“Fazer-se o último de todos e o servo de todos”, exorta Papa

Domingo, 23 de setembro de 2018, Da redação, com Boletim da Santa Sé
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Reflexão que antecedeu o Ângelus deste domingo, 23, aconteceu em Kaunas, na Lituânia; Francisco pediu aos fiéis servidão e encontro com os mais pobres

Papa durante o Ângelus deste domingo, 23/ Foto: Reprodução Youtube Vatican News

“Fazer-se o último de todos e o servo de todos; permanecer no lugar para onde ninguém quer ir, aonde nada chega, na periferia mais distante; e servir, criando espaços de encontro com os últimos, com os descartados”. O trecho é parte da reflexão do Papa Francisco que antecedeu a oração do Ângelus deste domingo, 23. A reflexão ocorreu no parque Santakos, em Kaunas, na Lituânia, e teve como base o livro da Sabedoria, primeira leitura da Santa Missa de hoje.

Sobre o texto, Francisco recordou o incômodo dos ímpios diante da presença do justo perseguido, e caracterizou o ímpio, segundo a descrição, como uma pessoa que oprime o pobre, não tem compaixão da viúva e não respeita o idoso.

“O ímpio tem a pretensão de pensar que a sua força é a norma da justiça. Submeter os mais frágeis, usar a força sob qualquer forma, impor um modo de pensar, uma ideologia, um discurso dominante, usar a violência ou a repressão para dobrar aqueles que, simplesmente com o seu agir honesto, simples, operoso e solidário de todos os dias, manifestam que é possível outro mundo, outra sociedade. Ao ímpio, não lhe basta fazer o que lhe apraz, deixar-se guiar pelos seus caprichos; também não quer que os outros, fazendo o bem, ressaltem este seu modo de proceder. No ímpio, o mal procura sempre aniquilar o bem”, observou.

O Santo Padre recordou a destruição do Gueto de Vilna, na Lituânia, ocorrida há cinco anos, que culminou no aniquilamento de milhares de judeus. “À semelhança do que se lê no livro da Sabedoria, o povo judeu passou por ultrajes e tormentos. Façamos memória daqueles tempos e peçamos ao Senhor que nos conceda o dom do discernimento para descobrir, a tempo, qualquer novo germe daquele comportamento pernicioso, qualquer aragem que atrofie o coração das gerações que, não o tendo experimentado, poderiam correr atrás daqueles cantos de sereia”, pontuou.

Diante das tentações, o Pontífice recordou situações que devem levar os fiéis a repensarem conceitos e atitudes. “Devemos vigiar atentamente: a ânsia de ser os primeiros, de predominar sobre os outros; tentação esta, que pode esconder-se em todo o coração humano. Quantas vezes sucedeu que um povo se julgou superior, com mais direitos adquiridos, com maiores privilégios a preservar ou conquistar!”, alertou Francisco que apontou a humildade e servidão como remédios propostos por Jesus diante de tais impulsos e mentalidades.

Para o Santo Padre, se o poder se deixasse guiar pelos ensinamentos de Jesus e se permitíssemos ao Evangelho de Cristo chegar às profundezas da vida humana, então a globalização da solidariedade seria verdadeiramente uma realidade. “Enquanto no mundo, especialmente alguns países, se reacendem várias formas de guerras e conflitos, nós, cristãos, insistimos na proposta de reconhecer o outro, de curar as feridas, de construir pontes, de estreitar laços e de nos ajudarmos a carregar as cargas uns dos outros”, suscitou.

“Na Lituânia, há uma colina das cruzes onde milhares de pessoas, através dos séculos, plantaram o sinal da cruz. Convido-vos, enquanto rezamos o Angelus, a pedir a Maria que nos ajude a plantar a cruz do nosso serviço, da nossa dedicação onde precisam de nós, na colina onde moram os últimos, onde se requer a delicada atenção aos excluídos, às minorias, para afastar dos nossos ambientes e das nossas culturas a possibilidade de aniquilar o outro, marginalizar, continuar a descartar quem nos incomoda e perturba as nossas comodidades”, exortou.

Depois do Angelus

Após a oração do Ângelus, Francisco agradeceu a Presidente e autoridades da Lituânia, bem como aos bispos e seus colaboradores pela preparação da visita apostólica. “Minha gratidão estende-se a todos aqueles que de muitas maneiras, incluindo a oração, prestaram a sua contribuição”, afirmou.

Na tarde deste domingo, 23, Francisco rezará diante do Monumento das Vítimas do Gueto em Vilna, no septuagésimo quinto aniversário da sua destruição. “O Altíssimo abençoe o diálogo e empenho comum pela justiça e a paz”, rogou.

