XXVII Domingo do tempo comum – Ano B

Por Frei Raniero Cantalamessa, OFM Cap.

E os dois serão uma só carne 
Gênesis 2, 18-24; Hebreus 2, 9-11; Marcos 10, 2-16

O tema deste XXVII Domingo é o matrimônio. A primeira leitura começa com as bem conhecidas palavras: «Disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma ajuda adequada». Em nossos dias, o mal do matrimônio é a separação e o divórcio, enquanto que nos tempos de Jesus o era o repúdio. Em certo sentido, este era um mal pior, porque implicava também uma injustiça com relação à mulher, que ainda persiste, lamentavelmente, em certas culturas. O homem, de fato, tinha o direito de repudiar a própria esposa, mas a mulher não tinha o direito de repudiar seu próprio marido. Duas opiniões se contrapunham, com relação ao repúdio, no judaísmo. Segundo uma delas, era lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo, ao arbítrio, portanto, do marido; segundo a outra, ao contrário, se necessitava de motivo grave, contemplado pela Lei. Um dia submeteram esta questão a Jesus, esperando que adotasse uma postura a favor de uma ou outra tese. Mas receberam uma resposta que não esperavam: «Tendo em conta a dureza de vosso coração [Moisés] escreveu para vós este preceito. Mas desde o começo da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso, deixará o homem seu pai e a sua mãe, e os dois serão uma só carne. De maneira que já não são dois, mas uma só carne. Pois bem, o que Deus uniu, o homem não separe». A lei de Moisés acerca do repúdio é vista por Cristo como uma disposição não querida, mas tolerada por Deus (como a poligamia ou outras desordens) por causa da dureza de coração e da imaturidade humana. Jesus não critica Moisés pela concessão feita; reconhece que nesta matéria o legislador humano não pode deixar de levar em conta a realidade de fato. Mas volta a propor a todos o ideal originário da união indissolúvel entre o homem e a mulher («uma só carne») que, ao menos para seus discípulos, deverá ser já a única forma possível de matrimônio. Contudo, Jesus não se limita a reafirmar a lei; acrescenta-lhe a graça. Isto quer dizer que os esposos cristãos não têm só o dever de manter-se fiéis até a morte; têm também as ajudas necessárias para fazê-lo. Da morte redentora de Cristo vem uma força — o Espírito Santo — que permeia todo aspecto da vida do crente, inclusive o matrimônio. Este inclusive é elevado à dignidade de sacramento e de imagem viva de sua união esponsalícia com a Igreja na cruz (Ef 5, 31-32). Dizer que o matrimônio é um sacramento não significa só (como com freqüência se crê) que nele está permitida e é lícita e boa a união dos sexos, que fora daquele seria desordem e pecado; significa — mais ainda — dizer que o matrimônio se converte em um modo de unir-se a Cristo através do amor ao outro, um verdadeiro caminho de santificação. Esta visão positiva é a que mostrou tão felizmente o Papa Bento XVI em sua Encíclica «Deus caritas est», sobre amor e caridade. O Papa não contrapõe nela a união indissolúvel no matrimônio a outra forma de amor erótico; mas a apresenta como a forma mais madura e perfeita desde o ponto de vista não só cristão, mas também humano. «O desenvolvimento do amor para com suas altas cotas e sua mais íntima pureza — diz — leva a que agora se aspire ao definitivo, e isto em um duplo sentido: enquanto implica exclusividade — só esta pessoa –, e no sentido do “para sempre”. O amor engloba a existência inteira e em todas as suas dimensões, inclusive também o tempo. Não poderia ser de outra maneira, já que sua promessa aponta para o definitivo: o amor tende à eternidade.» [n. 6] Este ideal de