Todos somos heterossexuais

Sexualidade

A Igreja, que é mãe e mestra, acolhe cada pessoa como Jesus as acolhe, aceitando o pecador, mas não o pecado

A homossexualidade pode ser definida como uma atração sexual prevalente e estável por pessoas do próprio sexo. Sendo simplesmente uma atração (inclinação, tendência…), como outras tendências (musicais, esportivas, alimentares…), independente da identidade da pessoa, a homossexualidade não constitui o aspecto essencial e não é, portanto, a natureza, a condição ou o estado dessa pessoa.

Pode-se afirmar, a rigor de lógica, que não existem homossexuais, mas pessoas com orientações homossexuais. É fundamental distinguir entre a tendência homossexual e a pessoa que prova essa tendência. Pode-se considerar a homossexualidade um problema, desaprovar as uniões homossexuais e considerar imoral tais atos; mas nos confrontos dessas pessoas são necessários compreensão e respeito. Do mesmo modo, uma atitude crítica em relação à homossexualidade não significa “homofobia” nem desprezo com pessoas que possuem essa tendência. A homossexualidade não é determinada pelo comportamento sexual. Existem, de fato, pessoas com tendências homossexuais absolutamente castas ou que possuem relações heterossexuais, assim como existem pessoas com uma orientação heterossexual, mas que, por diferentes motivos, experimentam comportamentos homossexuais, sem que estes modifiquem sua orientação sexual.

A homossexualidade não diz respeito apenas e exclusivamente à orientação sexual. Sua raiz se coloca como a identidade de gênero, ou seja, a consciência do papel que os indivíduos do próprio sexo desenvolvem na sociedade. O fundamento da homossexualidade – como evidenciou Alfred Abner (1870-1937) e foi confirmado mais recentemente por Irving Bieber (1908-1991) – é que os homens que provam tendências homossexuais não se percebem à altura dos outros homens, capazes de poder satisfazer as exigências que a sociedade faz aos representantes do próprio gênero, dotados daquelas características viris que, na realidade, cada homem deve fastidiosamente construir. Esses admiram, invejam e, portanto, sentem-se atraídos por outros homens que veem mais desejosos de si.

Isso implica que as pessoas com tendências homossexuais são, na realidade, heterossexuais com problemas de identidade de gênero. Não existem, portanto, “homossexuais latentes”, porque não existe uma natureza homossexual que possa não se manifestar, nem existe uma tendência homossexual se ela não é advertida; e mais ainda, pode-se afirmar que as pessoas com tendências homossexuais são, na realidade, “heterossexuais latentes”.

Outra distinção importante é aquela entre as pessoas com tendências homossexuais e os gays: enquanto a palavra “homossexualidade” indica simplesmente uma atração ou tendência, a palavra “gay” indica uma identidade sócio-política. Nem todas as pessoas com tendências homossexuais se reconhecem na identidade gay; a maior parte deles não é orgulhoso dessa inclinação e, por isso, sofrem muito, nem mesmo consideram a homossexualidade positiva para si e para a sociedade. Uma das questões mais debatidas sobre o argumento homossexual é se a homossexualidade é algo natural. A questão nasce de um equívoco de fundo: não é de fato natural tudo que existe, nem mesmo tudo que fazem os animais. O termo “natural” indica aquilo que deveríamos ser, aquilo que seremos se o nosso desenvolvimento não encontrasse obstáculos. Em uma palavra, é o nosso projeto vital.

Da mesma forma que a obesidade existe, mas não é natural, também a homossexualidade não é natural, porque todas as pessoas são heterossexuais, a não ser que algo intervenha, elimine a sua identidade de gênero e faça surgir um sentido de inferioridade, de diversidade e dificuldade em relação às outras pessoas.

Os ativistas gays fortemente sustentam a hipótese de que a homossexualidade tenha uma causa biológica. No imaginário comum, de fato, tudo aquilo que é biológico é facilmente identificado como alguma coisa de inelutável, e que, portanto, deve ser aceito. Todavia, estudos científicos excluem a possibilidade de uma causa biológica da homossexualidade: independente de títulos jornalísticos tanto de grande circulação como não tanto, não existe um “gene gay”, um “cérebro gay” ou um “hormônio gay”; no máximo – mas sem nenhuma certeza científica – pode-se fazer hipótese de uma predisposição biológica que é bem diferente de uma causa biológica. Mas, com certeza, há influências ambientais (familiar, social, experiência de vida etc.) que determinam um sentido de inferioridade em relação às pessoas do mesmo sexo, e, portanto, o desenvolvimento da homossexualidade.

