Santa Teresinha do Menino Jesus – 01 de Outubro

MODELO MISSIONÁRIO
Por Pe. Inácio José Schuster

Celebramos hoje a Festa da Santa mais amada do povo cristão.

Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, foi uma menina cheia de entusiasmo, e animada por uma vontade perseverante entrou no Carmelo com apenas 15 anos de idade, quebrando as normas do Direito Canônico de seu tempo.

Aos 24 anos, há 119 anos atrás, depois de uma longa enfermidade causada por uma tuberculose, morreu Ir. Teresa no seu mosteiro de Lisieux.

Teresa soube, completamente, esquecer-se de si mesma. Toda a sua vida foi uma permanente atenção ao mistério de Deus em seu coração, e ao amor pelos irmãos amados como templos vivos do Altíssimo.

Ela, como Jesus no alto da cruz, pensava nos outros. “Quando estiver no céu, farei cair sobre a terra uma chuva de rosas”. É esta chuva de rosas que se transforma em bênçãos, que a “pequena via da infância espiritual”, deixada como herança a uma humanidade atormentada, tornou uma presença constante de Teresa no seio da Igreja (“Não quero ser uma santa pela metade. Quero ser uma santa por inteiro. No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor. E assim serei tudo”).

Santa Teresinha teve uma vida aparentemente vazia de acontecimentos importantes ou de fatos que poderiam chamar a atenção. Uma vida obscura e pálida, vivida no silêncio e na solidão dos muros do Carmelo.

Se existe um lugar onde não é possível autoprojetar-se é o Carmelo. A vida de clausura ou absoluto distanciamento com o mundo e seus problemas, a falta de contato com as pessoas, faz da carmelita alguém que quer ser fermento invisível na grande massa da humanidade, humanidade que corre o risco de não fermentar por falta de força vital e de ideais que saibam contagiar e transformar a monotonia da sociedade sempre, preocupada mais em aparecer do que em ser (Vida da Comunidade Paroquial).

Irmã Teresa do Menino Jesus, durante os seus 9 anos de Carmelo não ocupou nenhum lugar ou cargo importante dentro do mesmo. Não foi apreciada pelos seus dotes. Considerada uma menina arteira e cabeçuda, às vezes cheia de manhas como qualquer criança, foi tremendamente mimada em sua infância.

A sua simplicidade escandalizava as monjas mais exigentes, fazia sorrir as mais espertas e suscitava admiração nas mais espirituais.

Como encarregada de preparar e limpar o refeitório do convento, o seu trabalho era com a vassoura, atrás da qual sempre procurou ficar escondida; depois foi colocada como ajudante da sacristã, substituindo eventualmente a responsável. Também como ajudante na formação das noviças e segunda porteira do convento.

Hoje mais do que nunca, se pede a nossa atenção à atividade apostólica. Olhando o mundo, as milhares de pessoas que vivem no desconhecimento de Cristo, nos perguntamos, com angústia, o que podemos fazer para que o Cristo seja amado por todos os homens.

O afã de fazer invadiu nossa vida, a vida dos apóstolos e da mesma Igreja, pois cremos que, só através das obras, podemos atingir o coração dos homens. No entanto, Jesus ao longo do Evangelho, fala-nos da luz que ilumina, do fermento que fecunda e da semente que lançada a terra brota por si mesma.

Teresa do Menino Jesus é questionadora. Ela que nem sequer deu uma aula de catequese, que não pregou o Evangelho, e que não ultrapassou o limiar do seu mosteiro, foi proclamada pela mesma Igreja Padroeira das Missões. Isto nos escandaliza e questiona a todos nós.

Teresa no seu ardor apostólico escreve: “Eu sinto a vocação de guerreiro, de sacerdote, de apóstolo, de doutor, de mártir; numa palavra, sinto necessidade, o desejo de realizar para ti Jesus, todas as ações mais heróicas…”.

A ousadia nasce da pobreza e da pequenez. Quanto mais pobres formos, mais nos tornaremos ousados diante do Senhor. “Embora a minha pequenez, quisesse iluminar as almas, como os Profetas, os Doutores, tenho a vocação de ser Apóstolo… quereria percorrer a terra pregando o teu nome, e implantar na terra infiel a tua cruz gloriosa, mas, ó meu Amado, uma só missão não me bastaria; eu quereria ao mesmo tempo anunciar o Evangelho nas cinco partes do mundo, até as ilhas mais remotas… quereria ser missionária não só por alguns anos, mas gostaria de tê-la sido desde a criação do mundo e sê-la até o fim do mundo”.

Esta é uma página que nos desconcerta pela sua força e coragem. Teresinha não é uma santa sem força e medrosa; ela lança-se na luta e doa tudo o que possui. Mas a vocação que Teresa mais sente ter no íntimo do seu coração é a de mártir: pois ela quer derramar até a última gota de sangue. Em verdade, o martírio é o sonho de sua juventude.

Durante toda a sua vida de carmelita, Teresa quis ser missionária, esperando ser enviada para o Vietnam, onde havia 2 mosteiros carmelitas historicamente ligados ao Carmelo de Lisieux: o de Saigão e o de Hanói. Ela queria ir para as missões como carmelita. As suas superioras reconheceram a sua vocação missionária, mas hesitavam por causa da sua saúde. Quando pensavam em envia-la, a sua saúde entrou de novo em crise e ela nem chegou a partir. Foi o seu último ano de vida.

Neste mês de outubro somos todos chamados a tomar maior consciência de nosso dever e empenho na obra missionária da Igreja, que recebeu de Cristo o mandato válido para todos os tempos: “Ide, fazei discípulos a todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-lhes a guardar tudo o que Eu vos mandei. Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo”.

Na grande família de Deus nem todos O conhecem profundamente, porque muitos não foram atingidos pela Boa Nova da Salvação. Somos todos enviados para isto!

 

O SENTIDO MARTIRIAL DA MISSÃO EM SANTA TERESA DE LISIEUX
Juan Esquerda Bifet

Apresentação
A missão eclesial sem fronteiras teve e prossegue tendo o sinal característico do “martírio”, como “testemunho audaz” do mistério pascal de Cristo: “Com grande coragem os Apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus” (At 4,33) A celebração do Jubileu do ano 2000 não poderá deixar de lembrar que “no nosso século, voltaram os mártires, muitas vezes desconhecidos, como que ‘militi agnoti’ da grande causa de Deus”. (TMA 37). O magistério de João Paulo II tem evocado insistentemente este tema como realidade da graça. “Como sempre na história cristã, os mártires, vale dizer, as testemunhas, são numerosos e indispensáveis para o caminho do Evangelho” (RMI 45). O martírio é “anúncio solene e compromisso missionário” (VS 93; cf. 89-94). Tornou-se “patrimônio comum” a todos os cristãos. Na oração dominical do “Ângelus” (7.1.1996), referindo-se ao decreto conciliar missionário “Ad Gentes”, dizia o Papa: “No decorrer dos séculos, a tradição missionária da Igreja escreveu páginas extraordinárias de história. Também hoje numerosos missionários consagram sua vida à causa do Evangelho e à promoção do homem, doando-se sobretudo em favor dos mais pobres, em situações quase sempre difíceis e perigosas, às vezes chamados a dar o testemunho supremo do martírio. Com as palavras dos padres conciliares, desejo enviar uma saudação muito afetuosa a todos esses arautos do Evangelho, ‘especialmente àqueles que sofrem perseguição pelo nome de Cristo’ (AG 42).” No ano de 1997 comemorou-se o centenário da morte de Santa Teresa de Lisieux (30 de setembro), que foi declarada padroeira das missões juntamente com São Francisco Xavier, por Pio XI, no dia 14 de dezembro de 1927. Em sua mensagem para a XII Jornada Mundial da Juventude (que ocorreu em Paris, em 1997), o Papa quis recordar este evento de graça, convidando os jovens a considerar a figura missionária da Santa de Lisieux: “Percorrei com ela o caminho humilde e simples da maturidade cristã na escola do Evangelho. Permanecei com ela no coração da Igreja, vivendo radicalmente a opção por Cristo”. O despertar missionário do século XX e o “amanhecer de uma nova época missionária” no início do Terceiro Milênio (RMI 92) seria inexplicável sem a figura martirial de Teresa de Lisieux. Nela aparece com toda clareza o valor do martírio permanente da vida missionária em si mesma, que é “Dom total de si mesmo, como fez Cristo na cruz” (VS 89). Quando “a missão percorre este mesmo caminho e tem seu ponto de chegada aos pés da cruz”(RMI 88), então nela resplandece “a força de Deus” (1 Cor 1,24).

