São Oscar Arnulfo Romero

TESTEMUNHOS DA VIDA MISSIONÁRIA
Revista “MUNDO e MISSÃO”

Um grupo de bispos latino-americanos, no dia 29 de março de 1980, às vésperas dos funerais de dom Romero, assinou um documento que dizia: “Três coisas admiramos e agradecemos no episcopado de dom Oscar A. Romero: foi, em primeiro lugar, anunciador da fé e mestre da verdade […]. Foi, em segundo lugar, um resoluto defensor da justiça […]. Em terceiro lugar, foi o amigo, o irmão, o defensor dos pobres e oprimidos, dos camponeses, dos operários, dos que vivem nos bairros marginalizados”.
Dom Romero foi um bispo exemplar, porque foi um bispo dos pobres em um continente que carrega tão cruelmente a marca da pobreza das grandes maiorias, enxertou-se entre eles, defendeu sua causa e sofreu a mesma sorte deles: a perseguição e o martírio. Dom Romero é o símbolo de toda uma Igreja e de um continente latino-americanos, verdadeiro servo sofredor de Yahwé, que carrega o pecado, a injustiça e a morte de nosso continente. Embora, às vezes, o pressentíamos, seu assassinato não nos surpreendeu; seu destino não podia ser outro, pois ele foi fiel a Jesus e se inseriu de verdade na dor de nossos povos.
Porém, sabemos que a morte de dom Romero não foi um fato isolado. Fez parte do testemunho de uma Igreja que, tanto em Medellín, como em Puebla, optou, a partir do Evangelho, pelos pobres e oprimidos. Por isso, agora compreendemos melhor, desde seu martírio, a morte por fome e doença, realidades permanentes em nossos povos; assim como os incontáveis martírios, as incontáveis cruzes que pontuam nosso continente nestes anos: camponeses, moradores das periferias, operários, estudantes, sacerdotes, agentes de pastoral, religiosas, bispos encarcerados, torturados, assassinados por crerem em Jesus Cristo e amarem os pobres.
São, como a morte de Jesus, fruto da injustiça dos homens e, ao mesmo tempo, semente da ressurreição […]. Dom Oscar A. “Romero é um mártir da libertação que o Evangelho exige, um exemplo vivo do pastor que Puebla queria”. Dom Romero, que assistiu em 1979 à Conferência Geral dos Bispos Latino-americanos em Puebla, identificou-se plenamente com o apelo dos bispos à “conversão de toda a Igreja para uma opção preferencial pelos pobres, no intuito de sua integral libertação” (Puebla 1134). Assim, ele leu, com toda clareza, num país esgarrado pela violência, “a testemunha subversiva das Bem-aventuranças que revolveram tudo” e entendeu que tinha de desarraigar a violência a partir de suas bases, a violência estrutural, a injustiça social. E, por isso, é dever da Igreja “conhecer os mecanismos da pobreza”.
A opção preferencial pelos pobres é um convite para a Igreja como um todo e para cada seguidor de Cristo. “O cristão, se não viver este compromisso de solidariedade com o pobre, não é digno de chamar-se cristão”, ele dizia. E continuava: “Por isso, os pobres marcaram o verdadeiro caminho da Igreja. Uma Igreja que não se une aos pobres para denunciar, a partir deles, as injustiças que se cometem contra eles, não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo” (Homilia, 23 de setembro de 1979). Nisso, ele reconheceu sua missão como arcebispo: “Creio que fazer esta denúncia, na minha condição de pastor do povo que sofre a injustiça, seja meu dever.
Isto me impõe o Evangelho, pelo qual estou disposto a enfrentar o processo e a prisão” (Homilia, 14 de maio de 1978). Com muita clareza, na homilia de 8 de julho de 1979, afirmou: “Se nos cortarem a rádio, se nos fecharem o jornal, se não nos deixarem falar, se matarem todos os sacerdotes e até o arcebispo, e ficar um povo sem sacerdotes, cada um de vocês deve converter-se em microfone de Deus, cada um de vocês deve ser um mensageiro, um profeta”. Durante um retiro de quatro dias com um grupo de sacerdotes do Vicariato de Chalatenango, ele anotou estas linhas, nas quais relata a resposta de seu confessor, o Pe. Azcue: “Outro meu temor é a propósito dos riscos de minha vida. Custa-me aceitar uma morte violenta, que nestas circunstâncias é absolutamente possível.
O padre me deu ânimo, dizendo-me que minha disposição deve ser a de dar minha vida por Deus, qualquer que seja meu fim. As circunstâncias desconhecidas, devo vivê-las com a graça de Deus, que assistiu os mártires e, se for necessário, senti-la-ei vizinha a mim quando der o último respiro. Porém, mais importante que o momento de morrer, é oferecer a Deus toda a minha vida, viver por Ele”. Duas semanas antes de sua morte, numa entrevista ao diário Excelsior, do México, disse: “Fui freqüentemente ameaçado de morte. Devo dizer-lhe que, como cristão, não creio na morte sem ressurreição: se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho.
Digo isso sem nenhum ostentação, com a maior humildade. Como pastor, sou obrigado, por mandado divino, a dar a vida por aqueles que amo, que são todos os salvadorenhos, até por aqueles que me assassinarem. Se chegarem a cumprir-se as ameaças, desde agora ofereço a Deus meu sangue pela redenção e ressurreição de El Salvador. O martírio é uma graça de Deus, que não me sinto na situação de merecer, porém, se Deus aceitar o sacrifício de minha vida, que meu sangue seja semente de liberdade e sinal de que a esperança se transformará logo em realidade.
Minha morte, se for aceita por Deus, que seja pela libertação do meu povo e como testemunho de esperança no futuro. Você pode escrever: se chegarem a me matar, desde já eu perdôo e abençôo aquele que o fizer”.
Não resta dúvida sobre o caráter martirial da morte de dom Romero. Iniciou-se, na América Latina, a época em que os cristãos, morrendo pela fé, dão sua vida pela justiça.