A título de conclusão: é possível que uma pessoa com tendências homossexuais mude sua orientação sexual? Sim. Há testemunhos de experiências clínicas (Nicolosi, van den Aardweg, Bieber, Spitzer…) como também de associações de pessoas que mudaram sua orientação sexual. Existe também uma vastíssima bibliografia, seja em português ou em outras línguas, principalmente em inglês e francês, muito importantes, como a carta que Joseph Ratzinger escreveu: CARTA AOS BISPOS DA IGREJA CATÓLICA SOBRE O ATENDIMENTO PASTORAL 
DAS PESSOAS HOMOSSEXUAIS.

Antes de darmos um juízo final sobre tal comportamento ou tendência, saibamos que por trás de cada um existe uma história, e que a Igreja, que é mãe e mestra, acolhe cada pessoa como Jesus as acolheu, aceitando o pecador, mas não o pecado. Ajudemos a cada um desses nossos irmãos e irmãs com nossa oração e caridade.

Anderson Marçal Moreira é padre da Igreja Católica Apostólica Romana. Natural da cidade de São Paulo (SP), padre Anderson é membro da comunidade Canção Nova desde o ano 2000. No dia 16 de dezembro de 2007, foi ordenado sacerdote. Estudou Teologia Pastoral Bíblica-Litúrgica na Universidade Salesiana de Roma.

 

Entrevista exclusiva
Igreja não mudou posição sobre homossexuais, afirma cardeal 
Quarta-feira, 15 de outubro de 2014, Kelen Galvan Da redação, com colaboração de Danusa Rego

Cardeal Odilo Scherer diz que interpretação sobre mudança de postura da Igreja quanto aos homossexuais é errônea

A Igreja não mudou sua posição em relação às uniões de pessoas do mesmo sexo. Foi o que afirmou o Cardeal Odilo Pedro Scherer, que participa dos trabalhos da 3º Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, sobre a Família, no Vaticano, em entrevista exclusiva à nossa correspondente em Roma, Danusa Rego.

O cardeal comentou a repercussão das mídias, que, em alguns casos, trouxeram interpretações equivocadas sobre o relatório da primeira semana do Sínodo, apresentado nesta segunda-feira, 13.

Dom Odilo enfatizou que o relatório foi apenas um “apanhado” geral de tudo o que foi apresentado rapidamente em mais de 200 intervenções, e o texto ainda passará por discussões. Ele lembrou também que o documento final do Sínodo será concluído apenas em outubro de 2015.

Outro alerta do cardeal foi a respeito de decisões de Francisco. Segundo ele, “não houve nenhuma decisão do Papa”, pelo contrário, o Santo Padre está em atitude de escuta. “Ele está participando de quase tudo, quietinho, ouvindo, porque o Sínodo é chamado justamente a falar, e o Papa ouve”, explicou.

Canção Nova – Dom Odilo, na segunda-feira, o Cardeal Péter Erdõ, leu o chamado relatório pós-congregações, que sabemos não ser ainda o documento final do Sínodo, não é mesmo?

Dom Odilo – De fato, esse relatório, preparado pelo Cardeal Erdõ, de Budapeste, que é o relator geral do Sínodo, ajudado naturalmente pela equipe de secretaria, tentou trazer uma síntese de tudo o que foi apresentado durante a semana, por mais de 200 intervenções dos membros do Sínodo, que falaram por três ou quatro minutos.

Portanto, foram muitas intervenções e o relator fez um apanhado organizando essas sínteses com uma reflexão, títulos e assim por diante.

Então, esse relatório não é ainda uma decisão, não é um documento do Sínodo. É um relatório. E um relatório que, naturalmente, está sendo trabalhado ulteriormente pelo Sínodo, porque os grupos menores são parte da metodologia.

O Sínodo é maior que o trabalho do relator. Então, o Sínodo continua trabalhando sobre esse relatório agora para complementar, ampliar, aprofundar e cortar, se for o caso, alguma questão. E, naturalmente, isso parte da metodologia do Sínodo.

O que eu quero destacar é que, de fato, esse relatório apresentado é de síntese, não é nenhum documento aprovado.

Canção Nova – Ontem, um dos cardeais afirmou ter visto com surpresa a forma que algumas mídias noticiaram os fatos dessa semana, como se o Papa já tivesse decidido alguma coisa. Lemos em alguns jornais, por exemplo, que os bispos defendem mudanças profundas na relação do Vaticano com os homossexuais, e que bispos conservadores estariam reagindo à abertura da Igreja com relação aos gays. O senhor poderia também esclarecer essa questão?