1. O martírio da missão oculta pela fé e a esperança
A atitude missionária de não impor condições ao anúncio do Reino, é na realidade uma atitude martirial. O zelo apostólico do missionário não pode deter-se ante as dificuldades nem pode-se condicionar a interesses e preferências subjetivas. Freqüentemente a missão apresenta a característica de virtude heróica, especialmente pela fortaleza, perseverança e paciência ilimitada, quando não se constata fruto imediato ou quando se vêem obras apostólicas que custaram grandes suores e acabaram vindo abaixo. Dizia Teresa de Lisieux que “todos os missionários são mártires pelo desejo e pela vontade”, porque “desejaram entregar sua vida pelo que amam” (Carta 203, ao Pe. Roulland). A doutrina conciliar do Vaticano II traz uma afirmação semelhante: “Anunciando o Evangelho entre os povos, com confiança torne conhecido o mistério de Cristo, em cujo nome exerce sua delegação. N’Ele, ousará falar como convém e não se envergonhará do escândalo da cruz. Seguindo as pegadas do seu Mestre, manso e humilde de coração, mostre que Seu jugo é suave e seu peso, leve. Por uma vida deveras evangélica, em muita paciência, em longanimidade, em suavidade, em caridade não fingida, dê testemunho a seu Senhor, se necessário, até à efusão do sangue” (AG 24). O martírio permanente do missionário tem lugar no campo mesmo da vida e da ação apostólica, sempre à luz da fé e com a confiança e tensão da esperança. A fé é sempre misteriosa e não corresponde à lógica e aos cálculos humanos. Viver confiada e audaciosamente, com a convicção de que sempre se é possível fazer o melhor, é o martírio da esperança, que se traduzirá em uma “vida escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3), como o grãozinho de trigo que parece morrer na terra (C f Jo 12,24). É uma vida de “Nazaré” missionária. Poder-se-ia dizer que é “o martírio segundo o Evangelho” de que fala São Policarpo, isto é, pelo fato de se viver de acordo com a mensagem de Jesus. Missão, em Teresa de Lisieux, é o mesmo que sofrer amando: “Eu gostaria de ir a Hanói para sofrer muito por Deus. Quisera ir para lá e ali estar inteiramente sozinha, para não ter consolo algum na terra”. (Últimas Palavras, 14.5.6) A vida é martirial quando não se busca o próprio interesse, mas sim o interesse de servir à salvação de todos: “Sabendo que neste instante há almas que estão em perigo de perder-se… dou-lhes tudo o que possuo, e ainda não encontrei um momento para dizer-me: agora vou trabalhar para mim”. (Últimas Palavras, 14.7.2) O martírio da missão consiste também em considerar-se apenas um instrumento vivo: “Que importa que seu eu ou outro que revele esse caminho às almas! Que importa o instrumento!” (Últimas Palavras, 21.7.5) Esse martírio pela fé e a esperança tem repercussões insuspeitadas: “… as graças, as luzes que recebemos são devidas a uma alma escondida… Quantas vezes pensei que podia dever todas as graças que recebi às orações de uma alma que as tivesse pedido ao Bom Deus e que só conhecerei no Céu! Sim, uma centelha minúscula poderá fazer nascer grandes luzes em toda a Igreja, como doutores e mártires”. (Últimas Palavras, 15.7.5) Teresa de Lisieux imaginava as fadigas da vida missionária. Tomava-as como suas e oferecia suas fadigas para aliviar as dos missionários: “Sabem o que me dá força? Pois bem, caminho por um missionário para diminuir suas fadigas e ofereço as minhas a Deus”. (Últimas Palavras, Varia, 2). As surpresas da vida missionária fazem sofrer, mas são fecundas. Por isto, um sinal de que a missão é martirial é a autenticidade do missionário, sem complexos de herói. Vive-se somente por Cristo e então “a morte é um lucro”(Fl 1,21). “Se eu morresse aos 80 anos, e tivesse estado na China e em todas as partes do mundo, estou segura de que morreria tão pequena como hoje”. (Últimas Palavras, 25.9.1). Viver e morrer, a surpresa de Deus, é o martírio mais simples, gozoso e fecundo: “Se de manhã, um dia, me encontrarem morta, não se atormentem… tudo é graça”. (Últimas Palavras, 5.6.4)

