XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano B

Por Frei Raniero Cantalamessa, OFM Cap.

Como é difícil um rico entrar no Reino dos Céus! 
Sabedoria 7, 7-11; Hebreus 4, 12-13; Marcos 10, 17-30

Uma observação preliminar é necessária para livrar o terreno de possíveis equívocos ao ler o que o Evangelho deste domingo diz da riqueza. Jesus jamais condena a riqueza nem os bens terrenos por si mesmos. Entre seus amigos está também José de Arimatéia, «homem rico»; Zaqueu é declarado «salvo», ainda que retenha para si a metade de seus bens, que, visto o ofício de arrecadador de impostos que desempenhava, deviam ser consideráveis. O que condena é o apego exagerado ao dinheiro e aos bens, fazer depender deles a própria vida e acumular tesouros só para si (Lucas 12, 13-21). A Palavra de Deus chama o apego excessivo ao dinheiro de «idolatria» (Col 3, 5; Ef 5, 5). O dinheiro não é um de tantos ídolos; é o ídolo por antonomásia. Literalmente «deus de metal fundido» (Ex 34, 17). É o antideus porque cria uma espécie de mundo alternativo, muda o objeto às virtudes teologais. Fé, esperança e caridade já não põem em Deus, mas no dinheiro. Há uma sinistra inversão de todos os valores. «Nada é impossível para Deus», diz a Escritura, e também: «Tudo é possível para quem crê». Mas o mundo diz: «Tudo é possível para quem tem dinheiro». A avareza, além da idolatria, é desta forma fonte de infelicidade. O avarento é um homem infeliz. Desconfiado de todos, isola-se. Não tem afetos, nem sequer entre os de sua própria carne, a quem vê sempre como aproveitadores e quem, por sua vez, alimenta com freqüência a respeito dele um só desejo de verdade: que morra logo para herdar suas riquezas. Tenso até o espasmo para economizar, nega-se tudo na vida e assim não desfruta nem deste mundo nem de Deus, pois suas renúncias não se fazem por Ele. Em vez de obter segurança e tranqüilidade, é um eterno refém de seu dinheiro. Mas Jesus não deixa ninguém sem esperança de salvação, tampouco o rico. Quando os discípulos, depois do dito sobre o camelo e a agulha, preocupados perguntaram a Jesus: «Então, quem poderá ser salvo?», Ele respondeu: «Para os homens, impossível, mas não para Deus». Deus pode salvar também o rico. A questão não é «se o rico se salva» (isto não esteve jamais em discussão na tradição cristã), mas «que rico se salva». Jesus assinala aos ricos uma via de saída de sua perigosa situação: «Acumulai tesouros no céu, onde não há traça nem ferrugem que corroem» (Mt 6,20); «Fazei amigos com o dinheiro da iniqüidade, a fim de que, no dia em que faltar, eles vos recebam nas tendas eternas» (Lc 16, 9). Poder-se-ia dizer que Jesus aconselha aos ricos transferir seu capital ao exterior! Mas não à Suíça, ao céu! Muitos –diz Agostinho– se afanam em meter seu próprio dinheiro sob a terra, privando-se até do prazer de vê-lo, às vezes durante toda a vida, com objetivo de saber seguro. Por que não colocá-lo nada menos que no céu, onde estaria muito mais seguro e onde se voltará a encontrar, um dia, para sempre? Como fazer? É simples, prossegue Santo Agostinho: Deus te oferece, nos pobres, os portadores. Eles vão ali onde tu esperas ir um dia. A necessidade de Deus está aqui, no pobre, e te devolverá quando fores ali. Mas está claro que a esmola de trocados e a beneficência já não é hoje o único modo de empregar a riqueza para o bem comum, nem provavelmente o mais recomendável. Existe também o de pagar honestamente os impostos, criar novos postos de trabalho, dar um salário mais generoso aos trabalhadores quando a situação permitir, pôr em andamento empresas locais nos países em vias de desenvolvimento. Em resumo, pôr a render o dinheiro, fazer fluir. Ser canais que fazem circular a água, não lagos artificiais que a retém só para si.

