Nossa Senhora do Rosário – 07 de Outubro

Por Pe. Inácio José Schuster

A Tradição tem sublinhado o paralelo entre a Virgem Maria e Eva “mãe de todos os viventes”, entre o “fiat”, faça-se da Anunciação e a desobediência que é causa decisiva do “Pecado Original”. Santo Efrém entoa à Virgem um hino: “Que em Maria se alegre toda a ordem dos profetas, pois as visões, nela encontram o término, as profecias sua realização, os oráculos sua força e seu cumprimento. (…) A árvore da vida que se escondia no meio do paraíso cresceu em Maria. Sua sombra abriga o mundo inteiro, ela oferece seus frutos, longe e perto”. A análise do texto, acentuada pela Tradição antiga como pelos comentadores contemporâneos, mostra que este paralelismo, longe de ser artificial, é o único que dá ao acontecimento seu alcance, absolutamente universal. “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus… a uma virgem desposada com um homem que se chamava José”. Segundo o costume judaico o termo desposada indica um matrimônio real, mas ainda não consumado: realidade não menos fundamental, e que será destacado desde a origem. Por isto escreve Santo Ambrósio: “A Escritura tem razão de especificar as duas coisas: que ela era desposada, e virgem: virgem, para que se saiba que não teve relações com um homem”. Se houve uma origem com um casal, Adão e Eva, no princípio da nova criação também há esta mulher e este homem, aliás, da casa de Davi. José não é só “da linhagem”, mas “da casa de Davi”, o que atesta ser Jesus o Messias tão esperado e anunciado pelos profetas. E isto se torna muito mais forte quando lemos: “O anjo Gabriel foi enviado por Deus”. Reservamos para o fim o que constitui o essencial do relato. A forma passiva do verbo mostra que a iniciativa vem de mais alto, acima do anjo Gabriel: do Deus Altíssimo. O anjo foi enviado por Ele para anunciar a concepção virginal daquele que se diz o “Enviado do Pai”. “Ave, cheia de graça”, fazendo notar que se Maria é efetivamente “cumulada de graça”, isto não provem dela, mas que o verdadeiro sujeito é Deus e sua benevolência suprema para com a humilde Virgem. É o poder transformante deste olhar divino e, portanto, criador. Enfim, a forma verbal, perfeito passivo, mostra que esta graça tinha sido definitivamente concedida. O que dela nascerá é o “Filho do Altíssimo” e seu “Reino não terá fim”.  “Pai celestial, Vós nos ofereceis com abundância a graça, a misericórdia e o perdão através do vosso Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. Ajudai-me a viver a graça de, como Nossa Senhora, corresponder às vossas promessas e dizer meu irrestrito “sim” à vossa vontade e ao vosso plano de amor”.

 

Nossa Senhora do Rosário: É preciso meditar sobre os Mistérios da Salvação

O santo, que nascer de ti, será chamado Filho de Deus (cf. Lc 1, 35), fonte de sabedoria, o Verbo do Pai nas alturas! Este Verbo, através de ti, Virgem santa, se fará carne, de modo que aquele que diz: Eu no Pai e o Pai em mim (Jo 10,38), dirá também: Eu saí do Pai e vim (Jo 16, 28). No principio, diz João era o Verbo. Já borbulha a fonte, mas por enquanto apenas em si mesma. Depois, o Verbo era com Deus (Jo 1, 1), habitando na luz inacessível. O Senhor dizia anteriormente: Eu tenho pensamento de paz e não de aflição (cf. Jr. 29, 11). Mas teu pensamento esta dentro de ti, ó Deus, e não sabemos o que pensas; pois quem conheceu a mente do Senhor ou quem foi seu conselheiro? (cf. Rm 11, 34). Desceu, por isso, o pensamento da paz para a obra da paz: O Verbo se fez carne e já habita em nós (Jo 1, 14). Habita totalmente pela fé em nossos corações, habita em nossa memória, habita no pensamento e chega a descer ate a imaginação. Que poderia antes o homem pensar sobre Deus, a não ser talvez fabricando um ídolo no coração? Era incompreensível e inacessível, invisível e inteiramente impensável: agora, porem, quis ser compreendido, quis ser visto, quis ser pensado. De que modo perguntas? Por certo, reclinado no presépio, deitado ao colo da Virgem, pregando no monte, pernoitando em oração; ou pendente da cruz, pálido na morte, livre ao terceiro dia, mostrando aos apóstolos as marcas dos cravos, sinais da vitória, e, por ultimo, diante deles subindo ao mais alto do céu. O que não se poderá pensar verdadeira, piedosa e santamente disto tudo? Se penso algo destas realidades, penso em Deus e em tudo ele é meu Deus. Meditar assim, considero sabedoria, e tenho por prudência renovar a lembrança da suavidade que, em essência tão preciosa, a descendência sacerdotal produziu copiosamente, e que, haurindo do alto, Maria trouxe para nós em profusão (Dos Sermões de São Bernardo, abade. Séc. XII, Liturgia das Horas).