fidelidade conjugal nunca foi fácil (adultério é uma palavra que ressoa sinistramente até na Bíblia); mas hoje a cultura permissiva e hedonista na qual vivemos o tornou imensamente mais difícil. A alarmante crise que a instituição do matrimônio atravessa em nossa sociedade está à vista de todos. Legislações civis, como a do governo espanhol, que permitem (e indiretamente, de tal forma, estimulam!) iniciar os trâmites de divórcio apenas poucos meses depois de vida em comum. Palavras como: «estou farto desta vida», «se é assim, cada um por si!», «vou embora», já se pronunciam entre cônjuges diante da primeira dificuldade (dito seja de passagem: creio que um cônjuge cristão deveria acusar-se em confissão do simples fato de ter pronunciado uma destas palavras, porque o simples fato de dizer é uma ofensa à unidade e constitui um perigoso precedente psicológico). O matrimônio sofre nisso a mentalidade comum do «usar e jogar fora». Se um aparelho ou uma ferramenta sofre algum dano ou uma pequena avaria, não se pensa em repará-lo (desapareceram já aqueles que tinham estes ofícios), pensa-se só em substituir. Aplicada ao matrimônio, esta mentalidade resulta mortífera. O que se pode fazer para conter esta tendência, causa de tanto mal para a sociedade e de tanta tristeza para os filhos? Tenho uma sugestão: redescobrir a arte do remendo! Substituir a mentalidade do «usar e jogar fora» pela do «usar e remendar». Quase ninguém faz remendos mais. Mas se não se fazem já na roupa, deve-se praticar esta arte do remendo no matrimônio. Remendar os desgarrões. E remendá-los rapidamente. São Paulo dava ótimos conselhos ao respeito: «Se vos irais, não pequeis; não se ponha o sol enquanto estejais irados, nem deis ocasião ao Diabo», «suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente se algum tem queixa contra outro», «ajudai-vos mutuamente a levar vossas cargas» (Ef 4, 26-27; Col 3, 13; Ga 6, 2). O importante que se deve entender é que neste processo de desgarrões e recosidos, de crises e superações, o matrimônio não se gasta, mas se afina e melhora. Percebo uma analogia entre o processo que leva a um matrimônio exitoso e o que leva à santidade. Em seu caminho rumo à perfeição, nenhum impulso, tem aridez estão vazios, fazem tudo à força de vontade e com fadiga. Depois desta, chega a «noite escura do espírito», na qual não entra em crise só o sentimento, mas também a inteligência e a vontade. Chega-se a duvidar de que se esteja no caminho adequado, se é que acaso não foi tudo um erro, escuridão completa, tentações sem fim. Segue-se adiante só por fé. Então tudo se acaba? Ao contrário! Tudo isto não era senão purificação. Depois de passar por estas crises, os santos percebem quão mais profundo e mais desinteressado é agora seu amor a Deus, com relação ao do começo. A muitos casais não será custoso reconhecer nisso sua própria experiência. Também terão atravessado freqüentemente, em seu matrimônio, a noite dos sentidos, na qual falta todo êxtase daqueles, e se alguma vez houve, é só uma lembrança do passado. Alguns conhecem também a noite do espírito, o estado em que entra em crise até a opção de fundo e parece que não se tem já nada em comum. Se com boa vontade e a ajuda de alguém se conseguem superar estas crises, percebe-se até que ponto o impulso e o entusiasmo dos primeiros dias era pouca coisa, com relação ao amor estável e a comunhão amadurecidos nos anos. Se primeiro o esposo e a esposa se amavam pela satisfação que isso lhes procurava, hoje talvez se amam um pouco mais com um amor de ternura, livre de egoísmo e capaz de compaixão; amam-se pelas coisas que passaram e sofreram juntos.

