São Roberto Belarmino

— Do Livro A ARTE DE MORRER BEM, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII) http://tesourosdaigrejacatolica.blogspot.com.br/2010/09/quem-vive-bem-ira-morrer-bem.html

Quem vive bem, irá morrer bem
A regra geral “quem vive bem, irá morrer bem” deve ser mencionada antes de tudo, pois sendo a morte nada mais que o fim da vida, é certo que quem viver bem até o final da sua vida, morrerá bem; nem pode morrer doente quem que nunca estiver doente; por outro lado, quem nunca tiver vivido bem, não poderá morrer bem. A mesma coisa é observável em muitos casos similares: todos que houverem percorrido o caminho certo poderão chegar aos seus destinos; ao contrário, aqueles que vaguearem por aí, jamais chegarão ao final de sua jornada. Também, quem se aplicar diligentemente aos estudos, logo se tornará sábio doutor; mas aqueles que não se dedicarem, serão ignorantes. Mas, talvez, alguém mencione o exemplo do Bom Ladrão, que viveu de maneira errada e morreu corretamente. Este não é o caso; pois o Bom ladrão teve uma vida santa e, portanto, teve uma morte também santa. Mas, mesmo entendendo que ele despendeu grande parte dos seus dias na maldade, outra parte de sua vida foi tão bem despendida que ele facilmente se arrependeu de seus pecados e ganhou as maiores graças do céu. Queimando com o amor de Deus, ele abertamente defendeu nosso Salvador das calunias de Seus inimigos; e dirigiu-se com a mesma caridade a seu vizinho, ele repreendeu e admoestou, dizendo: “Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação? Quanto à nós, é de justiça; pagamos por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal” (Lc 23, 40-41). Nem estava ele morto quando, confessando e chamando por Cristo, ele pronunciou estas nobres palavras: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres com teu reino” (Lc 23, 42). O Bom Ladrão então chegou para ser um daqueles que chegaram por último na vinha e, no entanto, receberão a mesma recompensa dos primeiros. Verdade, por isso, a sentença “quem vive bem, irá morrer bem”; e “quem viver mal, morrerá mal”. Nós temos que concordar que é mais perigoso adiarmos nossa conversão dos pecados para a virtude: muito mais feliz são os que aceitam o jugo do Senhor desde sua juventude, como disse Jeremias; e extremamente abençoados são aqueles “que não são contaminados por mulheres, e em cuja boca não se encontram mentiras, pois estão sem manchas, em frente ao trono de Deus. Estes foram resgatados dentre os homens, como primícias para Deus e para o Cordeiro” (Ap 14, 3-5). Exemplos são Jeremias, São João, “mais que um profeta”, e acima de todos, a Mãe de nosso Senhor, bem como todos a quem Deus reconheceu. A primeira grande verdade, agora, está estabelecida, pois uma boa morte depende de uma boa vida.

Para viver bem, deve-se morrer para o mundo
Agora, para viver bem é necessário, em primeiro lugar, morrer para o mundo antes de morrer em corpo. Todos que vivem para o mundo estão mortos para Deus: não podemos de nenhum modo viver para Deus, exceto se primeiro morrermos para o mundo. Esta verdade está tão plenamente revelada nas Sagradas Escrituras, que apenas infiéis podem negá-la. Mas, como toda verdade deve ser proclamada pela boca de duas ou três testemunhas, vou citar os santos apóstolos, São João, São Paulo e São Tiago, por que através deles o Espírito Santo, o espírito da verdade, falou plenamente. Escreve São João: “Já não conversarei muito convosco, pois o príncipe deste mundo vem, contra mim ele nada pode” (Jo 14, 30). Aqui o demônio é dito “o príncipe deste mundo”, que é rei de todos os vícios; e por “mundo”, é entendido a companhia de todos os pecadores que amam o mundo e são amados por ele. Um pouco depois, o evangelista continua: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro, odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas porque não sois do mundo e minha escolha vos separou do mundo, o mundo, por isso, vos odeia” (Jo 15, 19). E em outro ponto: “Não rogo pelo mundo, mas pelos que me deste, porque são teus” (Jo 17, 9). Aqui, Cristo claramente nos  diz que por “mundo” significa quem, com o príncipe do mundo, devem ouvir no último dia: “Vão, conforme predito, para o fogo eterno” (cf. Ap 20, 19). São João acrescenta em sua epístola: “Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai. Porque tudo o que há no mundo – a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da riqueza – não vem do Pai, vem do mundo. Ora, o mundo passa com suas concupiscências; mas o que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1Jo 2, 16-17). Vamos agora ouvir como São Tiago fala em sua epístola: “Adúlteros, não sabeis que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Assim, todo aquele que quer ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus” (Tg 4, 4). Então, São Paulo, aquele vaso da eleição, escreve em sua Primeira Epístola aos  Coríntios, para todos que tem fé: “Vossas necessidades vão além deste mundo”, e em outro lugar, na mesma Epístola: “Mas por seus julgamentos o Senhor nos corrige, para não sejamos condenados com o mundo” (1Cor 11, 32). Aqui nos é dito claramente que o mundo inteiro será condenado no último dia. Mas por “mundo” não significa céu e terra, nem aqueles que vivem nele; mas somente aqueles que amam o mundo. Os justos e piedosos, em quem reina o amor de Deus, não a concupiscência da carne, estão no mundo, mas não são do mundo: mas os perdidos em vícios não apenas estão no mundo, eles também pertencem a este mundo; pois não o amor de Deus, mas a concupiscência do mundo reina em seus corações, ou seja, luxúria e a concupiscência dos olhos, a avareza e o “orgulho da vida”, que é a estima por eles mesmos acima dos outros; então eles imitam a arrogância e o orgulho do demônio, não a humildade e suavidade de Jesus Cristo.

As três virtudes teologais
A finalidade desta admoestação é a caridade, que procede de coração puro, de boa consciência e de fé sem hipocrisia (1Tm 1, 5). Vamos iniciar pela fé, que é a primeira das virtudes que existem no coração do homem justificado pela fé. Não sem razão, o apóstolo acrescenta “sem hipocrisia” a fé. Pela fé vêm à justificação, desde que seja verdadeira e sincera, não falsa e afetada. A fé dos heréticos não conduz à justificação, pois não é verdadeira, é falsa; a fé dos maus católicos não conduz à justificação por que não é sincera, mas afetada. É afetada de duas maneiras: quando nós não acreditamos realmente, mas somente fingimos acreditar; ou quando, apesar de acreditar, não é vivida, como acreditamos que deve ser. Nestas duas situações é que as palavras de São Paulo na epístola a Tito devem ser compreendidas: “Afirmam conhecer a Deus, mas negam-no com seus atos” (Tt 1, 16a). Desta maneira os santos padres Jerônimo e Agostinho interpretam estas palavras do apóstolo. Agora, desta primeira virtude de um homem justo, nós podemos facilmente entender quão grande deve se a multidão daqueles que não vivem bem, e, da mesma maneira, morrem no pecado. Eu vejo infiéis, pagãos, heréticos e ateístas que são completamente ignorantes da arte de morrer bem. E entre católicos, quantos existem que “afirmam conhecer a Deus, mas negam-no com seus atos”. Quem reconhece ser virgem a mãe de Nosso Senhor, mas não teme blasfemar contra ela? Quem preza orar, jejuar, ser caridoso e outras boas obras, mas ainda se permite vícios opostos? Eu omito outras coisas que são conhecidas de todos. Aqueles dizem possuir fé “sem hipocrisia”, que não acreditam naquilo que dizem crer, ou não vivem de acordo com os mandamentos da Igreja Católica; e, por isso, demonstram pela sua conduta que ainda não começaram a viver bem, nem podem ter esperança de uma morte feliz, exceto se por uma graça de Deus aprenderam a arte de morrer bem. Outra virtude de um homem justo é a esperança, ou uma “boa consciência”, como São Paulo no ensina. Esta virtude vêm da fé, pois não há como ter esperança em Deus sem conhecer o Deus verdadeiro ou não acreditar Nele como todo-poderoso e misericordioso. Mas, para exercitar e fortalecer nossa fé, para que possa ser chamada não apenas esperança, mas também confiança, uma boa consciência é necessária. Como se aproximar de Deus e pedir seus favores, quando sabe ter cometido pecados e não tê-los expiados por uma correta penitência? Quem pede um benefício ao inimigo? Quem pode esperar ser perdoado por ele, se reconhece ter estado contra ele? Escute o que um homem sábio pensa da esperança dos ímpios: “A esperança do ímpio é como a palha levada pelo vento, como espuma miúda que a tempestade espalha; é dispersa como fumaça pelo vento, fugaz como a lembrança do hóspede de um dia” (Sb 5, 14). Assim o sábio admoesta o ímpio, que sua esperança é fraca, não forte; fugaz, não persistente; eles, enquanto estão vivos, ainda tem alguma esperança, em algum momento devem se arrepender e reconciliar-se com Deus; mas quando a morte lhes chegar, a menos que o Todo Poderoso por alguma graça especial mover seus corações e inspirá-los verdadeiro arrependimento, sua esperança será transformada em desespero, e eles dirão junto aos demais ímpios: “Sim, extraviamo-nos do caminho da verdade; a luz da justiça não brilhou sobre nós, para nós nasceu o Sol. Cansamo-nos nas veredas da iniquidade e perdição, percorremos desertos intransitáveis, mas não conhecemos o caminho do Senhor! Que proveito nos trouxe o orgulho? De que nos serviram riqueza e arrogância? Tudo isso se passou como uma sombra” (Sb 5, 6-9a). Portanto, deixemos o sábio nos corrigir, se queremos viver e morrer bem, nós não devemos permanecer no pecado, mesmo que por um momento, nem nos permitir enganar por uma vã confiança, que ainda teremos muitos anos para viver e poderemos utilizar estes anos para ganhar nosso perdão.

Três Conselhos Evangélicos
Assim nos fala São Lucas: Tendes os rins cingidos e acesas as vossas lâmpadas. Sede semelhantes aos homens que esperam o seu senhor ao voltar das núpcias para lhe abrirem a porta quando ele chegar e bater (Lc 12, 35-36). Esta parábola pode ser entendida de duas maneiras: como preparação para a chegada do Senhor nos últimos dias; ou para Sua chegada no dia da morte de cada um. Nós iremos explicar esta parábola pelo segundo sentido, entendida como preparação para a morte, que sobre todas as coisas é tão absolutamente necessária para nós. As núpcias do Senhor O Senhor nos ordena a observar três coisas: primeiro, nós devemos “cingir os rins”; depois, devemos ter “lâmpadas queimando nossas mãos”; terceiro, estarmos atentos “vigiando” em expectativa a chegada de nosso julgamento, estando ignorantes do momento de sua chegada, assim como ignoramos a chegada dos ladrões. Expliquemos estas palavras: “cingir os rins”. O sentido literal destas palavras é que devemos estar preparados ara seguirmos adiante e encontrar o Senhor quando a morte nos chamar para nosso particular julgamento. A comparação comas vestimentas estarem cingidas é relacionada aos costumes das nações orientais de utilizarem longas vestes; e quando estão preparados para iniciar uma longa jornada, eles tomam suas vestes e as cingem, isto é, apertam, para evitar que nelas tropecem. De acordo com o mesmo costume dos orientais, São Pedro escreve: Cingi, portanto, os rins do vosso espírito, sede sóbrios e colocai toda vossa esperança na graça que vos será dada no dia em que Jesus Cristo aparecer (1Pe 1, 13). E São Paulo na Epístola aos Efésios diz: Ficai alerta, à cintura cingidos com a verdade, o corpo vestido com a couraça da justiça (Ef 6, 14). Ter nossos “rins cingidos” significa duas coisas: primeiro, a virtude da castidade; segundo, estar pronto para encontrar nosso Senhor vindo para o julgamento, particular ou geral. Os Santos Basílio, Agostinho e Gregório Magno citam a primeira explicação. E, verdadeiramente, a concupiscência da carne, sobre todas as paixões, nos impede de estarmos prontos para encontrar Cristo; por outro lado, nada nos faz mais prontos para encontrar o Senhor, que a castidade virginal. Isto podemos ler nos Apocalipse, sobre as virgens que seguem o Senhor. E o apóstolo diz: O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa. A mesma diferença existe com a mulher solteira ou a virgem. Aquela que não é casada cuida das coisas do Senhor, para ser santa no corpo e no espírito; mas a casada cuida das coisas do mundo, procurando agradar ao marido (1Cor 7, 32-34). Agora expliquemos outro dever do servo fiel e diligente: as lâmpadas devem estar acesas”. Não é suficiente para o servo ter os “rins cingidos”, para que possa fácil e livremente encontrar o Senhor. Uma lâmpada acesa é requerida para mostrá-lo o caminho, por que à noite deve estar vigilante à Sua espera, quando retornar do banquete nupcial. Aqui, “lâmpada” significa a lei de Deus que aponta o caminho correto. Diz Davi: Vossa palavra é um facho que ilumina meus passos, uma luz em meu caminho (Sl 119, 105). A “lei é uma luz” diz Salomão no Livro dos Provérbios. Mas a lâmpada não pode iluminar ou apontar o caminho se estiver dentro da casa, ela deve ser erguida pelas nossas mãos. Muitos existem que conhecem as leis divinas e humanas, mas cometem muitos pecados, ou se omitem de bons e necessários trabalhos, por que não possuam uma lâmpada erguida em suas mãos, por que seu conhecimento não se estende às atividades diárias. Quantos homens existem que ouviram a palavra e cometem sérios pecados, por que quando agem não consultam a lei do Senhor, mas suas vontades, desejos e paixões. Se o Rei Davi, quando viu Bersabéia nua, tivesse lembrado da lei “não desejai a mulher do próximo”, ele nunca teria cometido tão grave crime; mas como estava deliciado com a beleza da mulher, esqueceu a lei divina. Este homem, tão justo e abençoado, cometeu adultério. Donde, nós devemos ter a lâmpada da lei, não escondida no nosso quarto, mas em nossas mãos, e obedecer estas palavras do Espírito Santo, que nos diz para meditarmos sobre os mandamentos dia e noite. Aquele que mantém em frente a seus olhos os mandamentos, sempre estará pronto para encontrar o Senhor, não importa o momento de sua chegada. O terceiro é último dever do servo é “vigiar” estando incerto sobre quando chegará o Senhor: Bem-aventurados os servos a quem o senhor achar vigiando, quando vier! (Lc 12, 37) Nosso Senhor não quer que saibamos o momento de nossa morte, para que possamos pecar à vontade, e empreendermos nossa conversão pouco antes da morte. A Divina providência dispôs as coisas de tal modo que nada é mais incerto que a hora da morte: alguns morrem no ventre da mãe, alguns tão logo nascem, outros já muito velhos, alguns na flor da juventude; alguns sofrem por um bom tempo, ou morrem subitamente, ou se recuperam de doenças graves e quase incuráveis; e quando parecem estar sãos e curados, a doença ataca novamente. Esta incerteza Jesus alude nos Evangelhos: Se vier na segunda ou se vier na terceira vigília e os achar vigilantes, felizes daqueles servos! Sabei, porém, isto: se o senhor soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria sem dúvida e não deixaria forçar a sua casa. Estai, pois, preparados, porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do Homem (Lc 12, 38-40). Para nos convencer da incerteza do momento de nossa morte ou de quando virá nos julgar, nada é mais frequente nas Escrituras que a palavra “vigiar” e também a comparação com o ladrão. Destas considerações resta evidente como grande pode ser a negligência e ignorância, para não dizer cegueira e loucura da parte da humanidade, que, mesmo estando advertida pelo Espírito da Verdade, que não pode mentir, que deve estar preparada a morte, esta grande e difícil questão, da qual depende eterna felicidade ou miséria, ainda poucos deixam-se elevar pelas palavras ou poder do Espírito Santo.

O erro dos ricos deste mundo
Além de tudo que já foi dito, eu devo acrescentar uma refutação a certo erro muito prevalente entre os ricos deste mundo, que muito os afasta de uma vida correta e uma boa morte. O erro consiste nisto: o rico supõe que toda riqueza que possui é absolutamente sua propriedade, se justamente adquirida; e, portanto, podem legalmente gastá-la ou desperdiçá-la e ninguém pode lhes dizer: “Por que você fez isto? Por que se vestir tão ricamente? Por que organizar festas tão suntuosas? Por que gastar tão prodigamente com teus cachorros e falcões? Por que gastar tanto em jogos e outros prazeres semelhantes”. E eles respondem: “O que é isto para ti? Não é correto eu gastar o meu dinheiro para fazer aquilo que eu desejar?” Este erro é sem dúvida, mais grave e pernicioso: considerar que os ricos são mestres das suas propriedades com relação aos demais homens; embora, em relação a Deus, eles não sejam mestres, mas apenas administradores. Esta verdade pode ser provada com muitos argumentos: Do Senhor é a terra é o que nela existe, o mundo e seus habitantes (Sl 24, 1). E ainda: Não preciso do novilho do teu estábulo, nem dos cabritos de teus apriscos, pois minhas são todas as feras das matas; há milhares de animais nos meus montes. Conheço todos os pássaros do céu, e tudo o que se move nos campos. Se tivesse fome, não precisava dizer-te, porque minha é a terra e tudo o que ela contém (Sl 50, 9-12). E no primeiro livro de Crônicas, quando Davi ofereceu para a construção do templo três mil moedas de ouro e sete mil moedas de prata e mármore em grande abundância; e quando movidos pelo exemplo do Rei, os príncipes das tribos ofereceram cinco mil moedas de ouro, dez mil moedas de prata, dezoito mil de bronze e cem mil de ferro, então Davi disse ao Senhor: A vós, Senhor, a grandeza, o poder, a honra, a majestade e a glória, porque tudo que está no céu e na terra vos pertence. A vós, Senhor, a realeza, porque sois soberanamente elevado acima de todas as coisas. É de vós que vêm a riqueza e a glória, sois vós o Senhor de todas as coisas; é em vossa mão que residem a força e o poder. E é vossa mão que tem o poder de dar a todas as coisas grandeza e solidez. Agora, ó nosso Deus, nós vos louvamos e celebramos vosso nome glorioso. Quem sou eu, e quem é meu povo, para que possamos fazer-vos voluntariamente estas oferendas? Tudo vem de vós e não oferecemos senão o que temos recebido de vossa mão (1Cr 29, 11-14). O testemunho de Deus pode ser acrescentado através das palavras do profeta Ageu: A prata e o ouro me pertencem – oráculo do Senhor dos exércitos (Ag 2, 8). Assim falou o Senhor, para que o povo compreendesse que nada seria necessário caso o Senhor ordenasse sua construção, pois a Ele pertencem todo ouro e prata deste mundo. Devo acrescentar dois outros testemunhos das palavras de Cristo, no Novo Testamento: Havia um homem rico que tinha um administrador. Este lhe foi denunciado de ter dissipado os seus bens. Ele chamou o administrador e lhe disse: Que é que ouço dizer de ti? Presta contas da tua administração, pois já não poderás administrar meus bens (Lc 16, 1-2). O “homem rico”, aqui, significa Deus, como dissemos a pouco, pois como diz o profeta Ageu, dele é o ouro e a prata. Por “administrador” entenda-se os homens ricos, como explicam os santos padres Agostinho, Ambrósio e o Venerável Beda sobre esta passagem. Se o Evangelho, então, deve ser acreditado, todo homem rico deste mundo deve reconhecer que suas riquezas, justa ou injustamente adquiridas, não são suas: se ele as adquiriu corretamente, ele é apenas o administrador; se injustamente, ele não é nada além de um ladrão. E desde que o homem rico não é mestre de suas riquezas, por consequência, quando acusado de uma injustiça frente a Deus, Deus pode retirá-las através da morte ou tomando-as, pois assim está indicado nestas palavras: Presta contas da tua administração, pois já não poderás administrar meus bens. Para Deus sempre haverá meios de reduzir um rico à pobreza, retirando os bens de sua custódia. Naufrágios, roubos, tempestades de granizo, pragas, muita chuva, seca e outras aflições são as muitas vozes de Deus dizendo ao rico: já não poderás administrar meus bens. Mas, então, ao final da parábola, nosso Senhor diz: fazei amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos (Lc 16, 9). Ele não quer dizer que as esmolas são dadas a Ele, mas que os ricos não são ricos, propriamente falando, mas somente sombras Dele. Isto é evidente em outra passagem do Evangelho de São Lucas: Se, pois, não tiverdes sido fiéis nas riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras? (Lc 16, 11). O significado destas palavras é: se nas injustas riquezas ou seja, nas falsas riquezas, não tiverdes sido fiéis dando tudo liberalmente aos pobres, quem vos confiará as verdadeiras que fazem um homem realmente rico? Esta é a explicação dada por São Cipriano e Santo Agostinho. Em outra passagem do mesmo evangelho, que pode ser considerada como um comentário sobre o administrador injusto: Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho finíssimo, e que todos os dias se banqueteava e se regalava. Havia também um mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que estava deitado à porta do rico. Ele avidamente desejava matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico… Até os cães iam lamber-lhe as chagas. Ora, aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico e foi sepultado, estando ele nos tormentos do inferno (Lc 16, 19-23a). Este rico era certamente um daqueles que supõe ser mestre de seu próprio dinheiro e não administrador, e, portanto ele imaginou não estar ofendendo a Deus quando estava vestido de púrpura e linho, e celebrava suntuosamente todos os dias, tinha seus cães e bufões. Talvez tenha dito a si mesmo: eu gasto o meu dinheiro, não ataco ninguém, eu não violo as leis de Deus, eu não blasfemo nem juro em falso, observo os dias santos, honro pai e mãe, não mato, não sou adultero, não roubo, não dou falso testemunho, não desejo a mulher do próximo, não faço nada disto. Mas se é este caso, por que ele foi para o Inferno, ser atormentado no fogo? Devemos reconhecer que aqueles enganados, que supõe ser mestres absolutos de seu dinheiro, devem responder por muitos graves pecados, que as Santas Escrituras deveriam mencionar. Mas como nada mais é dito, entendemos que os adornos supérfluos e caros, seus magníficos banquetes, a multidão de servos e cães, enquanto não possuía nenhuma compaixão pelo pobre é causa suficiente para condená-lo aos tormentos eternos. Portanto, podemos estabelecer uma regra clara para viver e morrer bem, e sempre considerar que iremos prestar contas a Deus de nosso palácios luxuosos, jardins, muitos servos, esplendor nas vestimentas, banquetes, gastos desnecessários, que afetam a multidão de pobres e doentes, que procuram pelos nossos supérfluos, que chorar a Deus, e no dia do julgamento não pararão de clamar contra todos homens ricos, até que sejam condenados às chamas eternas.