 

As leituras de cada domingo ajudam-nos a traçar o perfil espiritual do homem crente (homem de fé) que consiste numa configuração da vida, aliviada das canseiras e dos problemas que podem “travar” um pouco a caminhada da fé; assim, o nosso íntimo poderá ver melhor o caminho a percorrer para nos configurarmos a Cristo glorioso, convertendo-nos em verdadeiros discípulos do Senhor. Em cada domingo, encontramos uma proposta para progredir e para interiorizar espiritualmente, não só no aspecto pessoal, mas também no aspecto comunitário. A Palavra de Deus é acolhida por toda a assembléia que a irá pôr em prática. Por isso, todos somos corresponsáveis. Hoje, as leituras convidam-nos a refletir sobre a riqueza e as suas consequências. Primeiro Passo a dar: Ser sábios. Para ser sábio segundo Deus, é necessário tomar consciência da nossa pobreza, das nossas limitações. Não se trata de adquirir conhecimentos como se fossemos enciclopédias ambulantes, mas ter a lucidez para saber e valorizar o que é mais importante, quer a nível pessoal, quer a nível comunitário. O texto da primeira leitura coloca nos lábios do Rei Salomão os critérios que deve ter em conta para o seu crescimento pessoal e para servir o seu povo. Ele terá sempre que saber o que é mais importante. Como alguém que sente a sua pobreza e as suas limitações, Salomão reza a Deus e pede que lhe dê prudência, sabedoria e capacidade de discernir. O discernimento é mais importante que possuir o poder, riquezas e saúde. Segundo Passo a dar: Acolher a Palavra. Se perguntássemos a alguém se tem consciência de não ter muitos valores e convicções na sua vida, certamente adivinharíamos a resposta. Todavia, se perguntássemos a alguém se conhece alguém que pareça não ter valores nem princípios na sua vida, certamente não olharia para si próprio e procuraria enunciar o nome de outro, talvez com alguma prontidão. O extrato da Carta aos Hebreus da segunda leitura convida-nos a olhar em primeiro lugar para nós próprios e a deixar-nos interrogar pela Palavra de Deus. “A Palavra de Deus é viva e eficaz, mais cortante que uma espada de dois gumes”, ou seja, ela vai ao mais profundo do nosso ser e motiva-nos à revisão de vida. Estaremos convencidos e disponíveis para a revisão de vida ou não sentimos necessidade de fazê-la? Já nos conhecemos o suficiente; já conhecemos os nossos valores, dons e limitações? Será que nos sentimos pobres ou andamos convencidos que não precisamos da luz de Deus, porque já sabemos como projetar e viver a vida? Quem sabe se por nos sentirmos ricos e seguros de nós próprios cristalizamos e ficamos insensíveis! Assim não acolheremos a novidade que sempre nos traz a Palavra de Deus. Levantamos muralhas no nosso interior que nos impedem de interrogar e de rever a vida, talvez com medo de perder aquilo que, outrora, adquirimos; tantas vezes, isso se transforma em “prejuízos” religiosos e espirituais. Terceiro Passo a dar: Desprendermo-nos de tudo o que nos impede de seguir Jesus Cristo. O evangelho deste domingo apresenta-nos um homem bom, porque não faz nada que prejudique os outros. A lista dos mandamentos, exceto o de honrar pai e mãe, faz referência à possibilidade de prejudicar o próximo. O homem até tem bons princípios, mas para ganhar a vida eterna é preciso muito mais. Jesus, como Mestre, mostra-lhe o caminho a percorrer para o seu crescimento espiritual, ou seja, o caminho para o reino. O evangelista destaca o sentimento de Jesus (“olhou para ele com simpatia”); além disso, faz referência ao seu modo de agir: corre (denota uma atitude ativa), ajoelha-se (denota uma atitude de humildade e de aceitação de Jesus como Mestre), como também explicita o obstáculo que impede o seu progresso espiritual. O evangelho diz-nos que a riqueza condiciona-o de tal maneira que o impede de ouvir a Palavra para que esta o penetre até ao mais íntimo do seu ser. Não podia prescindir daquilo que ele tanto valoriza! A grande questão é saber descobrir aquilo que na vida é e causa impedimento a seguir Jesus.