Nos mistérios do Rosário, contemplamos todas as fases do Evangelho: Os mistérios gozosos retratam as meditações da anunciação do Anjo a Nossa Senhora, visitação de Maria à Santa Isabel, nascimento triunfante de Jesus,  sua apresentação no templo e Jesus, entre os doutores da lei. Nos mistérios dolorosos contemplamos a agonia de Jesus no horto,  flagelação de Jesus, a coroação de espinhos,  o calvário, a crucificação e morte de Jesus. Nos mistérios gloriosos, a Ressurreição de Jesus, a sua Ascensão aos céus, a vinda do Espírito Santo sobre Maria e os Apóstolos,  a Sua Assunção  e gloriosa  Coroação. E, sob inspiração maternal de Nossa Senhora, no dia 16/10/2002,  pela Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae, que Sua Santidade o Papa João Paulo II acrescentou ao Rosário os Mistérios Luminosos, que retratam a vida pública de Jesus, desde o seu batismo no Jordão, o primeiro milagre nas Bodas de Caná, proclamação do reino, transfiguração e  instituição da Eucaristia.
Estes mistérios foram inseridos entre os mistérios  gozosos e os dolorosos, formando um perfeito complemento da meditação da Bíblia. Peçamos a Maria Santíssima a graça de sermos não só fiéis propagadores, mas principalmente perseverantes na prática de sua recitação, e que tenhamos sempre o desejo inflamado de rezá-lo sempre com muito entusiasmo e alegria. E que tenhamos a convicção de que o Rosário une o tempo à eternidade, a cidade terrena à cidade de Deus.

Oração a Nossa Senhora do Rosário: Nossa Senhora do Rosário dai a todos os cristãos, a graça de compreender a grandiosidade da devoção do Santo Rosário, na qual, à recitação da Ave Maria se junta à profunda meditação dos Santos mistérios da vida, morte e ressurreição de Jesus, vosso Filho e nosso Redentor.  São Domingos, apóstolo do rosário, acompanhe-nos com a vossa bênção, na recitação do terço, para que por meio desta devoção à Maria, cheguemos mais depressa a Jesus, e como na batalha de Lepanto, Nossa Senhora do Rosário nos leve à vitória em todas as lutas da vida; por seu Filho, Jesus Cristo, na unidade do Pai e do Espírito Santo. Assim Seja.
Nossa Senhora do Santo Rosário rogai por nós!

 