Dom Odilo – Para começar, não houve nenhuma decisão do Papa. Ele está participando de quase tudo, quietinho, ouvindo, porque o Sínodo é chamado justamente a falar e o Papa a ouvir. O Papa não está intervindo constantemente. Ele ouve. E, portanto, não tomou nenhuma decisão.

Então, noticiar que o Sínodo tomou essa decisão, mudou isso ou aquilo, não é verdade. Isso ainda não aconteceu nem é parte da metodologia do Sínodo, mas o Papa incentivou que todos tivessem a coragem de falar, francamente e livremente.

Ele até disse: “Quem garante a unidade da Doutrina é o Papa; portanto, falem livremente, porque nós estamos num Sínodo”. Sínodo significa um caminho, a busca de um caminho comum.

As reflexões evidentemente não são todas iguais. Nos mais de 200 participantes desta Assembleia Sinodal, há muitas maneiras diferentes de ver as coisas. Isso tudo é apresentado; então, é claro que as posições não são iguais. Mas isso não significa que estão aí debatendo uns contra os outros, que está tendo partido aqui, bancada lá. Isso é uma fantasia que, talvez, caiba nos parlamentos políticos, mas não está acontecendo na Igreja.

O que está havendo é a livre manifestação das ideias, das reflexões que, agora, buscam chegar a um caminho comum. Sínodo é isso: um caminho comum, que, de toda maneira, ainda tem muitas etapas para fazer, para se chegar a um documento final. Inclusive, o caminho a fazer é a próxima Assembleia do Sínodo do ano que vem.

Canção Nova – Nós falamos dos homossexuais, talvez seja interessante esclarecer também que não é uma grande novidade a acolhida da Igreja para com essas pessoas, não é Dom Odilo?

Dom Odilo – De fato, às vezes, apresenta-se como grande novidade aquilo que já está, é parte da vida da Igreja, é parte das atitudes dela, da sua doutrina. Então, não houve também nada de mudança nesse sentido. É só olhar o que está nos documentos da Igreja a respeito dos homossexuais.

O que se disse erroneamente é que a Igreja mudou sua posição em relação à união de pessoas do mesmo sexo. Isso não aconteceu. Não houve uma mudança de posição.

O que houve no Sínodo foram várias considerações, porque isso também está na pauta, no Instrumento de Trabalho, a respeito das uniões de pessoas do mesmo sexo. Como encarar isso? Como encarar a presença dos homossexuais na Igreja? Como encarar a adoção de filhos e a educação deles? Como encarar duas pessoas do mesmo sexo que adotaram uma criança e querem batizá-la? Tudo isso foi refletido. Mas não houve mudança de posição na Igreja em relação àquilo que já se fazia.

Canção Nova – Para que as pessoas compreendam melhor, qual o clima desses trabalhos sinodais entre os cardeais, os bispos e até mesmo os leigos que participam dessas discussões?

Dom Odilo – O clima é muito bom, sereno e fraterno, de grande liberdade e de grande caridade também no escutar. Basta pensar que, na semana passada, ficamos a semana inteirinha, manhã e tarde, escutando os outros que falavam, e ficávamos quietinho. Eu falei duas vezes durante a semana e o resto foi escutar.

Então, a gente faz a caridade da escuta, da paciência, do discernimento, da acolhida de quem pensa diferente para chegar justamente a uma maior luz sobre a verdade que tem de ser acolhida e seguida.

O clima é muito fraterno, portanto, entre todos os participantes do Sínodo, isso não impede que cada um expresse livremente, com toda a sua convicção, aquilo que pensa; e isso é necessário, porque se todo mundo pensa a mesma coisa, nós não vamos para a frente nem seria necessário fazer um Sínodo.

Canção Nova – Como caminham os trabalhos dos círculos menores, em especial do grupo do qual o senhor participa?

Dom Odilo – Eu estou num grupo de língua espanhola. Infelizmente, não temos um grupo de língua portuguesa. Esse grupo é formado sobretudo de latino-americanos, de bispos de toda a América Latina e um ou outro da Espanha, portanto, bastante diversificado.

O grupo é muito vivo, muito interessado nas questões, com muitas sugestões, muita criatividade que está sendo manifestada. Nós estamos fazendo muitas propostas, emendas para enriquecer o texto e, depois, reapresentá-las no plenário, para que elas possam ser integradas ao texto global.

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