 

VIGÉSIMO OITAVO DOMINGO COMUM
Mc 10, 17-30 “Como é difícil entrar no Reino de Deus”

O nosso texto inicia-se com a frase “Quando Jesus saiu de novo a caminhar”. Mais uma vez, estamos na caminhada com Jesus, na caminhada que é uma aprendizagem para o discipulado, uma caminhada que o leva cada vez mais perto a Jerusalém, lugar da crise definitiva da sua vida. Ao longo desta caminhada Jesus luta com a incompreensão dos seus discípulos, até dos mais chegados a Ele, pois a mentalidade deles era formada pela ideologia dominante, e assim tinham a maior dificuldade em apreciar a viravolta de valores que Jesus e a sua mensagem significavam. Nos outros domingos, já vimos essa tensão no trato das questões do poder, do divórcio, das crianças. No nosso texto hoje, Jesus põe em cheque o ensinamento comum sobre a riqueza e a pobreza. A cena é muito conhecida – um homem pede orientação sobre como entrar na vida eterna. Num primeiro momento, Jesus coloca diante dele as exigências conhecidas por todo judeu piedoso e ensinadas pelas escolas rabínicas – o cumprir dos mandamentos. Mas o homem – sem dúvida um praticante piedoso da Lei – sente que isso não é o suficiente, antes, é o mínimo. E assim Jesus põe diante ele as exigências do Reino – o seguimento d’Ele, o despojamento dos bens e a partilha e solidariedade. Aqui, o homem é incapaz de aceitar. Estava amarrado aos seus bens, pois era muito rico (v. 22). Fez a sua opção – optou por uma vida “regular” que não exigisse partilha nem despojamento, e como conseqência foi embora “muito abatido”- pois tinha colocado bens secundários acima do bem maior. Mas o centro do relato está no debate entre Jesus e os seus discípulos. O Mestre afirma que “é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus!” (v. 25). Muitas vezes gastamos tanta energia em debater o que significa “o buraco da agulha” (quase sempre tentando diminuir o seu impacto!), e deixamos de lado o aspecto mais importante – a reação dos discípulos! Eles ficam “muito espantados” quando ouviram isso e se perguntaram: “então quem pode ser salvo?” Por que ficaram espantados? O que houve de espantoso na colocação de Jesus? Aqui está o âmago da questão. O espanto dos discípulos – também todos judeus praticantes e piedosos – era causado pelo fato que, na ideologia religiosa vigente, a riqueza era considerado sinal da bênção de Deus, e a pobreza como sinal da maldição (uma idéia presente em certos grupos cristãos hoje e que às vezes infiltra algumas pregações sobre o dízimo, na própria Igreja Católica). Para eles, quem não iria se salvar era o pobre, pois o rico era abençoado. Aqui é bom lembrar que se trata de “entrar no Reino de Deus”, que não é sinônimo com a salvação eterna. A salvação depende da gratuidade e misericórdia de Deus, e diante de tal mistério só cabe à gente se calar. Mas o Reino de Deus deve ser uma experiência já existente entre nós, mesmo que não em plenitude, e que significa experimentar na vida os valores do Reino. O rico dificilmente entra nesta dinâmica porque normalmente é auto-suficiente, atrelado a um sistema classista e injusto, e com grande dificuldade tanto de repartir como de sentir a sua dependência de Deus. A proposta de Jesus desafia as ideologias que veem a riqueza como sinal da bênção de Deus. A proposta d’Ele não é a riqueza, mas a partilha, não é a acumulação, mas a solidariedade e a justiça, para que todos possam ter o suficiente. O texto deixa claro que quem quer viver esta proposta vai sofrer, pois o mundo não vai aceitá-la. Quem segue Jesus na prática da solidariedade, encontra uma felicidade mais duradoura, mas com perseguição, pois  já vive a certeza da plenitude do Reino que virá (v.29-31).

 

