Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael – 29 de Setembro

A Sagrada Escritura só nos indica o nome de três anjos: São Miguel, São Gabriel e São Rafael. Dos outros conhecemos muitas das suas atuações e experimentamos o seu benéfico influxo, mas desconhecemos os seus nomes. Algo mais, que se saiba a este respeito, vem-nos por revelações particulares e estas só nos dão garantia de autenticidade quando aprovadas pela Santa Igreja. Contentemo-nos, agora, com o que a Revelação Oficial nos ensina.

São Miguel é apresentado na Escritura como o Príncipe das milícias celestes, o defensor da glória do Senhor. Lemos no Apocalipse: «Houve uma batalha no céu: Miguel e os seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com os seus Anjos, mas foi derrotado e não se encontrou mais um lugar para eles no céu» (Ap 12, 7-8). Miguel é o Anjo do Povo de Deus, o seu Defensor no tempo da angústia (Dan 10, 12-21). «Naquele tempo surgirá Miguel, o grande príncipe, constituído defensor dos filhos do seu povo, e será tempo de angústia qual jamais houve» (Dan 12, 1). A Igreja é o novo Israel, o povo de Deus. Miguel é chamado a defendê-la contra os seus inimigos internos e externos. Vivemos um tempo quase apocalíptico, em que o «Dragão» e a apostasia se apoderam de muitas almas e querem sacudir o edifício da Igreja. Por isso, mais necessária se toma a intervenção do chefe das milícias celestes e protetor da Santa Igreja. O Papa Leão XIII mandou rezar no fim da missa uma oração a São Miguel Arcanjo, príncipe das milícias celestes, para nos proteger no combate contra Satanás e os outros espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para perder as almas. Esta prática esteve em vigor durante 80 anos. São Miguel foi constituído por Paulo VI (23.4.1976) padroeiro principal dos Agentes de Segurança Pública em toda a Nação Portuguesa – cf. Cruzada, Julho 1978, Supl, p. 11 (Pio XII já fizera o mesmo com a Itália, em 1949).

São Gabriel é o Anjo da Encarnação. Foi ele que anunciou a Daniel que daí a 70 semanas havia de nascer o Messias Salvador (Dan 9, 20-27). Apareceu a Zacarias, comunicando-lhe que a sua esposa Isabel, apesar da idade avançada, ia ser mãe do Precursor (Lc 1, 11-22): «Eu sou Gabriel: assisto diante de Deus e fui enviado para anunciar-te esta boa nova» (Lc 1, 19). Ele é, sobretudo, o Anjo que anuncia o mistério da Encarnação e que pede a Nossa Senhora o consentimento para ser Mãe de Deus. É ele que pela primeira vez profere aquelas palavras que todas as gerações hão-de repetir no decurso dos séculos para saudar e louvar a Virgem de Nazaré: «Ave, cheia de graça. O Senhor é convosco» (Lc 1, 28). Quando rezarmos a Ave-Maria, unamo-nos a este Anjo; que ele nos ensine a cumprimentar Maria com a mesma emoção e piedade com que ele o fez.

São Rafael é o Anjo benfazejo que acompanha o jovem Tobias na sua viagem desde Nínive até a Média, que o defende dos perigos e que patrocina o seu casamento com Sara. É ele que tira da cegueira o velho Tobias. Dá-se a conhecer ao seu jovem protegido com estas palavras: «Louvai a Deus do céu e agradecei-lhe por ter usado de misericórdia convosco! A oração, com o jejum e a esmola, vale mais que os tesouros de ouro. A esmola liberta da morte; mas quem comete pecados e injustiças é inimigo da sua alma». E ao pai disse: «Quando oravas com lágrimas e sepultavas os mortos, era eu quem apresentava ao Senhor as tuas preces. Agora o Senhor Deus mandou-me para te curar. Sou o Anjo Rafael, um dos sete Anjos que assistimos diante do Senhor» (Tob 5-12). Peçam-lhe os jovens que os acompanhe nos vaivens da vida e que os ajude nos problemas do noivado. Que os médicos e enfermeiros experimentem a sua proteção no trato com os doentes e que os viandantes o tenham como companheiro das suas jornadas.

Honrando os Anjos, exaltemos o poder de Deus, Criador do mundo visível e invisível, pois – como diz o Prefácio da Missa de hoje – «resulta em glória para Vós a honra que prestamos a eles como criaturas dignas de Vós; e na sua inefável beleza, Vós mostrais como sois grande e digno de ser amado sobre todas as coisas».

ORAÇÃO A SÃO MIGUEL ARCANJO
São Miguel Arcanjo, protegei-nos no combate, cobri-nos com vosso escudo, contra os embustes e ciladas do demônio. Subjugue-o, Deus,  instantemente o pedimos e vós, príncipe da milícia celeste, precipitai no inferno a Satanás e a todos os outros espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém. São Miguel Arcanjo, protegei-nos na luta para que não pereçamos no tremendo juízo. Sacratíssimo Coração de Jesus, tende piedade de nós! (3x)

 

OS ANJOS NA TRADIÇÃO DA IGREJA
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Da mesma forma que a Sagrada Escritura confirma a existência real dos anjos, a Tradição o faz. Vamos conferir as palavras dos mais destacados representantes dessa Tradição. São Clemente, de Roma, foi o terceiro sucessor de S. Pedro na Sé de Roma, na época dos imperadores Domiciano e Trajano (92 a 102). Viu os apóstolos e com eles conversou, havendo recebido diretamente deles os ensinamentos que pregou. Com esta autoridade ele afirmava que: ´os Anjos se acham a serviço de Cristo e são superiores aos homens´. São Policarpo, de Esmirna, martirizado no ano 156, em suas cartas revelava fé esclarecida na existência de Anjos e demônios. Atenágoras, chamado de ´o filósofo cristão de Atenas´, para provar que os cristãos não eram ateus, dizia, na Súplica pelos Cristãos: ´Não somos ateus; cremos em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, mas ensinamos também que existe uma multidão de Anjos servidores, ministros de Deus criador e ordenador do mundo nas coisas que aí se encontram e na sua ordem´. Atribuía à influência do demônio, a difusão da idolatria, da mitologia pagã, as perseguições e a astrologia. Atenágoras foi o primeiro filósofo cristão que tratou de provar a existência de Deus por argumentos da razão. Escreveu a ApoIogia dos cristãos, dirigida ao imperador romano Marco Aurélio. . Esse grande apologeta, ensinava que um Anjo superior havia sido criado (Apol. 1335). Era soberano sobre a matéria e encarregado de governá-la. O orgulho o fez prevaricar em sua missão. Isto provocou sua queda e castigo. Outros Anjos que haviam sido criados para determinadas missões particulares no mundo o acompanharam em seu orgulho. São Justino, mártir no ano 165, foi o mais famoso dos apologetas do século II. Em sua Apologética, cap. 1,6 afirma praticamente o mesmo que Atenágoras, acrescentando que os Anjos foram criados antes dos homens. Uns Anjos se conservaram fiéis a Deus e outros apostataram. Chama de Satanás e Serpente ao demônio e, afirma que este recebeu um castigo eterno. Os demônios estariam condenados ao fogo eterno, mas só depois do último juízo é que desceriam ao inferno. Afirma que os anjos bons ajudam aos mártires no suplício e acompanham suas almas ao Céu. Sua função especial no Céu é cantar louvores a Deus. ´Nós adoramos a Deus e a seu Filho por Ele gerado e ao Espírito Profético, e que nos ensinou, bem como aos Anjos, que lhe são obedientes e semelhantes´ .

