Você é jovem?

Não pense que a pergunta é simples e a resposta igualmente fácil. Aliás, nem mesmo sociologicamente falando existe unanimidade a respeito da faixa etária atribuída à juventude: ela depende da interpretação legal, da cultura, do momento histórico… Também não se trata, aqui, daquele ‘período da vida’ que consegue escamotear o número de anos vividos à custa de cirurgias plásticas, dietas extravagantes, sujeição a exercícios desumanos. Nem se sintam excluídos de tentar responder aqueles que, honestamente, têm várias idades: a dos dados indiscutíveis contidos na carteira de identidade, a do cérebro “antenado” com a enxurrada de conhecimentos que invade e sufoca, a das articulações que doem e teimam em imprimir aos movimentos um ritmo próprio, ignorando completamente os esforços genuínos em favor de uma vida saudável…

Na verdade, quero falar de uma outra juventude: a que se derrama e se revela “nos critérios de julgar, nos valores que contam, nos centros de interesse, nas linhas de pensamento, nas fontes inspiradoras e nos modelos de vida”… Sim, decidi lançar mão das sábias palavras com que Paulo VI, na Evangelii Nuntiandi (nº 19) não fala da juventude, mas mostra o que a força do Evangelho deve modificar… Como se vê, invento definições que a ciência não endossa; transito sem pedir licença entre descrições de situações distintas; atrevo-me a mostrar caminhos, como se não andasse eu mesma, de vez em quando, perdida diante do que o mundo dá e tira, oferece e exige, mostra e esconde.

É que estou pensando em pessoas que eram jovens, na Espanha, nos idos da década de 40, e de tal modo foram capazes de aplainar uns caminhos tortuosos que, ao apontar aos próprios pares um ideal alto e distante, criaram uma nova forma de ‘juventude’ que cruzaria oceanos e ignoraria a passagem do tempo. Um punhado de rapazes cheios de energia e convicção, apoiados pelo seu Conselheiro e pelo seu Bispo, abriram-se à inspiração do Espírito Santo e se puseram em marcha… Para onde? Bem, a história nos conta que seu objetivo final era Santiago de Compostela, mas o itinerário incluía guerra civil, peregrinações locais, preparação de líderes de grupos, viagens da ilha ao continente e… longas caminhadas.

A vitalidade era tanta que, concluída a peregrinação longamente acalentada e preparada, impossível seria não esbanjar a convicção de que o mundo que estava de costas para Deus poderia e deveria ser de novo iluminado, curado de suas feridas, conquistado pelo olhar intrigante daquele que, a cada um em particular, dizia com autoridade: “Segue-me”.

Começou mais ou menos assim uma história que já tem seis décadas. A inexatidão de certas informações que me leva a esse ‘mais ou menos assim’, fica por conta da possível despreocupação daqueles jovens em preparar elaborados registros escritos, quando ardia em seu coração um fogo ateado pelo senhor da messe que os convocava a trabalhar num campo imenso onde ainda havia poucos operários.

Quem quiser saber direitinho – tanto quanto isso seja possível – como o Movimento de Cursilhos de Cristandade começou, não terá dificuldade em encontrar informações em sua extensa literatura. Para os propósitos deste momento, basta saber que começou na Espanha, num contexto singular, tendo a juventude nos principais papéis.

Nem é preciso lembrar que, com o passar do tempo, não apenas foi o MCC saindo dos limites da ilha de Mallorca onde havia começado, mas também passou a cruzar fronteiras, entrando em outros países europeus e, aproveitando os voos que cruzavam o Atlântico, chegou ao novo mundo. Na caminhada foi, claro, incluindo homens mais velhos do que aqueles primeiros, cujos corações estavam, sem saber, à espera do anúncio que os levaria a um encontro inesquecível e apaixonante com Jesus. Numa dessas viagens, acabou o MCC chegando à América do Sul, onde pousou com uma novidade ímpar: o primeiro cursilho feminino da história.