 

Evangelho segundo São Marcos 10, 2-16
Aproximaram-se uns fariseus e perguntaram-lhe, para o experimentar, se era lícito ao marido divorciar-se da mulher. Ele respondeu-lhes: «Que vos ordenou Moisés?» Disseram: «Moisés mandou escrever um documento de repúdio e divorciar-se dela.» Jesus retorquiu: «Devido à dureza do vosso coração é que ele vos deixou esse preceito. Mas, desde o princípio da criação, Deus fê-los homem e mulher. Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher, e serão os dois um só. Portanto, já não são dois, mas um só. Pois bem, o que Deus uniu não o separe o homem.» De regresso a casa, de novo os discípulos o interrogaram acerca disto. Jesus disse: «Quem se divorciar da sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher se divorciar do seu marido e casar com outro, comete adultério.» Apresentaram-lhe uns pequeninos para que Ele os tocasse; mas os discípulos repreenderam os que os haviam trazido. Vendo isto, Jesus indignou-se e disse-lhes: «Deixai vir a mim os pequeninos e não os afasteis, porque o Reino de Deus pertence aos que são como eles. Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como um pequenino, não entrará nele.» Depois, tomou-os nos braços e abençoou-os, impondo-lhes as mãos.

Por Pe. Fernando José Cardoso

O plano de Deus na criação do homem e da mulher nos vem hoje manifestado na liturgia da Palavra. O texto de Gênesis é ao mesmo tempo ingênuo e saboroso, na sua ingenuidade e no seu simbolismo, fala-nos muito mais fortemente do que uma linguagem conceitual. Deus havia colocado o cenário para os seres humanos, a seguir cria o homem a sua imagem e semelhança, mas o homem estava sozinho, não encontrava alguém que fosse semelhante a si. É verdade, possuía os animais, a amizade do cachorro, mas este infelizmente não fala, não entende. Deus percebeu a solidão de Adão: “Não é bom que o homem esteja só”. Envia-lhe um sono profundo e quando Deus lhe constrói Eva, Adão está dormindo, isto significa para o texto, que Eva é um mistério para Adão, a mulher é um mistério para o homem. Mas isto também quer dizer que Deus a partir daquele momento, desejou o homem conjugal, o homem unido a sua mulher. Além do mais, o texto nos diz que ela foi feita da costela do homem. A costela é um osso que guarda o coração; ela foi retirada do coração do homem, da ternura do homem, embora seja um mistério para o homem. Adão quando a vê pela primeira vez, prorrompe numa exclamação de júbilo: “Esta sim é carne da minha carne e osso dos meus ossos”. E Deus os criou de tal maneira que um se complementa plenamente no ser do outro. De lá para cá o que aconteceu com o plano de Deus? É verdade, a primeira ordem dada por Deus ao primeiro casal, ainda hoje é pontualmente obedecida por todos: “Crescei, multiplicai-vos, enchei e dominai a terra”. Mas o que aconteceu de lá para cá com inúmeros casais? Fixemo-nos na modernidade. Nós possuímos, por exemplo, casais que são semelhantes ao mar morto, isto é, não geram nova vida, casais que são semelhantes a hotéis e restaurantes, só se encontram na cozinha, na frente da geladeira ou comendo às pressas alguma coisa. Nós possuímos casais mudos que quase nunca falam, ou pelo menos nada de construtivo dali nada provém. Deus hoje deseja que todos os casais sejam a cópia fiel daquilo que se propôs no início: fiéis, com a fidelidade do próprio Cristo para com a Sua Igreja e da Igreja para com Cristo e todos estes a serviço da própria vida. Cada um dos casais medite neste domingo e se ponha a refletir como é sua vida conjugal, se ela se aproxima, ou se ela se afasta do plano original que tinha Deus ao criar Adão e Eva.

 

«Deixai vir a Mim os pequeninos»
Concílio Vaticano II
Declaração sobre a educação cristã, «Gravissimum Educationis», 3

Os pais, que transmitiram a vida aos filhos, têm uma gravíssima obrigação de educar a prole e, por isso, devem ser reconhecidos como seus primeiros e principais educadores. Esta função educativa é de tanto peso que, onde não existir, dificilmente poderá ser suprida. Com efeito, é dever dos pais criar um ambiente de tal modo animado pelo amor e pela piedade para com Deus e para com os homens, que favoreça a educação integral, pessoal e social, dos filhos. A família é, portanto, a primeira escola das virtudes sociais de que as sociedades têm necessidade. Mas é, sobretudo na família cristã, ornada da graça e do dever do sacramento do matrimônio, que os filhos devem ser ensinados, desde os primeiros anos, segundo a fé recebida no batismo, a conhecer e a adorar a Deus, e a amar o próximo; é aí que eles encontram a primeira experiência, quer da sã sociedade humana, quer da Igreja; é pela família, enfim, que são a pouco e pouco introduzidos no consórcio civil dos homens e no Povo de Deus. Caiam, portanto os pais na conta da importância da família verdadeiramente cristã na vida e no progresso do próprio Povo de Deus.