O SANTO ROSÁRIO

Se houver entre os ouvintes alguém que tenha mandado a uma pessoa amiga, rosas em sinal de afeição ou as tenha recebido como lembrança, apreciará certamente esta história duma prece. A humanidade sempre uniu instintivamente as alegrias e as rosas. Os pagãos coroavam as suas estátuas com rosas, como símbolos da oferta dos seus corações. Os adeptos da Igreja, nos seus primórdios, substituíram as rosas pelas orações. Nos tempos dos primeiros mártires – digo, “primeiros” porque a Igreja tem hoje mais mártires do que tinha nos primeiros quatrocentos anos – quando as jovens virgens caminhavam sobre a areia do Coliseu ao encontro da morte, vestiam-se com belos vestidos e adornavam a sua fronte com coroas de rosas, por irem jubilosas ao encontro do Rei dos Reis, pelo qual morriam. Os cristãos, depois de anoitecer, recolhiam as suas coroas de rosas e sobre estas oravam, rezando a cada rosa uma oração. No longínquo deserto, os Egípcios, os anacoretas e os eremitas contavam também as suas orações sob a forma de pequenos grãos reunidos à maneira de coroa. Maomé adotou esta prática para os seus maometanos. Do costume de se oferecerem ramos espirituais, nasceu uma série de orações conhecida por rosário, pois rosário significa “coroa de rosas”. Desde os primeiros dias que a Igreja pede aos fiéis: recitem os 150 salmos de Davi. Este uso conserva-se ainda em vigor entre os sacerdotes, porque são obrigados a recitar estes salmos que fazem parte do Breviário que rezam todos os dias. Mas não é fácil para todas as pessoas recordar os cento e cinqüenta salmos. Além disso, antes da invenção da imprensa, era difícil encontrar-se um livro. Eis porque alguns livros importantes como a Bíblia estavam acorrentados, à maneira das listas telefônicas nas estações ferroviárias; de contrário furtá-las-iam.
O fato de a Bíblia estar acorrentada fez nascer a estúpida mentira de que a Igreja não queria permitir a ninguém que a lesse. Afinal, ela estava presa para que as pessoas a pudessem ler e consultar. Também a lista dos telefones está presa, e, no entanto é um dos livros mais largamente consultados nas sociedades modernas. As pessoas que não podiam aprender os 150 salmos, quiseram fazer qualquer coisa que pudesse, de algum modo, substituir esta prática. E substituíram-nos por 150 “Ave-Marias”, subdivididas em quinze dezenas. Cada uma das dezenas devia ser recitada ao mesmo tempo em que se meditavam os vários aspectos da vida de Nosso Senhor. Para se manterem as dezenas separadas, cada uma principiava por um “Pai Nosso”, e terminava com um “Glória”, em louvor da Santíssima Trindade. São Domingos, que morreu em 1221, recebeu de Nossa Senhora a ordem de pregar e popularizar a devoção em sufrágio das almas do purgatório, pela vitória sobre o mal e pela prosperidade da Santa Madre Igreja, e assim nos deu o rosário na sua forma atual. Já se tem objetado que há muitas repetições no rosário, e que o “Pai-Nosso” e a “Ave-Maria”, à força de repetidos, tornam-no monótono.
Isto me faz lembrar o caso duma mulher que veio procurar-me uma tarde; depois da preleção.
Disse-me: “Eu jamais me tornarei católica. Vós dizeis e repetis sempre as mesmas palavras no rosário, e quem repete as mesmas palavras não é sincero. Eu nunca acreditarei em tal pessoa. Tampouco Deus acreditará nela”.
Perguntei-lhe quem era o homem que a acompanhava.
Respondeu-me que era o seu noivo.
Perguntei-lhe ainda: “Ele gosta de si?”
“Oh! muito!”
“Mas como o sabe?”
“Ele me disse”.
“Então como foi que ele lhe disse?”
“Disse-me: te amo”.
“Quando lhe disse?”
“Há de haver uma hora”.
“Já o tinha dito antes?”
“Já. Ainda ontem à noite”.
“Que lhe disse ele?”
“Te amo”.
“Mas não lhe tinha já dito antes disso?”
“Diz-me todas as noites”.
Respondi-lhe: “Não acredite. Ele que repete, é porque não é sincero”.
A grande verdade é que não há repetição em “Eu te amo”, porque há um novo momento no tempo, um outro ponto no espaço, as palavras não têm o mesmo significado que da primeira vez. O amor nunca é monótono na uniformidade das suas expressões. O espírito é infinitamente variável na sua linguagem, mas o coração não o é. O coração do homem diante da mulher a quem ama, é demasiado pobre para traduzir a imensidade do seu afeto em palavras diferentes. Eis porque o coração emprega uma expressão apenas: “Amo-te” e dizendo-a muitas vezes nunca a repete. É a única novidade verdadeira do mundo. É isto que nós fazemos quando rezamos o rosário.
Repetimos à Santíssima Trindade, ao Verbo Encarnado, à Santíssima Virgem: “Amo-te”, “Amo-te”, “Amo-te”. Há uma beleza no rosário. Não é apenas uma oração vocal; é também uma oração mental. Tendes ouvido por vezes uma representação dramática na qual, ao mesmo tempo em que a voz humana fala, se faz ouvir em surdina uma música agradabilíssima a dar maior expressão e relevo às palavras. O rosário é assim. Enquanto se reza a oração, não se ouve a música, mas medita-se na vida de Cristo, aplicada à nossa vida e às nossas necessidades. Assim como o arame sustenta as redes das camas, assim a meditação segura a prece. Nós muitas vezes falamos com determinada pessoa, enquanto o nosso espírito pensa noutra, mas no rosário nós não rezamos apenas a oração; pensamos.
Belém, Galiléia, Nazaré, Jerusalém, Gólgota, Calvário, Monte das Oliveiras, Paraíso – tudo isto passa por diante dos nossos olhos, enquanto os nossos lábios oram. O rosário solicita os nossos dedos, os nossos lábios, o nosso coração numa vasta sinfonia de orações; é, por esse motivo, a maior oração que jamais foi composta pelo homem.

Do livro NOSSA SENHORA, transcrições de programas de rádio de D. Fulton Sheen (Bispo americano em processo de beatificação).

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