2. O martírio de amor e de sangue
Estes dois tipos de martírio, o de amor e o de sangue, se completam e se demandam mutuamente. O martírio propriamente dito é o de sangue, isto é, “o Dom total de si mesmo, como fez Cristo na cruz” (VS 89). É o martírio anunciado por Jesus (Cf. n. 15, 18-21; Mt 10, 17-28). No entanto, esse martírio cruento não se improvisa. Ele é preparado pelo martírio de amor na vida cotidiana. O martírio de amor é a vida doada gota a gota, em atenção à surpresa de Deus. À iniciativa de Deus se entrega também o gênero de morte e as dificuldades que possam sobrevir. Esta atitude martirial é a sede de almas que queima a vida, tornando-a fecunda: “A caridade de Cristo me impele”(2Cor 5,14). A vida apostólica se consome na chama dos amores de Cristo: “Tenho outras ovelhas” (Jo 10,16); “vim para trazer fogo”(Lc 12,49); “Todos venham a mim”(Mt 11,28); “tenho sede”(Jo 19,28)… Desde sua adolescência, Teresa de Lisieux pediu ao Senhor a graça do martírio. Fala a este respeito ao narrar sua visita ao Coliseu de Roma: “Meu coração palpitava ao pousar meus lábios sobre a lápide purpurada com o sangue dos primeiros cristãos. Pedi a graça de também me tornar mártir por Jesus, e senti no fundo de meu coração que minha oração era ouvida!” (História de uma Alma, VI). A Padroeira das Missões chama o martírio de “o sonho de minha juventude”, com conseqüências ilimitadas e com o desejo de imitar a todos os mártires: “Desejaria, sobretudo, ó amantíssimo Salvador meu!, derramar por ti até a última gota de meu sangue. O martírio! Eis aí o sonho de minha juventude…. Desejaria sofrer todos os suplícios infligidos aos mártires… e com Santa Joana D’Arc, minha irmã querida, quisera murmurar na fogueira teu nome, ó Jesus!”(H.A., IX). Nesta perspectiva de fé, chega a pedir a Deus que seus “irmãos” espirituais, os missionários, alcancem a palma do martírio (Cf. Carta 178 e 225, ao Pe. Roulland, e Carta 201, ao Pe. Bellière). Tinha santa inveja da mártir Cecília: “Como tu, quisera imolar minha vida, dar-lhe todo meu sangue” (Poesia 3). Quando se refere aos heróis da história, não hesita em afirmar que “todos juntos não valem mais que um mártir” (Poesia 11). Dedica também uma poesia especial ao martírio do santo missionário Teophanes Vénard (Poesia 38). Pede a São Sebastião poder seguí-lo em seu destino martirial. (Oração). No dia de sua profissão, ainda com todas as suas forças juvenis e sem nenhum sinal da enfermidade futura, levou sobre seu peito um bilhete no qual escrevera: “Jesus, que eu morra mártir por tu, com o martírio do coração ou do corpo, ou melhor ainda, com os dois”. (Orações e outros Escritos, 2). Em carta à sua irmã Inês de Jesus, afirma: “Ao Cordeiro e ao cordeirinho é-lhes necessária a palma de Inês; se não for pelo sangue, que o seja pelo amor”(Carta 67). Para sempre e apesar desses desejos e orações, Teresa de Lisieux seria “mártir” de amor, com a particularidade de poder descobrir também o sentido martirial de sua doença e de suas hemoptises: “Eu bem sabia que teria o consolo de ver meu sangue derramado, já que morro mártir de amor”. (Últimas Palavras, Varia 5). A característica básica que sobressai dessas afirmações de Teresa de Lixieux sobre o martírio é a sua vitimação pelo amor. É o martírio de desapegar-se inteiramente por Cristo (Carta 62), de aceitar a secura (Carta 73), de transformar toda a vida em oblação de amor: “Façamos de nossa vida um sacrifício contínuo, um martírio de amor para consolar a Jesus” (Carta 74, a Celina). O sofrimento afrontado por amor transforma a vida em martírio fecundo. Dessa forma, é “o martírio do coração”, o sofrimento íntimo da alma” (Carta 146, a Celina). Então “o martírio do coração não é menos fecundo que o derramamento do sangue” (Carta 184, ao Pe. Bellière). Seu “martírio” de amor, considera-o um Dom especial de Deus, da mesma forma que o martírio de sangue. Sua vida encontra-se orientada para ele: “Morrer de amor, dulcíssimo martírio que eu gostaria de sofrer” (Poesia 17; cf. Poesia 22). E irá repetindo sem se cansar: “Teu amor é meu martírio” (Poesia 28). O oferecimento como vítima do Amor misericordioso tem esta conotação martirial: Que eu chegue a ser mártir por vosso amor. Que este martírio, depois de ter-me preparado para comparecer diante de vós, me faça, por fim, morrer”. (Orações e outros Escritos). Estes desejos profundos iam-se concretizando na vida diária. Em todas as coisas e acontecimentos encontrava o sentido que a orientava até o amor, especialmente em sua última enfermidade: “Quando penso que morro na cama! Gostaria de morrer na arena!”(Últimas Palavras, Varia, 4.11). A expressão “sangue” tem conotações de doação sacrifical. Trata-se de uma vida doada plenamente nos altares da vontade de Deus. Derramar o sangue equivale a dar a vida por amor. Em sintonia com as vivências de Cristo Bom Pastor, isso se traduz numa sede ardente de almas. A vida de Teresa de Lisieux é martírio de amor, porque se gasta gota a gota para apagar a sede de Cristo e recolher e aplicar seu sangue redentor. Contemplando uma estampa de Jesus crucificado, cuja mão ensangüentada destacava-se no livro, afirma: “Fiquei profundamente impressionada ao ver o sangue que caia de uma de suas mãos… caía ao solo sem que ninguém viesse recolhê-la…. resolvi manter-me em espírito ao pé da cruz para receber o divino orvalho que dela gotejava, compreendo que logo teria que derramá-lo sobre as almas(H.A. cap. V). Poucos dias antes de morrer, em circunstâncias semelhantes, repete quase as mesmas palavras: “Não quero deixar que se perca esse sangue precioso. Passarei minha vida recolhendo-o para as almas”. (Últimas Palavras, agosto 1897). A ânsia de martírio se alimenta da sede missionária de salvar almas. A sede de Cristo na cruz contagia os apóstolos de um zelo universal: “O grito de Jesus na cruz ressoava continuamente em meu coração: Tenho sede! Estas palavras acendiam em mim um ardor vivíssimo e desconhecido… Eu mesma me sentia devorada pela sede de almas” (H.A. cap. V). E conclui: “Às almas eu dava o sangue de Jesus, e a Jesus eu oferecia estas almas refrescadas com seu divino orvalho, e deste modo me parecia acabar-lhe a sede” (ibidem). Os sofrimentos e dificuldades da vida missionária se transformaram em fecundidade apostólica por ser o martírio íntimo de uma vida doada: “Jesus deseja ser auxiliado em seu divino cultivo de almas”(H.A. cap. V). “Ofereçamos nossos sofrimentos a Jesus para salvar almas… todo o sangue de um Deus foi derramado para salvá-las. Jesus quer fazer depender sua salvação de um suspiro de nosso coração” (Carta 61, a Celina). “Amemo-lo, pois, até a loucura, salvemo-lhe almas… nos pede que aplaquemos sua sede dando-lhe almas… Jesus quer que a salvação das almas dependa de nossos sacrifícios, de nosso amor… Ele nos mendiga almas… um olhar e um suspiro que serão somente para ele” (Carta 74, a Celina). “É tão doce ajudar Jesus a salvar almas que ele redimiu com o preço de seu sangue!” (Carta 171, a Leônia). Quase em seus últimos momentos e abrasada de sede, Teresa de Lisieux dirá com confiança filial: “Meu Jesus, vossa filhinha tem muita sede… sente-se feliz… por assemelhar-se ainda mais a vós e em salvar almas”. (Últimas Palavras, por Irmã Maria da Trindade).

3. A fecundidade missionária da cruz
A missão, por ser prolongamento da vida de Cristo, percorre seu caminho de imolação, e “tem seu ponto de chegada aos pés da cruz”(RMI 88). Todo missionário conhece muito bem este caminho e está convencido de que não há fecundidade sem cruz, como “não há redenção sem derramamento de sangue” (Hb 9,22). A cruz não significa diretamente dor, mas o amor oblativo traz ordinariamente consigo o sofrimento. Em Teresa de Lisieux o sofrimento está sempre acompanhado de amor, sem o qual não terá sentido cristão ou missionário: “O sofrimento, unido ao amor, é a única coisa que me parece desejável no vale de lágrimas… É verdade que sua cruz me acompanha desde o berço, mas Jesus me fez amar com paixão esta cruz” (Carta 224, ao Pe. Bellière). “O sofrimento me estendeu seus braços, e eu me envolvi neles com amor” (H.A. cap. VII). A fecundidade apostólica, como em Paulo, ocorre por meio do sofrimento transformado em amor (Cf. Gl 4,19; Cl 1,24). Para Paulo, trata-se da dor da maternidade apostólica, conforme o anúncio de Cristo na última ceia (Cf. Jo 16,21-22). Por isso Teresa diz: “As almas mas queria dar por causa da Cruz”(H.A. cap. VII). “Vejo que só o sofrimento é capaz de gerar almas” (H.A. cap. VIII). “Só o sofrimento pode gerar almas para Jesus” (Carta 108, a Celina). A alegria unida ao sofrimento não consiste em sofrer por sofrer, mas na alegria de poder compartilhar a mesma sorte de Cristo, segundo a perspectiva paulina: “Estou cheio de consolação, transbordo de gozo em todas as nossas tribulações”(2Cor 7,4). Então a “tristeza” e o medo do sofrimento se transformam em “gozo que ninguém pode tirar” (Jo 16,20.22). Dizia Teresa de Lisieux: “Sofro com alegria e paz. Verdadeiramente encontro minha alegria em sofrer”(H.A., cap. X). O gozo missionário do sofrimento se alimento do ardor apostólico no estilo do Bom Pastor. Esse é o preço das almas: “Sofrendo se pode salvar almas” (Carta 23., a Irmã Inês). Por isto, para ela, “um dia sem sofrer é um dia perdido” (Carta 26, a Celina). Nem sempre se trata de grandes sofrimentos, mas daqueles pequenos espinhos da vida cotidiana: “Não percas nenhum dos espinhos que encontras a cada dia! Com um deles podes salvar uma alma!” (Carta 72, a Maria Guérin). “Não lhe recusemos o menor sacrifício…. Recolher um alfinete por amor pode converter uma alma! Que mistério!” (Carta 143, a Leônia). Muito menos se trata de buscar explicações teóricas, mas sim imitar o exemplo do próprio Jesus: “Quer que comeceis já a vossa missão, e que pelo sofrimento salveis as almas. Não foi sofrendo e morrendo que ele redimiu o mundo?”(Carta 184, ao Pe. Bellière). Por isto, “a oração e o sacrifício constituem toda a minha força, são as armas invencíveis que Jesus me deu. Elas podem, muito mais que as palavras, comover os corações”. (H.A. cap. XI). A doutrina de Teresa de Lisieux sobre a fecundidade missionária da cruz, se inspira em toda a tradição missionária eclesial. Em carta a seu “irmão” missionário, Pe. Roulland, cita uma afirmação do mártir Teophanes Vénard: “Toda a vida do missionário é fecunda em cruzes”. Ela comenta: “Meu irmão, os inícios de vosso apostolado estão marcados pelo sinal da cruz” (Carta 203). É o que afirmam tantas almas apostólicas: “Costumam fracassar muitos apostolados, menos o da cruz” (Me. Concepción Cabrera de Armida).