 

DOM ROMERO ÍNTIMO
por Costanzo Donegana

Nos últimos dois anos de sua vida, dom Romero fazia um diário. Todas as noites, registrava em um gravador os principais fatos do dia. Lembrava-se deles e os comentava. O registro transformou-se em uma fonte única, necessária, sobretudo para conhecer o lado mais profundo e íntimo de sua personalidade, que surge diferente da imagem pintada pelas alas políticas e eclesiais, tanto da direita como da esquerda.

Instrumento de Deus
“Rezo ao Espírito Santo, para que me faça caminhar nas estradas da verdade e me mantenha sempre guiado unicamente por Nosso Senhor; jamais pelos elogios, nem pelo temor de ofender” (13/03/1980). Tais palavras, pronunciadas dez dias antes da sua morte, resumem o seu projeto de vida. Respondendo a alguns jornalistas, que elogiavam uma homilia feita por ele na catedral, afirma: “Eu sei apenas que a graça do Espírito Santo guia sua Igreja e torna fecunda sua palavra. A isso eu credito o sucesso que vocês atribuem à minha homilia. Todo o meu trabalho pastoral é feito com esse espírito. Confio no Espírito Santo e procuro ser seu instrumento, amando e servindo sinceramente o povo, a partir do Evangelho” (27/11/1979). Esse amor coloca-o literalmente no meio do povo: “Das pessoas que vieram às audiências de hoje, a maioria era muito pobre. Muitas dessas pessoas estavam angustiadas por causa da situação de injustiça. Algumas eram mães de desaparecidos. Procurei lhes dizer palavras de conforto, ou dar-lhes orientações que as ajudassem a enfrentar as dificuldades” (19/09/1979).

