Eutrapelia: a virtude da “boa risada”

Grandes santos praticaram essa virtude como São Filipe Neri, São Francisco de Sales e São João Bosco
Por Paolo Gulisano

ROMA, 23 de Março de 2015 (Zenit.org) – Eutrapelia? Sim, vocês leram bem. Que palavra é essa? É nada mais e nada menos do que uma virtude. Uma virtude comentada por grandes filósofos gregos, como Aristóteles, e que mais tarde tornou-se uma virtude cristã, querida por São Tomás de Aquino, São Filipe Neri, São Francisco de Sales, São João Bosco.
Até mesmo Dante Alighieri falou da eutrapelia no Convivio, definindo-a como a décima virtude do cristão, a penúltima antes da Justiça e depois da Fortaleza, Temperança, Liberalidade, Magnificência, Magnanimidade, ‘Amativa de honra’, Mansidão, Afabilidade e a Verdade. “A décima – escreve Alighieri – chama-se Eutrapelia, que nos modera nas diversões e nos faz usá-la corretamente”.
Portanto, esta palavra antiga, hoje, infelizmente, esquecida, Eutrapelia, ou seja – do grego – “alegria, brincadeira, bom humor” é uma virtude importante, que também se traduziu em arte, uma arte especial, que felizmente nunca sai de moda durante séculos, e que se expressa por meio da literatura, do teatro, do desenho e muito mais. É a arte de fazer as pessoas rirem. O bom humor, muito diferente da sátira, que consiste não tanto no ri, mas no zombar.
A Eutrapelia é uma virtude que deveria ser recuperada, em uma época que oscila entre uma soberba seriedade cheia de si e uma sátira maldosa, corrosiva. Predomina em suma a gargalhada desbocada, onde em vez disso precisamos de um sorriso bom.
A Eutrapelia é uma virtude relacionada com a modéstia: nos ajuda a não dar demasiada importância e a não sermos orgulhosos. Chesterton, um grande Eutrapelico, dizia que a razão pela qual os anjos voam é que levam as coisas com leveza.
A diversão, portanto, não é um fim, mas um meio para melhorar-nos: a virtude do bom humor nos dá aquela forma de desapego e de elegância espiritual que consente captar e apreciar os lados jocosos da vida: virtude de santos, de místicos e de todos aqueles que não hesitam em lançar-se com entusiasmo na resposta ao convite de Cristo.
Entre os santos, grandes exemplos dessa virtude eram São Francisco de Assis, São Filipe Neri, mas também São Francisco de Sales, que na sua Filoteia especificava as características de um bom humorismo cristão que, em primeiro lugar, deve alegrar o coração e não ofender ninguém.
Um dos piores defeitos do espírito é o de ser zombeteiro: Deus odeia muito este vício e sabemos que o puniu com castigos exemplares.
Nenhum vício é tão contrário à caridade, e mais ainda à devoção, do que o desprezo e a zombaria do próximo.
O escárnio e a zombaria, de fato, se fundamentam na presunção e no desprezo dos outros, e este é um pecado muito grave: o escárnio é um modo horrível de ofender o próximo com palavras; as outras ofensas sempre salvam, pelo menos em parte, a estima pela pessoa, o escárnio, pelo contrário, não economiza nada.
Muito diferente são as brincadeiras entre amigos, que se fazem com alegria e serenidade, diz Francisco de Sales: “Trata-se, na verdade de uma virtude na qual os Gregos davam o nome de eutrapelia: nós chamamos de boa conversa. É o modo de ter uma recriação honesta e amável sobre as situações cômicas nas quais os defeitos dos homens dão ocasião.
É necessário só ter cuidado para não passar das piadas para o escárnio. A zombaria provoca a risada por falta de estima e por desprezo do próximo; pelo contrário, a piada alegre e a brincadeira provocam a risada por causa da surpresa, as combinações imprevisíveis feitas na confiança e sinceridade amigável; e sempre com muita cortesia da linguagem”.
Parece ser que escritores cristãos ricos de bom humor como Giovannino Guareschi, o criador de Don Camillo e Peppone, ou Chesterton de Padre Brown, ou o escritor escocês Bruce Marshall, foram alunos diligentes de Francisco de Sales e Dom Bosco.
Desde menino o Santo de Valdocco sempre se dedicou a divertir os seus amigos com jogos de malabarismo.
Ele agradava a todos e de todos atraía a benevolência, a afeição, e a estima. Quando começou a sua obra de educador, os jovens começaram a vir à ele para jogar e brincar, depois para escutar histórias, depois para fazer as tarefas da escola.
Um santo que entretinha seus discípulos nas brincadeiras e travessuras honestas e agradáveis, jogos de habilidade, e até mesmo truques de mágica.
A virtude da Eutrapelia era conatural a ele, e manifestava a tranquilidade inalterável da sua alma.
Poder-se-ia dizer que In risu veritas: a Verdade se encontra na boa risada, no bom humor.
O humor é uma realidade especificamente humana: a sua essência reside na ligação profunda com a emotividade, com a interioridade mais atávica e instintiva do homem.
Para aqueles que dizem que o cristianismo é chato, que é um conjunto de regras morais que tiraram a felicidade do homem e os prazeres que (a condicional é uma obrigação) teriam vindo a ele pelo paganismo, pode se responder com a alegria de viver como santos, que demonstram que a vida é bela, também quando nos parece dura, também quando nos fere, também quando nos parece um jogo perdido, porque tem um sentido.
A Tristeza é a sombra do diabo: para expulsá-la, precisamos de uma boa dose de Eutrapelia!

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