4. Ser Igreja Mãe com Maria Rainha dos Mártires
A tradição cristã sempre apresentou Maria como “Rainha dos Mártires”. Assim também a chama Teresa de Lisieux: “Ó, Rainha dos Mártires, a espada dolorosa traspassará teu peito até a noite da vida” (Poesia 54). De fato, Maria, “guiada pelo Espírito Santo, consagrou-se inteiramente ao serviço da redenção dos homens” (PO 18) e “associou-se com entranhas de Mãe ao sacrifício de Cristo, que consiste amorosamente na imolação da vítima que ela mesmo gerara” (LG 58). A patrona das Missões refere-se freqüentemente a Maria, exatamente por relacionar maternidade e missão. O ponto de partida é sempre Jesus Cristo, que, “sofreu este martírio para salvar almas, abandonou sua Mãe, viu a Virgem Imaculada de pé junto à cruz com o coração traspassado por uma espada de dores” (Carta 184, ao Pe. Bellière). Daí passa a descobrir o sentido maternal do martírio de Maria (Poesia 54). Por isto, o coração materno de Maria é “imenso”, porque nele cabe a humanidade inteira (ibidem). O martírio de amor, em Teresa de Lisieux, se converte em maternidade fecunda, como “Mãe das almas” (H.A. cap. IX; Carta 114). Esta expressão é freqüente em seus escritos. Trata-se da fecundidade que provém do sofrer amando e da virgindade como esponsal com Cristo: “Sou virgem, ó Jesus! Não obstante, que mistério! ao unir-me eu a ti, sou mãe de almas (Poesia 22). “Nunca imaginei que fosse possível sofrer tanto!… Não encontro explicação para isto, a não ser pelos desejos ardentes que tenho tido de salvar almas”. (Últimas Palavras, último dia). Neste sofrimento materno e fecundo torna-se transparente a maternidade de Maria e da Igreja missionária. O sofrimento se transcende ao converter-se em doação materna a exemplo de Maria: “Sofrer amando é a mais pura felicidade!…. Quero viver contigo, Mãe Amada…. de teu imenso coração descubro os abismos de amor. Teu olhar maternal desvanece meus medos, e me ensina a chorar, e me ensina a sorrir”(Poesia 44). O martírio da vida cotidiana, vivida por amor, é o que mais se assemelha ao martírio da Rainha dos mártires, que consistiu principalmente na “noite da fé”. Descreve a fé de Maria em Belém com estas palavras: “Mãe do Salvador, que acho tão amável, como te vejo grande em lugar tão pequeno!… Eu te amo ao ver-te também, entre as outras mulheres, os passos dirigindo ao Templo do Senhor. Teu doce menino, Mãe, quer que tu sejas o exemplo vivo da alma que o busca ocultamente, na noite da fé… Sem arrebatamento ou êxtase e milagres… (Poesia 54). Maria é, ao mesmo tempo, “Rainha dos Apóstolos e dos mártires”(Carta 178, ao Pe. Roulland). Por isto, Teresa de Lisieux, como “florzinha da Virgem” sente-se ligada à maternidade virginal e dolorosa de Maria: “Jesus se esconde… Derramando lágrimas, se lhe enxugam as suas, e a Santíssima Virgem sorri. Pobre Mãe! Sofreu tanto por nossa causa! É justo que nós a consolemos, mesmo chorando e sofrendo com ela” (Carta 32, a Celina). Olhando Maria, Rainha dos Apóstolos e dos mártires, a vida missionária recupera sua misteriosa fecundidade: “Meditando tua vida, tal como a descreve o Evangelho, eu me atrevo a olhar-te e até a aproximar-me de ti. Não me custa crer que sou tua filha, quando vejo que morrer, quando vejo que sofres como eu”. (Poesia 54). A atitude martirial de Teresa de Lisieux tem dimensão eclesial. A vida missionária é bela porque se desenvolve no coração da Igreja, consumindo-se nos altares do amor. Esta é a vocação missionária da santa: “A caridade deu-me a chave de minha vocação… Compreendi que a Igreja tinha coração… Compreendi que o amor encerrava todas as vocações… Por fim, encontrei minha vocação. Minha vocação é o amor!… No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o amor!”(H.A. cap. IX) O sentido teresiano de ser “filha da Igreja”, recupera sua dimensão missionária e martirial: “Eu sou filha da Igreja…” (H.A. cap. IX). Esta atitude eclesial desborda as barreiras do tempo: “Espero não ficar inativa no céu. Meu desejo é seguir trabalhando pela Igreja” (Carta 225, ao Pe. Roulland). A vida missionária é martirial porque se consome apenas por Cristo e por sua Igreja. “Quem tem espírito missionário sente o ardor de Cristo pelas almas e ama a Igreja, como cristo”(RMI 89). Assim era o zelo missionário de Santa Teresa de Lisieux: “Nada me pára nas mãos. Tudo o que tenho, tudo o que ganho é para a Igreja e para as almas”(Últimas Palavras, 12.7.3). Muitas almas missionárias têm desejado imitar as atitudes de Teresa de Lisieux: “Quero ser santa como Santa Teresinha salvando muitas almas… Para mim não haveria felicidade maior que a de poder sofrer e amar pelas almas… Se não é para salvar almas, não vale a pena viver… As almas têm um preço muito alto, mas é preciso comprá-las com seu custo, pois o Senhor tem sede… Senhor, que todos te conheçam e te amem! Esta é a única recompensa que quero”.

5. Martírio missionário: O amor apaixonado por Cristo
Se é verdade que “no martírio resplandece a intangibilidade da dignidade pessoal do homem (VS 92) e, ao mesmo tempo, o martírio “é sinal preclaro da santidade da Igreja (VS 93), então o martírio se transforma em “anúncio solene e compromisso missionário” (ibidem). No que diz respeito à pessoa do missionário, sua atitude martirial enraíza-se num “amor apaixonado por Jesus Cristo” (VC 109). Só a partir deste amor, pode-se passar para o “anúncio apaixonado de Jesus Cristo àqueles que ainda não o conhecem, aos que estão esquecidos, preferentemente aos pobres”(VC 75). A vida se hipoteca para viver deste anúncio apaixonado aos mais pobres, isto é, aos que não vivem da fé nele. Os grandes missionários, como o Pe. Manna, têm destacado a relação de intimidade com Cristo como fonte da disponibilidade missionária: “O missionário não é nada se não se personifica em Cristo… Somente o missionário que imita fielmente a Cristo, pode reproduzir sua imagem aos outros”. (Pe. Manna, Carta 6). A vida de um apóstolo é uma “história de amizade com o Senhor” (VC 64). Percorre-se então um “itinerário de progressivo assemelhamento aos sentimentos de Cristo (VC 65) para poder se entregar a uma “tensão missionária”(VC 77) de sentido martirial, a exemplo de Teresa de Lisieux e de Francisco Xavier. Sem esta tensão contemplativa e apostólica, de “comunhão íntima com Cristo…. que tem seu ponto de chegada aos pés da cruz” (Rmi 88), “o missionário não pode anunciar a Cristo de modo convincente” (Rmi 91) Uma fotografia de 17 de março de 1896, mostra Teresa de Lisieux com um letreiro nas mãos, no qual está escrita a frase de Santa Teresa de Ávila: “Eu daria mil vidas para salvar uma só alma”. O amor que constitui a essência dessa atitude martirial é o amor que aspira a totalidade, que tende a dar de tudo continuamente e para sempre. A vocação de Teresa de Lisieux ela mesma a define: “Minha vocação é o Amor!”(H.A. cap. IX). Já não tem outro desejo a não ser “amar a Jesus com loucura”, porque “o amor é a única coisa que me atrai” (H.A. cap. VIII). “Há muito tempo não mais me pertenço, pois estou totalmente entregue a Jesus”(H.A. cap. X). Se, segundo Santo Tomás, “o martírio é um ato de fortaleza”, essa fortaleza martirial expressa-se principalmente na decisão permanente de gastar a vida amando e fazendo amar a Cristo. O “mártir” é “testemunha” do mistério pascal de Cristo, através de uma vida que deixa brilhar a oblação do Senhor: “Sereis minhas testemunhas” (Hb 1,8). Assim é a paixão martirial de Teresa de Lisieux, que tende sempre e apenas a transmitir o Amor, a “amá-lo e fazê-lo amar” Carta 89, a Irmã Inês), como uma opção fundamental e vocacional pelo Amor, com a característica dominante de ser “o amor no coração da Igreja” (H.A. cap. IX). Quando se intui o final desta vida consumida por amor como um martírio permanente, todo missionário é capaz de dizer, como Teresa de Lisieux pouco antes de morrer: “Não me arrependo de haver-me entregue ao Amor” (Últimas Palavras, 30.9.97). Essa vida martirial se equivale ao martírio de sangue e é também sua melhor preparação.