Amigo do povo
O povo retribui com carinho e fé o amor do arcebispo. Logo depois de voltar da Conferência de Puebla, dom Romero reza uma missa na catedral. “O povo interrompeu várias vezes minha homilia com carinhosos aplausos. Terminada a missa, cumprimentei os sacerdotes presentes e saí, acompanhado pelas aclamações do povo, para saudar os que tinham ficado do lado de fora da Igreja. Foi um momento carinhoso. (…) Tive a sensação de estar numa família” (16/02/1979). O relacionamento de dom Romero com seus sacerdotes é ainda mais profundo.
Ele os acompanha pessoalmente desde o tempo do seminário, dedica-lhes grande parte de seu tempo, reúne-os para momentos de oração e de confraternização e os consulta continuamente à procura de ajuda para enfrentar a difícil situação do país e da arquidiocese. Oscar Romero, não é um herói solitário, mas um pastor, um homem de comunhão. “Fui visitar o grupo de sacerdotes que está fazendo o retiro espiritual no seminário. Falamos da situação atual do país e do papel da Igreja, dos diferentes aspectos e opiniões que existem no próprio clero e entre os cristãos.
Insisti sobre o fato que nossa perspectiva deve ser totalmente pastoral, sem, evidentemente, ignorar os problemas políticos, que devemos iluminar. Mas gostei mais da segunda parte, quando falamos dos aspectos humanos de nossos relacionamentos como presbíteros. Há boa vontade. (…) Agradeci-lhes por terem evidenciado minhas deficiências, que podem ser um obstáculo a esses relacionamentos” (14/11/1979). “Hoje de manhã fizemos a reunião do senado presbiteral. (…)
Mergulhamos totalmente na análise da situação política do país. Nessa reflexão cheia de realismo, tive muito prazer em ver a maturidade de meus sacerdotes. Apesar da diversidade de seus critérios políticos, há uma única visão pastoral. Percebi um notável crescimento do sentido de Igreja. Pedi-lhes que continuem a me dar seus conselhos, de modo que, neste mar tempestuoso da política da pátria, nossa Igreja seja guiada por critérios evangélicos e pastorais” (14/01/1980).

Homem da unidade
Dom Oscar Romero arriscou tudo pela unidade. Depois do encontro em uma paróquia da diocese, comentou: “Convidamos todos a compreender qual é a verdadeira missão e o verdadeiro papel da Igreja. A partir dessa verdade, discutimos sobre a divisão que existe entre os fiéis da paróquia. Houve intervenções muito diretas de setores tradicionais, como de setores mais avançados, que trabalham na pastoral da maneira como a arquidiocese deseja. Todas as contribuições foram úteis. Recomendei várias vezes a unidade, o sentido transcendental do trabalho eclesial e o estudo atento sobre o que é a Igreja, para embasar o trabalho pastoral, tendo em vista a construção da verdadeira Igreja de Jesus Cristo” (23/04/1979).
Este amor pela unidade da Igreja e do povo é o principal motivo do seu sofrimento, principalmente quando ele é incompreendido e acusado de ser fonte de divisão. Este sentimento é percebido inclusive entre os bispos. Na Conferência Episcopal de E1 Salvador, dom Romero se encontra sempre em minoria, apoiado apenas por dom Arturo Rivera y Damas (que o sucederá). Ele enfrenta a situação com fé, espírito de comunhão e firmeza: “Também dom Rivera me fez a grata surpresa de vir encontrar-me. Conversamos sobre o documento secreto de denúncia contra mim, assinado por quatro bispos.
O documento me acusa, perante a Santa Sé, de atitudes contrárias à fé, de politização, de fazer pastoral com bases teológicas falsas e de um conjunto de outros argumentos que põem em cheque meu ministério episcopal. Apesar da gravidade do fato, senti uma grande paz. Reconheço, diante de Deus, minhas deficiências, mas acredito que trabalhei com boa vontade e muito distante das coisas graves, das quais me acusam. Deus dirá a última palavra, que aguardo com tranqüilidade, mantendo o trabalho com o entusiasmo de sempre. Sirvo com amor a Santa Igreja” (18/05/1979).
“A reunião dos bispos na Nunciatura confirmou a divisão que existe entre nós. Só houve acordo em relação à necessidade de fazer uma denúncia oficial pelo assassinato do padre Macias (…). Quando se tratou de analisar as causas do crime, a reunião se deixou arrastar pela suspeita de uma infiltração marxista na Igreja. Não obstante todos os meus esforços, não foi possível afastar esses preconceitos. Esforcei-me para explicar que a perseguição, infligida aos sacerdotes, deve-se ao fato de eles buscarem permanecer fiéis ao espírito do Concílio Vaticano II. (…) Ofereci a Deus essa prova da paciência, já que a culpa do mal que acontece ao país foi imputada, em grande parte, à minha pessoa” (11/08/1979).

