Santa Teresinha do Menino Jesus – 01 de Outubro

MODELO MISSIONÁRIO    

Celebramos hoje a Festa da Santa mais amada do povo cristão.  Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, foi uma menina cheia de entusiasmo, e animada por uma vontade perseverante entrou no Carmelo com apenas 15 anos de idade, quebrando as normas do Direito Canônico de seu tempo.  Aos 24 anos, há 108 anos atrás, depois de uma longa enfermidade causada por uma tuberculose, morreu Ir. Teresa no seu mosteiro de Lisieux.  Teresa soube, completamente, esquecer-se de si mesma. Toda a sua vida foi uma permanente atenção ao mistério de Deus em seu coração, e ao amor pelos irmãos amados como templos vivos do Altíssimo.  Ela, como Jesus no alto da cruz, pensava nos outros. “Quando estiver no céu, farei cair sobre a terra uma chuva de rosas”. É esta chuva de rosas que se transforma em bênçãos, que a “pequena via da infância espiritual”, deixada como herança a uma humanidade atormentada, tornou uma presença constante de Teresa no seio da Igreja (“Não quero ser uma santa pela metade. Quero ser uma santa por inteiro. No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor. E assim serei tudo”).  Santa Teresinha teve uma vida aparentemente vazia de acontecimentos importantes ou de fatos que poderiam chamar a atenção. Uma vida obscura e pálida, vivida no silêncio e na solidão dos muros do Carmelo.  Se existe um lugar onde não é possível autoprojetar-se é o Carmelo. A vida de clausura ou absoluto distanciamento com o mundo e seus problemas, a falta de contato com as pessoas, faz da carmelita alguém que quer ser fermento invisível na grande massa da humanidade, humanidade que corre o risco de não fermentar por falta de força vital e de ideais que saibam contagiar e transformar a monotonia da sociedade sempre, preocupada mais em aparecer do que em ser (Vida da Comunidade Paroquial).  Irmã Teresa do Menino Jesus, durante os seus 9 anos de Carmelo não ocupou nenhum lugar ou cargo importante dentro do mesmo. Não foi apreciada pelos seus dotes. Considerada uma menina arteira e cabeçuda, às vezes cheia de manhas como qualquer criança, foi tremendamente mimada em sua infância.  A sua simplicidade escandalizava as monjas mais exigentes, fazia sorrir as mais espertas e suscitava admiração nas mais espirituais.  Como encarregada de preparar e limpar o refeitório do convento, o seu trabalho era com a vassoura, atrás da qual sempre procurou ficar escondida; depois foi colocada como ajudante da sacristã, substituindo eventualmente a responsável. Também como ajudante na formação das noviças e segunda porteira do convento.  Hoje mais do que nunca, se pede a nossa atenção à atividade apostólica. Olhando o mundo, as milhares de pessoas que vivem no desconhecimento de Cristo, nos perguntamos, com angústia, o que podemos fazer para que o Cristo seja amado por todos os homens.  O afã de fazer invadiu nossa vida, a vida dos apóstolos e da mesma Igreja, pois cremos que, só através das obras, podemos atingir o coração dos homens. No entanto, Jesus ao longo do Evangelho, fala-nos da luz que ilumina, do fermento que fecunda e da semente que lançada a terra brota por si mesma.  Teresa do Menino Jesus é questionadora. Ela que nem sequer deu uma aula de catequese, que não pregou o Evangelho, e que não ultrapassou o limiar do seu mosteiro, foi proclamada pela mesma Igreja Padroeira das Missões. Isto nos escandaliza e questiona a todos nós.  Teresa no seu ardor apostólico escreve: “Eu sinto a vocação de guerreiro, de sacerdote, de apóstolo, de doutor, de mártir; numa palavra, sinto necessidade, o desejo de realizar para ti Jesus, todas as ações mais heróicas…”.  A ousadia nasce da pobreza e da pequenez. Quanto mais pobres formos, mais nos tornaremos ousados diante do Senhor. “Embora a minha pequenez, quisesse iluminar as almas, como os Profetas, os Doutores, tenho a vocação de ser Apóstolo… quereria percorrer a terra pregando o teu nome, e implantar na terra infiel a tua cruz gloriosa, mas, ó meu Amado, uma só missão não me bastaria; eu quereria ao mesmo tempo anunciar o Evangelho nas cinco partes do mundo, até as ilhas mais remotas… quereria ser missionária não só por alguns anos, mas gostaria de tê-la sido desde a criação do mundo e sê-la até o fim do mundo”.  Esta é uma página que nos desconcerta pela sua força e coragem. Teresinha não é uma santa sem força e medrosa; ela lança-se na luta e doa tudo o que possui. Mas a vocação que Teresa mais sente ter no íntimo do seu coração é a de mártir: pois ela quer derramar até a última gota de sangue. Em verdade, o martírio é o sonho de sua juventude.  Durante toda a sua vida de carmelita, Teresa quis ser missionária, esperando ser enviada para o Vietnam, onde havia 2 mosteiros carmelitas historicamente ligados ao Carmelo de Lisieux: o de Saigão e o de Hanói. Ela queria ir para as missões como carmelita. As suas superioras reconheceram a sua vocação missionária, mas hesitavam por causa da sua saúde. Quando pensavam em envia-la, a sua saúde entrou de novo em crise e ela nem chegou a partir. Foi o seu último ano de vida.  Neste mês de outubro somos todos chamados a tomar maior consciência de nosso dever e empenho na obra missionária da Igreja, que recebeu de Cristo o mandato válido para todos os tempos: “Ide, fazei discípulos a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-lhes a guardar tudo o que Eu vos mandei. Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo”.  Na grande família de Deus nem todos O conhecem profundamente, porque muitos não foram atingidos pela Boa Nova da Salvação. Somos todos enviados para isto!