Três virtudes morais: piedade, justiça e sobriedade
Embora as três virtudes teologais fé, esperança e caridade incluam todas as regras para viver bem e, portanto, morrer bem; o Espírito Santo, autor de todos os livros da Sagrada Escritura, para melhor compreensão da necessária arte de viver corretamente, acrescentou piedade, justiça e piedade, das quais fala o apóstolo Paulo na Epístola a Tito: Manifestou-se, com efeito, a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens. Veio para nos ensinar a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade, na expectativa da nossa esperança feliz, a aparição gloriosa de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo (Tt 2, 11-13). Este, portanto, é o sexto conselho para viver e morrer corretamente: que negando a impiedade e os desejos do mundo, nós vivamos sóbria, justa e piedosamente neste mundo. Aqui um resumo para toda lei divina, reduzida a uma curta sentença: Aparta-te do mal e faze o bem, para que permaneças para sempre (Sl 36, 27). No mal há duas coisas; a distância de Deus e proximidade com as criaturas, de acordo com o profeta Jeremias: Porque meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me, a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água (Jr 2, 13). O que o homem deve fazer para afastar-se do mal? Ele deve negar a impiedade e os desejos carnais. A impiedade nos afasta de Deus e os desejos carnais nos tornam meras criaturas do mundo. Para fazer o bem, nós devemos cumprir a lei e viver sóbria, justa e piedosamente. Sóbrios em relação a nós, justos em relação ao próximo, piedosamente em relação a Deus. Mas nós entraremos um pouco mais em detalhes, com o objetivo de facilitar a prática deste salutar conselho. O que é, então, a impiedade? O contrário da piedade. O que é a piedade? A virtude ou dom do Espírito Santo, pelo qual reconhecemos o Senhor, adoramos a Deus e o veneramos como nosso Pai. O Espírito Santo nos ajuda a compreendermos que se desejarmos agradar a Deus, devemos cari de amores por ele piedosamente a ponto de não admitir impiedade. Pois há muitos cristãos que parecem ser piedosos rezando a Deus, participando do adorável sacrifício, ouvindo sermões e catequeses, mas, ao mesmo tempo, blasfemam contra Deus, juram em falso ou quebram seus votos. E o que mais é isto senão fingir ser piedoso, mas ao mesmo tempo ser impiedoso? É proveitoso para aqueles que desejam viver corretamente, adorar a Deus e negar toda impiedade. Sim, qualquer sombra de impiedade. Pois será de pouco lucro ouvir a missa diária se também blasfemar contra Deus ou jurar por seu santo nome, Temos que cuidadosamente alertar que o apóstolo não diz apenas para evitar a impiedade, mas toda impiedade, ou seja, qualquer tipo de impiedade, não apenas as mais graves, mas também as leves. E isto é dito contra quem não hesita jurar sem necessidade; quem em lugares sagrados olha para mulheres de modo inconveniente, para não dizer lascivo; quem conversa durante a missa; e comete outras ofensas; como se não acreditasse que Deus está presente e observasse até mesmo os mais leves pecados. Nosso Deus é um Deus ciumento: Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto. Eu sou o Senhor, teu Deus, um Deus zeloso que vingo a iniquidade dos pais nos filhos, nos netos e nos bisnetos daqueles que me odeiam, mas uso de misericórdia até a milésima geração com aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos (Ex 20, 5-6). Isto o próprio filho de Deus nos ensinou com seu exemplo. Embora manso e humilde de coração, “ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje; ele, maltratado, não proferia ameaças” (1Pe 2, 23), mas quando “encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas”, com grande zelo, “fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas. Disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes” (Jo 2, 14-16). E isto ele fez duas vezes no primeiro ano de sua pregação, e novamente no último ano de seu ministério, de acordo com o testemunho dos três evangelistas. Vamos proceder agora para a segunda virtude, que direciona nossas ações ao próximo. Esta é a virtude da justiça, da qual o apóstolo fala que negando os desejos do mundo, vivemos justamente. Aqui, no dito “afastai-vos do mal, fazei o bem” é incluída; pois não é possível alcançar a verdadeira justiça para com o próximo quando os desejos carnais prevalecem. Os desejos carnais significam “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1Jo 2, 16). Estas não são de Deus, mas do mundo. Assim como a justiça não pode ser injusta, os desejos carnais não podem, de nenhuma maneira, estarem unidos a verdadeira justiça. Uma criança deste mundo pode, de fato, afetar a justiça em suas palavras, mas não pode realizá-la em obras e verdade. O apóstolo diz que não apenas devemos viver justamente, mas ele explicou que devemos negar os desejos carnais, temos que compreender que o veneno da concupiscência deve primeiro ser extirpado antes que a boa árvore da justiça possa ser plantada em nosso coração. Ninguém pode questionar o que significa viver justamente, pois todos nós sabemos que a justiça nos leva a dar a cada um o respeito devido, como diz o apóstolo: Pagai a cada um o que lhe compete: o imposto, a quem deveis o imposto; o tributo, a quem deveis o tributo; o temor e o respeito, a quem deveis o temor e o respeito (Rm 13, 7). Para o comerciante, devemos o preço acordado; para o trabalhador, seu salário; e assim em todas atividades. E com muito maior razão aqueles a que esta atribuída a administração dos bens públicos, devem agir com a máxima atenção, não deixando-se influenciar por pessoas, sejam parentes ou amigos próximos. Se, então, nós desejamos aprender a arte de morrer justamente, ouçamos o que diz o homem sábio clamando: “amai a justiça, vós que sois juízes na terra”. Escutemos São Tiago em sua epístola: Eis que o salário, que defraudastes aos trabalhadores que ceifavam os vossos campos, clama, e seus gritos de ceifadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos (Tg 5, 4). Agora falemos da terceira virtude, chamada sobriedade, para a qual os desejos carnais não são menos contrários que para a justiça. E aqui não entendemos a sobriedade apenas como a virtude contrária a bebedeira, mas como a virtude da temperança ou moderação, que faz um homem regular os desejos de seu corpo de acordo com a razão, não de acordo com suas paixões. Atualmente esta virtude é raramente encontrada entre os homens; os desejos carnais parecem ter se apoderado dos ricos deste mundo. Mas aqueles que são sábios não seguem o exemplo dos tolos, embora estes sejam quase inumeráveis, devemos seguir somente o exemplo dos sábios. Salomão, que era certamente o mais sábio dos homens, pediu a Deus: Eu te peço duas coisas, não mas negues antes de minha morte: afasta de mim falsidade e mentira, não me dês nem pobreza nem riqueza, concede-me o pão que me é necessário, para que, saciado, eu não te renegue (Pv 30, 7-9a). E o sábio apóstolo Paulo diz: Porque nada trouxemos ao mundo, como tampouco nada poderemos levar. Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto (1Tm 6, 7-8). Estas são palavras muito sábias, pois por que cuidarmos de acumular riquezas, quando não podemos carregá-las conosco para o lugar que a morte nos conduzir. Cristo, nosso Senhor era mais sábio que Salomão e Paulo, pois ele era a Sabedoria propriamente dita, também disse: Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos céus! (Mt 5, 3) e de si mesmo: As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Lc 9, 5).Quanto mais devem ser verdadeiras estas palavras que sai boca destes três sábios homens? E, se a isto acrescentarmos que nossas desnecessárias riquezas não são nossas, mas pertencem aos pobres, como é a opinião dos santos padres, não são os homens estúpidos que cuidadosamente cuidam das coisas da terra que irão ser condenados ao inferno? E se, então, queremos aprender a arte de viver e morrer corretamente, não sigamos a multidão que acredita e valoriza o que vê, mas sigamos a Jesus Cristo e aos apóstolos, que pela palavra e exemplo nos ensinaram que as coisas presentes devem ser desprezadas e a glória do grande Deus e Salvador Jesus Cristo deve ser desejada a esperada. E, verdadeiramente, tão grande é esta glória, que esperamos pelo retorno de nosso Senhor Jesus Cristo, que todas as glórias passadas, riquezas e alegrias deste mundo, serão consideradas como nada, e aqueles chamados tolos e infelizes, que confiaram em assuntos tão importantes em palavras sábias, serão salvos.

Por que rezar?
A necessidade de oração é repetida tão insistentemente nas Sagradas Escrituras que nada mais é mais claramente pedido que este dever. Embora o Todo Poderoso conheça nossas necessidades, como Nosso Senhor nos fala no Evangelho segundo São Mateus, Ele deseja que peçamos, e pela oração recebamos como que por mãos espirituais. Escuta Nosso Senhor em São Lucas: é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo (Lc 18, 1b) e vigiai, pois, em todo o tempo e orai (Lc 21, 36). Escuta o apóstolo: orai sem cessar (1Ts 5, 17) e o livro do Eclesiástico: nada te impeça de orar sempre (Eclo 18, 22). Estes preceitos não significam que não devemos fazer outra coisa, mas somente que nunca devemos nos esquecer de tão essencial exercício e fazer uso frequente dele. Isto Nosso Senhor e seus apóstolos nos ensinaram, pois mesmo nunca tendo deixado de rezar, não negligenciaram a pregação ao povo, confirmando suas palavras com sinais e milagres. E deve-se dizer que eles sempre rezavam e com muita frequência. Neste sentido devem ser compreendidas estas palavras: meus olhos estão sempre fixos no Senhor (Sl 24, 15) e também: bendirei continuamente ao Senhor, seu louvor não deixará meus lábios (Sl 33, 2) e as palavras sobre os apóstolos: permaneciam no templo, louvando e bendizendo a Deus (Lc 24, 53). Os frutos da oração são três vantagens: mérito, perdão e graças. Quanto ao mérito da oração, temos o testemunho de Cristo no evangelho: Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á (Mt 6, 5-6). Por estas palavras, o Senhor proíbe a prece em local público como vanglória, para ser visto pelos outros. Caso contrário, podemos rezar no templo e encontrar uma “quarto” em nosso coração e, então, rezar para Deus “em segredo”. As palavras “recompensar-te-á” significam o mérito, pois como Ele disse sobre os fariseus, já receberam sua recompensa, ou seja, reconhecimento humano. Aquele que orar no silêncio de seu coração, que olhar somente para o Senhor, devemos entender que serão recompensadas pelo Pai que vêm em segredo. Quanto ao perdão pelos pecados cometidos, conhecemos a prática da Igreja, que quando o perdão é desejado, a oração deve-se unir ao jejum e esmolas; embora muitas vezes jejum e esmolas sejam esquecidos, a oração é essencial. Enfim, pela oração podemos receber muitas graças, como nos ensina São João Crisóstomo em seus escritos sobre a oração, nos quais ele emprega uma comparação com as mãos humanas. Embora o homem nasça nu e necessitado de todas as coisas, não pode queixar-se do Criador, por que recebeu suas mãos, o órgão acima de todos órgãos, através do qual podemos obter alimento, casa e tudo mais. Do mesmo modo, o homem espiritual não pode fazer nada sem a assistência divina; ele possui o poder da oração, o órgão espiritual mais importante, através do qual Deus pode facilmente prover todas as nossas necessidades.

Seis condições para a oração correta
Vamos agora falar do método para rezar corretamente, necessário para a arte de viver corretamente e, por consequência, morrer corretamente. Comecemos pelo que diz o Senhor: Pedi e se vos dará. Buscai e achareis (Mt 7, 7). São Tiago, em sua epístola, explica que a frase deve ser compreendida com uma condição: se nós pedirmos propriamente: Pedis e não recebeis, porque pedis mal (Tg 4, 3). Devemos entender da seguinte maneira: aquele que pedir os dons para viver de maneira justa, sem dúvida será atendido; e aquele que pedir por perseverança na vida até a sua morte, e pedir por uma morte feliz, também com certeza obterá. Portanto, nós explicaremos as condições da oração, para que saibamos rezar bem, viver bem e morrer bem. A primeira condição é a fé, de acordo com as palavras do apóstolo: Porém, como invocarão aquele em quem não têm fé? (Rm 10, 14a), com as quais São Tiago concorda: mas peça-a com fé, sem nenhuma vacilação (Tg 1, 6a). Mas a necessidade de fé não deve ser entendida como se fosse importante acreditar que Deus deva certamente atender ao que é pedido, pois neste caso nossa fé seria provada falsa e então não obteríamos nada. Devemos acreditar que Deus é mais poderoso, mais sábio e mais digno de fé; e que Ele sabe, que tem poder e está preparado para atender nossos pedidos, se entendê-lo apropriado e útil para nós, receberemos o que pedimos. Esta fé Cristo pediu aos dois homens cegos que curou: Credes que eu posso fazer isso? (Mt 9, 28) Com a mesma fé Davi rezou pelo seu filho adoentado, como provam suas palavras, pois ele acreditava não ser seguro que Deus atenderia suas preces, mas que somente Deus seria capaz de conceder tal graça: Quem sabe, talvez o Senhor terá pena de mim e o menino ficará bom? (2Sm 12, 22) Disto não se pode duvidar. Com a mesma fé o apóstolo Paulo rezou para se livrar de um “espinho na carne”. Pois o apóstolo rezou com fé, e sua fé não era falsa se ele acreditava que Deus poderia lhe conceder a cura que pedia, embora não tenha obtido o que pedia. E com a mesma fé a Igreja pede por todos heréticos, pagãos, cismáticos e maus cristãos que possam ser converter, e, no entanto, é certo que nem todos se converterão. Outra condição muito necessária para rezar é a esperança. Pois ainda que pela fé, que é consequência da compreensão, nós não acreditemos que Deus atenderá nossos pedidos; pela esperança, que é um ato de desejo, podemos firmemente nos apoiar na bondade divina e termos confiança que Deus poderá nos atender. Esta condição Deus requer do paralítico, para quem diz: Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados (Mt 9, 2). O mesmo pede o apóstolo para todos, quando diz: Aproximemo-nos, pois, confiantemente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e achar a graça de um auxílio oportuno (Heb 4, 16). E muito antes dele, o profeta apresenta Deus, falando: Quando me invocar, eu o atenderei; na tribulação estarei com ele (Sl 90, 15). Mas como a esperança brota da fé perfeita, quando a Escritura requer fé nas grandes coisas, ela acrescenta algo sobre esperança. Assim lemos em São Marcos: Em verdade vos declaro: todo o que disser a este monte: Levanta-te e lança-te ao mar, se não duvidar no seu coração, mas acreditar que sucederá tudo o que disser, obterá esse milagre (Mc 11, 23). Que a fé produz confiança, podemos entender destas palavras do apóstolo: mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas (1Co 13, 2b). João Cassiano escreve em seu Tratado sobre a Oração que um sinal certo que nossos pedidos serão atendidos, ocorre quando em oração, nós não duvidamos que Deus certamente nos atenderá, e não hesitamos de nenhuma maneira, mas derramamos nossas orações com alegria espiritual. A terceira condição é a caridade, pela qual nos libertamos dos pecados; pois os amigos de Deus obtém os seus dons. Assim fala Davi em um Salmo: Os olhos do Senhor estão voltados para os justos, e seus ouvidos atentos aos seus clamores (Sl 33, 15), e em outro: Se eu intentasse no coração o mal, não me teria ouvido o Senhor (Sl 65, 18).  E no Novo Testamento, o Senhor mesmo confirma: Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito (Jo 15,7). E o amado discípulo fala: Caríssimos, se a nossa consciência nada nos censura, temos confiança diante de Deus, e tudo o que lhe pedirmos, receberemos dele porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que é agradável a seus olhos (1Jo 3, 21-22). Isto não é contrário à doutrina. Quando o publicano suplica por perdão de seus pecados, ele retorna para casa “justificado”; pois um pecador arrependido não obtém perdão por ser pecador, mas por estar arrependido; pois como pecador ele é inimigo de Deus; como penitente, amigo de Deus. Aquele que peca, desagrada a Deus; mas quem se arrepende de seus pecados, faz o que mais agrada ao Senhor. A quarta condição é a humildade, pela qual o suplicante, confia não em sua própria justiça, mas na bondade de Deus: Fui eu quem fez o universo, e tudo me pertence, declara o Senhor. É o angustiado que atrai meus olhares, o coração contrito que teme minha palavra (Is 66, 2). E o Livro do Eclesiástico acrescenta: A oração do humilde penetra as nuvens; ele não se consolará, enquanto ela não chegar (a Deus), e não se afastará, enquanto o Altíssimo não puser nela os olhos (Eclo 35, 21). A quinta condição é a devoção, pela qual não devemos rezar de maneira negligente, como muitos costumam fazer, mas com atenção, sinceridade, diligência e fervor. Nosso Senhor severamente adverte aqueles que rezam apenas com os lábios. Assim Ele nos fala em Isaias: O Senhor disse: Esse povo vem a mim apenas com palavras e me honra só com os lábios, enquanto seu coração está longe de mim (Is 29, 13). Esta virtude é fruto de uma fé viva e consiste não apenas no hábito de orar, mas na ação. Para aqueles que com fé firme e atenção consideram a grandeza de Sua Majestade Nosso Senhor, quão grande é nossa insignificância, e como são importantes nossos pedidos, não pode fazer diferente que rezar com grande humildade, reverência, devoção e fervor. Aqui devemos acrescentar o testemunho importante de dois santos padres. São Jerônimo escreve: começo pela oração: não devo orar se não acreditar; mas se eu tiver fé verdadeira, este coração, que Deus vê, posso limpá-lo; posso bater no peito, posso molhar minhas faces com minhas lágrimas, posso negligenciar toda atenção ao meu corpo e tornar-me fraco; posso me jogar aos pés do meu Senhor, molhá-los com minhas lágrimas e secá-los com meus cabelos; me apoiar na cruz, e não abandoná-la enquanto não obtiver misericórdia. Porém mais frequentemente durante minhas orações encontro-me caminhando pela cidade e sendo levado por pensamentos maus, entretenho-me em coisas das quais me envergonho de falar. Onde está nossa fé? Supomos que Jonas rezou assim? Os três jovens? Daniel na cova dos leões? Ou o bom ladrão na cruz?  São Bernardo, no seu Sermão sobre os Quatro Métodos da Oração, escreve: sobretudo nos impele, durante o tempo de oração, entrar no quarto celestial, no qual o Rei dos Reis encontra-se sentado em seu trono, cercado por inumerável e glorioso exército de almas abençoadas. Com tal reverência, tal temor, tal humildade, nos aproximamos com pó e cinzas, nós que não somos nada além de pequenos insetos rastejantes. Com tal temor, seriedade, atenção e solicitude deve tão miserável homem estar próximo da divina majestade, na presença de anjos, na assembléia dos justos? Em todas nossas ações temos necessidade de vigilância, especialmente na oração. A sexta condição é a perseverança, que nosso Senhor em duas parábolas recomenda: uma sobre o amigo importuno que pede dois pães em um horário inconveniente, no meio da noite, e recebe pela sua perseverança (Lc 11, 5-8); outra sobre a viúva que pede sem esmorecer para que o juiz a livre de seu adversário; e o juiz, embora sendo iníquo, homem que não temia nem Deus nem os homens, sobrepujado pela perseverança da mulher, livrou-a de seu inimigo. Destes exemplos o Senhor conclui, que muito mais perseverantes devemos ser na oração a Deus, porque ele é justo e misericordioso. E São Tiago completa: Deus concede generosamente a todos, sem recriminações (Tg 1, 5). Ou seja, ele concede seus dons liberalmente a todos que pedem, e “sem recriminações” por serem inoportunos, pois Deus não tem limites em suas riquezas nem em sua misericórdia.