Taciano, nascido no ´país dos assírios´, convertido por São Justino, escreveu o Diatessaron, uma fusão dos quatros evangelhos. Segundo Taciano, o primogênito dos Anjos rebelou-se. Cedeu a seu orgulho e quis ser igual a Deus. Por isso foi transformado em demônio, juntamente com os que com ele se solidarizaram. Foram todos precipitados no inferno eterno. Acreditava na espiritualidade dos Anjos e dela tirou a conclusão quanto à eternidade do castigo dos demônios. Taciano refutou a opinião dos que admitiam que os homens condenados se transformariam em demônios. Santo Irineu de Lião (130-208), foi discípulo de São Policarpo, que por sua vez foi discípulo de São João evangelista; é considerado o maior defensor da Igreja contra o gnosticismo, e quem pela primeira vez apresentou uma sólida doutrina, na qual tem lugar a existência dos Anjos e dos demônios. Antes de Irineu, são encontradas apenas poucas e valiosas referências aos anjos nos escritos cristãos. ´Deus é criador do céu e da terra e de todo o mundo, e formador dos Anjos e dos homens. Só Ele é Pai, Deus criador, formador e moldador. Ele criou e formou ambas as coisas, tudo: o visível e o invisível, neste mundo e no céu.´ ´Por conseguinte, criou também os seres espirituais. O universo não foi criado nem formado pelos Anjos; Deus não necessitava deles para esse fim´. ´Os Anjos são espirituais, não possuem carne´. Santo Irineu narra a queda dos anjos maus e como foram castigados. ´O pecado que cometeram teria sido a inveja dos homens, uma vez que Adão colocado como senhor da Terra, seria também senhor dos Anjos que estavam sobre a Terra.´ (cf. Sb 2, 24) Santo Irineu evidencia a posição singular ocupada pelo Verbo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, de quem tudo o mais depende no existir, isto é, o céu, os Anjos e a terra. Ele acabou com a imagem gnóstica do mundo, como sendo uma série de ´eones celestes´ que emanam do ´princípio primeiro´. São Clemente de Alexandria (150-213), nasceu em Atenas. Converteu´se ao cristianismo, cuja doutrina pregou com grande zelo; afirmou: ´Aquele que crê, reza com os Anjos, mesmo que reze sozinho. Porque, com ele se reúne o coro dos santos que ficam em sua companhia´. Orígenes (183´254), apresentou inúmeras contribuições para a devoção aos anjos, embora sua doutrina em outros pontos tenha merecido reparos e até condenações por parte da Igreja. ´Conforme o grau de iluminação que receberam, os Anjos possuem funções diversas na administração do Universo. As Dominações, Virtudes e Potestades são destinadas a dirigir os outros Anjos. Os Anjos têm portanto uma certa subordinação entre si´. ´Onde quer que exista uma Igreja dos homens, ali haverá também uma Igreja de Anjos´. ´O culto que se deve aos Anjos é de veneração e não de adoração´. ´Cada diocese é dirigida por dois bispos, um secular e um Anjo´. ´Cada assembléia eclesiástica compreende também uma parte celestial formada por Anjos, os mensageiros de Deus, que habitam entre nós, que rezam com os homens e levam suas orações ao céu. Apesar disso, os Anjos nunca abandonam a presença de Deus. Sua amizade conosco, é um sinal de nosso bom relacionamento com Deus´. ´Os Anjos são diferentes uns dos outros´. ´Estão em toda a parte. Vigiam e governam a natureza´. ´Se somos merecedores da presença dos Anjos bons, estes nos assistem e nos inspiram bons pensamentos e se comunicam com nossa alma durante o sono. ´Um homem iluminado com a luz do conhecimento sobrenatural, percebe a presença dos Anjos; vê os Anjos e a seu chefe Miguel.

O mesmo com relação aos Arcanjos, Tronos, Dominações, Potestades e as Virtudes Celestes´. ´Os demônios são Anjos que pecaram por orgulho. Pecaram voluntariamente e agora são habitantes do inferno.´ ´Satanás, príncipe dos demônios, e que era a coroa da beleza do Paraíso, a estrela da manhã, é agora o príncipe deste mundo, cuja liberdade Deus respeita. Não pode exercer nenhum poder sobre aqueles que o rechassam.´ O universo para Orígenes, é assediado por demônios. Afirmava que apesar dos cristãos repudiarem o demônio ao serem batizados, são todavia por ele tentados e podem em conseqüência vir a cair no pecado. Essa doutrina é a que a Igreja sempre admitiu, quando caracterizou uma das formas pelas quais o homem pode ser induzido ao pecado. ´Não é apenas o Sumo Sacerdote que ora com aqueles cuja oração é sincera, mas, há também os Anjos que rejubilam no céu. É de crer-se que lá (local de oração, onde os fiéis se reúnem), as potências angélicas participam das assembléias dos fiéis. É de fato lá, que desce a força do Senhor Nosso Salvador e se reúnem os espíritos dos santos… Se temos o direito de nos referirmos aos Anjos graças ao adágio: ´O Anjo de lahweh, acampa entre seus fiéis e os assiste.´ (Ps. 34,8), e se Jacob ao mencionar o ´Anjo que o salvou de todo o mal´ (Gen. 48,16) referia-se não apenas a si próprio, mas a todas as pessoas devotas, é então verdade que quando várias pessoas se encontram reunidas para louvar a Cristo, o Anjo encarregado de proteger e conduzir cada um, rodeia aqueles que crêem em Deus.