 

SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS (DE LISIEUX)

A vida da santa Teresa de Lisieux, ou santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, seu nome de religiosa e como o povo carinhosamente a prefere chamar, marca na história da Igreja uma nova forma de entregar-se à religiosidade. No lugar do medo do “Deus duro e vingador”, ela coloca o amor puro e total a Jesus como um fim em si mesmo para toda a existência eterna. Um amor puro, infantil e total, como deixaria registrado nos livros “Infância espiritual” e “História de uma alma”, editados a partir de seus escritos. Sua vida foi breve, mas plena de dedicação e entrega. Morreu virgem como Maria, a Mãe que venerava, e jovem como o amor que vivenciava a Jesus, pela pura ação do Espírito Santo. Teresinha nasceu em Alençon, na França, em 2 de janeiro de 1873. Foi batizada com o nome de Maria Francisca Martin e desde então destinada ao serviço religioso, assim como suas quatro irmãs. Os pais, quando jovens, sonhavam em servir a Deus. Mas circunstâncias especiais os impediram e a mãe prometeu ao Senhor que cumpriria seu papel de genitora terrena, mas que suas filhas trilhariam o caminho da fé. E assim foi, com entusiasmada aceitação por parte de Teresinha desde a mais tenra idade. Caçula, viu as irmãs mais velhas, uma a uma, consagrando-se a Deus até chegar sua vez. Mas a vontade de segui-las era tanta que não quis nem esperar a idade correta. Aos quinze anos, conseguiu permissão para entrar no Carmelo, em Lisieux, permissão concedida especial e pessoalmente pelo papa Leão XIII. Ela própria escreveu que, para servir a Jesus, desejava ser cavaleiro das cruzadas, padre, apóstolo, evangelista, mártir… Mas ao perceber que o amor supremo era a fonte de todas essas missões, depositou nele sua vida. Sua obra não frutificou pela ação evangelizadora ou atividade caritativa, mas sim em oração, sacrifícios, provações, penitências e imolações, santificando o seu cotidiano enquanto carmelita. Essa vivência foi registrada dia a dia, sendo depois editada, perpetuando-se como livro de cabeceira de religiosos, leigos e da elite dos teólogos, filósofos e pensadores do século XX. Teresinha teve seus últimos anos consumidos pela terrível tuberculose, que, no entanto, não venceu sua paciência com os desígnios do Supremo. Morreu em 1° de outubro de 1897, com vinte e quatro anos, depois de prometer uma chuva de rosas sobre a Terra quando expirasse. Essa chuva ainda cai sobre nós, em forma de uma quantidade incalculável de graças e milagres alcançados através de sua intervenção em favor de seus devotos. Teresa de Lisieux foi beatificada em 1923 e canonizada em 1925 pelo papa Pio XI. Ela, que durante toda a sua vida teve um grande desejo de evangelizar e ofereceu sua vida à causa missionária, foi aclamada, dois anos depois, pelo mesmo pontífice, como “padroeira especial de todos os missionários, homens e mulheres, e das missões existentes em todo o universo, tendo o mesmo título de são Francisco Xavier”. Esta “grande santa dos tempos modernos” foi proclamada doutora da Igreja pelo papa João Paulo II em 1997.