Curiosamente, seus integrantes adultos foram superando os jovens em número – aqui falo apenas da idade cronológica, claro – e suas feições foram mudando, de modo que, em dado momento, foi necessária a saudável reflexão que recordasse os primeiros peregrinos e buscasse reintegrar aqueles dotados da coragem e do vigor necessários para trazer sangue novo, restaurar esperanças, realimentar a paixão.

A ninguém estranhe o fato de que todos convivam harmonicamente, aproveitando os jovens a experiência e a maturidade dos mais velhos, e estes a valentia e o espírito de aventura daqueles. Afinal, onde há amor, respeito e ideal comum, pouco atrapalham as circunstâncias específicas da idade.

Por isso quero retornar à definição de juventude acima que, levada pelo meu primeiro amor por este Movimento – ao qual retorno todos os dias há mais de quatro dezenas de anos –, ousei elaborar…

Se meus critérios de julgar me tornam capaz de fazer certos sacrifícios, de aturar o olhar enviesado dos que se acreditam espertos, de arcar com prejuízos materiais, de enfrentar as críticas ácidas dos que me acreditam foram de moda… então sou jovem. Se meus critérios de julgar me conquistam popularidade, me propiciam aceitação incondicional por parte dos meus pares, me tornam simpático porque não questionam os que me rodeiam… então sou velho.

Se meus valores que contam colocam acima de tudo a integridade, a honestidade, a sinceridade, a amizade, a solidariedade, a partilha… então sou jovem. Se meus valores que contam me permitem adaptação às circunstâncias de vida confortáveis que me custam certos princípios e cujo preço, afinal, pago porque é o que todos fazem… então sou velho.

Se meus centros de interesse estão voltados para o bem comum, a atenção aos excluídos, os gastos em favor de projetos que beneficiem os que mais precisam… então sou jovem. Se meus centros de interesse estão em linha com o sucesso, a moda, o reconhecimento dos que podem me dar destaque, a modernidade a qualquer preço… então sou velho.

Se minhas linhas de pensamento absorvem a reflexão e o testemunho dos santos, levam-me a julgamentos justos e impessoais, conformam meu caráter a partir do ser e não do ter… então sou jovem. Se minhas linhas de pensamento revelam que me deixo seduzir pela mídia, que assumo o descartável porque, afinal, sou um indivíduo do meu tempo, que me deixo levar pela onda para ser simpático à maioria… então sou velho.

Se minhas fontes inspiradoras jorram do Evangelho de Jesus, do sangue dos mártires, do grito dos que as prisões calaram, da coragem dos que deram a vida por seus ideais… então sou jovem. Se minhas fontes inspiradoras se alimentam dos que fizeram história à custa da dominação, dos que se impuseram pelo poder, dos que oprimiram pela tortura, dos que mantiveram a ordem sufocando a liberdade… então sou velho.

Se meus modelos de vida podem-se espelhar em Jesus de Nazaré – mesmo tendo seguido outras sendas – se não estão nas primeiras páginas dos jornais, mas nos corações daqueles a quem salvaram, se são capazes de fugir da fama para amar na obscuridade… então sou jovem. Se meus modelos de vida espalham sorrisos no horário nobre, ficam milionários vendendo ilusões através da Internet, ganham fama e fortuna graças à própria astúcia e à letargia de seus admiradores… então sou velho.

Ao longo de minha própria reflexão, fui concluindo que minhas rugas não me fazem justiça e meus ossos deveriam suprir mais resistência e menos dor. Não que não tropece vez por outra, como quem estivesse usando bengala ao invés de correr leve e solta! Não que não me sinta tentada a estender aos demais minha compreensão já sólida desse Movimento que amo, ao invés de me abrir permanentemente ao sopro inspirador dos que começam a entendê-lo agora. Mas, mesmo assim, caindo e levantando, sinto-me muito mais identificada com os que seguem adiante sem levar duas túnicas do que com os que resolvem construir mais um depósito para guardar seus grãos… E você?

Maria Elisa Zanelatto
Grupo Executivo Nacional
Secretária
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