Assim, quando pessoas santas se acham reunidas, acham-se em presença uma da outra, duas igrejas: a dos homens e a dos Anjos. Se Rafael, afirma a Tobias que havia oferecido sua súplica diante da Glória do Senhor (Tobias 12,12), bem como as de Sara que se tornaria esposa do jovem Tobias ´ o que não se passará, quando um número grande se reúne num mesmo local animado da mesma intenção e formando um só corpo com Cristo?´ (Orígenes, De Oratione). ´Junto a cada homem existe sempre um Anjo do Senhor que o ilumina, o guarda e o protege de todo o mal´, (Comentários a Mt 18, 10). São Gregório, o Taumaturgo (213-270), discípulo de Orígenes, foi bispo de Neocesaréia, no Ponto. Fala com grande amor dos ´Santos Anjos de Deus, que desde minha juventude me tem protegido´. (Oratio a Originem IV) Entre os eremitas e ascetas que viviam nos desertos, havia grande devoção aos Anjos, aos quais recorriam para afugentar as tentações dos demônios. Eusébio de Cesaréla (265-340), afirma: ´Anjos, Arcanjos, Espíritos, Forças divinas, Exércitos Celestes, Virtudes, Tronos, Dominações, são orientados pelo Espírito Santo. Eles cantam o ´Laudate Dominum de coelis´ para exaltação da glória de Deus. A fé reconhece estas potestades divinas para o serviço e a liturgia de Deus todo poderoso´ (Praeparatio Evangélica VII). Santo Atanásio (295-373), Bispo de Alexandria, doutor da Igreja, foi o principal defensor da fé ensinada no Concílio de Nicéia, contra os Arianos. Afirmava que: ´Os Anjos vêem a face do Pai por uma participação no logos, por uma graça do Espírito Santo´. Acreditava que cada Ordem de Anjos é formada de Anjos de igual categoria (Oratio II contra Arianos XLIX) e diz ainda que ´as hierarquias celestes encerram muitos mistérios´ (carta a Serapion 1,13). ´Os Anjos foram criados antes do Cosmos´ (Carta a Serapion 111,4). São Basílio Magno (330-369), doutor da Igreja, foi monge e mais tarde bispo de Cesaréia; refere-se aos Anjos da guarda no tratado De Spiritu Sancto´, XIII 29, que dedicou a Anfilóquio, bispo de Icônio. Santo Ambrósio (340-395) doutor da Igreja, que batizou Santo Agostinho em Milão, fala muitas vezes do anjo da Guarda (Expos. Ps. 38,32), e faz outras afirmações: ´No batismo, o sacerdote atua na missão de um Anjo´ (De Mysteriis 11,6). ´Deus não tinha necessidade dos Anjos, porém o homem deles tem necessidade. Enquanto os homens foram criados à imagem de Deus, os Anjos o foram segundo o ministério de Deus´ (Expos. Ps. 108). ´Todos aqueles que seguem a Cristo têm acesso aos Anjos´ (De Sacramentis 1,6). Santo Ambrósio recomendava a devoção popular aos Anjos (De viduitate, IX, 15), ´Os Anjos foram criados antes do mundo material´ (ln Exodum XXVII, 185). Afirmava Santo Ambrósio, acompanhando São Cirilo e São Gregório de Nazianzo, que, no batismo, a renúncia a Satanás, se realiza na presença dos Anjos: ´Isto não deve ser ignorado nem negado: é um Anjo quem anuncia o reinado de Deus e a vida eterna´. ´Sozinha (a Virgem Maria) no interior da casa, apenas um Anjo haveria de encontrar aquela que homem algum veria; só, sem companhia; só, sem testemunha, afim de não se macular no trato com os demais; é um Anjo quem a saúda. Aprendei ó virgens a evitar a dissipação das palavras; Maria temia até mesmo a saudação de um Anjo.´ (Comentário ao Ev. S.Lucas) São Jerônimo (340´420), doutor da Igreja, combateu a idéia de que as almas na vida futura se transformam em Anjos e que os demônios se converterão em Anjos. Afirmou que: ´Os Anjos cuidam e velam até pelos pormenores do cosmos (Comm. in Eccles. 10,20) e de forma especial, pelos homens (Comm. in 16.6,14)´. São João Crisóstomo (= boca de ouro) (349-407), doutor da Igreja, Patriarca de Constantinopla, escreveu: ´Os Serafins louvam a Trindade. Rodeiam o altar celestial do qual a Igreja é modelo neste mundo´. Acreditava que os Anjos não teriam condições de desvendar o mistério da Criação. ´Que espírito pode explicar este favor sobrenatural e majestoso privilégio que foi conferido à nossa natureza? Que Anjo, que Arcanjo seria capaz de saber? Ninguém no Céu nem na terra´. (Homília XI in Joannem) ´Os Anjos não conheciam o mistério que estava oculto em Deus, ao longo dos séculos, até que foi revelado pela Igreja´ (Homília VII em Éfeso). ´O ar que nos rodeia, está cheio de Anjos´. Segundo São João Crisóstomo, é muito natural que os Anjos devam ajudar os homens. ´Na capital celeste, Jerusalém, nossa mãe comum, estão os Serafins, Querubins, muitos milhares de Arcanjos e inumeráveis Anjos´ (Homília in Seraphin, 1). ´Saber que o lugar dos Serafins é junto a Deus é mais importante que o conhecimento de sua natureza´ (Hom. in Seraphin 2). ´Que há de melhor, diga-me? Falar do vizinho e da vida alheia, bisbilhotar tudo, ou se entregar com os Anjos e com as coisas feitas para nos enriquecer? (Homilia in Jo. homi. 18). Na chamada Missa de São João Crisóstomo, rito oriental, os Anjos são citados 16 vezes.

São Cirilo de Jerusalém (315-386), doutor da Igreja, falando da grandeza do Sacramento do Batismo, declara: ´Todos os coros celestiais tomam parte em cada batismo e cantam sobre o novo cristão´. (Protocatechesis) ´Não podemos sondar a natureza dos Querubins; nem sequer conheçemos a diferença entre Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Poderes e Anjos; só sabemos que a diferença implica em graus diversos do conhecimento angélico de Deus´. Achava São Cirilo que só Deus era puro espírito mas que ´os Anjos podem entretanto, chamar´se spiritus, se a palavra designa algo que não é formada de matéria bruta´. São Cirilo de Alexandria (380-444), doutor da Igreja que se tornou célebre por sua luta contra Nestório, no Concilio de Éfeso (431), afirmou sobre os anjos: ´Anjos e Arcanjos servem a Deus e o adoram em hinos sempiternos´. (Contestação ao imperador Juliano III) ´Os sacerdotes e os cantores ocupam durante a celebração da Eucaristia o posto dos Anjos´ (Cat. XIII. 26; pg. 33, 804 5 ´ Ed. Reisch ´ Rupp II ´ 84´86). ´Os Anjos foram criados também à imagem de Deus, inclusive, incomparavelmente mais do que nós, em razão de sua espiritualidade superior à nossa.´ (Resposta a Tiberium Sociosqua 14) Santo Agostinho (354´430), doutor da Igreja, também estudou a questão dos anjos e rejeitou definitivamente idéias fantasiosas sobre eles; como as de que o pecado dos anjos castigados em demônios teria sido pecado sexual. No Livro IV do Genesi ad litteram, fez muitas considerações sobre os Anjos.

Focalizou sobretudo o tema do conhecimento angélico. Para ele, os anjos fiéis a Deus desde a sua criação, conheceram o mistério da Redenção e aderiram ao Verbo Eterno, Criador, conhecendo o Verbo e se conhecendo Nele, bem como conhecendo todas as coisas. Eis algumas afirmações de Santo Agostinho em relação aos Anjos: ´Encontramos nas escrituras, que os Anjos apareceram a muitas pessoas e achamos portanto, que não é racional duvidar de sua existência´. (ln psal. 103) ´Aos Anjos não se oferece sacrifício; somente os veneramos com amor´. (De Civitate Dei X,7) ´Aos Anjos celestes, que possuem a Deus na humildade e o servem na bem´aventurança, está submetida toda a natureza corporal e toda a vida irracional´ (Livro VIII cap. 24, n. 45). ´Os demônios foram Anjos castigados por sua soberba e não por inveja, pois esta é subordinada ao orgulho e não pode ser considerada principal´. (De Gen. ad litt. XI 145) ´No céu os homens terão um corpo angélico de luz e éter.´ (De div. quaest. 83) ´Juntamente com os Anjos, formamos uma só e mesma Cidade de Deus´. (De Civitate Dei, X, 7) Com Santo Agostinho a doutrina sobre os Anjos atingiu seu ponto culminante. Nos séculos seguintes houve estudos sobre os Anjos, mas eram quase sempre repetições de teses e afirmações dos Padres da Igreja, e somente na Idade Média, retomando as doutrinas de Santo Agostinho e de Pseudo´D ionisio, foi que reacendeu o interesse pela teologia angélica. São Gregório Nazianzeno (280´374), doutor da Igreja, nas ´Orationes Theologicae´ afirma: ´Os Anjos contemplam a face do Pai, mas a íntima profundidade do mistério lhes está oculto. Os Anjos e Arcanjos vêem apenas a glória de Deus, não sua própria natureza, que está oculta por trás dos Querubins.´ Quando São Gregório deixou Constantinopla, despediu´se com tristeza dos ´Anjos custódios desta Igreja, de minha presença e de minha viagem´ (Supremum vale 27). ´Satanás se fez excessivamente soberbo por seu elevado conhecimento de Deus, dai se originando seu pecado´ (Sermones theologici, 11,12). São Dionisio o Areopagita, mártir do século I, era membro do Areópago de Atenas. Foi convertido por São Paulo, e foi o primeiro bispo de Atenas. Foram´lhe atribuídas várias obras de teologia mística, especialmente o Livro sobre a hierarquia celeste, a Influência da filosofia. neoplatônica e a Ascensão mística das almas a Deus. Estudos exegéticos entretanto, levaram à conclusão que os livros atribuídos a Dionísio foram escritos no começo do século VI, daí serem conhecidos como de autoria de um Pseudo Dionísio. Esta obra, mesmo sem a certeza absoluta sobre o seu verdadeiro autor, exerceu uma grande influência nos estudos teológicos sobre os espíritos celestes e na devoção aos mesmos. No livro, A hierarquia Celeste, Dionisio ou Pseudo´Dionísio, supõe que o mundo supracelestial da Santíssima Trindade se manifesta pelo mundo criado por irradiação da Santíssima Trindade. Essa irradiação ilumina em primeiro lugar as hierarquias celestes, e em seguida, a hierarquia da Igreja aqui na terra. Os seres angélicos ocupam assim, uma posição intermediária entre a da teologia propriamente dita, que se refere a vida de Deus, e a Igreja, como realização da teologia na terra. Os seres espirituais formam como que uma hierarquia, um poder sacerdotal, traduzido pela mediação e comunicação do poder divino. O universo angélico constitui a imitação da ordem íntima da vida de Deus. Essa imitação se realiza pelo conhecimento de Deus, por uma iluminação concedida por Deus, e por uma ação pela qual cada categoria da hierarquia celeste se relaciona com as outras. Deve´se a ele a concepção trinitária sobre a hierarquia angélica; isto é, a divisão da hierarquia celeste em três ordens ou hierarquias, composta cada uma de três coros:

1ª Ordem: Três coros: Serafins; Querubins; Tronos.

2ª Ordem: Dominações ou Soberanias; Virtudes; Potestades.

3ª Ordem: Principados ou Autoridades; Arcanjos; Anjos.
S. João

Cassiano (350´432), que foi monge e diácono de São João Crisóstomo, depois de haver passado dez anos nos desertos do Egito, fixou-se em Marselha. Nos livros VII e VIII de sua Coliationes (Conferências) analisou a vida dos anjos e dos demônios, afirmando que os demônios não podem arrepender-se; que são cruéis, e que Lúcifer caiu quando se recusou a reconhecer que sua própria beleza era obra do Criador. Uma terça parte dos Anjos o teria acompanhado. Ensinou que a lenda do casamento de Anjos e mulheres é totalmente falsa e completamente impossível e absurda, e que cada homem tem a seu lado um Anjo bom e também um mau (demônio) que o tenta.

São Leão Magno (400´461), Papa e doutor da Igreja, aquele que conseguiu que Átila, rei dos Hunos deixasse a Itália (452) e que os Vândalos sob Genserico respeitassem os habitantes de Roma (455), em suas Cartas e Sermões fala dos anjos e do demônio, a quem Jesus venceu, como homem, para libertar a humanidade de suas garras. Veja este belo texto de S. Leão sobre a Redenção: ´Mas, o fato, caríssimos, de Cristo ter escolhido nascer de uma virgem não parece ditado por uma razão muito profunda? Isto é, que o diabo ignorasse que a salvação tinha nascido para o gênero humano, e, escapando-lhe que a concepção era devida ao Espírito, acreditasse que não tinha nascido diferente dos outros aquele que ele não via diferente dos outros. Com efeito, aquele no qual ele constatou uma natureza idêntica à de todos tinha, pensava ele, uma origem semelhante à de todos; ele não compreendeu que estava livre dos laços do pecado aquele que ele não viu isento das fraquezas da mortalidade. Porque Deus, que, em sua justiça e em sua misericórdia, dispunha de muitos meios para elevar o gênero humano, preferiu escolher para isso a via que lhe permitisse destruir a obra do diabo, apelando não a uma intervenção de poder, mas a uma razão de equidade. Porque, não sem fundamento, o antigo inimigo, em seu orgulho, reivindicava direitos de tirano sobre todos os homens e, não sem razão, oprimia sob seu domínio aqueles que ele tinha prendido ao serviço de sua vontade, depois que eles, por si mesmos, tinham desobedecido aos mandamentos de Deus. Por isso não era de acordo com as regras da justiça que ele cessasse de ter o gênero humano como escravo, como o tinha desde a origem, a não ser que fosse vencido por meio do que ele mesmo tinha reduzido à escravidão. Para esse fim, Cristo foi concebido de uma virgem, sem intervenção de homem… Ele [o demônio] não pensou que o nascimento de uma criança gerada para a salvação do gênero humano não lhe estava sujeito como o estava o de todos os recém-nascidos. Com efeito, ele o viu vagindo e chorando, viu-o envolto em panos, submetido à circuncisão e resgatado pela oferenda do sacrifício legal. Mais tarde, reconheceu os progressos normais da infância, e até na idade adulta nenhuma dúvida lhe aflorou sobre o desenvolvimento conforme a natureza.

Durante este tempo ele lhe infligiu ultrajes, multiplicou injúrias, usou de maledicências, calúnias, blasfêmias, insultos, enfim, derramou sobre ele toda a violência do seu furor e o pôs à prova de todos os modos possíveis; sabendo com qual veneno tinha infectado a natureza humana, ele jamais pôde crer que fosse isento da falta inicial aquele que, por tantos indícios, ele reconhecia por um mortal. Ladrão atrevido e credor ávaro, ele se obstinou em levantar-se contra aquele que não lhe devia nada, mas exigindo para todos a execução de um julgamento geral pronunciado contra uma origem manchada pela falta, ultrapassou os termos da sentença sobre a qual se apoiava, porque reclamou o castigo da injustiça contra aquele no qual não encontrou falta. Tornando-se, por isso, caducos os termos malignamente inspirados na convenção mortal, e, por causa de uma petição injusta, que ultrapassava os limites, a dívida toda foi reduzida a nada. O forte é atado com os seus próprios laços, e todo o estratagema do inimigo cai sobre a sua cabeça. Uma vez amarrado o príncipe deste mundo, o objeto de suas capturas lhe foi arrancado. Nossa natureza, lavada de suas antigas manchas, recupera sua dignidade, a morte é destruída pela morte, o nascimento é renovado pelo nascimento, porque, ao mesmo tempo, o resgate suprime nossa escravidão, a regeneração muda nossa origem e a fé justifica o pecador.´ (Sermão XXII , segundo Sermão do Natal) São Gregório Magno (540´604), Papa e doutor da Igreja, foi monge, e como Papa assinou uma trégua com os bárbaros Lombardos; influenciou a vida medieval com seus escritos. Escreveu muitas Cartas e Homilias e a obra Moralia in Job, em 35 livros, na qual fez uma notável análise da luta humana contra o demônio, partindo de considerações sobre o Livro de Jó. São afirmados nessa grande obra: ´Os Anjos são incomparavelmente mais íntimos de Deus que os homens´. ´São espíritos e somente espíritos, enquanto o homem é espírito e carne´ (Moralium 1. IV, c III, n 8). ´Contemplam a Deus face a face´. ´Comparados com nossos corpos materiais, são espíritos, mas comparados com Deus, que é espírito ilimitado, são de certa forma materiais.´ ´Satanás foi o primeiro e mais poderoso Anjo. Corresponde ao ´Behemoth´ que aparece no Livro de Jó.´ ´Depois de haver caído por sua soberba, Satanás ainda conserva sua natureza angélica, porém perdeu sua felicidade, e vagueia pelo mundo tentando os homens.´ Santo Isidoro de Sevilha (560-636), Bispo e doutor da Igreja, Arcebispo de Sevilha, São Gregório de Tours, bispo, historiador (538´594) e grande defensor da Igreja; São Beda o Venerável (Doutor da Igreja 670-735), também ensinaram sobre os anjos. São João Damasceno (650-749), sacerdote e doutor da Igreja, de Damasco, na Síria, considerado como o último dos ´Padres da Igreja´, foi o principal defensor do culto das imagens. Sua doutrina exposta em Sumas é até hoje a teologia oficial das igrejas orientais ortodoxas.