Por Paulinas

Alençon (França), 1873. A dois de Janeiro nasceu nessa cidade nonnanda uma menina; no dia 4 foi batizada na igreja de Nossa Senhora. É o primeiro encontro misterioso com Jesus. Trata-se da filha mais nova de Luís Martin e de Célia Guérin, par exemplar, cristianíssimo, na verdade heróico no conjunto das suas virtudes sinceras. Com o estilo de fim de século, um pouco fechado, um pouco romântico e um pouco burguês. Ele tinha trabalhado como relojoeiro e joalheiro. Ela dedicara-se a fazer renda. Família modesta, mas remediada. Teresa foi precedida por oito irmãos, dos quais morreram quatro de pouca idade. Ficaram: Maria, Paulina, Leónia e Celina. Em meados de Março foi preciso enviar Teresa a Semallé para que Rosa Taillé a criasse; só voltará ao lar em Abril do ano seguinte. Exigiram essa demora a fraqueza da menina e a falta de saúde da mãe. Em casa vive-se uma intimidade pronunciada e encantadora. A educação das filhas realiza-se cuidadosamente, aprimoradamente, mas sem mimos. O ambiente é de intensa piedade e de cultura relativa, mas apropriada às condições da família e dos tempos. Com certeza que Teresinha apresenta sintomas de nervosismo exagerado, por vezes, de preâmbulos de amor próprio muito significativos, e de cabeça atilada e de coração nobilíssimo também. Mas o cuidado dos seus, o esforço dela, mostrado desde muito cedo, e, sobretudo a graça de Deus, conseguiram que esses defeitos ficassem completamente vencidos e as qualidades magníficas se orientassem para o bem. Ela poderá afirmar de si mesma com toda a verdade esta frase tremenda: «Desde os três anos não neguei nada a Deus…». É caso de precocidade sobrenatural poucas vezes igualado. A 28 de Agosto de 1877, morreu a senhora Martin. Havia anos que ia suportando uma dolorosa doença cancerosa. A morte foi de santa. Teresinha, de quatro anos e meio, sentiu a comoção própria daqueles dias e daquela situação. Porém, a sua sensibilidade ressentiu-se: durante dez anos sofrerá exageradamente com as impressões minuciosas da vida, aparecerá tímida e chorosa por qualquer coisita que se lhe deparasse. Ao ficarem horas, as duas irmãs menores escolheram como mães as maiores. Celina preferiu Maria, e Teresa, Paulina. A influência desta em Teresinha será enonne e indelével, tanto no mundo como depois no Carmelo. Em Novembro daquele ano, a família Martin transferiu-se para Lisieux. Vivia lá um irmão da defunta mãe, com a esposa e as filhas, e assim podiam estar às cinco jovens um pouco à sombra dos respectivos tios e contando mais relações. O pai, Luís, comprou uma casita com jardim, quase nos arredores de Lisieux: os «Buissonnets» (os silvadozinhos). Paragem deliciosa e tranqüila, onde se passou a juventude de Teresa até entrar no Carmo. De 1877 a 1888. Vida familiar intensa. Não sendo mimada, será a <<rainhazinha» da casa, sobretudo para o pai, com quem passeia e a quem adora. Com a irmã Celina a união é constante. Vivem identificadas em idéias, em gostos e nos pormenores. Também ainda em muita intimidade com a prima Maria Guérin. Com Paulina… nem é preciso insistir. Algumas viagens se fazem com os tios ou com o pai e irmãs: a Trouville, a Alençon, a Deauville… Em 1879, a primeira confissão. E por 1880, uma visão misteriosa no jardim: um homem como o pai, com o rosto tapado. Profeticamente, anunciava o futuro. Desde Outubro de 1881, começa a freqüentar como semi-intema a abadia das beneditinas de Lisieux, para receber instrução mais completa, essa formação geral que as jovens da sua classe média recebiam então. Mas a 2 de Outubro do ano seguinte, Paulina entrava no Carmo. Foi para Teresa segunda orfandade, suprida em parte pelos cuidados da irmã mais velha, Maria. Foi então que surgiu a misteriosa doença. Primeiro, dores contínuas de cabeça; depois, desde 25 de Março de 1883, a virulência do mal: obsessões, ataques violentos, dores e sintomas que ninguém qualifica. Esteve em perigo de morte. Mas a 13 de Maio, Pentecostes nesse ano, realizou-se o prodígio: Nossa Senhora, da estátua que presidia ao seu quarto, sorriu a Teresinha e esta ficou milagrosamente curada. A 8 de Maio de 1884, a primeira comunhão, que recebe no colégio. A sua preparação foi esmeradíssima. E o resultado intimamente impressionante. «Ah! que doce não foi o primeiro beijo de Jesus à minha alma! Foi beijo de amor, sentia o amor em mim, e dizia-lhe também: “Amo-Vos, entrego-me a Vós para sempre…”» Este dia não foi só olhar, mas fusão, já não ficaram dois; Teresa tinha desaparecido, «como a gota de água que se perde no Oceano». Quando, a 14 de Junho do mesmo ano, recebe a confirmação das mãos do bispo de Bayeux, a sua comunhão com o Espírito Santo foi tão fervorosa como tinha sido com o Verbo encarnado. Em 1885 e 1886 sofre longo período de escrúpulos, que lhe dão maturidade ao espírito. Maria é o seu apoio. Mas esta entra também em Outubro no Carmelo. E então os seus irmãozinhos do céu, por ela invocados, obtêm-lhe a paz. Mais ainda: a 25 de Dezembro daquele ano de 1886 recebe a graça, a que chama de conversão: a sua excessiva sensibilidade fica num instante dominada. Para sempre viverá, sob este aspecto, na mais equilibrada normalidade. Mais graças. Em Julho de 87, diante duma imagem do Crucifixo, desperta-se na sua alma o desejo de salvar as dos irmãos, os homens. Esta sede não fará senão crescer com o andar dos anos. Com ela morrerá abraçada. E agora do céu sacia-se com uma chuva de conversões maravilhosas. O primeiro por quem se interessa é o criminoso Pranciné, que morrerá no cadafalso beijando o Crucifixo. O Carmo. Desde os dois anos começou a sentir a chamada dele. Mas agora toma-se instante. É lá – enclaustrada, contemplativa – como sente que Deus lhe pede que seja missionária, Lhe ganhe almas, viva no Carmelo Teresiano o ideal da madre Teresa, como ninguém depois dela o tinha realizado. «Vim para salvar almas e sobretudo a fun de rogar pelos sacerdotes». Mas tinha então quinze anos! As dificuldades não se fizeram esperar. Heroicamente, dispôs-se a vencê-las. A 29 de Maio de 1887 pede licença ao pai, que emocionado a concede. Não pôde, todavia entrar antes de 9 de Abril de 1888. Os superiores eclesiásticos resistiam a tão grande juventude. Viagens a Bayeux, a