 

Matrimônio cristão: homem, mulher e Deus
XXVII DOMINGO do tempo comum (Marcos 10, 2-16)
Dom Jesús Sanz Montes, ofm, bispo de Huesca e Jaca (Espanha)

Este domingo nos apresenta uma incômoda página evangélica na qual Jesus se distancia de uma verdade que dependa da manipulável opinião coletiva. Nossa época é uma época montada no cavalo do relativismo subjetivo: as coisas já não “são”, mas “parecem que são”. A verdade reside no que a maioria pensa, no que a maioria decide, no que a maioria rejeita. De modo que a nova sabedoria se chama “estatística” e seu seio de partida são as urnas. As conseqüências educativas, sociais, políticas e familiares destes princípios são impressionantes. Qual era o costume entre os judeus sobre o casamento? Que tal união poderia ser dissolvida, quase sempre em benefício do homem e, às vezes, por razões extremamente pitorescas, como a mulher ter queimado a comida. O fato é que alguns fariseus se aproximam de Jesus, e para colocá-lo à prova, perguntam-lhe: é lícito para um homem divorciar-se de sua mulher? Como em outras ocasiões, os fariseus não se interessavam pela instituição do matrimônio, ou os direitos da mulher, nem sequer os do homem neste caso, mas por ver como Jesus responderia a uma pergunta tão habilmente capciosa. Se respondesse que não era lícito, opor-se-ia a importantes escolas rabínicas, e uma majoritária prática por parte de tantos judeus (começando pelo próprio Herodes, que vivia adulteramente com a mulher de seu irmão, cuja denúncia custou a vida do Batista). Se respondesse que era lícito, podiam reprová-lo por ir contra o Gênesis como projeto originário de Deus. A resposta de Jesus foi clara: a verdade é a verdade, independentemente do que digam as pesquisas de opinião, a prática da maioria ou qualquer mostra estatística. O proposto por Jesus a esse respeito não se trata de uma pedra no pescoço, mas de estar sempre começando, ou seja, estar sempre alimentando a chama que um dia fez nascer o amor entre duas pessoas. Nem o amor nem o ódio podem ser improvisados: a indiferença é fruto de um desprezo, de ter apagado lentamente o fogo do amor. O dia do casamento é o dia em que um homem e uma mulher começam a casar-se, repetindo-se cada dia, em cada circunstância, aquele “sim” que foi somente o ponto de partida. Pelo complexo que tantas vezes é ser fiel, perdoar, acolher, voltar a começar, Deus não assiste ao casamento como espectador, mas como quem contrai (é um sacramento): o matrimônio cristão é coisa de três, o homem, a mulher e Deus. O que é impossível tantas vezes para o casal humano, Deus – que também faz parte desse matrimônio – o faz possível.

 

VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM
Mc 10, 2-16 “O que Deus uniu, o homem não deve separar”