No capítulo 3 da obra Pegé gnóseos (Fonte da ciência), afirma: ´Os Anjos foram criados do nada. São incorpóreos quando comparados com os homens, porém não possuem o mesmo grau de espiritualidade de Deus (puro espírito). Sua exata natureza só pode ser conhecida por Deus´. ´Estão em um lugar determinado, embora não no espaço: como não são como os homens tridimensionais, a bilocação é para eles um fenômeno de ordem espiritual.´ ´Os Anjos estão, onde atuam, isto é, onde exercem seu poder.´ ´São imortais pela graça. Contemplam a Deus pela iluminação própria que Deus lhes concede.´ São João Damasceno aceita que haja distinção de graus de iluminação entre eles, e aceita também os nove coros de Anjos. ´A obra dos Anjos no Céu consiste em louvar a Deus; na terra servem o Senhor e revelam seus mistérios. ´O conhecimento do futuro lhes advém unicamente da revelação de Deus.´ ´Os Anjos foram criados antes dos homens e antes mesmo do cosmos.´ ´O demônio escolheu livremente o mal que era uma espécie de obscuridade no âmbito do inteligível, e negou dessa maneira sua própria natureza. Uma multidão de Anjos que estavam sob seu comando o seguiu na revolta.

Esta queda representou para os demônios o que a morte representa para os homens. Já não podem arrepender-se, como não o podem fazer os homens depois da morte. Os demônios não possuem maior poder sobre os homens e as coisas, que aquele que Deus permite.´Não possuem nenhum conhecimento do futuro.´ São João Damasceno, e outros padres gregos, segundo a tese da dormição de Nossa Senhora e a sua imediata Assunção ao céu, afirmou: ´Não apenas Anjos e Arcanjos, Potestades e Virtudes, mas também os Tronos, Querubins e Serafins, os supremos das hierarquias angélicas, rodeiam o corpo de Maria e cheios de alegria cantam seus louvores´ (Homilia I in Dormitionem) ´Maria é mais santa que os Anjos, mais bela que os Arcanjos, mais venerável que os Tronos, mais poderosa que as Dominações, mais pura que os Poderes, mais radiosa que os Querubins, mais digna de respeito que os Serafins´. (Na Homília in Jaudem Deiparae) São Bernardo ´ doutor da Igreja (1090´1150), em muitos de seus 340 sermões enaltece o culto e a devoção aos Anjos e descreve a contemplação dos mesmos à majestade divina e as homenagens que prestam à glória de Maria. (PL 182, 863 ´872. 878 ´ 884; Serm. 1-2 para a festa de São Miguel: PL 183, 447-454: Serm. sobre a Assunção de Maria). É importante saber que o Sínodo Permanente de Constantinopla, no ano 543, cujas conclusões foram sancionadas pelo Papa Virgílio, condenou a idéia de que o céu, o sol, a lua, as estrelas e as nuvens fossem forças materiais animadas, isto é, uma espécie de Anjos interiores e a opinião de que os demônios tenham sido castigados apenas por um determinado tempo e que no final, se reconciliariam com Deus.

 

OS ANJOS
http://www.universocatolico.com.br/index.php?/os-anjos.html

Verifica-se entre a população uma grande crença nos anjos. Será que isso é sinal de uma fé forte e bem embasada? Não necessariamente, pois, muitas vezes, esse sentimento não passa de uma superstição ou crendice: acredita-se em anjos da mesma maneira que se acredita em gnomos, fadas e duendes. Em certas publicações, trata-se com a mesma ¨seriedade¨ de anjos, orações, símbolos astrológicos, círculos mágicos, controle da mente e outros assuntos. Afinal, o que existe de verdade sobre os anjos?

Os anjos e a razão
A idéia dos anjos não é algo que vá contra nossa razão. No Universo criado por Deus, todo ser tem sua parcela de semelhança com o Criador, Espírito Puro e Eterno: dentre as criaturas visíveis, vemos que desde os seres inanimados – como uma pedra, cuja semelhança com Deus baseia-se no ato de existir – até o homem – dotado de corpo e alma, inteligência e semelhança de Deus -, todos somos reflexo do Criador. Nessa crescente escala de perfeições, não seria de estranhar que houvesse uma outra criatura de maior semelhança a Deus que nós, os homens, pois, apesar de termos alma, ¨não funcionamos¨ sem o nosso corpo. É justamente nesse ¨degrau¨ da criação que estão situadas as criaturas que chamamos Anjos, espíritos puros (no sentido de não terem uma parcela material) que Deus criou para Sua glória e Seu serviço. Talvez através deste mesmo raciocínio, homens de diferentes raças e civilizações chegaram, ao longo da história da humanidade, à crença em seres superiores a nós (espirituais) que estariam nos acompanhando durante nossa vida na terra.

Os anjos e a revelação
Mas não é apenas pela razão que cremos na existência dos anjos: a Revelação nos confirma aquilo que o bom-senso nos indica. Na Sagrada Escritura, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, temos muitas passagens que nos falam dos anjos. A começar pelo livro de Gênesis, que nos fala tanto dos anjos bons e leias a Deus quanto do Anjo Mau por excelência, o Tentador. Há livros na Escritura nos quais a presença dos anjos é uma constante: como no Livro de Tobias, no qual o anjo Rafael, acompanha o jovem Tobias ao longo de toda sua jornada, encaminhando-o, inclusive, para o casamento; Jacó lutou com um anjo; Abraão foi avisado por anjos que seria pai, e, no livro de Jó, temos, novamente, a presença dos anjos bons e do demônio. Em todos esses casos, vemos os anjos atuando a serviço do Criador; uma das principais atividades exercidas por esses seres é servirem de emissários de Deus junto aos homens. Não é por acaso que o termo ¨Anjo¨, originário do grego, significa ¨mensageiro¨. A revelação sobre os anjos continua no Novo Testamento; nos momentos mais importantes da História da Salvação, lá estão eles presentes: na Anunciação, no Nascimento de Jesus (Lc 1,26-38); em sua oração no Horto das Oliveiras (Lc 22,43); na Ressurreição (Mt 28,1-8; Mc 16,1-8; Lc 24,1-10; Jo 20,11-13); na Ascensão (At 1,10-11). Jesus fala diversas vezes sobre esses seres: diz que os anjos dos pequeninos estão sempre na presença do Pai (Mt 18,10), explica que no céu seremos como anjos de Deus (Mc 12,25) e conta-nos que em sua volta Ele virá acompanhado dos anjos (Mt 25,31). Nos Atos dos Apóstolos, vemos uma manifestação espantosa da fé que os primeiros cristãos tinham nos anjos (At 12,1-17): Pedro está preso pelos romanos, mas, no meio da noite, um anjo lhe aparece e abre as portas da prisão, ele escapa e dirige-se à casa onde estão reunidos seus companheiros. Ao chegar, bate à porta, mas a criada que vai atender, de tão contente que fica ao ouvir sua voz, não abre a porta, mas corre aos outros que ali estão para dar-lhes a notícia; os discípulos não acreditam no que aquela mulheres lhes diz, mas, diante de sua persistência, começam a dizer entre si: ¨De certo, é o anjo dele¨, tal a fé que tinham neste guardião que cada um de nós traz consigo.