 

Ladainha de Santa Teresinha 
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.
Deus, Pai do Céu, tende piedade de nós.
Deus, Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.
Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós.
São José, rogai por nós.
Santa Teresa de Ávila, rogai por nós.
São João da Cruz, rogai por nós.
São Rafael Kalinowski, rogai por nós.
Santa Elisabeth da Trindade, rogai por nós.
Santa Teresa dos Andes, rogai por nós.
Santa Teresa Margaret Redi, rogai por nós.
Beata Edith Stein, rogai por nós.
Beata Maria Sacrário de São Luiz Gonzaga, rogai por nós.
Beata Maria das Maravilhas de Jesus, rogai por nós.
Santa Teresinha, estrela luminosa do Carmelo, rogai por nós.
Santa Teresinha, Padroeira das Missões, rogai por nós.
Santa Teresinha, Doutora da Pequena Via, rogai por nós.
Santa Teresinha, Padroeira da França, rogai por nós.
Santa Teresinha, Filigrana do Espírito Santo, rogai por nós.
Santa Teresinha, do amor filial, rogai por nós.
Santa Teresinha, perfeição de fé, rogai por nós.
Santa Teresinha, pequena fortaleza de Deus, rogai por nós.
Santa Teresinha, vocação para o amor, rogai por nós.
Santa Teresinha, asceta e mística, rogai por nós.
Santa Teresinha, amor no coração da Igreja, rogai por nós.
Confiança obstinada, rogai por nós.
Confiança invencível, rogai por nós.
Confiança heróica, rogai por nós.
Confiança na própria fraqueza, rogai por nós.
Desejo de santidade, rogai por nós.
Desejo de amor, rogai por nós.
Desejo de virtudes, rogai por nós.
Desejo de renúncia, rogai por nós.
Desejo de retidão, rogai por nós.
Desejo de fidelidade, rogai por nós.
Desejo de perfeição, rogai por nós.
Alma simples, rogai por nós.
Alma sublime, rogai por nós.
Alma cândida, rogai por nós.
Alma missionária, rogai por nós.
Alma penitente, rogai por nós.
Alma pequenina, rogai por nós.
Alma paciente, rogai por nós.
Alma humilde, rogai por nós.
Alma pacífica, rogai por nós.
Alma suave, rogai por nós.
Alma que escolheu tudo, rogai por nós.
Alma dos pequenos sacrifícios, rogai por nós.
Alma doce na noite da provação, rogai por nós.
Apóstola da Misericórdia, rogai por nós.
Apóstola da Confiança e do Abandono, rogai por nós.
Apóstola da Simplicidade de Coração, rogai por nós.
Anjo dos Enfermos e Prisioneiros, rogai por nós.
Pequena Irmã dos Pobres em Espírito, rogai por nós.
Irmã Universal, rogai por nós.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.
Rogai por nós, Santa Teresa do Menino Jesus da Santa Face, para que
sejamos dignos das promessas de Cristo.
Oremos… Ó Deus, que sois glorificado em vossos santos e santas, ouvi-nos
por intercessão de Santa Teresinha do Menino Jesus, que nos ensinou o
Pequeno Caminho da confiança e do abandono em vossa Misericórdia. Por
Cristo Nosso Senhor,
Amém.

 

“A PEQUENA VIA”
http://www.geocities.com/Heartland/Flats/9292/

“Já que vemos o caminho, corramos juntos” (Santa Teresinha, Obras Completas, Carta 197).
O mundo tem sede de Deus. As pessoas querem fazer uma experiência de Deus. Querem encontrar um sentido mais profundo para suas vidas. Estão cansadas de sofrer, desesperançadas. Existe uma infinidade de caminhos espirituais e de espiritualidades a seguir. Teresinha afirma: Como os caminhos, pelos quais o Senhor conduz as pessoas, são diferentes! Temos um caminho a lhe oferecer. Uma nova estrada, aquela palmilhada pela Santa de Lisieux. Segundo ela, um caminho real… vereda que foi traçada pelo próprio Jesus. Gostaríamos que você fosse suficientemente audacioso para provocar uma verdadeira revolução em sua vida conhecendo a Pequena Via, ou Pequeno Caminho, síntese da vida e da espiritualidade daquela que foi chamada de filigrana do Espírito Santo pelo filósofo Emanuel Mounier. Esta Pequena Via poderá ter o efeito de uma bomba em sua vida. Prepare-se para uma explosão de alegria e de desejo de viver o Evangelho seguindo as pegadas da Padroeira das Missões. Você também pode ser santo! Pequena e frágil, Teresinha tinha consciência de ser um nada diante de Deus. Meditava a vida dos santos e ficava encantada com seus gestos de heroísmo, suas duríssimas penitências. Comparando-se a eles, verdadeiros gigantes espirituais, ela se sentia um grão de areia. Mas nem por isso desistiu de buscar a santidade. Apesar de sua pequenez, conseguiu descobrir um pequeno caminho bem direto, bem curto, um pequeno caminho todo novo em sua busca de perfeição. Incapaz de subir por própria conta os patamares da Montanha do Amor e de escalar a rude escada da santidade, pediu a Jesus que a levasse nos braços ao cume da perfeição. Jesus seria o seu elevador e ela, docilmente, se lançaria nele numa vida de entrega e submissão. Estava começando a trilhar a Pequena Via e podia profetizar: … Como haverá pessoas admiradas ao ver o caminho pelo qual eu fui conduzida!… Você quer tentar seguir a Pequena Via? Os pontos principais da espiritualidade da Pequena Via são os seguintes:

1. Desça imediatamente de seu pedestal!
Reconheça a sua pequenez. Aceite suas próprias limitações. Aceite-se como você é. Lembre-se de que você foi feito de barro. Veja o exemplo de Teresinha: … Sei sempre encontrar o meio de ser feliz e de aproveitar de minhas misérias… Lembre-se de que Deus o fez assim, fraco e pecador. Diante d’Ele somos um nada. Dispa-se de toda vaidade e orgulho. Saiba exatamente quantos passos suas pernas podem dar. Desça do pedestal de sua arrogância. Seja humilde. Você é incapaz de atingir a santidade sozinho. Coloque-se diante de Deus como você é e não como gostaria de ser.

2. Sem Deus, você não é ninguém!
Quem o dirige nessa caminhada é Deus. Se você consegue exercer alguma virtude, não atribua a si mesmo o sucesso de seus empreendimentos espirituais. Procure fazer a vontade d’Ele, buscando-a pela oração e pela escuta de Sua palavra. Veja bem o que escreveu Teresinha: O Bom Deus continua me dirigindo pelo mesmo caminho, não tenho outro desejo senão o de fazer sua vontade. Renda-se aos encantos de Deus. Jogue-se em seus braços como uma criança. A Pequena Via é o caminho da entrega total, do abandono. Não resista. Melhor: desista de si mesmo e se refugie no único que pode trazer um sentido pleno à sua vida: O Deus de Misericórdia. Se você deseja ser santo, lembre-se que toda santidade vem do Senhor: “Sede santos como eu sou santo”.

3. Reconheça: Deus é rico em Misericórdia!
A felicidade que você usufrui, a paz que invade seu coração, nada disso existe por acaso, nem por seus méritos. Deus é rico em misericórdia e só dessa misericórdia você pode viver. Adore o Deus de Amor e Misericórdia, como Teresinha. Sinta-se invadido por este manancial de amor, como nossa santinha: Parece-me que o amor me penetra e me envolve, parece-me que, a cada instante, esse Amor Misericordioso me renova, purifica minha alma… Abandone para sempre aquela idéia do Deus vingativo e cruel que lhe foi imposta na infância. Ele é doce e misericordioso, quer o seu bem. Às vezes parece frio e distante, mas na verdade Ele nunca o abandona. Ele não o poupa de sofrimentos, porque o sofrimento faz parte da vida. Em compensação, Sua Misericórdia faz de você uma pessoa forte e destemida. Jamais tenha medo de Deus. Faça como Teresinha: Não posso temer um Deus que se fez por mim tão pequeno… eu o amo! … pois ele só é amor e misericórdia!.. A Pequena Via o fará descobrir que o amor de Deus é absolutamente gratuito. Nosso Deus é um Deus que dá a vida, que se dá, que perdoa sempre!