A importância do jejum
Seguindo a ordem dada pelo anjo, agora falaremos sobre o jejum. Nossa intenção é explicar a arte de viver justamente, porque nos preparará para morrermos justamente. Para jejuar de maneira correta, três coisas são suficientes, assim como escrevemos sobre a oração: a necessidade, os frutos e um método apropriado. A necessidade de jejuar é dupla, derivada da lei humana e divina. Da divina, nos fala o profeta Joel: Por isso, agora ainda – oráculo do Senhor -, voltai a mim de todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos de luto (Jl 2, 12). A mesma linguagem utiliza o profeta Jonas, que testemunha sobre os ninivitas, que para acalmar a ira de Deus, proclama um jejum; e, no entanto, na época não havia nada dito sobre jejum na lei. Da mesma forma aprendemos das palavras de Nosso Senhor: Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á (Mt 6, 17-18). Podemos acrescentar as palavras de um dos santos padres, Santo Agostinho, que fala: “nos Evangelhos e epístolas, ao longo de todo Novo Testamento, eu vejo o jejum como um preceito. Mas em certos dias nos é dito para não jejuarmos; e os dias em que devemos jejuar não está definido pelo Senhor ou apóstolos.” São Leão (Papa Leão I) diz em seu sermão sobre o jejum: “aquilo que era figura das coisas futuras foram deixadas, uma vez que o seu significado foi realizado. Mas a utilidade de jejuar não passou com o Novo Testamento; deve ser piedosamente observado, pois o jejum é sempre lucro para a alma e o corpo”. As palavras “Adorarás o Senhor teu Deus e a ele só servirás” (Lc 4, 8) foram dadas aos primeiros cristãos. São Leão não quer dizer que os cristãos devem jejuar da mesma maneira que os judeus estavam acostumados. Mas, que o preceito dado aos judeus deve ser observado também pelos cristãos seguindo a determinação dos pastores da igreja quanto ao tempo e maneira. Os frutos e as vantagens do jejum são facilmente provadas. Primeiro, é útil porque ajuda a preparar a alma para a oração e contemplação das coisas divinas, com disse o anjo Rafael: a oração é boa com jejum. Moisés por quarenta dias preparou sua alma jejuando, antes de falar com Deus; Elias jejuou por quarenta dias, com o objetivo de estar pronto, tanto quanto permite as limitações humanas, para conversar com Deus; e Daniel, por um jejum de três semanas, estava preparado para receber as revelações de Deus. A Igreja definiu jejuns nas vigílias de grandes festividades, para que os cristãos estejam prontos ao celebrar as solenidades divinas. Os santos padres falam desta utilidade do jejum. Não posso deixar de citar São João Crisóstomo: o Jejum é um suporte para a alma, nos dá asas para subir aos céus e apreciar as mais altas contemplações. Outra vantagem do jejum é que sacrifica a carne; e tal jejum é particularmente agradável a Deus, pois a Ele agrada quando crucificamos a carne, com seus vícios e concupiscências, como São Paulo nos ensina na Epístola aos Gálatas e diz sobre si mesmo: Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros (1Cor 9, 27). De maneira semelhante falam Teófilo, São Ambrósio, São Cipriano, São Basílio, São Jerônimo e Santo Agostinho. E nos ofício das orações, a Igreja canta: “Carnis terat superbiam potûs cibique Parcitas.” (Moderação na bebida e comida sacrificam o orgulho da carne). Outra vantagem é que honramos Deus em nossos jejuns, porque quando jejuamos em sua intenção, nos o honramos. Assim fala o apóstolo Paulo na Epístola aos Romanos: Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual (Rm 12, 1). Deste culto espiritual, São Lucas fala quando menciona a profetisa Ana: Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde a sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações (Lc 2, 37). O grande Concílio de Nicéia no V Canon, pede jejum durante a Quaresma, como um presente solene oferecido pela Igreja para Deus. Da mesma maneira escreve Tertuliano no seu livro “Ressurreição da Carne”, onde ele chama alimentos secos e já sem sabor tomados tardiamente como sendo sacrifícios agradáveis a Deus; e São Leão I, no segundo sermão sobre o jejum fala que para seguramente receber todo os frutos do jejum, o sacrifício de abstinência é mais valioso quando oferecido para Deus, aquele que nos dá tudo que precisamos. A quarta vantagem do jejum é ser realizado como penitência por um pecado. Muitos exemplos nas Sagradas Escrituras provam este ponto. Os ninivitas agradaram a Deus pelo jejum, como testifica Jonas. Os judeus fizeram o mesmo, jejuando com Samuel ganharam a vitória sobre os inimigos. O ímpio rei Acab, jejuando e vestindo roupa de sacos, satisfez parcialmente a Deus. Nos tempos de Judite e Ester, os judeus obtiveram misericórdia de Deus por nenhum outro sacrifício além de jejuns, choros e lutos. Por fim, jejuar é meritório e muito poderoso para obter favores divinos. Ana, embora já com o ventre seco, mereceu por jejuns ter um filho. São Jerônimo interpreta assim esta passagem: ela chorou e não tomou alimentos e então Ana, por sua abstinência, mereceu dar à luz um filho. Sara, por um jejum de três dias, libertou-se de um demônio, como podemos ler no livro de Tobias. Mas também há uma passagem importante no Evangelho de São Mateus: Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á (Mt 6, 17-18). As palavras “recompensar-te-á” indica que dará um prêmio; em oposição a outra palavra: Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um semblante abatido para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa (Mt 6, 16). Pois os hipócritas ao jejuarem, recebem seu prêmio, ou seja, a admiração humana; os justos também recebem seu prêmio, o reconhecimento divino.

O Modo de Jejuar
Agora explicarei brevemente a maneira pela qual devemos jejuar, para que nosso jejum seja proveitoso e útil, nos conduza a uma vida justa, e, por consequência, a uma morte justa. Muitos jejuam em todos os dias indicados pela Igreja: nas vigílias, dias de semana e durante a Quaresma. Alguns jejuam também durante o Advento, preparando-se piedosamente para a Natividade de Nosso Senhor; ou nas sextas-feiras, em memória da paixão de Cristo; ou aos sábados, em honra a Nossa Senhora Virgem Mãe de Deus. Mas, qualquer que seja o motivo, é questionável se estão aproveitando bem as vantagens do jejum. O principal objetivo do jejum é a mortificação da carne e que o espírito seja fortalecido. Com este propósito, devemos nos restringir apenas à dietas não prazerosas. Assim nossa mãe a Igreja nos orienta a termos apenas uma refeição completa por dia, e sem comer carnes vermelhas ou brancas e partir apenas ervas ou frutas. Tertuliano assim qualifica em duas palavras, no seu livro “A Ressurreição da Carne”, quando chama o alimento daqueles que jejuam como “refeições tardias e secas”. Há aqueles que certamente não observam estes preceitos, que nos dias de jejum comem em apenas uma refeição tudo que comeriam durante num dia normal, que almoçam e jantam ao mesmo tempo, que para apenas uma refeição preparam tantos pratos de diferentes peixes e outras coisas agradáveis, que não parece algo para piedosos jejuadores, mas um banquete nupcial que continua através da noite. Estes que assim jejuam, certamente não aproveitam os benefícios do jejum. Também não obtém os frutos de um jejum piedoso quem, apesar de comer moderadamente, nos dias de jejum não se abstém de jogos, festas, disputas, discussões, músicas lascivas, e atitudes imoderadas; ou ainda pior, cometem crimes como se fossem dias comuns. Escutem o que diz o profeta Isaias sobre este tipo de pessoas: De que serve jejuar, se com isso não vos importais? E mortificar-nos, se nisso não prestais atenção? É que no dia de vosso jejum, só cuidais de vossos negócios, e oprimis todos os vossos operários. Passais vosso jejum em disputas e altercações, ferindo com o punho o pobre. Não é jejuando assim que fareis chegar lá em cima vossa voz (Is 58, 3-4). Então o Todo-Poderoso corrige o povo, porque nos dias de jejum, preferem fazer a sua vontade e não a vontade de Deus; por que não perdoam seus devedores, como rezam para serem perdoados por Deus; não são capazes nem de esperar para cobrar seu dinheiro. Também passam o tempo que deveria ser utilizado em orações ocupados em disputas e discussões. Assim agindo, ao invés de ocuparem o dia atendendo coisas espirituais, como deve-se fazer em dias de jejum, eles estão somando pecados novos aos pecados anteriores, atacando ao próximo. Estes e outros pecados devem ser evitados por pessoas piedosas, que desejam que seu jejum agrade a Deus e seja útil para si mesmo. Estes poderão ter esperança em uma vida justa e em um dia, morrer de maneira santa.

Os frutos da esmola
Em primeiro lugar, ninguém duvida que as Sagradas Escrituras pedem esmolas. A sentença que nosso supremo e justo Juiz proferirá contra os ímpios no último dia é suficiente, mesmo supondo que não tenha nada mais contra nós:  Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes (Mt 25, 41-43). E um pouco depois: Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer (Mt 25, 45).   Se não há muito a dizer sobre a necessidade de dar esmolas, há muito mais sobre os frutos, pois estes são abundantes. Primeiro, esmolas salvam a alma da morte eterna, sejam elas uma forma de satisfação ou disposição de receber as graças. Esta doutrina é claramente ensinada nas Sagradas Escrituras. No livro de Tobias podemos ler: a esmola livra do pecado e da morte, e preserva a alma de cair nas trevas (Tb 4, 11); no mesmo livro, o anjo Rafael afirma: a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna (Tb 12, 9). E Daniel disse ao rei Nabucodonosor: Queiras então, ó rei, aceitar meu conselho: resgata teu pecado pela justiça, e tuas iniquidades pela piedade para com os infelizes; talvez com isso haja um prolongamento de tua prosperidade (Dn 4, 24 ). Esmolas também, se dadas por um homem justo, e com verdadeira caridade, são meritórias para a vida eterna:  isto o Juiz dos vivos e mortos pode testemunhar: Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim (Mt 25, 34-36). E logo após: Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes (Mt 25, 41). Em terceiro lugar, esmolas são como um batismo, porque levam consigo tanto os pecados quanto a punição, de acordo com as palavras do Eclesiástico: A água apaga o fogo ardente, a esmola enfrenta o pecado (Eclo 3, 33). A água extingue completamente o fogo, de tal modo que a fumaça permanece. Desta maneira ensinam muitos dos Santos Padres, como São Cipriano, São Ambrósio, São João Crisóstomo e São Leão, cujas palavras é desnecessário citar. Esta, portanto, é uma grande vantagem, que pode inflamar em todos os homens o amor às esmolas. Mas isto não pode ser entendido de qualquer modo, mas apenas aquelas que são procedidas de grande contrição e caridade, tais como Santa Maria Madalena, que, em lágrimas de verdadeira contrição, lavou os pés do Senhor; e tento comprado o mais precioso perfume, derramou-o sobre Seus pés. Em quarto lugar, as esmolas aumentam a confiança em Deus e produzem alegria espiritual; embora isto seja comum a outras obras de caridade, dá-se de modo particular com as esmolas, pois através delas prestasse um serviço especial a Deus e aos irmãos, e esta obra é claramente reconhecida como boa. Daí a palavra de Tobias: A esmola será para todos os que a praticam um motivo de grande confiança diante do Deus Altíssimo (Tb 4, 12). E o apóstolo, na sua Epístola aos Hebreus, diz: Não percais esta convicção a que está vinculada uma grande recompensa (Hb 10, 35). São Cipriano, no Sermão sobre as Esmolas, a chama de “grande conforto dos fiéis”. Em quinto lugar, as esmolas conciliam a boa vontade de muitos que rezam por seus benfeitores e obtém para eles tanto a graça da conversão, ou o dom da perseverança, ou um aumento de méritos e glória. De todas estas maneiras devem ser compreendidas estas palavras do Nosso Senhor: fazei-vos amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos (Lc 16, 9). Em sexto lugar, as esmolas demonstram disposição para receber a graça da justificação. Deste fruto Salomão nos fala no livro dos Provérbios, onde afirma: É pela bondade e pela verdade que se expia a iniquidade (Pv 16, 6a). E quando Cristo ouviu falar da liberalidade de Zaqueu: Senhor, vou dar a metade dos meus bens aos pobres e, se tiver defraudado alguém, restituirei o quádruplo. Disse-lhe Jesus: Hoje entrou a salvação nesta casa (Lc 19, 9b-10a). Também lemos nos Atos dos Apóstolos o que foi dito a Cornélio, que ainda não era um cristão, mas deu grandes esmolas: As tuas orações e as tuas esmolas subiram à presença de Deus como uma oferta de lembrança (At 10, 4). Deste ponto Santo Agostinho prova que Cornélio, pelas suas esmolas obteve de Deus a graça da fé e perfeita justificação. Por fim, esmolas são um instrumento para aumentar os bens materiais. Isto afirma o homem inteligente: Quem se apieda do pobre empresta ao Senhor, que lhe restituirá o benefício (Pv 19, 17). E também: O que dá ao pobre, não padecerá penúria (Pv 28, 27). Jesus nos ensinou esta verdade pelo seu próprio exemplo, quando ordenou a seus discípulos que distribuíssem os cinco pães e dois peixes; em retorno receberam doze cestos, dos quais serviram-se por muitos dias. Tobias também distribui fartamente aos pobres e, em curto espaço de tempo, obteve grandes riquezas. A viúva de Sarepta, deu a Elias apenas um refeição e um pouco de óleo, obteve de Deus por este ato de caridade, abundância de alimentos e óleo, que por longo tempo não terminaram.

Como dar esmolas
Agora iremos discutir um pouco o método de dar esmolas; pois é especialmente necessário para viver bem e ter uma morte feliz. Primeiro, devemos dar esmolas com pura intenção de agradar a Deus e não obter reconhecimento humano. Isto Nosso Senhor nos ensina quando diz: Quando, pois, der esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita (Mt 6, 2-3). Santo Agostinho expõe esta passagem assim: a mão esquerda significa a intenção de dar esmolas para obter honras mundanas e outras vantagens temporais; a mão direita significa a intenção de conceder esmolas para ganhar a vida eterna, ou para glória de Deus, e por caridade ao próximo. Segundo, nossas esmolas devem ser dadas pronta e voluntariamente, tal que não pareça ter sido extorquida através de súplicas, nem adiada dia após dia. O homem sábio diz: Não digas ao teu próximo: Vai, volta depois! Eu te darei amanhã, quando dispões de meios (Pv 3, 28). Abraão, temente a Deus, pediu aos anjos para ir à casa dele, não esperou que lhe pedissem, e disse a Ló para fazer o mesmo. E lemos que Tobias também não esperou que o pobre viesse a ele, mas procurou-os por si mesmo. Terceiro, devemos das esmolas com alegrias, não tristeza. O Eclesiástico diz para mostrar contentamento. São Paulo escreve: Dê cada um conforme o impulso do seu coração, sem tristeza nem constrangimento. Deus ama o que dá com alegria (2Cor 9, 7). Quarto, nossas esmolas devem ser dadas com humildade, pois o homem rico deve lembrar que recebe muito mais do que ele dá. Sobre este ponto, São Gregório fala: quando der bens terrenos, o homem encontrará muito proveito em controlar seu orgulho e relembrar cuidadosamente as palavras de seu Mestre celestial: eu vos digo: fazei-vos amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos (Lc 16, 9). Para através de suas amizades adquirir tabernáculos eternos, aqueles que dão, sem dúvida, devem lembrar de oferecer seus dons para os pobres, não para os ricos. Quinto, nossas esmolas devem ser dadas abundantemente, em proporção aos nossos bens. Assim fez e nos ensinou Tobias, o mais generoso em dar esmolas: se tiveres muito, dá abundantemente; se tiveres pouco, dá desse pouco de bom coração (Tb 4, 9). E o apóstolo ensina que as esmolas devem ser dadas para alcançar a benção, não com avareza. São João Crisóstomo acrescenta: não apenas dar, mas dar abundantemente, isto é esmola. E, no mesmo sermão, repete: aqueles que desejam ser ouvidos por Deus quando dizem “tenha piedade de mim, oh Deus”, de acordo com a divina misericórdia, devem ter misericórdia para com os pobres, na medida de suas posses. Por fim, acima de todas as coisas, quem desejar ser salvo e ter uma boa morte, diligentemente deve perguntar-se, através de leituras e meditações, ou consultando homens santos e sábios, se suas supérfluas riquezas podem ser mantidas sem cometer pecado, ou se devem dá-las para os pobres; o que deve ser compreendido como supérfluo e quais são os bens necessários. Pode ocorrer que algumas riquezas moderadas sejam supérfluas, enquanto outras grandes riquezas sejam absolutamente essenciais. E desde que este tratado não requer estudos escolásticos aprofundados, irei brevemente citar algumas passagens da Escritura e Santos Padres. As Escrituras dizem: não podeis servir a Deus e à riqueza (Mt 6, 24) e quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo (Lc 3, 11). E no capítulo 12 de São Lucas é dito sobre quem tem grandes riquezas, que nem sabe o que fazer com elas: Insensato! Nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma. E as coisas, que ajuntaste, de quem serão? (Lc 12, 20). Santo Agostinho explica que estas palavras indicam que o homem rico perecerá porque não sabe utilizar suas riquezas supérfluas. São João Crisóstomo afirma em sua 34ª homília ao povo de Antioquia: tens algumas posses? O interesse dos pobres está confiado a ti, sejam teus bens frutos de justos trabalhos ou herdados de teus pais. São Agostinho, nos Comentários sobre o Salmo 147: nossos bens supérfluos pertencem aos pobres; se não forem dados a eles, nós possuímos o que não temos direito. São Leão fala: bens temporais são dados para nós pela liberalidade de Deus, e Ele pedirá contas deles, pois foram concedidos a nós. São Tomás ensina que as riquezas temporais que possuímos, por lei natural pertencem aos pobres. E também que o Senhor nos pede para dar aos pobres não apenas a décima parte, mas todos bens supérfluos. O mesmo autor assegura que esta é a opinião comum de todos teólogos. E acrescento também, que se alguém quiser obedecer estritamente a letra da lei, não é apenas convidado a dar seus bens para os pobres, é obrigado a fazê-lo pela lei da caridade, pois tanto faz se escaparmos do inferno por seguirmos a lei ou por verdadeira caridade.