Os Anjos bons e os Anjos maus
A Sagrada Escritura fala-nos dos anjos fiéis a Deus; mas fala-nos também dos anjos maus, ou demônios. E o que são os demônios? Assim como aqueles que usualmente chamamos, simplesmente ¨anjos¨, ao anjos mas ou demônios são espíritos puros, criados por Deus, mas que se revoltaram contra seu Criador. Qual o teor, o motivo dessa revolta? Não sabemos ao certo. Alguns teólogos dizem que, ao serem criados, os anjos deveriam adorar a Deus, à Trindade, mas alguns teriam-se rebelado por não querem adorar o Verbo encarnado; outros crêem que a revolta teria sido causada também pela veneração que os anjos devem a Maria, a Mãe de Deus, a mais perfeita das criaturas, maior até que os anjos. O motivo concreto da revolta, não sabe-se ao certo, mas o fato é que alguns anjos se afastaram de Deus, liderados por Lúcifer, o ¨Portador da luz¨ (ou, em outra tradução, o ¨Anjo de luz¨), o mais perfeito dos anjos: desta maneira, temos os ¨anjos bons¨ – ou simplesmente anjos -, que agora estão para sempre junto a Deus, e os ¨anjos maus¨ – ou ¨demônios¨ -, afastados de Deus, sem possibilidade de volta. O Apocalipse descreve a batalha entre o dragão (ou seja, o demônio) e Miguel (o Príncipe das milícias celestes), e a vitória destes últimos (Ap 12,7-9). Talvez nos venha a dúvida: por que o homem, criatura de Deus, recebeu uma ¨segunda chance¨ após o pecado original (de Adão e Eva), mas aos anjos, após a prova a que foram submetidos, ficaram com seu destino eternamente selado? Isso deve-se ao fato de que a inteligência, a vontade e, conseqüentemente, a liberdade Angélica são extremamente elevados quando comparadas às dos homem, mesmo quando trata-se do homem no estado em que foi criado, com todos os dons que havíamos recebido na criação. Para participar da Glória de Deus, a criatura, seja homem ou seja anjo, deve fazer um ato de adesão, de amor a Deus: ¨não podemos estar unidos a Deus se não fizermos livremente a opção de amá-lo¨ (Catecismo); esse ato é fruto da liberdade que recebemos ao sermos criados, e, portanto, quanto mais perfeita a liberdade, mais definitiva a escolha feita. No caso dos anjos, dada a plena liberdade que têm, definitiva é a decisão, ou seja, não é que Deus não lhes quisesse dar outra chance: mesmo que a tivessem, a decisão seria a mesma. Deste modo, originou-se o inferno; o Catecismo nos diz: ¨É este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa com a palavra ´inferno´¨. Os demônios já foram derrotados pela Paixão e Morte de Jesus, mas Deus não lhes retirou a inteligências e poder, que usam para agir contra o homem: o ódio que têm a Deus e àquele que procuram servir a Ele é proporcional ao desespero que têm pelo fato de estarem para sempre afastados de seu Criador, e, assim, procuram impedir, de todas as maneiras, que cheguemos ao nosso fim último, que é a Glória de Deus. O próprio termo ¨satanás¨ tem em sua raiz o sentido de ¨adversário¨; ¨o que arma ciladas¨; ¨inimigo¨.

E nós, o que faremos contra inimigos tão poderosos?
Em primeiro lugar, é bom ter claro que as tentações nem sempre procedem do demônio, mas muitas vezes vêm de nossas próprias fraquezas; e, além disto, Deus não permite que sejamos tentados acima de nossas forças. Por outro lado, o diabo não pode controlar nossa vontade, mesmo nos casos (raros hoje em dia!) de possessão. Depois, sabemos que, através dos Sacramentos que Jesus nos deixou, recebemos as graças necessárias, e mesmo abundantes, para resistirmos ao mal. Em especial, temos na Eucaristia a presença do próprio Filho de Deus, feito alimento para nos sustentar na luta. Por último, não podemos nos esquecer de que Deus também nos destinou anjos protetores, os nossos anjos da guarda, que têm poderes iguais ou até maiores que os dos demônios, pois estão agindo ao lado de Deus, para o nosso bem e para a Glória do Criador.

Erro sobre os Anjos
Nas concepções atuais sobre anjos, divulgadas por revistas, livros, palestras e muitos outros meios, existem verdades que vieram da Doutrina Católica, mas existem também muitas idéias confusas, vindas, por vezes, de um misticismo superficial e sentimentalista. É muito comum ouvirmos falar sobre os ¨nomes¨ dos anjos. Certas publicações chegam a apontar listas numerosas de nomes, indicando inclusive a ¨especialidade¨ de cada um: ajudar médicos, advogados, pessoas que atuam em ciências exatas; auxiliar-nos quando passamos por necessidades no campo amoroso, financeiro, profissional, familiar… Segundo essas publicações, existem mesmo ¨horários mais fáceis¨ para estabelecermos contato com esses anjos, e, de acordo com a data de nascimento de cada pessoa, é-lhe designado um ¨anjo protetor¨. Ora, na Sagrada Escritura, há algumas revelações sobre o mundo angélico, mas nada que chegue a esses níveis de ¨detalhes¨. Assim, conhecemos os nomes de três Anjos – Miguel, Gabriel e Rafael; o primeiro é o Anjo que derrotou o ¨dragão¨, comandando os anjos bons na batalha contra os anjos maus, e também prestou auxílio a Daniel (Ap 12,7e Dn 10,12-21); o segundo é o anunciador dos nascimentos de João Batista e de Jesus (Lc 1,19-26); e o último acompanhou Tobias em sua viagem (Tb 12,15). Através da Tradição e dos estudos dos teólogos, baseados nas revelações da Bíblia, temos um maior aprofundamento na doutrina sobre os anjos, que teve grande impulso através de São Tomás de Aquino, um dos maiores teólogos da Igreja, que recebeu o título de ¨Doutor Angélico¨ devido a esses seus estudos. Temos de tomar cuidado com essas publicações que andam por aí, pois muitas delas, mais do que esclarecer, podem confundir-nos. Por exemplo: um certo autor, romancista dos mais difundidos atualmente, chega a sugerir que devemos pedir a ajuda do demônio e aceita-lo como amigo, desde que não nos deixemos dominar por ele (!)…

O nosso Anjo da Guarda
São Basílio recorda-nos que temos um Anjo que Deus designou para nos acompanhar: ¨Cada fiel é ladeado por um Anjo como protetor e pastor para conduzi-lo à vida¨. É importante questionar-nos, de vez em quando, sobre como tem sido nosso trato com o Anjo da Guarda: se Deus colocou-o ao nosso lado para que nos proteja e interceda por nós, da infância até a morte, é justo que não nos esqueçamos desse nosso companheiro. Podemos (e devemos!) ter um bom relacionamento com nossos Anjos: em primeiro lugar, com o nosso, mas também com os dos que nos cercam. Vimos, acima, que ele, nosso Anjo, existe para nos conduzir à vida: portanto, em todos os assuntos que dizem respeito à nossa vida espiritual e à saúde de nossa alma é conveniente que lhe peçamos auxílio. Por exemplo: podemos solicitar que nosso Anjo nos ajude a vencer as distrações em nossas orações, ou a ter paciência com aquela pessoa com quem ¨não nos damos muito bem¨, mas que, por alguns motivos temos de nos relacionar todos os dias; se alguma vez nos custar ir à confissão, podemos pedir ao nosso Anjo que nos ajude a voltar à graça de Deus. E podemos, também, pedir-lhe ajuda para coisas muito positivas: que nos ajude a conseguir aquela virtude que buscamos, que nos sugira um bom tema para nossa oração (que é nossa conversa com Deus), etc…