4. Viva o momento presente!
Pense os momentos preciosos que você está perdendo em sua vida por não viver o momento presente deixando a imaginação vaguear pelo futuro ou preso pela memória ao passado. O agora é um presente de Deus. Tome consciência do valor único e insubstituível desse minuto que você tem o privilégio de viver, esteja chorando ou sorrindo. Este momento é o único em que, na verdade, você pode amar a Deus e ao próximo. Teresa d’Ávila, a grande reformadora do Carmelo, dizia: Quem tem o momento presente tem Deus. Quem tem Deus tem Tudo. Teresinha soube viver a mística do instante e isso está muito presente em uma de suas poesias: Minha vida é só um instante, uma hora que passa. Minha vida é um só dia que se esquiva e foge bem o sabeis, meu Deus! Para vos amar na terra só tenho hoje. Por que se atormentar com a idéia do prolongamento de seus sofrimentos? Aprende a sofrer minuto por minuto: De instante em instante, pode-se aguentar muito, confidenciou Teresinha a Madre Inês.

5. Não perca o ânimo!
Que sua confiança em Deus seja sem limites: A confiança faz milagres… É a confiança, e nada mais a não ser a confiança, que nos deve conduzir ao Amor. Os caminhantes da Pequena Via não desanimam quando a estrada está acidentada, tortuosa. Acha-se muito fraco e pecador? Não pare no meio do caminho. Levante sua cabeça e prossiga. Peça a Jesus para tomar posse de sua alma e fazê-lo forte. Teresinha nos garante que seu caminho é todo de confiança e de amor. Por isso ela não compreende que ainda existam pessoas que tenham medo de um amigo tão terno. Se está difícil viver o evangelho, saiba que ele existe para todos, não para uns poucos privilegiados. A santidade é para todos. Alegre-se em ser pequeno e fraco: Sou de tal natureza que o temor me faz recuar; com o amor não somente avanço, mas vôo.

Está aí, brevemente, as grandes linhas da Pequena Via. Um projeto de vida simples e audacioso ao mesmo tempo. Durante a concelebração Eucarística no Dia das Missões de 1997, quando proclamou Teresinha Doutora da Igreja, o Papa João Paulo II disse, a propósito da Pequena Via: ela é uma via ao alcance de todos… caminho da confiança e do abandono total de si mesmo à graça do Senhor. Não se trata de uma via a ser banalizada, como se fosse menos exigente. Na realidade, ela é exigente, como o é sempre o Evangelho. Mas é uma via impregnada do sentido do abandono confiante à misericórdia divina, que torna suave até mesmo o mais rigoroso empenho espiritual. Agradeçamos a Deus porque Teresinha nos impele à santidade de forma tão descomplicada!

 

SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS
(Revista Arautos do Evangelho, Out/2005, n. 46  e  Set/2004, n. 33)

O que tanto atrai em Santa Teresinha, cuja devoção se tornou universal em pouco tempo?  Falecida aos 24 anos, ela continua a nos sorrir e a nos convidar  a seguir uma nova via de santificação, a “pequena via”, acessível a todos. Na tarde de 30 de setembro de 1897, uma cena inesquecível desdobrava-se na enfermaria do Carmelo de Lisieux. Cercada de toda a comunidade ajoelhada em torno de seu leito de dores, Santa Teresinha do Menino Jesus, fitando os olhos no crucifixo, pronunciava suas últimas palavras nesta terra de exílio: – Oh! eu O amo… Meu Deus… eu… Vos amo! Subitamente, seus amortecidos olhos de agonizante recuperam vida e fixam-se num ponto abaixo da imagem de Nossa Senhora. Seu rosto retoma a aparência juvenil de quando ela gozava de plena saúde. Parecendo estar em êxtase, ela fecha os olhos e expira. Um misterioso sorriso aflora-lhe aos lábios e aumenta a formosura de sua fisionomia. “Eu não morro, eu entro na Vida”, havia ela escrito poucos meses antes.

Sua luz brilha no mundo inteiro
Talis vita finis ita. – “Cada um morre como viveu.” Sua morte, aos 24 anos, foi um reflexo de sua breve existência – uma vida de virtude heróica, de amor a Deus e ao próximo levado a limites extremos, e de sofrimentos suportados com uma radiante alegria e uma santa despretensão.  Quis ela passar inteiramente despercebida neste mundo. E este seu desejo de vida oculta teria sido realizado, se Deus não tivesse outros desígnios a esse respeito. Por ordem das superioras, a humilde carmelita escreveu seus famosos Manuscritos Autobiográficos – “História de uma alma” – que tanto bem fizeram, fazem e farão ao longo dos séculos, além de várias cartas, poesias e outros documentos registrados pela História. E algumas irmãs de hábito que bem compreenderam sua extraordinária virtude, tomaram nota das conversas tidas com ela nos seus últimos meses de vida. Graças a isso, a chama acesa por Jesus na alma dessa Santa ilumina hoje o mundo inteiro. E nós podemos, nas linhas abaixo, apreciar alguns “flashes” fulgurantes dessa luz.
* * *
Em abril de 1897, quando a doença mortal entrava em sua última fase, sua irmã Paulina (em religião, Madre Inês de Jesus) fez a primeira anotação em seu caderno: “Quando somos incompreendidas e julgadas desfavoravelmente, de que nos serve defender-nos ou explicar-nos? É muito melhor não dizer nada e deixar que os outros nos julguem como lhes agrada. Não vemos no Evangelho Maria explicando-se quando sua irmã a acusou de ficar aos pés de Jesus sem fazer nada! Não, ela preferiu permanecer em silêncio. Ó abençoado silêncio que dá tanta paz às almas!” Trechos como este, de conversas íntimas com a Santa, quase nos fazem esquecer que ela está passando por sofrimentos físicos atrozes, incompreensões e, muito mais duro de suportar, uma terrível provação espiritual, “a noite da Fé”.
* * *
Descrevendo essa provação nos Manuscritos Autobiográficos, ela afirma: “Jesus permitiu que uma escuridão negra como boca de lobo varresse minha alma e deixasse o pensamento do Céu, tão doce para mim desde a minha infância, destruir minha paz e torturar-me…” E em conversa com suas irmãs acrescenta: “Minha alma está exilada, o Céu está fechado para mim e do lado da terra tudo é  provação também”. Olhando pela janela da enfermaria, viu um “buraco negro” no jardim e confidenciou à Madre Superiora: “É num buraco como esse que eu me encontro, de corpo e alma. Oh! sim, que trevas! Mas estou em paz dentro delas”. No dia da partida para a eternidade, pôde ela declarar com singela despretensão: “Oh, eu rezei fervorosamente a Ele, mas estou realmente em agonia sem nenhuma mistura de consolação”.
* * *
Apesar de todos os sofrimentos físicos e espirituais, ela iluminava com seu sorriso e aquecia com sua caridade as demais religiosas do convento. Naquela enfermaria não se respirava atmosfera de tristeza. Santa Teresinha não o permitia! Escreve sua irmã Maria: “Quanto à força moral, é sempre a mesma coisa, a alegria em pessoa, fazendo rir todos quantos dela se aproximam. Creio que ela morrerá rindo, de tal forma ela é alegre!” A Santa usava seu vasto repertório de jogos de palavras, imitações de pessoas, ditos espirituosos a respeito dela mesma e da incapacidade dos médicos – tudo para praticar a caridade fraterna. Sua alegria nada tinha de inautêntico, de forjado. A Irmã Teresinha detestava o fingimento! No entanto, ela se encontrava num tal extremo de padecimentos que chegou a dizer: “Nunca eu teria acreditado que fosse possível sofrer tanto. Nunca! Nunca! Não posso explicar isto, exceto pelos desejos ardentes que eu tive de salvar almas”. E em outra ocasião: “Que seria de mim se Deus não me desse forças? Não se tem idéia do que é sofrer tanto assim. Se eu não tivesse a Fé, eu teria me dado a morte sem hesitar um só instante…” Donde lhe vinha, pois, tanta força e alegria? Da total aceitação da vontade de Deus – “o Papai bom Deus”, dizia ela graciosamente.
* * *
Santa Teresinha tinha um grande medo: o de desagradar, no mínimo que fosse, seu bem-amado Jesus. Quanto ao resto, nada temia, muito menos a morte. Fazendo alusão ao ensinamento do Evangelho: “a morte vem como um ladrão”, gracejava ela de forma encantadora: “Diz-se no Evangelho que a morte virá como um ladrão. Oh! ele virá roubar-me muito gentilmente. Como eu gostaria de ajudar este ladrão!” E mais: “Não tenho medo do ladrão. Eu o vejo à distância e tomo muito cuidado para não gritar: ‘Socorro, ladrão!’ Pelo contrário, eu o chamo dizendo: ‘Por aqui, por aqui!'” Como explicar uma tal serenidade diante da morte iminente, mais ainda, uma tal vontade de que ela se apresse? Muito fácil. Pela confiança inabalável no amor misericordioso de Jesus, e pelo ardente desejo de perder-se nesse Amor o mais cedo possível.