 

AS SETE PALAVRAS DE CRISTO NA CRUZ
http://espelhodejustica.blogspot.com.br/2013/02/sao-roberto-bellarmino-as-sete-palavras_26.html
Tradução: Permanência
Fonte: http://www.permanencia.org.br/drupal/node/50

Observai-me, agora, pelo quarto ano, a preparar-me para a morte. Tendo-me retirado dos negócios do mundo a um lugar de repouso, entrego-me à meditação das Sagradas Escrituras, e a escrever os pensamentos que me ocorrem nas meditações, para que, se já não posso ser de utilidade pela palavra de boca, ou pela composição de volumosas obras, possa ao menos ser útil a meus irmãos por meio destes piedosos livrinhos. Enquanto refletia, então, em qual seria o tema preferível tanto para me preparar para a morte como para ajudar os outros a viver bem, ocorreu-me a Morte de Nosso Senhor, junto com o último sermão que o Redentor do mundo pregou da Cruz, como dum elevado púlpito, à raça humana. Este sermão consiste em sete curtas, mas profundas sentenças, e nestas sete palavras está contido tudo o que Nosso Senhor manifestou quando disse: “Eis que vamos para Jerusalém, e será cumprido tudo o que está escrito pelos Profetas relativo ao Filho do homem”1. Tudo o que os Profetas predisseram acerca de Cristo pode ser reduzido a quatro títulos: seus sermões à gente; sua oração ao Pai; os grandes tormentos que suportou; e as sublimes e admiráveis obras que realizou. Tudo isto se verificou de modo admirável na Vida de Cristo, pois Nosso Senhor não podia ser mais diligente ao pregar ao povo. Pregava no templo, nas sinagogas, nos campos, nos desertos, nas casas, e, mais ainda, pregava até dum barco à gente que estava na margem. Era costume seu passar noites em oração a Deus, pois assim diz o Evangelista: “e estava passando toda a noite em oração a Deus” 2. Suas admiráveis obras, ao expulsar demônios, curar doentes, multiplicar pães, aplacar as tormentas, ler-se-ão em cada página dos Evangelhos3. Ainda assim, foram muitas as injúrias que se acumularam sobre Ele, como resposta ao bem que fizera. Consistiam tais injúrias não só em palavras insolentes mas também em lapidá-lo4 e despenhá-lo5. Em uma palavra, todas estas coisas verdadeiramente se consumaram na Cruz. Sua pregação da Cruz foi tão poderosa, que “toda a multidão […] retirava-se, batendo no peito” 6, e não só os corações humanos, mas até as rochas se fizeram em pedaços. Ele orou na Cruz, como diz o Apóstolo, “com grandes brados e com lágrimas, preces e súplicas”, sendo, assim, “atendido pela sua reverência” 7. Sofreu tanto na Cruz, em comparação com o que sofrera no restante de sua vida, que o sofrimento parece pertencer somente à sua Paixão. Finalmente, nunca operou maiores sinais e prodígios do que quando, na Cruz, parecia reduzido à maior fragilidade e fraqueza. Então não só manifestou sinais do céu, que os judeus tinham pedido até ao fastio, senão que, um pouco depois, manifestou o maior de todos os sinais. Pois que, depois de estar morto e enterrado, se levantou dentre os mortos por sua própria força, chamando seu Corpo à vida, e a uma vida imortal. Verdadeiramente então poderemos dizer que na Cruz se consumou tudo quanto estava escrito pelos Profetas com relação ao Filho do homem. Mas, antes de começar a escrever acerca das palavras que Nosso Senhor pronunciou da Cruz, parece apropriado dizer algo da Cruz mesma, que foi o púlpito do Pregador, o altar do Sacerdote Vítima, o campo do Combatente, ou a oficina d’O que opera maravilhas. Os antigos estavam de acordo em dizer que a Cruz era feita de três pedaços de madeira: um vertical, ao longo do qual se punha o corpo do crucificado; um horizontal, a que se prendiam as mãos; e o terceiro, que se unia à parte baixa da cruz, e sobre o qual descansavam os pés do acusado, mas presos por meio de cravos para lhes impedir o movimento. Concordam com esta opinião os antigos Padres da Igreja, como São Justino8 e Santo Irineu9. Mais ainda, estes autores indicam claramente que ambos os pés descansavam na tábua, e não que um pé estava colocado em cima do outro. Segue-se, portanto, que Cristo foi pregado à Cruz com quatro cravos, e não com três, como muitos imaginam, os quais nas pinturas representam Cristo, Nosso Senhor, pregado à Cruz com um pé sobre o outro. Gregório de Túrones10 diz claramente o contrário, e confirma sua opinião apelando para antigas gravuras. Eu, de minha parte, vi na Livraria Real, em Paris, alguns manuscritos muito antigos dos Evangelhos, os quais continham muitas gravuras de Cristo Crucificado e o representavam, todos, com quatro cravos. Santo Agostinho11 e São Gregório de Nissa12 dizem que o madeiro vertical da Cruz se projetava um pouco do madeiro horizontal. Parece que o Apóstolo insinua o mesmo, já que na Carta aos Efésios escreve São Paulo: “[para que] possais compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” 13. Isto é claramente uma descrição da figura da Cruz, que tinha quatro dimensões: largura na parte horizontal, comprimento na parte vertical, altura na parte que sobressaía e se projetava da parte horizontal, e profundidade na parte que estava fincada na terra. Nosso Senhor não padeceu os tormentos da Cruz por casualidade, ou contra a sua vontade, pois Ele escolhera este tipo de morte desde toda a eternidade, como ensina Santo Agostinho14 pelo testemunho do Apóstolo: “[A Jesus Nazareno, depois de Ele,] por determinado conselho e presciência de Deus, vos ser entregue, crucificando-o por mãos de iníquos, vós o matastes” 15. E assim Cristo, já no princípio de sua pregação, disse a Nicodemos: “E como Moisés levantou no deserto a serpente, assim também importa que seja levantado o Filho do homem, a fim de que todo o que crê n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna” 16. Muitas vezes falou aos Apóstolos acerca de sua Cruz, estimulando-os a imitar a Ele: “Se algum quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” 17. Só Nosso Senhor sabe a razão que o levou a escolher este tipo de morte. Os santos Padres, todavia, pensaram em algumas razões místicas, e deixaram-nas para nós em seus escritos. Santo Irineu, no trabalho a que já nos referimos, diz que as palavras “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus” foram escritas naquela parte da Cruz onde ambos os braços se encontram para nos dar a entender que as duas nações, Judeus e Gentios, que até então se tinham rechaçado mutuamente, depois foram unidas em um só corpo sob uma só Cabeça: Cristo. São Gregório de Nissa, em seu sermão acerca da Ressurreição, diz que a parte da Cruz que olhava para o céu manifesta que o céu se há de abrir pela Cruz como por uma chave; que a parte que estava fincada na terra manifesta que o inferno foi despojado por Cristo quando Nosso Senhor desceu até ele; e que os dois braços da Cruz que se estendiam para o leste e o oeste manifestam a regeneração do mundo inteiro pelo Sangue de Cristo. São Jerônimo, na Epístola aos Efésios, Santo Agostinho18, na Epístola a Honorato, São Bernardo, no quinto livro da obra Acerca da Consideração, ensinam que o mistério principal da Cruz foi levemente tocado pelo Apóstolo nas palavras “qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” 19. O significado primário destas palavras aponta para os atributos de Deus: a altura significa seu poder, a profundidade sua sabedoria, a largura sua bondade, o comprimento sua eternidade. Fazem referência também às virtudes de Cristo em sua Paixão: a largura sua caridade, o comprimento sua paciência, a altura sua obediência, a profundidade sua humildade. Significam, mais ainda, as virtudes necessárias àqueles que são salvos por meio de Cristo. A profundidade da Cruz significa a fé, a altura a esperança, a largura a caridade, o comprimento a perseverança. Disto deduzimos que só a caridade, a rainha das virtudes, encontra espaço em qualquer lugar, em Deus, em Cristo, e em nós. Das outras virtudes, algumas são próprias de Deus, outras de Cristo, e outras de nós. Em consequência, não é de maravilhar que em suas últimas palavras da Cruz, que agora vamos explicar, Cristo tenha dado o primeiro lugar a palavras de caridade. Começaremos, portanto, por explicar as primeiras três palavras, ditas por Cristo à hora sexta, antes que o sol se escurecesse e as trevas cobrissem a terra. Consideraremos depois este eclipse do sol, e por fim chegaremos à explicação de todas as demais palavras de Nosso Senhor, que foram ditas por volta da hora nona20, quando a escuridão estava desaparecendo e a Morte de Cristo estava próxima.
1. Lc 18,31.
2. Lc 6,12.
3. Mt 8; Mc 4; Lc 6; Jn 6.
4. Jo 8.
5. Lc 4.
6. Lc 23,48.
7. Hb 5,7.
8. Em Dial. cum Thyphon, liv. v.
9. Advers. haeres. Valent.
10. Lib. de Gloria Martyr., c. vi.
11. Epist i.
12. Serm. i “De Ressur.”
13. Ef 3,18.
14. Epist. 120.
15. Atos 2,23.
16. Jo 3,14-15.
17. Mt 16,24.
18. Epist. 120.
19. Ef 3,18.
20. Mt 27.

Capítulo I
Explicação literal da Primeira Palavra: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”

Cristo Jesus, o Verbo do Pai Eterno, de quem o mesmo Pai dissera: “Ouvi-o”1, e que dissera de si mesmo: “Porque um só é o vosso Mestre” 2, para realizar a tarefa que assumira, nunca deixou de nos instruir. Não somente durante sua vida, mas até nos braços da morte, do púlpito da Cruz, pregou-nos poucas palavras, mas ardentes de amor, de suma utilidade e eficácia, e em todo o sentido dignas de ser gravadas no coração de qualquer cristão, para ser aí preservadas, meditadas, e realizadas literalmente e em obra. Sua primeira palavra é esta: “E Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” 3. Prece que, conquanto nova e nunca antes ouvida, quis o Espírito Santo fosse predita pelo Profeta Isaías nestas palavras: “e pelos transgressores fez intercessão” 4. E as petições de Nosso Senhor na Cruz provam quão verdadeiramente falou o Apóstolo São Paulo quando disse: “a caridade […] não busca os seus próprios interesses” 5, pois, das sete palavras que pronunciou nosso Redentor, três foram pelo bem dos demais, três por seu próprio bem, e uma foi comum tanto para Ele como para nós. Sua atenção, porém, foi primeiro para os demais. Pensou em si mesmo ao final. Das três primeiras palavras que Ele disse, a primeira foi para seus inimigos, a segunda para seus amigos, e a terceira para seus parentes. Pois bem, a razão por que orou, então, é que a primeira demanda da caridade é socorrer aqueles que estão necessitados, e aqueles que estavam mais necessitados de socorro espiritual eram seus inimigos, e o de que nós, discípulos de tão grande Mestre, mais necessitamos é amar nossos inimigos, virtude que sabemos muito difícil de obter e que raramente encontramos, ao passo que o amor a nossos amigos e parentes é fácil e natural, cresce com os anos e muitas vezes predomina mais do que deveria. Razão por que escreveu o Evangelista: “E Jesus dizia” 6, onde a palavra “e” manifesta o tempo e a ocasião desta oração por seus inimigos, e põe em contraste as palavras do Sofrente e as palavras dos verdugos, Suas obras e as obras deles, como se o Evangelista quisesse explicar-se melhor desta maneira: estavam crucificando o Senhor, e em sua mesma presença estavam repartindo sua túnica entre si, zombavam-no e difamavam como embusteiro e mentiroso, ao passo que Ele, vendo o que estavam fazendo, escutando o que estavam dizendo, e sofrendo as mais agudas dores nas mãos e nos pés, pagou com bem o mal, e orou: “Pai, perdoa-lhes”. Chama-Lhe “Pai”, não Deus ou Senhor, porque quis que Ele exercesse a benignidade do Pai e não a severidade de um Juiz, e, como quis Ele evitar a cólera de Deus, que sabia provocada pelos enormes crimes, usa o terno nome de Pai. A palavra Pai parece conter em si mesma este pedido: Eu, Teu Filho, em meio de todos os meus tormentos, os perdoei. Faz Tu o mesmo, Pai Meu, estende Teu perdão a eles. Conquanto não o mereçam, perdoa-lhes por Mim, Teu Filho. Lembra-te também de que és seu Pai, pois os criaste, fazendo-os à Tua imagem e semelhança. Mostra-lhes, portanto, um amor de Pai, pois, conquanto sejam maus, são porém filhos Teus. “Perdoa”. Esta palavra contém a petição principal que o Filho de Deus, como advogado de seus inimigos, faz a Seu Pai. A palavra “perdoa” pode referir-se tanto ao castigo devido ao crime como ao crime mesmo. Se está referida ao castigo devido ao crime, foi então a oração escutada: pois, já que este pecado dos judeus demandava que seus perpetradores sentissem instantânea e merecidamente a ira de Deus, sendo consumidos por fogo do céu ou afogados num segundo dilúvio, ou exterminados pela fome e pela espada, ainda assim a aplicação deste castigo foi posposta por quarenta anos, período durante o qual, se o povo judeu tivesse feito penitência, teria sido salvo e sua cidade, preservada, mas, dado que não fizeram penitência, Deus mandou contra eles o exército romano, que, durante o reino de Vespasiano, destruiu suas metrópoles e, parte de fome durante o sítio, parte pela espada durante o saque da cidade, matou grande multidão de seus habitantes, enquanto os sobreviventes eram vendidos como escravos e dispersos pelo mundo. Todas estas desgraças foram preditas por Nosso Senhor nas parábolas do vinhateiro que contratou obreiros para sua vinha, do rei que fez uma boda para seu filho, da figueira estéril, e, mais claramente, quando chorou pela cidade no Domingo de Ramos. A oração de Nosso Senhor foi também escutada se é que fazia referência ao crime dos judeus, pois obteve para muitos a graça da compunção e da reforma da vida. Houve alguns que “retiravam-se, batendo no peito” 7. Houve o centurião que disse “Na verdade este era filho de Deus” 8. E houve muitos que algumas semanas depois se converteram pela pregação dos Apóstolos, e confessaram Aquele que tinham negado, adoraram Aquele que tinham desprezado. Mas a razão por que a graça da conversão não foi outorgada a todos é que a vontade de Cristo se conforma à sabedoria e à vontade de Deus, que São Lucas manifesta quando nos diz nos Atos dos Apóstolos: “E creram todos os que eram predestinados para a vida eterna” 9. “Perdoai-Lhes”. Esta palavra é aplicada a todos por cujo perdão Cristo orou. Em primeiro lugar é aplicada àqueles que realmente pregaram Cristo na Cruz, e repartiram seus vestidos lançando sortes. Pode ser também estendida a todos os que foram causa da Paixão de Nosso Senhor: a Pilatos, que pronunciou a sentença; às pessoas que gritaram: “Seja crucificado. […] Seja crucificado” 10; aos sumos sacerdotes e escribas que falsamente o acusaram, e, para ir mais longe, ao primeiro homem e a toda a sua descendência, que por seus pecados ocasionaram a morte de Cristo. E assim, de sua Cruz, Nosso Senhor orou pelo perdão de todos os seus inimigos. Cada um, porém, se reconhecerá a si mesmo entre os inimigos de Cristo, de acordo com as palavras do Apóstolo: “sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho” 11. Portanto, nosso Sumo Sacerdote, Cristo, fez uma comemoração para todos nós, até antes de nosso nascimento, naquele sacratíssimo “Memento”, se assim o posso dizer, que Ele fez no primeiro Sacrifício da Missa que celebrou no altar da Cruz. Que retribuição, ó alma minha, farás ao Senhor por tudo o que fez por ti, ainda antes de que fosses? Nosso amado Senhor viu que tu também algum dia estarias nas fileiras de Seus inimigos, e, conquanto não o tivesses pedido, nem o tivesses buscado, Ele orou por ti a Seu Pai, para que não carregasse sobre ti a falta cometida por ignorância. Não te importa, portanto, ter em conta tão doce Protetor, e fazer todo o esforço por servi-Lo fielmente em tudo? Não é justo que com tal exemplo diante de ti aprendas não só a perdoar a teus inimigos com facilidade, e a orar por eles, mas até a atrair quantos possas a fazer o mesmo? É justo, e isto desejo e tenho o propósito de fazer, com a condição de que Aquele que me deu tão brilhante exemplo me dê também em sua bondade a ajuda suficiente para realizar tão grande obra. Pois não sabem o que fazem. Para que sua oração seja razoável, Cristo diminui-se, ou, mais ainda, dá a desculpa que possa pelos pecados de seus inimigos. Ele certamente não podia desculpar a injustiça de Pilatos, ou a crueldade dos soldados, ou a ingratidão da gente, ou o falso testemunho daqueles que perjuraram. Então, não restou a Ele mais que desculpar-lhes a falta alegando ignorância. Pois com verdade o Apóstolo observa: “porque, se a tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória” 12. Nem Pilatos, nem os sumos sacerdotes, nem o povo sabiam que Cristo era o Senhor da Glória. Ainda assim, Pilatos o sabia um homem justo e santo, que fora entregue pela inveja dos sumos sacerdotes, e os sumos sacerdotes sabiam que Ele era o Cristo prometido, como ensina Santo Tomás, porque não podiam — nem o fizeram — negar que tinha operado muitos dos milagres que os profetas tinham predito que o Messias operaria. Enfim, a gente sabia que Cristo tinha sido condenado injustamente, pois Pilatos publicamente lhe dissera: “não encontrei nele culpa alguma” 13, e “Eu sou inocente do sangue deste justo” 14. Mas, conquanto os judeus, tanto o povo como os sacerdotes, não soubessem o fato de que Cristo era Senhor da Glória, ainda assim não teriam permanecido neste estado de ignorância se sua malícia não os tivesse cegado. De acordo com as palavras de São João: “E, tendo ele feito tantos milagres em sua presença, não criam nele, para se cumprir a palavra do profeta Isaías, quando disse: […] Obcecou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração para que não vejam com os olhos e não entendam com o coração, e não se convertam, e eu não os sare” 15. A cegueira não é desculpa para um homem cego, porque é voluntária, acompanhando, não precedendo, o mal que faz. Da mesma maneira, aqueles que pecam na malícia de seus corações sempre podem alegar ignorância, o que não é porém desculpa para seu pecado, pois não o precede, senão que o acompanha. Razão por que o Homem Sábio diz: “Os que praticam o mal erram” 16. O filósofo, de igual modo, proclama com verdade que todo o que faz mal é ignorante do que faz, e por conseguinte se pode dizer dos pecadores em geral: “Não sabem o que fazem”. Pois ninguém pode desejar aquilo que é mau com base em sua maldade, porque a vontade do homem não tende para o mal tanto como para o bem, mas sim só ao que é bom, e por esta razão aqueles que escolhem o que é mau o fazem porque o objeto lhes é apresentado sob aparência de bem, e assim pode então ser escolhido. Isto é resultado do desassossego da parte inferior da alma, que cega a razão e a torna incapaz de distinguir nada que não seja bom no objeto que busca. Assim, o homem que comete adultério ou é culpado de roubo realiza estes crimes porque olha só o prazer ou o ganho que pode obter, e não o faria se suas paixões não o cegassem até ou à vergonhosa infâmia do primeiro e à injustiça do segundo. Um pecador, portanto, é similar a um homem que deseja lançar-se a um rio de um lugar elevado. Primeiro fecha os olhos e depois se lança de cabeça; assim, aquele que faz um ato de maldade odeia a luz, e atua sob uma voluntária ignorância que não o desculpa, porque é voluntária. Mas, se uma voluntária ignorância não desculpa o pecador, por que então Nosso Senhor orou: “Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”? A isto respondo que a interpretação mais direta por fazer das palavras de Nosso Senhor é que foram ditas para seus verdugos, que provavelmente ignoravam de todo não só a Divindade do Senhor, mas até sua inocência, e simplesmente realizaram o labor do verdugo. Para eles, portanto, disse em verdade o Senhor: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Uma vez mais, se a oração de Nosso Senhor há de ser interpretada como aplicável a nós mesmos, que ainda não tínhamos nascido, ou àquela multidão de pecadores que eram seus contemporâneos mas que não tinham conhecimento do que estava sucedendo em Jerusalém, então disse com muita verdade o Senhor: “não sabem o que fazem”. Finalmente, se Ele se dirigiu ao Pai em nome de todos os que estavam presentes e sabiam que Cristo era o Messias e um homem inocente, então devemos confessar a caridade de Cristo, que é tal, que deseja atenuar o mais possível o pecado de seus inimigos. Se a ignorância não pode justificar uma falta, pode porém servir como desculpa parcial, e o deicídio dos judeus teria tido caráter mais atroz se conhecessem a natureza de sua Vítima. Conquanto Nosso Senhor fosse consciente de que tal não era uma desculpa, mas antes uma sombra de desculpa, apresentou-a com insistência, em verdade, para mostrar-nos quanta bondade sente com relação ao pecador, e com quanto desejo teria Ele usado uma melhor defesa, até para Caifás e Pilatos, se uma melhor e mais razoável apologia se tivesse apresentado.
1. Mt 17,5.
2. Mt 23,10.
3. Lc 23,34.
4. Is 53,12.
5. 1Cor 13,5.
6. Lc 23,34.
7. Lc 23,48.
8. Mt 27,54.
9. Atos 13,48.
10. Mt 27,23.
11. Rom 5,10.
12. 1Cor 2,8.
13. Lc 23,14.
14. Mt 27,24.
15. Jo 12,37-40.
16. Prov 13,22.