Filho da Igreja
Há um momento em que dom Romero percebe que o próprio papa tem reservas em relação à sua ação pastoral. Depois de uma audiência com João Paulo II, comenta: “Acho que foi um colóquio muito útil, porque muito franco. Bem sei que não se deve sempre esperar uma aprovação plena, pois é mais útil receber advertências que podem melhorar nosso trabalho” (07/05/1979). Naquele mesmo período escreve: “Entreguei tudo nas mãos de Deus, dizendo-lhe que procurei fazer toda a minha parte e que, apesar de tudo, amo a Santa Igreja e, com a sua ajuda, serei sempre fiel à Santa Sé, ao magistério do Papa.
Todavia compreendo a parte humana, limitada, defeituosa da Igreja – que é o instrumento de salvação da humanidade – à qual quero servir sem reserva alguma” (04/05/1979). Um mês antes de morrer, encontra-se novamente com João Paulo II: “Senti que o Papa está de acordo com tudo o que eu digo. No final, ele me abraçou muito fraternalmente e disse-me que rezava todos os dias por El Salvador. Naquele momento, tive a sensação de que o próprio Deus confirmava e dava forças ao meu pobre ministério” (30/01/1980).

Diálogo com todos
Dom Romero não fecha nenhuma oportunidade de diálogo com as partes em conflito. Depois de uma reunião com seus assessores, afirma: “Entendi que, tanto a Junta de governo, como as organizações populares que lutam contra ela, têm aspectos positivos e negativos. A posição da Igreja é evidenciar e apoiar o que possa ser positivo. (…) A Igreja, por amor à pátria e pelo bem da justiça, deve também denunciar todos os obstáculos a esse processo revolucionário que parece já se ter iniciado” (29/10/1979). “Hoje de manhã, recebi o secretário-geral da União Democrática Nacional, um partido marxista. Ele elogiou o trabalho da Igreja.
Disse que esse trabalho é muito diferente do que havia em outras épocas, quando seu marxismo chamava a Igreja de ‘ópio do povo’. Agora, pelo contrário, é o melhor ‘despertador’ do povo, pois grande parte do que está acontecendo em favor da transformação do país é obra da Igreja” (29/11/1979). “Jantei com o coronel Majano e com o doutor Morales Erlich, membros do governo. Falamos sobretudo da reforma agrária. Eles têm grande esperança. Mas aproveitei também para apontar os perigos e as dúvidas que suscitam as minhas críticas (…): antes de mais nada, a conjunção da reforma agrária, com essa onda de evidente repressão violenta, nascida nos órgãos de segurança.
Também perguntei por que eles não garantem apoio popular mais decidido, favorecendo o diálogo com as forças populares, com o desejo de descobrir os verdadeiros interesses do povo e de acolher as reivindicações em favor da justiça. Não é o caso, certamente, da extrema direita, que não trabalha em favor dessas reivindicações, mas para manter seus privilégios” (14/03/1980). Dom Romero nunca permitiu que se confundisse sua ação com a dos grupos políticos. Em inúmeros pontos do seu diário ele afirma claramente essa distinção:
“À noite, os representantes do FAPU, uma organização popular, vieram para expressar seu desejo de ajudar a Igreja. Eu os adverti com a maior clareza: ‘Sem o perigo de querer manipulá-la’. Eles concordaram. (…) Insisti muito nessa autonomia da Igreja e no fato de que ela, a partir de sua perspectiva evangélica, apóia todas as iniciativas, cuja finalidade seja a de construir a justiça, o bem-estar, a paz dos homens” (12/06/1978).

O sangue
Dom Romero inspira-se somente no Evangelho. Nele, encontra a força e a luz de sua luta e de suas propostas. A um grupo de jornalistas que o interrogam sobre uma solução pacífica para a violência no país, responde com simplicidade evangélica: “Eu digo sempre que a melhor solução pacífica é um retorno ao amor e um verdadeiro desejo de busca de um diálogo. Isso deve basear-se em um clima de confiança – que tem de ser demonstrado com os fatos – para que o povo possa expressar as próprias opiniões em total liberdade e todos sejam admitidos ao diálogo”.
O arcebispo é morto enquanto celebra a Missa. Indefeso, porque sempre recusara as ofertas de proteção do governo. “Quero correr os mesmos perigos que o meu povo corre”, costumava repetir. Poucos minutos antes do crime, disse na homilia: “Neste cálice o vinho se torna sangue, que foi o preço da salvação. Possa este sacrifício de Cristo nos dar a coragem de oferecer nosso corpo e nosso sangue pela justiça e pela paz do povo”.