O amor à bondade e à misericórdia
Santa Teresinha foi escolhida por Deus para ensinar um caminho de santificação a ser trilhado pelas almas fracas – a “pequena via”, a via da Confiança por excelência. Escreveu ela nos Manuscritos: “Sempre desejei ser uma santa (…) O bom Deus não inspira desejos irrealizáveis, eu posso, portanto, aspirar à santidade apesar de minha pequenez. Tornar-me grande, é impossível. Devo, pois, suportar- me tal como sou, com todas as minhas imperfeições, mas quero procurar um meio de ir ao Céu por uma pequena via, bem reta, bem curta (…) Eu quereria encontrar um elevador para subir até Jesus, porque sou pequena demais para escalar a áspera escada da perfeição. (…) Ah! o elevador que me fará subir ao Céu são vossos próprios braços, ó meu Jesus!” Essa grande Santa manteve intacta sua Inocência batismal, nunca manchou sua alma por um único pecado grave sequer. É por este motivo que ela demonstrava tal confiança na bondade do Divino Salvador? Nem de longe! Nas últimas frases dos Manuscritos, podemos ler esta confortadora mensagem, a qual não deixa a menor dúvida de que a via da confiança está aberta inteiramente até para os maiores pecadores: “… mas, sobretudo, imito a conduta de Maria Madalena. Sua admirável, ou melhor, sua amorosa audácia encanta o Coração de Jesus, e seduz o meu. Sim, eu o sinto: mesmo se me pesassem na consciência todos os pecados possíveis de cometer, eu iria, com o coração partido de arrependimento, jogar-me nos braços de Jesus, pois sei quanto Ele ama o filho pródigo que vem Lhe pedir perdão. Não é porque o bom Deus, em sua previdente misericórdia, preservou minha alma do pecado mortal que eu me elevo a Ele pela confiança e pelo amor.” E já nos últimos dias de sua vida terrena, exclama: “Oh! como sou feliz por me ver imperfeita e por ter tanta necessidade da misericórdia do bom Deus no momento da morte!” Deixar-se carregar por Jesus, por Maria Santíssima, no caminho da santidade… Sentir-se feliz por ser fraco e ter necessidade da misericórdia e da bondade de Deus… Eis o caminho curto e seguro indicado por Santa Teresinha – Doutora da Igreja, note-se! – para os católicos de nossos dias, homens e mulheres, de todas as idades e condições sociais.

Ninguém tem pretexto para não desejar a santidade
O preceito do Divino Mestre, “sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito”, é dirigido à humanidade inteira. O que para qualquer ser humano é impossível, Ele tornou possível até para os mais débeis, pelos méritos infinitos de sua Paixão e Morte na Cruz. As miríades de Santos do Céu dão testemunho dessa verdade consoladora. Santa Teresinha, porém, vai mais longe. Além de nos ensinar pela doutrina e pelo exemplo, ela se põe à nossa disposição, como se pode ver nas palavras ditas a suas irmãs de Vocação no dia 17 de julho, menos de três meses antes de subir ao Céu: “Sobretudo, sinto que minha missão vai começar, minha missão de fazer amar o bom Deus como eu O amo, de comunicar às almas minha “pequena via”. Se o Bom Deus realiza meus desejos, meu Céu se passará sobre a terra até o fim do mundo. Sim, quero passar meu Céu fazendo bem à terra.” “… minha missão de fazer amar o bom Deus como eu O amo”. – Então, que ela cumpra em cada um de nós, leitor, sua sublime lição! Peçamos esta graça com toda confiança.
* * * * * * * * *
Com semblante belo e luminoso, e dizendo palavras que soavam como uma melodia de Anjo, Santa Teresinha apareceu diversas vezes para comunicar ao mundo inteiro esta animadora verdade: a santidade está ao alcance de todas as almas, mesmo as mais débeis. Estamos em 1897. Duas jovens carmelitas conversam no Carmelo de Lisieux. Uma delas, Sor Teresinha do Menino Jesus, aproxima-se do fim de sua vida e do cume da santidade. A outra, que nutre por ela verdadeira admiração, é uma noviça vinda de Paris, Sor Maria da Trindade.

Antes de tudo é preciso crer no Papa
As duas conversam sobre a via espiritual que a Irmã Teresinha ensinava: a “pequena via”. Ante as insistentes perguntas da noviça, a santa e doutora da Igreja afirma com absoluta segurança: “Senti no coração grande desejo de sofrer e, ao mesmo tempo, a íntima segurança de que Jesus me reservara grande número de cruzes” – Se estou te induzindo a erro com minha pequena via de amor, não temas que eu te deixe seguindo-a durante muito tempo. Aparecerei logo para te dizer que tomes outro rumo. Mas se eu não voltar, crê na verdade de minhas palavras: no bom Deus, tão poderoso e misericordioso, nunca se confia demais. D’Ele se obtém tudo quanto se espera. – Creio nisso tão firmemente que me parece que se o Papa dissesse que estás errada, não acreditaria nele… Santa Teresinha logo corrige a jovem religiosa, muito fervorosa, mas um tanto estouvada: – Oh! Antes de tudo, é preciso crer no Papa. Porém, não tenhas receio de que ele venha a dizer-te para mudar de via: não lhe darei tempo, pois, se chegando ao Céu me inteirasse que te induzi a erro, eu obteria do bom Deus autorização para vir imediatamente te prevenir. Até lá, deves crer que minha via é segura, e segui-la fielmente.

Um angustiante problema financeiro
Folheando as atas do processo de beatificação da Serva de Deus, encontramos, além de seus escritos e das declarações das testemunhas, também o relato de milagres realizados por ela post mortem. Num desses, operado no mosteiro carmelita de Gallipoli (Itália), Santa Teresinha confirma a segurança e a santidade de sua “pequena via”. No mês de janeiro de 1910, o Carmelo de Gallipoli encontrava-se numa situação econômica catastrófica: em matéria de alimentação, as freiras estavam reduzidas a um quilo de pão para cada uma, por semana; havia dias em que, nada havendo para comer, elas iam para a capela rezar, em vez de ir para o refeitório. Passou por lá nessa época uma religiosa da Congregação das Marcelinas, de Milão, falou-lhes da jovem Serva de Deus Teresinha do Menino Jesus e lhes deu de presente a tradução italiana da História de uma Alma. As carmelitas de Gallipoli se entusiasmaram com essa sua irmã de hábito morta em odor de santidade na França e iniciaram, por intercessão dela, um tríduo à Santíssima Trindade, pedindo a solução de seu angustiante problema financeiro. No dia 16 desse mesmo mês de janeiro, a Madre Priora, Sor Maria Carmela do Coração de Jesus, caiu doente com febre e mal-estar, devido às preocupações pelas dívidas do seu mosteiro. Ela própria narra o que aconteceu nessa noite.

“Aqui tens 500 francos para pagar as dívidas”
Por volta de três horas da madrugada – conta ela – senti que uma mão me cobria com muita ternura com o cobertor que havia caído. Julgando ser uma religiosa do convento, disse-lhe sem abrir os olhos: – Deixa-me, estou transpirando muito. Ouvi então uma voz doce e desconhecida que me dizia: – Não, o que estou fazendo é uma coisa boa. Escuta, o bom Deus se serve dos habitantes do Céu, como dos da terra, para socorrer os seus servidores. Toma, aqui tens 500 francos para pagar as dívidas da comunidade. – A dívida da comunidade é de apenas 300 francos. – Pois bem, restarão 200. Agora, como não podes guardar dinheiro na cela, vem comigo. Eu, porém, pensei: “Como levantar- me? Estou cheia de suores”. Então a celeste visão me disse sorrindo: “A bilocação nos ajudará”. Encontrei-me imediatamente fora da cela em companhia de uma jovem carmelita cujo hábito e véu deixavam transparecer uma claridade paradisíaca que nos iluminava o caminho. Ela conduziu-me à sala onde guardávamos o dinheiro em uma pequena caixa. Ali estava a anotação das dívidas da comunidade, e ali ela depositou os 500 francos. Olhei-a com uma admiração cheia de alegria e me prosternei para lhe agradecer, dizendo: “Oh! Minha Santa Madre!” (É assim que as carmelitas se referem a Santa Teresa de Ávila). Ela, porém, acariciandome com muito afeto, disse: “Não, não sou nossa Santa Madre, sou a Serva de Deus Sor Teresa de Lisieux”. Então a jovem religiosa, acariciando- me uma vez mais com amor, afastou- se suavemente.