Roma… Porque, de 4 de Novembro a 2 de Dezembro irá, com o pai e Celina, em peregrinação a Roma, a fim de pedir ao Papa a desejada licença. No dia 20 foi a audiência papal. Havia a proibição de os presentes dizerem fosse o que fosse ao Papa, mas ela fala, insiste, até que a arrancam dos pés de Leão XIII. Este só pudera deixar escorregar para ela algumas palavras de alento… Mas o Bispo veio a dar, a 28 de Dezembro, a desejada autorização. Contudo, até ao Abril seguinte não foi recebida na «arca santa». Nove anos no Carmo de Lisieux. Depois… o céu. As datas dos atos oficiais da sua vida monástica são as seguintes: entrada como postulante a 2 de Abril de 1888. Tomada de hábito a 10 de Janeiro de 1889; e note-se que nessa manhã inesperadamente nevou, porque a Esposa teve esse capricho e o Esposo, delicadamente, atendeu-lho. A 8 de Setembro de 1890 profissão (atrasaram-lha vários meses, não se sabe bem por que, talvez por causa dos poucos anos). A 24 de Setembro do mesmo mês, tomada do véu preto. O Carmelo de Lisieux era no conjunto, por aqueles tempos, medíocre, nada mais. Nem relaxado, nem, por outro lado, modelo de fervor. Vivia ainda uma das fundadoras, a madre Genoveva de Santa Teresa, alma santa, mas já posta de parte. Era prioresa a madre Maria de Gonzaga, mulher sem relevo e vulgar, susceptível, invejosa, autoritária e mutável. Mas não exageremos. Tudo isso num tom como costuma acontecer com freqüência em muitas pessoas, ao mesmo tempo virtuosas. Teresinha foi tratada com certa severidade. E foi bom; para doutro modo ela não vir a ser a menina bonita da comunidade. Nos últimos anos da Santa, soube estimá-la e até depositava nela confiança, o’ que não há-de admirar-nos, dada a delicadíssima caridade da irmãzinha. A Teresinha atingiu-há um pouco – sem ser pessoalmente contra ela – a animosidade que um grupo de religiosas (as da madre Gonzaga) mantinha contra as irmãs Martin, que, devido às suas qualidades estupendas, começaram a ter peso na vida comunitária. A vida externa de Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, no convento, resume-se em poucas linhas: Observância perfeita e amorosa das regras e constituições da Ordem. Generosidade até aos mínimos pormenores na obediência e na caridade com as suas companheiras. Pobreza delicada e minuciosa. Sorriso nos lábios sempre. Alegria no recreio. Igualdade de trato com todas. Estão lá três das suas irmãs de sangue (Celina entrará em Setembro de 1894). Mas Teresinha não concederá nem o mínimo à sua natureza. E as irmãs dela chegarão quase a espantar-se com o que nela parece indiferença. Mais ainda: quando a sua «mãezinha» Paulina, na religião Inês de Jesus, era prioresa (1893-1896), foi Teresa a religiosa que menos gozou do trato e conversação com a mesma. Pouco depois da entrada de Teresinha no mosteiro, começa a doença no uso das faculdades mentais do pai, tão amado. Morrerá a 29 de Julho de 1894, entre os cunhados e atendido por Celina, que ficou sempre com ele. Todos esses anos sofreu Teresa terrivelmente com as diversas alternativas. A missão profética, recebida na sua infância, cumpria-se agora com imensa dor. Quando, em Fevereiro de 1893, foi eleita prioresa sua irmã Inês, esta nomeou mestra de noviças a madre Gonzaga, mas deu-lhe como ajudante sor Teresinha. E quando, em Março de 1896, volta a madre Gonzaga a ser prioresa, conservando o cargo de mestra ao mesmo tempo, continuou a servir-se da Santa do mesmo modo. Até lhe confiou na prática o noviciado. Foi assim, sem título, mestra efetiva das noviças até morrer. Neste cargo delicado deu mostras de prudência extraordinária e sobrenatural. Pouco mais pode acrescentar-se, não sendo sobre a doença e a morte. A 2 e 3 de Abril de 1896, as primeiras hemoptises denunciaram a tuberculose pulmonar. Esta avançará pouco a pouco, até lhe tirar a vida a 30 de Setembro do ano seguinte. Mas estes dados não poderiam contar-se, pouco mais ou menos, doutras muitas religiosas fervorosas que há por aí? Porque é santa, Teresinha de Lisieux? Santa! A mais santa dos tempos modernos, e talvez de toda a história da cristandade. Santa que provocou um «furacão de glória» como nenhuma outra. A dos milagres e conversões sem número. A dos milhões de exemplares da sua autobiografia, traduzida para dezenas de línguas, o livro mais lido e multiplicado no século atual… É mistério do sobrenatural. Mas esta monjinha foi enviada por Deus ao mundo, trazendo nas mãos uma mensagem do céu. Assim, por este meio, tão humanamente humilde. São coisas de Deus! Essa mensagem entregou – no-la ela numas páginas simples, literalmente despretensiosas: uns cadernos que a madre Inês de Jesus e a madre Maria de Gonzaga lhe mandaram escrever, e algumas cartas, sobretudo uma de Setembro de 1896, a sua irmã Maria do Sagrado Coração. Também alguns ditos recolhidos pelas que a rodeavam. E umas tantas poesias para os recreios e festas das religiosas. Tudo isso feito vida, na sua vida, encarnação da sua própria mensagem, o idealismo puro desta mesma, feita realidade transparente e maravilhosa. Resumi-Ia já aqui é de enorme dificuldade. Mensagem de amor… Na referida carta de Setembro, Teresinha traçou, numas páginas sublimes, a sua chamativa aspiração de amor, alma da sua vida. Pela sua vocação de carmelita, sente-se ela esposa de Jesus Cristo e mãe das almas. Mas isto explicita-se nela por uma multidão de vocações que lhe queimam a alma: vocação de guerreiro por Cristo, de sacerdote, de apóstolo, de doutor, de mártir… Era impossível viver externamente tudo. Mas os capítulos 12 e 13 da primeira Carta aos Coríntios deram-lhe a solução. «Por fim encontrei o descanso. Analisando o Corpo místico da santa Igreja, não me via incluída em nenhum dos membros citados por S. Paulo, ou antes, pretendia reconhecer-me em todos. A caridade deu-me a chave da minha vocação. Entendia eu que, se a Igreja possui um corpo composto de diferentes membros, não podia faltar-lhe o mais necessário, o mais excelente de todos os órgãos: pensava que ela tinha um coração e que este coração ardia em chamas de amor. Via claro que só o amor põe em movimento os seus membros, porque, se o amor se apagasse, os apóstolos não anunciariam o Evangelho, os mártires recusariam derramar