Capítulo II
O primeiro fruto que se há de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz

Tendo dado o significado literal da primeira palavra dita por Nosso Senhor na Cruz, nossa próxima tarefa será esforçarmo-nos para recolher alguns de seus frutos mais preferíveis e vantajosos. O que mais nos impressiona na primeira parte do sermão  de Cristo na Cruz é sua ardente caridade, que arde com fulgor mais brilhante que o que possamos conhecer ou imaginar, de acordo com o que escreveu São Paulo aos Efésios: “e conhecer também aquele amor de Cristo, que excede toda a ciência”¹. Pois nesta passagem o Apóstolo nos informa, pelo mistério da Cruz, como a caridade de Cristo ultrapassa nosso entendimento, já que se estende para além da capacidade de nosso limitado intelecto. Pois quando sofremos qualquer dor forte, como uma dor de dente, ou uma dor de cabeça, ou uma dor nos olhos, ou em qualquer outro membro do corpo, nossa mente está tão atada a isto, que se torna incapaz de qualquer esforço. Então não estamos com humor para receber os amigos nem para continuar com o trabalho. Mas, quando Cristo foi pregado na Cruz, usou seu diadema de espinhos, como está claramente expresso nos escritos dos antigos Padres; por Tertuliano, entre os Padres latinos, em seu livro contra os judeus, e por Orígenes, entre os Padres gregos, em sua obra acerca de São Mateus; e, portanto se segue que Ele não podia mover a cabeça para trás nem movê-la de um lado para o outro sem dor adicional. Toscos cravos lhe sujeitavam as mãos e pés, e, pela maneira como lhe dilaceravam a carne, ocasionavam doloroso e longo tormento. Seu corpo estava desnudo, desgastado pelo cruel flagelo e pelo intenso ir-e-vir, exposto ignominiosamente à vista do vulgo, aumentando por seu peso as feridas nos pés e mãos, numa bárbara e contínua agonia. Todas estas coisas combinadas foram origem de muito sofrimento, como se fossem outras tantas cruzes. Não obstante, ó caridade, verdadeiramente a ultrapassar nosso entendimento, Ele não pensou em seus tormentos, como se não sofresse, não estando solícito senão à salvação de seus inimigos, e, desejando cobrir-lhes a pena dos crimes, clamou fortemente a seu Pai: “Pai, perdoa-lhes”. Que teria feito Ele se esses infelizes fossem as vítimas de uma perseguição injusta, ou se tivessem sido seus amigos, seus parentes, ou seus filhos, e não seus inimigos, seus traidores e parricidas? Verdadeiramente, ó benigníssimo Jesus! vossa caridade ultrapassa nosso entendimento. Observo vosso coração no meio de tal tormento de injúrias e sofrimentos, como uma rocha no meio do oceano que permanece imutável e pacífica, ainda que as ondas choquem furiosamente contra ela. Pois vedes que vossos inimigos não estão satisfeitos com infligir ferimentos mortais a Vosso Corpo, senão que têm de escarnecer-vos a paciência, e uivar triunfalmente com os maus tratos. E os olhais, digo eu, não como um inimigo que mede o adversário, mas como um Pai que trata com os extraviados filhos, como um médico que escuta os desvarios de um paciente que delira. Vós não estais aborrecido com eles, mas os compadeceis, e os confiais ao cuidado de Vosso Pai Todo-poderoso, para que Ele os cure e os deixe inteiros. Este é o efeito da verdadeira caridade, estar de bem com todos os homens, não considerando nenhum como inimigo, e vivendo pacificamente com aqueles que odeiam a paz. Isto é o que é cantado no Cântico do amor acerca da virtude da perfeita caridade: “As muitas águas não puderam extinguir o amor, nem os rios terão força para o submergir”2. As muitas águas são os muitos sofrimentos que nossas misérias espirituais, como tormentas do inferno, infligem a Cristo através dos judeus e dos gentios, os quais representavam as paixões obscuras de nosso coração. Ainda assim, esta inundação de águas, quer dizer, de dores, não pode extinguir o fogo da caridade que ardeu no peito de Cristo. Por isso a caridade de Cristo foi maior que tal transbordamento de muitas águas, e resplandeceu brilhantemente em sua oração: “Pai, perdoa-lhes”. E não só foram estas muitas águas incapazes de extinguir a caridade de Cristo; também nem sequer depois de anos puderam as tormentas da perseguição sobrepujar a caridade dos membros de Cristo. Assim, a caridade de Cristo, que possuiu o coração de Santo Estêvão, não podia ser esmagada pelas pedras com que foi martirizado. Estava viva então, e ele orou: “Senhor, não lhes imputes este pecado” 3. Enfim, a perfeita e invencível caridade de Cristo, que foi propagada nos corações de mártires e confessores, combateu tão tenazmente os ataques de perseguidores, visíveis e invisíveis, que se pode dizer com verdade, até o fim do mundo, que um mar de sofrimento não poderá apagar a chama da caridade. Mas da consideração da Humanidade de Cristo ascendamos à consideração de Sua Divindade. Grande foi a caridade de Cristo como homem para com seus verdugos, mas maior foi a caridade de Cristo como Deus, e do Pai, e do Espírito Santo, no dia último, para com toda a humanidade, que fora culpada de atos de inimizade para com seu Criador, e que, se tivesse sido capaz, o teria expulsado do céu, pregado a uma cruz, e assassinado. Quem pode conceber a caridade que Deus tem para com tão ingratas e malvadas criaturas? Deus não poupou os anjos quando pecaram, nem lhes deu tempo para arrepender-se; com frequência, todavia, suporta pacientemente o homem pecador, blasfemos, e aqueles que se enrolam no estandarte do demônio, Seu inimigo, e não só os suporta, mas também os alimenta e cria, e até os alenta e sustém, porque “n’Ele vivemos, e nos movemos, e existimos” 4, como diz o Apóstolo. Tampouco preserva somente o justo e bom, mas igualmente o homem ingrato e malvado, como Nosso Senhor nos diz no Evangelho segundo São Lucas. Tampouco nosso Bom Senhor meramente alimenta e cria, alenta e sustém seus inimigos, senão que amiúde acumula seus favores sobre eles, dando-lhes talentos, tornando-os honrosos, e os eleva a tronos temporais, enquanto lhes aguarda pacientemente o regresso da senda da iniquidade e perdição. E, não nos ocupando aqui de várias características da caridade que Deus sente pelos homens malvados, os inimigos de sua Divina Majestade, cada uma das quais requereria um volume se as tratássemos singularmente, limitar-nos-emos agora àquela singular bondade de Cristo que estamos tratando. Pois “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu Filho Unigênito”? 5. O mundo é o inimigo de Deus, porque “todo o mundo está sob o [jugo do espírito] maligno” 6, como nos diz São João. E, “se alguém ama o mundo, não há nele o amor do Pai” 7, como torna a dizer adiante. São Tiago escreve: “Portanto, todo aquele que quiser ser amigo deste século constitui-se inimigo de Deus” e “a amizade deste mundo é inimiga de Deus” 8. Deus, portanto, ao amar este mundo, mostra seu amor a seu inimigo com a intenção de fazê-lo amigo seu. Com este propósito enviou seu Filho, “Príncipe da Paz’9, para que por seu intermédio o mundo possa ser reconciliado com Deus. Por isso, ao nascer Cristo, os anjos cantaram: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra” 10. Assim, Deus amou o mundo, seu inimigo, e deu o primeiro passo para a paz, dando seu Filho, que pode trazer a reconciliação sofrendo a pena devida a seu inimigo. O mundo não recebeu Cristo, acresceu sua culpa, rebelou-se diante do único Mediador, e Deus inspirou a este Mediador pagar o mal com o bem orando por seus perseguidores. Orou e “foi atendido pela sua reverência” 11. Deus esperou pacientemente o progresso que teriam os Apóstolos por sua pregação na conversão do mundo. Aqueles que tiverem feito penitência têm o perdão. Àqueles que não se tiverem arrependido após tão paciente tolerância, extermina-os o juízo final de Deus. Portanto, desta primeira palavra de Cristo aprendemos, em verdade, que a caridade de Deus Pai — que “amou de tal modo o mundo, que lhe deu seu Filho Unigênito, para que todo o que crê n’Ele não pereça, mas tenha vida eterna” 12 — ultrapassa todo e qualquer conhecimento.
1. Ef 3,19.
2. Cant 8,7.
3. Atos 7,59.
4. Atos 17,28.
5. Jo 3,16.
6. 1Jo 5,19.
7. 1Jo 2,15.
8. Tg 4,4.
9. Is 2,6.
10. Lc 2,14.
11. Hb 5,7.
12. Jo 3,16.

Capítulo III
O segundo fruto que se há de colher da consideração da primeira Palavra dita por Cristo na Cruz

Se os homens aprendessem a perdoar sem murmurações as injúrias que recebem, e assim forçassem seus inimigos a converterem-se em amigos, tiraríamos uma segunda e muito salutar lição da meditação da primeira palavra. O exemplo de Cristo e da Santíssima Trindade há de ser um poderoso argumento para nisto nos persuadirmos. Pois se Cristo perdoou e rezou por seus verdugos, que razão pode ser alegada para que um cristão não atue de modo semelhante com seus inimigos? Se Deus, nosso Criador, o Senhor e Juiz de todos os homens, o qual tem o poder de vingar-se imediatamente do pecador, espera seu arrependimento, e o convida à paz e à reconciliação com a promessa de perdoar as traições feitas à Divina Majestade, por que uma criatura não poderia imitar esta conduta, especialmente se recordamos que o perdão de uma ofensa obtém grande recompensa? Lemos na história de São Egelberto, Arcebispo de Colônia, assassinado por alguns inimigos que o estavam esperando, que, na hora de sua morte, rezou por eles com as palavras de Nosso Senhor: “Pai, Perdoa-lhes”, e foi revelado que este gesto foi tão agradável a Deus, que sua alma foi levada ao céu pelas mãos dos anjos, e posta no meio do coro dos mártires, onde recebeu a coroa e a palma do martírio, e sua sepultura tornou-se famosa por realizar muitos milagres. Ó, se os cristão aprendessem quão facilmente poderiam obter tesouros inesgotáveis, se apenas o quisessem; e quão facilmente alcançariam graus notáveis de honra e glória pelo domínio das várias agitações de suas almas e desprezo magnânimo dos pequenos e triviais insultos, certamente não seriam tão duros de coração e tão obstinados contra o indulto e o perdão. Objeta-se que agiriam contrariamente à natureza caso se permitissem ser injustamente rechaçados com desprezo ou ultrajados por obra ou palavra: se os animais selvagens, que apenas seguem o instinto natural, atacam de forma selvagem seus inimigos quando os vêem, e os subjugam com garras e dentes, também nós, à vista de nosso inimigo, sentimos o sangue a ferver e o desejo de vingança aflorar. Tal argumento é falso. Não faz distinção entre a defesa própria, que é válida, e o espírito de vingança, que é inválido. Ninguém pode achar falta em um homem que se defende por uma causa justa, e a natureza nos ensina a rechaçar a força com a força — mas não nos ensina a vingar-nos nós mesmos uma injúria que tivermos recebido. Ninguém nos impede tomar as precauções necessárias para nos preparamos contra um ataque, mas a lei de Deus nos proíbe que sejamos vingativos. O castigo de uma injustiça pertence não ao indivíduo privado, mas ao magistrado público, e, por isso que Deus é o Rei dos reis, Ele clama e diz: “A mim me pertence a vingança, eu retribuirei”1. Quanto ao argumento de que um animal é levado por sua própria natureza a atacar o animal inimigo de sua espécie, respondo que isto é o resultado de serem animais irracionais, que não podem distinguir entre a natureza e o que é vicioso na natureza. Mas os homens, que são dotados de razão, hão de traçar uma linha entre a natureza ou a pessoa, que, criadas por Deus, são boas, e o vício ou o pecado que é mau e não procede de Deus. Da mesma maneira, quando um homem for insultado, deve amar a pessoa de seu inimigo e odiar o insulto, e deve antes se compadecer dele que se perturbar com ele, assim como um médico que ama seus pacientes e lhes prescreve com o devido cuidado, mas que odeia a enfermidade e luta com todos os recursos a sua disposição para afugentá-la, destruí-la, torná-la inofensiva. E isto é o que o Mestre e Doutor de nossas almas, Cristo Nosso Senhor, ensina quando diz: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos perseguem e caluniam”2. Cristo, nosso Mestre, não é como os Escribas e Fariseus que se sentavam na cátedra de Moisés e ensinavam, mas não praticavam o que ensinavam. Quando subiu ao púlpito da Cruz, Ele praticou o que ensinou ao rezar por seus inimigos, que amava: “Pai, Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Porém, a razão pela qual a visão de um inimigo faz que em algumas pessoas o sangue ferva em suas veias, é esta: são animais que não aprenderam a trazer as moções da parte inferior da alma, comum tanto à raça humana como à criação selvagem, sob o domínio da razão, ao passo que os homens espirituais não estão sujeitos a estes movimentos da carne, pois sabem como mantê-los controlados, e não se turbam com aqueles que os injuriaram, senão que, ao contrário, se compadecem, e, estendendo a eles atos de bondade, se esforçam por levar-lhes a paz e a unidade. Objeta-se que isto é uma prova demasiado difícil e severa para homens de nascimento nobre, os quais devem ser zelosos de sua honra. No entanto, não é assim. A tarefa é fácil, pois, como testemunha o Evangelista, “o jugo” de Cristo, que deu esta lei para guia de seus seguidores, “é suave, e sua carga ligeira”3; e seus “mandamentos não são custosos” 4, como afirma São João. E assim, se parecem difíceis e severos, parecem também pelo pouco ou nenhum amor que temos por Deus, pois nada é difícil para aquele que ama, como disse o Apóstolo: “A caridade é paciente, é benigna; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo sofre”5. Nem foi Cristo o único que amou a seus inimigos — ainda que, na perfeição com a qual praticou a virtude, a todos superou — pois o Santo Patriarca José amou com amor especial a seus irmãos que o haviam vendido à escravidão. E na Sagrada Escritura lemos como Davi, com muita paciência, resignou-se com as perseguições de seu inimigo Saul, que por muito tempo procurou matá-lo; e que, quando pôde Davi tirar a vida de Saul, não o matou. E sob a lei da graça, o proto-mártir Santo Estevão imitou o exemplo de Cristo ao fazer esta oração enquanto o apedrejavam à morte: “Senhor, não lhes impute este pecado”6. E Santiago Apóstolo, Bispo de Jerusalém, que foi lançado de cabeça desde o cume do templo, clamou no céu no momento de sua morte: “Senhor, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. E São Paulo escreve de si mesmo e de seus companheiros apóstolos: “amaldiçoam-nos e bendizemos; perseguem-nos e o sofremos; somos difamados e rogamos”7 . Enfim, muitos mártires e inumeráveis outros, logo após o exemplo de Cristo, não encontraram nenhuma dificuldade em cumprir este mandamento. Mas pode haver alguns que continuem argumentando: não nego que devemos perdoar nossos inimigos, mas escolherei o tempo que me apraze fazê-lo, quando, em verdade, tenha quase esquecida a injustiça que me foi feita, e tenha me acalmado após o primeiro arrebatamento de indignação. Mas, quais seriam os pensamentos destes se fossem então chamados a prestar as contas finais, e fossem encontrados sem o traje da caridade, e fossem perguntados: “como entraste aqui, não tendo a veste nupcial?” 8. Por acaso não se assombrariam enquanto Nosso Senhor pronuncia sua sentença: “Atai-o de pés e mãos, e lançai-o nas trevas exteriores; aí haverá pranto e ranger de dentes.” 9. Age melhor e com prudência agora, e imita a conduta de Cristo, que rezou a seu Pai, “Pai, perdoa-lhes”, no momento em que era objeto de escárnios, quando o sangue caía gota a gota de seus pés e mãos, e seu corpo inteiro era presa de torturas dolorosas. Ele é o verdadeiro e único Mestre, cuja voz a devem escutar todos que não serão guiados ao erro: a Ele se referiu o Pai Eterno quando uma voz se ouviu do céu dizendo: “Ouviu-o”. Nele estão “todos os tesouros da sabedoria e da ciência” de Deus10. Se pudesses perguntar a opinião de Salomão sobre qualquer assunto, poderias com segurança ter seguido seu conselho, mas “aqui está quem é mais que Salomão”11. Continuo ainda a ouvir objeções. Se decidimos retribuir o mal com o bem, o insulto com a bondade, a maldição com a benção, os maus se tornarão insolentes, os infames se tornarão aprumados, os justos serão oprimidos, e a virtude calcada sob seus pés. Este resultado não se dará, pois de ordinário, no dizer do Homem Sábio, “a resposta branda aquieta a ira”12. Ademais, a paciência de um homem justo não poucas vezes enche de admiração seu opressor, e o persuade a estender a mão da amizade. Por outra, esquecemos que o Estado nomeia magistrados, reis e príncipes, cujo dever é fazer que os malvados sintam a severidade da lei, e prover meios para que os homens honestos vivam uma vida tranquila e pacífica? E se em alguns casos a justiça humana é tardia, a Providência de Deus, que nunca permite que um ato malévolo passe sem castigo ou um ato bom sem recompensa, está continuamente nos observando e, de um modo imprevisível, cuidando para que as ocasiões em que os malvados crêem que humilharão os virtuosos, conduzam estes à exaltação e honra. Pelo menos assim o diz São Leão: “Estiveste furioso, ó perseguidor da Igreja de Deus, estiveste furioso com o mártir, e aumentaste sua glória aumentando sua dor. Pois que inventaste em tua ingenuidade que se voltasse em tua honra, se até seus instrumentos de tortura foram tomados em triunfo?”. O mesmo deve ser dito de todos os mártires e santos da antiga lei, pois que trouxe mais reputação e glória ao patriarca José que a perseguição de seus irmãos? O ter sido vendido por inveja aos ismaelitas foi ocasião para que se convertesse em senhor de todo Egito e príncipe de todos seus irmãos. Mas, omitindo estas considerações, passemos revista aos muitos e grandes inconvenientes que sofrem aqueles homens que, apenas para escapar de uma sombra de desonra diante dos homens, estão obstinados a se vingar daqueles que lhes fizeram qualquer mal. Em primeiro lugar, agem como estultos ao preferir um mal maior a um menor. Pois é um princípio considerado certo em toda parte, e que nos foi declarado pelo Apóstolo nestas palavras: “Não façamos o mal para que venha o bem”13. Segue-se que, por consequência, um mal maior não há de ser cometido para que se possa obter alguma compensação por um menor. Aquele que recebe a injúria, recebe o que é chamado de mal da injúria: aquele que se vinga de uma injúria, é culpável do que se chama de mal do crime. Ora, sem dúvida, a desgraça de cometer um crime é maior que a desgraça de ter de suportar a injúria, pois, ainda que a ofensa possa tornar um homem miserável, não necessariamente o torna mau. Um crime, no entanto, o faz, a um tempo, miserável e malvado. A injúria priva o homem do bem temporal, o crime o priva tanto do bem temporal como do eterno. Assim, um homem que remedia o mal de uma injúria cometendo um crime, é como um homem que corta uma parte dos seus pés para calçar sapatos menores, o que é um ato de total loucura. Ninguém comete tal insensatez em suas preocupações temporais, mas, no entanto, há alguns homens tão cegos a seus interesses reais, que não temem ofender mortalmente a Deus para escapar daquilo que tem aparência de desgraça, e para manter um semblante de honra aos olhos dos homens. Caem, pois, sob o desagrado e a ira de Deus, e, a menos que se corrijam a tempo e façam penitência, terão que suportar a desgraça e o tormento eterno, e perderão a honra sem fim de habitarem no céu. Acrescente-se a isto que realizam um ato dos mais agradáveis ao diabo e seus anjos, que urgem a este homem fazer algo de injusto a aquele outro, com o propósito de semear a discórdia e a inimizade no mundo. E cada um deve refletir com calma quão desgraçado não é quem agrada o inimigo mais feroz da raça humana e desagrada o Cristo. Ademais, se sucede que o homem injuriado que ambiciona vingança fira mortalmente a seu inimigo, e o mate, é ele ignominiosamente executado por assassinato, e toda a sua propriedade é confiscada pelo Estado, ou, ao menos, é forçado ao exílio, e tanto ele como sua família viverão uma existência miserável. Assim é como o diabo joga e como se ri daqueles que escolhem antes se aprisionar com as ataduras da falsa honra, que se fazerem servos e amigos de Cristo, o melhor dos Reis, e serem reconhecidos como herdeiros de reino mais vasto e mais durável. Por isso, posto que o homem insensato, apesar do mandamento de Cristo, se nega a reconciliar-se com seus inimigos, e se expõe ao desastre total, todos os que são sábios escutarão a doutrina que Cristo, o Senhor de tudo, nos ensinou no Evangelho com suas palavras, e na Cruz com suas obras.
1. Rm 12,19.
2. Mt 5,44.
3. Mt 11,30.
4. 1 Jn 5,3.
5. 1 Cor 13,4-7.
6. At 7,59.
7. 1 Cor 4, 12-13.
8. Mt 22,12.
9. Mt 21,13.
10. Cl 2,3.
11. Mt 12,42.
12. Pr 15,1.
13. Rm 3,8.