Os Anjos dos outros
Podemos tratar, também, com os Anjos daqueles que nos cercam: muitas vezes, os pais não podem acompanhar seus filhos em todos os lugares. Então, juntamente com o beijo que dá no filho que está saindo, a mãe pode pedir ao se Anjo que cuide dele tão bem quanto ela o faria. Ou então, para aquela pessoa que gostaríamos que se aproximasse novamente dos Sacramentos, podemos pedir ao seu Anjo que lhe faça ver as maravilhas de estar na Graça de Deus… Há pessoas que têm por costume cumprimentar, interiormente, o Anjo daqueles com quem se relaciona no dia-a-dia, e pedir-lhe que os guarde. Tem pessoas que agem muito piedosamente em relação a esse contato com os anjos: há uma família que, à mesa das refeições, sempre deixam um lugar a mais do que o número das pessoas presentes: é ¨o lugar de Jesus¨, que os ajuda a tê-lo mais presente… Podemos adotar algum costume semelhante para com nosso Anjo da Guarda.

Ajudas em todos os campos
Por fim, podemos também solicitar a ajuda de nosso Anjo nas coisas materiais que nos dizem respeito: se elas não forem prejudiciais ao nosso bem eterno, ele poderá nos atender. Assim, por exemplo, podemos pedir-lhe que nos ajude a não esquecer nada naquela prova difícil, ou que nos lembre de um compromisso importante; que, num dia de chuva, aquela carro que vem atrás consiga frear a tempo, e que, num trânsito congestionado, consigamos chegar a tempo para participar da Missa; ou que nos ajude a conseguir um trabalho melhor, ou, ainda, que nos mantenha no atual… Se duvida da ação do anjo em seu meio, basta que faça um pedido e espere para ver o que acontece. Se você não pedir ele não saberá o que quer e não poderá te ajudar. Ele sabe da dúvida que tem em seu coração, no entanto, está esperando o seu pedido de ouvido bem aberto! A experiência é a melhor maneira de crer. Ao falar dos Anjos, não podemos nos esquecer de Maria: no Livro do Gênesis, Deus fala ao demônio: ¨porei inimizade entre ti e a mulher (…) e sua descendência te esmagará a cabeça¨ (Gn 3,15). Essa passagem é uma alusão a Nossa Senhora, a Imaculada, que, no Livro do Apocalipse, aparece como a ¨mulher revestida de sol, com a lua a seus pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça¨ (Ap 12,1), e que enfrenta o dragão, outra imagem do demônio. Devemos recorrer a Ela sempre que nos sentirmos em tentação, pois Deus lhe concedeu um grande poder contra o Maligno. Nossa Senhora é, também a Rainha dos Anjos, como a invocamos na ladainha: ela nos ajudará a manter viva em nós a presença desses nossos guardiões, e a recorrer a eles em nossas necessidades.

Abaixo, há algumas passagens bíblicas onde apontam os anjos Querubins, Serafins e Arcanjos.

Os Querubins
Em hebraico kerub, pl. kerubim, são seres mitológicos e gênios vigilantes dos palácios mesopotâmios. O plural hebraico virou um singular português (o querubim); daí o plural querubins. O ofício de vigilantes, já está no Gênesis, como vigilantes da entrada do Paraíso: ¨Javé Deus expulsou o homem e plantou ante o Jardim de Éden os Querubins e a chama da espada abanadora, a fim de vedar o caminho da Árvore da Vida¨ (Gen 3,24).

Para caracterizar a grandeza do rei de Tiro na Fenícia, Ezequiel empresta o cenário do paraíso vigiado por um kerub (singular). O Jardim de Éden é chamado ¨Monte santo de Deus¨. As ¨pedras de fogo¨ lembram um vulcão, um fenômeno ligado à presença da divindade: ¨Ao lado do querub te coloquei, no monte santo de Deus.Nasceste no meio das pedras de fogo¨. (Ez 28,14).

Na tenda da reunião, dois querubins em baixo-relevo adornaram a tampa da Arca da Aliança (propiciatório), indicando o local onde Javé era imaginado sentado para atender as preces de Moisés e do povo de Israel: Ex 25,18-22; Num 7,89; 1Sam 4,4; 2Sam 6,2: ¨Davi e todo o exército que o acompanhava partiram de Baala de Judá, a fim de transportar a arca de Deus que lá estava e que leva o nome de Javé dos Exércitos que está sentado sobre os querubins¨.

No templo de Salomão, os querubins eram esculturas enormes, colocados ao lado da Arca, cobrindo com as suas asas o interior do Santíssimo do Templo. Os querubins do propiciatório continuavam considerados Trono de Javé. Painéis de querubins cobriam as paredes interiores e exteriores do santuário: 1Rs 6,23-29.

Os Serafins
O hebraico saraf , pl serafim, significa ¨ardente¨, ¨abrasador¨, em grego ¨mortífero¨. Como adjetivo, refere-se às ¨Serpentes de Fogo¨ em Num 21,6: ¨Javé mandou contra o povo serpentes incendiadas (serafim) cuja mordedura fez perecer muita gente em Israel¨. ¨Javé, teu Deus, te conduziu através daquele grande e terrível deserto, repleto da serpente abrasadora (saraf)¨. (Deut 8,15).

Em clara observância, o adjetivo qualificativo (ardente) passou para substantivo qualificado (serpente) recebendo agora o qualificativo ¨voadora¨: ¨Não te alegres, ó Filistéia, porque da raiz da serpente sairá uma víbora, e o seu fruto será uma serpente voadora¨ (Is 14,29). E mais, Is 14,29; 30,6.

Seres sobre-humanos: num terceiro estágio semântico, as serpentes ¨voadoras¨ tornam-se serpentes com ¨asas¨, ¨aladas¨, seres descomunais e fantásticos, mais mitológicos do que naturais. Uma coisa dessas, Isaías ¨viu¨ na sua visão vocacional (6,1-7), autênticos serafins angélicos e únicos de sua espécie na Bíblia. As versões grega e latina conservaram o termo hebraico (serafim), fato esse que prova que eles não acharam, na própria língua, uma palavra adequada para tais criaturas. Já o autor hebreu os denominava aproximadamente, comparando-os ao que mais se assemelhavam, ou seja, dragões alados. O Dicionário hebraico aproxima o termo saraf ao árabe sharif = príncipe, nobre. ¨Eu vi o Adonai sentado sobre o trono alto e elevado. Acima dele estavam Serafins, cada um com seis asas: com duas cobriam o rosto, com duas os pés e com duas voavam. Clamavam uns aos outros e diziam: Santo, Santo, Santo, Javé dos Exércitos, a sua Glória enche toda a terra. O troar dos seus clamores fazia oscilar os gonzos dos portões e o templo se enchia de fumaça¨ (Is 6,1-4).