“Minha via é segura e não me enganei seguindo-a”
Atônita pelo que acabava de suceder, e pensando que Santa Teresinha não encontraria a porta de saída do Carmelo, a Priora disse-lhe um tanto maquinalmente: – Cuidado, poderia errar o caminho! – Não, não, minha via é segura e não me enganei seguindo-a – respondeu a Santa com um sorriso celestial. Sor Maria Carmela levantou-se imediatamente e foi para a Capela. As religiosas, notando nela algo diferente, lhe perguntaram o que havia acontecido. Ela lhes narrou a maravilhosa visão e foram todas ver a caixa onde se guardava o dinheiro do Carmelo, e lá encontraram a nota de 500 francos!

O bispo perdeu, as carmelitas ganharam
Mas não terminou aí o milagre. Nos meses seguintes a Serva de Deus apareceu diversas vezes à afortunada Priora, falava-lhe de “coisas espirituais” e lhe dava ajudas econômicas. Na noite de 15 de junho, narra a Madre Carmela, “ela prometeu trazer-me em breve 100 francos”. “Senti dentro de mim ser o Carmelo o deserto onde o Bom Deus queria que fosse  também esconder-me” Porém, o mais pitoresco e gracioso deste modo de agir de Santa Teresinha é a maneira como fez chegar essa importância às carmelitas de Gallipoli. O bispo dessa diocese, Dom Gaetan, contou-lhes que havia notado em sua caixa a falta de uma nota de 100 francos e esperava que Sor Teresa a levaria para elas… E assim ocorreu! Em 6 de agosto, a Santa de Lisieux apareceu novamente à Madre Carmela, trazendo na mão uma nota de 100 francos, e lhe disse: “O poder de Deus retira ou dá com a mesma facilidade tanto nas coisas temporais quanto nas espirituais”. A Priora apressou-se a devolver essa quantia ao Bispo, mas este a enviou de volta às religiosas.

“Esses ossos benditos farão milagres extraordinários”
Em 5 de setembro desse ano – véspera da exumação de seus restos mortais – a Serva de Deus apareceu mais uma vez. “Depois de falar-me a respeito do bem espiritual da comunidade – narra a Madre Carmela – ela me anunciou que na exumação só se encontrariam ossos. Depois me fez compreender os prodígios que ela faria no futuro. ‘Esteja segura, minha querida Madre, de que esses ossos benditos farão milagres extraordinários e serão armas poderosas contra o demônio’.” A Priora observou que a Santa da “pequena via” sempre aparecia na aurora, seu semblante era belo e luminoso, suas vestes brilhavam como prata transparente e suas palavras soavam como melodia de Anjo.

Uma nova confirmação
Sor Teresinha voltou a manifestar- se nesse Carmelo no ano seguinte, desta vez a propósito de Dom Nicolas Giannattasio, Bispo de Nardo, cidade próxima de Gallipoli. Esse Prelado havia estudado muito a vida da Serva de Deus. Sem ter tido conhecimento das palavras dela a Sor Maria da Trindade em 1897, julgava que a resposta dada à Priora em 1910 – “minha via é segura” – devia ser entendida no sentido espiritual e como uma confirmação de sua “pequena via”. Com a idéia de obter essa confirmação, e de pedir para si e para sua Diocese a proteção da jovem Serva de Deus, decidiu fazer um teste ousado. Colocou num envelope uma nota de 500 liras, junto com seu cartão de visitas, no qual escreveu:

In memoriam
“Minha via é segura e eu não me enganei”. Sor Teresinha do Menino Jesus a Sor Maria Carmela, em Gallipoli, no dia 16 de janeiro de 1910. Ora pro me quotidie ut Deus misereatur mei (Roga por mim todos os dias, para Deus ter piedade de mim). Dom Giannasttasio lacrou o envolope e o entregou às carmelitas de Gallipoli, pedindo-lhes para colocá-lo na caixa onde Santa Teresinha havia operado os milagres. Pouco tempo depois foi ao Carmelo pregar um retiro, no fim do qual quis ver esse envelope. Ele estava intacto, mas um tanto mais volumoso… Abrindo-o, o bispo encontrou, não apenas as 500 liras, mas 800, que ele deu imediatamente às religiosas. Uma das notas exalava um suave odor de rosas. Tanto Dom Giannasttasio quanto as carmelitas compreenderam que, por meio desse novo prodígio, Santa Teresinha queria manifestar claramente que sua “pequena via” era segura. Poucas vezes um caminho de perfeição foi confirmado por uma ação milagrosa tão extraordinária. Podemos imaginar a alegria de Sor Maria da Trindade ao tomar conhecimento desses fatos narrados por suas irmãs de vocação do Carmelo de Gallipoli. A Pequena Via de sua querida mestra de noviças era comprovadamente um caminho seguro e não levava ao erro…

A santidade ao alcance das pessoas comuns
A própria Santa Teresinha explica, nos Manuscritos Autobiográficos, em que consiste a sua “pequena via” de santificação. “Sempre desejei ser santa, mas – pobre de mim! – sempre constatei, ao me comparar com os santos, que entre eles e eu existe a mesma diferença que há entre uma montanha cujo cume se perde nos céus e o grão de areia obscuro pisado pelos transeuntes. Longe de desanimar, disse a mim mesma: ‘O bom Deus não pode inspirar desejos irrealizáveis. Logo, apesar de minha pequenez, posso aspirar à santidade. Tornar-me grande, é impossível; devo, pois, me suportar tal como sou, com todas as minhas imperfeições, mas quero procurar um meio de ir ao Céu por uma pequena via bem direita, bem curta, uma pequena via inteiramente nova’.”
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Nessa época, fazia enorme sucesso o elevador, recém-inventado, que poupava às pessoas o esforço de subir escadas. Sor Teresinha sentiu um grande desejo de “encontrar um ascensor para me elevar até Jesus, porque sou pequena demais para galgar a rude escada da perfeição”. Pôs-se então a procurar nos Livros Sagrados e encontrou este pensamento: “Se alguém é pequenino, que venha a Mim” (Pr 9, 4). Continuando sua pesquisa, encontrou esta afirmação: “Como uma mãe acaricia seu filho, assim Eu vos consolarei, vos carregarei ao peito” (Is 66, 12-13). E concluiu cheia de júbilo: “Ah! O elevador que deve me erguer até o Céu são vossos braços, ó Jesus!” A leitura atenta e amorosa dos Santos Evangelhos lançou-lhe mais luz: “Se não vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3). “Deixai vir a Mim os pequeninos e não os impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham” (Mc 10, 14). Estava explicitado em que consiste a “pequena via”, o caminho da infância espiritual. Nela, o importante, não é fazer grandes mortificações corporais, mas aceitar com humildade a própria pequenez, as próprias limitações, até mesmo as próprias imperfeições, e ter um amor e uma confiança sem limites na bondade de Deus; e, como fruto desse amor, ter imensos desejos de fazer com perfeição os atos da vida diária.
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Com sua doutrina e, sobretudo, com seu exemplo, a suave Carmelita de Lisieux demonstrou que a santidade é acessível a todos. Ela “viveu a santidade pura e simples, com todo o encanto e sedução da alma moderna, muito humana e muito próxima de nós”, afirma um de seus mais insignes biógrafos. Ao canonizá-la – mais ainda, ao proclamá-la Doutora da Igreja – a Santa Igreja oficializou sua “pequena via” como um autêntico caminho de santidade. Isso foi afirmado claramente pelo Papa Bento XV, em discurso de 14 de agosto de 1921: “No caminho da infância espiritual está o segredo da santidade para os fiéis do mundo inteiro”. E a bula de canonização assinala que por meio de Santa Teresinha Deus propunha aos homens um novo modelo de santidade, ao alcance não só de padres e freiras, mas também dos leigos de todas as idades e condições sociais.

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