Capítulo IV
Explicação textual da segunda palavra: “Amém, Eu te digo: Hoje estarás comigo no paraíso”

A segunda palavra, ou a segunda frase, pronunciada por Cristo na Cruz foi, segundo o testemunho de São Lucas, a magnífica promessa feita ao ladrão, que pendia em uma cruz a seu lado. A promessa foi feita nas seguintes circunstâncias: dois ladrões foram crucificados juntos ao Senhor, um a sua mão direita, outro a sua esquerda; um desses acrescentou a seus crimes do passado o pecado de blasfemar de Cristo, zombando de sua falta de poder para salvá-los, dizendo: “se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!”1. De fato, São Mateus e São Marcos acusam ambos os ladrões desse pecado, mas é mais provável que os dois evangelistas usem o plural para se referirem ao número singular, como frequentemente se faz nas Sagradas Escrituras, conforme observa Santo Agostinho no trabalho “Sobre a Harmonia dos Evangelhos”. Assim São Paulo, em sua Epístola aos Hebreus, diz dos profetas: “taparam bocas de leões … apedrejados …, serrados ao meio …; andaram errantes, vestidos de pele de ovelha e de cabra” 2. Sem embargo, um só profeta houve — Daniel — que fechou a boca dos leões; um só profeta — Jeremias — que foi apedrejado; um só profeta — Isaías — que foi serrado. Mais ainda, nem São Mateus nem São Marcos são tão explícitos a respeito desse ponto como São Lucas, que disse de maneira mui clara: “um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra Ele” 3. Pois bem, mesmo se considerarmos que ambos vituperavam o Senhor, não existe razão para que um mesmo homem não haja amaldiçoado em um momento e, já em outro, proclamado seus louvores. Não obstante, a opinião dos que sustentam que um dos ladrões blasfemadores se converteu pela oração do Senhor — “Pai, Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” — contradiz manifestamente a narração evangélica, uma vez que São Lucas diz que o ladrão começou a blasfemar contra o Cristo tão logo Ele fizesse essa oração; daí estarmos inclinados a adotar a opinião de Santo Agostinho e de Santo Ambrósio, que dizem que um só dos ladrões o vituperou, enquanto o outro o glorificou e defendeu. Conforme essa narração, o bom ladrão exprobrou o blasfemador: “nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício?” 4. O ladrão fora feliz por sua solidariedade ao Cristo na Cruz. Os raios da Luz Divina que logravam penetrar na obscuridade da alma o levaram a exprobrar no companheiro a maldade e a convertê-lo a uma vida melhor; este é o sentido pleno de sua exprobação: “tu, pois, queres imitar a blasfêmia dos judeus, que ainda não aprenderam a temer os juízos de Deus, porquanto se ufanam da vitória que crêem ter alcançado ao pregar o Cristo numa cruz. Reputam-se por livres e seguros, e não receiam castigo. Mas acaso tu, que fostes crucificado por tuas enormidades, não temes a justiça vingadora de Deus? Por que cumulas pecado sobre pecado?”. Logo, galgando de virtude em virtude, auxiliado pela crescente graça de Deus, confessa seus pecados e proclama que Cristo é inocente. “Nós”, diz, fomos condenados “com razão” à morte de cruz, “porque a merecemos por nossos feitos; mas este não fez mal nenhum” 5 . Finalmente, à luz crescente da graça em sua alma, acrescenta: “Jesus, lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino” 6. Admirável a graça do Espírito Santo que se derramou no coração do bom ladrão! O apóstolo Pedro negou seu Mestre, o ladrão o confessou quando Ele estava pendurado na Cruz. Os discípulos que iam a Emaús disseram: “esperávamos que seria Ele a libertar Israel” 7. O ladrão pede com confiança: “lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino”. O apóstolo São Tomé declara que não creria na Ressurreição até que visse ao Cristo; o ladrão, contemplando o Cristo — Que vira subjugado no patíbulo — não duvida de que Ele será Rei após sua morte. Quem instruiu o ladrão em mistérios tão profundos? Chama de Senhor esse homem que vê desnudo, ferido, desgraçado, insultado, rebaixado, pendido a uma cruz a seu lado; diz que após sua morte, Ele há de vir com seu reino. Do que podemos inferir que o ladrão não figurou o reino de Cristo como temporal — como o imaginavam os judeus — mas que após sua morte Ele seria Rei para sempre, no Céu. Quem foi o instrutor de segredos tão sagrados e sublimes? Ninguém, decerto, senão o Espírito de Verdade, que o aguardava com suas mais doces bênçãos. Cristo, quando de sua Ressurreição, disse aos apóstolos: “Não era necessário que o Cristo padecesse e entrasse deste modo em Sua Glória?” 8. Entretanto, o ladrão milagrosamente o previu, confessando que o Cristo era Rei no momento mesmo em que o não cercava nenhuma aparência de realeza. Os reis reinam durante a vida e, quando param de viver, param de reinar; o ladrão, sem embargo, proclama em alta voz que o Cristo — por intermédio de Sua morte — herdaria um reino, que é aquele que o Senhor refere nesta parábola: “um homem ilustre foi para um país distante, a fim de ser investido da realeza e depois regressar” 9. Nosso Senhor disse tais palavras pouco tempo antes de sua Paixão, para nos mostrar que, mediante sua morte, iria a um país distante, i. é, para outra vida; ou, em outras palavras, que iria ao Céu, que está mui distante da terra, para receber um reino grande e eterno, mas que voltaria no último dia, recompensando cada homem de acordo com sua conduta na vida, seja com prêmio, seja com castigo. Com respeito a esse reino, desta feita, que o Cristo receberia imediatamente após sua morte, o ladrão disse sabiamente: “lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino”. Mas, pode-se objetar, não era Cristo Nosso Senhor Rei antes de sua morte? Sem dúvida o era, e por isso os Reis Magos inquiriam insistentemente: “Onde está o Rei dos Judeus, que nasceu?” 10 E o mesmo Cristo disse a Pilatos: “Sim, tu o dizes, sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo: para dar testemunho da verdade” 11. Mas Ele era Rei neste mundo tal como um viajante entre estranhos, daí não ser reconhecido como tal senão por uns tantos, sendo humilhado e mal recebido pela maioria. Assim, na parábola que vimos de citar, diz-se que iria “a um país distante, a fim de ser investido da realeza”. Não digo que Ele a adquiriria da parte de outro, mas que a receberia como sua própria, e retornaria. E o ladrão observou sabiamente: “quando retornardes com vosso reino”. Nessa passagem, o reino do Cristo não é sinônimo de poder ou soberania régia, porque o exercera desde o princípio, conforme estes versículos dos Salmos: “Em Sião, já tenho eu consagrado a meu rei meu monte santo” 12. “Dominará de mar a mar, desde o Rio até aos confins da terra” 13. E conforme Isaías: “Porque uma criatura nos nasceu, um filho nos foi dado. O senhorio habitará por sobre seu ombro” 14. E conforme Jeremias: “Suscitarei a Davi um Rebento justo: reinará um rei prudente, praticará o direito e a justiça, na terra” 15. E conforme Zacarias: “Exulta à larga, filha de Sião; grita de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que aqui vem a ti teu rei: justo ele e vitorioso, humilde e montado em um asno, um burrico, cria de jumenta” 16. Por isso, na parábola do advento do Reino, Cristo não se referia a um poder soberano, e tampouco, em sua petição, o bom ladrão: “lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino”, mas ambos falavam dessa perfeita dita, que liberta o homem da servidão e da angústia dos assuntos temporais, submetendo-os tão-somente a Deus, para quem servir é reinar, e pelo qual fora posto acima de todas as suas obras. Deste reino, de inefável dita à alma, Cristo gozou desde o momento de sua concepção, mas a dita do corpo — que era sua por direito — não a gozou efetivamente até sua Ressurreição. Uma vez que fora um forasteiro neste vale de lágrimas, estava submetido a fadigas, fome e sede; a lesões, feridas, e à morte. Entrementes — como seu Corpo sempre fora glorioso — imediatamente após a morte, entrou no gozo da Glória que lhe pertencia. A isso se referiu — após a Ressurreição — nestes termos: “não era necessário que o Cristo padecesse e entrasse deste modo em sua Glória?” Essa glória Ele chama sua própria — pois está em seu poder fazer outros partícipes dela, e por essa razão Ele é chamado “Rei da Glória” 17 e “Senhor da Glória” 18 e “Rei dos Reis” 19, dizendo Ele mesmo a seus apóstolos: “Eu, do que é meu, disponho um Reino para vós” 20. Ele, em verdade, pode receber glória e reino, mas nós não podemos alcançar nem um nem outro; fomos pois convidados a entrar “no gozo do teu Senhor” 21, e não no nosso próprio. Este é então o reino de que falou o bom ladrão quando disse: “quando retornardes com vosso Reino”. Entrementes, não devemos pôr de lado as muitas excelentes virtudes que se manifestam na oração do santo ladrão. Um breve bosquejo delas nos preparará para a resposta do Cristo à petição: “senhor, lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino”. Em primeiro lugar, chama-o Senhor, para mostrar que se considera a si como servo, ou melhor, como um escravo redimido, reconhecendo que o Cristo é seu Redentor. Logo acrescenta um pedido simples, mas cheio de fé, esperança, amor, devoção e humildade: “lembrai-vos de mim”. Não disse: “se puderes, lembrai-vos de mim”, pois acredita firmemente que o Cristo pode de fato fazê-lo. Não disse: “por favor, Senhor, lembrai-vos de mim”, pois tem inteira confiança em sua caridade e compaixão. Não disse: “desejo, Senhor, reinar convosco em vosso Reino”, pois a humildade o proibia. Enfim, não pede nenhum favor especial, mas tão simplesmente reza: “lembrai-vos de mim”, como se dissesse: “tudo que desejo, Senhor, é que vos dignais recordar-me, inclinando vossos benignos olhos sobre mim, pois sei que sois Todo-Poderoso e tudo sabeis; por isso, ponho minha confiança em vossa bondade e vosso amor”. Isso fica claro com as palavras conclusivas de sua oração: “quando retornardes com vosso reino”, que não buscam nada perecível e vão, senão que aspiram a algo eterno e sublime. Atentemos agora à resposta do Cristo: “amém, Eu te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.” A palavra “amém” era usada pelo Cristo cada vez que queria fazer uma declaração solene e grave a seus seguidores. Santo Agostinho não duvidara em afirmar que essa palavra era, na boca do Senhor, uma sorte de juramento. Por certo, não podia ser um juramento, de acordo com as palavras do Cristo: “Pois vos digo que não jureis de modo algum… Seja vossa linguagem: sim, sim; não, não; o que passa além disso vem do Maligno” 22. Não podemos, por conseguinte, concluir que Nosso Senhor realizava um juramento cada vez que usava a palavra “amém”. “Amém” era um termo habitual em seus lábios, e em algumas oportunidades não apenas precedia suas afirmações com “amém”, mas com “amém, amém”. Assim, pois, a observação de Santo Agostinho — de que a palavra “amém” não é um juramento, mas uma espécie de juramento — é perfeitamente justa, porque o sentido da palavra é “verdadeiramente”: em verdade; e quando o Cristo diz: verdadeiramente vos digo, Ele afiança gravemente o que diz, e, por conseguinte, a expressão tem quase a mesma força de um juramento. Com grande razão, dirigiu-se assim ao ladrão, dizendo: “amém, Eu te asseguro”, i. é, Eu te asseguro do modo mais solene que posso sem prestar juramento: uma vez que o ladrão poderia negar — por três razões — dar crédito à promessa do Cristo, se Ele não a asseverasse solenemente. Em primeiro lugar, poderia se negar a crer por razão de sua indignidade ao ser o receptor de um prêmio tão grande, de um favor tão elevado. Pois quem imaginaria que o ladrão seria de pronto trasladado de uma cruz para um reino? Em segundo lugar, poderia se negar a crer por razão da pessoa que fez a promessa, ao ver que Ele estava, nesse momento, reduzido ao extremo da pobreza, da debilidade e do infortúnio, podendo o ladrão por isso ter argumentado: “se este homem não pôde, durante sua vida, fazer um favor a seus amigos, como vai ser capaz de assisti-los depois da morte?” Por último, poderia se negar a crer por razão da mesma promessa. Cristo prometeu o Paraíso. Pois bem, os judeus interpretavam a palavra “Paraíso” em referência ao corpo e à alma — pois sempre a usavam no sentido de um Paraíso terrestre. Se Nosso Senhor quisesse dizer: “hoje mesmo tu estarás comigo em um lugar de repouso, junto a Abraão, Isaque e Jacó”, o ladrão o creria facilmente; mas como não quis dizer isso, firmara Sua promessa com esta garantia: “amém, Eu te asseguro”. “Hoje”. Não disse: “por-te-ei à Minha mão direita, em meio aos justos, no Dia do Juízo”. Nem disse: “levar-te-ei a um lugar de descanso, logo após sofreres alguns anos no Purgatório”. Nem tampouco: “consolar-te-ei dentro de alguns meses ou dias”, mas “hoje mesmo, antes que o sol se ponha, passarás comigo do patíbulo da cruz às delícias do Paraíso”. Maravilhosa é a liberalidade do Cristo; maravilhosa também é a boa fortuna do pecador. Santo Agostinho, em seu trabalho “Sobre a Origem da Alma”, considera, com São Cipriano, que o ladrão pode ser considerado um mártir, e que sua alma foi diretamente ao Céu, sem passar pelo Purgatório. O bom ladrão pode ser chamado mártir pois que confessou Cristo publicamente, quando nem sequer os apóstolos se atreveram a pronunciar palavra a Seu favor; e por causa dessa confissão espontânea, a morte que sofreu em companhia do Cristo merecera um prêmio tão grande diante de Deus, como se houvesse sofrido por nome de Cristo. Se Nosso Senhor não fizesse outra promessa senão: “hoje estarás comigo”, só essa benção seria inefável ao ladrão, conforme escreve Santo Agostinho: “Onde pode haver nele algum mal; e sem Ele, algum bem?”. Em verdade, Cristo não fizera uma promessa trivial aos que o seguem quando disse: “se alguém me serve, que me siga; e onde eu estiver, ali também estará meu servo” 23. Sem embargo, ao ladrão prometeu não apenas sua companhia, mas também o Paraíso. Ainda que algumas pessoas tenham discutido acerca do sentido da palavra “Paraíso” neste texto, não parece haver fundamento para a discussão. Pois é seguro — porque é artigo de fé — que no mesmo dia de Sua morte, o Corpo do Cristo foi colocado no sepulcro, e Sua Alma desceu ao Limbo; é igualmente certo que a palavra “Paraíso” — falemos do Paraíso celeste, ou do terrestre — não se pode aplicar nem ao sepulcro, nem ao Limbo. Não se pode aplicar ao sepulcro, pois era um lugar mui triste — a primeira morada dos cadáveres — e o Cristo foi o único enterrado nele: o ladrão o foi em outro lugar. Mais ainda, as palavras “estarás comigo” não se cumpririam, se o Cristo falasse meramente do sepulcro. Tampouco se pode aplicar a palavra “Paraíso” ao Limbo. Pois “Paraíso” é um jardim de delícias — inclusive, no Paraíso terrestre haviam flores e frutas, águas límpidas e uma deliciosa suavidade no ar. No Paraíso celestial, delícias sem fim, glória interminável, além dos lugares dos Bem-aventurados. Mas no Limbo, onde as almas dos justos estavam detidas, não havia luz, nem alegria, nem prazer; certo, essas almas não estavam sofrendo, já que a esperança da redenção e a perspectiva de ver a Cristo era motivo de consolo e gozo para eles; contudo, se conservavam como cativos na prisão. Sobre isso, conforme o Apóstolo, ao explicar os profetas: “subindo às alturas, levou os cativos” 24; e conforme Zacarias: “quanto a ti, por causa de tua aliança de sangue, libertarei os teus cativos da fossa sem água” 25, onde as palavras “teus cativos” e “a fossa sem água” apontam evidentemente não às delicias do Paraíso, mas à obscuridade de uma prisão. Por isso, na promessa do Cristo, a palavra “Paraíso” só poderia significar a Bem-aventurança da alma, que consiste na visão de Deus – este é realmente um Paraíso de delícias, não um Paraíso corpóreo ou extenso, mas um espiritual e celestial. Por essa razão, ao pedido do ladrão — “Lembrai-vos de mim quando retornardes com vosso reino” — o Senhor não respondeu “hoje estarás comigo” em meu reino, mas “estarás comigo no Paraíso”, porque nesse dia o Cristo não entrou em Seu reino — não entrou até ao dia da Ressurreição, quando Seu Corpo tornou-se imortal, impassível, glorioso, já não sendo passível de servidão ou sujeição nenhuma. Não terá o bom ladrão por companheiro seu, em seu reino, até a ressurreição de todos os homens, no último dia. Sem embargo, com grande verdade e propriedade, lhe disse: “hoje estarás comigo no Paraíso”, pois naquele mesmo dia comunicaria, tanto à alma do bom ladrão como às dos santos no Limbo, essa glória da visão de Deus que Ele recebera em Sua concepção; está é pois a verdadeira Glória e felicidade essencial; este é o gozo supremo do Paraíso Celeste. É de se admirar mormente a escolha das palavras utilizadas pelo Cristo, a essa ocasião. Não disse: “hoje estareis no Paraíso”, mas “hoje estarás comigo no Paraíso”, como se quisesse se explicar mais amiúde, da seguinte maneira: “hoje, estás tu comigo na Cruz, mas tu não estás comigo no Paraíso — Paraíso este atinente à parte superior de minha alma. Mas, em pouco tempo — hoje mesmo — tu estarás comigo, não tão-só liberto da Cruz, mas aconchegado no seio do Paraíso”.
1. Lc 23,39.
2. Hb 11,33-37.
3. Lc 23,39.
4. Lc 23,40.
5. Lc 23,41.
6. Lc 23,42.
7. Lc 24,21.
8. Lc 24,26.
9. Lc 19,12.
10. Mt 2,2.
11. Jo 18,37.
12. Sl 2,6.
13. Sl 72,8.
14. Is 9,5.
15. Jr 23,5.
16. Zc 9,9.
17. Sl 24,8.
18. 1 Cor 2,8.
19. Ap 19,16.
20. Lc 22,29.
21. Mt 25,21.
22. Mt 5,34.37.
23. Jo 12,26.
24. Ef 4,8.
25. Zc 9,11.