Evangelho segundo São Marcos 10, 17-30
Quando se punha a caminho, alguém correu para Ele e ajoelhou-se, perguntando: «Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?» Jesus disse: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um só: Deus. Sabes os mandamentos: Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes, honra teu pai e tua mãe.» Ele respondeu: «Mestre, tenho cumprido tudo isso desde a minha juventude.» Jesus, fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele e disse: «Falta-te apenas uma coisa: vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» Mas, ao ouvir tais palavras, ficou de semblante anuviado e retirou-se pesaroso, pois tinha muitos bens. Olhando em volta, Jesus disse aos discípulos: «Quão difícil é entrarem no Reino de Deus os que têm riquezas!» Os discípulos ficaram espantados com as suas palavras. Mas Jesus prosseguiu: «Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus.» Eles admiraram-se ainda mais e diziam uns aos outros: «Quem pode, então, salvar-se?» Fitando neles o olhar, Jesus disse-lhes: «Aos homens é impossível, mas a Deus não; pois a Deus tudo é possível.» Pedro começou a dizer-lhe: «Aqui estamos nós que deixamos tudo e te seguimos.» Jesus respondeu: «Em verdade vos digo: quem deixar casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou campos por minha causa e por causa do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, no tempo presente, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, juntamente com perseguições, e, no tempo futuro, a vida eterna.

Por Pe. Fernando José Cardoso

“Bom Mestre – disse alguém a Jesus – o que devo fazer para obter em herança a vida eterna?” Eis, um jovem simpático, atraente, preocupado com a vida eterna, o que é coisa bastante estranha na juventude atual. No entanto reparem bem o seu vocabulário, não deixa ele de ter um “quê” de interesseiro, de financeiro: “O que devo fazer para obter em herança?” Herança é uma palavra que tem a ver com bens materiais e dinheiro; este jovem está preocupado em obter como herança a vida eterna. Jesus no primeiro momento lhe indica o caminho comum de todos os mortais: “Conheces os mandamentos”. Só que, apela para os mandamentos da segunda tábua, os mandamentos sociais, isto é, o relacionamento nosso com os outros seres humanos, isto quer dizer que o relacionamento vertical com Deus está condicionado ao relacionamento horizontal com os demais. “Tudo isto já faço”, é a resposta que Jesus obtém. Neste momento – diz o Evangelista – Jesus o olhou com particular carinho, o amou: “Eis aí, um jovem candidato ao sacerdócio, quem sabe até ao episcopado, é possível que se torne um dia um cardeal da Igreja; de qualquer maneira um outro a preencher mais vagas no colégio apostólico”. A resposta segunda de Jesus é esta: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu, a seguir, vem e segue-me”. Não era isto que o jovem queria, não era isto que havia perguntado a Jesus. Não era o seu interesse ter um tesouro no céu, herdar a vida eterna? Para decolar nesta direção, lhe diz Jesus: “É preciso se desfazer dos bens materiais”. A final de contas eles são bens provisórios, eles não são bens definitivos, se o que importa a este jovem é o definitivo, e realmente o definitivo, então que se desfaça do provisório. A atitude foi imediata; cabisbaixo voltou atrás porque possuía muitos bens. Jesus não voltou atrás nas suas palavras, não tentou adocicá-las. “Não, não, não espere um pouquinho, se deres a metade dos teus bens aos pobres já é suficiente para um serviço qualquer no meu reino”. Não! Jesus insiste no que fala e a seguir aos discípulos assustados afirma: “É mais fácil um camelo entrar pelo orifício de uma agulha – o animal maior da Palestina nos tempos de Jesus – do que um rico apegado ao dinheiro entrar no reino dos céus”. Este jovem representa a cada um de nós, eu poderia dizer a todos neste momento, através deste meio, são todos formidáveis, são todos excelentes candidatos ao Reino de Deus, porém estamos muitos de nós fixos aqui na terra como balões presos a certos fios, impedidos de levantar vôo ao alto. O dinheiro, os cheques, os cartões de crédito, quando estas coisas vão além de um tolerável, impedem realmente um rico de penetrar no definitivo; ele está condenado a ficar no provisório e a não sair mais daí. Este Evangelho deve ser profundamente meditado e assimilado por cada um de nós que queremos entrar na vida eterna.

 

«Terás um tesouro no Céu»
São João Crisóstomo (c. 345-407), Bispo de Antioquia e, mais tarde, de Constantinopla, Doutor da Igreja
Homilia 63 sobre São Mateus; PG 58,603 (trad. cf. Marc commenté, DDB 1986, p. 104)