o sangue… Compreendi que o amor abarca todas as vocações, que o amor é tudo, que o amor transcende todos os tempos e lugares, porque é eterno. Então, delirante de gozo, exclamei: A minha vocação é o amor. Sim; encontrei o meu lugar no seio da Igreja, e este lugar, ó meu Deus!, é o que Vós me assinalastes: no coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor… Assim serão realizados os meus sonhos». O amor! A esse amor, a essa caridade misericordiosa do Senhor, tinha-se consagrado como vítima. Foi a 9 de Junho de 1895. Verdadeira inspiração: consagrar-se não precisamente à justiça, como outras almas fizeram, mas ao amor… Pouco dia mais tarde – a 14 de Junho -, ao fazer a Via Sacra no coro, sentiu a alma ferida, abrasada, submergiu totalmente no amor. Foi graça mística de valor inestimável. Mas esta vocação viveu-a Teresa segundo uma fórmula que ela tomou universalmente famosa: a da infância espiritual. O segredo é antigo como o Evangelho. Mas Teresa recebeu o encargo de chamar a atenção, em nossos dias, para esse caminhito, que é, afinal, o de todos. Reconhecermo-nos como crianças diante de Deus, nosso Pai. E, portanto, sermos humílimos, simples, e confiarmos sem limites na sua bondade e misericórdia infinitas. Essa infância espiritual é a pobreza de espírito da Sagrada Escritura; é a doutrina dos nadas de são João da Cruz. No Evangelho e em são João da Cruz – seu pai e mestre preferido – bebeu ela em torrentes a sua doutrina do amor e da humildade perfeita, doutrina que ofereceu com a sua graça pessoal ao nosso tempo. Este reconheceu justamente nela a quinta-essência da perfeição cristã, na sua mais pura e requintada simplicidade. Sem acidentalismos, nem coisas extraordinárias, nem qualquer coisa de esquisito. Só o substancialmente sobrenatural, puro e isolado, com toda a sua beleza e enorme força tal. E os nossos tempos, atormentados e em angústia, impressionaram-se profundamente diante desse trago de ar são, de confiança e de amor, que lhes vinha de Lisieux… Teresinha recebeu essa missão. E viveu-a na sua vida. A entrega de amor fê-Ia vitima de amor. O cenário externo será maravilhosamente simples, humilde, desconhecido, nazaretano: um pobre mosteiro carmelita sem relevo especial. Aí será ela uma religiosa perfeita, ideal, que por amor puríssimo de Deus tornará todas as suas ações simples, mas assim maravilhosamente valiosas. Sofrerá sempre muito, porque as sua rica sensibilidade de alma e de corpo a tomou apta para sofrer. Apesar disso, os últimos anos serão terríveis de dor, sempre a envolveria. Tinha de sofrer para tomar fecunda a sua mensagem. Tinha de morrer o grão, para dar muito inupto. Tinha ela de ser co-redentora de milhares e milhares de almas. A tuberculose apareceu em Abril, tudo invadiu. Sofreu ela caladamente quanto pôde. Chegou aos últimos meses ao maior extremo. Tudo estava ferido: pulmões e intestinos. As curas de pontas de fogo, a sede abrasadora. Quando bebo água é como se vertessem fogo sobre fogo!»), a febre asfixiante… A consumação chegou ao termo de os ossos perfurarem a pele chagada. O tratamento… o de então – e a prioresa foi nele bastante parca, não, claro, por má intenção, mas por critério míope. Para mais, a seguir às primeiras hemoptises, a sua alma viu-se submergida numa prova mística atroz: desapareceu dela todo o conforto da fé e surgiu avassalador o contrário… Foram dezoito meses (até morrer) de verdadeiro martírio. A santa da confiança sem medida sentia-se como se esta não existisse. Embora sem os efeitos consoladores, a sua fé e a sua confiança foram cada dia maiores e mais esforçadas. Na sua angústia, o sorriso florescia-lhe no rosto. E a intenção apostólica de tal prova animava-a a sofrer. As páginas em que ela descreve o seu tormento, são realmente impressionantes. E também a finalidade heróica dele, como se expressa: «Mas, Senhor, a vossa filha compreendeu a vossa divina luz, ela pede-Vos perdão pelos seus irmãos, ela aceita comer, durante todo o longo tempo que desejeis, o pão da dor, e não quer levantar-se desta mesa cheia de amargura, onde comem os pobres pecadores, antes do dia que Vós destinastes… Ó Jesus!, se é necessário que a mesa manchada por eles seja purificada por uma alma que Vos ame, eu quero comer sozinha o pão da prova, até que Vos agrade introduzir-me no vosso reino luminoso. A graça única que Vos peço é a de não ofender-Vos nunca». Assim – desfeita, crucificada no corpo e na alma, mas transbordando de amor e paz – encontrou-a a morte. A alma vivia e comungava o mistério da Santa Face, a sua devoção predileta. Abria-se profeticamente aos imensos horizontes da fecunda missão futura. «Eu não dei a Deus senão amor. Ele devolver-me-á amor. Depois da minha morte, farei cair uma chuva de rosas». «Amar, ser amada, e voltar à terra para fazer amar o Amor». «Pressinto que a minha missão vai começar: a missão de fazer amar a Deus como eu O amo, ensinar o meu caminhozinho às almas». «Quero passar o meu céu fazendo bem na terra…» Deste modo até ao fim. Na encosta do Calvário, ela – que referindo-se ao salmo 22, tinha dito «Ali estava toda a minha alma!» – tomava a correr agora o seu caminho da infância espiritual, da confiança e do total abandono. A 29 de Setembro pôde exclamar: «Tudo disse… Tudo está cumprido. Só conta o amo. O dia 30 foi de prolongada agonia. «Não me explico como posso sofrer tanto, a não ser pelo meu ardente desejo de salvar almas…» «Não, não me arrependo de me ter entregado ao Amor…» A Virgem do sorriso velava junto da sua filhinha. Quanto e quão delicadamente não tinha ela amado a Maria! Agora olhava para ela com ansiedade especial… Às 7 horas e poucos minutos da tarde, as últimas palavras: «Oh!… amo-o. Deus meu…, amo-Vos!» Em seguida um êxtase maravilhoso, celestial… Durou pouco mais de um credo. O último impulso dava-o o Amor! Depois, a publicação dos seus escritos. A chuva de rosas, de milagres e de graças de todo o gênero. A beatificação em 1923, a canonização em 1925 e o padroado sobre todas as missões em 1927, atos de Pio XI, foram o início da sua apoteose universal! Finalmente, a 19 de Outubro de 1997, o Papa João Paulo 11 proclamou Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face doutora da Igreja.

