que foi natural de Antioquia da Síria. De origem pagã, deve lá ter conhecido muito cedo o Cristianismo e deve tê-lo abraçado com todas as veras do seu coração, como homem reto, bem disposto e desapaixonado. A tradição diz-nos que desde a juventude guardou perfeita castidade. Foi como açucena a brotar dentre águas corrompidas. Cumpriu-se nele a máxima de Jesus: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus». São Lucas viu e sentiu profundamente a formosura do Cristianismo. Num mundo que desconhecia, odiava ou punha a ridículo o nome de cristão, ele sentiu-lhe a formosura e diz-nos, cheio de santo orgulho, que foi a sua cidade, Antioquia, a primeira terra onde se começaram a distinguir os discípulos de Jesus com o nome glorioso de «cristãos».
Pelo ano de 50, durante a segunda missão de São Paulo, aparece pela primeira vez ao lado do Apóstolo. Acompanha-o pela Macedônia e a seguir aparta-se dele, em Filipos, até à terceira missão, pelo espaço de quase seis anos. Por 58 sobe com Paulo a Jerusalém, onde conheceu muitos discípulos imediatos de Jesus e se informou minuciosamente de tudo o que se referia à infância do Senhor, ao seu ministério público e à sua paixão e morte. Assim recolheu, com carinho de enamorado, os dados da Anunciação, Encarnação, Nascimento e crescimento de Jesus. Que cenas tão cheias de colorido, de luz, de paz e gozo espiritual! Quanto temos de agradecer, nós cristãos, à diligente e adorável pena de São Lucas!
Uma tradição – que recolheu no século XIV Nicéforo Calisto, inspirado numa frase de Teodoro, escritor do século VI – diz-nos que São Lucas foi pintor e fala-nos duma imagem de Nossa Senhora saída do seu pincel. Santo Agostinho, no século IV diz-nos pela sua parte que não conhecemos o retrato de Maria; e Santo Ambrósio, com sentido espiritual, diz-nos que era figura de bondade. Este é o retrato que nos transmitiu São Lucas da Virgem Maria: o seu retrato moral, a bondade da sua alma. O Evangelho de boa parte das Missas de Maria Santíssima é tomado de São Lucas, porque foi ele quem mais longamente nos contou a sua vida e nos descobriu o seu Coração. Duas vezes esteve preso São Paulo em Roma e nos dois cativeiros teve consigo São Lucas, “médico queridíssimo”. Ajudava-o no seu aposto lado, consolava-o nos seus trabalhos e atendia-o e curava-o com solicitude nos seus padecimentos corporais. No segundo cativeiro, do ano 67, pouco antes do martírio, escreve a Timóteo que “Lucas é o único companheiro” na sua prisão. Os outros tinham-no abandonado.
Não podemos explicitar onde esteve São Lucas no intervalo que separa os dois cativeiros de São Paulo, dos anos 64 a 67. Neste período, consta-nos que veio São Paulo à Hispânia; não se pode excluir a hipótese, para os peninsulares tão honrosa, de também São Lucas nos ter visitado.
Com a morte de São Paulo, eclipa-se na história São Lucas. Um escrito do século III diz-nos que morreu virgem na Bitínia, na idade de 74 anos, cheio do Espírito Santo. Santo Epifânio, no século IV, acrescenta que pregou o Evangelho na Itália, França, Dalmácia e Macedônia.
Sobre a sua morte não temos dados concretos nenhuns, mas uma tradição autorizada, que vem do século IV, assegura-nos que derramou o sangue por Cristo. Assim rubricou a verdade que tinha escrito para toda a Igreja e para o mundo inteiro, com a carta magna do seu Evangelho e com a história dos atos apostólicos. Podemos repetir a sentença de Pascal, falando de todos os Evangelistas: Creio fielmente na história dos que se deixam matar para dar testemunho da verdade do que escreveram. São Lucas é médico bondoso e serviçal, é literato, mas sobretudo é santo e mártir, que morreu pela fé que pregou de palavra e exarou nos seus livros.
É considerado o Padroeiro dos médicos, por também ele ter exercido esse oficio, conforme diz São Paulo aos Colossences (4, 14): “Saúda-vos Lucas, nosso querido médico”.