ANGELUS
Lituânia, Kaunas, Parque Sántakos
Domingo, 23 de setembro de 2018

Amados irmãos e irmãs!Amados irmãos e irmãs!
O livro da Sabedoria, que escutamos na primeira leitura, fala-nos do justo perseguido, daquele cuja simples presença já incomoda os ímpios. O ímpio é descrito como a pessoa que oprime o pobre, não tem compaixão da viúva, nem respeita o idoso (cf. 2, 17-20). O ímpio tem a pretensão de pensar que a sua força é a norma da justiça. Submeter os mais frágeis, usar a força sob qualquer forma, impor um modo de pensar, uma ideologia, um discurso dominante, usar a violência ou a repressão para dobrar aqueles que, simplesmente com o seu agir honesto, simples, operoso e solidário de todos os dias, manifestam que é possível outro mundo, outra sociedade. Ao ímpio, não lhe basta fazer o que lhe apraz, deixar-se guiar pelos seus caprichos; também não quer que os outros, fazendo o bem, ressaltem este seu modo de proceder. No ímpio, o mal procura sempre aniquilar o bem.

Há setenta e cinco anos, esta nação assistia à definitiva destruição do Gueto de Vilna; culminava, assim, o aniquilamento de milhares de judeus, que começara dois anos antes. À semelhança do que se lê no livro da Sabedoria, o povo judeu passou por ultrajes e tormentos. Façamos memória daqueles tempos e peçamos ao Senhor que nos conceda o dom do discernimento para descobrir, a tempo, qualquer novo germe daquele comportamento pernicioso, qualquer aragem que atrofie o coração das gerações que, não o tendo experimentado, poderiam correr atrás daqueles cantos de sereia.

No Evangelho, Jesus lembra-nos uma tentação a propósito da qual deveremos vigiar atentamente: a ânsia de ser os primeiros, de predominar sobre os outros; tentação esta, que pode esconder-se em todo o coração humano. Quantas vezes sucedeu que um povo se julgou superior, com mais direitos adquiridos, com maiores privilégios a preservar ou conquistar! Qual é o remédio proposto por Jesus, quando surge tal impulso no nosso coração e na mentalidade duma sociedade ou dum país? Fazer-se o último de todos e o servo de todos; permanecer no lugar para onde ninguém quer ir, aonde nada chega, na periferia mais distante; e servir, criando espaços de encontro com os últimos, com os descartados. Se o poder se deixasse guiar por isto, se permitíssemos ao Evangelho de Cristo chegar às profundezas da nossa vida, então a globalização da solidariedade seria verdadeiramente uma realidade. «Enquanto no mundo, especialmente nalguns países, se reacendem várias formas de guerras e conflitos, nós, cristãos, insistimos na proposta de reconhecer o outro, de curar as feridas, de construir pontes, de estreitar laços e de nos ajudarmos “a carregar as cargas uns dos outros” (Gal 6, 2)» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 67).

Aqui, na Lituânia, há uma colina das cruzes onde milhares de pessoas, através dos séculos, plantaram o sinal da cruz. Convido-vos, enquanto rezamos o Angelus, a pedir a Maria que nos ajude a plantar a cruz do nosso serviço, da nossa dedicação onde precisam de nós, na colina onde moram os últimos, onde se requer a delicada atenção aos excluídos, às minorias, para afastar dos nossos ambientes e das nossas culturas a possibilidade de aniquilar o outro, marginalizar, continuar a descartar quem nos incomoda e perturba as nossas comodidades.

Jesus coloca uma criança no centro, coloca-a à mesma distância de todos, para que todos se sintam provocados a corresponder-Lhe. Lembrando o «sim» de Maria, peçamos-Lhe que torne o nosso «sim» generoso e fecundo como o d’Ela.

Angelus Domini…

Depois do Angelus
Amados irmãos e irmãs!
Quero aproveitar esta oportunidade para agradecer à Senhora Presidente da República e restantes Autoridades da Lituânia, bem como aos Bispos e seus colaboradores a preparação desta minha visita; e a minha gratidão estende-se a todos aqueles que de muitas maneiras, incluindo a oração, prestaram a sua contribuição.
Nestes dias, penso de modo especial na comunidade judaica. De tarde, rezarei diante do Monumento das Vítimas do Gueto em Vilna, no septuagésimo quinto aniversário da sua destruição. O Altíssimo abençoe o diálogo e o empenho comum pela justiça e a paz.
Bom domingo! Bom almoço! – Gražaus sekmadienio! Skaniu pietu!

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