 

SANTA TERESINHA E A EUCARISTIA
Ir. Maria Angélica de Jesus Hóstia, OCD Monja Carmelita Descalça – Recife- PE 

“Ah! Como foi doce o primeiro beijo de Jesus à minha alma”…

Assim Teresa narra o “belo dia entre os dias”, sua primeira comunhão. O beijo místico de Jesus… Ela continua: “Foi um beijo de amor, sentia-me amada e dizia também amo-vos, dou-me a Vós para sempre… Momento profundo, marcante para seu coração de criança que se sente inundado pela presença de Jesus. “Naquele dia não era mais um olhar, mas uma fusão, não eram mais dois, Teresa havia sumido como gota d’água que se perde no oceano”… Seu coração desejava ardentemente receber Jesus e ainda sem idade para a recepção deste Sacramento ela ansiava por ele. Vendo sua irmã Celina, quatro anos mais velha, se preparar para o receber escutava atentamente as instruções dadas a ela pela sua irmã Paulina. “Uma noite- conta-nos Teresa – vos ouvi dizer que, a partir da primeira comunhão era preciso começar uma vida nova. Resolvi logo que eu não esperaria, começaria ao mesmo tempo que Celina”… Pois para Teresa, receber Jesus é estabelecer com Ele relação de amor, de entrega e de confiança. Nas procissões do Santíssimo Sacramento gostava de jogar flores sob os passos de Jesus… “lançava-as o mais alto que podia e não ficava muito feliz senão quando via minhas rosas desfolhadas tocarem o Ostensório sagrado”… O simbolismo da rosa que se desfolha é para Teresa um tema muito caro, mais tarde, consumida pelo amor e em sua enfermidade ela escreve a poesia “Rosa desfolhada”. Num ato de puro amor a rosa- Teresinha- se desfolha aos pés de Jesus menino para somente causar-lhe prazer…

“Por Ti devo morrer, beleza eterna e viva que sorte de ouro! Desfolhando-me dou prova definitiva Que és o meu tesouro!…
O gesto da criança que se encanta ao desfolhar suas flores a Jesus Hóstia, agora se concretiza na Carmelita que se consome e morre por amor ao seu Deus, qual rosa desfolhada, “simplesmente de vento ao léu”… A Santa Missa marca os grandes momentos de sua vida: Sua conversão se deu após a Santa Missa. “Foi em 25 de Dezembro de 1886 que recebi a graça de sair da infância, em suma, a graça de minha completa conversão. Estávamos voltando da Missa do galo, em que tinha tido a felicidade de receber o Deus forte e poderoso”… Acontecimento que muda radicalmente sua vida. ”Teresa não era mais a mesma, Jesus havia mudado seu coração”. Em uma carta a seu irmão espiritual Padre Roulland ela diz: “Ele me transformou de tal maneira que eu não me reconhecia mais a mim mesma”… Teresa sente-se totalmente transformada, seu espírito se desenvolveu, começa então um novo período de sua vida o que ela mesma chama o mais bonito de todos. Deus em pouco tempo a faz sair da infância- excessiva sensibilidade que vivia qual círculo apertado no qual girava sem encontrar saída. Durante a Santa missa teve a inspiração de oferecer-se ao amor misericordioso de Deus. Foi no dia 9 de Junho de 1895 que durante o Santo Sacrifício da Missa Teresa se oferece ao amor misericordioso de Deus. Espontaneamente, sem formulas e poucas palavras. Irmã Genoveva, sua irmã Celina, dá detalhes desse momento inesquecível: “Saindo dessa Missa, ela me puxou atrás de si, à procura de Nossa Madre; parecia estar como que fora de si mesma e não falava comigo. Enfim, ao encontrar Nossa Madre Inês de Jesus pediu-lhe permissão para se oferecer comigo, como vítima, ao Amor Misericordioso”… Este ato de oferecimento consiste na entrega total, confiante e amorosa ao Amor Misericordioso de Deus, a pessoa se reconhece pequena, “de mãos vazias” e num ato de perfeito amor se oferece a si mesma como oferenda ao Infinito Amor de Deus, para que Ele a invada com torrentes de Misericórdia.   Não podendo, segundo o costume comungar todos os dias, em seu ato de oferecimento ela pede a “tomada de posse Àquele que transforma o pão em seu Corpo com o fim de transformar o comungante Nele mesmo” (1) “Não posso receber a Santa comunhão com a freqüência que desejo, mas, Senhor, não sois Todo- poderoso?… permanecei em mim, como no Tabernáculo, não vos afasteis jamais de vossa pequena hóstia”… “Vá sem receio receber o Jesus da paz e do amor”… 1889, Teresa ainda noviça, escreve com maestria uma verdadeira direção espiritual. Voa além das idéias do seu tempo e orienta à comunhão freqüente, “Ele está no Sacrário para Ti, só para ti”… Maria Guérin, sua prima, futura Carmelita, Irmã Maria da Eucaristia, atravessava uma dura provação, seu coração se sentia oprimido pelos escrúpulos, pois não se sentia digna de se aproximar da mesa Eucarística. Estava em viagem a Paris, onde sentia-se importunada e invadida pelos prazeres humanos, todo o seu ser de jovem se rebelava e ela sentia-se angustiada. Eis um trecho da carta que enviou a Teresa: “Mais uma vez venho atormentar-te e sei por antecipação que não vais ficar contente comigo, mas o que queres, sofro tanto e me sinto melhor quando derramo todas as minhas tristezas no teu coração. Paris não é feita para curar os escrúpulos, não sei para onde olhar; se desvio de uma nudez, encontro outra e assim vai o dia inteiro, é para morrer de tristeza; parece-me que é por curiosidade, preciso olhar tudo. Não sei se vais me compreender, tenho tantas coisas na minha pobre cabeça que não sei como organizá-las. O demônio não deixa de trazer à minha lembrança todas as coisas que vi durante o dia, o que constitui outro motivo de tormento. Como queres que comungue amanhã e Sexta-feira?; não posso. É a maior provação”… Teresinha responde: “Fizeste bem em me escrever, entendi tudo… tudo, tudo, tudo!… tu não fizeste sombra do mal, sei muito bem o que são essas espécies de tentações que te posso assegurar sem temor, por outra parte, Jesus mo disse no fundo do coração… É preciso desprezar todas essas tentações, não lhes prestes nenhuma atenção. Queres que te confie uma coisa que me deixou muito penalizada?… É que minha Mariazinha deixou as suas comunhões… Oh! como isso entristeceu a Jesus! É preciso que o demônio seja muito esperto para enganar assim uma alma!… mas não sabes, minha querida, que esse é todo o objetivo dos seus desejos… Já é muito para ele colocar inquietação nessa alma, mas para a sua raiva, é necessário outra coisas: ele quer privar Jesus de um Sacrário amado, não podendo penetrar nesse santuário, quer que pelo menos ele fique vazio e sem dono!… Ai! Que será desse pobre coração?… Quando o demônio conseguiu afastar uma alma da Sagrada comunhão, ganhou tudo… E Jesus chora!…. Mas ouço-te dizer: Teresa diz isso porque ela não sabe… ela não sabe que o faço bem de propósito… isso me diverte… e depois não posso comungar, pois penso que cometeria um sacrilégio, etc. etc. etc… Sim, tua pobre Teresinha sabe muito bem, digo-te que ela adivinhou tudo, assegura-te que tu podes ir sem receio receber teu único amigo verdadeiro… Ela também passou pelo martírio dos escrúpulos, mas Jesus deu-lhe a graça de comungar assim mesmo, embora pensasse Ter cometido grandes pecados… asseguro-te que ela se deu conta que era o único meio de livrar-se do demônio, pois quando vê que perde o tempo ele nos deixa em paz!… “O que ofende Jesus é a falta de confiança.” Sabendo por experiência que Jesus é o único que pode nos curar e nos livrar de todos os males que nos afligem, Teresa exorta sua prima a confiar cegamente em sua misericórdia. “Comunga -diz ela- comunga, irmãzinha querida, com freqüência, muitas vezes… Eis o único remédio se queres sarar… “Entrei no Carmelo para rezar pelos Sacerdotes”… Santa Teresinha, sempre teve grande respeito pelos Sacerdotes, sua formação profundamente cristã a fez sempre ver a alta dignidade que eles possuem. Porém, a concepção que fazia deles era um tanto ingênua e em sua viagem a Roma teve a oportunidade de conviver com cerca de setenta e cinco Sacerdotes e concebeu uma nova impressão dos Padres. Assim se expressa: “Durante um mês, vivi com muitos Padres santos e vi que, se sua sublime dignidade os eleva acima dos anjos, eles não são menos homens fracos e frágeis”. Assim descobriu a necessidade de rezar pelos Sacerdotes e compreendeu sua vocação de Carmelita que tem por finalidade rezar pelas almas Sacerdotais. Antes da profissão de seus votos, ela declara em seu exame canônico: “Vim ao Carmelo para salvar as almas e, sobretudo, a fim de rezar pelos Padres”. Numa carta a Celina, escreve: “Convertamos as almas, é preciso que este ano façamos muitos sacerdotes que saibam amar Jesus!… Que o toquem com a mesma delicadeza com que Maria o tocava no seu berço”. Tinha muita vontade de Ter um irmão Padre mas seus irmãozinhos faleceram ainda bebês. Mas o Bom Deus, como costumava ela dizer, não lhe dava desejos irrealizáveis e no Carmelo a fez irmã espiritual de dois Sacerdotes por quem se ofereceu e se sacrificou até o fim de sua vida.