Cristo tinha dito ao jovem: «Se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos» (Mt 19, 17). E ele pergunta: «Quais?», não para O pôr à prova, longe disso, mas por supor que o Senhor tem para ele, a par da Lei de Moisés, outros mandamentos que lhe proporcionem a vida; era uma prova do seu desejo ardente. Depois de Jesus lhe enunciar os mandamentos da Lei, o jovem diz-Lhe: «Tenho cumprido tudo isso»; mas prossegue: «Que me falta ainda?» (Mt 19, 20), sinal certo desse mesmo desejo ardente. Não são as almas pequenas as que consideram que ainda lhes falta alguma coisa, aquelas a quem parece insuficiente o ideal proposto para alcançarem o objeto dos seus desejos. E que diz Cristo? Propõe-lhe uma coisa grande; começa por propor-lhe a recompensa, declarando: «Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que possuíres, dá o dinheiro aos pobres, e terás um tesouro nos céus; depois, vem e segue-Me». Vês o preço, a coroa que Ele oferece como prêmio desta corrida desportiva? […] Para o atrair, propõe-lhe uma recompensa de grande valor e apresenta-lhe o cenário completo. Aquilo que poderia parecer penoso permanece na sombra. Antes de falar de combates e de esforços, mostra-lhe a recompensa: «Se queres ser perfeito», diz-lhe: eis a glória, eis a felicidade! […] «Terás um tesouro nos céus; depois, vem e segue-Me»: eis a soberba recompensa daqueles que seguem a Cristo, daqueles que escolhem ser Seus companheiros e Seus amigos! Este jovem apreciava as riquezas da terra; Cristo aconselha-o a despojar-se delas, não para empobrecer com este despojamento, mas para enriquecer ainda mais.

 