 

Papa a médicos católicos: reconhecer a face de Deus nos mais frágeis 
Valor da vida

Sexta-feira, 20 de setembro  de 2013, Jéssica Marçal, com Rádio Vaticano em italiano, Da Redação

Reunido com médicos católicos, Papa destacou o valor da vida humana

A vida humana é sagrada. Assim dirigiu-se o Papa Francisco nesta sexta-feira, 20, aos médicos ginecologistas da Federação Internacional das Associações Médicas Católicas, reunidas em Roma desde 22 de setembro. O Santo Padre destacou a necessidade de atenção principalmente para com os mais frágeis, como os idosos, de forma a não promover a cultura do descartável. Francisco refletiu sobre a mentalidade generalizada do útil, a chamada cultura do descartável, que hoje escraviza tantos corações e tem um alto custo: eliminar seres humanos se física ou socialmente mais frágeis. Ele destacou a resposta diante dessa mentalidade é um “sim” decidido e sem hesitação à vida. “Cada criança não nascida, mas condenada injustamente a ser abortada, tem a face do Senhor, que mesmo antes de nascer, e depois apenas nascido experimentou a rejeição do mundo. E cada idoso… mesmo se enfermo ou no fim de seus dias, leva em si a face de Cristo. Não se pode descartar, como nos propõe a cultura do descartável! Não se pode descartar!”, enfatizou. Francisco concentrou-se então sobre o valor da vida humana, que ao contrário das coisas materiais, não tem um preço, pois as pessoas têm uma dignidade, valem mais que estas coisas. Porém, ele lembrou que em muitas situações a vida acaba sendo o que vale menos. “Por isto a atenção à vida humana em sua totalidade transformou-se nos últimos tempos uma verdadeira prioridade do Magistério da Igreja, particularmente àquela majoritariamente indefesa, isso é, as pessoas com deficiência, doentes, o nascituro, a criança, o idoso, que é a vida mais indefesa”. Outro ponto abordado pelo Papa foi a atual situação paradoxal em que se encontra a medicina. Por um lado, há progressos graças ao trabalho de cientistas que se dedicam à procura de novos tratamentos. Por outro, porém, há o perigo do médico perder a própria identidade de servo da vida. “Mesmo estando por sua natureza ao serviço da vida, as profissões de saúde são conduzidas, às vezes, a não respeitar a própria vida”. Os médicos reunidos no Vaticano participam desde o último dia 22 da 10º Conferência Internacional sobre o tema “A nova evangelização, as práticas obstétricas e cuidado com as mães”.

 