Visitas ao Santíssimo Sacramento
Ir. Genoveva, depôs no processo ordinário que a visita ao Santíssimo Sacramento sempre fizera suas delícias. Criança, todas as tardes fazia com seu Pai, Luiz Martin, visitas a Jesus Hóstia. No Carmelo passou muitas horas aos pés de Jesus Sacramentado e numa de suas poesias escreve: “Quero fixar minha morada nas sombras do santuário com o prisioneiro do amor! Ah! Para a Hóstia minha alma aspira. Eu a amo e não quero mais nada. É o Deus escondido que me fascina ”… Sua última visita ao Santíssimo foi verdadeira despedida. Conta-nos Madre Inês: “Ela foi pela última vez, visitar o Santíssimo Sacramento no oratório à tarde, mas estava no fim de suas forças. Eu a vi olhar a Hóstia durante muito tempo e eu percebia que era sem nenhuma consolação, mas com muita paz”… “Vem ao Meu coração Hóstia Branca que amo”… Na festa de Nossa Senhora do Monte Carmelo, 16 de Julho, Teresa recebe a Comunhão Eucarística na enfermaria. Maria da Eucaristia, sua prima, Com voz “alta e bela” canta a estrofe que Teresa tinha composto para este momento.

“Tu que conheces minha extrema pequenez que não receias nunca abaixar-te até mim, vem a meu coração, Hóstia branca que amo, vem a meu coração que anseia só por ti! Desejo demais que tua bondade me faça Morrer de amor após este favor. Escuta, meu Jesus, meu grito de ternura: Vem ao meu coração”.   Na carta que escreve para seus tios ela comenta sobre este dia: “Quando Jesus estava no meu coração, Ir. Maria da Eucaristia cantou a estrofe da poesia viver de amor. Não posso dizer-vos como sua voz era alta e bela; prometera-me não chorar para agradar-me; minhas esperanças foram muito ultrapassadas. O bom Jesus deve Ter entendido perfeitamente o que espero Dele e era exatamente o que eu queria!

“Morrer de amor, eis minha esperança! Quando verei romperem-se todos os meus vínculos, Só meu Deus há de ser a grande recompensa E não quero possuir outros bens, Abrasando-me toda em seu amor, A Ele quero unir-me e vê-lo: Eis meu destino, eis meu céu: Viver de amor !!!…