Arte a serviço do belo e do bem
Padre Wagner

Alguém chegou para Jesus e perguntou que devo fazer para ganhar a vida eterna. Meus irmãos e irmãs de certa forma, todos se questionam a respeito da felicidade. Todos nós buscamos a felicidades, nós cristãos sabemos que seremos felizes na posse da vida eterna, mas essa pergunta que o homem faz é a pergunta que todo ser humano faz para ser feliz, que caminhos devo trilhar para possuir a felicidade. E Jesus deixa muito claro para aquele homem que deveria trilhar os mandamentos de Deus, para que pudesse chegar a vida eterna. Ele deveria praticar os mandamentos de Deus. Jesus deixa claro que a posse da vida eterna depende da realização dos mandamentos de Deus. O homem do evangelho, após a resposta que Jesus dá a respeito dos mandamentos, respondeu: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude” (Marcos 10, 17-30). Uma tremenda coragem, mas acredito que esse homem foi sincero. Aquele homem apresenta verdade da sua vida, “Senhor eu tenho observado os mandamentos de Deus”, mas ele apresenta sua verdade, pois ele observa que a prática das leis de Deus, não era suficiente, ainda o deixava insatisfeito. Santo Agostinho disse: “a pessoa que prática os mandamentos, ele começa levantar a cabeça para liberdade, mas ainda não é a liberdade”. E Jesus que é a palavra de Deus viva, olhou para aquele homem, com olhar de profundo amor e esquadrinhou, fez um raio- x, e vê a insatisfação do coração daquele homem, que praticava com radicalidade os mandamentos de Deus, mas percebia que isso não era suficiente para ganhar a vida eterna e diz: “Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!” (Marcos 10, 21). Neste momento Jesus apresenta para este homem o que deveria fazer para ser livre, para possuir a verdadeira liberdade. Jesus não está fazendo uma crítica as riquezas, mas ele critica que aquele homem, era um escravo de suas riquezas, de suas posses. Com coerência aquele homem procurava colocar em prática os mandamentos de Deus, mas ia acumulando bens e ficou escravo, da sua ganância, do desejo de poder. Jesus não faz critica a pessoa que é rica, mas coloca em evidência qual era a causa da insatisfação, aquele homem era dominado por sua ganância, por isso a prática dos mandamentos, não era suficiente para ganhar a vida eterna. O que está em jogo é a vontade de ser livre, para fazer se si mesmo, um dom de amor para glória de Deus. Todos os mandamentos da lei de Deus foram sintetizados por Jesus em 2 mandamentos, amar a Deus e o amor ao próximo. Para que eu possa amar, fazer de mim mesmo, um dom para o bem dos outros, para eu amar a Deus, eu preciso fazer da minha vida um dom para Deus e um dom para fazer bem para o próximo, eu não posso dar o que eu não tenho. Quando a pessoa é escrava, ela não pode fazer se si um dom para outros, não pode se fazer dom para Deus e não pode fazer dom para o próximo. O caminho de nós nos libertamos de toda escravidão, é o caminho do amor. Precisamos romper com toda escravidão para nos fazer um dom para Deus e para os outros. Aquele homem foi embora muito triste porque ele possuía muitas riquezas. Jesus disse: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus!” (Marcos 10, 23). Fazer parte do reino de Deus, orientar a vida, para eternidade em Deus, significa assumir os valores do Reino de Deus. Para que nós possamos viver em comunhão com Deus e irmãos é preciso encarnar os valores de Deus. Que valor, além do amor, devemos encarnar na nossa vida? A justiça, a caridade, o perdão, a reconciliação, a paz, tudo isso diz respeito aos valores do reino de Deus para orientarmos nossa vida para a eternidade. Jesus faz uma hierarquia de valores, no topo está o amor, que devemos buscar com avidez, que precisamos do Espírito santo, pois sem ele é impossível conseguirmos. Na primeira leitura, o livro da Sabedoria nos apresenta uma hierarquia de valores, e segundo o livro, o primeiro valor é sabedoria. E o autor da sabedoria coloca a sabedoria em primeiro lugar que é mais importante que os bens materiais, mas também a coloca como maior que os bens físicos, a saúde e beleza. Nós que somos cristãos devemos acima de tudo buscar o amor e com amor buscar a sabedoria. Se você quer ser feliz, orientar sua vida para eternidade em Deus, e sonha possuir a vida eterna, se quer aqui encarnar o amor de Deus, busque o amor e a sabedoria. Tenha sede de amor e sede de sabedoria. Essa sabedoria, não se aplica com os livros de ciência, eles são importantes, mas ela vem do Espírito da graça de Deus. A sabedoria é humilde, é dom do alto, ela se realiza, sobretudo na vida dos simples, porque encarnam em sua vida os valores do Reino de Deus. Vivem a sabedoria como dom de Deus para o bem dos outros, pois a felicidade consiste em fazer a felicidade dos outros, se quer ser feliz, faça os outros felizes. Tanto a saúde como a beleza, são bens que não devem ser desprezados, devemos cuidar da nossa saúde e beleza, porém a sabedoria em primeiro lugar. A saúde e beleza, são bens que não me orientam para vida eterna, mas a sabedoria sim. Neste acampamento para artistas, fico muito contente que a beleza vem a tona na primeira leitura, pois existe entre a arte e o belo, uma relação muito estreita. O autor de toda e qualquer beleza é o próprio Deus. Deus é o belo por excelência. Mas ao mesmo tempo, Deus não é somente o belo, mas também o sumo bem. Em Deus o belo e o bem se coincide, se identificam perfeitamente, Deus é belo porque é bom, e ao mesmo tempo a beleza de Deus se manifesta na sua bondade. O bem exerce uma força atrativa, por isso é que em Deus o belo e o bem se identificam, a autêntica beleza atrai. A beleza passageira nos atrai temporariamente, mas a autêntica, verdadeira nos atrai profundamente, pois ela esta totalmente entrelaçada com o bem, e percebemos que aquela arte manifesta o belo e o bem. É importante que o mundo contemple o belo e por ela o mundo se salve, a nossa arte deve estar a serviço do bem. O artista que se compromete a serviço de Deus, faz uma arte para o bem. Ética e estética, o bem e o belo em Deus se coincide. Um artista católico deve suplicar o dom da sabedoria, para que sua arte feita com sabedoria, manifeste o belo e salve o mundo do desespero e passe o bem. O verdadeiro artista não pode achar que basta colocar em prática alguns mandamentos de Deus, vemos que o homem rico praticava todos os mandamentos, mas era um frustrado, pois era escravo da sua riqueza. Arista se você tem alguma escravidão dento do seu coração, suplique ao Espírito de Deus pelo dom da sabedoria, para que possa atrair as pessoas para o belo que é Deus. Eu invoco o Espírito de Sabedoria para os artistas, para que sua arte esteja comprometida com o bem e não somente o belo. Pois quando a arte se compromete apenas com o belo, sem se comprometer com o bem, levam as pessoas para o desespero. É o Espírito que provoca o artista para se comprometer com o belo e ao mesmo tempo com o bem.

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