Capítulo V
O primeiro fruto que se há de colher da consideração da segunda Palavra dita por Cristo na Cruz

Podemos colher alguns frutos, tirados da segunda palavra dita na Cruz. O primeiro fruto é a consideração da imensa misericórdia e liberalidade do Cristo, e de como é bom e útil servi-lo. As muitas dores que Ele, Nosso Senhor, sofria, poderiam ser alegadas como escusa para não escutar a petição do ladrão; mas, em Sua caridade divina, preferiu olvidar Suas próprias dores atrozes a não escutar a oração de um pobre pecador penitente. Esse mesmo Senhor não respondeu nada às maldições e imprecações dos sacerdotes e soldados, mas ante o clamor de um pecador a se confessar, Sua caridade proibira-lhe permanecer em silêncio. Quando é ultrajado não abre a boca, porque é paciente; quando um pecador confessa sua culpa, fala, porque é bondoso. Que dizer, pois, de Sua liberalidade? Os que servem a um chefe temporal com frequência obtêm uma magra recompensa por muitos labores. Entre esses não raro vemos os que terão gasto os melhores anos de sua vida ao serviço de príncipes, e se retiram em idade avançada com mirrado salário. Mas o Cristo é um Príncipe verdadeiramente liberal, um Amo verdadeiramente magnânimo. Das mãos do bom ladrão não recebe nenhum serviço, exceto algumas palavras bondosas e o desejo cordial de o assistir, e, como galardão, com que grande prêmio o retribui! Nesse mesmo dia, todos os pecados que cometera durante sua vida são perdoados; é igualado aos principais de seu povo, a saber, os patriarcas e os profetas; e, finalmente, o Cristo o eleva para partilhar de sua mesa, de sua dignidade, de sua glória e de todos os seus bens. “Hoje”, disse, “estarás comigo no Paraíso”. O que Deus diz, faz. Tampouco difere essa recompensa para algum dia longínquo, mas, àquele mesmo dia, derrama em seu seio “uma medida boa, cheia, recalcada, transbordante”1. O ladrão não é o único que experimentara a liberalidade do Cristo. Os apóstolos, que tudo abandonaram — seja um barco, um ofício de coletor de impostos ou um lar — para servir ao Cristo, foram feitos por Ele “príncipes de toda a terra”1, submetendo-lhes demônios, serpes e toda casta de enfermidades. Se algum homem deu por esmola alimento ou vestimenta aos pobres em nome de Cristo, escutará estas palavras consoladoras no Dia do Juízo: “Tive fome, e me deste de comer… estava desnudo, e me vestiste”3, receba tua recompensa, e entra na posse do meu Reino Eterno. Enfim, para não nos demorarmos em muitas outras promessas de recompensa, poderia o homem crer na quase inacreditável liberalidade do Cristo, se não fosse o mesmo Deus quem prometesse que “todo o que deixar a casa, ou os irmãos ou irmãs, ou o pai ou a mãe, ou os filhos, ou os campos, por causa do meu nome, receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna”4? São Jerônimo e os outros santos doutores interpretam o texto acima citado desta maneira: se um homem, pelo amor do Cristo, abandona tudo nesta vida presente, receberá uma dupla recompensa em adição à vida de valor incomparavelmente maior que a pequenez da que se deixara. Em primeiro lugar, receberá um gozo ou dom espiritual nessa vida, cem vezes mais precioso que o objeto temporal que pelo Cristo desprezara; um homem espiritual escolheria antes conservar esse dom a substituí-lo por cem casas ou campos, ou outras coisas semelhantes. Em segundo lugar — como se Deus Todo-poderoso considerasse tal recompensa como de pequeno ou nenhum valor — o feliz comerciante que troca bens terrenos por celestiais receberá no outro mundo a vida eterna, palavra esta que contém um oceano de todo o bem. Essa é, pois, a maneira por que o Cristo, o grande Rei, mostra sua liberalidade aos que se entregam sem reservas aos seus serviços. Não são estultos os homens que, abandonando as bandeiras de tal monarca, desejam fazer-se escravos de Mamón, da gula, da luxúria? Mas os que ignoram aquilo que Cristo considera como verdadeira riqueza poderiam obstar que estas promessas não passam de palavras, pois muitas vezes verificamos que os amigos diletos do Senhor são pobres, esquálidos, abjetos e sofridos e, por outro lado, nunca enxergamos a tal recompensa centuplicada, que se diz tão magnífica. Assim é porque o homem carnal não pode ver o cêntuplo que Cristo prometeu, pois não tem olhos com que possa vê-los; não participará jamais desse gozo durável, que engendra uma consciência pura e um verdadeiro amor de Deus. Contudo, darei um exemplo para mostrar que até um homem carnal pode apreciar os deleites e as riquezas espirituais. Lemos, num livro de exemplos sobre os varões ilustres da ordem Cisterciense, que um certo homem, nobre e rico, chamado Arnulfo, abandonou toda sua fortuna e fez-se monge cisterciense, vivendo sob a autoridade de São Bernardo. Deus testou a virtude desse homem mediante dores amargas e muitos tipos de sofrimentos, em particular no final de sua vida; numa certa ocasião, quando sofria mais agudamente que de costume, clamou com voz forte: “Tudo o que dissestes, oh! Senhor Jesus, é verdade”. Ao perguntar-lhe, os que estavam presentes, qual a razão de sua exclamação, respondeu-lhes: ”O Senhor, em Seu Evangelho, diz que os que abandonam suas riquezas e todas as coisas por Ele receberiam o cêntuplo nesta vida e, após, a vida eterna. Compreendo largamente a força e a gravidade desta promessa, e reconheço que estou agora a receber o cêntuplo por tudo que abandonei. Em verdade, a grande amargura desta dor me é tão agradável por causa da esperança [que tenho] na Divina Misericórdia, que me estenderão os sofrimentos, dos quais não consentiria libertar-me, ainda que a cem vezes o valor da matéria mundana que abandonei. Porque, em verdade, a alegria espiritual que se concentra na esperança do que há de vir ultrapassa cem vezes toda alegria mundana, que brota do presente”. O leitor, ao ponderar estas palavras, poderá julgar em quão grande estima se há de ter a virtude vinda do céu da esperança infalível, da felicidade eterna.
1. Lc 6,38.
2. Sal 45,17.
3. Mt 25,35.36.
4. Mt 19, 29.

Capítulo VI
O segundo fruto que se há de colher da consideração da segunda Palavra dita por Cristo na Cruz

O segundo fruto que se há de colher da consideração da segunda palavra é o conhecimento do poder da divina graça e da debilidade da vontade humana; tal conhecimento é o de que a melhor política consiste em depositar toda a confiança na graça de Deus, e em desconfiar inteiramente da própria força. Se algum homem quer conhecer o poder da graça de Deus, volte os olhos ao bom ladrão. Era notório pecador, pecara durante o perverso curso de sua vida até ao momento em que fora subjugado à cruz, i. é, ao momento quase derradeiro de sua vida; nesse momento crítico, com a salvação em jogo, nada havia que pudesse aconselhá-lo ou assisti-lo. Embora estivesse bem próximo a seu Salvador, ouvia tão-somente os sumos sacerdotes e fariseus a declará-Lo sedutor e homem ambicioso que buscava alcançar poder soberano. Ouvia também seu companheiro exprimindo-se perversamente em termos similares. Não havia boa palavra em favor de Cristo, e até o Mesmo Cristo não refutava as blasfêmias e maldições. Contudo, com a assistência da graça de Deus, quando as portas do céu lhe pareciam cerradas, e os adros infernais abertos a recebê-lo, e o pecador tão afastado da vida eterna quanto possível – fora de súbito iluminado desde o alto: seus pensamentos dirigiram-se ao canal apropriado e confessou Cristo por inocente e Rei do Mundo que há de vir e, como ministro de Deus, censurou o ladrão que o acompanhava, persuadindo-o de seu arrependimento, e encomendou-se humilde e devotamente a Cristo. Em suma, foram tão perfeitas suas disposições que as dores da crucificação compensaram todo sofrimento que pudesse guardar para o purgatório, de tal modo que, tão logo morrera, ingressou no gozo do Senhor. Por tal circunstância, fica evidente que se não deve desesperar da salvação, pois o ladrão que entrou na vinha do Senhor à hora duodécima, recebeu o prêmio com os que vieram à hora primeira. Por outro lado, para nos permitir ver a magnitude da debilidade humana, o mau ladrão se não converte nem pela imensa caridade de Cristo — o Qual orou com amor profundo por Seus executores — nem pela grandeza dos próprios sofrimentos, nem pela admoestação e exemplo do companheiro, nem pela escuridão temporã, pelas rochas fendidas ou pela conduta dos que, após a morte de Cristo, retornaram à cidade golpeando o peito. Tudo isso se sucedeu depois da conversão do bom ladrão, para nos mostrar que, se por um lado, um pode se converter sem auxílios, outro, com todos os auxílios, não pôde, ou, em realidade, não quis ser convertido. Poder-se-ia argumentar: por que Deus dera a graça da conversão a um e negou-lha a outro? Contestar-se-ia que a ambos se deram a graça suficiente para a conversão, e que se um pereceu, pereceu por culpa própria e, se o outro se converteu, foi convertido por graça de Deus, não sem a cooperação de sua própria vontade livre. Todavia, poder-se-ia perguntar: por que Deus não dera a ambos a graça eficaz, capaz de sobrepujar o mais endurecido dos corações? A razão de que assim não sucedera é um desses segredos que podemos admirar, mas não penetrar; devemos repousar no pensamento que não há injustiça em Deus, como disse o Apóstolo [Rm 9, 14], pois, como aquilo de Agostinho, os juízos de Deus podem ser secretos, mas não podem ser injustos. Aprender com esse exemplo a não adiar a conversão até à proximidade da morte, eis a lição que nos respeita de forma imediata. Ainda que um dos ladrões cooperasse com a graça de Deus no último momento, o outro a rechaçou, caindo em perdição para sempre. Quem estuda história, ou observa o que se lhe sucede ao redor, sabe que a regra é os homens terminarem uma vida perversa com uma morte miserável, de sorte que é exceção o pecador morrer feliz; por outro lado, não é comum que os que vivem bem e santamente tenham um fim triste e miserável, mas sim que muitas pessoas boas e piedosas entrem, depois da morte, na posse dos gozos eternos. As que, em assunto de tal monta como a felicidade ou tormento eternos, ousam permanecer em estado de pecado mortal, ainda que por um só dia, são por demais néscias e presunçosas, porquanto após a morte não há lugar para arrependimento e, uma vez no inferno, já não há redenção.