Os Arcanjos
O título ¨Arcanjo¨ consta somente no Novo Testamento, em 1Tes 4,16 e Jud 9, reportando-se a Miguel. O original grego arch-ángelos significa ¨Príncipe-Anjo¨, ¨chefe dos Anjos¨. Assim, o inventor do termo já refletia sobre uma hierarquia no interior do mundo angélico. Para os cristãos, os componentes dos ¨Sete antes o trono de Deus¨ costumam levar este título. Três são conhecidos na Bíblia: Miguel, Gabriel e Rafael

Miguel aparece inesperadamente no Antigo Testamento: ¨Miguel, um dos primeiro príncipes, veio em meu socorro¨ (Dan 10,13.21)

O nome hebraico Mi-Ka-El é uma pergunta retórica: ¨Quem é como Deus?¨ e é encontrado várias vezes na Bíblia; por exemplo: ¨Quem é como Tu, Javé, entre os deuses?¨ (Ex 15,11) ¨Quem é Deus senão Javé, quem é como Tu?¨ (Sl 18,32) E mais ainda: Deut 3,24; Sl 35,10; 86,8; 89,9; Is 40,18; 44,7; 46,5.

Gabriel significa ¨Força de Deus¨ ou ¨Varão de Deus¨. No A.T. ele apareceu duas vezes a Daniel como intérprete dos mistérios do futuro de Israel: ¨Ouvi uma voz humana sobre o rio Ulai, que gritava e dizia: Gabriel, explica a este a visão!¨ (Dan 8,16). ¨Eu estava ainda falando em oração, quando Gabriel, aquele varão que tinha visto antes, aproximou-se de mim, num vôo rápido para me falar¨ (Dan 9,21).

No Alcorão, Gabriel é o interlocutor de Maomé e portador da mensagem celeste. O seu nome árabe é Djibril.

Rafael significa ¨Deus curou¨ ou ¨Cura de Deus¨. O seu nome é justificado na história de Tobias (pai) e de Sara, noiva de Tobias (filho). Pai e nora suplicaram a Deus pela cura de suas moléstias e na hora da súplica, Rafael foi enviado à terra: ¨Naquele instante, na Glória de Deus, foi atendida a oração de ambos; e foi destacado Rafael para curar os dois: tirar as manchas brancas dos olhos de Tobit e entregar Sara como esposa a Tobias¨ (Tob 3,16.17).

Para valer a Tobias e a Sara, Rafael demonstrou seu poder sobre o demônio Asmodeu: ¨O cheiro de peixe expulsou o demônio, que fugiu pelos ares até o Egito; Rafael o perseguiu e acorrentou imediatamente¨ (Tob 8,3).

Solene identificação da parte do Anjo Rafael
¨Vou confessar-vos toda a verdade: Quando tu e Sara fazíeis oração, era eu quem apresentava o atestado de vossas súplicas ante a Glória do Senhor; quando não hesitaste em te levantar da mesa para sepultar um defunto, fui enviado para te pôr à prova; e ao mesmo tempo, Deus me destacou para te curar a ti e à tua nora Sara. EU SOU RAFAEL, um dos sete que estão presentes ante a Glória do Senhor. Ambos, Tobit e Tobias, quedaram de espanto e caíram com a face por terra, com grande pavor. Mas Rafael lhes disse: Não tenhais medo! A paz esteja convosco! Bendizei a Deus para sempre! Se estive convosco, não era pura benevolência minha, mais era vontade de Deus. A Ele deveis louvar todos os dias, a Ele deveis cantar. Todos os dias eu fui visto por vós; não comia nem bebia; é que tivestes apenas uma visão. Agora vou voltar para Aquele que me enviou¨ (Tob 12,11-21).

Aparência externa dos Anjos
Varões ou donzelas?
Em todos os lugares até agora referidos, o visual externo do Anjo é algo verdadeiramente descomunal. Posto em frente à aparição, o homem fica perplexo, assustado, desmaiado! Assim, por exemplo, Daniel: ¨À sua chegada, eu fui tomado de terror e caí com a face por terra… Ele fala ainda, quando desmaiei, caindo no chão¨ (8,17.18)

¨Levantei os olhos para observar, e vi: Um homem vestido de linho, os rins cingidos de ouro puro, seu corpo de aparência de crisólito e o seu semblante como um relâmpago, seus olhos como faróis de fogo, seus braços e pernas como fulgor de bronze polido, e o som de suas palavras como clamor de uma multidão. Somente eu, Daniel, vi esta aparição. Os homens que estavam comigo não viam e, no entanto, um grande temor os abateu a ponto de fugirem para se esconder (At 22,9; 26,14). Ao ouvir o som de suas palavras desmaiei sobre meu rosto, caindo por terra. Mas, eis que certa mão me tocou e me fez levantar, tremendo, sobre os joelhos. Ele me disse: Daniel! Põe-te de pé porque é para ti que eu fui enviado. Ao dizer-me estas palavras, levantei-me, todo trêmulo. E ele prosseguiu: Não temas!¨ (10,4-12).

Ao sacerdote Zacarias: ¨Apareceu-lhe o Anjo, de pé, à direita do altar do incenso. Ao vê-lo, Zacarias perturbou-se e o temor apoderou-se dele. Disse-lhe, porém o Anjo: Não temas, Zacarias!¨ (Lc 1,11-13).

Gabriel é chamado expressamente ¨varão¨ (Dan 9,21). Rafael é um ¨jovem¨ (Tob 5,5), e assim por diante, até o séc. 13, quando, ninguém sabe o porquê, os Anjos começaram a se transformar em figuras femininas, mocinhas doces e bonitas. E não bastava! A arte barroca pintava-os como crianças decorativas, de corpinhos roliços e sensuais. Às vezes, até sobravam as cabecinhas enfeitadas de asinhas de galinhas, como se fossem emblemas duma companhia aérea! Semelhantes desvios artísticos estão causando enorme prejuízo ao culto dos Anjos e à Religião em geral, destruindo-lhe a seriedade e a credibilidade. Que blasfêmia e que profanação, quando um príncipe celeste é degradado para figurar como mocinha segurando lâmpadas elétricas ao lado do altar! É o fim da seriedade teológica e espiritual.

O idioma dos Anjos
Afirmação de grande efeito retórico para demonstrar a superioridade do amor (caridade) sobre todos os carismas. O estilo tem analogias com o seguinte. Não faltam na Bíblia alusões à fala dos Anjos; eles cantam louvores ao Altíssimo, mas em que língua? Quando arrebatado ao Paraíso, Paulo ouviu palavras impronunciáveis em qualquer idioma humano. Palavras supõem conceitos e pensamentos; no Céu deve ser tudo diferente: ¨Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos Anjos; se não tivesse caridade, seria um bronze que ressoa¨ (1Cor 13,1).

Culto prestado aos Anjos
É preciso distinguir entre culto e culto. Quando Cornélio se prostrou ante Pedro (S 80), ou quando o visionário do Apocalipse quis adorar o Anjo (19,10 e 22,8), então eles agiram com boas intenções, embora exagerando. Existe, porém, na história religiosa, um culto indevido, uma religião de cunho gnóstico, na qual os Anjos são considerados como entidades autônomas, intermediárias entre um deus distante do mundo material e os homens. Num sistema deste tipo, os Anjos já não são mais criaturas postas ao serviço dos homens e de Deus: ¨Ninguém vos prive de vosso prêmio com engodo de humildade e de veneração dos Anjos, embevecido por coisas que teria visto¨ (Col 2,18). Isso mostra que o próprio Deus não faz objeção em ver-nos venerando (e não adorando) os Anjos. Se permite a veneração aos Anjos, o que dirá então à respeito da Mulher que escolheu para ser a mãe de Seu próprio filho?

Revista Cavaleiro da Imaculada / Os Anjos na Bíblia [ O Recado ] Pe. Frederico Dattler

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