Continuando a sua caminhada rumo a Jerusalém, onde o poder central religioso-político vai condená-lo à morte no intuito de acabar não somente com a pessoa d’Ele, mas com o seu ensinamento, Jesus, no texto de hoje, entra primeiro em controvérsia com os fariseus, os guardiães da prática fiel da Lei. Estes, que gozavam de grande prestígio diante da população mais simples, se outorgavam o direito de serem os únicos intérpretes autênticos da vontade de Deus. Por isso, entram em conflito com Jesus, não na busca de conhecer melhor a vontade do Pai, mas, como ressalta o texto “para tentá-lo” (v. 2). O campo de batalha escolhido era o debate sobre o divórcio. O texto de referência para eles era Dt 24,1-4, onde não se trata da legitimidade do divórcio, mas dos critérios para que possa acontecer. O evangelho de Mateus, no Capítulo 19, deixa mais claro do que Marcos o sentido do debate (Mt 19, 1-9). O pano de fundo eram os critérios necessários para que um homem pudesse se divorciar de sua mulher (nem se cogitava na época que a mulher pudesse se divorciar do marido, pois a mulher era considerada “um bem” que pertencia ao homem!). No tempo de Jesus havia duas tendências, simbolizadas pelas escolas rabínicas dos grandes fariseus Hillel e Shammai. Uma escola, mais laxista (Hillel), ensinava que se podia divorciar a mulher por qualquer motivo, mesmo sendo dos mais banais – por ter queimado a comida era um exemplo. A escola mais rigorosa – do Shammai – só permitia o divórcio por motivos muito sérios. Por isso, em Mateus a pergunta se define melhor: “é permitido divorciar a mulher por qualquer motivo que seja?” (Mt 19, 4). Em ambos os Evangelhos, Jesus se recusa a entrar no debate casuístico que cercava a questão, e se limitava a reafirmar o projeto do Pai para o casamento: “Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar”. Aqui Jesus reafirma com toda firmeza o ideal do casamento cristão – uma união permanente baseada no amor e fortalecida pela graça do sacramento. Seria inútil buscar neste trecho uma teologia mais desenvolvida do casamento, muito menos orientações pastorais para os problemas práticos de casamentos malsucedidos, pois isso não foi a intenção do autor. Marcos simplesmente reafirma o princípio de que “o que Deus uniu, o homem não deve separar”. Deixa em aberto a questão de quando é que Deus realmente uniu o casal! Será que, só porque passaram por uma cerimônia validamente celebrada, um casal é necessariamente unido por Deus? Os problemas reais são muito mais complexos, angustiantes e difíceis de serem solucionados. O trecho continua com a questão das crianças. A questão aqui não é a criança como símbolo da inocência, mas de dependência. As crianças e os que se assemelham com eles vivem esta situação de dependência, de “sem-poder”. Quem quer entrar no Reino de Deus terá que despojar-se de todo o poder dominador, tornando-se como criança. Negando aceitar a situação em que a mulher era simples objeto de posse do homem e assim passível de ser divorciada, e propondo o fraco e dependente como modelo, numa sociedade que valorizava o prepotente, Jesus mostra que os valores do Reino de Deus estão na contra-mão dos valores da sociedade do seu tempo – e de hoje. Propõe uma igualdade de dignidade entre homem e mulher, uma fidelidade e compromisso permanentes, e a busca de uma vida de serviço e não de dominação! Realmente, uma proposta no contra-fluxo da sociedade pós-moderna que nega o permanente, perpetua o machismo e admira o poderoso e dominador! O texto de hoje nos convida para que entremos “com Jesus, na contramão” e para que criemos uma sociedade baseada em outros valores do que os hoje em vigor, às vezes até no seio das próprias Igrejas. Continua muito atual o dilema enfrentado pelos autores bíblicos em livros como Eclesiástico e Sabedoria – como ser fiel aos valores da fé num mundo profundamente materialista e egoísta. Não será possível sem que aprofundemos a nossa caminhada no discipulado de Jesus, alimentando-nos com a Palavra de Deus, em diálogo com esta e com a sociedade que nos cerca.

 

27º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano B
Padre Wagner Augusto Portugal

“Senhor, tudo está em vosso poder, e ninguém pode resistir à vossa vontade. Vós fizestes todas as coisas: o céu, a terra e tudo o que eles contêm; sois o Deus do universo!” (Est 1, 9ss).

Irmãos e Irmãs,
A liturgia deste domingo nos convida a refletir sobre a família e o matrimônio cristão. Celebramos, com júbilo, o Deus da aliança e o dom da união matrimonial dos casais que também procuram viver a missionariedade. Vamos refletir sobre o discipulado – ser discípulo: o matrimônio segundo o projeto de Deus, para que enquanto família cristã sejamos todos discípulos-missionários. O tema, portanto, é o matrimônio sob a vontade de Deus. Jesus veio trazer presente o Reino de Deus, também quanto ao sacramento do matrimônio: é preciso que seja o matrimônio restaurado no sentido que Deus mesmo lhe concebeu, desde o início. Este sentido se encontra descrito na primeira Leitura que hoje lemos retirada de Gn 2, 18-24. Preocupado com a felicidade e Adão, “o Homem”, Deus lhe procura uma companhia, uma companheira, mas como entre os outros seres vivos não a encontra, faz a mulher, da “metade” do homem. Este episódio significa a complementaridade de homem e mulher, que se transforma numa unidade de vida, numa única carne, quando o homem opta por uma mulher e, por causa desta opção, deixa sua família de origem e a segurança que seus pais lhe oferecia. Sai de casa para casar sendo um risco e um compromisso. A Sagrada Escritura coloca o matrimônio não como um contrato que pode ser dissolvido. Ao contrário o matrimônio é uma comunhão de amor e uma comunhão de vida entre o homem e a mulher, com vínculos indissolúveis, para toda a vida, tendo por fim a edificação de uma família, com a concepção de filhos que enriqueça o lar e adorne de filhos a família abençoada.