DISCURSO do Papa a médicos católicos – 20/09/2013
Audiência com os participantes do encontro de ginecologistas católicos
Sala Clementina do Palácio Apostólico
Sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Peço-vos desculpa pelo atraso… Esta é uma manhã um pouco complicada para audiências… Peço-vos desculpa. 1. A primeira reflexão que gostaria de partilhar com vocês é esta: nós assistimos hoje a uma situação paradoxal, que diz respeito à profissão médica. Por um lado constatamos – e agradecemos a Deus – os progressos da medicina, graças ao trabalho de cientistas que, com paixão e sem economizar, se dedicam à procura de novos tratamentos.  Por outro, porém, encontramos também o perigo de que o médico perca a própria identidade de servo da vida. A desorientação cultural tem afetado também aquilo que parecia um âmbito intocável: o vosso, a medicina! Mesmo estando por natureza a serviço da vida, as profissões de saúde são induzidas às vezes a não respeitar a própria vida. Em vez disso, como nos recorda a Encíclica Caritas in veritate, “a abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento”. Não há verdadeiro desenvolvimento sem esta abertura à vida. Se se perde a sensibilidade pessoal e social para com o acolhimento de uma nova vida, também outras formas de acolhimento úteis à vida secam. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna capaz de ajuda recíproca” (n. 28). A situação paradoxal está no fato de que, enquanto se atribuem à pessoa novos direitos, às vezes mesmo direitos presumidos, nem sempre se protege a vida como valor primário e direito primordial de cada homem. O fim último do agir médico permanece sempre a defesa e a promoção da vida. 2. O segundo ponto: neste contexto contraditório, a Igreja faz apelo às consciências, ás consciências de todos os profissionais e voluntários de saúde, de maneira particular de vocês ginecologistas, chamados a colaborar no nascimento de novas vidas humanas. A vossa é uma singular vocação e missão, que necessita de estudo, de consciência e de humanidade. Um tempo, as mulheres que ajudavam no parto eram chamadas “comadre”: é como uma mãe com a outra, com a verdadeira mãe. Também vocês são “comadres” e “compadres”, também vocês. Uma generalizada mentalidade do útil, a “cultura do descartável”, que hoje escraviza os corações e as inteligências de tantos, tem um altíssimo custo: requer eliminar seres humanos, sobretudo se fisicamente ou socialmente mais frágeis. A nossa resposta a esta mentalidade é um “sim” decidido e sem hesitação à vida. “O primeiro direito de uma pessoa humana é a sua vida. Essa tem outros bens e alguns desses são mais preciosos: mas é aquele o bem fundamental, condição para todos os outros” (Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração sobre aborto provocado, 18 de novembro de 1974, 11). As coisas têm um preço e são ventáveis, mas as pessoas têm uma dignidade, valem mais que as coisas e não têm preço. Tantas vezes, encontramo-nos em situações onde vemos que aquilo que custa menos é a vida. Por isto a atenção à vida humana em sua totalidade transformou-se nos últimos tempos uma verdadeira prioridade do Magistério da Igreja, particularmente àquela majoritariamente indefesa, isso é, as pessoas com deficiência, doentes, o nascituro, a criança, o idoso, que é a vida mais indefesa. No ser humano frágil cada um de nós é convidado a reconhecer a face do Senhor, que na sua carne humana experimentou a indiferença e a solidão à qual às vezes condenamos os mais pobres, seja nos Países em via de desenvolvimento, seja nas sociedades afluentes. Cada criança não nascida, mas condenada injustamente a ser abortada, tem a face de Jesus Cristo, tem a face do Senhor, que mesmo antes de nascer, e depois apenas nascido experimentou a rejeição do mundo. E cada idoso, e – falei da criança: vamos aos idosos, outro ponto! E cada idoso, mesmo se enfermo ou no fim de seus dias, leva em si a face de Cristo. Não se pode descartar, como nos propõe a “cultura do descartável”! Não se pode descartar! 3. O terceiro aspecto é um mandato: sejam testemunhas e difusores desta “cultura da vida”. O vosso ser católico comporta uma maior responsabilidade: antes de tudo para com vocês mesmos, para com o compromisso de coerência com a vocação cristã; e depois para com a cultura contemporânea, para contribuir a reconhecer na vida humana a dimensão transcendente, a marca da obra criadora de Deus, desde o primeiro instante de sua concepção. Este é um compromisso de nova evangelização que requer às vezes ir contracorrente, pagando pessoalmente. O Senhor conta também com vocês para difundir o “evangelho da vida”. Nesta perspectiva, as enfermarias dos hospitais de ginecologia são lugares privilegiados de testemunho e de evangelização, porque lá onde a Igreja se faz “veículo da presença de Deus” vivo, transforma ao mesmo tempo “instrumento de uma verdadeira humanização do homem e do mundo” (Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal sobre alguns aspectos da evangelização, 9). Amadurecendo a consciência de que no centro da atividade médica e assistencial está a pessoa humana na condição de fragilidade, a estrutura de saúde transforma-se em “lugar no qual a relação de cuidado não é trabalho – a vossa relação de cuidado não é trabalho – mas missão; onde a caridade do Bom Samaritano é a primeira cátedra e a face do homem sofredor, a Face própria de Cristo” (Bento XVI, Discurso à Universidade Católica do Sagrado Coração de Roma, 3 de maio de 2012). Queridos amigos médicos, vocês são chamados a ocuparem-se da vida humana na sua fase inicial, recordem todos, com os fatos e com as palavras, que esta é sempre, em todas as suas fases e em toda idade, sagrada e é sempre de qualidade. E não por um discurso de fé – não, não, – mas de razão, por um discurso de ciência! Não existe uma vida mais sagrada que a outra, como não existe uma vida humana qualitativamente mais significativa que a outra. A credibilidade de um sistema de saúde não se mede somente pela eficiência, mas, sobretudo, pela atenção e amor para com as pessoas, cuja vida sempre é sagrada e inviolável. Não deixem nunca de rezar ao Senhor e à Virgem Maria, para ter a força de cumprir bem o vosso trabalho e testemunhar com coragem – com coragem! Hoje é necessário coragem – testemunhar com coragem o “evangelho da vida”! Muito obrigado!

Nenhum comentário ainda

Comentários desativados

Desenvolvido por Origy Networks – Criação de sites e propaganda