TRAJETÓRIA
• 1917 – Nasce Oscar Arnulfo Romero, de uma família modesta em Ciudad Barrios (El Salvador).
• 1931– Entra em seminário. Seis anos depois, interrompe os estudos para ajudar a família, em dificuldades, trabalhando por alguns meses nas minas de ouro com os irmãos. De volta ao seminário, é enviado a Roma para estudar teologia.
• 1942 – É ordenado sacerdote; volta a El Salvador e é destinado a uma paróquia do interior, da qual é transferido, em seguida, para a paróquia da catedral de San Miguel, onde realiza um grande trabalho pastoral por 20 anos. Caracteriza-se como sacerdote dedicado à oração e à atividade pastoral, pobre, dando impulso a obras de caridade, mas sem compromisso social evidente.
• 1966 – Eleito secretário da Conferência Episcopal de El Salvador.
• 1970 – É nomeado bispo-auxiliar de San Salvador, cujo bispo, dom Luis Chávez y Gonzalez, está decididamente atualizando a linha pastoral proposta pelo Concílio Vaticano II e a Conferência de Medellín, auxiliado eficazmente por dom Arturo Rivera y Damas, também bispo-auxiliar. Romero não se identifica com algumas linhas pastorais da arquidiocese e deixa transparecer sua tendência conservadora.
• 1974 – É nomeado bispo da diocese de Santiago de Maria. O contexto político se caracteriza por uma forte repressão, sobretudo contra as organizações camponesas.
• 1975 – Quando a Guardia Nacional assassina 5 camponeses, Romero celebra uma Missa para as vítimas; não denuncia publicamente o crime, mas escreve uma carta dura ao presidente Molina.
• 1977 – É nomeado arcebispo de El Salvador. Ficam surpreendidos os setores renovadores, que esperavam a nomeação de dom Rivera y Damas. Em 12 de março é assassinado o jesuíta pe. Rutílio Grande, comprometido com o povo e amigo de Romero. É o momento da “conversão” de Romero, quando se coloca corajosamente do lado dos oprimidos, denunciando a repressão e a violência estrutural, numa aliança entre os setores político-militares e econômicos, apoiada pelos Estados Unidos, e que explora o povo. Romero não fica calado também diante das violências da guerrilha revolucionária. O momento mais forte da sua ação, em defesa dos direitos humanos, são as homilias dominicais, nas quais analisa a realidade da semana à luz do evangelho. Transmitidas pela rádio católica, são ouvidas em todo canto do país, dando esperança ao povo e suscitando o ódio dos poderosos.
• 1978 e 1979 – Recebe o doutorado Honoris Causa pelas Universidades de Georgetown (EUA) e de Louvain (Bélgica). Em outubro de 1979, um golpe de estado depõe o ditador Humberto Romero e o poder é assumido por uma Junta de Governo, composta por civis e militares. Mas o exército e as organizações paramilitares assassinam centenas de civis (entre eles vários sacerdotes) e a guerrilha responde com execuções sumárias e destruição das estruturas do país.
• 1980 – Dom Romero escreve ao presidente dos EUA, Carter (17 de fevereiro), pedindo que não envie ajuda militar e econômica ao governo salvadorenho, pois ela favorece a repressão do povo. Na homilia de 23 de março, ele se dirige explicitamente aos homens do exército, da Guardia Nacional e da Polícia:
“Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral (…). Em favor deste povo sofrido, cujos gritos sobem ao céu de maneira sempre mais numerosa, suplico-lhes, peço-lhes, ordeno-lhes em nome de Deus: cesse a repressão!”. Serão as últimas palavras do bispo ao país. No dia seguinte, ele é assassinado por um franco-atirador, enquanto reza a missa na capela do Hospital da Divina Providência. O mandante do crime, major Roberto D’Aubuisson, é reconhecido como responsável, mas nunca foi processado.
• 1994 – Abre-se o processo de canonização de dom Romero em San Salvador.
• 1997 – O processo passa para a Congregação das Causas dos Santos em Roma.