Meus queridos Irmãos,
Dois grandes momentos são vividos no Evangelho de hoje (Mc. 10,2-16). O primeiro momento é a fidelidade do ser humano a Deus. Naturalmente cada criatura humana deve ser fiel ao Deus que lhe concede, com misericórdia e amor, o dom da vida. Ser fiel é condição primeira para ser discípulo. Fidelidade que se manifesta nas pequenas e nas grandes coisas e, obras que constroem o Reino de Deus entre nós. Fidelidade a Deus, fidelidade aos Santos Evangelhos, fidelidade ao projeto de salvação, fidelidade ao Reino de Deus que acontece e realiza aqui na terra tendo a sua plenitude no céu. O segundo momento é muito nítido: a fidelidade matrimonial como uma expressão de fidelidade ao Senhor Deus. Fidelidade matrimonial, que é casamento para toda a vida, casamento indissolúvel. Em tempos em que as pessoas experimentam o verbo “ficar”, sem nenhum compromisso de vida a dois, de cumplicidade, de amassar um caminhão de cimento, para solidificar a casa chamada Igreja doméstica, é necessário subir aos telhados das Igrejas, dos Templos, dos Edifícios, dos shopping centers, de nossos canais de televisão, de nossas rádios, da rede mundial de computadores e anunciar a verdade sempre nova e sempre atual: o matrimônio católico e cristão, querido por Nosso Senhor Jesus Cristo e por Ele instituído, elevado à condição de Sacramento, é o matrimônio entre o homem e a mulher, que tem por finalidade a comunhão de amor e a comunhão de vida, tendo por escopo a bênção de Deus com a edificação de uma família que tem duas graças importantes: a bênção do lar e a perenidade da humanidade por Deus edificada. O relacionamento abençoado entre um homem e uma mulher é a sede propícia para se exercer a renúncia a si mesmo e aos próprios interesses (cf. Mc 8,34), bem como operacionalizar a disponibilidade ao serviço(cf. Mc 9,35) e a dedicação fiel e sem restrições(cf. Mc 9,43-48).

Por isso, é necessário refletirmos sobre algumas realidades. O que é ser fiel? A fidelidade começa com nossa ação de graças a Deus pelo batismo que recebemos, pela nossa vida, pela nossa fé católica e apostólica. Fidelidade que é exteriorizada por uma autêntica vida de fé em que, fé e vida pessoal, sejam uma única realidade, dando testemunho das verdades eternas. O projeto de Deus para cada um de nós exige reciprocidade e fidelidade, fidelidade a Deus, fidelidade ao Reino, fidelidade ao Evangelho. Por isso cantemos com Jesus: “Meu alimento é fazer a vontade do Pai”(cf Jo 4,34).O ponto que a liturgia hoje coloca como central é o matrimônio como símbolo da nossa fidelidade a Deus. Deus celebra uma aliança com a criatura humana, isto é, um pacto como no casamento, ao qual se espera fidelidade de ambos os lados, repito de ambos os lados, do homem e da mulher. Fidelidade que requer sacrifícios, renúncias, sofrimento, mas, também, alegrias, esperanças, felicidades. A alma da fidelidade e, portanto, o amor fraterno, tornando-se, por si só, prova suprema de amor.

Estimados Irmãos e Estimadas Irmãs,
É possível um divórcio para os católicos? Evidentemente que o divórcio não pode ser admitido entre os católicos. É da essência do casamento católico a constituição de uma união indissolúvel, constituindo-se comunidade de vida e comunidade de amor.