Última Comunhão
Mesmo amando tanto a Santa Eucaristia foi privada de comungar nos últimos momentos de sua vida. Sua última comunhão, 19 de Agosto de 1897 foi um momento de dor e aniquilamento. Teresa chora copiosamente percebendo que já não pode mais receber o seu Deus, sacrifício que lhe oferece como última prova de seu amor. Madre Inês, em suas anotações fornece precioso relato deste dia, verdadeiro martírio de amor. “A comunhão, que ela outrora tanto desejava, tornou-se motivo de tormento durante a doença. Temia acidentes e gostaria que nós lhe disséssemos que não a fizesse, por causa dos vômitos, da falta de ar e da fraqueza. Não queria assumir essa responsabilidade sozinha mas, como não dizia nada, acreditávamos estar sendo agradáveis, insistindo para que fizesse a comunhão. Continuava calada, mas aquele dia, não agüentando mais, debulhou-se em lágrimas. Não sabíamos a que atribuir aquela tristeza e suplicamos que nos dissesse. Mas a falta de ar produzida pelos soluços era tão violenta, que não somente não pode responder como também nos fez sinal de não lhe dirigir mais uma única palavra e nem mesmo olhá-la. Não recebeu mais a Santa Comunhão até a morte. Sua última comunhão foi oferecida pela conversão de Jacinto Layson, ex Carmelita que abandonou o Sacerdócio e a Igreja tornando-se herege. Ocupara dessa conversão por toda a vida”. Dizia ainda a pequena grande Santa, indo além de sua dor e dando um sentido profundíssimo ao seu sofrimento, num abandono total à vontade de Deus, que se se tornasse impossível receber os sacramentos, ela não se revoltaria, pois “Tudo é Graça”. “Sem dúvida é uma grande graça receber os sacramento mas quando o Bom Deus não os permite, está bem do mesmo jeito”… “Para ganhar uma Comunhão isto não é sofrer demais!”… O coração de Teresinha se alargava ao contato com o coração do Senhor Jesus. Viveu profundamente os sagrados mistérios. Assimilou a tão ponto a presença do seu Deus que já não era mais ela quem vivia era Cristo quem vivia nela. Teresa foi uma hóstia viva no altar da dor e da imolação. O Senhor a transformou, a consumiu em seu infinito amor. Junto com ela neste ano Eucarístico testemunhemos nosso amor e nossa adoração a Jesus Hóstia. Ele que é o nosso Deus e nosso Senhor, nosso Tudo e nosso amor.   “Fixando-se junto à Hóstia, em seu sacrário de amor; assim passa sua vida à espera do último dia, quando, ao fim das provações, pondo-se ao lado dos santos, este grão da Eucaristia brilhará com seu Jesus”.

Obras consultadas: Obras completas de Santa Teresinha -Edição Crítica do Centenário Dicionário de Santa Teresinha – Monsenhor Pedro Teixeira Cavalcante
Por Revista Shalom Maná – Ed. Shalom

 

Testemunho de uma devota de Santa Terezinha

‘Eu sou irmã’  

Depois de ter deixado a Igreja e a prática religiosa durante vários anos, vivi situações pessoais difíceis; até que, um dia, fui em peregrinação à Medjugorge. Lá, redescobri a eficácia da oração (um diálogo com Deus), a necessidade de recorrer aos sacramentos da reconciliação e da Eucaristia, além da ajuda preciosa e da intercessão dos santos.

Quando abrimos os olhos do coração, este olhar interior nos faz contemplar os sinais de Deus em nossas vidas pela intercessão de pessoas que encontramos e dos santos que cruzam nosso caminho para nos sustentar. Hoje, eu só posso testemunhar a proteção de Maria, a presença discreta e fiel de Santa Teresinha e de outros bem-aventurados como Marthe Robin.

Percebo que Santa Teresinha me acompanha desde o meu batismo, o qual, inclusive, aconteceu numa igreja dedicada a ela.

Um dia, encontrei uma frase escrita, sobre uma foto dela, que reflete bem nossa relação. Esta frase diz muito para uma filha única como eu; além disso, unida aos sinais que foram aparecendo, fez com que eu a acolhesse com uma grande alegria. Ela dizia: ‘eu sou sua irma’. Eu fiquei sabendo, há pouco tempo, que minha mãe tinha me confiado a ela sem me dizer.

Eu preciso confessar que, no início, eu não gostava de jeito nenhum dela. Eu a via muito bobinha e, cada vez que eu encontrava uma imagem dessa jovem francesa do fim do século XIX, eu me lembrava da primeira vez que sua imagem tinha me chamado a atenção. Foi na casa de um rapaz que eu amava muito. E eu tive raiva dela, porque, quando o nosso namoro acabou, sem entender, eu logo disse a mim mesma que não servia para nada esta devoção, já que ela não ajudou para que nossa relação desse certo!

Com o tempo, porém, eu entendi que ela me protegeu, pois nós não éramos, realmente, feitos um para o outro.

Carmelita e padroeira das missões, eu a encontro em muitos lugares por onde passo. Hoje, ela caminha também conosco por meio de suas relíquias, as quais nos motivam a rezar com ainda mais confiança. Nós somos humanos e é agradável podermos nos aproximar de elementos que pertenceram àqueles que buscam o nosso bem.

Assim como era seu desejo, ela passa seu céu fazendo o bem na terra. Ela vela sobre os que vem a ela, especialmente numa capela de Paris, na qual suas relíquias são veneradas. Mas também em Lisieux, onde ela viveu e onde podemos ir em peregrinação.

Além de poeta, esta mística e doutora da Igreja é um modelo de uma amiga que nos exercita na escola das virtudes, especialmente à humildade.   Numa exclamação: ‘Quero ver Deus’, ela toma a minha mão para me fazer avançar num caminho interior de contemplação, cujo reflexo é a ação.

Na sua sede de Deus, ela conduz a oração em direção à estrada da santidade como ela mesma o fez, com o venerável padre Marie Eugène, o qual está para ser canonizado. Esta apaixonada pelo Senhor nos sustenta nas provações e nas noites da fé, quando somente a esperança pode nos iluminar. Fruto do amor e do sacramento do matrimônio dos bem-aventurados Zélie et Louis Martin, seus pais, ela nos convida a meditar sobre nossa própria vocação.

Os santos são nossos amigos e nossa família do céu. Não nos privemos de sua ajuda nem da graça de melhor conhecê-los!

Então, cantemos a bondade infinita de Deus com Santa Teresinha:

‘Se eu tivesse cometido todos os crimes possíveis,  teria sempre a mesma confiança; sinto que toda essa multidão de ofensas seria como uma gota d’água jogada em uma fornalha ardente’.

Aurore  
Paris, 25 de setembro de 2012

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