As dez lições do Papa Francisco

A visita do religioso ao Brasil foi marcada por diversos ensinamentos

Papa Francisco teve o sorriso como uma de suas marcas registradas; com o gesto, revelou e pediu alegria

Mais do que o sorriso, o abraço acolhedor, o olhar firme e os discursos, o que marcou a visita do papa Francisco ao Brasil foram os seus ensinamentos. Lições, como pontuam teólogos e religiosos, pautadas no exemplo. “Ele fala com ações, como prega o Evangelho”, observou dom frei Rubens Sevilha, bispo auxiliar de Vitória.

O papa chegou ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), carregando sua própria mala. Também foi embora levando-a ele próprio, seis dias depois. Há muito já havia abdicado da casa, dos trajes e dos adereços suntuosos. Andou em um carro simples e não se furtou em estar próximo do povo. Abraçou, acolheu. “O primeiro grande discurso do papa Francisco é ele mesmo. A própria pessoa dele está sendo o sermão”, observou dom Sevilha.

O sumo pontífice chamou a atenção para valores que andam meio esquecidos – família, respeito, amor ao próximo, inclusão social – e convocou autoridades e povo a serem mais solidários. “Não se cansem de trabalhar por um mundo mais justo”, declarou.

Com a experiência dos seus 76 anos, o papa lembrou aos jovens que não devem desanimar nem perder a confiança. Ao mesmo tempo destacou que, apesar de viverem em uma sociedade que valoriza o momento, a juventude deve se manter fiel a seus valores. “Nadem contra a maré. Tenham a coragem de ser felizes”, disse.

Veja as lições deixadas pelo Papa

1. Alegria
Foi com um enorme sorriso que o papa Francisco surgiu ao sair do avião, em solo brasileiro, no último dia 22. E o sorriso se repetiu em cada canto que o pontífice visitou. Na missa celebrada no Santuário Nacional de Aparecida (SP), o papa foi explícito em seu pedido, por uma vida mais alegre: “Conservar a esperança, deixar-se surpreender por Deus e viver na alegria.”

2. Esperança … e por falar em esperança: ela também ficou evidente em vários discursos do sumo pontífice. Em um hospital com ala de recuperação de usuários de drogas, ele afirmou: “Ninguém pode fazer a subida no seu lugar. Olhem para a frente com confiança, a travessia é longa e cansativa, mas olhem para a frente. Nunca percamos a esperança. Deus é nossa esperança.”

3. Solidariedade
Para o Papa, este é um exemplo que pode ser dado pelos mais simples. E fez apelo por justiça social: “Não se cansem de trabalhar por um mundo mais justo e mais solidário.” Convocou a todos a saírem de seus guetos, destaca padre Anderson Gomes, lembrando os que estão sendo excluídos de uma sociedade pautada em valores econômicos: os jovens e os idosos.

4. Simplicidade … a começar pelo seu nome, Francisco. “Revela um compromisso com a humildade”, pontua o teólogo Edebrande Cavalieri. O papa usa roupas e carros simples, carrega sua mala (foto), divide uma casa com outros bispos. Não dá valor ao poder, à riqueza, a bens provisórios. Quer a Igreja sem ostentação, sem os “príncipes da fé”. “Ele está no auge, é papa, mas para ele isso não é nada”, resume padre Anderson Gomes.

5. Proximidade
Papa Francisco quer a Igreja mais próxima de seus fiéis. Quer uma igreja que atinja a todos dentro de suas próprias culturas, respeitando a diversidade. Ele insiste que os sacerdotes deixem a sacristia e tomem as ruas, dando especial atenção às periferias – não só das cidades, mas também aos segmentos marginalizados da sociedade. “O que leva a mudar os corações dos cristãos é justamente a missionariedade”, declarou. E ele mesmo foi exemplo. Quebrou protocolos para estar junto daqueles que tanto o aguardaram. Nunca um papa foi tão beijado e (calorosamente) abraçado. Acolheu e foi acolhido.

6. Coragem
O Papa não tem medo. Optou por um papamóvel sem vidros para estar próximo do povo. “Ninguém morre de véspera”, afirmou Francisco. Mas, acima de tudo, não tem medo da mudança, de romper estruturas, de dizer o que pensa e de lutar pelo que acredita. Exemplo disso foram as críticas feitas à instituição, que chamou de “atrasada” e com “estruturas caducas”. Foi assim que convocou os jovens a serem revolucionários, a “terem a coragem de serem felizes”.

7. Diálogo
A “cultura do encontro” também foi defendida pelo papa Francisco em sua visita ao Brasil. Ele afirmou que, “entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo”. “O diálogo entre as gerações, o diálogo com o povo, a capacidade de dar e receber, permanecendo abertos à verdade”, afirmou Francisco. E completou: “Quando os líderes me pedem um conselho, a minha resposta é a mesma: diálogo, diálogo, diálogo”.

8. Valores
Valores que andam, muitas vezes, esquecidos na sociedade de hoje foram destacados durante as homilias e os discursos do líder da Igreja Católica: família, casamento, solidariedade, inclusão social, respeito ao próximo, fraternidade, honestidade. O papa Francisco chegou a perguntar aos fiéis, durante encontro com os 15 mil voluntários da JMJ: “Casamento saiu de moda?”. Recebeu de volta a resposta, em coro: “Não”.

9. Transparência
O Papa não foge de temas desfavoráveis à Igreja Católica, tais como pedofilia, a homossexualidade, os desvios ocorridos no banco do Vaticano. Um exemplo de honestidade e franqueza que deve ser seguido por todos. “Ele deixa claro que esta é uma virtude que o ser humano deve buscar”, assinala padre Anderson Gomes.