 

Dom Romero é declarado padroeiro da Cáritas Internacional
A organização finaliza em Roma a sua XX Assembleia Geral e o cardeal Parolín pede que os membros da confederação não percam a sua dimensão eclesial
Por Redação / Madrid, 18 de Maio de 2015 (ZENIT.org)
Ao receber oficialmente a bandeira da Cáritas Internationalis como novo presidente da confederação, o cardeal Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila, afirmou que “o amor é real”. Esta foi a exortação com que se encerraram as sessões de trabalho realizadas em Roma na XX Assembleia Geral, que contou com a participação de mais de 400 representantes de 165 Cáritas nacionais de todo o mundo.
Recém-eleito presidente, o purpurado filipino assegurou que, “no começo da nossa assembleia, o papa Francisco nos disse palavras inspiradoras para ampliar o nosso trabalho. Com o lançamento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e a nova encíclica sobre ecologia e meio ambiente, na perspectiva da reunião da ONU em Paris no final deste ano sobre as mudanças climáticas, a prioridade do trabalho da Cáritas será colocar a família humana e a dignidade humana no centro do desenvolvimento”.
A mensagem final da Assembleia Geral declara que “nenhum dos objetivos deve ser considerado válido se os seus benefícios não alcançarem todos os grupos sociais. Trata-se de algo fundamental e a estratégia deve ter a pessoa no seu centro”. A mensagem insta os governos a olharem para além das suas fronteiras e a reconhecerem o imperativo moral inerente ao cuidado da criação.
Os delegados da Cáritas também chamaram a atenção para a difícil situação dos cristãos que sofrem perseguição religiosa na Síria e no Iraque, assim como dos migrantes e refugiados em todo o mundo. “Exortamos os governos a facilitarem refúgio e corredores humanitários em lugar de levantar muros e programas de interceptação no mar”.
Além da eleição do cardeal Tagle como novo presidente e do austríaco Alexander Bodmann como novo tesoureiro, a assembleia confirmou o francês Michel Roy como secretário geral e aprovou a incorporação do Sudão do Sul como novo membro da Confederação Caritas Internationalis.
Um dos momentos mais simbólicos do evento foi a decisão dos delegados de adotar como padroeiro da Cáritas Internacional dom Óscar Romero, arcebispo de San Salvador assassinado por defender os pobres. Dom Romero será beatificado neste próximo dia 23 de maio.
“Apertar a mão de alguém, olhar nos seus olhos, oferecer uma presença próxima, remediar a solidão de uma pessoa: estas devem ser as preocupações da Cáritas”, afirmou o cardeal Parolín, secretário de Estado da Santa Sé, durante a homilia em uma das missas celebradas na assembleia geral. O purpurado italiano convidou os trabalhadores da Cáritas a se lembrarem de que a sua “atitude pessoal” e “o encontro pessoal com a pessoa que está sofrendo” são uma parte fundamental da missão da Cáritas. “Detrás de cada problema social há pessoas”, destacou, pedindo que a família Cáritas seja consciente da “dimensão pessoal da miséria” e “olhe com os olhos de Cristo”.
“A Cáritas não existe sem uma relação vital com a Igreja”. Nenhuma conexão com “patrocinadores internacionais podem fazer com que nos desviemos desta comunhão profunda, que é a nossa identidade”, completou.
O secretário de Estado da Santa Sé agradeceu ao cardeal Rodríguez Maradiaga, ex-presidente da Cáritas Internacional, pelos seus anos de serviço, agradecimento extensivo aos trabalhadores da Cáritas em todo o mundo: uma atitude pessoal de amor “dá sentido à nossa presença no mundo como uma continuação da presença do Senhor”, afirmou Parolín. “Obrigado por serem testemunhas diretas do amor de Deus pela humanidade”.