Capítulo VII
Sobre a Sexta Palavra de Cristo na Cruz

Introdução
Explicação Literal da Sexta Palavra: “Está tudo consumado”. A sexta palavra que disse Nosso Senhor na Cruz está como que unida à quinta palavra mencionada por São João. Pois entre o Senhor dizer “Tenho sede”, e tomar o vinagre oferecido, não houve tardança. Acrescenta São João: “Havendo Jesus tomado do vinagre, disse: Tudo está consumado” (Jo 19, 30). Em verdade, nada se pode acrescentar a tais palavras: “Está tudo consumado”, senão que estava a obra da Paixão aperfeiçoada e completa. Impusera Deus Pai duas missões a seu Filho: a primeira, pregar o Evangelho; a segunda, sofrer pela humanidade. Quanto à primeira, já dissera o Cristo: “Eu te glorifiquei na terra. Terminei a obra que me deste para fazer” (Jo 17, 4). Proferira tais palavras por ocasião do discurso de despedida aos discípulos, na Última Ceia. Já ali cumprira a primeira obra que lhe impusera o Pai Celestial. Quanto à segunda missão, tomar o cálice amargo, estava por se cumprir. Aludira a isso, quando perguntou aos dois filhos de Zebedeu: “Podeis vós beber o cálice que eu devo beber?” (Mt 20, 22); e ainda: “Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice!” (Lc 22, 42); e em outro passo: “Não hei de beber eu o cálice que o Pai me deu? (Jo 18, 11). Cristo pudera então exclamar ao momento da morte, como remate da missão: Está tudo consumado, pois o cálice do sofrimento foi tomado até às fezes, nada mais me resta senão morrer. E inclinando a cabeça, expirou (Jo 19, 30). Entretanto, como nem Nosso Senhor, nem São João, mui concisos no que disseram, explicaram o que se cumpriu, temos oportunidade de aplicar a palavra com grande razão e vantagem a diversos mistérios. Santo Agostinho, comentando este passo, refere a palavra ao cumprimento de todas as profecias do Testamento Velho. “No instante que soubera Jesus do cumprimento de todas as coisas, para se cumprirem as Escrituras, disse: “Tenho sede”, e “Havendo Jesus tomado do vinagre, disse: Está tudo consumado” (Jo 19, 28, 30), i. é, o que havia por cumprir estava cumprido. Por isso, conclui-se que Nosso Senhor queria manifestar que o que se predissera por boca dos profetas sobre sua Vida e Morte já estava feito e acabado. Em verdade, todas as predições se comprovaram. Sua concepção: “Uma virgem conceberá e dará à luz um filho” (Is 7, 14). Seu nascimento em Belém: “Mas de ti, Belém Efratá, apesar de seres a menor do clã da família de Judá, de ti sairá aquele que há de governar Israel” (Mq 5, 2). A aparição de uma nova estrela: “De Jacó nascerá uma estrela” (Nm 24, 17). A adoração dos Reis: “Oferecer-te-ão dádivas os reis de Tarsis e das ilhas, e os reis da Arábia e de Sabá trarão presentes” (Sl 71, 10). A pregação do Evangelho: “O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu, e me enviou para evangelizar os pobres, aliviar os aflitos de coração, anunciar a remissão dos cativos e a liberdade aos encarcerados” (Is 61, 1). Seus milagres: “O próprio Deus há de vir e os salvará. Então abrir-se-ão os olhos do cego, e os ouvidos dos surdos. E saltará o coxo como o cervo e desatar-se-á a língua dos mudos” (Is 35, 4-6). O cavalgar sobre o burrinho: “Eis que vem a ti o teu rei, justo e vitorioso; ele é simples e vem montado num jumento, no potro de uma jumenta” (Zc 9, 9). Davi no Salmos, Isaias, Jeremias, Zacarias e outros mais predisseram a Paixão como se a testemunhassem. É o significado das palavras de Nosso Senhor, quando dizia estar próxima sua Paixão: “Vede, subamos a Jerusalém, pois lá se há de cumprir o que escreveram os profetas sobre o Filho do Homem” (Lc 18, 31). Do que se havia de cumprir, disse: “Está tudo consumado”, tudo terminado, para que na predição dos profetas encontre-se, a partir de agora, a verdade. Em segundo lugar, São João Crisóstomo diz que a palavra “Está tudo consumado” manifesta que o poder dado a homens e demônios sobre a pessoa do Cristo acabara-se com sua morte. Quando disse Nosso Senhor aos Sumos Sacerdotes e doutores do Templo “esta é a vossa hora e do poder das trevas” (Lc 22, 53), aludia ele a esse poder. O período durante o qual, com a permissão de Deus, os iníquos se apoderaram do Cristo terminou com a exclamação “Está tudo consumado”, pois a peregrinação do Filho de Deus entre os homens, conforme predissera Baruque, findara: “É ele o nosso Deus, com ele nenhum outro se compara. Conhece a fundo os caminhos que conduzem à sabedoria, galardoando com ela Jacó, seu servo, e Israel, seu favorecido. Foi então que ela apareceu sobre a terra, onde permanece entre os homens.” (Br 3, 36-38). E juntamente com a peregrinação, terminou sua condição de vivente e mortal, por que sentia fome e sede, e dormia, e se fatigava, e sujeitava-se a atritos e flagelos, e a feridas e a morte. Deste modo, quando o Cristo na Cruz exclamou “Está tudo consumado, e inclinando a cabeça expirou”, concluiu-se o caminho daquele que dissera “Saí do Pai e vim ao mundo. Agora deixo o mundo e volto para junto do Pai.” (Jo 16, 28). O termo da peregrinação foi como aquilo do profeta Jeremias: “Senhor, esperança de Israel, vós que sois o seu salvador no tempo da desgraça, por que sois qual estrangeiro nessa terra, viajante de uma noite apenas?” (Jr 14, 8). Acabava a sujeição de sua natureza à morte, findara o poder de seus inimigos sobre Ele. Em terceiro lugar, ultimou o sacrifício dos sacrifícios. Ante o real e verdadeiro Sacrifício, os da Lei Antiga consideram-se como meras sombras e figuras. Disse São Leão: “Atraíste tudo para ti, Senhor, pois quando se rasgou o Véu do Templo, o Santo dos Santos apartou-se dos sacerdotes indignos; as figuras se converteram em verdade, manifestaram-se as profecias, converteu-se a Lei nos Evangelhos”. Mais adiante, continua: “A oblação única de teu Corpo e Sangue é superior à variedade dos antigos holocaustos” (Serm. 8. De Pass. Dom.). Neste único Sacrifício do Cristo, o sacerdote é Homem-Deus, o altar a Cruz, a vítima o Cordeiro de Deus, o fogo para o holocausto a caridade, o fruto do sacrifício a redenção do mundo. O sacerdote, digo, era o Homem-Deus, e nada há de maior: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 109, 4), e com justiça, de acordo com a ordem de Melquisedeque, porque lemos na Escritura que Melquisedeque não tinha pai, nem mãe, nem genealogia, e o Cristo não tinha Pai na terra, nem mãe no Céu, nem genealogia, pois “Quem contará sua geração?” (Is 53, 8). “Eu te gerei antes da aurora” (Sl 109, 3); “saíste desde o princípio, desde os dias da eternidade” (Mq 5, 2). O altar foi a Cruz. Assim como o tempo que o Cristo sofreu sobre o madeiro era sinal de grande ignomínia, assim agora está dignificada e enobrecida, e no último dia aparecerá no céu mais resplandecente que o sol. A Igreja aplica à Cruz as palavras do Evangelista: “Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem.” (Mt 24, 30), já que canta “O sinal da cruz no céu aparecerá, quando vier o Senhor para julgar”. São João Crisóstomo confirma essa opinião, e observa que quando “o sol se escurecer, e a lua não tiver claridade” (Mt 24, 29), a Cruz há de ser vista mais brilhante que o sol no esplendor do meio-dia. A vítima foi o Cordeiro de Deus, totalmente inocente e imaculado, de quem fala Isaias: “Foi maltratado e resignou-se; não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. (Ele não abriu a boca.)” (Is 53, 7), e também o Precursor: “Eis aqui o Cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29), e por último São Pedro: “Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo, o Cordeiro imaculado e sem defeito algum” (1Pd 1, 18-19). No Apocalipse, chamam-no também de “o cordeiro imolado desde o princípio do mundo” (Ap 13, 8), porque o mérito do sacrifício já o previra Deus, em benefício daqueles que viveram antes da vinda do Cristo. O fogo do holocausto, que o consome e perfaz, é o imenso amor que ardeu no Coração do Filho de Deus, qual ardente fogueira que as muitas águas da Paixão não extinguiram. Finalmente, o fruto do Sacrifício foi a expiação dos pecados de todos os filhos de Adão, i. é, a reconciliação do mundo com Deus. Na sua primeira epístola, disse São João: “Ele é a expiação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” (1Jo 2, 2), o que é dizer, com outras palavras, a ideia de São João Batista: “Eis aqui o Cordeiro de Deis, eis o que tira o pecado do mundo” (Jo 1 ,29). Aparece aqui um embaraço: como é possível o Cristo ser ao mesmo tempo sacerdote e vítima, posto que fosse dever do sacerdote matar a vítima? Certamente o Cristo não se matou a si, nem havia de fazê-lo, pois se o fizesse, cometeria um sacrilégio e não ofereceria um sacrifício. É verdade que o Cristo não se matou a si, mas ainda assim ofereceu um sacrifício real, porque pronta e alegremente se ofereceu a si à morte por glória de Deus e salvação dos homens. Nem soldados o prenderiam, nem cravos traspassariam suas mãos e pés, nem a morte – não obstante tivesse pregado à Cruz – se apoderaria dele se ele assim não o quisesse. Em consequência, com muita propriedade disse Isaias: “Ofereceu-se porque o quis” (Is 53, 7); e disse Nosso Senhor: “O Pai me ama, porque dou a minha vida para a retomar. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo.” (Jo 10, 17-18). Com mais claridade, afirma São Paulo: “Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor” (Ef 5, 2). Portanto, de modo maravilhoso dispôs-se que todo o mal, e todo o pecado, e todo o crime da condenação à morte do Cristo recaíssem sobre Judas e os judeus, sobre Pilatos e os soldados. Eles não ofereciam sacrifício, senão que foram culpados de sacrilégio, e não mereciam o título de sacerdotes, senão que de sacrílegos. Toda a virtude, e toda a santidade, e toda a obediência pertencem ao Cristo, que se ofereceu a si como vítima a Deus, sofrendo pacientemente a morte, e morte de Cruz, para apaziguar a ira do Pai, reconciliar a humanidade com Deus, saciar a justiça divina, e salvar a raça decaída de Adão. São Leão expressa com elegância e economia este pensamento: “Ele permitiu as mãos impuras se voltassem contra si, e já então se convertiam em colaboradores da Redenção no momento em que cometiam um abominável pecado”. Em quarto lugar, por morte do Cristo findou-se a batalha entre o Salvador e o príncipe deste mundo. Na alusão desta luta, valeu-se o Senhor destas palavras: “Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo. E quando eu for levantado da terra, atrairei todos os homens a mim” (Jo 12, 31-32). Foi batalha de foro, e não de milícia. Foi batalha entre dois demandantes, e não de dois exércitos rivais. Satanás disputou com o Cristo a possessão do mundo, e o domínio sobre a humanidade. Por muito tempo, o demônio lançara a mão com dolo para possuí-lo, porque vencera o primeiro homem, e dele e seus descendentes fizera-os escravos. Por essa razão, chama S. Paulo aos demônios de “principados e potestades, príncipes deste mundo tenebroso” (Ef 6, 12). Como disséramos, até o mesmo Cristo chama ao demônio “príncipe deste mundo”. Eis que o demônio não quisera apenas ser príncipe, mas arvorar-se em deus deste mundo, como na exclamação do Salmo: “Porque os deuses dos pagãos, sejam quais forem, não passam de ídolos. Mas foi o Senhor quem criou os céus” (Sl 95, 5). Nos ídolos dos gentios, adorava-se Satanás, e lhe rendiam culto de sacrifício de cordeiros e vitelos. Por outro lado, o Filho de Deus, verdadeiro e legítimo herdeiro do universo, demandou para si o principado deste mundo. A sentença da lide deu-se na Cruz, e o juízo se pronunciou em favor de Jesus Cristo, porque na Cruz expiou a saciedade os pecados do primeiro homem e seus filhos. A obediência do Filho ao Pai Eterno superou a desobediência do servo ao Senhor, e a humildade da morte do Filho de Deus na Cruz redundou em maior honra do Pai, que o orgulho do servo em sua desonra. Assim Deus, nos méritos de seu Filho, se reconciliou com a humanidade, arrancando-se ao poder do demônio a mesma humanidade, e “nos introduziu no Reino de seu Filho muito amado” (Cl 1, 13). Há outra razão, a que aduz São Leão, conforme dá-la-emos com suas próprias palavras: “Se o orgulhoso e cruel inimigo conhecesse o plano da misericórdia de Deus, reprimira as paixões dos judeus, e lhes não inculcara o ódio injusto por que perderia o domínio sobre os cativos, ao atacar em falso a liberdade daquele que nada devia”. Esta consideração é de muitíssimo peso. Era justíssimo que o demônio perdesse toda a autoridade sobre os escravos do pecado, porque se atrevera a pôr as mãos sobre o Cristo, que não era escravo seu, nem havia pecado, e, todavia perseguira até à morte. Ora se este é o caso, se é terminada a batalha, se é vitorioso o Filho de Deus, e se “quer que todos os homens se salvem” (1Tm 2, 4), como é possível tantos estarem submissos ao poder do demônio nesta vida, e atormentados no inferno, na que há de vir? Respondo-o com uma palavra: querem-no. Cristo saiu vitorioso da disputa, outorgando à raça humana dois favores inefáveis. Primeiro, abriu aos justos a porta dos céus, que estavam cerradas desde a queda de Adão até aquele dia, em que pronunciou a justificação do ladrão, alcançada por meio da fé, da esperança e da caridade, pelos méritos de seu sangue: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43). Exultante, clama a Igreja: “Tu, vitorioso sobre o aguilhão da morte, abriste aos crentes o Reino dos Céus”. Segundo, instituiu os Sacramentos, que têm poder de perdoar pecados e conferir a graça. Envia os pregadores da Palavra a toda parte do mundo, a proclamar: “Quem crer e for batizado será salvo” (Mc 16, 16). Assim Nosso Senhor franqueou o caminho para todos adquirirem a gloriosa liberdade dos filhos de Deus, e se há quem se recuse a nele entrar, morrem pela própria culpa, e não pela míngua do poder ou da vontade do Redentor. Em quinto lugar, a palavra “Está tudo consumado” é possível aplicá-la ao término do edifício, i. é, a Igreja. Cristo Nosso Senhor usa dela, ao se referir a um edifício: “Hic homo coepit aedificare et non potuit consummare, Este homem principiou a edificar, mas não pode terminar” (Lc 14, 30). Ensinam os Padres que o estabelecimento das fundações da Igreja deu-se no batismo do Cristo, e o término da construção na sua morte. Epifânio, no terceiro livro contra os hereges, e Santo Agostinho, no último da Cidade de Deus, mostram que Eva, feita da costela do Adão adormecido, faz figura da Igreja, feita da costela do Cristo adormecido na morte, advertindo que, não sem razão, o livro do Gênesis usa o termo “construiu”, e não “formou”. Santo Agostinho (“De Civit.”, I. 27, c. 8), com as palavras do Salmista, prova que o edifício da Igreja começa no batismo do Cristo: “Ele dominará de um ao outro mar, desde o grande rio até os confins da terra” (Sl 71, 8). O reino do Cristo, a Igreja, se iniciou no batismo recebido das mãos de São João, consagrou as águas e instituiu o sacramento que é a sua porta de entrada; foi nesse momento que se escutou claramente a voz do Pai nos céus: “Eis meu Filho muito amado em quem me comprazo” (Mt 3, 17). Desde então Nosso Senhor começou a pregar e reunir discípulos, que foram os primeiros filhos da Igreja. Todos os sacramentos tiram sua eficácia da Paixão do Cristo, apesar de terem aberto o costado de Nosso Senhor quando já estava morto, fluindo daquela chaga sangue e água, os tipos dos dois principais sacramentos da Igreja. Fluírem sangue e água das costelas do Cristo, estando já morto, era sinal dos sacramentos, e não sua instituição. Podemos concluir que se consumou a edificação da Igreja quando Cristo disse: “Está tudo consumado”, porque só lhe restava morrer, o que logo aconteceu, já que pagara o preço de nossa redenção.

Prefácio

Observai-me, agora, pelo quarto ano, a preparar-me para a morte. Tendo-me retirado dos negócios do mundo a um lugar de repouso, entrego-me à meditação das Sagradas Escrituras, e a escrever os pensamentos que me ocorrem nas meditações, para que, se já não posso ser de utilidade pela palavra de boca, ou pela composição de volumosas obras, possa ao menos ser útil a meus irmãos por meio destes piedosos livrinhos. Enquanto refletia, então, em qual seria o tema preferível tanto para me preparar para a morte como para ajudar os outros a viver bem, ocorreu-me a Morte de Nosso Senhor, junto com o último sermão que o Redentor do mundo pregou da Cruz, como dum elevado púlpito, à raça humana. Este sermão consiste em sete curtas mas profundas sentenças, e nestas sete palavras está contido tudo o que Nosso Senhor manifestou quando disse: “Eis que vamos para Jerusalém, e será cumprido tudo o que está escrito pelos Profetas relativo ao Filho do homem”1. Tudo o que os Profetas predisseram acerca de Cristo pode ser reduzido a quatro títulos: seus sermões à gente; sua oração ao Pai; os grandes tormentos que suportou; e as sublimes e admiráveis obras que realizou. Tudo isto se verificou de modo admirável na Vida de Cristo, pois Nosso Senhor não podia ser mais diligente ao pregar ao povo. Pregava no templo, nas sinagogas, nos campos, nos desertos, nas casas, e, mais ainda, pregava até dum barco à gente que estava na margem. Era costume seu passar noites em oração a Deus, pois assim diz o Evangelista: “e estava passando toda a noite em oração a Deus” 2. Suas admiráveis obras, ao expulsar demônios, curar doentes, multiplicar pães, aplacar as tormentas, ler-se-ão em cada página dos Evangelhos3. Ainda assim, foram muitas as injúrias que se acumularam sobre Ele, como resposta ao bem que fizera. Consistiam tais injúrias não só em palavras insolentes, mas também em lapidá-lo4 e despenhá-lo5. Em uma palavra, todas estas coisas verdadeiramente se consumaram na Cruz. Sua pregação da Cruz foi tão poderosa, que “toda a multidão […] retirava-se, batendo no peito” 6, e não só os corações humanos, mas até as rochas se fizeram em pedaços. Ele orou na Cruz, como diz o Apóstolo, “com grandes brados e com lágrimas, preces e súplicas”, sendo, assim, “atendido pela sua reverência” 7. Sofreu tanto na Cruz, em comparação com o que sofrera no restante de sua vida, que o sofrimento parece pertencer somente à sua Paixão. Finalmente, nunca operou maiores sinais e prodígios do que quando, na Cruz, parecia reduzido à maior fragilidade e fraqueza. Então não só manifestou sinais do céu, que os judeus tinham pedido até ao fastio, senão que, um pouco depois, manifestou o maior de todos os sinais. Pois que, depois de estar morto e enterrado, se levantou dentre os mortos por sua própria força, chamando seu Corpo à vida, e a uma vida imortal. Verdadeiramente então poderemos dizer que na Cruz se consumou tudo quanto estava escrito pelos Profetas com relação ao Filho do homem. Mas, antes de começar a escrever acerca das palavras que Nosso Senhor pronunciou da Cruz, parece apropriado dizer algo da Cruz mesma, que foi o púlpito do Pregador, o altar do Sacerdote Vítima, o campo do Combatente, ou a oficina d’O que opera maravilhas. Os antigos estavam de acordo em dizer que a Cruz era feita de três pedaços de madeira: um vertical, ao longo do qual se punha o corpo do crucificado; um horizontal, a que se prendiam as mãos; e o terceiro, que se unia à parte baixa da cruz, e sobre o qual descansavam os pés do acusado, mas presos por meio de cravos para lhes impedir o movimento. Concordam com esta opinião os antigos Padres da Igreja, como São Justino8 e Santo Irineu9. Mais ainda, estes autores indicam claramente que ambos os pés descansavam na tábua, e não que um pé estava colocado em cima do outro. Segue-se, portanto, que Cristo foi pregado à Cruz com quatro cravos, e não com três, como muitos imaginam, os quais nas pinturas representam Cristo, Nosso Senhor, pregado à Cruz com um pé sobre o outro. Gregório de Túrones10 diz claramente o contrário, e confirma sua opinião apelando para antigas gravuras. Eu, de minha parte, vi na Livraria Real, em Paris, alguns manuscritos muito antigos dos Evangelhos, os quais continham muitas gravuras de Cristo Crucificado e o representavam, todos, com quatro cravos. Santo Agostinho11 e São Gregório de Nissa12 dizem que o madeiro vertical da Cruz se projetava um pouco do madeiro horizontal. Parece que o Apóstolo insinua o mesmo, já que na Carta aos Efésios escreve São Paulo: “[para que] possais compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” 13. Isto é claramente uma descrição da figura da Cruz, que tinha quatro dimensões: largura na parte horizontal, comprimento na parte vertical, altura na parte que sobressaía e se projetava da parte horizontal, e profundidade na parte que estava fincada na terra. Nosso Senhor não padeceu os tormentos da Cruz por casualidade, ou contra a sua vontade, pois Ele escolhera este tipo de morte desde toda a eternidade, como ensina Santo Agostinho14 pelo testemunho do Apóstolo: “[A Jesus Nazareno, depois de Ele,] por determinado conselho e presciência de Deus, vos ser entregue, crucificando-o por mãos de iníquos, vós o matastes” 15. E assim Cristo, já no princípio de sua pregação, disse a Nicodemo: “E como Moisés levantou no deserto a serpente, assim também importa que seja levantado o Filho do homem, a fim de que todo o que crê n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna” 16. Muitas vezes falou aos Apóstolos acerca de sua Cruz, estimulando-os a imitar a Ele: “Se algum quer vir após de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” 17. Só Nosso Senhor sabe a razão que o levou a escolher este tipo de morte. Os santos Padres, todavia, pensaram em algumas razões místicas, e deixaram-nas para nós em seus escritos. Santo Irineu, no trabalho a que já nos referimos, diz que as palavras “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus” foram escritas naquela parte da Cruz onde ambos os braços se encontram para nos dar a entender que as duas nações, Judeus e Gentios, que até então se tinham rechaçado mutuamente, depois foram unidas em um só corpo sob uma só Cabeça: Cristo. São Gregório de Nissa, em seu sermão acerca da Ressurreição, diz que a parte da Cruz que olhava para o céu manifesta que o céu se há de abrir pela Cruz como por uma chave; que a parte que estava fincada na terra manifesta que o inferno foi despojado por Cristo quando Nosso Senhor desceu até ele; e que os dois braços da Cruz que se estendiam para o leste e o oeste manifestam a regeneração do mundo inteiro pelo Sangue de Cristo. São Jerônimo, na Epístola aos Efésios, Santo Agostinho18, na Epístola a Honorato, São Bernardo, no quinto livro da obra Acerca da Consideração, ensinam que o mistério principal da Cruz foi levemente tocado pelo Apóstolo nas palavras “qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade” 19. O significado primário destas palavras aponta para os atributos de Deus: a altura significa seu poder, a profundidade sua sabedoria, a largura sua bondade, o comprimento sua eternidade. Fazem referência também às virtudes de Cristo em sua Paixão: a largura sua caridade, o comprimento sua paciência, a altura sua obediência, a profundidade sua humildade. Significam, mais ainda, as virtudes necessárias àqueles que são salvos por meio de Cristo. A profundidade da Cruz significa a fé, a altura a esperança, a largura a caridade, o comprimento a perseverança. Disto deduzimos que só a caridade, a rainha das virtudes, encontra espaço em qualquer lugar, em Deus, em Cristo, e em nós. Das outras virtudes, algumas são próprias de Deus, outras de Cristo, e outras de nós. Em consequência, não é de maravilhar que em suas últimas palavras da Cruz, que agora vamos explicar, Cristo tenha dado o primeiro lugar a palavras de caridade. Começaremos, portanto, por explicar as primeiras três palavras, ditas por Cristo à hora sexta, antes que o sol se escurecesse e as trevas cobrissem a terra. Consideraremos depois este eclipse do sol, e por fim chegaremos à explicação de todas as demais palavras de Nosso Senhor, que foram ditas por volta da hora nona20, quando a escuridão estava desaparecendo e a Morte de Cristo estava próxima.
1. Lc 18,31.
2. Lc 6,12.
3. Mt 8; Mc 4; Lc 6; Jn 6.
4. Jo 8.
5. Lc 4.
6. Lc 23,48.
7. Hb 5,7.
8. Em Dial. cum Thyphon, liv. v.
9. Advers. haeres. Valent.
10. Lib. de Gloria Martyr., c. vi.
11. Epist i.
12. Serm. i “De Ressur.”
13. Ef 3,18.
14. Epist. 120.
15. Atos 2,23.
16. Jo 3,14-15.
17. Mt 16,24.
18. Epist. 120.
19. Ef 3,18.
20. Mt 27.

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