10. Espiritualidade
Além dos gestos concretos, Francisco fez questão de mostrar a importância da espiritualidade em sua vida ao ir até o Santuário de Nacional de Aparecida (SP) e rezar, sozinho, diante da imagem de Nossa Senhora. Lá encontrou-se com judeus, muçulmanos e evangélicos. E, em quase todos os lugares a que foi, pediu, com humildade: “Rezem por mim. Necessito”.

 

DEZ LIÇÕES DE VIDA DO PAPA FRANCISCO

01 – Seja desapegado.

02 –  Honestidade, bondade, verdade.

03 – Relacionar-se com várias pessoas, não só no conforto familiar.

04 – Misturar-se com o povo esclarece e humaniza.

05 – Seja inserido em grupos de trabalho, de lazer, da igreja, com discrição.

06 – Conviva com profissionais de outras áreas, de outras religiões, de outros grupos.

07 – Priorize a proximidade entre seus membros.

08 – Renuncie a ser conhecido pelos títulos que possui.

09 – Todo mundo peca, até o Papa peca”, seja mais compassivo consigo mesmo.

10 – A amizade é uma relação transformadora, de profundo engajamento que requer atenção e doação.

 

AS DEZ LIÇÕES DE LIDERANÇA DO PAPA FRANCISCO
Conheça o modelo de gestão do pontífice, que inspira e atrai seguidores  

Transparente, generoso, disponível e, principalmente, carismático. Na avaliação de especialistas em gestão, ouvidos por Época NEGÓCIOS, o papa Francisco é o líder certo, na hora certa. Ao menos para a Igreja Católica, instituição que tenta reverter uma imagem de organização arcaica e que lida com a notória perda de fiéis em todo o mundo – dados do último Censo mostram que, apenas no Brasil, a Igreja perdeu 465 fiéis por dia entre os anos 2000 e 2010.

Daniela Simi, diretora do Hay Group, pondera: é preciso lembrar que o papel de líder não se restringe ao de ser carismático. “Não se pode pressupor que, para ser líder, tem que ter carisma. Você pode ser generoso, estar próximo e disponível, ser transparente e não necessariamente ser carismático.”

Para Van Marchetti, diretora da Attitude Plan, carisma em excesso pode até mesmo ser um problema. “O líder que é visto só como bonzinho perde autoridade. Quando se vive um momento que exige grandes mudanças, é preciso ser firme. Ele, ao que me parece, consegue fazer esse contrapeso.”

Na avaliação de Homero Reis, coach ontológico e sócio-diretor da Homero Reis e Consultores, os desafios do Papa Francisco à frente da Igreja são semelhantes aos desafios enfrentados por muitas corporações e líderes ao longo da história. “Não vivemos em mundos perfeitos, vivemos em mundos possíveis. O papel do líder não é viver a perfeição, mas viver a possibilidade. O que dá pra fazer dentro dessa instituição? Não dá pra fazer tudo, mas alguns resultados, com certeza ele conseguirá atingir.”

Abaixo, listamos os principais pontos no perfil de liderança do Papa Francisco, destacados pelos especialistas.

Transparência  
Homossexualismo, mau uso do dinheiro, ostentação, perda de fiéis. Em passagem pelo Brasil, o papa Francisco falou dos temas mais espinhosos para a Igreja. No mundo corporativo, gestor que não tem transparência, perde credibilidade.

Generosidade  
Mesmo sob os holofotes, Francisco se colocou em posição de igualdade perante os fiéis que se aproximavam. Está com os dias contados o líder que quer aparecer sozinho, não dá espaço para seus liderados se destacarem e faz de tudo para não perder recursos para outras áreas.

Participação
Como gestor, o papa Francisco não se restringe a fazer o trabalho de gabinete. Ele vai às ruas e coloca a mão na massa. Líder que também executa vira exemplo positivo e sabe cobrar melhor.

Proximidade
Descer de um automóvel em plena carreata e parar para conversar com fiéis. Essas foram cenas que se repetiram na visita do papa Francisco. Ao gestor, não basta dizer que mantém suas portas abertas. É preciso estar realmente disponível. Mais ainda, é preciso demonstrar interesse pela equipe.

Coerência
Usar um carro popular em sua aparição oficial, adotar a simplicidade em sua hospedagem, no modo de se vestir etc. As atitudes do papa casam perfeitamente com seu discurso contra a ostentação e a busca desenfreada por bens materiais.

Objetividade  
A mesma simplicidade das atitudes do papa Francisco pode ser observada em seu discurso. Palavras fáceis, mensagens diretas, uso de metáforas e foco na solução.

Motivação
Como líder, o papa trabalha o lado emocional das pessoas. Dessa maneira, eleva o entusiasmo dos fiéis, gera a percepção de que todos fazem parte de algo maior e angaria a confiança do público.

Referência
A imagem de integridade moral que o papa Francisco transmite tem capacidade de criar seguidores. No papel de líder, ele se transforma em uma referência a ser seguida.

Inspiração
Quando um líder inspira sua equipe, propicia a geração de mudança, cria um ambiente favorável a transformações. E essa é uma mudança que não é outorgada, mas que acontece de dentro para fora.

Autocracia  
Se em suas aparições públicas o papa Francisco transmite uma imagem de bonzinho, nos bastidores, é um líder assertivo. No Vaticano, ao assumir, cortou equipe e trabalha apenas com quem confia. Investigou as pessoas mais próximas, tem metas e objetivos claros, determinou papéis e cobra resultados. Em um momento tenso, que exige uma grande mudança, ser firme é necessário.

(Fontes: Daniela Simi, diretora do Hay Group; Homero Reis, coach ontológico e sócio-diretor da Homero Reis e Consultores e Van Marchetti, diretora da Attitude Plan.)

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