 

São João Paulo II: Dom Óscar Romero deve ser recordado sem ideologização como um ‘Pastor zeloso e venerável’
SAN SALVADOR, 20 Mai. 15 (ACI/EWTN Noticias) .- Dom Óscar Arnulfo Romero, Arcebispo de São Salvador (El Salvador) será beatificado no próximo dia 23 de maio, 35 anos após o seu assassinato por ódio à fé. Poucos anos depois do seu martírio, São João Paulo II pediu que a memória do “protetor e venerado” Prelado salvadorenho seja respeitada e não manipulada por interesses ideológicos.
São João Paulo II, durante a homilia numa visita a São Salvador em 1983, em meio de um país destruído pela violenta guerra civil na que participaram grupos políticos da esquerda e da direita, recordou: “Com o sangue de Cristo podemos vencer o mal com o bem. O mal que penetra nos corações e nas estruturas sociais”.
“O mal que divide os homens e semeou o mundo de sepulcros com as guerras, com essa terrível espiral de ódio que arruína, aniquila, de maneira tétrica e insensata”.
“Quantos lares destruídos! Quantos refugiados, exilados e deslocados! Quantas crianças órfãs! Quantas vidas nobres, inocentes, destruídas cruel e brutalmente! Também de sacerdotes, religiosos, religiosas, de fiéis servidores da Igreja”, lamentou o santo polonês.
O Papa Peregrino recordou então o testemunho do ‘Pastor zeloso e venerável’, arcebispo deste ‘rebanho’, Dom Óscar Arnulfo Romero, quem lutou pelo fim da violência e por estabelecer a paz, da mesma maneira que lutaram seus irmãos no Episcopado”.
O Papa João Paulo II encorajou: “Ao recordá-lo, peço que sua memória seja sempre respeitada e que nenhum interesse ideológico pretenda instrumentalizar seu sacrifício de Pastor entregado ao seu rebanho”.
Dom Romero foi assassinado em 24 de março de 1980, enquanto celebrava Missa na capela do hospital “La Divina Providencia’, em São Salvador. Em 2010, o então presidente de El Salvador Mauricio Funes reconheceu, em nome do Estado: “Dom Romero foi vítima da violência ilegal executada por um esquadrão da morte”.
Na manhã do dia 3 de fevereiro deste ano, o Papa Francisco, em audiência privada com o Cardeal Angelo Amato, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, aprovou a divulgação do decreto que reconhecia o martírio do Arcebispo salvadorenho.
Apesar de que, depois do seu falecimento diversos teólogos marxistas da libertação declarassem que Dom Romero compartilhava suas posturas teológicas, o seu secretário pessoal, Monsenhor Jesús Delgado, descartou tal afiliação.
Em declarações ao Grupo ACI em fevereiro de 2015, Monsenhor Delgado recordou: “Quando escrevi sobre a sua vida fui revisar sua biblioteca. Evidentemente, os teólogos da libertação o visitavam e sempre lhe deixavam um livro marxista, mas estes livros nunca foram tocados, nunca os abriu, jamais os usava, nunca os consultou”.
“E, pelo contrário, todos os seus livros dos Padres da Igreja estavam muito manuseados e eram a fonte da sua inspiração”, assegurou seu secretário.
Aliás Dom Romero teve um grande carinho e proximidade pelo fundador do Opus Dei, São Josemaría Escrivá de Balaguer, desde que se conheceram em 1974, em Roma.
Falecido o fundador do Opus Dei no ano seguinte, Dom Óscar Romero, então Arcebispo de São Salvador, escreveu uma carta ao Papa Paulo VI pedindo sua beatificação, assegurando: “Sou profundamente agradecido a estes sacerdotes membros da Obra, aos quais confiei com muita satisfação a direção espiritual de minha própria vida e a de outros sacerdotes”, concluiu.

 