O divórcio no tempo de Jesus era uma questão recorrente. Herodes vivia em adultério com a sua cunhada Herodíades. Jesus não entrou diretamente na questão do divórcio. Entretanto, Jesus falou de Moisés e reafirma a indissolubilidade, para não entrar em briga e disputa, nem com Herodes e nem com os escribas. Jesus reafirma: “desde o começo da criação Deus os fez homem e mulher”. Assim Jesus ensinou que o homem se casa com a mulher uma única vez. Por que isso? Para que o homem e a mulher sejam capazes de um compromisso mútuo e de uma comunhão plena, em pé de igualdade, com direitos e obrigações iguais. Formam uma só carne, muito mais do que a junção de dois corpos. Trata-se da união das pessoas como um todo, como uma só família, uma só pessoa, formando uma comunhão de amor e uma comunhão de vida. O MANDATO DE JESUS SOBRE O MATRIMÔNIO É EXPLÍCITO: “AOS CASADOS ORDENO, NÃO EU, MAS O SENHOR, QUE A MULHER NÃO SE SEPARE DO MARIDO E O MARIDO NÃO REPUDIE SUA MULHER”(cf. 1Cor 7,10-11). O homem moderno, utilitarista e imediatista, perdeu o senso da durabilidade do matrimônio. Mas a Igreja, depositária das verdades evangélicas, não se curva ao hedonismo e ao sexo livre, sem compromisso e bênção de Deus. Que a “dureza do coração” que indica fechamento do coração da criatura humana para Deus nos renove o compromisso de nos abrirmos à reconciliação e a graça de Deus nos tornando como crianças em que Cristo as abraça com carinho, simbolizando o discípulo perfeito que é liberto de seus egoísmos, de seus interesses, de suas pretensões, ganâncias, duplicidade de coração e de mente. Vamos ser como as crianças e aceitar a vontade de Deus que nos pede uma volta ao Evangelho: senso de retorno ao compromisso com Jesus e com a nossa salvação, a fidelidade e o amor.

Meus irmãos,
A segunda leitura(Hb 2,9-11) nos fala que Jesus é o sacerdote, o santificador, por excelência, por serem sua humanidade e o despojamento os instrumentos pelos quais ele santifica toda a condição humana. Santificou-nos por sua fraternidade conosco. O Santo Padre Bento XVI assim se expressou sobre o matrimônio, no discurso aos Bispos do Regional Nordeste 1 e 4 da CNBB, no dia 25 de setembro último: “a família assentada no matrimônio, como «aliança conjugal na qual o homem e a mulher se dão e se recebem» (cf. Gaudium et spes, 48). Instituição natural confirmada pela lei divina, está ordenada ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole, que constitui a sua coroa (cf. ibid., 48). Pondo em questão tudo isto, há forças e vozes na sociedade atual que parecem apostadas em demolir o berço natural da vida humana”. Continua o Santo Padre: “A Igreja não pode ficar indiferente diante da separação dos cônjuges e do divórcio, diante da ruína dos lares e das consequências criadas pelo divórcio nos filhos. Estes, para ser instruídos e educados, precisam de referências extremamente precisas e concretas, isto é, de pais determinados e certos que de modo diverso concorrem para a sua educação. Ora, este princípio que a prática do divórcio está minando e comprometendo com a chamada família alargada e móvel, que multiplica os «pais» e as «mães» e faz com que hoje a maioria dos que se sentem «órfãos» não sejam filhos sem pais, mas filhos que os têm em excesso. Esta situação, com as inevitáveis interferências e cruzamento de relações, não pode deixar de gerar conflitos e confusões internas contribuindo para criar e gravar nos filhos uma tipologia alterada de família, assimilável de algum modo à própria convivência por causa da sua precariedade.” Portanto, Deus deseja tocar o ser humano que nasce através do amor dos pais. Desta forma, Deus está acolhendo, tocando e abençoando os filhos. Os pais representam o próprio Deus para o filho que nasce. A imagem de Deus que os esposos transmitem deve ser uma imagem de Deus-Amor, Deus-bondade, Deus-vida. Tudo isso é dom, é graça, que a comunidade deseja agradecer, pedir que conserve nos casados e desejar, pedindo a graça a Deus, para os jovens, que, um dia, hão de seguir a Cristo no estado de vida do Matrimônio, indissolúvel e para toda a vida. Assim seja!

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