“Monsenhor Romero foi um homem de Deus”
Entrevista com Mons. Joaquin Alonso. Recorda de quando Oscar Romero encontrou-se, em 1974, com Josemaría Escrivá, e também a missa que o arcebispo mártir celebrou pelo fundador do Opus Dei, dois anos antes de ser assassinado
Por Redação / Roma, 20 de Maio de 2015 (ZENIT.org)
Entrevista realizada por Rodrigo Ayude
Mons. Joaquin Alonso (Sevilha, 1929), licenciatura em Direito e doutor em direito canônico, conviveu em Roma com São Josemaria Escrivá e trabalha há anos com o prelado do Opus Dei. Já tem 62 anos na capital italiana, onde, além do mais, é Consultor Teólogo da Congregação para as Causas dos Santos. Nesta entrevista fala de Mons. Oscar Romero, que será beatificado no próximo dia 23 de maio, em San Salvador.
***
Mons. Alonso, como você conheceu. O futuro beato Óscar Romero?
Mons. Alonso: Eu o conheci em Roma em 1974. No 30 de outubro daquele ano veio a Roma – não era a primeira vez – e São Josemaria, que o receberia uns dias depois, no dia 8 de novembro, me pediu para atendê-lo. Mons. Romero tinha sido nomeado bispo de Santiago de Maria, em El Salvador, poucos dias antes de começar a viagem.
Mons. Romero disse-me que essa viagem à Cidade Eterna era providencial, porque lhe estava ajudando a sair do ambiente habitual, a tomar um pouco de distância e a ver desde outros horizontes o pequeno mundo, dizia, que lhe era pesado. Ele sentia o peso da responsabilidade da sua nova sede episcopal, e precisava sentir-se ouvido e encorajado.
Você guarda alguma lembrança dessas épocas?
Mons. Alonso: Para mim esta visita foi uma oportunidade de falar com Mons. Romero durante muito tempo e bem a fundo. Foram conversas fraternas e muito sacerdotais. Entre outras coisas, Mons. Oscar Arnulfo Romero me disse que, desde o início dos anos 60, tinha direção espiritual com um sacerdote do Opus Dei, Don Juan Aznar, que morreu em março de 2004.
Mais tarde, conheci alguns detalhes desse acordo com Don Juan Aznar. Por exemplo, em uma carta de 1970 escrevia: “Ninguém além de você entende a minha alma” e, em 1973, ao desejar-lhe feliz natal expressava: “Não esquece nunca os seus sábios conselhos”. O beato Óscar Romero era um sacerdote agradecido, e fiquei emocionado quando soube que ele tinha morrido, justamente enquanto celebrava a eucaristia, a ação de graças por excelência.
Como foi o encontro de Mons. Romero com São Josemaria?
Mons. Alonso: San Josemaría o recebeu no dia 8 de Novembro. A conversa durou quase uma hora e, no final, Mons. Romero disse-me que esse encontro tinha lhe deixado profundamente impressionado. Disse-me que tinha se sentido consolado na sua fé por São Josemaria e que o fundador do Opus Dei tinha lhe abraçado, fazendo-lhe sentir-se querido e acompanhado. Mons. Romero definiu São Josemaria como “homem de Deus” e aproveitou o encontro para convidá-lo a visita o Centro América, o que pode fazer em 1975.
Mons. Romero também pode cumprimentar o beato Paulo VI naquela viagem, e ficou muito feliz por escutar umas palavras de consolo dele. Depois, me disse que essa viagem recordava-lhe os seus primeiros anos de sacerdócio e o considerava como um presente de Deus.
Continuou com esse contato nos anos seguintes?
Mons.  Alonso: Lembro-me que no dia 26 de Junho de 1978 – terceiro aniversário da ida ao céu de São Josemaria – veio celebrar a Santa Missa na cripta de Santa Maria da Paz, onde então repousavam os restos mortais do fundador. Eu o assisti, junto com Mons. Francisco Vives. Pronunciou uma breve homilia cheia de carinho e agradecimento a São Josemaria, destacando que, desde o primeiro momento em que se conheceram, sentiu-se tratado como um irmão. Palavras que deixou escritas também em uma carta.
Isso ocorreu, como eu disse, em 1978, um ano depois de que Mons. Romero tivesse sido nomeado arcebispo de São Salvador. Então, como comentou publicamente, era outro sacerdote do Opus Dei, Mons. Fernando Sãenz Lacalle, que o acompanhou espiritualmente.
O que você pensou ao saber da sua morte?
Mons. Alonso: A trágica notícia me causou uma grande emoção e, ao mesmo tempo, me surgiu o desejo de acompanha-lo com a oração e de recorrer à sua intercessão para pedir-lhe pela Igreja na América Latina. Também foi um motivo de agradecimento ao Senhor, porque me deu a oportunidade de conhecer pessoalmente este homem de Deus.
(Publicado no dia 18 de maio em www.opusdei.es, reprodução autorizada, tradução ao português de ZENIT)

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